Biografia dos Santos

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São João Batista

Introdução

Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz. (João 1, 6-8)

Anuncio do Nascimento de João Batista

Nos tempos de Herodes, rei da Judéia, houve um sacerdote por nome Zacarias, da classe de Abias; sua mulher, descendente de Aarão, chamava-se Isabel. Ambos eram justos diante de Deus e observavam irrepreensivelmente todos os mandamentos e preceitos do Senhor. Mas não tinham filho, porque Isabel era estéril e ambos de idade avançada. Ora, exercendo Zacarias diante de Deus as funções de sacerdote, na ordem da sua classe, coube-lhe por sorte, segundo o costume em uso entre os sacerdotes, entrar no santuário do Senhor e aí oferecer o perfume. Todo o povo estava de fora, à hora da oferenda do perfume. Apareceu-lhe então um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do perfume. Vendo-o, Zacarias ficou perturbado, e o temor assaltou-o. Mas o anjo disse-lhe: Não temas, Zacarias, porque foi ouvida a tua oração: Isabel, tua mulher, dar-te-á um filho, e chamá-lo-ás João. Ele será para ti motivo de gozo e alegria, e muitos se alegrarão com o seu nascimento; porque será grande diante do Senhor e não beberá vinho nem cerveja, e desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo; ele converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus,  e irá adiante de Deus com o espírito e poder de Elias para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto. Zacarias perguntou ao anjo: Donde terei certeza disto? Pois sou velho e minha mulher é de idade avançada.  O anjo respondeu-lhe: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para te falar e te trazer esta feliz nova. Eis que ficarás mudo e não poderás falar até o dia em que estas coisas acontecerem, visto que não deste crédito às minhas palavras, que se hão de cumprir a seu tempo. No entanto, o povo estava esperando Zacarias; e admirava-se de ele se demorar tanto tempo no santuário. Ao sair, não lhes podia falar, e compreenderam que tivera no santuário uma visão. Ele lhes explicava isto por acenos; e permaneceu mudo. Decorridos os dias do seu ministério, retirou-se para sua casa. Algum tempo depois Isabel, sua mulher, concebeu; e por cinco meses se ocultava, dizendo: Eis a graça que o Senhor me fez, quando lançou os olhos sobre mim para tirar o meu opróbrio dentre os homens. (Lucas 1, 5-25)

Visita de Nossa Senhora a sua prima Isabel

Naqueles dias, Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre.  Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio. Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas! E Maria disse: Minha alma glorifica ao Senhor,  meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem. Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre. Maria ficou com Isabel cerca de três meses. Depois voltou para casa. (Lucas 1, 39-56)

Nascimento de João Batista

Completando-se para Isabel o tempo de dar à luz, teve um filho. Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor lhe manifestara a sua misericórdia, e congratulavam-se com ela. No oitavo dia, foram circuncidar o menino e o queriam chamar pelo nome de seu pai, Zacarias. Mas sua mãe interveio: Não, disse ela, ele se chamará João. Replicaram-lhe: Não há ninguém na tua família que se chame por este nome. E perguntavam por acenos ao seu pai como queria que se chamasse. Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu nela as palavras: João é o seu nome. Todos ficaram pasmados. E logo se lhe abriu a boca e soltou-se-lhe a língua e ele falou, bendizendo a Deus. O temor apoderou-se de todos os seus vizinhos; o fato divulgou-se por todas as montanhas da Judéia. Todos os que o ouviam conservavam-no no coração, dizendo: Que será este menino? Porque a mão do Senhor estava com ele. Zacarias, seu pai, ficou cheio do Espírito Santo e profetizou, nestes termos: Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e resgatou o seu povo, e suscitou-nos um poderoso Salvador, na casa de Davi, seu servo (como havia anunciado, desde os primeiros tempos, mediante os seus santos profetas), para nos livrar dos nossos inimigos e das mãos de todos os que nos odeiam. Assim exerce a sua misericórdia com nossos pais, e se recorda de sua santa aliança, segundo o juramento que fez a nosso pai Abraão: de nos conceder que, sem temor, libertados de mãos inimigas, possamos servi-lo em santidade e justiça, em sua presença, todos os dias da nossa vida. E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho, para dar ao seu povo conhecer a salvação, pelo perdão dos pecados. Graças à ternura e misericórdia de nosso Deus, que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente, que há de iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz. O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel. (Lucas 1, 57-80)

Testemunho de João Batista

Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar-lhe: Quem és tu? Ele fez esta declaração que confirmou sem hesitar: Eu não sou o Cristo. Pois, então, quem és?, perguntaram-lhe eles. És tu Elias? Disse ele: Não o sou. És tu o profeta? Ele respondeu: Não. Perguntaram-lhe de novo: Dize-nos, afinal, quem és, para que possamos dar uma resposta aos que nos enviaram. Que dizes de ti mesmo? Ele respondeu: Eu sou a voz que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como o disse o profeta Isaías (40,3). Alguns dos emissários eram fariseus. Continuaram a perguntar-lhe: Como, pois, batizas, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta? João respondeu: Eu batizo com água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis. Esse é quem vem depois de mim; e eu não sou digno de lhe desatar a correia do calçado. Este diálogo se passou em Betânia, além do Jordão, onde João estava batizando. (João 1, 19-28)

O Batismo de Jesus

No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É este de quem eu disse: Depois de mim virá um homem, que me é superior, porque existe antes de mim. Eu não o conhecia, mas, se vim batizar em água, é para que ele se torne conhecido em Israel. (João havia declarado: Vi o Espírito descer do céu em forma de uma pomba e repousar sobre ele.) Eu não o conhecia, mas aquele que me mandou batizar em água disse-me: Sobre quem vires descer e repousar o Espírito, este é quem batiza no Espírito Santo. Eu o vi e dou testemunho de que ele é o Filho de Deus. (João 1, 29-34)

Dois discípulos de João Batista buscam seguir a Jesus

No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois dos seus discípulos. E, avistando Jesus que ia passando, disse: Eis o Cordeiro de Deus. Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras? Vinde e vede, respondeu-lhes ele. Foram aonde ele morava e ficaram com ele aquele dia. Era cerca da hora décima. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que o tinham seguido. (João 1, 35-40)

Pregação de João Batista

No ano décimo quinto do reinado do imperador Tibério, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes tetrarca da Galiléia, seu irmão Filipe tetrarca da Ituréia e da província de Traconites, e Lisânias tetrarca da Abilina, sendo sumos sacerdotes Anás e Caifás, veio a palavra do Senhor no deserto a João, filho de Zacarias. Ele percorria toda a região do Jordão, pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados, como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías (40,3ss.): Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Todo vale será aterrado, e todo monte e outeiro serão arrasados; tornar-se-á direito o que estiver torto, e os caminhos escabrosos serão aplainados. Todo homem verá a salvação de Deus. Dizia, pois, ao povo que vinha para ser batizado por ele: Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira iminente? Fazei, pois, uma conversão realmente frutuosa e não comeceis a dizer: Temos Abraão por pai. Pois vos digo: Deus tem poder para destas pedras suscitar filhos a Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores. E toda árvore que não der fruto bom será cortada e lançada ao fogo. Perguntava-lhe a multidão: Que devemos fazer? Ele respondia: Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo. Também publicanos vieram para ser batizados, e perguntaram-lhe: Mestre, que devemos fazer? Ele lhes respondeu: Não exijais mais do que vos foi ordenado. Do mesmo modo, os soldados lhe perguntavam: E nós, que devemos fazer? Respondeu-lhes: Não pratiqueis violência nem defraudeis a ninguém, e contentai-vos com o vosso soldo. Ora, como o povo estivesse na expectativa, e como todos perguntassem em seus corações se talvez João fosse o Cristo, ele tomou a palavra, dizendo a todos: Eu vos batizo na água, mas eis que vem outro mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de lhe desatar a correia das sandálias; ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. Ele tem a pá na mão e limpará a sua eira, e recolherá o trigo ao seu celeiro, mas queimará as palhas num fogo inextinguível. É assim que ele anunciava ao povo a boa nova, e dirigia-lhe ainda muitas outras exortações. (Lucas 3, 1-18)

Conversa de João Batista com seus discípulos

Em seguida, foi Jesus com os seus discípulos para os campos da Judéia, e ali se deteve com eles, e batizava. Também João batizava em Enon, perto de Salim, porque havia ali muita água, e muitos vinham e eram batizados. Pois João ainda não tinha sido lançado no cárcere. Ora, surgiu uma discussão entre os discípulos de João e um judeu, a respeito da purificação. Foram e disseram-lhe: Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, de quem tu deste testemunho, ei-lo que está batizando e todos vão ter com ele… João replicou: Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do céu. Vós mesmos me sois testemunhas de que disse: Eu não sou o Cristo, mas fui enviado diante dele. Aquele que tem a esposa é o esposo. O amigo do esposo, porém, que está presente e o ouve, regozija-se sobremodo com a voz do esposo. Nisso consiste a minha alegria, que agora se completa. Importa que ele cresça e que eu diminua. Aquele que vem de cima é superior a todos. Aquele que vem da terra é terreno e fala de coisas terrenas. Aquele que vem do céu é superior a todos. Ele testemunha as coisas que viu e ouviu, mas ninguém recebe o seu testemunho. Aquele que recebe o seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro. Com efeito, aquele que Deus enviou fala a linguagem de Deus, porque ele concede o Espírito sem medidas. O Pai ama o Filho e confiou-lhe todas as coisas. Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; quem não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus. (João 3, 22-36)

Prisão de João Batista

Mas Herodes, o tetrarca, repreendido por ele por causa de Herodíades, mulher de seu irmão, e por causa de todos os crimes que praticara, acrescentou a todos eles também este: encerrou João no cárcere. (Lucas 3, 19-20)

Com efeito, Herodes havia mandado prender e acorrentar João, e o tinha mandado meter na prisão por causa de Herodíades, esposa de seu irmão Filipe. João lhe tinha dito: Não te é permitido tomá-la por mulher! De boa mente o mandaria matar; temia, porém, o povo que considerava João um profeta. (Mateus 14, 3-5)

Jesus e João Batista

Tendo João[1], em sua prisão, ouvido falar das obras de Cristo, mandou-lhe dizer pelos seus discípulos: Sois vós aquele que deve vir, ou devemos esperar por outro? Respondeu-lhes Jesus: Ide e contai a João o que ouvistes e o que vistes: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres… Bem-aventurado aquele para quem eu não for ocasião de queda! Tendo eles partido, disse Jesus à multidão a respeito de João: Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Que fostes ver, então? Um homem vestido com roupas luxuosas? Mas os que estão revestidos de tais roupas vivem nos palácios dos reis. Então por que fostes para lá? Para ver um profeta? Sim, digo-vos eu, mais que um profeta. É dele que está escrito: Eis que eu envio meu mensageiro diante de ti para te preparar o caminho (Ml 3,1). Em verdade vos digo: entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele. Desde a época de João Batista até o presente, o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam. Porque os profetas e a lei tiveram a palavra até João. E, se quereis compreender, é ele o Elias que devia voltar. Quem tem ouvidos, ouça. A quem hei de comparar esta geração? É semelhante a meninos sentados nas praças que gritam aos seus companheiros: Tocamos a flauta e não dançais, cantamos uma lamentação e não chorais. João veio; ele não bebia e não comia, e disseram: Ele está possesso de um demônio. O Filho do Homem vem, come e bebe, e dizem: É um comilão e beberrão, amigo dos publicanos e dos devassos. Mas a sabedoria foi justificada por seus filhos. (Mateus 11, 2-19)

Morte de João Batista

Pois o próprio Herodes mandara prender João e acorrentá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, com a qual ele se tinha casado. João tinha dito a Herodes: Não te é permitido ter a mulher de teu irmão. Por isso Herodíades o odiava e queria matá-lo, não o conseguindo, porém. Pois Herodes respeitava João, sabendo que era um homem justo e santo; protegia-o e, quando o ouvia, sentia-se embaraçado. Mas, mesmo assim, de boa mente o ouvia. Chegou, porém, um dia favorável em que Herodes, por ocasião do seu natalício, deu um banquete aos grandes de sua corte, aos seus oficiais e aos principais da Galiléia. A filha de Herodíades apresentou-se e pôs-se a dançar, com grande satisfação de Herodes e dos seus convivas. Disse o rei à moça: Pede-me o que quiseres, e eu to darei. E jurou-lhe: Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja a metade do meu reino.  Ela saiu e perguntou à sua mãe: Que hei de pedir? E a mãe respondeu: A cabeça de João Batista. Tornando logo a entrar apressadamente à presença do rei, exprimiu-lhe seu desejo: Quero que sem demora me dês a cabeça de João Batista. O rei entristeceu-se; todavia, por causa da sua promessa e dos convivas, não quis recusar. Sem tardar, enviou um carrasco com a ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi, decapitou João no cárcere, trouxe a sua cabeça num prato e a deu à moça, e esta a entregou à sua mãe. Ouvindo isto, os seus discípulos foram tomar o seu corpo e o depositaram num sepulcro. (Marcos 6, 17-29)

[1] João Batista sabia perfeitamente que Jesus era o Messias, m as vários de seus discípulos ainda não o acreditavam. Ele quis convencê-los por uma resposta dada pelo próprio Jesus. (Fonte: pag.1356, nota de rodapé,  Bíblia Ave- Maria.)

VISITA  PASTORAL À UCRÂNIA

HOMILIA DO SANTO PADRE

NA CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA

SOLENIDADE DE SÃO JOÃO BAPTISTA

Kiev, 24 de Junho de 2001


1. “O Senhor chamou-me, quando eu ainda estava no seio da minha mãe”
(Is 49, 1).

Celebramos hoje o nascimento de São João Baptista. As palavras do profeta Isaías aplicam-se bem a esta grande figura bíblica que se situa entre o Antigo e o Novo Testamento. Na longa esteira dos profetas e dos justos de Israel João, o “Baptista”, foi colocado pela Providência imediatamente antes do Messias, para lhe aplanar o caminho com a pregação e o testemunho da vida.

Entre todos os Santos e Santas, João é o único do qual a Liturgia celebra o nascimento. Ouvimos na primeira Leitura que o Senhor chamou o seu Servo “que estava no seio materno”. Esta afirmação refere-se na sua plenitude a Cristo mas, quase por reflexo, pode-se aplicar também ao Precursor. Ambos vem à luz graças a uma intervenção especial de Deus:  o primeiro nasce da Virgem, o segundo de uma mulher idosa e estéril. Desde o seio materno João prenuncia Aquele que revelará ao mundo a iniciativa de amor de Deus.

2. “Chamaste-me quando eu ainda estava no seio da minha mãe” (Salmo resp.). Hoje, podemos fazer nossa esta exclamação do Salmista. Deus conheceu-nos e amou-nos ainda antes que os nossos olhos pudessem contemplar as maravilhas da criação. Mas ainda antes, ele possui um nome divino: o nome com que Deus Pai o conhece e o ama desde sempre e para sempre. É assim para todos, sem excluir ninguém. Nenhum homem é anónimo para Deus!Aos seus olhos, todos tem o mesmo valor:  todos diferentes, mas todos iguais, todos chamados a serem filhos no Filho.

“O seu nome é João” (Lc 1, 63). Zacarias confirma aos parentes admirados o nome do filho, escrevendo-o numa tábua. O próprio Deus, através do seu anjo, indicara aquele nome, que em hebraico significa “Deus é favorável”. Deus é favorável ao homem: quer a sua vida, a sua salvação. Deus é favorável ao seu povo: quer fazer dele uma bênção para todas as nações da terra. Deus é favorável à humanidade: guia o seu caminho rumo à terra onde reinam paz e justiça. Tudo isto está inscrito naquele nome:  João!Caríssimos Irmãos e Irmãs! João Baptista era o mensageiro, o precursor:  tinha sido enviado para preparar o caminho a Cristo. Que nos diz a figura de São Joao Baptista precisamente aqui, em Kiev, no início desta peregrinação na vossa Terra? Num certo sentido, não é providencial o facto de que esta figura se nos dirija a nós, exactamente em Kiev?

3. Teve lugar aqui o Baptismo da Rus’. Em Kiev começou aquele florescimento de vida cristã que o Evangelho suscitara primeiro na terra da antiga Rus’ de Kiev, depois nos territórios da Europa do Leste e, posteriormente, para além dos Urales, nos territórios asiáticos. Também em Kiev, portanto, desempenhou num certo sentido o papel de “precursor do Senhor” entre os numerosos povos aos quais chegou, partindo daqui, o anúncio da salvação. São Vladimiro e os habitantes da Rus’ de Kiev receberam o Baptismo de missionários provenientes de Constantinopla, o maior centro do cristianismo do Oriente, e desta forma a jovem Igreja entrou no âmbito da riquíssima herança de fé e de cultura da Igreja bizantina. Era o final do primeiro milénio. Mesmo vivendo segundo duas tradições diferentes, a Igreja de Constantinopla e a de Roma permaneciam ainda em plena comunhão. Escrevi na Carta Apostólica Euntes in mundum: “Juntamente devemos agradecer ao Senhor por este facto, que constitui hoje um bom auspício e uma esperança. Deus quis que a mãe Igreja, visivelmente unida, acolhesse no seu seio já rico de nações e de povos, e num momento de expansão missionária, quer  no  Ocidente  quer  no  Oriente esta sua nova filha nas margens do Dniepre” (n. 4).

Por conseguinte, se celebramos hoje a Eucaristia segundo a tradição romana, recordamos aquele momento relacionado de maneira tão profunda com a tradição bizantina, e fazemo-lo com gratidão. Fazemo-lo também com o desejo de que a recordação da única fonte baptismal favoreça a recuperação daquela situação de comunhão em que a diversidade das tradições não impedia a unidade da fé e da vida eclesial.

4. Com o Baptismo feito aqui, em Kiev, teve início a milenária história do cristianismo nos territórios da actual Ucrânia e de toda a região. Hoje, tendo a graça de me deter neste lugar histórico, o meu olhar é levado a abraçar os mais de dez séculos durante os quais a graça daquele primeiro Baptismo continuou a espalhar-se sobre as posteriores gerações dos filhos desta Nação.

Que florescimento de vida espiritual, litúrgica e eclesial se desenvolveu do encontro das diversas culturas e tradições religiosas! Esta maravilhosa herança agora está confiada a vós, queridos Irmãos e Irmãs. Durante estes dias, que me vêem peregrino na vossa Terra, rezo a Deus juntamente convosco, para que a vossa geração, no início de um novo milénio, esteja à altura das grandes tradições do passado.

Desta Cidade, berço da fé crista para a Ucrânia e para toda a região, dirijo o olhar e abraço com afecto cordial os homens que vivem nestas terras. Saúdo, de maneira especial, os Senhores Cardeais Marian Jaworski e Lubomyr Husar, o querido Bispo de Kiev-Zhytomyr, D. Jan Purwinski, os venerados Irmãos da Conferência Episcopal Ucraniana e do Sínodo dos Bispos da Igreja Greco-Católica Ucraniana, o clero, os religiosos, as religiosas e os fiéis das vossas gloriosas e martirizadas Igrejas, que com tanta coragem souberam manter acesa a chama da fé também nos tempos obscuros da perseguição. Saúdo cordialmente o Senhor Presidente da República, Leonid Kucma e agradeço-lhe a sua presença.

5. Povo de Deus que cres, esperas e amas a Terra ucraniana, volta a saborear com alegria o dom do Evangelho, que  recebeste  há  mais  de  mil  anos! Olha neste dia para Joao Baptista, modelo perene de fidelidade a Deus e à sua Lei. Ele preparou para Cristo o caminho com o testemunho da palavra e da vida. Imita-o com generosidade dócil e confiante.

São João Baptista é, antes de mais nada, modelo de fé. Na esteira do grande profeta Elias, para ouvir melhor a Palavra do único Senhor da sua vida, ele deixa tudo e retira-se para o deserto, de onde fará ressoar o convite a aplanar os caminhos do Senhor (cf. Mt 3, 3 ss.).

É modelo de humildade, porque responde a todos os que veem nele não só um Profeta, mas até o Messias:  “Eu não sou Quem julgais; mas vem, depois de mim, Alguém cujas sandálias nao sou digno de desatar” (Act 13, 25).É modelo de coerência e de coragem quando defende a verdade, pela qual está disposto a pagar pessoalmente, com a prisão e a morte.

Terra da Ucrânia, impregnada pelo sangue dos mártires, obrigado pelo exemplo de fidelidade ao Evangelho que ofereceste aos cristãos de todas as partes do mundo! Muitos dos teus filhos e filhas assumiram a sua coerência até ao sacrificio supremo. O seu testemunho sirva aos cristãos do terceiro milénio de exemplo e de estímulo.

6. Na escola de Cristo, seguindo os passos de São João Baptista, dos Santos e dos Mártires desta Terra, tende também vós, caríssimos Irmãos e Irmãs, a coragem de pur sempre em primeiro lugar os valores espirituais.

Queridos Bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, que acompanhastes fielmente este povo ao preço de sacrifícios pessoais de todos os géneros e o apoiastes nos tempos obscuros do terror comunista, agradeço-vos e exorto-vos:  continuai a ser testemunhas zelosas de Cristo e bons pastores do seu rebanho na querida Ucrânia.

Vós, queridos jovens, sede fortes e livres! Não vos deixeis encantar por ilusões enganadoras de uma felicidade fácil. Segui o caminho de Cristo:  Ele é exigente, sem dúvida, mas pode fazer-vos saborear o sentido pleno da vida e da paz do coração.

Vós, queridos pais, preparai o caminho do Senhor diante dos vossos filhos. Educai-os com amor e dai-lhes um exemplo válido de coerência com os principios que ensinais. E vós que tendes responsabilidades educativas e sociais, senti-vos empenhados em promover sempre o desenvolvimento integral da pessoa humana, cultivando nos jovens um profundo sentido de justiça e de solidariedade para com os individuos mais frágeis.Sede, todos e cada um, “luz das nações” (Is 49, 6)!

7. Cidade de Kiev, tu és a “luz da Ucrânia”. De ti partiram os evangelizadores que, ao longo dos séculos, foram “João Baptista” para os povos que habitavam estas terras. Quantos deles sofreram, como João, para dar testemunho da verdade e se tornar, com o seu sangue, semente de novos cristãos! Nao faltem nas novas gerações homens e mulheres com a índole destes vossos gloriosos antepassados!

Virgem Santíssima, Protectora da Ucrânia, Tu orientaste sempre o caminho do povo cristão. Continua a velar sobre os teus filhos. Ajuda-os a nunca se esquecer do “nome” e da identidade espiritual que receberam no Baptismo. Ajuda-os a alegrar-se sempre com a graça inestimável de ser discípulos de Cristo (cf. Jo 3, 29). Se Tu a guia de todos. Tu, Mãe de Deus e nossa Mãe, Maria!

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/2001/documents/hf_jp-ii_hom_20010624_ucraina_po.html

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