Biografia dos Santos

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Irmã Teresa Benedita da Cruz – Edith Stein

(1891-1942)

Biografia do Vaticano:

Nascida em Vrastilávia a 12 de Outubro de 1891, os seus genitores eram de nacionalidade alemã e de religião hebraica. Foi educada na fé dos pais, mas no decurso dos anos tornou-se praticamente ateia, conservando muito elevados os valores éticos, mantendo uma conduta moralmente irrepreensível. De maneira brilhante obteve o doutoramento em filosofia e tornou-se assistente universitária do seu mestre, Edmund Husserl. Incansável e perspicaz investigadora da verdade, através do estudo e da frequência dos fermentos cristãos e, por fim, através da leitura da autobiografia de Santa Teresa de Ávila, encontrou Jesus Cristo que resplandecia no mistério da cruz e, com jubilosa resolução, aderiu ao Evangelho.

Em 1922, recebeu o baptismo na Igreja católica com o nome de Teresa: a sua vida mudou de modo radical. Os anos sucessivos foram despendidos no aprofundamento da doutrina cristã, no ensinamento, apostolado e publicação de estudos científicos, e numa intensa vida interior nutrida pela palavra de Deus e a oração.

Em 1933, coroou o desejo de se consagrar a Deus e entrou na Congregação das Carmelitas Descalças, tomando o nome de Teresa Benedita da Cruz, exprimindo assim, também com este nome, o ardente amor a Jesus crucificado e especial devoção a Santa Teresa de Ávila. Emitiu regularmente o voto de pobreza, obediência e castidade e, para realizar a sua consagração, caminhou com Deus na via da santidade.

Quando na Alemanha o nacional-socialismo exacerbou a louca perseguição contra os judeus, os superiores da Beata enviaram-na, por precaução, para o carmelo de Echt, na Holanda. Impelida pela compaixão para com os seus irmãos judeus, não hesitou em oferecer-se a Deus como vítima, para suplicar a paz e a salvação para o seu povo, para a Igreja e para o mundo. A ocupação nazista da Holanda comportou o início do extermínio também para os judeus daquela nação. Os Bispos holandeses protestaram energicamente com uma Carta pastoral, e as autoridades, por vingança, incluíram no programa de extermínio também os judeus de fé católica.

A 2 de Agosto de 1942, a Beata foi aprisionada e internada no campo de concentração de Auschwitz, e juntamente com a irmã foi morta na câmara de gaz no dia 9 de Agosto de 1942. Assim morreu como filha do seu povo martirizado e como filha da Igreja católica. «Judia, filósofa, religiosa, mártir — como foi afirmado por João Paulo II no dia da Beatificação, a 1 de Maio de 1987, em Colónia — a Beata Edith Stein representa a síntese dramática das feridas do nosso século. E, ao mesmo tempo, proclama a esperança de que é a cruz de Jesus Salvador que ilumina a história».

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

NA CERIMÓNIA DE CANONIZAÇÃO

DE EDITH STEIN

11 de Outubro de 1998

1. Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Gl 6, 14).

As palavras de São Paulo aos Gálatas, que acabámos de escutar, adaptam-se bem à experiência humana e espiritual de Teresa Benedita da Cruz, que hoje é solenemente inscrita no álbum dos santos. Também ela pode repetir com o Apóstolo: Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.

A cruz de Cristo! No seu constante florescimento, a árvore da Cruz dá sempre renovados frutos de salvação. Por isso, os fiéis olham com confiança para a Cruz, haurindo do seu mistério de amor a coragem e o vigor para caminhar com fidelidade nas pegadas de Cristo crucificado e ressuscitado. Assim, a mensagem da Cruz entrou no coração de muitos homens e mulheres, transformando a sua existência.

Um exemplo eloqüente desta extraordinária renovação interior é a vicissitude espiritual de Edith Stein. Uma jovem em busca da verdade, graças ao trabalho silencioso da graça divina, tornou-se santa e mártir: é Teresa Benedita da Cruz, que hoje repete do céu a todos nós as palavras que caracterizaram a sua existência: «Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de Jesus Cristo».

2. No dia 1 de Maio de 1987, durante a minha visita pastoral na Alemanha, tive a alegria de proclamar Beata, na cidade de Colónia, esta generosa testemunha da fé. Hoje, a onze anos de distância aqui em Roma, na Praça de São Pedro, é-me dado apresentar solenemente esta eminente filha de Israel e filha fiel da Igreja como Santa perante o mundo inteiro.

Assim como nessa data, também hoje nos inclinamos diante da memória de Edith Stein, proclamando o testemunho invicto que ela deu durante a vida e sobretudo com a morte. Ao lado de Teresa de Ávila e de Teresa de Lisieux, esta outra Teresa vai colocar-se no meio da plêiade de santos e santas que honram a Ordem carmelitana.

Caríssimos Irmãos e Irmãs, que vos congregastes para esta solene celebração, dêmos glória a Deus pela obra que realizou em Edith Stein.

3. Saúdo os numerosos peregrinos vindos a Roma, com um particular pensamento para os membros da família Stein, que quiseram estar connosco nesta feliz circunstância. Uma cordial saudação dirige-se também à representação da Comunidade carmelitana, que se tornou a «segunda família» para Teresa Benedita de Cruz.

Depois, dou as minhas boas-vindas à delegação oficial da República Federal da Alemanha, chefiada pelo Chanceler Federal resignatário, Helmut Kohl, a quem saúdo com deferente cordialidade. Além disso, cumprimento os representantes das regiões de Nordrhein-Westfalen e Rheinland-Pfalz, bem como o Primeiro Presidente da Câmara Municipal de Colónia. Inclusivamente da minha Pátria veio uma delegação oficial, guiada pelo Primeiro-Ministro Jerzy Buzek.

Dirijo-lhe uma cordial saudação. Depois, quero reservar uma especial menção aos peregrinos das dioceses de Vratislávia, Colónia, Monastério, Espira, Cracóvia e Bielsko-Žywiec, presentes com os seus Bispos e sacerdotes. Eles unem-se ao numeroso grupo de fiéis vindos da Alemanha, dos Estados Unidos da América e da minha Pátria, a Polónia.

4. Dilectos Irmãos e Irmãs! Porque era judia, Edith Stein foi deportada juntamente com a irmã Rosa e muitos outros judeus dos Países Baixos para o campo de concentração de Auschwitz, onde com eles encontrou a morte nas câmaras de gás. Hoje recordamo-nos de todos com profundo respeito. Poucos dias antes da sua deportação, a quem lhe oferecia uma possibilidade de salvar a vida, a religiosa respondera: «Não o façais! Por que deveria eu ser excluída?

A justiça não consiste acaso no facto de eu não obter vantagem do meu baptismo? Se não posso compartilhar a sorte dos meus irmãos e irmãs, num certo sentido a minha vida é destruída».

Doravante, ao celebrarmos a memória da nova Santa, não poderemos deixar de recordar todos os anos também o Shoah, aquele atroz plano de eliminação de um povo, que custou a vida a milhões de irmãos e irmãs judeus. O Senhor faça brilhar o seu rosto sobre eles, concedendo-lhes a paz (cf. Nm 6, 25s.).

Por amor de Deus e do homem, lanço de novo um premente brado: nunca mais se repita uma semelhante iniciativa criminosa para nenhum grupo étnico, povo e raça, em qualquer recanto da terra! É um brado que dirijo a todos os homens e mulheres de boa vontade; a todos aqueles que crêem no Deus eterno e justo; a todos aqueles que se sentem unidos em Cristo, Verbo de Deus encarnado. Aqui, todos nós devemos ser solidários: é a dignidade humana que está em jogo. Só existe uma única família humana. É isto que a nova Santa afirmou com grande insistência: «O nosso amor pelo próximo – escrevia – é a medida do nosso amor a Deus. Para os cristãos – e não só para eles – ninguém é “estrangeiro”. O amor de Cristo não conhece fronteiras».

5. Estimados Irmãos e Irmãs! O amor de Cristo foi o fogo que ardeu a vida de Teresa Benedita da Cruz. Antes ainda de se dar conta, ela foi completamente arrebatada por ele. No início, o seu ideal foi a liberdade. Durante muito tempo, Edith Stein viveu a experiência da busca. A sua mente não se cansou de investigar e o seu coração de esperar. Percorreu o árduo caminho da filosofia com ardor apaixonado e no fim foi premiada: conquistou a verdade; antes, foi por ela conquistada. De facto, descobriu que a verdade tinha um nome: Jesus Cristo, e a partir daquele momento o Verbo encarnado foi tudo para ela. Olhando como Carmelita para este período da sua vida, escreveu a uma Beneditina: «Quem procura a verdade, consciente ou inconscientemente, procura a Deus».

Embora sua mãe a tenha educado na religião hebraica, aos 14 anos de idade Edith Stein, «consciente e propositadamente desacostumou-se da oração». Só queria contar consigo mesma, preocupada em afirmar a própria liberdade nas opções de vida. No fim do longo caminho, foi-lhe dado chegar a uma surpreendente conclusão: só quem se une ao amor de Cristo se torna verdadeiramente livre.

A experiência desta mulher, que enfrentou os desafios de um século atormentado como o nosso, é para nós exemplar: o mundo moderno ostenta a porta atraente do permissivismo, ignorando a porta estreita do discernimento e da renúncia. Dirijo-me especialmente a vós, jovens cristãos, em particular aos numerosos ministrantes reunidos em Roma nestes dias: evitai conceber a vossa vida como uma porta aberta a todas as opções! Escutai a voz do vosso coração! Não permaneçais na superfície, mas ide até ao fundo das coisas! E quando chegar o momento, tende a coragem de vos decidirdes! O Senhor espera que coloqueis a vossa liberdade nas suas mãos misericordiosas.

6. Santa Teresa Benedita da Cruz conseguiu compreender que o amor de Cristo e a liberdade do homem se entretecem, porque o amor e a verdade têm uma relação intrínseca. A busca da verdade e a sua tradução no amor não lhe pareciam ser contrastantes entre si; pelo contrário, compreendeu que estas se interpelam reciprocamente. No nosso tempo, a verdade é com frequência interpretada como a opinião da maioria. Além disso, é difundida a convicção de que se deve usar a verdade também contra o amor, ou vice-versa. Todavia, a verdade e o amor têm necessidade uma do outro. A Irmã Teresa Benedita é testemunha disto. «Mártir por amor», ela deu a vida pelos seus amigos e no amor não se fez superar por ninguém. Ao mesmo tempo, procurou com todo o seu ser a verdade, da qual escrevia: «Nenhuma obra espiritual vem ao mundo sem grandes sofrimentos. Ela desafia sempre o homem inteiro». A Irmã Teresa Benedita da Cruz diz a todos nós: Não aceiteis como verdade nada que seja isento de amor. E não aceiteis como amor nada que seja isento de verdade!

7. Enfim, a nova Santa ensina-nos que o amor a Cristo passa através da dor. Quem ama verdadeiramente, não se detém diante da perspectiva do sofrimento: aceita a comunhão na dor com a pessoa amada. Consciente do que comportava a sua origem judaica, Edith Stein pronunciou palavras eloquentes a este respeito: «Debaixo da cruz, compreendi a sorte do povo de Deus… Efectivamente, hoje conheço muito melhor o que significa ser a esposa do Senhor no sinal da Cruz. Mas dado que se trata de um mistério, isto jamais poderá ser compreendido somente com a razão». Pouco a pouco, o mistério da Cruz impregnou toda a sua vida, até a impelir rumo à oferta suprema. Como esposa na Cruz, a Irmã Teresa Benedita não escreveu apenas páginas profundas sobre a «ciência da cruz», mas percorreu até ao fim o caminho da escola da Cruz. Muitos dos nossos contemporâneos quereriam fazer com que a Cruz se calasse. Mas nada é mais eloquente que a Cruz que se quer silenciar! A verdadeira mensagem da dor é uma lição de amor. O amor torna o sofrimento fecundo e este aprofunda aquele. Através da experiência da Cruz, Edith Stein pôde abrir um caminho rumo a um novo encontro com o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. A fé e a cruz revelaram-se-lhe inseparáveis. Amadurecida na escola da Cruz, ela descobriu as raízes às quais estava ligada a árvore da própria vida. Compreendeu que lhe era muito importante «ser filha do povo eleito e pertencer a Cristo não só espiritualmente, mas inclusive mediante um vínculo sanguíneo».

8. «Deus é espírito e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em espírito e verdade» (Jo 4, 24). Caríssimos Irmãos e Irmãs, com estas palavras o divino Mestre entretém-se com a Samaritana junto do poço de Jacob. Quanto Ele deu à sua ocasional mas atenta interlocutora, encontramo-lo presente também na vida de Edith Stein, na sua «subida ao Monte Carmelo ». A profundidade do mistério divino tornou-se-lhe perceptível no silêncio da contemplação. Ao longo da sua existência, enquanto amadurecia no conhecimento de Deus adorando-O em espírito e verdade, ela experimentava cada vez mais claramente a sua específica vocação de subir à cruz juntamente com Cristo, de abraçá-la com serenidade e confiança, de amá-la seguindo as pegadas do seu dilecto Esposo: hoje, Santa Teresa Benedita da Cruz é-nos indicada como modelo em que nos devemos inspirar e como protectora à qual havemos de recorrer. Dêmos graças a Deus por este dom. A nova Santa seja para nós um exemplo do nosso compromisso no serviço da liberdade e na nossa busca da verdade. O seu testemunho sirva para tornar cada vez mais sólida a ponte da recíproca compreensão entre judeus e cristãos. Santa Teresa Benedita da Cruz, ora por nós! Amém.

Fonte:

http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_19981011_edith_stein_po.html

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1998/documents/hf_jp-ii_hom_11101998_stein_po.html

Biografia do Livro a Ciência da Cruz

Edith Stein nasceu em 12 de outubro de 1891 na cidade de Breslau(Alemanha, hoje Wroclau, Polônia). Findos os estudos ginasianos, cursou os estudos superiores na Universidade de Breslau, e passou a estudar durante mais quatro semestres na Universidade de Gotinja, Alemanha. Cursou as seguintes matérias:filosofia, psicologia, história e lingua germãnica. Em janeiro de 1915, prestou exames oficiais, tendo obtido a qualificação ‘pro facultate docendi’ nas referidas matérias. Após um curto tempo dedicado ao magistério e obtenção de doutorado em filosofia na Universidade de Freiburgo, no verão de 1916, mudou-se para Friburgo, na Brisgóvia, para trabalhar como assistente de seu então professor, Edmund Husserl. De 1922 a 1932, trabalhou como professora no liceu e no seminário para formação de professoras das Irmãs Dominicanas de Santa Madalena de Speyer. Em 1932, foi convidada a lecionar no Instituto Alemão de Pedagogia Científica, na cidade de Münster. Sendo de descendência judia, perdeu seu cargo por ocasião do advento do nacional-socialismo, em 1933.

Entre 1928 e 1933, desenvolveu intensa atividade como confenrencista em jornadas e congressos pedagógicos, em toda a Europa. No mesmo período, dedicou-se a publicações no Anuário de Pesquisa Filosófica e Fenomenólica. Cuidou também da tradução de obras de santo Tomás de Aquino e Newman, as quais consolidaram sua fama em filosofia no campo de divulgação do pensamento.

Edith Stein, educada como criança de família judia, recebeu profunda formação na fé mosaica. Aos 30 anos, a Providência divina dirigiu seus passos para a Igreja Católica; foi por ocasião de seu batismo, em 1º de janeiro de 1922, quando recebeu o nome Teresa. Enfim, no dia 15 de abril de 1934, tendo chegado ao ponto culminante de suas pesquisas e ensinamentos em matéria de psicologia e pedagogias encerrou sua carreira no mundo para entrar, conforme desejava intimamente, no Carmelo de Koln-Lindenthal, Alemanha.

Considerando a ameaça de perseguição por parte do nacional-socialismo, irmã Teresa Benedita da Cruz foi transferida, por iniciativa das autoridades eclesiásticas, para o Convento de Echt, holanda, em 31 de dezembro de 1938. Aí viveu até seu aprisionamento pela polícia secreta alemã, em 2 de agosto de 1942. Após pouco tempo de internação no campo de concentração de Westerbork, em Drente, Holanda, foi deportada em 7 de agosto para Auschwitz. Aí foi gaseificada e posteriormente cremada.(p.259)

Segundo Frei Patrício Sciadini: “Ela entra para o Carmelo aos 43 anos, cheia de esperança e de vida. ..Em 1942 celebrava-se.o IV centenário do nascimento de São João da Cruz. O provincial dos Carmelitas Descalços pediu a Edith Stein que elaborasse um estudo sobre esse místico espanhol, para poder celebrar o acontecimento de forma mais digna…..Desse estudo nasceu uma obra de peso: A Ciência da Cruz…O livro é incompleto porque o nazismo não lhe deu tempo para terminá-lo…Não foi fácil levar o final o processo de canonização dessa nobre filha de Israel. Foram muitas as dificuldades enfrentadas, especialmente por causa de sua descendência judaica. Para a comunidade judaica, a atitude da Igreja de canonizar Edith Stein pareceu falta de respeito com os milhares de judeus que perderam a vida naquele oceano de ódio contra uma raça…Mas na verdade o problema foi outro. Hitler muitas vezes manifestou seu ódio pelos princípios religiosos que representavam uma ameaça à sua ideologia de extermínio. Todo extermínio e genocídio é contra Deus e grita contra o bem mais sagrado: a vida humana. Por esse motivo Edith Stein foi proclamada mártir: ela derramou seu sangue por amor a Cristo, amor plenamente assumido com sua adesão ao cristianismo e total solidariedade com seu povo. Essa mulher corajosa não hesitou ao escrever para o papa Pio XII aconselhando-o a escrever uma carta condenando o sistema iníquo do nazismo. Sua carta é um sinal vivo que irá recordar a humanidade de que o genocídio nunca mais deve acontecer.”(Prefácio, da Obra, A ciência da Cruz).

Edith Stein. A Ciência da Cruz. Ed. Loyola. 5.ed.2008.

Sabedoria de Santa Edith Stein

Cuidado com a insensibilidade

Existem sinais naturalmente perceptíveis a indicar que a natureza humana, tal qual a conhecemos, encontra-se em estado decaído. Daí a incapacidade de aprendermos intimamente os fatos segundo seu verdadeiro valor e de reagirmos adequadamente a eles…Coisas muitas vezes ouvidas e bem conhecidas deixam-nos indiferentes. Acresce ainda que assuntos de interesse próprio e preocupações particulares nos tornam insensíveis a outras coisas…Mesmo a dor mais profunda e autêntica nos afigura uma graça, comparada ao entorpecimento da sensibilidade…Muitos fiéis sentem-se deprimidos ao notarem que os fatos do plano da salvação não os impressionam mais, nem lhes servem, como deveriam, de norma e fonte de energia para a vida.(p.12).

Sensibilidade dos santos

É a isto que chamamos objetividade dos santos, expressão que designa a receptividade interna e primária da alma, renascida pelo Espírito Santo. Tudo quanto se aproxima dessa alma será apropriadamente captado, com profunda sensibilidade…Com essa objetividade dos santos tem certa semelhança a objetividade da criança, que recebe as impressões e a elas corresponde com todo o vigor e naturalidade espontâneos…Conta-se que santa Brígida, aos dez anos, ouviu falar, pela primeira vez, na paixão e morte de Cristo. Na noite seguinte, apareceu-lhe o Crucificado. A partir de então, jamais pôde meditar a paixão de Cristo sem derramar lágrimas.(p.12-13).

Ser ministro de música na prática

O perigo está em o artista se contentar com a produção artística em si, abstraindo de quaisquer outras obrigações provenientes de sua arte…O crucificado exige, entretanto, do artista, algo mais do que a simples imagem. Requer de cada homem a imitação:isto quer dizer que o artista deve também transformar-se em Cristo, a ponto de carregar a cruz e de ser, como ele, nela pregado. A obra exterior do artista pode se tornar uma barreira para a sua transformação interior, o que não deveria acontecer.

Direção espiritual

A maioria se detém no meio da jornada; poucos passam das tentativas iniciais; pouquíssimas almas chegam ao objetivo final. A razão disso está nos perigos do caminho, ou seja, os perigos do mundo, do inimigo maligno e da própria natureza humana. Outra razão é a ignorância e a falta de uma direção espiritual apropriada. As almas não entendem o que nelas se passa, e raras vezes se encontra quem lhes possa abrir os olhos.(p.39).

A fé, a esperança e o amor

A fé reduz a razão ao nada, levando-a a reconhecer sua incapacidade diante da grandeza de Deus. A esperança esvazia a memória, levando-a a ocupar-se com algo que não possui. “Porque o que alguém vê, como é que ainda espera?” Ela nos ensina que devemos esperar tudo de Deus e nada de nós mesmos ou das criaturas…O amor, enfim, liberta a vontade de todas as coisas, obrigando-a a amar a Deus acima de tudo, o que só é possível se excluídos os desejos das coisas criadas.(p.59).

Razões porque não se deve aspirar visões espirituais

a)contrariam a fé, que está acima de todo o sensível e desviam do emprego do único meio apto para chegar à união com Deus.

b)retardam o espírito e o impedem de elevar-se ao invisível;

c)impedem que a alma chegue à verdadeira renúncia e desnudamento do espírito;

d)O apego da alma ao sensível a torna menos receptiva ao espírito de piedade.

e)aspirando egoisticamente às visões, a alma perde as graças que Deus lhe desejaria conceder.

f)o desejo de visões abre as portas ao demônio, que quer enganar as almas com coisas semelhantes.

Se porém, a alma renunciar a tais visões…o demônio a deixará em paz, por entender que não lhe pode causar danos.(p.64).

Ter como ruim a memória do pecado

O demônio pode lhe acrescentar ainda formas, conhecimentos e raciocínios e por meio deles afetar a alma com a soberba, avareza, ira, inveja, ódio…

“mas quando a memória os aniquila, esquecendo-os, fecha totalmente as portas do demônio e suas manifestações.”(São João da Cruz)

A ocupação da alma com conhecimentos sobrenaturais traz-lhe cinco prejuízos:

Primeiro, ela frequentemente se engana…Segundo há o perigo da vaidade e presunção…o terceiro prejuízo provém do inimigo maligno, “o qual pode simular na memória e na fantasia conhecimentos e formas falsos, mas que parecem verdadeiros e legítimos.”(São João da Cruz)…O quarto prejuízo…toda posse da memória constitui verdadeiro obstáculo à união com Deus pela esperança…O quinto e último prejuízo: as representações e imagens da fantasia guardadas na memória ‘fazem considerar o ser e a sublimidade de Deus menos dignos e elevados do que convém à sua incompreensibilidade’.

Ausência de deleites espirituais

Infeliz aquele que pensa a ausência de deleites espirituais como ausência de Deus, ou, os possuindo, ache que então possui a Deus. A união a Deus só é obtida pelo vazio das tendências quanto a qualquer gozo particular.(p.82)

Desapego

Quem, entretanto, conseguir se livrar de todo o apego aos bens temporais, alcançará a liberdade de espírito, a clareza da razão, calma, tranqüilidade e confiança em Deus, além da submissão à vontade divina. Aumenta a alegria  – que o avaro jamais sentirá -, pois quem é livre aprecia os bens em seu verdadeiro valor, natural e sobrenatural. (p.83).

O perigo dos sentidos

O gozo de ouvir palavras inúteis produz dissipação da fantasia, superficialidade verbal, inveja, juízos temerários, volubilidade de pensamentos…o gozo em odores suaves produz repugnância aos pobres – o que é contrário ao espírito cristão – , aversão à prestação de serviços, dureza de coração para com as coisas humildes e insensibilidade espiritual…O gozo em manjares deliciosos leva à gula e à embriaguez, cólera, discórdia, falta de caridade para com o próximo, principalmente o pobre. O gozo no toque de coisas suaves perverte sensivelmente o espírito roubando-lhe a força e o vigor…nutre a luxúria, torna o espírito afeminado e tímido, o sentido…disposto ao pecado e ao mal…infunde a vã alegria, cria o desgoverno da língua e o desenfreio no olhar…moralmente produz covardia e inconstância. Esse gozo às vezes cria espírito de confusão e insensibilidade para com a voz da consciência, porquanto debilita a razão e a impede de receber ou de dar conselhos, tornando-a incapaz para os bens espirituais e morais.(p.86).

Alegria pelas próprias boas obras e soberba farisaica

Da equivocada alegria pelas próprias boas obras nascem a soberba farisaica e a presunção, o desprezo pelos outros e o desejo de ser elogiado. Isto equivale à injustiça e à negação de Deus, autor de toda e qualquer obra boa. Essas almas não farão progresso na vida da perfeição.(p.87).

Vaidade espiritual

Apenas os sentidos se deleitam. Chega-se ao ponto de se revestirem imagens com roupas correspondentes à moda atual, ‘coisas pela qual os santos representados sentiriam e sentem completa aversão”…A piedade é dirigida ao ‘ornamento dos bonecos’ e a alma se apega a eles como ídolos. Devidamente utilizadas, porém, as imagens poderão ser de grande significado para o serviço religioso, e necessárias para levar a vontade à devoção. Para este fim e para a veneração dos santos, a Igreja aprova seu uso…a pessoa verdadeiramente devota faz do invisível o objeto principal da sua devoção.(p.90).

Imagens

Numerosos perigos podem surgir do uso de imagens, ainda que haja piedade: o demônio se aproveita delas para surpreender as almas imprudentes – por exemplo, por meio de aparições sobrenaturais simuladas(as imagens começam a se mover, a dar sinais etc.). A fim de evitar todos esses males, convém ‘procurar nas imagens somente o estímulo para aquilo que elas de fato representam’.(p.91)

Cuidado com a superstição

Assim, determinam que a Missa deve ser com tantas velas, nem mais nem menos, e celebrada por este ou aquele sacerdote, a tal hora, nem antes nem depois; e o que é pior e intolerável é o fato de alguns sentirem em si algum efeito dessas orações supersticiosas, como se elas fossem atendidas. Essas pessoas deveriam saber que quanto mais confiança colocam nessas cerimônias vãs e exteriores, tanto menos confiança depositam em Deus e não alcançarão o que desejam.(p.93).

Exemplo de vida

Quanto mais exemplar for sua vida, tanto maiores serão os benefícios que causará, mesmo que sua exposição seja simples, e seu estilo pobre.(p.94).

Almas do purgatório

As almas do purgatório padecem dúvida quanto ao término dos seus sofrimentos. Elas já possuem as virtudes teologais e notam que amam a Deus, mas não se consolam com isso – parece-lhes que Deus não as quer.

“E assim, nesta purificação, embora a alma queira bem a Deus e daria mil vidas por ele…isso não lhe serve de alívio; antes, causa maior sofrimento. Pois ela o ama tanto que não pensa em outra coisa, e vê-se tão miserável que não pode crer que a Deus a queira bem, nem tenha jamais motivo para fazê-lo…”ela sofre por ver em si os motivos que a fazem merecer o repúdio daquele a quem ela tanto ama e deseja.

Na verdade esse não é o momento de falar com Deus, mas de calar-se e humilhar-se, ‘suportando com paciência a purificação.’(p.108).

Sofrimento

No sofrimento, a alma recebe força de Deus, ao passo que no agir e gozar põe à mostra suas fraquezas e imperfeições. Ademais, no sofrimento, vão sendo exercidas e adquiridas as virtudes, e a alma vai-se purificando e se tornando mais cautelosa e sábia.(p.117).

Tempo de bonança e aflições

A alma está sujeita a altos e baixos; à prosperidade segue-se sempre alguma tempestade ou aflição. Tanto assim que parece ter sido dada à alma aquela bonança com a finalidade de preveni-la e robustecê-la para a penúria seguinte.(p.119).

Degraus do amor

O primeiro degrau do amor faz a alma adoecer em seu próprio bem…A alma morre para o pecado e para todas as coisas que não são Deus.O segundo degrau faz a alma buscar incessantemente a Deus…O terceiro degrau a estimula a agir e lhe dá calor, para que ela não desfaleça. Neste estágio a alma considera pequena as obras heróicas que faz pelo Amado..o longo tempo em que a ele serve, julga-o breve…O quarto degrau causa na alma um habitual ‘suportar sem fatigar-se’. O amor faz com que todas as coisas grandes, graves e pesadas nada lhe pareçam…O quinto degrau do amor faz a alma desejar e cobiçar a Deus impacientemente….

No sexto degrau, a alma corre ligeiramente para Deus com freqüência sente sua proximidade…pois aqui o amor já lhe deu forças, fazendo-a voar rapidamente. A ligeireza que agora lhe é peculiar é causada pela grande dilatação da caridade…o oitavo degrau, que consiste em apoderar-se do amado e a ele se unir…O nono degrau corresponde aos perfeitos, que ardem no amor de Deus com muita suavidade…

O décimo e último degrau da escada secreta do amor já não mais pertence a esta vida. Este degrau faz a alma assemelhar-se totalmente a Deus, em virtude da clara visão de Deus que ela possuíra imediatamente ao sair do corpo, se tiver alcançado nesta vida o nono grau. Estas poucas almas não passam pelo purgatório, pois já estão perfeitamente purificadas pelo amor.(p.122).

O amor

O amor, em sua realização plena, consiste na união pela entrega livre e mútua:é essa a vida interna da Santíssima Trindade. Tanto o amor humano desejoso, ansioso, (EROS) como o amor a Deus, misericordiosamente voltado para as criaturas(‘CARITAS’), tendem a essa plenitude.(p.147).

O verdadeiro amor a Deus

A alma, doravante, só encontra prazer em Deus, sem intromissão de criatura alguma: ela goza de Deus somente pelo que ele é em si mesmo, sem que intervenha outro gozo.(p.175).

Uma vez tocada intimamente por Deus, a alma não encontra repouso em coisa alguma que não seja Deus. “Para os feridos de amor, não pode haver remédio que não provenha daquele que feriu!”(p.190).Nessa profunda solidão, ele a introduz nos mistérios ocultos de sua sabedoria, fazendo-a inflamar-se em amor. (p.191).

Dores físicas

Assim os espíritos maus instigam os desejos, para provocar confusão na alma. Entretanto, se não conseguirem seus intuitos, atacarão a alma com dores físicas e com gritos. O sofrimento chega a tornar-se insuportável quando atormentam a alma com fantasias e angústias….Contudo, se se sentir inquietada pedirá aos anjos ‘que cacem as raposas’, porque eles têm a tarefa de afugentar os maus espíritos.(p.200).

Julgamentos do mundo

Se o mundo disser que esse homem que não mais quer saber de seus negócios e distrações está perdido, a alma aceitará essa repreensão com muito prazer. Ela confessa e afirma com franqueza: “Sim, eu me perdi”. Perder-se assim equivale a ganhar-se. Ela “não pretende ganho ou prêmio, e sim perder a tudo e a si própria, só querendo Deus”…se relaciona só com fé e amor.(p.211).

Lembrança das antigas faltas ajuda a manter a humildade

A alma não deve esquecer-se de suas antigas faltas:assim, nunca haverá de tornar-se presunçosa e há de manter-se sempre agradecida, o que faz crescer sua confiança para receber graças ainda maiores.(p.212-213).

Duas asas para a alma unir-se a Deus

“Duas coisas servem de asas à alma para subir à união com Deus: são a compaixão afetiva pela morte de Cristo e pelo próximo.”(São João da Cruz)

Fonte: A Ciência da Cruz. Edith Stein. 5. ed. 2008. Edições Loyola.


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