Biografia dos Santos

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Biografia de Santa Teresa dos Andes


TERESA DE JESUS DOS ANDES  (1900-1920)

Virgem
Carmelitana Descalça


A jovem que hoje a Igreja glorifica com o titulo de Santa é um profeta de Deus para os homens e mulheres do nosso tempo. Teresa de Jesus dos Andes  põe-nos diante dos olhos o testemunho vivo do Evangelho, encarnado até às últimas exigências na sua própria vida. Ela é, para a humanidade, prova indiscutível de que a chamada de Cristo à santidade é actual, possível e verdadeira. Ela ergue-se diante de nós para demonstrar que a radicalidade do seguimento de Cristo é o único que vale a pena e o único capaz de fazer-nos felizes. Teresa dos Andes, com a eloquência duma vida intensamente vivida, confirma-nos que Deus existe, que Deus é amor e alegria, que é a nossa plenitude.

Nasceu em Santiago do Chile a 13 de Julho de 1900. No Baptismo foi-lhe dado o nome de Joana Henriqueta Josefina dos Sagrados Corações Fernández Solar. Familiarmente era conhecida, e é-o ainda hoje, pelo nome de Juanita.Viveu uma infância normal no seio da família: os pais, Miguel Fernández e Lucia Solar; três irmãos e duas irmãs; o avô materno, tios, tias e primos.A família gozava de boa posição económica e guardava fielmente a fé cristã que vivia com sinceridade e constância.

Joana recebeu a sua formação escolar no colégio das Irmãs francesas do Sagrado Coração. Uma curta e intensa história passada entre a família e o colégio. Aos catorze anos, movida por Deus, já ela se decidiu a consagrar-se a Ele como religiosa, em concreto, como carmelita descalça.Este seu desejo veio a realizar-se a 7 de Maio de 1919, quando entrou no pequeno mosteiro do Espírito Santo na povoação de Los Andes, a cerca de 90 kms de Santiago.

Vestiu o hábito de carmelita no dia 14 de Outubro desse mesmo ano, iniciando assim o noviciado com o nome de Teresa de Jesus.Tinha intuído, havia muito, que morreria jovem. Melhor, o Senhor tinha-lho revelado, como comunicou ao confessor um mês antes da sua partida para Ele.Assumiu este anúncio com alegria, serenidade e confiança, certa de que na eternidade continuaria a sua missão de fazer conhecer e amar a Deus.

Após muitas tribulações interiores e indizíveis padecimentos fisicos, causados por um violento ataque de tifo que lhe consumiu a vida, passou deste mundo para o Pai no entardecer do dia 12 de Abril de 1920. Tinha recebido com sumo fervor os santos sacramentos da Igreja e no dia 7 de Abril fez a profissão religiosa em artigo de morte. Faltavam-lhe ainda três meses para completar os 20 anos de idade e 6 para terminar o noviciado canónico e poder emitir juridicamente os votos religiosos. Morreu, portanto, sendo noviça carmelita descalça.

Esta é a trajectória externa desta jovem chilena de Santiago. Desconcerta e desperta em nós uma grande interrogação: Mas, que fez ela de importante? Para tal pergunta, uma resposta igualmente desconcertante: viver, crer, amar.Quando os discípulos perguntaram a Jesus sobre o que deviam fazer para cumprir as obras de Deus, Ele respondeu: ” A obra de Deus é que acrediteis n’Aquele que Ele enviou ” (Jo. 6, 28-29). Portanto, para aperceber-nos do valor da vida de “Juanita”, é necessário assomar-nos ao seu interior, ali onde o Reino de Deus está.

Ela abriu-se à vida da graça desde mui tenra idade. E ela mesma que nos assegura que aos 6 anos, movida pelo Senhor, conseguiu centrar n’Ele toda a riqueza da sua afectividade. “Quando se deu o terramoto de 1906, pouco depois, Jesus começou a apoderar-se do meu coração” (Diario, n. 3, p. 26). Juanita aliava uma enorme capacidade de amar e de ser amada a uma extraordinária inteligência. Deus fê-la experimentar a sua presença, cativou-a dando-se-lhe a conhecer e fê-la totalmente d’Ele, unindo-a ao sacrifício da cruz. Conhecendo-O, amou-O; e amando-O, entregou-se radicalmente a Ele.

Tinha compreendido, já desde pequena, que o amor se mostra mais com obras que com palavras. Por isso traduziu-o em todos os actos da própria vida, desde a sua motivação mais profunda. Olhou-se a si mesma de frente com olhos sinceros e sábios e compreendeu que, para ser de Deus, era necessário morrer para si mesma e para tudo o que não fosse Ele. Por natureza era totalmente adversa às exigências do Evangelho: orgulhosa, egoísta, teimosa, com todos os defeitos que isto supõe. Como nos acontece a todos. Mas o que ela fez de diferente foi não esmorecer nunca na luta encarniçada contra todo o impulso não nascido do amor.

Aos 10 anos era uma nova pessoa. Motivava-a o sacramento da Eucaristia que ia receber. Compreendeu que era Deus que ia morar dentro dela; e isso fê-la empenhar todo o esforço em ornar-se das virtudes que a fizessem menos indigna desta graça e conseguiu, em pouquíssimo tempo, transformar por completo o seu carácter.Na celebração deste Sacramento recebeu de Deus graças místicas de falas interiores que persistiram ao longo de toda a vida. Desde então, a inclinação natural para Deus transformou-se nela em amizade, em vida de oração.

Quatro anos mais tarde recebeu interiormente a revelação que iria orientar definitivamente toda a sua vida: Jesus Cristo disse-lhe que a queria carmelita e que a sua meta tinha de ser a santidade.Com abundante graça de Deus e a generosidade duma jovem apaixonada, entregou-se à oração, à aquisição das virtudes e à prática da vida segundo o Evangelho, de tal modo que em breves anos foi elevada a alto grau de união com Deus.

Cristo foi o seu ideal, o seu único ideal. Enamorou-se d’Ele e foi consequente até crucificar-se em cada momento por Ele. Invadiu-a O amor esponsal e, por isso, o desejo de unir-se plenamente a Quem a havia cativado. Assim, aos 15 anos fez voto de virgindade por nove dias, que renovou depois continuamente. A santidade da sua vida resplandeceu nos actos ordinários de cada dia em qualquer ambiente onde viveu: a família, o colégio, as amigas, os vizinhos com quem passava parte das suas férias e a quem, com zelo apostólico, catequizou e ajudou. Sendo jovem igual a todas as suas amigas, estas reconheciam-na diferente. Tomaram-na por modelo, apoio e conselheira. Juanita sofreu e gozou intensamente em Deus as penas e alegrias comuns a todas as pessoas.

Jovial, alegre, simpática, atraente, desportista, comunicativa. Adolescente ainda, alcançou perfeito equilíbrio psicológico e espiritual, como fruto de ascese e oração. A serenidade do seu rosto era o reflexo do Deus que nela vivia. A sua vida no convento, de 7 de Maio de 1919 até à morte, foi o último degrau da sua ascensão ao cume da santidade. Nada mais que onze meses bastaram para consumar uma vida totalmente cristificada.

Bem depressa a Comunidade descobriu nela a passagem de Deus na sua própria história. No estilo de vida carmelitano-teresiano, a jovem encontrou plenamente o espaço por onde derramar, com a maior eficácia, a torrente de vida que ela queria oferecer à Igreja de Cristo. Era o mesmo estilo de vida que, a seu modo, vivera na família e a que se sentia chamada. A Ordem da Virgem Maria do Monte Carmelo culminou os desejos de Juanita ao comprovar que a Mãe de Deus, a quem amou desde pequena, a tinha atraído para pertencer-lhe.

Foi beatificada em Santiago do Chile por Sua Santidade o Papa João Paulo II, no dia 3 de Abril de 1987. Os seus restos são venerados no Santuário de Auco-Rinconada dos Andes por milhares de peregrinos que buscam e encontram nela a consolação, a luz, e o caminho recto para Deus.

Santa Teresa de Jesus nos Andres é a primeira Santa chilena, a primeira Santa carmelita descalça de além fronteiras da Europa e a quarta Santa Teresa do Carmelo, depois das Santas Teresas de Avila, de Florença e de Lisieux.

Fonte: http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_19930321_teresa-de-jesus_po.html

Introdução

Emociona o carinho e a ternura que transparecem nas cartas a seu pai, obrigado por negócios a viver muito tempo longe da família. É uma surpresa agradável ouvi-la ponderar a felicidade contagiante que desfruta. (p.11)

Já antes de entrar no convento deseja que toda a sua existência seja uma oração ininterrupta. Em todos os lugares, mesmo nos passeios e festas, ela está com Deus.  (p.13)

A família

“Nasci em 1900, no dia 13 de julho. Mamãe se chama Lucia Solar de Fernández: papai Miguel Fernandez Jara…”(p.34)

“Jesus não quis que nascesse como Ele, pobre. E nasci em meio às riquezas, mimada por todos. Eu era a quarta. A primeira se chamava Lucía, que tinha 7 anos; Miguel, o segundo, 6, e Lucho, o terceiro, tinha 3 anos…Pouco depois nasceu Rebeca, com um ano e oito meses, de diferença comigo. “(p.34)

“Desde pequena me diziam que eu era a mais bonita de méis irmãos, e eu não dava conta disso..Só Deus sabe o que me custou afastar esse orgulho…porém tinha um caráter sumamente suave: jamais me zangava com alguém.” (p.34-35)

Aos 7 anos de idade

“Lembro que minha mãe e minha tia Juanita nos levavam à missa e sempre explicavam tudo; …Lembro que mamãe e minha tia Juanita me sentavam na mesa e me perguntavam sobre a Eucaristia…Aos 7 anos me confessei. Nos preparam as Monjas. (p.35)

Desde essa época Nosso Senhor me mostrou o sofrimento. Papai perdeu uma parte da fortuna. Assim, tivemos de viver mais modestamente. (p.38)

A verdade é que Miguel Fernandez,…não soube administrar seus bens, e a família…o olhava com imensa compaixão…Miguel, para evitar… problemas, passava grandes temporadas longe da família, nas terras, próprias ou arrendadas, que cultivava. (p.88)

A Primeira Comunhão

O coração de Juanita sente uma terna devoção à Santíssima Virgem. Promete-lhe rezar todos os dias o santo rosário. Cumprirá fielmente esta promessa durante toda a vida. Começa a assistir com sua mãe, à missa todos os dias e, não podendo comungar como deseja e solicita, começa a preparar-se para a primeira comunhão, conseguindo modificar seu caráter… 11 de Setembro: recebe das mãos de Mons. Angel Jara sua primeira comunhão na capela do colégio. “Dia sem nuvens”, que a marcou definitivamente. (p.24)

“O dia de minha Primeira Comunhão foi um dia sem nuvens para mim. Fiz confissão geral. Lembro-me: depois que saí colocaram-me um véu branco. Ah! Lembro-me da impressão de meu paizinho. Fui pedir-lhe perdão e me beijou. Então me ajoelhei e, chorando, lhe disse que me perdoasse todas as penas que lhe havia dado com minha conduta. E meu paizinho verteu lágrimas, levantou-me e me beijava, dizendo que não tinha por que pedir perdão, porque nunca o havia desgostado, e que estava muito contente vendo-me tão boa. Ah! Sim, paizinho, porque vós éreis demasiado indulgente e bondoso para comigo. Pedi perdão a mamãe, que chorava. A todos meus irmãos e, por último, a minha mãezinha e aos outros empregados. Todos me respondiam comovidos.”(p.39)

“…Chegou por fim o momento. Fizemos nossa entrada na capela de dois em dois…Não é possível descrever o que passou por minha alma com Jesus. Pedi-lhe mil vezes que me levasse, e sentia sua voz querida pela primeira vez. “Ah, Jesus, eu te amo; eu te adoro!” Pedia-lhe por todos. E sentia a Virgem perto de mim. Oh, quanto se abre o coração! E pela primeira vez senti uma paz deliciosa. Depois da ação de graças, fomos ao pátio repartir coisas com os pobres e abraçar cada uma a sua família…Todos os dias comungava e falava com Jesus longos momentos. Porém, minha devoção especial era a Virgem. Contava-lhe tudo. Desde esse dia a terra para mim não tinha atrativo. Eu queria morrer e pedia a Jesus que em 8 de dezembro me levasse.”(p.40)

Enfermidade no dia 8 de dezembro

8 de dezembro: de 1911 a 1914, sempre no dia da Imaculada, esteve às portas da morte por diversas enfermidades. (p.24)

“Todos os anos, eu estava doente em 8 de dezembro; tanto que acreditavam que morreria. Aos 12 anos, tive difteria. Em 8 de dezembro estive à morte. Minha mãe acreditou que morreria, porque uma tia minha morreu disso e eu a tinha pior que ela….Em 1913, tive uma febre espantosa. Neste tempo, Nosso Senhor me chamava para Si, porém eu não fazia caso de sua voz. E então, no ano passado, me enviou apendicite, o que me fez ouvir sua voz querida que me chamava para fazer-me esposa mais tarde no Carmelo. (p.40-41)

Minha devoção à Virgem era muito grande. Um dia, eu que sofria muito por uma coisa, contei-a à Virgem e roguei pela conversão de um pecador. Então ela me respondeu. Desde então, a Virgem, quando a chamo, me fala. (p.41)

Um dia estava só em meu quarto, e com a doença me havia tornado tão mimada que não podia estar só…Meus olhos cheios de lágrimas se fixaram em um quadro do Sagrado Coração e senti uma voz muito doce que me dizia: “Como! Juanita, eu sozinho no altar, por teu amor, e tu não agüentas um momento?” Desde então Jesusinho me fala. E eu passava horas inteiras conversando com Ele. Assim me agradava estar só. Foi me ensinando como devia sofrer e não me queixar…Então disse que me queria para Ele. Que queria que fosse carmelita…Ah! Madre, não se pode imaginar o que Jesus fazia em minha alma. Eu, nesse tempo, não vivia em mim. Era Jesus que vivia em mim. (p.41-42)

Minhas dores e a doença iam ficando cada dia piores. Em 8 de dezembro eu me senti morrer. Desde esse dia caí de cama de vez, para levantar-me operada. Mamãe começou uma novena de Terezinha do Menino Jesus (carmelita) porque sou muito devota dela…Ao meio-dia tive um mal estar, e pensaram que ia morrer; porém, Nosso Senhor quis conservar-me. Oh, quem bom é Deus comigo! (p.42)

Resolveram operar-me. Levaram-me ao pensionato de São Vicente segunda-feira, dia 28. Só Deus sabe o que sofri…Ignacito entrava em meu quarto com os olhinhos cheios de lágrimas, porém apenas me via secava as lágrimas e se punha a brincar. Não o vi chorar nem um instante, coisa admirável em um menino que acabava de completar 4 anos.(p.42)

Comunguei às cinco da manhã. Que Comunhão! Acreditava que a última. Pedi a Nosso Senhor com toda a minha alma que me desse coragem e serenidade. Que teria sido de mim sem o auxílio de Jesus? Oh, Jesus dulcíssimo, eu te amo! (p.43)

Não posso dizer quão boas eram as madres comigo. Ia acompanhar-me sempre que podia. Punha-me flores no quarto para que ficasse alegre. (p.42)

Eu tomei minha Virgem, abracei-me com meu crucifixo, os beijei e lhes disse: “Logo contemplarei face a face. Adeus”…Quando cheguei ao centro alguns serventes levaram-me degraus acima. Então Lucía e Rebeca me disseram adeus…Esse adeus foi para mim como um dardo que despedaçou meu coração e vieram-me as lágrimas. Mas eu não havia prometido a Jesus não chorar? Então, fazendo um esforço sequei as lágrimas e lhes disse adeus. (p.43)

Chegaram os médicos…Antes que me pusessem o clorofórmio beijei minha  medalha e me meti no Coração de Jesus dizendo adeus ao mundo. Meu pai e minha tia Juanita deviam assistir; porém, meu pai não teve coragem. Quando despertei, tinha a cabeça zonza…a dor era terrível, e o clorofórmio me causou terríveis efeitos, mas assim lembrava de oferecê-los a Nosso Senhor…Um médico, o do pensionato, mandou-me orquídeas, que é uma flor sumamente cara. Era a primeira vez que me mandavam flores, e eu as mandei para Jesus. Custou-me muito este sacrifício, porém o fiz. (p.44)

Aos 15 anos de idade

13 de julho. Hoje completo 15 anos…Porém eu penso: quinze anos, por quinze anos Deus tem me conservado a vida…15 anos para uma menina é a idade mais perigosa, é a entrada no mar tempestuoso do mundo. Mas eu, que tenho quinze anos, Jesus tomou o comando de minha barquinha e a retirou do encontro de outras barcas.  Manteve-me solitária com Ele…Sempre sinto essa voz querida, que é a de meu Amado, a voz de Jesus no fundo de minha alma; em minhas aflições, em minhas tentações, Ele é meu Consolador, Ele é meu Capitão. Conduz-me sempre, Jesus meu, pelo caminho da Cruz. E levantará vôo minha alma, até onde se encontra o ar que vivifica e a quietude. (p.46)

Quinta- feira, 2 de setembro de 1915. Hoje faz um mês e dois dias que nos disseram que seríamos internas. Creio que jamais me acostumarei a viver longe de minha família: meu pai, minha mãe, esses seres que quero tanto…Ah, se soubessem como sofro, se compadeceriam! Sem dúvida, devo consolar-me. Acaso viverei toda vida sem separar-me deles? Porém, a voz de Deus manda mais e eu devo seguir Jesus ao fim do mundo se Ele o quer. N´Ele encontro tudo. Só Ele ocupa meu pensamento. E tudo o mais, fora d´Ele, é sombra, aflição e vaidade. Por Ele deixarei tudo para ir me ocultar atrás das grades do Carmelo, se é Sua Vontade e, viver só para Ele. Que felicidade…É o Céu na terra. (p.47-48)

A vocação carmelita

..Onde será o lugar em que celebraremos nossos esponsais e o lugar onde viveremos unidos? Falou-me: o Carmelo. Porém,…sem esperança me retiro triste e desolada. Vejo que meu corpo não resistirá e todos os que estão a par me repetem: é muito austera essa Ordem, e tu és muito delicada. Porém, tu, Jesus, és meu Amigo e, como tal, me proporcionas consolo. Quando saí de casa durante o dia, me encontrei com a Madre Superiora do Carmelo; sem conhecer-me, havia me enviado um retrato de Teresinha do Menino Jesus, por mamãe, o que me proporcionou muito prazer. Encomendar-me-ei a Teresinha para que me sare e possa ser carmelita. Porém, só quero que se cumpra a vontade de Deus. Ele sabe melhor o que me convém. Oh, Jesus, te amo; te adoro com toda a minha alma! (p.48)

Domingo estarei sozinha com Madre Ríos. …penso contar-lhe toda a mudança que se operou em mim desde a cirurgia; minha vocação para carmelita, enfim, tudo. Não sei como farei isso, pois me custa muito expressar tudo o que me passa. (p.49)

Domingo…tenho muito que contar, e sobretudo dar muitas graças a Jesus porque me concedeu ver Madre Ríos e dizer-lhe quase tudo…Disse-me que, mesmo não sendo pecado, eu me assegurasse de que quem me elegia era o Rei dos céus e da terra. Perguntou quem era eu para brincar assim. Não era acaso uma vil e miserável criatura? …Que me assegurasse de que não era por um dia, nem por toda a vida, mas para toda a eternidade. Que o amor humano extingue, porém o Divino abraça tudo…Madre Ríos me disse que rezaria muito por mim e minha saúde, e que só pensasse que ia ser a esposa de Jesus. Recomendou-me ler a vida de Santa Teresa e de Teresinha do Menino Jesus. Eu lhe disse que a havia lido várias vezes e tido muito proveito, pois sua alma tem alguns pontos parecidos com a minha. (p.50-51)

Carta a irmã Rebeca

Vou ser carmelita, que te parece? Não quisera ter em minha alma nenhuma dobra escondida para ti. Porém, tu sabes que não posso dizer-te tudo o que sinto e por isso resolvi fazê-lo por escrito. Entreguei-me a Ele. Em 8 de dezembro me comprometi. Tudo o que quero me é impossível dizê-lo. Meu pensamento não se ocupa senão d´Ele. É meu ideal infinito. Suspiro pelo dia de ir ao Carmelo para não me ocupar-me senão d´Ele, para confundir-me n´Ele e para não viver senão a vida d´Ele: amar e sofrer para salvar as almas. Sim, estou sedenta delas porque sei que é o que mais quer meu Jesus. Oh, o amo tanto!  Quisera inflamar nesse amor. Que felicidade a minha se pudesse dar-te a Ele! Oh, nunca tenho necessidade de nada, porque em Jesus encontro tudo que busco! Ele jamais me abandona. Jamais diminui seu amor. É tão puro! É tão belo! É a própria bondade. Pede-lhe por mim, Rebequita. Necessito de orações. Vejo que minha vocação é muito grande: salvar almas, dar operários à Vinha de Cristo. Todos os sacrifícios que façamos são poucos em comparação com o valor de uma alma. Deus entregou sua vida por elas, e nós quanto descuidamos de sua salvação!…E qual o meio de ganhar almas? A oração, a mortificação e o sofrimento. (p.55-56)

Sofrer com alegria

A ti, Jesus meu, ofereço este sofrimento; pois quero sofrer para parecer-me contigo, Jesus, amor meu…Hoje, desde que levantei estou muito triste. Parece que de repente me parte o coração. Jesus disse-me que queria que sofresse com alegria. Isso custa tanto, porém basta que Ele o peça para que eu procure fazê-lo. Agrada-me o sofrimento por duas razões:

1.Porque Jesus sempre preferiu o sofrimento, desde o seu nascimento até morrer na Cruz. Logo, há de ser algo muito grande para que o Todo-Poderoso busque em tudo o sofrimento.

2.Agrada-me porque no crisol da dor se lavram as almas. E porque Jesus, para as almas que mais quer, envia este presente que tanto agradou a Ele.

Disse-me que Ele havia subido ao Calvário e deitado na Cruz com alegria pela salvação dos homens. “Acaso não és tu que me buscas e que queres parecer comigo? Então vem comigo e toma a Cruz com amor e alegria”. (p.52-53)

A amizade com Nossa Senhora

Meu espelho há de ser Maria. Como sou sua filha, devo parecer-me com Ela e assim serei semelhante a Jesus…(p.53)

Mãe querida,…escrevo-Te para desafogar meu coração despedaçado pela dor. Não quero que juntes seus pedaços, Mãe de minha alma, mas que dele escorra, que destile um pouco de sangue. A dor afoga-me, minha Mãe. Sofro porém estou feliz sofrendo. Tirei da Cruz meu Jesus. Ele descansa. Que maior felicidade para mim?…Mãe minha, mostra que é minha Mãe. Ouve o grito de minha alma pecadora arrependida, que sofre e leva até o fim o cálice da dor; mas não importa. Aflige-me, porém só quero a Jesus. Quero que Ele seja o dono de meu coração. Diz-lhe que o amor e que o adoro. Diz-lhe que quero sofrer, que quero morrer de amor e sofrimento. Que não importa o mundo, mas somente Ele. Sim, Mãe. Estou só. Uno-me a tua solidão. Consola-me, alenta-me, aconselha-me, acompanha-me e abençoa-me. (p.53)

Quanto amo minha Mãe! Quanto ela me ama! Hoje é o dia de seu Coração Imaculado. Falaram ternamente d`Ela no sermão. Cheguei a chorar depois, de tanto que a amava. (p.80)

“Minha Mãe, sê tu minha mãe. Lembra-te de que me dei a Ti. Guarda-me pura, virgem, em teu Coração Imaculado. Que ele seja meu refúgio…Ponho-me eu teus braços maternais para que Tu me coloques nos braços de Jesus. Abandono-me a Ele. Que se faça sua santa vontade.” (p.93)

“Nosso Senhor me disse que meditasse sobre a pureza da Virgem. Ela, sem dizer-me nada, começou a falar. Eu não conheci sua voz e perguntei se era Jesus. Ela me respondeu que Nosso Senhor estava dentro de minha alma, porém que Ela me falava. Disse-me que escrevesse o que me dizia acerca da pureza.

1º Ser pura no pensamento: quer dizer, que rechaçasse todo pensamento que não fosse de Deus, para que assim vivesse constantemente em sua presença. Para isso devia procurar não ter afeto a nenhuma criatura.

2º Ser pura em meu desejos, de tal modo que só desejasse ser a cada dia mais de Deus; desejasse sua glória, ser santa e fazer minhas obras com perfeição. Para isto, não desejar nem honra nem louvores, mas desprezo, humilhação, pois assim agradava a Deus. Não desejar nem comer nem dormir senão para servir melhor a Deus.

3º Ser pura em minhas obras. Abster-me de tudo o que possa manchar-me, do que não seja admitido por Deus, que quer minha santificação; fazê-las por Deus o melhor que possa, não para que me vissem as criaturas. Evitar toda palavra que não seja dita por Deus, por sua glória. Que em minhas conversas sempre colocasse Deus. Que não olhasse nada sem necessidade, mas para contemplar a Deus em suas obras. Que imaginasse que Deus me olhava sempre…Que mortificasse o tato não tocando sem necessidade em mim mesma, nem em outra pessoa qualquer…(p.114)

O voto de castidade

Meu confessor me deu permissão para fazer voto de castidade por nove dias e depois ele indicará as datas. Sou feliz. Tenho minha fórmula escrita: “Hoje, 8 de dezembro de 1915, na idade de 15 anos, faço o voto diante da Santíssima Trindade e em presença da Virgem Maria e de todos os santos do Céu de não admitir outro Esposo senão a meu Senhor Jesus Cristo, a quem amo de todo coração e a quem quero servir até o último momento de minha vida. Feito na novena da Imaculada para ser renovado com a permissão de meu confessor”. (p.54)

Resoluções de vida aos 16 anos

1ª Aceitar os sacrifícios sem murmurar interiormente nem abater-me.

2ª Hei de eclipsar-me.

3ª Esmerar-me-ei m construir a felicidade dos demais.

4ª Procurarei fazer a virtude amável aos outros.

5ª Hei de esquecer-me de mim mesma:

1.unindo me a Jesus;

2.sendo caridosa com o próximo;

3.não dando minha opinião se não a pedem;

4.sofrendo com gozo as humilhações, sendo amável com as pessoas que as proporcionam;

5.vivendo com Jesus no fundo de minha alma, que há de ser a casinha onde Ele possa descansar. Ali o adorarei e lhe oferecerei as mortificações, sofrimentos e humilhações. (p.63-64)

Devo contemplar em minha alma a Jesus crucificado. Eu o imitarei e receberei ao pé da Cruz o sangue de meu Jesus, que guardarei em minha alma e que hei de comunicar às almas de meus próximos, para que, por meio de sangue de Cristo, sejam lavadas. (p.64)

Oferenda pelos pecadores

Meu Jesus, tu conheces a oferenda que te fiz de mim mesma pela conversão das pessoas cujo nome te dei. Desde hoje, não só te ofereço minha vida, mas também minha morte como te aprouver dá-la a mim. Eu a receberei com gosto, seja no abandono do Calvário, seja no Paraíso de Nazaré. Ademais, se queres, dá-me sofrimentos, cruz, humilhações. Que seja pisoteada para castigar meu orgulho e o deles. Como tu queiras, Jesus meu. Sou tua, faze de mim segundo tua santa vontade. A ti, oh, Maria, que jamais deixaste de escutar-me os rogos que te dirigi, como uma filha pede a sua mãe, também ponho em tuas mãos maternais essas almas. Ouve-me. Toda minha vida não deixei de pedir-te, minha Mãe. Escuta-me, rogo-te por Jesus e por teu Esposo São José a quem rogo interceda por esta pobre pecadora. (p.64)

Santa Teresa dos Andes busca de ter um coração paciente e humilde

Não tenho, ainda, bastante virtude. Abato-me rapidamente. Sem dúvida, sou mais humilde ou me humilho mais e tenho mais fé. Sem dúvida, outro dia as meninas portaram-se mal à mesa e eu me impacientei. Eu disse que não se importavam. Tive muita raiva, e ao ver as meninas chamei-as de antipáticas. Jesus teria agido assim?…É certo que me venci, mas depois contei minha raiva e no outro dia pedi perdão às meninas, para me humilhar. Essas quedas servem pra reconhecer que sou ainda muito imperfeita…

15 de junho de 1917. Fui confessar-me ontem. O Padre disse-me três coisas necessárias para não se impacientar:

1º Não manifestar a raiva exteriormente;

2º Ser amável com a pessoa que a proporciona;

3º Calar, abater a própria cólera em meu coração. (p.66)

19 de Junho de 1917. Hoje venci-me muito para não ter raiva. Meu Deus, Tu me ajudaste. Te dou graças. Nos arranjos e recreios fui perfeita por eles. Porém, não tanto nas aulas. (p.66)

Mortificação no ouvir

Estava estudando no horto e chegou Rebeca pra me dar um recado de Madre Ríos para ela e para mim. Eu, ainda que tivesse vontade, venci-me e lhe disse que não queria ouvir nada, que se fosse. Todo o dia a curiosidade me atiçou, até que na ceia nos contou. Ofereci este ato, que me custou muito, por eles. (p.67)

Mortificação no falar

Fixei-me em não dizer meu nome, em não falar de mim. É bastante custoso, porém o farei por Jesus, para consolá-lO. (p.68)

Só o amor de Deus permanece

Os corações dos homens amam um dia e no outro são indiferentes. Só Deus não muda. (p.668)

A caridade de Santa Teresa dos Andes

“Juntei trinta pesos durante o dia. Vou comprar sapatos para Juanito (1) e o resto darei a minha mãe para que tenha o que dar aos pobres. É tão enriquecedor dar-lhes! Dei meus sapatos à mãezinha de Juanito.”(p.70)

(1)Juanito era um menino muito pobre que ela sempre ajudou, inclusive com o dinheiro da “mesada”. Para obter fundos para isso, chegou a rifar seu relógio. Ao ingressar no Carmelo deixou-o recomendado aos seus e, do convento, em várias cartas, mostra preocupação por ele. (p.70)

Aniversário de Santa Teresa dos Andes (17 anos)

“Julho, 13. Hoje completei 17 anos; um ano a menos de vida. Um ano a menos distante da morte, da união eterna com Deus. Um ano somente para chegar ao porto do Carmelo…(p.72)

A alegria de conhecer a vida de Isabel de Trindade

Estou lendo Isabel da Santíssima Trindade. Ela me encanta. Sua alma é parecida com a minha. Se ela foi uma santa, eu a imitarei e serei santa. Quero viver com Jesus no íntimo de minha alma.

A virtude da humildade

“Sem a humildade as demais virtudes são hipocrisia… A humildade nos proporciona a semelhança com Cristo, a paz da alma, a santidade e a união íntima com Deus.” (p.74)

“Agora quero ser pobre, pois as riquezas, a prata, os vestidos, as comodidades, as boas comidas, de que me servirão em meu leito de morte? De perturbação nada mais. De que serve grande nome, os aplausos, as honras, a adulação e a estima das criaturas? Na hora da morte, tudo desaparece com esse corpo…(p.75)

“Quero, a partir de hoje, ser sempre a última em tudo, ocupar o último lugar, servir os demais, sacrificar-me sempre e em tudo para unir-me mais Àquele que se fez servo sendo Deus, porque nos amava.” (p.77)

“Creio que no amor está a santidade. Quero ser santa. Logo, entregar-me-ei ao amor, já que este purifica, serve para expiar. Aquele que ama não tem outra vontade senão a do amado; logo, quero fazer a vontade de Jesus. Aquele que ama se sacrifica. Eu quero sacrificar-me em tudo.” (p.77-78)

“Que adquiriria a humildade humilhando-me, considerando-me pecadora e a última de todos. Que quando visse um defeito nas pessoas pensasse em suas qualidades…” (p.112)

Secura Espiritual

“Sinto-me cada dia pior. Não tenho ânimo para nada; porém, enfim, é a vontade de Deus. Que se faça como Ele quer. Minha Mãe, tudo”. (p.80)

O sonho de ser carmelita

“Apresenta-se tão triste o futuro que não quero olhá-lo. Disseram-me hoje que iam tirar-me do colégio…E ver, por outro Lado, que não poderei ser carmelita por causa de minha saúde. Tudo isso me faz exclamar: meu Jesus, se é possível, afasta de mim este cálice; porém não se faça minha vontade, mas a tua!” (p.81)

“Hoje fui confessar-me. Falei longamente com o Padre acerca de minha vocação. Disse-me que ele via que, por enquanto, tinha verdadeira vocação carmelita…E também podia ser carmelita espiritualmente, quer dizer, com o espírito carmelitano podia em minha casa seguir uma regra de vida como as carmelitas, levantando-me a tal hora, e tendo uma hora de meditação, e depois indo à missa, comungar, e vir a minha casa e pôr-me a trabalhar, estando todo o dia na presença de Deus e tendo à tarde outra hora de meditação e deitar-me a uma hora fixa, e sair o menos possível.” (p.83)

“Penso, em minha casa, levar uma vida de oração: levantar-me às cinco e meia e fazer, das seis às sete, meditação. Às onze e meia, exame. Na metade do dia, leitura espiritual e, à tarde, uma hora de oração.” (p.97)

“Disse-me que, quando estivesse muito desconsolada e me sentisse sem ânimo, primeiro buscasse consolo em Deus e, se Ele não me desse, o buscasse um pouco em uma pessoa digna de confiança que me levasse a Deus. Que vivesse crucificada, pois Jesus queria que fosse seu Cirineu. Que Ele me dava uma lasquinha de sua cruz, que a recebesse com prazer e que tratasse de não me abater.  Que vivesse mais do que nunca na presença de Deus.” (p.83)

“Quero que minhas ações, meus desejos, meus pensamentos levem este selo: “Sou de Jesus”. (p.84)

A luta para alcançar a santidade

“Hoje precisei vencer-me muito. Tive raiva, desejo de desobedecer e fazer minha vontade. Me aborreci e pensei que não tinha vocação; que era uma ilusão, uma pura idéia; que me desesperaria depois; enfim, tantas coisas…Mas rezei com devoção à Santíssima Virgem e ouvi do fundo de meu coração a voz de meu Jesus: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de Coração”. E assim terminou a minha irritação.” (p.86)

O amor à vocação carmelita

“Falei bastante com Jesus. Fez-me ver a necessidade que a carmelita tem de viver sempre ao pé da cruz, para aprender ali a amar e sofrer. Sofrer de três maneiras: 1º A carmelita há de mortificar sua carne, a exemplo de Jesus agonizante. 2º Mortificar sua vontade, negando-se todas as satisfações e submetendo sua vontade a Deus e ao próximo. 3º O sofrimento do espírito, do abandono de nosso Jesus na oração, nas lutas da alma etc. Como Jesus, que disse na cruz: “Meu Deus, por que me abandonaste?” A vida de carmelita não é outra coisa: amar, chegar à união mais perfeita com Deus, e imolar-se e sacrificar-se em tudo, já que o sacrifício é a oblação do amor.” (p.88)

“Minha alma é o céu, pois nela está Jesus”. (p.89)

Oração à noite

“À noite, uma hora com Jesus. Falamos intimamente. Censurou-me que não pedia ajuda como antes, em minhas dúvidas e aflições, a seu Coração. Que Ele me queria virgem, sem que nenhuma criatura me tocasse, pois devia ser toda para Ele. Apóio-me em seu Coração. Depois falou-me da pobreza…Que tudo passa, é vaidade. Depois me falou da humildade de pensamento, de ação, da ciência vã. Enfim, abriu-me seu Coração e me mostrou que por minhas orações tinha escrito o nome de papai. Disse-me que me resignasse a não ver seu fruto, mas que alcançaria tudo. Depois revelou-me seu amor, mas de tal maneira que chorei…Disse-me que seria carmelita; que não desconfiasse; que não dissesse a ninguém pois tratariam de persuadir-me a não ser. Enfim, que não fosse senão d`Ele: virgem, intacta, pura.” (p.90)

Oração pelos sacerdotes

“Meu Deus, faça-se tua vontade e não a minha. Ofereço-te meus sofrimentos por meus pecados, pelos pecadores, pela santificação dos sacerdotes”. (p.91)

Consolava as amigas do internato

“Hoje exerci meu apostolado. Haviam repreendido muito uma menininha e estava até para tirar-lhe a faixa. Ela estava tão desesperada que ia dizer a Madre Izquierdo que lhe tirassem a faixa. Eu rezei a Santíssima Virgem um “Lembrai-vos”, e lhe disse tudo o que Ela me inspirou, para animá-la e consolá-la. E falei-lhe da Virgem; que contasse a Ela suas aflições; que lhe pedisse sua proteção; que, sofresse com paciência, teria um grande prêmio no céu. (p.91)

Amizade com Jesus

“Jesus me disse que cumprisse sua vontade sempre com alegria, apesar de sentir abatimento. Que não olhasse o futuro, para manter-me em paz. Quero sempre ter diante de mim esta máxima. Hoje começo a obra por mim…” (p.94)

“Esta manhã Jesus me pediu que não chore por causa de minha saída da escola, pois essa é sua vontade. Eu lhe disse que então as monjas acreditariam que sou mal-agradecida; porém, Ele me fez ver como estava apegada ao que as criaturas diziam. Que rezando por elas seria agradecida. Vou oferecer o sacrifício por meu pai e meus irmãos.” (p.96)

“Estou muito triste porque só falta uma semana para sair da escola, porém quero fazer o sacrifício heroicamente, sem derramar lágrimas…Só em Jesus encontro esse amor constante, amor sem limite, amor infinito.” (p.97)

“Estou saindo da escola. Não é possível descrever tudo o que sofro. Oh, meu Deus, como tudo passa e acaba!…Adeus, madres que me ensinastes o caminho da virtude, que me mostrastes o caminho da felicidade mais completa aqui na terra e o caminho do céu. Adeus, morada do Coração de Jesus, onde durante três anos vivi contigo. Adeus, companheiras tão queridas, adeus…Não chorarei. Quero oferecer com generosidade o sacrifício a Deus. Tudo por Ti, Jesus, até a morte.”(p.101)

“Que sensações tão diversas tive! De pesar, por deixar minha querida escola, minhas Madres e companheiras, a que estou tão grata. Como são boas para mim, que carinho me demonstraram, sendo eu tão indigna dele! Cumpri meu sacrifício sem chorar. Verdadeiramente sentia em mim uma força superior às minhas: era Jesus quem me fazia ter coragem nesse instante…Por outro lado, sentia o atrativo do lar, da vida familiar que abandonei quando era tão menina;” (p.102)

“Hoje que já me encontro no mundo e vejo qual é minha vida, acho que a vida em Deus pode continuar mais ainda do que no colégio. Quantos sacrifícios que são desconhecidos para todos! Além disso, minha vida é de mais oração. Passo minha vida muitas vezes sozinha em meu quarto somente com Deus. O estudo ocupava mais o pensamento. Agora só devo pensar n`Ele.” (p.102)

“Nosso Senhor me disse que queria que vivesse com Ele em comunhão perpétua, porque me amava muito. Eu lhe disse que se Ele quisesse poderia, pois era Todo-poderoso. Depois me disse que a Santíssima Trindade estava em minha alma; que a adorasse. Imediatamente fiquei muito recolhida, a contemplava e me parecia que estava cheia de luz.” (p.113)

22 de maio de 1919. Nosso Senhor, na oração,…me mostrou como, apesar de sua agonia no altar, as criaturas não o amavam, não reparavam n`Ele. Isso me deixou muito aflita o dia todo. É uma espécie de martírio, pois me sinto sem forças para amá-lo como devia; sinto-me miserável e incapaz de oferecer-lhe consolo. (p.120)

26 de maio de 1919. Faz três dias que estou mergulhada na agonia de Nosso Senhor. A todo instante, ele se apresenta a mim…(p.121)

Faz três ou quatro dias que, estando em oração, senti…um ímpeto de amor tão grande, que creio que pouco mais não poderia resistir, pois nesse instante minha alma tende a sair do corpo. Meu coração bate com tanta violência que é horrível, e sinto que todo meu seu está como que suspenso e unido a Deus. Uma vez tocaram a hora e não percebi. Vi que minhas Irmãzinhas noviças saíam e pretendi segui-las; porém, não pude me mover. Estava como que cravada no chão. Até que quase chorando pedi a Nosso Senhor que pudesse sair, pois todas iam notar. Então pude; porém, minha alma estava como que em outra parte. (p.122-123)

“Sou de Deus, já que Ele me criou. Devo viver só para Deus e em Deus.” (p.124)

Quem ama sofre por Jesus

“Nosso Senhor pediu que me oferecesse como vítima para expiar os abandonos e ingratidões que Ele sofre no Sacrário. Disse que me faria sofrer desprezos, ingratidões, humilhações, securas; enfim, queria que sofresse. É só esse o meu desejo: quero sofrer, e mesmo quando sofro tenho ânsias de sofrer mais para unir-me a Nosso Senhor.” (p.105)

Duvida vocacional: ser do Sagrado Coração ou carmelita?

“Tenho muitas dúvidas a respeito de minha vocação. Não sei se devo ser do Sagrado Coração ou carmelita.”

Congregação do Sagrado Coração

“Falei com Madre Vicaria. Explicou-me com detalhes a vida do Sagrado Coração. Resume-se nisto: é uma vida mista de oração e ação; muita vida interior, pois têm de ter a Deus em si mesmas, dá-lo às almas, porém ficar sempre com Ele. Fazem cinco horas de oração, contando os exames e o ofício. Sua vida é uma prece contínua, pois, para que dê fruto sua obra nas almas, devem recorrer a Deus, e isso a cada instante. Seu objetivo principal é glorificar o Sagrado Coração, e, para consegui-lo, salvar muitas almas. Salvam-nas pela contínua abnegação. Sacrificam-se por elas de manhã até a noite. Dedicam-se a educar meninas ricas e pobres…Têm de tratar com o mundo, porém mostrar-se diante a d`Ele como religiosas, como crucificadas para Ele. Vivem vendo as comodidades sem possuí-las. Não tem convento próprio. Sua pátria é o mundo. Podem mandá-las a outros países sem que a saibam nem conheçam ninguém.” (p.106)

O Carmelo

“A Santíssima Virgem, minha Mãe, foi uma perfeita carmelita. Viveu sempre contemplando seu Jesus, sofrendo e amando-o. Nosso Senhor viveu trinta anos de sua vida no silêncio e na oração e só nos três últimos anos dedicou-se a evangelizar. A vida de carmelita consiste em amar, contemplar e sofrer. Vive só com seu Deus. Entre ela e Ele não há criaturas, não há mundos, não há nada, pois sua alma alcança a plenitude do amor, …alcança a perfeição pela contemplação e pelo sofrimento. Contempla só a Deus e, como os anjos no céu, entoa os louvores do Ser por excelência. A solidão, o isolamento de tudo da terra, a pobreza em que vive são poderosos elementos que a favorecem a contemplação de Deus amor. Por fim, o sofrimento a purifica intensamente. A carmelita sofre em silêncio…(p.107)

A carmelita é pobre. Não possui nada. Tem de trabalhar para viver. Seu leito é um enxergão. Sua túnica é áspera; Não tem uma cadeira em que sentar. Seu alimento é grosseiro e escasso. Mas ama, e o amor a enriquece, lhe dá a seu Deus…Minha alma deseja a cruz porque nela está Jesus.” (p.108)

Visita ao Carmelo de Los Andes

“Quando chegamos lá me encontrei com uma casa pobre e velha. Esse ia ser meu convento. Sua pobreza me falou ao coração. Senti-me atraída a ele. Depois veio abrir a porta uma menina que nos disse que Madre Angélica nos espera depois de almoçar. Às onze e meia voltamos. Entrei no locutório e Teresita Montes apareceu. Falamos com ela. Eu não sabia o que se passava comigo. Foi chamar Madre Angélica. Ouvi, pela primeira vez, sua voz, Sentia-me feliz. Fiquei a sós com ela. Pusemo-nos a falar da vida da carmelita. Explicou-a inteira. Falou-me do ofício divino: como a religiosas substitui aos anjos cantando os louvores de Deus….Depois fui ao locutório. Sentia-me numa paz e felicidade tão grandes que me é impossível explicar. Via claramente que Deus me queria ali e me sentia com força para vencer todos os obstáculos para poder ser carmelita e encerrar-me ali para sempre. Falamos do amor de Deus. Madre Angélica o fazia com uma eloqüência que parecia lhe sair do íntimo da alma. Fez-me ver a grande bondade de Deus ao chamar-me e como tudo o que tinha era de Deus. Depois me falou da humildade: como era tão necessária essa virtude, que sempre me considerasse a última; que me humilhasse o mais possível; que quando me repreendessem dissesse interiormente: “Mereço isso e muito mais”.  Falo-me de minhas Irmãzinhas, de como eram boas. Falei com ela até as 4 e meia, sozinha. Então, mandou minha mãe comer. Teresita Montes veio perguntar se queria fazer a “visita de vistas”. Madre Angélica deu permissão  então Teresita foi buscar todas. Então tirou a cortina das grades e começaram todas a entrar e aproximar-se da grade. Eu estava ajoelhada. Considerava-me indigna de estar de pé diante de tantas santas. Todas, com o véu levantado, vieram saudar-me com tanto carinho que eu me sentia confusa. No princípio minha emoção era tanta que mal podia falar, porém depois conversamos com toda confiança.Elas demonstravam uma alegria e, ao mesmo tempo, uma familiaridade entre elas que me encantavam. Perguntaram-me quando iria. Eu lhes disse que até maio…Depois de algum tempo, todas foram se despedindo e fiquei com Madre Angélica, que me mandou comer. Obedeci mesmo sem vontade, pois me sentia cheia…Depois me chamou para dar-me alguns livros e outras coisas que lhe pedi. Despedi-me com pesar, ao mesmo tempo que levava minha alma cheia de felicidade. Como Deus havia trocado a tempestade em bonança; a perturbação em santa paz!” (p.108-110)

Oração Contemplativa

“Senti um grande impulso para ir à oração. Comecei por minha comunhão espiritual; porém, ao dar a ação de graças, minha alma estava dominada pelo amor. As perfeições de Deus se me apresentaram uma a uma: a Bondade, a Sabedoria, a Imensidão, a Misericórdia, a Santidade, a Justiça. Houve um instante em que não soube nada. Sentia-me em Deus. Quando contemplei a justiça de Deus, estremeci. Gostaria de ter fugido ou me entregar a sua justiça. Vi o inferno, cujo fogo a cólera de Deus acende, e humilhando-me pedi misericórdia e me senti cheia dela. Vi como é horrível o pecado. Quero morrer antes de cometê-lo. Prometi ver a Deus em suas criaturas e viver muito recolhida. Disse-me que tratasse de ser muito perfeita e me explicou cada perfeição para que entre Ele e mim houvesse unidade, pois não haveria se eu fizesse algo imperfeito.” (p.111)

“Como meu Deus é bom!…Tudo o que faço é por seu amor. Vivo em uma contínua presença de Deus”. (p.112)

“há favores que Deus faz às almas escolhidas que não devem ser conhecidos, e que só a alma deve recordar”. (p.116)

Consentimento do Pai para entrar no Carmelo

“Nosso Senhor é demasiado bom. Meu pai, à tarde, escreveu a minha mãe e está cheio de ternura para comigo e disse que crê estar obrigado a dar-me seu consentimento, mas o que estará pensando. Poderei ter palavras para meu Jesus? Não. Ele lê o que minha alma experimenta diante das finezas de seu amor. Ponho-me indiferente a sua divina vontade. Para mim tanto faz que me dê permissão para ir-me em maio ou que não o consinta; que me deixe ser carmelita ou não. É verdade, sofrerei. Porém, como só busco a Ele, tendo-o contente, que me pode importar o resto? Se Ele o permite, eu me submeto a seu querer, já que fiz o que Ele me ordenou.” (p.117)

Amor ao Sagrado Coração de Jesus

“17 de maio de 1919. Senti muito o amor divino. Na oração senti o Sagrado Coração se unia a mim. E seu amor era tanto que sentia todo meu corpo abrasado nesse amor e estava sem sentir meu corpo. Tocaram-me para que me sentasse, e isso me produziu uma sensação tão desagradável que me pus a tiritar. O amor de Deus se manifestou de tal maneira que não sabia o que se passava comigo.” (p.119)

Santa Teresa dos Andes era atenciosa com todas as pessoas

“Que com todas as minhas irmãs fosse igualmente amável. E não ser mais atenta com aquela que me olhe mais ou que me dirija mais a palavra.” (p.120)

A vida de carmelita

“No céu se contempla a Deus, se Lhe adora, se Lhe ama. Mas, para chegar ao céu, é preciso desligar-se da terra. E o que é a vida da carmelita, senão contemplar, adorar e amar a Deus incessantemente? E ela, ansiosa por esse céu, se afasta do mundo e trata de desligar-se, no possível, de todo o terreno. (p.126)

“respeito às mortificações, não tratar de matar o corpo, mas incomodá-lo” (p.120)

“Esquecer os nossos pecados quando o inimigo se serve deles para fazer-nos desconfiar da misericórdia de Deus-Amor”. (p.125)

A carmelita sobe ao Tabor do Carmelo e se cobre com as vestes da penitencia que a assemelham mais a Jesus. E, como Ele, ela quer transformar-se, transfigurar-se para ser convertida em Deus.

Reflexões no Carmelo

Viver só para Deus, quer dizer, como o pensamento fixo n`Ele,..não falando nada de mim mesma, não dando minha opinião em nada se não a pedem; não chamar a atenção em nada, nem no modo de falar nem no modo de rir, nem nas expressões…

Ser fiel em tudo o que Jesus me pede. Ser fiel nos detalhes…

Durante o dia guardar silencio rigoroso…

Viver o momento presente com fé…

Jamais manifestar que sofro, a não ser que nossa madre o pergunte a mim. (p.127)

Não buscar consolo em ninguém…

aceitar alegre as humilhações, …sem abater-me. (p.126-127)

Fonte: Santa Teresa dos Andes.Diários e Cartas.  Org.Frei Patrício Sciadini.Edições loyola.2000.

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