Biografia dos Santos

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“Sem Maria não somos nada e com Maria temos tudo porque Maria tem sempre seu adorável Filho nos braços ou em seu coração”.

São Marcelino Champagnat

«Liberdade, igualdade e fraternidade » é o grito dos revolucionários da França. Estamos no ano de 1789.Rosey é uma aldeia do município de Marlhes, numa zona montanhosa. A uns cinqüenta quilômetros se encontra a cidade de Lião. No dia 20 de maio, nasce o nono filho da família Champagnat Chirat. No batismo, seus pais lhe dão o nome de Marcelino.

João Batista, seu pai, exerce importantes cargos políticos. Tem o apreço das pessoas devido a seu bom critério e seu espírito conciliador..

Sua mãe se chama Maria Teresa. Toma conta dos afazeres domésticos e se dedica especialmente à educação de seus filhos. Ensina-lhes a amar Maria, a mãe de Jesus. Quer que sejam bons cristãos e virtuosos cidadãos.

Marcelino é o mais pequeno dos irmãos. Mesmo que algumas vezes brigam entre si …, sentem-se unidos e demonstram verdadeiro afeto.

Uma tia sua, freira, foge da perseguição religiosa. Chama-se Luisa. Acolhem-na em sua casa. Ela prepara Marcelino para a primeira comunhão. É um bom exemplo que sempre recordará.

O primeiro dia de aula foi horrível. O professor dá uma bofetada num colega que se adianta para ler. Por isso, não quer voltar à escola. Prefere levar o rebanho para as pastagens.

Com seu pai aprende a realizar diversos trabalhos manuais. Como é muito esperto e tem bom faro para os negócios,
consegue economizar algum dinheiro com a venda dos cordeiros.

Um dia, durante a catequese, o padre dá um apelido humilhante a um colega de aula que, a partir de então, torna-se muito esquivo. Nunca o esquecerá. Crê que todo mundo merece respeito.

França passa por momentos de grande ignorância. As crianças não têm escola ou assistem a escolas deficientes. Necessitam-se bons professores e também sacerdotes.

Um sacerdote apresenta-se em sua casa para saber se algum dos meninos quer ir ao seminário. O filho mais velho diz que não. Depois fala com Marcelino, que acaba de regressar do trabalho.

«Você precisa estudar para ser sacerdote, Deus o quer », diz, depois de ver que Marcelino é aberto e simples. Marcelino responde : « Quero ir ao seminário. Acertarei, uma vez que Deus assim o quer ».

Pouco antes de ir ao seminário, falece seu pai.
Marcelino tem quinze anos. É um golpe muito duro porque gostava dele profundamente.

Aos 16 anos entra no seminário de Verrières. É fácil distingui-lo por sua estatura. Alguns se riem dele. Mas, pouco a pouco, consegue o respeito e a amizade dos seus companheiros.

Enquanto Napoleão governa a França e busca a glória através das guerras, Marcelino se esforça para conquistar a ciência e a piedade.

No início, nem tudo transcorre bem. Parte de uma preparação escolar muito deficiente, exigindo-lhe muitas horas de estudo para alcançar o nível da turma.

Melhora sua conduta e rendimento. É nomeado de vigilante do dormitório, o que lhe permite dedicar mais tempo aos livros. Quer ser merecedor da confiança que lhe outorgaram.

Sua mãe, que o apoiou nos momentos de maior dificuldade, falece quando Marcelino tem vinte anos. Sempre se esforçará para ser digno dela.

Segue para o seminário maior de Lião para estudar teologia.
Já não é mais um menino. Tem vinte e quatro anos. Cada vez está mais próximo de sua ansiosa ordenação sacerdotal.

Aproveita as férias para formar grupos de recreação e convivência com os meninos e meninas do seu povoado.
Organiza-lhes jogos e ensina-lhes a amar a Deus. Cada ano esperam o verão para estar com ele.

Freqüentemente se reúne com um grupo de amigos do seminário. Querem fundar uma Sociedade que leve o nome de Maria para o apostolado e as missões.
Estão muito entusiasmados.

Além disso, ele tem outro projeto. Crê que são necessários professores e educadores que se dediquem sobretudo às crianças e aos jovens. Por isso, repete : « Necessitamos irmãos ». Encarregam-no de sua fundação.

Uma enfermidade interrrompe seus estudos. Os ares do povoado e o trabalho do campo lhe ajudam a recuperar-se.
Nada o afastará de sua vocação.

Chega o grande dia em que vai ser ordenado sacerdote, junto com outros cinqüenta e dois companheiros. A catedral de Lião está totalmente abarrotada. O calendário marca o dia 22 de julho de 1816.

No dia seguinte, sobe ao Seminário de Fourvière com um grupo de amigos para consagrar-se à Virgem. Assim começa o projeto de fundação da Sociedade de Maria.

Recebe seu primeiro destino : vigário de La Valla, um povoadinho entre montanhas. Chega ali a pé. Ao ver as casas, ajoelha-se e reza a Deus e à sua Boa Mãe com esperança e confiança.

A paróquia está quase abandonada. As bebedeiras e outros problemas graves exigem uma atitude firme e compreensiva. Marcelino, que é um sacerdote dinâmico e jovem, produz um grande impacto.

A catequese se converte em motivo de alegria para as crianças, mesmo que alguns precisam caminhar longo trecho para chegar à igreja. Trata-lhes com afeto. Prefere a recompensa ao castigo.

Fala aos adultos de um jeito que todos o escutam e lhe fazem caso. Cuida com especial carinho dos enfermos e dos pobres, que são seus preferidos.

Chamam-no para confessar um rapaz de dezessete anos, muito enfermo – João Batista Montagne. Vê que quase nada sabe de religião. Fala ao jovem de Jesus e ajuda-lhe a morrer em paz. Havia chegado a tempo. Mas …

A situação requer uma resposta. Pouco depois, no dia 2 de janeiro de 1817, funda o Instituto dos Irmãozinhos de Maria. Dois Jovens são os primeiros a morar bem próximo da paróquia.

Os Irmãos não são sacerdotes. Consagram-se a Deus como religiosos para educar cristãmente as crianças e jovens. Crêem que sua presença entre eles é a melhor forma de educá-los.

Para realizar esta missão é preciso preparar-se. Vivem na pobreza, rezam, estudam e trabalham manualmente fabricando pregos para seu sustento. Também encontram tempo para o lazer e a convivência.

Marcelino funda uma escola em Marlhes. Rapidamente o êxito se estende pelas redondezas. As crianças não estão acostumadas com professores que compartilham sua vida com eles de forma tão simples e amistosa.

Muitos povoados querem ter uma escola de Irmãos. Pedem-na a Marcelino. Contudo, as vocações são escassas.
Como sempre, reza à Boa Mãe : « Mãe, ajuda-nos ; é a sua família ».

De forma surpreendente e inesperada, oito jovens pedem para ser Irmãozinhos. Marcelino sente sua confiança crescer.

Regressando de visita a uma escola com o Ir. Estanislau, uma tempestade de neve cobre os caminhos. Perdidos e esgotados, rezam à Virgem e vêem uma luz .. ; acolhidos, podem passar a noite.

Muitos jovens desejam fazer-se Irmãozinhos de Maria. A casa onde residem começa a ficar demasiado pequena.
Necessitam construir outra maior, nova, que os acolha a todos sem problemas.

Encontra, junto ao córrego do Gier, uma propriedade rochosa. Isto faz com que seja barata. Como não tem dinheiro, não pode escolher. Decide comprá-la. Situa-se no fundo de um vale.

Os Irmãos participam na construção. Marcelino colabora como pedreiro. Como é bastante forte, encarrega-se das pedras mais pesadas. A casa, inaugurada em 1825, recebe o nome de Nossa Senhora de l’Hermitage.

Marcelino deixa a paróquia de La Valla e vai morar junto com os Irmãos. A vida é simples ; a comida, frugal. Todos estão contentes em poder viver juntos.

Costumam realizar brincadeiras. Num entardecer, já escuro, o Ir. Silvestre monta a cavalo sobre um que sobe a escada : « Quietinho e até chegar em cima » … Quando chegam, percebe que é Marcelino.

Viajar a pé, em condições difíceis, e com um clima rigoroso, faz com que Marcelino adoeça. A enfermidade parece grave. Não há esperanças de recuperação.

Outro sacerdote, Courveille, quer governar os Irmãos. Sua forma áspera de tratá-los e a possível morte de Marcelino os aflige. Alguns, desanimados, querem voltar para suas casas.

O Irmão Estanislau não perde a confiança. Modera os excessos do senhor Courveille e anima os Irmãos a continuar fielmente seu caminho.

Marcelino levanta-se da cama e assiste a uma reunião da comunidade. Todos renovam sua confiança nele. Pouco a pouco recupera sua saúde, restabelecendo-se totalmente.

Os párocos e os prefeitos o chamam por toda parte.
O crescimento das escolas não cessa.
Continuamente surgem novos centros.

A revolução de 1830, em Paris, obriga ao fechamento de muitos seminários. Marcelino não tem medo e continua admitindo a novos Irmãos no Instituto.

Suas cartas aos Irmãos transmitem afeto, alegria e confiança. Anima-os nas dificuldades. Orienta-os em seus problemas. Para todos tem a palavra adequada.

As crianças … Como gosta de estar entre elas, passar pelas turmas, falar-lhes do amor de Jesus, pedir-lhes a lição, instruí-los e educá-los !.

Viaja a Paris para obter a aprovação legal dos Irmãos. Passa três meses de gabinete em gabinete. Recebem-no sempre com boas palavras, mas a aprovação não chega.

Os três primeiros Irmãos missionários vão à Oceania.
Marcelino, que sempre desejou ir para as missões,
apenas pôde acompanhá-los com o coração e a prece.

Apesar de viver num povoado pequeno, Marcelino exclama : « Todas as dioceses do mundo entram em nossos planos ». Não há fronteira que o detenha. É um canto ao amor universal.

No ano de 1837, aparecem as primeiras Regras escritas.
Constituem um conjunto de normas surgidas da experiência. Está muito satisfeito com elas porque são garantia de futuro para o Instituto.

Consciente de que sobra pouco tempo, crê que é chegada a hora de que os Irmãos elejam um superior entre eles.
Celebram eleições. Reunidos num total de noventa e dois, elegem o Irmão Francisco.

Mesmo com sua saúde debilitada, fala de Jesus ao alunos
Expressa-se com tal sinceridade que sua ternura impressiona a todos. Sempre lembrarão dele como a um santo.

Chega um momento em que não pode seguir. Suas forças se esgotam. As pernas já não o sustentam mais. Deve permanecer no leito.

Os Irmãos evitam qualquer ruído. Marcelino está enfermo e eles preocupados. A dor se converte em delicadeza. A prece se intensifica. Vivem o drama de uma enfermidade irreversível.

Alguns dias que antecedem sua morte, dita seu testamento, alguns conselhos para os Irmãos : « Amai-vos uns aos outros. Amai a nossa Boa Mãe e ensinai a amá-la. Sede modelos para os jovens.

Morre em l’Hermitage, às quatro e meia da manhã do dia 6 de junho de 1840, aos cinqüenta e um anos de idade, enquanto a comunidade canta a Salve Rainha diária à Virgem

A pequena semente que deixa Marcelino, ainda hoje produz seus frutos em mais de setenta países dos cinco continentes.

Os Irmãos estão junto às crianças e os jovens, especialmente dos mais necessitados. Escutam seus apelos lá onde estão. Conhecem seus problemas. Oferecem a presença de um amigo.

Junto com muitos outros educadores leigos, os Irmãos convertem suas escolas num lugar de encontro e de estudo, de convivência e esporte, de amizade e de oração. Isto é, uma verdadeira família.

Muitos rezam a Marcelino. Algumas pessoas gravemente enfermas foram curadas por sua intercessão : uma senhora nos Estados Unidos, um jovem em Madagascar, um Irmão marista no Uruguai…

A 18 de abril de 1999, aconteceu a canonização de Marcelino pelo Papa João Paulo II. A Igreja, ao declará-lo Santo, apresenta-o a todos os fiéis como um modelo de vida cristã.

Fonte:http://www.champagnat.org/pt/210805000.htm

São Marcelino Champagnat ajudava os pobres e a reconciliação das famílias

Inicio

A França acabava de sair do caos em que a Revolução a mergulhara. A Igreja, novamente livre, purificava os templos que a impiedade não destruíra. Reconstruía, pelo menos em parte, o que a Tormea da Revolução arruinara. Reorganizava seus quadros sacerdotais e se esforçava por preencher as lacunas que o martírio, a apostasia e a morte havia causado em suas fileiras. À frente da Diocese de Lião se encontrava, na época, o ilustre e piedoso cardeal Fesch, tio do imperador Napoleão.(p.1)

O filho abençoado que teve, e que viria a ser tão ilustre servo de Maria, foi, sem dúvida, a recompensa de sua devoção à excelsa Mãe de Deus e de sua fidelidade em honrá-la. Amamentou-o e educou-o pessoalmente, como aliás, procedera com os outros filhos. Logo que balbuciou as primeiras palavras teve ela ao maior cuidado em lhe ensinar as orações comuns do cristão e fazê-lo repetir com freqüência os santos nomes de Jesus e Maria.(p.2-3)

Amor terno da Mãe

Embora amasse com ternura todos os filhos, tinha afeição especial pelo pequeno Marcelino, não por ser o caçula, mas por pressentir o que ele seria mais tarde. Esse pressentimento foi confirmado por um sinal, que pode ser considerado sobrenatural, e prenunciava os desígnios de Deus sobre estas crianças e o bem que, por meio dela, queria fazer à sua Igreja. Várias vezes, ao aproximar-se do berço em que dormia o nenê, ela percebeu uma chama luminosa que parecia sair-lhes do peito e, após rodear-lhe a cabeça, elevava-se e se espalhava pelo quarto. Esse fato impressionou-a causando-lhe medo e admiração, e não duvidou mais de que o céu tivesse para a criança planos de misericórdia, desconhecidos por elas, mas com os quais devia colaborar, educando-a de modo todo particular na piedade.(p.3).

Professor que ajudou a torná-lo tímido

A mãe e a tia, sem condições de ensiná-lo a ler senão imperfeitamente, enviaram-no a um professor para aperfeiçoar-lhe a leitura e ensinar-lhe a escrever. No primeiro dia, como era tímido e não ousava sair de seu lugar, o mestre o chamou junto a si para a leitura, mas outro aluno apresentou-se e apostou-se à frente de Marcelino. O mestre, tomado de nervosismo, pensando talvez em agradar ao jovem Marcelino, deu uma bofetada no rapaz que se adiantara e mandou-o chorando para o fundo da sala. Tal atitude não era de molde a tranqüilizar o novo aluno, menos ainda levá-lo a curar sua timidez. Ele diria mais tarde que tremia todo e tinha mais vontade de chorar que de ler. Essa brutalidade revoltou-lhe o espírito de justiça. Pensou consigo: não volto à escola de um tal mestre; o tratamento injusto dado àquele menino prova o que posso esperar dele. Na primeira ocasião poderá tratar-me de igual maneira. Não me interessam, pois, nem suas lições e menos ainda seus castigos. De fato, apesar das instâncias dos pais não quis mais voltar a estudar com aquele professor.(p.3-4).

Chamado vocacional

O Pe. Courbon, de Saint-Genest-Malifaux, tinha especial estima pelo Pe. Allirot, pároco de Marlhes. Por intermédio de um professor do seminário maior, natural da região, que lá passaria alguns dias de férias, pediu-lhe que procurasse alguns jovens inteligentes, piedosos e com inclinação para a vida sacerdotal.
…O segundo mais velho e o caçula Marcelino, que estavam juntos no moinho, chegaram naquele instante:
– Olhem, diz-lhes o pai, o padre veio buscá-los para estudarem latim; querem ir com ele?
A resposta do maior foi clara: pronunciou um não seco, mas expressivo. Marcelino, embaraçado, balbuciou algumas palavras inaudíveis. Mas o sacerdote tomou-o à parte para examiná-lo mais de perto. Ficou tão encantado com sua simplicidade, candura, modéstia, com o espírito aberto e leal, que lhe disse: “Meu rapaz, você precisa estudar latim e ser padre; Deus o quer”.
Após alguns momentos de conversa, Marcelino estava decidido a respeito de sua vocação e sua decisão foi irrevogável.(p.8-9).

…Pouco importa, acrescenta o prelado, a maneira pela qual alguém ingressou, contanto que persevere. Aqueles que foram coagidos a entrar no banquete nupcial do Evangelho, nem por isso deixaram de provar-lhe as delícias. Muitas pessoas foram levadas às casas religiosas por estes últimos meios, lá perseveraram, tornaram-se grandes servos de Deus e excelentes religiosos.

Pelo contrário, muitos dos chamados por vias extraordinárias não perseveraram e se perderam. Judas é uma prova disso. Fora escolhido diretamente por Jesus como os demais apóstolos.

A decisão assumida por Marcelino Champagnat de aprender o latim não era veleidade. Os pais, cientes dos fracos dotes do filho, tentaram dissuadi-lo, alegando as dificuldades que tivera na aprendizagem da leitura e a falta de gosto pelo estudo. Tudo o que disseram foi inútil. O rapaz perdeu o atrativo pelos trabalhos e pelo pequeno comércio, aos quais outrora se dedicara com tanto afinco. Sua resolução estava tomada e respondeu claramente que só pensava em estudar. Por ele, teria entrado imediatamente no seminário, mas o que sabia de ler e escrever era insuficiente para iniciar o latim, pediu, pois, aos pais para morar, durante algum tempo, com um de seus tios, professor na paróquia de Saint-Sauveur. Conhecedor do latim, ele podia ensinar-lhe os primeiros rudimentos, enquanto aperfeiçoava a instrução primária. Passou um ano na casa do tio, que lhe dispensou o máximo cuidado sem, no entanto, conseguir dele progressos sensíveis. Assim, no fim do ano achou que o sobrinho não devia entrar no seminário.(p.9-10).

Na época de seu ingresso no seminário, acharam-no tão atrasado em leitura e escrita, que o aconselharam a estudar francês durante alguns meses. Nem quis ouvir falar nisso e pediu encarecidamente ao superior para começar o estudo do latim. Para contentá-lo, o superior consentiu, convencido de que dentro de alguns dias, acabaria se aborrecendo, e viria pedir para freqüentar a aula de leitura. Deu-se porém, o contrário: no fim de poucos meses, figurava entre os primeiros da classe e neste primeiro ano completou a oitava e a sétima séries.
A aplicação ao estudo não lhe prejudicou o cuidado pela perfeição. Tinha, de fato, grande desejo de instruir-se, pois não ignorava que a ciência lhe seria necessária; mas, acima de tudo, desejava tornar-se virtuoso. A vida ordenada do seminário, os exercícios de piedade que nele se praticavam, os conselhos, a sábia direção dos superiores e os exemplos edificantes que presenciavam propiciaram-lhe os recursos que soube aproveitar. Os exercícios de piedade tinham, para ele, um encanto especial: deles participava com muito fervor e modéstia, o que imediatamente chamou a atenção dos superiores e dos alunos. Não contente com as orações comunitárias, pedia muitas vezes para rezar em particular; gostava, sobretudo, de visitar Jesus sacramentado, durante os recreios. A devoção a Maria Santíssima, a S. Luiz Gonzaga e S. Francisco Régis cresceu com as instruções e práticas de piedade do seminário em honra da mãe de Deus e destes dois grandes santos. Até aí contentaram-se com a recepção mensal dos sacramentos. No seminário pediu para comungar quinzenalmente, e depois, cada domingo. As cerimônias litúrgicas, que no seminário se revestiam de pompa, encantavam seu coração e o fazia, transbordar de sentimentos afetuosos, dificilmente contidos. Freqüentes vezes os cantos religiosos lhe arrancaram lágrimas, especialmente o cântico de Santa Teresa sobre a santa comunhão e o desejo da morte.(p.12-13).

Compromissos

No desejo de cumprir os dois compromissos, tomou as seguintes resoluções:
1º) impor-me-ei uma penitência cada vez que o orgulho me dominar, isto é, todas as vezes que eu cometer uma falta, de orgulho, por pensamento ou por palavras;
2º) conversarei indistintamente com todos os meus colegas, prestando-lhes, em todas as ocasiões, todos os obséquios possíveis, apesar da repugnância que possa sentir, pois reconheço que esta repugnância tem sua raiz no orgulho;
3º) considerar-me-ei o último entre meus companheiros e não me anteporei a nenhum deles. Sinceramente por que preferir-me a alguém? Seria por causa dos meus talentos? Não tenho nenhum e sou o último da aula. Seria por causa das minhas virtudes? Tenho menos ainda e estou cheio de orgulho. Seria pela formosura do meu corpo? Foi Deus que o fez e, para dizer a verdade, é bastante desajeitado. Em suma, não passo de um punhado de pó. Vangloriar-me de quê?
4º) nos recreios andarei e passearei com qualquer um, sem distinção, e procurarei não ser exibido em palavras;
5º) cuidarei, sobretudo, de não falar mal de ninguém e sob pretexto nenhum;
6º) entre um recreio e outro observarei sempre o silêncio; não falarei durante as aulas, nem nos corredores, nem na subida da escada, nem por sinais, nem por outro modo, sem grande necessidade;
7º) durante a aula, a conferência e outros exercícios que exigem atenção, não só não falarei, mas também farei todo o possível para ficar sempre atento;
8º) depois da aula ou da conferência, farei uma visita ao Santíssimo Sacramento para, diante de nosso Senhor, examinar se cumprir essas resoluções, e pedir-lhe a humildade.
Meu Deus, prometo, com vosso auxílio, fazer todos os esforços para ser fiel a essas resoluções. Conheceis, porém, minha fraqueza. Tende piedade de mim, eu vo-lo suplico, dai-me a graça de não pecar por palavras. Virgem santa, rogai por mim. Sabeis que sou vosso escravo. Na verdade, sou indigno de tão grande favor. Contudo, minha indignidade fará brilhar vossa bondade e vossa misericórdia para comigo.

Utilização do tempo

Repartia o tempo entre a oração e o estudo da Teologia. Assim, todos os seus momentos estavam tomados. Até as horas de lazer deixaram de ser tempo desperdiçado; passava-as em piedosas conversas com os colegas, praticando atos de caridade como servi aos doentes, adornar os altares, varrer a igreja, ou visitando Jesus na Eucaristia, quando a licença lhe era concedida.(p.17).

Regras(p.18-20)

O comportamento do clérigo Champagnat não era muito diferente durante as férias, passadas com a família. Pode-se ter uma idéia através do regulamento que traçou a si mesmo e oberservou com o máximo rigor. Transcrevemo-lo aqui, textualmente, para edificação do leitor:

1º) Passarei as férias com a família.
2º) Farei poucas vigens.
3º) Adaptarei-me-ei, enquanto possível, ao modo de vida de minha família. Tratarei a todos com respeito, carinho e caridade. Esforçar-me-ei para conquistá-los todos a Jesus Cristo, com meus exemplos e minhas palavras. Não direi nenhuma palavra capaz de ofendê-los ou magoá-los.
4º) Levantar-me-ei, normalmente, às cinco horas, e nunca depois das cinco e meia.
5º) Reservarei, pelo menos, quinze minutos para meditação.
6º) Assistirei a missa, se possível, todos os dias. Após a missa voltarei imediatamente para estudar Teologia, pelo menos durante uma hora.
7º) Às onze e quarenta e cinco, exame particular como no seminário maior. Em seguida, o almoço, precedido da bênção da comida.
8º) Sempre me levantarei da mesa ainda com apetite para evitar a intemperança e outros vícios que dele se originam.
9º) Farei um oratório, dedicado a Nossa Senhora e a S. Luís Gonzaga, e aí, prostrado diante do crucifixo, adorarei em espírito o Santíssimo Sacramento e farei, com o máximo recolhimento, os meus exercícios de piedade.
10º) Jejuarei todas as sextas-feiras em honra da morte e paixão de nosso Redentor.
11º) Ensinarei aos ignorantes, ricos ou pobres, os mistérios da salvação.
12º) Visitarei os doentes, quantas vezes for possível.
13º) Para as confissões e comunhões, seguirei a orientação do meu diretor espiritual.
14º) Tratarei de nunca ficar sozinho com pessoas de outro sexo.
15º) Durante o estudo da noite, dedicarei mais uma hora à Teologia.
16º) Farei a oração da noite com a família e lerei o assunto da meditação do dia seguinte, individualmente.

É com vosso auxílio, Virgem Santíssima, minha divina Mãe, que desejo observar este pequeno regulamento; fazei que vosso divino Filho o aceite e que, durante as férias e por toda minha vida, me preserve do pecado e de tudo o que possa desagradar-lhe.

Esse regularmento foi feito para as primeiras férias do seminário maior; por mais rigoroso que pareça, nos anos ulteriores acrescentou os itens seguintes:

1º) Após o levantar, sempre às cinco horas, farei meia hora de meditação, rezarei as horas menores e irei à santa missa.
2º) Pela manhã, dedicarei uma hora ao estudo da Sagrada Escritura e outra, ao estudo da Teologia.
3º) Depois do almoço, tirarei uma folga de hora e meia ou, quando muito, de duas horas. Havendo algum doente na vizinhança ou alguma pessoa necessitada de meus conselhos, usarei esse tempo para visitá-las.
4º) Terminada a folga, ocupar-me-ei com segue: durante uma hora, recordarei os tratados de Teologia, já estudados; e lerei, durante uma hora, alguma obra ascética que trate das virtudes necessárias a um bom padre.
5º) Depois dos estudos e da leitura, folga de uma hora; em seguida, recitação do ofício, isto é, das vésperas e completas, matinas e laudes do dia seguinte.
6º) Antes do jantar, reservarei meia hora a alguma leitura piedosa.
7º) Todos os domingos e dias santos, participarei das missas e das vésperas. Quanto à comunhão, seguirei, tanto quanto possível, a prática do seminário.
8º) Nesses dias, reservarei pela manhã, entre as duas missas, uma hora para ler a Sagrada Escritura; e à tardinha, após os ofícios, se possível, darei catecismo às crianças. À noitinha, tratarei de consagrar uma hora ao estudo da Teologia.
9º) Reduzirei ao mínimo as visitas de cortesia.
10º) Evitarei os jogos de azar ou qualquer um que possa escandalizar as pessoas. Durante os tempos de folga, ocupar-me-ei com algum trabalho manual.

Virgem santíssima, sem vosso amparo, sou incapaz de cumprir essas resoluções. Por isso, imploro vosso poderoso auxílio junto a Deus: espero que me alcanceis a graça de observá-las fielmente, para maior glória de vosso Filho. S. Francisco Régis, vós que podeis tanto junto a Deus, mediante vossa intercessão, espero e rogo a graça de cumprir esse regulamento que me prescrevi.

Vida em casa

Houve quem dissesse que o Pe. Champagnat era cristão austero. Realmente, durante toda a vida manisfestou gosto acentuado pela penitência e pela mortificação. Extremamente reservado e discreto em todos os atos e em toda sua pessoa, intransigente para consigo mesmo, inimigo das comodidades e de tudo que pudesse lisonjear a natureza, sóbrio no comer e no beber, recusava tudo quando servisse apenas para satisfazer o gosto e a sensualidade. Na casa dos pais vivia como eles, não aceitando que lhe preparasse qualquer coisa de especial ou se fizesse algo extraordinário por causa dele. Pontual em tomar as refeições com a família para não pertubá-la, não queria que se mudasse nada, nem quanto à hora, nem quanto ao cardápio habitual. Nada tomava fora das refeições, nem uma fruta, nem sequer um copo d’água.

Cerejeira e a gula

Certa vez, passando debaixo de uma cerejeira, tentado pelas frutas, apanhou uma e colocou na boca. Na mesma hora, porém, se repreendeu de tal imortificação: “O quê?! Diz lá consigo mesmo, eu ser escravo da sensualidade? Não. Isso não vai acontecer”. Cuspiu então a cerejeira meio mastigada, pisou-a, prometendo a Deus não se deixar vencer novamente pelo demônio da gula.

Jovens Irmãos, encarregados dos bens temporais das casas, vocês estão expostos à tentação. Quando o demônio da gula lhes sugerir o pensamento de comer fora das refeições, recordem-se do exemplo de seu piedoso Fundador e mostrem-se fiéis imitadores seus. O espírito das trevas e a sensualidade lhes dirão que é uma ninharia comer guloseimas que estão constantemente diante de seus olhos ou nas suas mãos, comer uma dessas frutas, tomar algum alimento, alguma bebida que, parece, estão precisando. Cair uma vezinha na tentação pode ser uma insignificância; não podemos, porém, dizer o mesmo do hábito.(p.22).

Sociedade de Maria

Nesse tempo foram lançados os primeiros alicerces da Sociedade de Maria. Alguns seminaristas, à frente dos quais se achavam Colin e Champagnat, se reuniam freqüentemente para animar-se na piedade e no exercício das virtudes sacerdotais. O Zelo pela salvação das almas e a procura dos meios para consegui-la eram o assunto mais comum de seus econtros. Da comunicação recíproca dos sentimentos, surgiu a idéia da fundação de uma sociedade de padres, cuja finalidade principal seria trabalhar na salvação das almas, através das missões e da educação da juventude.

A devoção especial desse grupo de elite para com a Santíssima Virgem levou-os a colocar a nova Sociedade sob o patrocínio da Mãe de Deus, denominando-a Sociedade de Maria. Após planejarem juntos o piedoso intento e haverem-no recomendado demoradamente a Deus e àquela que escolhiam para ser de maneira a especial mãe e padroeira, comunicaram o projeto ao Pe. Cholleton, diretor do seminário maior. O venerando diretor, conhecendo-lhes a piedade e a virtude, aplaudiu e aprovou o projeto, estimulando-os a que o levassem avante. Além disso, ele mesmo quis participar do grupo, pôs-se à frente e, de tempos em tempos, reunia-os no seu escritório, para dirigi-los e animá-los e com eles traçar os planos da nova associação. Numa dessas sessões, combinaram fazzer juntos uma perigrinação a Fourvières, ao fim de colocar aos pés de Maria o plano da nova associação.
Os jovens seminaristas, o Pe. Cholleton à frente, subiram, pois, ao santuário de Maria, confiaram a seu coração maternal o piedoso intento, pedindo-lhe que o abençoasse, se fosse para a glória de seu divino Filho. Realmente a divina Mãe abençoou-o. E, com esta bênção, a nova sociedade, nascida sob seus auspícios e no seu santuário, cresceu e viu seus filhos multiplicarem-se como as estrelas do firmamento.

Entrentanto, no plano da nova agremiação, ninguém cogitara de Irmãos para o ensino. Somente Champagnat acalentou o projeto dessa instituição e o realizou sozinho. Freqüentemente repetia aos companheiros: “Precisamos de Irmãos, precisamos de Irmãos que ensinem o catecismo. Ajudem os missionários e eduquem as crianças”. Ninguém contestava que fosse bom ter Irmãos; mas como esta fundação não fazia parte dos planos da nova sociedade, davam pouca mportância ao eterno estrebilho: Precisamos de Irmãos. Finalmente os confrades lhe disseram: “Pois bem, encarregue-se você dos Irmãos, pois teve a idéia de fundá-los.” Champagnat aceitou prazeroso a missão e, a partir daquele momento, todos os seus anseios, planos e trabalhos tiveram por meta realizar o empreendimento.(p.24-25).

Sabedoria no seminário

Um dia, alguns seminaristas lhe falaram do desejo de serem designados para este ou aquele lugar e confessaram-lhe que estavam dispostos a tomar as medidas necessárias junto aos superiores para conseguirem. “Pelo que toca a mim, disse-lhes Marcelino, jamais faria isso, pois, se pedisse um cargo e nele mais adiante encontrasse dificuldades e tribulações, com certeza me assaltaria o pensamento de que tinha sido eu o responsável por esses sofrimentos e não era lá que Deus me queria. Ao passo que, confiando-me à Providência e obedecendo, estarei sempre contente, com a certeza de estar onde Deus me quer; em qualquer circunstância poderei dizer: “Fostes vós, Senhor, que me confiastes este trabalho; de vós espero o socorro e as graças necessárias para nele fazer o bem”.

A um seminarista, que lhe manisfestara o desejo de ser nomeado para uma paróquia próxima de seus pais, a fim de visitá-los mais amiúde e prestar-lhes assistência, Champagnat respondeu: “Um padre dever ser como Melquisedeque, sem pais; isto é, não deve ocupar-se deles. Não somos sacerdotes para sermos úteis às nossas famílias, mas para servir a Igreja e salvar as almas. Se visitar freqüentemente os pais ou se deles receber muitas visitas, a toda hora estarão lhe falando de seus negócios temporais. Acabará por interessar-se e preocupar-se com isso; e essa preocupação diminuirá a piedade, o zelo e provocará desleixo nas sublimes funções de seu santo ministério. Além disso, essas relações vão provocar maledicência das pessoas do mundo, escandalizar os fiéis e diminuir-lhes a estima e a confiança. O desejo de viver perto de seus pais é, pois, uma tentação. Deve combatê-la se quiser tornar-se padre segundo a vontade de Deus.”

Era com tais disposições e idéias que Champagnat se preparava para a ordenação sacerdotal. Em 6 de janeiro de 1814, solenidade da Epifania do Senhor, receberá do cardeal Fesch, arcebispo de Lião, a tonsura clerical, as quatro ordens menores e o subdiaconato, na capela do palácio arquiepiscopal, com a idde de vinte e quatro anos, sete meses e dezessete dias. Desde então celebrou sempre a festa com particular devoção, como agradecimento ao Senhor por havê-lo chamado precisamente nesse dia ao sagrado ministéio. No ano seguinte foi ordenado diácono.(p.26-27).

Oração:

Virgem Santa, tesouro das misericórdias e canal das graças, a vós levanto as mãos suplicantes. Instantemente vos peço me tomeis sob vossa proteção e intercedei por mim junto ao vosso adarável Filho, a fim de que me conceda as graças necessárias para me tornar digno ministro do altar. Com o vosso amparo quero trabalhar na salvação das almas. Nada posso, ó Mãe de misericórdia! Nada posso, bem sei; mas vós podeis tudo, por vossas orações; Virgem Santa, deposito em vós toda minha confiança. Ofereço-vos, entrego e consagro minha pessoa, trabalhos e todas as ações de minha vida.
(p.28).

Serviço pós-ordenação

Pouco depois de ordenado, o Pe. Champagnat foi nomeado coadjutor de Lavalla, paróquia populosa do cantão de Saint-Chamond (Loire). Sem demora, dirige-se ao seu novo destino. Cheio de sentimentos de humldade, ao avistar o campanário de Lavalla, ajoelha-se, pede a Deus perdão de seus pecados, rogando-lhe para que não sejam obstáculo ao seu ministério. Em seguida, recomenda a Jesus e Maria as almas que lhe serão confiadas, suplicando-lhes que abençoem os trabalhos e tudo que se propõe realizar para a glória de Deus e a salvação das almas.(p.31).

Regras como sacerdote: (p.32-34).

Senhor, tudo o que existe no céu e na terra, vos pertenceste. Desejo também tornar-me propriedade vossa pela oblação voluntária, para, em tudo, cumprir vossa santa vontade e trabalhar eficazmente na minha santificação e na das pessoas que me confiastes. Neste intenção prometo-vos fidelidade ao seguinte.
1º) Vou consagrar todos os dias, pelo menos meia hora, à meditação e, quando possível, ao levantar-me antes de sair do quarto.
2º) Jamais deixarei de prever o assunto de meditação e de prepará-lo com muito cuidado.
3º) Nunca celebrarei a santa missa sem ter feito antes um quarto de hora de preparação. Após a missa, dedicarei outro quarto de hora à ação de graças.
4º) Todos os anos lerei, uma vez, as rubricas do missal.
5º) No decorrer do dia, visitarei o Santíssimo Sacramento e a Santíssima Virgem.
6º) Todas as vezes que tiver de sair para visitar um doente ou resolver alguma coisa, farei igualmente uma visita a Jesus sacrametnado e outra, a Maria. Assim também procederei ao voltar, a fim de agradecer a Deus os favores recebidos e pedir-lhes perdão das faltas que, por aventura, tiver cometido.
7º) Não esquecerei de fazer meu exame de consciência todas as noites.
8º) Sempre que no exame eu me reconhecer culpado de maledicência, aplicar-me-ei três chicotadas de disciplina. Assim farei também, quando reconhcer que pronunciei palavras de vanglória.
9º) Estudarei Teologia diariamente, durante uma hora.
10º) Não darei nenhuma instrução sem tê-la preparado.
11º) Continuamente lembrar-me-ei de que tenho Jesus no coração.
12º) Permanecerei na presença de Deus em todas minhas ações e evitarei a dissipação, com o máximo cuidado.
13º) Exercitar-me-ei, de modo particular, na virtude da mansidão; e, para atrair, mais facilmente o próximo a Deus, tratarei a todos com muita bondade.
14º) Dedicarei parte da tarde à visita aos doentes da paróquia, se houver.
15º) Depois da missa, confessarei as pessoas que se apresentarem. O restante da manhã sera reservado ao estudo, se as funções do ministério não exigirem minha presença em outra parte.
16º) Quanto às refeições, à maneira e passar o recreio e praticar os demais exercícios do dia, procurarei seguir, no que depender de mim, o Regulamento do seminário maior.
17º) Lerei esse meu regulamento e essas resoluções uma vez por mês.
18º) Todas as vezes que faltar a algum dos artigos relativos às práticas de piedade, me aplicarei a disciplina, em união aos sofrimentos de Jesus Cristo. Quero que os açoites sejam um ato de amor e de fé, e pedirei à Santíssima Virgem que ela mesma torne esse ato, insignificante em si, agradável à Santissíma Trindade”.

Para complementar esse regulamento, acrescentamos: levantava pontualmente às quatro horas; fazia a meditação e logo se encaminhava para a igreja, onde rezava a missa, exceto se alguma circunstância o obrigava a retardá-la. Ocupava o dia com a oração, o estudo e as funções do sagrado ministério. Saía raras vezes, só para visitar os doentes ou fazer alguma obra de caridade. Passava o tempo de lazer com o pároco ou se dedicava a um trabalho manual. Emfim, ia deitar geralmente entre nove e dez horas da noite.

Obediência

Para o Pe. Champagnat foi grande consolação manter-se assim em contato permanente com o pároco, tomando-o como guia de procedimento, aproveitando-lhe a experiência e formando-se, sob seus olhares e sua direção, nas sublimes funções do santo ministério. Teve sempre por ele profundo respeito e filial afeição. Disso dava provas em todas as ocasiões. Nunca fez nada sem consultá-lo, nem jamais empreendeu alguma boa obra sem lhe pedir o parecer e obter aprovação de seus projetos. Mostrou-se também sempre disposto e sempre pronto a substituí-lo para levar o santo Viático aos doentes dos povoados distantes, ou exercer outras funções difíceis do ministério sagrado. Porém, seu objeto principal era conquistar-lhe a estima e o afeto dos paroquianos. Defendia-o sempre e em toda parte, apoiava-lhe a autoridade; justificava-lhe o comportamento perante os que o censuravam e, mesmo nos casos em que não tinha razão, sabia desculpá-lo, interpretando favoravelmente o motivo da crítica. Embora às vezes tivesse motivos de queixar-se dele, como veremos, nunca deixou de proceder assim, conservando-lhe sempre amizade e dando, diariamente, provas de respeito e submissão pelos cuidados que lhe dispensava, pela dedicação em servi-lo e causar-lhe alegria.(p.34).

Cativante e Amoroso

Convencido de que, para se fazer o bem e levar as pessoas a Deus, é preciso conquistar-lhes a afeição e a estima, quando chegou a Lavalla o Pe. Champagnat tratou de conquistar a confiança de seus paroquianos. Seu caráter alegre, franco, expansivo, sua aparência simples, modesta, risonha, simpática e nobre ao mesmo tempo, contribuíram muito. Ao passar pelas ruas, e quando encontrava alguém, sempre tinha de dizer alguma coisa engraçada, uma palavra de elogio, consolo ou animação. Conversando familiarmente com todos, sabia pôr-se ao alcance de cada um, adaptar-se ao seu gênio, entender seus pontos de vistas e o modo de ver as coisas. Após haver lhe preparado o espírito, termina a rápida conversa com uma palavra de edificação, um bom conselho ou leve reparo, se fosse o caso.

Encontrando-se com crianças, muitas vezes parava para dizer-lhes palavras de animação, fazer-lhes pequena carícia, dar-lhes santinhos e fazer perguntas do catecismo, muito ansioso em relação às pessoas idosas, compreensivo e indulgente para com os jovens, repleto de caridade e compaixão para com os pobres, de bondade e caridade para com todos para levá-los a amar a religião e conquistá-los a Jesus Cristo. Porém, o que o mais contribuiu para atrair-lhe a estima e benevolência dos fieis foi sua conduta edificante, sua virtude, piedade, regularidade e fidelidade a todos os deveres. Estava sempre disponível e sempre se mostrava afável, fosse qual fosse a hora em que vinham solicitar-lhe serviços, ou chamassem à igreja ou para junto aos doentes.
p.35-36.

Um Ótimo padre

Não limitava seus cuidados às crianças que se preparavam para a primeira comunhão, mas pedia, encarecidamente, que também lhe mandasse os menores. Temendo, porém, que alguns pais, principalmente os que moravam mais longe da igreja, não atendessem às suas recomendações, por demasiada ternura para com os filhos ou por exagerado receio de eventuais acidentes, usou outro expediente para atrair ao catecismo essas criaturinhas. Prometeu uma recompensa para quem trouxesse uma criança. O piedoso expediente produziu resultado maravilhoso. Já no dia seguinte, vários jovens voltaram com alegria e sofreguidão à catequese, trazendo, um, o irmãozinho; outro, o primo; um terceiro, o coleguinha ou o vizinho pelo qual se responsabilizara e que deveria levar de volta à mãezinha, sem acidente.

Os prêmios prometidos não tardaram e o modo como foram distribuídos despertou no coração de todos o desejo de merecer igual recompensa pela apresentação de um coleguinha. Com isso, o catecismo teve a freqüência muito aumentada e, em pouco tempo, reuniu todas as crianças da paróquia. O zelo do Pe. Champagnat devia estar satisfeito. Deus haveria de recompensá-lo, o que não tardou. Certo dia, um menino que se preparava para a primeira comunhão veio acompanhado do maninho e apresentou-o ao Pe. Champagnat, para receber um santinho que lhe foi dado imediatamente. Mas, quem era essa criança tímida, a transpirar candura e inocência? Era Gabriel Rivat, futuro Ir. Francisco, seu sucessor imediato no governo geral do Instituto.(p.38-39).

Pregações(p.40).

Os sermões do Pe. Champagnat não produziram menos frutos do que os catecismos. No púlpito expremia-se com veemência. Nele, tudo falava: o gesto, a aparência humilde e piedosa, o tom de voz, a palavra viva, sonora e inflamada, tudo contribuía para comover e convencer os ouvintes. Nunca subia ao púlpito sem ter-se preparado pelo estudo, reflexão e oração. Começou com breves exortações. A primeira consistia em simples reflexões. Entretanto, agradou a todos os ouvintes. Ao saírem da igreja, diziam: “Nunca tivemos aqui um padre que pregasse tão bem!” Essa opinião difundiu-se na paróquia e as famílias procuravam informar-se do dia em que ele devia pregar. O povo acorria então e a igreja ficava sempre cheia.

Habitualmente os sermões versavam sobre as grandes verdades: morte, juízo, inferno, gravidade do pecado, necessidade da salvação e a desgraça da condenação eterna. Pregava essas verdades com tanta veemência quem por várias vezes, arrancou lágriamas do auditório e abalou os pecadores mais empedernidos. Suas palavras, repassadas de clareza, ardor e unção, empolgavam os espíritos e sensibilizavam os corações. Às lágrimas que corriam dos olhos sucederam os remorsos, o arrependimento de ter ofendido a Deus e o desejo sincero de recuperar a graça divina e de, no fundo, servir a Deus com fidelidade. Em pouco tempo operou-se maravilhosa transformação em toda a paróquia. A fé revigorou-se, a piedade refloreceu, os sacramentos voltaram a ser freqüentados e a renovação foi quase geral.

Confissão

Houve numerosíssimas confissões gerais, com frutos incalculáveis que mudaram a fisionomia da paróquia. As conversões, iniciadas nos sermões, completavam-se no confecionário. Inexprimível era a bondade do seu coração para com os penitentes: falava-lhes com tanto carinho tanta caridade e tanta convicção, que muitas vezes eles prorrompiam em choro. Suas palavras tinham o dom particular de incutir horror ao pecado, afastar do vício e despertar o amor e à virtude. Falava: “Ele é de Rozet, por isso as palavras dele são macias e agradáveis como as rosas”. Entrentanto, apesar de repassadas de doçura, suas exortações, nem de longe, bajulavam os pecadores. Pelo contrário, levavam-nos ao arependimento, ao ódio do pecado e à vontade impaciente de se livrar dele e inspiravam o propósito de abandoná-lo de vez. A quase totalidade dos que ele teve a felicidade de converter perseverou na prática da virtude.

Antes de sua vinda a Lavalla, muitas pessoas não se confessavam havia muito tempo. Outras contentavam-se com a confisão pascal, cumprindo raramente os demais deveres religiosos. O Pe. Champagnat teve a consolação de converter a uns e reavivar a fé de outros. Falou-lhes com tanto empenho e unção dos bens infinitos que temos em Jesus Cristo, e dos sacramentos que no-los comunicam, que os confessionários foram assediados e as comunhões mensais quadruplicaram. Como a maior parte dos fiéis se dirigia a ele, aos sábados, domingos e grandes festas, via-se constrangido a passar grande parte da noite no confessionário. Aos domingos e dias santos ia cedinho à igreja. Já encontrava muita gente esperando para confessar-se. Trancava-se no confessionário até as onze, quando saía para cantar a missa solene, sempre seguida das vésperas.(p.40-41).

Uma de suas pregações

“Caríssimos irmãos (dizia num domingo), estamos no tempo dos grandes trabalhos. Os dias são longos e o calor, sufocante. Vocês vão para o trabalho de manhã muito cedo e voltam, muitas vezes, somente à noite. Cansam-se e suam o dia inteiro. Quantos méritos podem juntar para o céu, se quiserem! Como se tornarão agradáveis a Deus! Quantas graças derramará sobre vocês, se souberem santificar as ações e os sofrimentos! E para isso, o que precisam? Oferecê-los de manhã a Deus e unir as canseiras e dores às de nosso Salvador. Antes de iniciar a jornada e, de vez em quando durante o dia, ofereçam o trabalho a Deus. Digam-lhe: Meu Deus, quero fazer e suportar tudo isso para fazer vossa vontade, imitar Jesus Cristo, expiar meus pecados, merecer vossos favores e o céu, e também para que abençoeis meus filhos e tudo o que me pertence.”(p.42)

Pregação nas festas

Um dia, chegando da igreja, após atender as confissões até altas horas da noite, em vez de jantar disse ao Irmão que o aguardava:
– Vou sair.
– Padre, aonde vai a estas horas?
– Visitar um doente.
– Antes precisa jantar.
– Não, não tenho tempo.
Vendo-o sair, o Irmão ofereceu-se para acompanhá-lo. Aceitou. O doente não estava em perigo, mas o Pe. Champagnat pensava em outra coisa. É que ao voltar da igreja, tinha recebido informação de que haveria danças em várias povoações. Era tempo de carnaval. Na primeira aldeia, de fato, pegou de surpresa uma turma grande. Cantos e danças, tudo fervia. Depois de ficar um tempo escutando à porta, abre-a, entra de repente. Em silêncio, fita a assembléia com olhar fulminate. Num abrir e fechar de olhos, cessam canções e danças; os espectadores sentados se levantam e todos, dançarinos e espectadores; por um instante, quedam-se estupefatos. A seguir, precipitam-se em tumulto, portas e janelas a fora para fugir. Outros escondem-se. Alguns, não podendo fugir depressa devido ao acúmulo de gente, atiram-se e se apinham debaixo das mesas. A dona da casa, pouco depois, apresentou-se sozinha ao padre, pedindo-lhe perdão, lágrimas nos olhos, mãos postas, alegando para deculpar-se, ser a primeira vez e também a última. O Pe. Champagnat lhe replicou, com sua firmeza habitual: “E na primeira vez a senhora foi pilhada em flagrante”.
Encaminhou-se em seguida para outras aldeias. Numa delas encontrou mais uma dança organizada, que terminou como a primeira. Foi difícil o retorno a Lavalla: a noite estava muito escura, os caminhos entransitáveis e cobertos de gelo. Por sorte levara um bastão, com o qual sondava o caminho. Mesmo assim, caíu várias vezes. Chegou pouco depois da meia-noite. Depois de se aquecer um pouco, foi se deitar, sem tomar absolutamente nada, pois não se dispensava de celebrar a missa.

Censuras

Censurava com tanta força, do alto do púlpito, essas desordens e insistiu tanto junto aos jovens e seus pais, que conseguiu eliminar completamente tais reuniões noturnas.
Outro vício que lhe deu ainda mais trabalho: a embriaguez. Erradicou da paróquia à custa de preces, exortações e ameaças dos castigos divinos. As tabernas, geralmente lotadas à noite, antes de sua chegada a Lavalla, tornaram-se desertas. Evitava-se até mesmo freqüentá-las durante o dia. Quando as exortações do alto do púlpito não surtiam efeito, dirigia-se pessoalmente à casa dos culpados, pedia-lhes com insistência, exortava-os e os ameaçava, até que prometessem mudar de vida.
Empreendeu igualmente a tarefa de expurgar a paróquia dos livros perniciosos. Teve êxito. Todos os livros maus foram destruídos e substituídos por livros bons que versavam sobre religião e piedade. Tomou providência para montar uma biblioteca com a finalidade de oferecer bons livros a quem quisesse ler. Encarregou-se pessoalmente da distribuição dos livros aos jovens, para ter ocasião de aconselhá-los e orientá-los na prática da piedade e da virtude. A montagem da biblioteca exigiu dele muitos sacrifícios; quando se tratava, porém, de fazer o bem e de evitar o mal, não olhava dinheiro. Dava tudo o que tinha, sem contar.(p.46-47).

Visita aos doentes(p.49)

Não se contentava com visitar, uma ou duas vezes, os doentes para confessá-los; ia vê-los mais vezes, preparava-os para bem morrer e fazia-os produzir atos condizentes com seu estado.

Sendo extremamente bondoso, falava sempre de Deus com muita unção. Era, assim, para os doentes, motivo de consolação vê-lo e ouvi-lo.

Boas palavras

Seu espírito conciliador, caráter alegre e modos simples, bondosos e afáveis conquistaram-lhe os corações; bons e maus gostavam dele e aceitavam com prazer, ou pelo menos sem maior dificuldade, seus avisos, conselhos e mesmo as repreensões.

Congregação de irmãos

Vendo crescer o número de discípulo, o Pe. Champagnat pensou em traçar-lhes uma forma de vida mais regular e mais de acordo com a vida comunitária. Não podia ficar sempre na companhia deles e sentia a necessidade de não deixá-los sozinhos. Resolveu, pois, dar-lhes um diretor que estivesse à sua frente exigindo a observância do regulamento e repreendendo aqueles que o infringissem ou cometessem alguma outra falta. Mas, para facilitar-lhes a obediência e a submissão, decidiu que o diretor seria escolhido por eles mesmos. Propôs que o elegessem por votação secreta. Depois de cada um escrever e depositar seu voto, procedeu à apuração na presença deles e proclamou diretor o mais votado. O mais antigo, isto é, Ir. João Maria, obteve o maior número de sufrágios e foi confirmado diretor.
Deu-lhes também, após várias experiências, uma vestimenta simples e modesta que os distiguia dos leigos. Dando uma forma exterior à Congregação, tornava-a conhecida e favorecia as vocações. A vestimenta consistia numa espécie de sobrecasaca azul que descia até meia altura das penas, calças pretas, um pequeno manto e chapéu redondo. A cor azul foi escolhida para lembrar aos Irmãos que eram filhos de Maria; vestindo seu hábito e sua cor, deveriam sempre lembrar-se de viver a vida do jeito de Maria, imitando-lhe as virtudes.
O regulamento da pequena comunidade foi então aperfeiçoado com algumas modificações. As principais práticas da vida religiosa foram introduzidas. Após levantar às cinco horas, rezava-se em comunidade a oração da manhã, seguida de meia hora de meditação, da celebração eucarística, das horas menores do Ofício da Santíssima Virgem e do estudo. Às sete horas, o desjejum após o qual cada um se aplicava, em silêncio, aos seus afazeres que, para a maioria, era o trabalho braçal. Ao meio-dia, o almoço seguido da visita ao Santísisimo Sacramento e do recreio sempre comunitário. As conversas deviam versar sempre sobre assuntos edificantes ou próprios para dar aos Irmãos os conhecimentos necessários à sua vocação. A tarde era também dedicada ao trabalho braçal. Pelas seis horas, a comunidade reunia-se para a reza de vésperas, completas, matinas e laudes do Ofício da Santíssima Virgem e do terço; depois, uma leitura espiritual. Após estes exercícios, os Irmãos iam a cozinha para o jantar, seguido de recreio, como depois do almoço. Logo após rezavam as orações da noite, liam o assunto de meditação para o dia seguinte e às nove horas iam deitar.(p.59-60).


Champagnat era zeloso com o seguimento dos irmãos

Passado apenas um ano, o Pe. Champagnat viu-se obrigado a despedir o professor, devido a seu comportamento irregular e demasiado mundano, e confiou a escola a um dos Irmãos. Foi o Ir. João Maria, diretor da casa, que assumiu a escola. Mediante sábia a prudente firmeza conseguiu manter a ordem e a disciplina estabelecidas pelo seu predecessor. Como ele estivesse razoavelmente preparado e fosse de notável zelo e dedicação, o bom andamento da escola e a instrução das crianças nada sofreram com a mudança. A fama de piedoso e virtuoso que o Ir. João Maria granjeara na paróquia muito contribuiu para conferir-lhe ascendência sobre as crianças. Com satisfação os pais viram-no assumir a direção da escolinha. Até então os habitantes de Lavalla tinha dado pouca atenção aos Irmãos, pois não estavam a par do seu modo de vida, nem objetivos que se propunha. Quando, porém, notaram seu zelo e dedicação na instrução das crianças e viram seu êxito, unanimemente os aplaudiram e apoiaram. O número de alunos vindo de toda a paróquia cresceu consideravelmente. Os pobres eram aceitos gratuitamente ; os restantes pagavam contribuição módica.(p.65).

Alma da casa, o Pe. Champagnat, que apoiava e dirigia os Irmãos e aconselhava os pais a lhes confiar os filhos, resolveu imprimir desenvolvimento maior à escola. Observando que uma única sala de aula era insuficiente para tantos alunos, abriu mais uma, o que possibilitou separar os alunos, classificando-os de acordo com seu aproveitamento. Isso contribuiu muito para acelerar-lhes o progresso.(p.65)

Recomendava com freqüência aos Irmãos descrição e prudência na explicação do catecismo, evitando decidir se tais e tais faltas são pecados mortais ou veniais, por causa do perigo de falsear a consciência dos alunos, expondo-os a ofenderem a Deus. Em certa ocasião repreendeu severamente o Irmão que se afastara desta regra: “Contente-se com lhes inspirar o ódio ao pecado, deixando a Deus e ao confessor o julgamento da gravidade das faltas”.(p.68-69).

Irmão Lourenço

O Ir. Lourenço levava na mochila um pão de tamanho regular, queijo e batatas, sua provisão para semana. Embora fosse robusto, os péssimos caminhos faziam-no suar sob o peso do fardo. O Pe. Champagnat, vendo-o em tal situação, ponderou-lhe:
– Meu Irmão, seu trabalho deve ser muito pesado.
– Desculpe, Padre, não é pesado, para mim é muito agradável.
– Não acho que seja tão agradável assim subir as encostas desses morros cada oito dias, caminhar na neve com um saco pesado nas costas, arriscando-se a resvalar em algum precipício.
– Tenho plena convicção de que Deus conta nossos passos e haverá de retribuir, com peso imenso de glória, os sofrimentos e as canseiras suportadas por seu amor.
– Quer dizer que está satisfeito com andar lá para cima, para ensinar o catecismo e dar aulas, carregando seu pão, como se fosse um mendigo?
– Tão satisfeito, padre, que não trocaria meu trabalho por todas as riquezas do mundo.
– Bom, então você está gostando muito do trabalho, mas será que o merece?
– Ah! não! Estou convencido de que não mereço o privilégio de ensinar o catecismo lá em Bessac: é pura bondade de Deus.
– Tudo o que você diz está certo; mas convenhamos que hoje é um dia horrível.
– Não, padre, considero-o um dos mais belos de minha vida.
Dizendo isto, tinha o rosto sorridente, transfigurado, e suaves lágrimas de felicidade corriam de seus olhos. O Pe. Champagnat, comovido e consolado por verificar tanta virtude, com muito esforço pôde conter as suas.

Vocacionados

Em meados da quaresma de 1822, ao voltar, à noite, da oração e da homilia que fizera na igreja, o Pe. Champagnat deparou-se com um jovem que lhe pedia o favor de ser admitido na comunidade. Não simpatizou com o jeito e as maneiras do jovem. Suspeitou dos motivos que o traziam e perguntou-lhe sem muito interesse a respeito da profissão e procedência. Ao saber que era egresso dos Irmãos das Escolas Cristãs, onde permanecera seis anos, disse-lhe:
– Se você não serve para os Irmãos do Senhor de la Salle, ou se o gênero de vida deles não lhe convém, você é inútil para nós e vou ser bem claro: não posso recebê-lo.
Contudo, sendo já noite, não achou conveniente recusar-lhe hospitalidade: “Pernoitará aqui, concluiu, e amanhã irá embora”. O jovem, que tinha real desejo de ficar, certamente por não saber o que fazer na vida, usou de todos os meios para interessar o Pe. Champagnat em seu favor e conquistar-lhe a confiança. Após a refeição falou demoradamente da sua região e das inúmeras vocações que os Irmãos das Escolas Cristãs ali recrutavam. Percebendo que o assunto agradava ao Pe. Champagnat, acrescentou: “Se eu for admitido, prometo trazer-lhe vários postulantes meus conhecidos”.
No dia seguinte, continuou insistindo para ser aceito. Foi-lhe permitido passar dois ou três dias na casa. A experiência não satisfez plenamente o Pe. Champagnat. Achou muito ambíguo o jeito do moço; chamou-o e mandou-o embora. Depois de novas e inúteis instâncias para sua admissão, o ex-irmão, vendo que nada conseguia, perguntou-lhe:
O senhor me aceitará se lhe trouxer meia dúzia de bons candidatos?
– Sim, mas quando os tiver trazido, respondeu Champagnat.
– Pois bem, passe-me uma autorização para legitimar minha tarefa.
Queremos ver-se livre dele, Champagnat redigiu um documento vago e, entregá-lo, disse-lhe:
-Vá e fique com seus pais ou, o que seria melhor, volte para a comunidade de onde saiu; nossa casa e nosso modo de vida não lhe convém.
Com o documento na mão, o jovem partiu para sua terra, distante umas quinze léguas de Lavalla. Assim que chegou à casa paterna, não perdeu tempo. Em menos de uma semana convenceu oito rapazes a partirem para Lavalla, ou melhor, para Lião, pois tivera a precaução de não lhes dizer que os levaria a Lavalla. Na região, consideravam-no membro da Congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs. Não citou sequer o nome dos Irmãozinhos de Maria, nem os rapazes nem sempre pais poderiam pensar que se tratasse de um Instituto totalmente desconhecido para eles.
No contrato firmado para determinar as pensões e a época do pagamento estava escrito que os postulantes iriam para o noviciado dos Irmãos das Escolas Cristãs em Lião e não se fazia mínima alusão ao Pe. Champagnat nem aos Irmãozinhos de Maria . Não é de admirar que esse jovem tenha conseguido reunir, com incrível facilidade, tão elevado número de colegas. Além de aparecer claramente neste episódio a mão de Deus, ignorava-se a conduta irregular desse infeliz. Sua família figurava entre as mais distintas da região, pelas posses e pela piedade. Por isso foi-lhe fácil aliciar aqueles postulantes. Vários deles, aliás, já havia decidido ingressar na vida religiosa e tinham até reservado vaga no noviciado de Lião. Poucos dias foram suficientes para aprontar o enxoval e ultimar os preparativos da partida.
Em fins de março de 1822, os piedosos jovens, juntamente com o guia, puseram-se a caminho, na funda convicção de que se dirigiam para o noviciado dos Irmãos das Escolas Cristãs em Lião. Após dois dias chegaram ao cimo do morro defronte a Lavalla. “Estão vendo”, diz o ex-Irmão, apontando para o campanário da paróquia, “é lá que termina nossa viagem”.
– O quê! exclamaram os postulantes; é para lá que vamos? Mas lá não é Lião.
– Não, não é Lião; mas temos aqui um noviciado no qual passarão alguns dias e, em seguida serão levados a Lião.
A chegada do ex-Irmão, com seu grupo, causou grande surpresa ao Pe. Champagnat. Naquele momento estava virando terra na horta. Largou tudo e foi falar com eles. Parece-me ainda vê-lo, comenta um dos jovens do grupo, a medir-nos de alto a baixo, com a estupefação de quem não contava com nossa chegada. Depois de algumas perguntas para certificar-se de nossas disposições e dos motivos que nos traziam, acabou por declarar que não podia receber-nos. Essas palavras nos causaram enorme surpresa e nos fizeram sofrer muito. Percebendo isso, o Pe. Champagnat acrescentou para nos consolar: “Vou rezar e examinar o problema diante de Deus; fiquem até amanhã”.
A maioria desses postulantes tinha impressionado bem a Champagnat. Se fazia dificuldades em recebê-los, era porque não os conhecia e receava que a vocação deles não fosse suficientemente comprovada, não tivesse motivos bastante puros, fosse apenas o resultado das solicitações daquele que os trouxera com o objetivo de ser pessoalmente aceito. Serem numerosos, era outra preocupação: “Os rapazes decidiram-se talvez convencidos pelo guia. Ora, se der na veneta de algum deles de voltar para casa, é provável que os outros desanimem também e todos voltem como vieram, uns por causa dos outros”. Além de tudo, o grupo era numeroso demais em relação à moradia. Faltava e até camas. Foi necessário mandá-los dormir no celeiro, sobre a palha. Enfim, faltavam também recursos: a maioria desses rapazes podia pagar apenas uma pensão insignificante, e a casa que mal se mantinha não estava em condições de fazer sacrifícios em favor deles. Por isso, Champagnat julgou conveniente consultar os principais Irmãos.
No dia seguinte, mandou chamar os postulantes e lhes disse: “Ainda não posso prometer que os receberei. Devo antes consultar os Irmãos. Permito-lhes somente ficarem alguns dias conosco. Mas, como não temos certeza de poder admiti-los todos, quem estiver com vontade de ir embora pode ir. Escreveu uma carta aos Irmãos de Bourg-Argental e outra aos de Saint-Sauveur, mandando os vir ter com ele por ocasião das festas da Páscoa, dentro de dez dias. Quando os Irmãos chegaram, reuniu-os diversas vezes no seu quarto; refletiu com eles sobre os desígnios de Deus para com a Congregação nascente que, naquela ocasião, pareciam manifestar-se, e declarou-lhes que, na sua opinião, os rapazes deviam ser aceitos, uma vez que haviam sido visivelmente trazidos pela Providência. Todos os Irmãos foram do mesmo parecer. Decidiu-se que os oito postulantes seriam admitidos, juntamente com o guia. Seriam, porém, submetidos a provas especiais, para testar a autenticidade da vocação.
Quem não concordou com Champagnat foram as pessoas amigas. Pelo contrário, desaprovaram abertamente a resolução adotada. Pressionaram-no de todas as formas para que afastasse os recém-chegados: “O senhor não pode conservar esse grupo de jovens. Onde conseguirá recursos para alimentá-los? Sua casa é pequena demais para alojá-los. Sabe o que vai acontecer se ficar com eles? Acabarão indo embora depois de acarretar-lhe vultosas despesas. Alimentar e manter todos esses jovens está acima de suas posses. A prudência exige que vá devagar, sem impor levianamente fardo tão pesado à sua comunidade. O senhor precisa, pelo menos, despedir os mais jovens. São muito crianças para saberem se têm vocação”. Champagnat fizera sua opção e nada o podia abalar. Mas, homem prudente, lançou mão de todos os meios sugeridos pelo espírito de Deus para experimentar os postulantes e saber se convinham ou não à congregação. Em vez de pô-los no estudo, empregou-os no cultivo da terra, da manhã à noite. Exigiu deles rigoroso silêncio e ocupação constante. O “capítulo das culpas”, as repreensões, os castigos pelas mínimas transgressões, nada poupado, mas nada conseguiu abalar a decisão dos rapazes.
Champagnat, surpreso e edificado com tanta constância, resolveu impor aos mais jovens uma última provação. Reuniu-os na presença dos Irmãos da casa e disse-lhes: “Meus amigos, visto que desejam absolutamente ficar aqui e tornar-se filhos de Maria, resolvi aceitá-los todos. No entanto, sendo alguns jovens demais para conhecerem a própria vocação, decidiu mandá-los trabalhar de empregados na casa de alguns pequenos proprietários para cuidarem do gado. Se procederem bem, contentarem os patrões e mantiverem a disposição de abraçar a vida religiosa, vou admiti-los definitivamente ao noviciado na próxima festa de Todo os Santos”. E dirigindo-se ao mais jovem:
– Você concorda?
– Pois não! Já que o senhor quer. Mas somente se me der a certeza de que me receberá no tempo em que o senhor marcou.
A essa resposta o Pe. Champagnat emuduceu de admiração; baixou os olhos e, após alguns momentos, disse.
– Muito bem! Aceito-os todos, agora mesmo.
De onde podia vir a persistência desses jovens? Qual a causa de seu apego a um Instituto que lhes opunha tantos obstáculos à admissão? Um deles vai explicar. Ouçamo-lo em sua linguagem singela: “Não tinham razão de desconfiar tanto de nós e de suspeitar das razões que nos moviam. Fossem humanos os motivos, não teríamos ficado um só dia. Quem nos seguraria numa casa onde só víamos pobreza, onde dormíamos num celeiro, onde a cama era só um pouco de capim seco? Onde tínhamos como alimentos alguns legumes e um pouco de pão que se esfarelava todo e onde a bebida era somente água? Numa casa onde, de manhã à noite, éramos ocupados num trabalho penoso, cujo único salário eram algumas repreensões ou castigos, que devíamos aceitar com profundo respeito? Se nos perguntarem, agora, o que poderia agradar-nos numa situação tão contrária à natureza, o que nos apegava tanto a uma Sociedade que nos repelia, responderei: foi a devoção que ela professava à Virgem Maria. No dia seguinte de nossa chegada, o Pe. Champagnat entregou um terço a cada um, falou-nos, várias vezes, de Maria Santíssima naquele tom persuasivo que lhe era natural,e narrou-nos alguns fatos que mostravam sinais da proteção da divina Mãe. As coisas maravilhosas que nosso bom Padre nos contava de Maria calaram tão profundamente na alma de todos nós, que nada no mundo teria conseguido afastar-nos da nossa vocação”.
Finalizaremos este relato, acrescentando que o infeliz guia destes postulantes foi expulso quinze dias depois, por idêntica falta que motivara sua saída da Congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs: atentado contra os bons costumes.
Aqui, naturalmente, cabe a reflexão que pode ser utilíssima para os que duvidam da vocação, pelo fato de ter sido determinada, em sua origem, por motivos humanos ou porque teve o homem como promotor. “Mesmo que a vocação à vida religiosa viesse do demônio, afirma Sto. Tomás, deveria ser abraçada como excelente conselho, embora dado pelo inimigo. Além disso, acrescenta o santo doutor, se o impulso à vocação proviesse de satã, não se deveria concluir daí que não pudesse vir ao mesmo tempo de Deus, que muitas vezes permite que a malícia do inimigo da humanidade resulte em seu prejuízo e em nosso proveito, fazendo-nos, assim, decapitar esse Golias com sua própria espada. Porventura não usou a maldade dos irmãos de José para exalçá-lo ao governo do Egito? E acaso não tirou da traição de Judas e da perfídia dos judeus os meios para realizar nossa Redenção? Assim, o amor à vida religiosa, seja qual for a causa ou o promotor, só pode ter Deus como origem.
Nossos oito postulantes, embora trazidos ao Instituto por um religioso que havia profanado a santidade de seu estado e perdido sua vocação, não eram por isso menos vocacionados. Entre eles estavam bons religiosos; estava um assistente; estava quem trabalhou mais de quinze anos reunindo os documentos que serviam para compor esta biografia do piedoso Fundador.
(p.85-90).

Pensamentos

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“O Irmão que não reza não sabe praticar a virtude nem fazer o bem entre os alunos; é somente na oração que se aprendem estas coisas.”
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“A Vida Religiosa é essencialmente vida de oração porque, além de exigir que se reze mais do que os simples fiéis, é para ter contato mais freqüente com Deus que nos tornamos religiosos. É impossível cumprir as obrigações da vida consagrada sem verdadeira e sólida piedade.”
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“O religioso sem piedade nunca vai amar nem estimar sua vocação, porque nela viverá sem consolação.”
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“Ah! como a virtude é fácil, como os sacrifícios que ela exige custam pouco, quando se ama a Jesus! O amor a Jesus é, para o religioso que percorre o caminha da virtude, como as velas para as embarcações que singram o oceano. Sem se dar conta, este amor conduz às mais sublimes virtudes.”
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“O apego ao dinheiro leva os homens do mundo a se entregarem sem trégua aos trabalhos mais árduos e aos mais duros sacrifícios. Seria uma vergonha se o amor a Jesus exercesse menor motivação sobre o religioso.”
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“Aquele que tem grande amor a Maria terá certamente grande amor a Jesus. Por isso, os santos que tiveram particular devoção a Maria, como S. Bernardo, S. Boaventura, S. Francisco de Assis, Sto. Afonso de Ligório, Sta. Tereza, distinguiram-se por grande amora a Jesus.”
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“Maria não guarda nada para si. Quando a servimos, quando nos consagramos a ela, só nos recebe para oferecer-nos a Jesus, para nos impregnar de Jesus.”
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“Foi ao discípulo amado que Cristo confiou sua Mãe, para nos ensinar que concede amor especial à Virgem Santíssima somente às almas privilegiadas, sobre as quais tem planos especiais de misericórdia”.
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“A pobreza, a mortificação, a humildade e, em geral, todas as virtudes, são como as rosas entre espinhos. As pessoas do mundo somente enxergam e sentem os espinhos e por isso têm medo da virtude. Os religiosos sentem e saboreiam os encantos, as delícias e as consolações da virtude e assim não percebem os espinhos, isto é, as dificuldades inerentes.”
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“O bom religioso sente mais felicidade e consolo num só exercício de piedade, como a meditação, a assistência à missa, um quarto de hora de visita ao Santíssimo, do que os afortunados do mundo podem ter em todos os prazeres de uma longa vida.”
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“Por que são os mundanos tão espalhafatosos em seus prazeres e no meio das alegrias profanas? Porque não conseguem abafar inteiramente os remorsos que os perseguem; porque sua felicidade é apenas aparente e seu coração infeliz só encontra amargura nas satisfações sensuais.”
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“Por sua vocação, todos os Irmãos são apóstolos enviados para ensinarem às crianças os ministérios da religião e lhes anunciarem a boa nova da salvação de Jesus Cristo nos mereceu.”
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“Há muitos modos de dar o catecismo, isto, é ensinar as verdades da salvação e levar ao bem as crianças e as demais pessoas. Rezar pelas crianças que nos são confiadas, pela conversão dos pecadores e dos infiéis é também fazer boa catequese, assim como é bom catequista aquele que dá sempre o bom exemplo e é, em toda parte, modelo de piedade, regularidade, modéstia e caridade.”
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“Esses dois modos de dar catecismo, além de servir a todos os Irmãos, em qualquer função que exerçam, e independentemente de seus talentos e capacidade, são as mais eficazes e mais fáceis do que explicar a doutrina cristã às crianças. São mais eficazes porque a graça, única realidade absolutamente necessária à salvação, se consegue mais seguramente pela oração e pela santidade da vida do que por qualquer outro meio; mais fáceis, porque é possível rezar e praticar a virtude em qualquer tempo e lugar.”
(p.94-96)

Providência Divina

O Pe. Champagnat não ignorava o que pensava e diziam dele publicamente; pouco o sensibilizavam, porém, os pareceres dos homens e jamais tomou por norma de conduta os princípios da prudência humana. Assim, muito embora tivesse sobre os ombros o encargo de uma comunidade numerosa, uma dívida de quatro mil francos e nenhum dinheiro, unicamente com sua confiança em Deus, uma confiança sem limites, empreendeu sem temor a construção de uma casa muito vasta, com uma capela, e capaz de alojar cento e cinqüenta pessoas. A aquisição do terreno e a construção constaram-lhe mais de sessenta mil francos. Era algo realmente desconcertante para a prudência humana; não devemos, portanto, estranhar que a execução do projeto trouxesse tantas contrariedades a seu autor. Para diminuir as despesas, toda a comunidade trabalhou na obra. Até mesmo os Irmãos já ocupados no ensino foram chamados a dar sua colaboração. Todos porfiaram em zelo e dedicação. Ninguém, nem mesmo os mais fracos e doentes, consentiu em ficar alheio ao trabalho. Todos queriam ter a satisfação de contribuir para edificar a casa que lhes era tão querida. Aqui, porém, não foi como em Lavalla, onde somente os Irmãos construíram a obra completa; exclusivamente os pedreiros se incumbiram desta parte, enquanto os Irmãos se ocupavam em extrair e carregar pedras, puxar areia, preparar argamassa e fazer-se de servente de pedreiros.
No início de maio de 1824, o Pe. Cholleton, vigário geral, veio benzer a pedra fundamental; a carência era extrema; nem almoço conseguiram oferecer-lhe. O Irmão cozinheiro dirigindo-se ao Pe. Champagnat, observou:
– O que é que eu faço, Padre? Não tenho absolutamente nada para oferecer ao Pe. Cholleton.
Após um instante de reflexão, o Padre respondeu:
– Vá dizer ao Senhor Basson que vou almoçar na casa dele com o vigário geral.
O senhor Basson era homem rico e muito amigo dos Irmãos; recebeu-os com grande prazer. Aliás, não era a primeira vez que o Pe. Champagnat lhe pedia semelhante serviço; agia assim todas as vezes que precisava.
Para abrigar os Irmãos, o Pe. Champagnat alugou uma casa velha à margem esquerda do Gier, defronte àquela que se estava construindo. Os Irmãos dormiam num celeiro de péssimas condições, tão apertado que amontoavam-se uns sobre os outros. A alimentação era simples e frugal: pão, queijo e alguns legumes enviados de Saint-Chamond por pessoas caridosas; às vezes, excepcionalmente, um pouco de toucinho e sempre água pura como bebida: era esse regime de vida deles. O bom Padre partilhava a casa e a comida dos Irmãos e muitas vezes tomava para si o que havia de pior. Assim, não encontrando dentro de casa um cantinho onde colocar a cama, viu-se obrigado a ajeitá-la numa espécie de sacada exposta às intempéries e protegida apenas por um beiral. Dormiu ali todo o verão; durante o inverno, desceu para o estábulo. Além disso, a casa se achava em estado tão deplorável que os Irmãos e o Padre sofreram terrivelmente pelo espaço de quase um ano em que ali ficaram.
Enquanto durou a construção, o levantar era às quatro da madrugada. O Pe. Champagnat dava o sinal e, se necessário, trazia o lume aos dormitórios. Após o levantar a comunidade se reunia no bosque, onde se erguia uma capelinha dedicada a Maria e que fora construída pelo próprio Pe. Champagnat. Uma cômoda servia de credência e de altar; para fazer de campanário, havia um carvalho, onde estava pendurado o sino. Esta capela não podia abrigar a comunidade toda; só entravam o celebrante, os dois coroinhas e os Irmãos principais; os outros ficavam de fora. Todos, ajoelhados perante a imagem da Mãe de Deus, rezavam com tanto fervor que pareciam aniquilados; não se ouvia outro ruído além do farfalhar das folhas, do murmúrio das águas da torrente que deslizava um pouco mais a baixo e do canto dos passarinhos. Cada manhã a comunidade se reunia na capela onde os Irmãos, após as preces vocais, faziam maia hora de meditação e assistiam à missa. Após o almoço lá voltavam, a fim de visitar a Santíssima Virgem. Encerrava-se o dia com a reza do terço. Quantas vezes, na estrada da montanha fronteira, os viandaantes paravam e olhavam de um lado e do outro, procurando donde vinham aquelas vozes que cantavam com tanto entusiasmo e afirmação! Eram os Irmãos que, ocultos sob as árvores e ajoelhados perante o altarzinho onde se imolava o Cordeiro imaculado, entoavam os louvores de Jesus e de Maria.
Concluída a celebração eucarística, cada qual se encaminhava para seu trabalho, a ele se entregando conforme as forças, e em silêncio. A cada hora do dia, o Irmão responsável pelo horário tocava uma sineta; suspendia-se, então, o trabalho; cada qual se concentrava, e todos, rezavam o Glória Patri, a Ave Maria e a invocação a Jesus, Maria, José. Nem precisa dizer que o Pe. Champagnat era sempre o primeiro no trabalho; organizava tudo, dava ocupação a todos, supervisionava o andamento das obras, o que não o impedia, segundo o depoimento dos próprios operários, de alcançar maior rendimento em alvenaria do que o mais eficiente dos pedreiros. Conforme já dissemos, os Irmãos não trabalhavam em alvenaria; os pedreiros admitiram apenas o Pe. Champagnat neste tipo de trabalho, porque executava-o com perfeição. Muitas vezes foi visto trabalhando sozinho, durante a sesta dos operários, ou ao entardecer, após a faina diária. Aproveitava a noite para rezar o ofício divino, acertar as contas, anotar as jornadas dos operários, as compras do material e prever os trabalhos do dia seguinte. Depois de tudo isso, podemos facilmente concluir que seu tempo de repouso era muito limitado.
Um fato digno de menção, que deve ser visto como resultado da proteção de Deus sobre a comunidade, é que, tendo o Pe. Champagnat feito construção ao longo de toda a vida e empregado sempre os Irmãos nesta atividade, nunca houve um acidente sequer, nem para os Irmãos nem para os operários. Por várias vezes acidentes graves ameaçaram a comunidade, mas sempre a divina Providência, por intercessão de Maria, deteve ou removeu as conseqüências. Eis alguns exemplos: um operário trabalhava a grande altura, do lado voltado para o rio; despencou e, na queda, iria certamente esmigalhar-se de encontro a enormes pedras que estavam embaixo; mas, ao cair junto com o material que estava no andaime, teve a sorte de agarrar-se a um galho de árvore, onde ficou dependurado até virem socorrê-lo. Não sofreu nada, nem sequer um arranhão; mas a proteção de Deus ficou mais evidente porque, sendo a árvore quebradiça e o galho muito frágil, normalmente não poderia agüentar um peso desses.
Um jovem Irmão, servente dos pedreiros do terceiro andar, pisou numa tábua meio podre que se quebrou sob seus pés e o arrastou na queda. Ao cair, recomendou-se à Santíssima Virgem e ficou suspenso por uma das mãos, com o corpo embaixo do andaime. Corria tamanho perigo que o primeiro operário que foi socorrê-lo nem se atreveu a tocá-lo. Felizmente um segundo, mais corajoso e decidido, acudiu, agarrou-lhe a mão e o retirou são e salvo, sem outra conseqüência além do susto.
Uma dezena de Irmãos, dos mais robustos, estavam carregando pedras para o segundo andar. Um deles, ao chegar ao topo da escada com uma enorme pedra aos ombros, sente-se mal com tamanho peso e amolecem-lhe as pernas e deixa cair a pedra. Na queda, a pedra derruba o Irmão que vinha logo atrás. Mesmo não esperando por essa, desvia ligeiramente a cabeça, de modo que a pedra só o atinge de raspão, causando-lhe nada mais que um esfolamento. Do alto da escada o Pe. Champagnat presenciou o acidente considerando certa a morte do Irmão, deu-lhe a absolvição. Mesmo não tendo sofrido mal maior, o susto foi tão grande que o acidentado pôs-se a correr pelo campo como um desatinado. Todos os Irmãos presentes a esta cena passaram por igual susto e sobretudo o Pe. Champagnat, que logo mandou agradecer a Deus pela proteção recebida. E, no dia seguinte, celebrou ainda uma missa em ação de graças.
Embora sobrecarregado de ocupações, o Pe. Champagant sempre encontrava alguns instantes, seja à noite, seja aos domingos, para instruir os Irmãos e formá-los à piedade. Ministrou-lhes, no decurso desse verão, sólidos ensinamentos sobre a vocação religiosa, a finalidade do Instituto e o zelo pela educação cristã das crianças. Para relembrar aos Irmãos aquilo que lhes transmitira sobre esses diversos temas, entregou-lhes um resumo escrito no qual, em poucas palavras, estavam as principais coisas que lhes havia dito. Aqui está o essencial:
“A finalidade dos Irmãos, ingressando no Instituto, foi antes de mais nada assegurar a salvação da alma e tornarem-se dignos deste imenso tesouro de glória que Deus lhes promete, e que Jesus Cristo lhes mereceu por seu sangue e sua morte na cruz.
Eis os principais meios que Deus lhes deu para adquirir a virtude, santificar-se e merecer o céu: a oração, vocal e mental, a recepção dos sacramentos, a assistência diária à missa, as visitas ao Santíssimo Sacramento, a leitura espiritual, a Regra e a correção fraterna.(p.113-117).

O Pe. Champagnat cogitava fazer novas diligências junto ao governo para obter a aprovação legal do seu Instituto. De ano para ano crescia o número de Irmãos sujeitos ao alistamento militar e, sobretudo depois da Lei de 1833 sobre o ensino fundamental, não havia possibilidade de isentá-los, se não tivesse certificado de habilitação para o ensino primário. Fez uma revisão dos estatutos, adaptando-os à nova lei, e dirigiu um requerimento ao rei, entregue a Sua Majestade por um deputado amigo do Instituto. O conselho da Universidade examinou e aprovou os estatutos. Quanto à autorização, o Sr. Guizot, ministro da Instrução Pública, respondeu em nome do rei que não podia concedê-la.(p.163).

Doença(p.195-196)

Desde sua enfermidade de 1825, nunca mais o Pe. Champagnat se restabeleceu completamente. Durante vários anos sofreu de uma pleurodinia que lhe causava dores agudas todas as vezes que fazia um trabalho penoso ou era obrigado a andar algum tempo. A esse incômodo somou-se, mais tarde, uma fraqueza de estômago que, em pouco tempo, degenerou em gastrite bem caracterizada, resultado, sem dúvida, das privações diárias e dos jejuns prolongados do bom Padre. Já observamos que, em suas freqüentes viagens não poucas vezes passava dias inteiros sem nada comer. Outras vezes, animado pelo espírito de penitência e mortificação, escolhia os alimentos mais comuns e o que havia de menos gostoso na mesa. Esse gênero de vida acabou gerando nele uma gastrite crônica, sem esperança de cura. Antes da viagem a Paris, já se repetiam os vômitos e ele não suportava mais certos alimentos. Pior ainda, qualquer espécie de comida o enfastiava. O estômago estava cheio de mucosidade esbranquiçada expelida em expectoração e vômitos quase contínuos. A extenuante correria na capital e os dissabores de toda sorte que suportou, acabaram arruinando-lhe a constituição física, minando-lhe as poucas forças que ainda lhe sobravam. Assim, ao voltar de Paris, sentiu logo que não iria longe.

Embora o Pe. Champagnat sentisse as forças diminuírem e a doença se agravar dia a dia, não conseguia poupar-se nem descansar. Assim, alguns dias depois de encerrar o retiro dos Irmãos foi para La Côte-Saint-André, com outro padre, para pregar um retiro aos alunos internos. Achava-se tão debilitado, enfermo e extenuado, que inspirava compaixão. O ar de bondade, piedade e santidade que transparecia em seu semblante impressionou de tal maneira os alunos, que a maioria quis confessar-se com ele. Não se cansava de olhá-lo, admira-lo, e diziam entre si: “Este padre é um santo”. As instruções e os conselhos do bom padre produziram copiosos frutos de salvação, e sua lembrança gravou-se por muito tempo no espírito de muitos, como um bálsamo de piedade e virtude.(p.200).

Quinta-Feira Santa

Na quinta-feira santa quis rezar a missa em Grange-Payre. Como procurassem dissuadi-lo, replicou: “Deixem-me ir. É a última vez que vou lá. Se demorar mais tempo, não poderei despedir-me daqueles santos Irmãos e dos seus alunos”. Foi a cavalo e, depois de celebrar missa, pediu para falar aos internos. “Meus filhos: Deus lhes concedeu grande favor dando-lhes mestres piedosos, virtuosos que continuamente lhes dão bons exemplos e os instruem com segurança nas verdades da religião. Aproveitem os seus ensinamentos, sigam os conselhos que lhes dão e imitem seus bons exemplos. Lembrem-se amiúde de que Cristo os amou muito, morreu por vocês e lhes prepara a felicidade eterna no céu. Não esqueçam que o pecado é o maior de todos os males e pode fazer-lhes perder esta felicidade. Temam o pecado: considerem-no seu grande inimigo e peçam diariamente a Deus que não cometam nenhum. Conseguirão esta graça e haverão de salvar suas almas se tiverem verdadeira devoção à Santíssima Virgem e se rezarem diariamente o Lembrai-vos, ou qualquer outra oração para se colocarem sob sua proteção. Sim, meus filhos, se confiarem plenamente em Maria, ela lhes obterá a graça de entrar no céu, eu lhes garanto”. Ao retornar a 1’Hermitage, disse: “Vi Grange-Payre pela derradeira vez. Estou contente por ter feito essa visita. Foi para mim real consolação ver essas criancinhas e pedir-lhes fossem sempre bem-comportadas”.
Na véspera do mês de maio, embora estivesse muito fraco, e sofrendo muito, quis pessoalmente presidir a abertura dos exercícios do mês de Maria e celebrar a bênção do Ssmo. Sacramento. Mas cansou tanto e sentiu-se tão mal que, ao voltar para o quarto, exclamou: “Estou no fim; acho que desta vez eu vou”. O Ir. Estanislau chegou naquele instante. O bom Padre, vendo-o mais alegre e mais contente que de costume, perguntou-lhe.
– De onde lhe vem esta alegria?
– É que durante os exercícios do mês de maio pensei que Maria, comovida com nossas súplicas, haverá de lhe devolver a saúde antes do fim do mês.
– Está enganado, meu Irmão, o fim do mês de Maria será penosíssimo para mim; grandes sofrimentos me aguardam. Confio, porém, na ajuda da divina Mãe para suportá-los com paciência e resignação.
Assim aconteceu: no final do mês as dores tornaram-se intoleráveis. Porém, graças à proteção de Maria, na qual depositava absoluta confiança, maior foi sua paciência e resignação.
No dia seguinte, um Irmão dos mais antigos veio visitá-lo e, após breve conversa, lhe disse:
– Padre, precisaríamos tanto que Deus o deixasse por mais tempo entre nós! Que será de nós e quem poderá nos dirigir, se o perdermos?
– Meu caro Irmão, não se preocupe com isso! Porventura Deus não achará gente para realizar sua obra? O Irmão que elegeram para me suceder fará melhor que eu. A gente é apenas um instrumento, ou melhor, não é nada. Deus é quem faz tudo. Você deveria compreender essa verdade, pois está entre os veteranos e presenciou as origens do Instituto. Acaso a Providência não cuidou sempre de nós? Não foi ela que nos congregou e nos fez triunfar de todos os obstáculos? Forneceu-nos recursos para construir esta casa, abençoou nossas escolas e lhes deu prosperidade, embora fôssemos gente sem talento. Em suma, não foi a divina Providência que tudo realizou entre nós? Ora, ela cuidou do Instituto até hoje, porque não cuidaria dele no futuro? Pensa, acaso, que ela deixará de protegê-lo, por causa de um homem a menos? Desiluda-se, repito, os homens não contam para esta obra. Deus a abençoará, não por causa dos homens que a dirigem, mas por causa da sua infinita bondade e dos desígnios de misericórdia em favor dos meninos e nós confiados.(p.204-205).

Doença piora

Entrementes, o estado do enfermo piorava dia a dia. Não suportava mais nada, nem mesmo os mingaus mais leves. Um fogo abrasador lhe consumia as entranhas. Os vômitos cada vez mais freqüentes causavam-lhe horríveis sofrimentos. Só expelia matérias misturadas com sangue e às vezes em forma de blocos resistentes e bastantes volumosos. Por vezes o bom Padre se perguntava: “Donde pode vir tanta coisa podre? Céus! O que teria acendido tamanho fogo no meu corpo?” E logo completava: “Meu Deus, tende piedade de mim. Ofereço-vos o que estou sofrendo; dai a vossa graça; depois disso, mandai-me quantas dores quiserdes”. Só a água gelada, que tomava por obediência, e a compressa de gelo sobre a região abdominal lhe traziam algum alívio.
Em meio às dores, ansiava receber novamente o santo Viático. Amiúde repetia: Já passou o prazo prescrito; eu poderia comungar uma segunda vez, se não fossem os vômitos”. Aparentemente estes vômitos contínuos iriam privá-lo definitivamente desse favor; mas para a fé e o amor, tudo é possível. Continuamente preocupado com o pensamento e o desejo de comungar, exclamou após profunda meditação: “Creio que serei atendido; meu santo anjo vai obter-me a graça de receber, mais uma vez, a nosso Senhor. Tragam-me uma estampa do anjo da guarda: vou pedir essa graça a esse espírito celeste”. Trazida a imagem e colocada na cortina da cama, o bondoso Padre fixou-o demoradamente. Depois de rezar durante alguns minutos com grande fervor, sentiu que fora atendido: podia comungar uma segunda vez. De fato os vômitos cessaram completamente. Readquiriu a calma e a tranqüilidade, como se não tivesse tido nenhuma doença de estômago. Depois de permanecer sossegado por mais de uma hora, disse: “Fui atendido, posso comungar, peça ao capelão para trazer-me Jesus”.
Recebeu nosso Senhor com viva fé, terna piedade e extraordinária devoção. Seu olhar, gestos, atitudes tudo anunciava profundo respeito, confiança sem limites e ardente amor. Após a recepção do Santo Viático, insistiu na observância do silêncio, absolutamente necessário para manter o espírito de recolhimento e oração na comunidade. Exortou novamente os Irmãos a evitarem a preguiça a todo custo e estarem sempre ocupados, assegurando-lhes, que, na hora da morte, sentiriam muitos remorsos se não houvessem empregado bem o tempo.
Ficou em muita paz, sem ter vômitos, por mais de uma hora. Depois a doença retomou seu curso com mais violência do que nunca. Mas, com o Pão dos Fortes recebera novas forças e nova coragem para suportá-la. Na tarde do mesmo dia, domingo, 24 de maio, o Rev. Pe. Colin, Superior Geral da Sociedade, veio a 1’Hermitage. O Pe. Mazelier, Superior dos Irmãos de Saint-Paul-Trais-Châteaux, chegou na manhã seguinte. Ao saber da chegada deles, exclamou: “Ah! como estou feliz por ser visitado e assistido por sacerdotes tão santos!” Conversou demoradamente com o Pe. Colin, recomendando-lhe os Irmãos. Ao final do encontro, com profunda humildade, pediu-lhe perdão de todas as faltas que, por acaso, tivesse cometido. O Pe. Colin, comovido e edificado, falou-lhe com muito afeto, confortando-o muito. A visita do Pe. Mazellier o alegrou, tanto pela oportunidade de interessá-lo pelas necessidades dos Irmãos, quanto pelo conforto que esperava receber das palavras e orações desse santo sacerdote. Na conversa com ele, o Pe. Champagnat disse-lhe:
– Recomendo-lhe os meus Irmãos sujeitos ao serviço militar.
– E eu, peço-lhe que não esqueça os meus, quando estiver no céu.(p.220-221).

Morre o Padre Champagnat

Enfim, na sexta-feira à noite notaram que estava chegando a hora extrema. Muitos Irmãos oravam fervorosamente no quarto e queriam passar a noite com ele, para ter a consolação e a sorte de receber sua bênção e presenciar-lhe a morte. Mas ele não quis e teve força suficiente para convidá-los ao repouso. Ficaram somente os Irmãos Hipólito e Jerônimo. Durante a noite continuou repetindo as jaculatórias Jesus! Maria! José! Por volta das duas e meia da madrugada disse aos Irmãos que estavam a seu lado:
– Irmãos, a lâmpada está se apagando.
– Desculpe, Padre, respondeu um deles, a lâmpada está bem acesa!
– Mas eu não estou vendo, traga-a para mais perto, sim?
Um dos Irmãos aproximou a lâmpada. Mas o Padre não conseguia enxergá-la. “Ah! disse então, com voz mortiça, estou entendendo, é minha vista que se vai, chegou a minha hora, Deus seja louvado!” Balbuciou ainda algumas preces e entrou em agonia que durou aproximadamente uma hora. Foi suave e tranqüila. Haviam cessado os vômitos e seu organismo achava-se totalmente exaurido. Às quatro e vinte a respiração passou a ser mais lenta, mais ofegante e por intervalos. A comunidade estava na capela para o canto da Salve Regina. Imediatamente procedeu-se à recitação da Ladainha da Ssma. Virgem. Durante a reza o piedoso Fundador adormeceu placidamente no Senhor.
Era sábado, 6 de junho, vigília de Pentecostes.
Várias vezes dissera durante a enfermidade: “Meu grande desejo é morrer num sábado, mas não mereço esta graça; assim mesmo espero-a da bondade de Maria”. Não só receber essa graça, mas também pôde expirar na hora que, por mais de trinta anos, havia consagrado à meditação e à união com Deus. Foi no momento da oração e após o canto da Salva Regina que a Mãe de misericórdia fê-lo passar de exílio à pátria celeste e mostrou-lhe Jesus, bendito fruto do seu ventre virginal.

Caridade para com os pobres

O Pe. Champagnat não limitava a caridade às obras de misericórdia espirituais. Assistia também os pobres em suas necessidades, na medida em que seus parcos e recursos lhe permitiam. O bem que lhes fazia vinha de três princípios:
1. a bondade o seu coração que não lhe permitia presenciar o sofrimento do próximo seu apiedar-se e ser levado a minorá-lo;
2. o profundo respeito e amor que consagrava a Nosso Senhor, feito pobre por nossa causa, e que se identifica com os indigentes;

3. o desejo ardente de trabalhar pela salvação das almas, desejo esses que a esmola lhe dava ocasião de satisfazer. Dirigia sempre algumas palavras de edificação quando dava esmola a quem lhe pedia.
Se fosse uma criança, indagava se conhecia os principais mistérios da fé cristã e, conforme o caso, fazia uma exortação ou curta instrução. Numa viagem que fez a Paris, apenas apeou da carruagem, várias crianças se aproximaram dele e, como de costume, pediram-lhe um dinheirinho. “Sim, disse-lhes, vou ajudá-las com prazer, se souberem o catecismo”. Começou a interrogá-las sobre os principais mistérios, e teve o desgosto de encontrar um menino de dez anos que os ignorava completamente. Dando-lhe a esmola, disse: “Meu filho, daqui a um mês voltarei e se tiver aprendido os mistérios, eu lhe darei cinco tostões. O guri prometeu aprendê-lo com ses colegas ou com outra pessoa, e cumpriu a palavra. Quanto voltou, o garoto correu-lhe ao encontro, gritando: “Seu padre, aprendi meu catecismo, me dê os cinco tostões que me prometeu!” E sabia mesmo, bem direitinho. E o Padre lhe deu a recompensa com muita alegria.

Quando coadjutor em Lavalla, encontrou certo número de pais, pobres e negligentes, que deixavam os filhos na ignorância das verdades da fé, não os enviando nem à escola nem ao catecismo. Reuniu essas crianças e trouxe-as para a casa dos Irmãos e ele mesmo se encarregou de dar-lhes comida e roupa. No primeiro ano eram doze. Nos anos seguintes o número foi crescendo e continuou recebendo-os enquanto foi possível alojá-los na casa. Sua bondade não se restringia às crianças. Todos os pobres da paróquia saíram ganhando. Nenhum deixava de ser atendido. A uns arranjava pão. A outros, roupas e agasalhos. Mandava preparar comida adequada para os doentes e designava dois Irmãos para assisti-los durante a noite.

Um dia chamaram-no para um doente. Apressa-se em visitá-lo e encontra um infeliz coberto de chagas, na maior miséria, tendo apenas alguns trapos a cobrir-lhes a nudez e as úlceras. Profundamente movido de compaixão à vista de tantas dores e tanta miséria, dirige-lhe, primeiramente, palavras de conforto. Depois, corre para casa, chama o Irmão ecônomo e ordena-lhe que leve imediatamente colchão, lençóis e cobertores ao infeliz que aqui acabava de visitar.
-Mas, Padre, não temos nenhum colchão sobrando.
-Como! Não encontra nenhum colchão na casa?
-Não, nenhum. Deve lembrar-se que dei o último faz alguns dias.
-Pois bem! Retire o colchão da minha cama e leve-o agora mesmo ao pobre do homem.
Muitas vezes aconteceu-lhe despojar-se desta forma, para assistir os indigentes ou fornecer a seus Irmãos aquilo que lhes faltava.
De outra feita, uma pessoa caridosa pediu-lhe que visitasse um infeliz que, além de aleijado, enfermo e mergulhado na mais profunda miséria, vomitava horríveis blasfêmias contra a religião e grosseiros insultos contra quem tinha a caridade de vista-lo e levar-lhe alguma ajuda. O Padre fez de tudo para tocar aquele coração empedernido. Tudo inútil. Viu-se constrangido a retirar-se para evitar mais blasfêmia.

Chegado em casa, disse ao Irmão encarregado de levar esmolas aos doentes: “Só há um jeito de conquistar aquele homem: fazer-lhe o bem e responder às injúrias com benefícios. A caridade, e somente a caridade, pode realizar sua conversão. Assim, é preciso dar-lhe todo o necessário, manter alguém constantemente ao lado dele para servi-lo, assisti-lo durante a noite, falar-lhe com extrema paciência e bondade e rezar muito. Deixar durante algum tempo de falar de religião, a fim de evitar mais blasfêmias. Deus fará o resto”. Seguiram à risca esses prudentes conselhos, que surtiram pleno efeito. Ao ver-se alvo de tantas atenções e tratado com tanta caridade, o doente comoveu-se e exclamou certo dia: “Agora sim, estou vendo que a religião é verdadeira, pois inspira tanta dedicação e tanta caridade. Somente ela foi capaz de levá-los, não só a me suportar – o que já seria muito – mas ainda a servi-me e dar-me tanta atenção, que eu não receberia nem de meus pais, nem de meus empregados se tivesse”. Solicitou a presença do Pe. Champagnat, a quem se confessou, depois de várias vezes pedir-lhe perdão por tê-lo recebido tão mal no primeiro encontro. Faleceu algum tempo depois, consolado pelos sacramentos e com plena resignação cristã.

Mais ou menos na mesma época chamaram-no à cabeceira de uma senhora doente para confessá-la. Encontrou-a na maior penúria, sem ter sequer lenha para se aquecer. Confessou-a, consolou-a, exortando-a a confiar em Deus e a oferecer-lhe seus sofrimentos e suas privações. Entretanto, compreendendo que em tais situações não bastava palavras de conforto, mandou trazer-lhe todo necessário para comida, roupa e lenha. Arranjou-lhe uma assistente para o dia e a noite e contratou um médico para examiná-la e tratá-la gratuitamente. Quando a mulher faleceu, assumiu o cuidado de um filho que ela deixara, devido à prolongada doença da mãe e de sua extrema indigência, o garoto não recebera nenhum princípio religioso e já havia contraído mais hábitos que, corrompendo-lhe o caráter e o coração, tornaram inúteis, por muito tempo, os cuidados que tiveram com ele.

Os Irmãos, a quem o Padre o confiou, não lhe deixaram faltar nada, quanto o roupa e comida. Foi matriculado na escola. Procuraram incutir-lhe princípios religiosos, corrigir-lhe os defeitos e os maus hábitos. Ele, porém, em vez de aproveitar das atenções que lhe prodigalizavam e mostrar-se agradecido, não correspondia à bondade senão malcriações, ingratidão e rebeldia. Acostumado a viver na vadiagem e a seguir sem freio as más inclinações, não agüentou enquadrar-se em regulamentos de escola, não aceitava as advertências nem os conselhos paternais dos Irmãos. Fugiu várias vezes, preferindo mendigar comida e viver vida de rua, a submeter-se à disciplina escolar. Cada vez os Irmãos iam buscá-lo de volta e usavam de todos os meios sugeridos pelo zelo para trazê-lo a melhores sentimentos, corrigi-lo e conquistar-lhe a amizade. Desanimados porém, com o pouco resultado de seus esforços, acabaram pedindo ao Pe. Champagnat que o abandonasse à própria sorte, “pois, disseram-lhe, estamos perdendo tempo com esse rapaz. Mais cedo ou mais tarde, seremos obrigados a mandá-lo embora”.

O piedoso Fundador, de zelo mais perseverante e indulgente, convidou-os, num primeiro momento, a ter mais paciência e rezar pelo malandrinho. Diante da insistência dos Irmãos em exigir a expulsão, podonderou-lhes: “Meus amigos, se o problema é simplesmente ver-se livre do pobre órfão, nada mais fácil. Mas que mérito haveria um jogá-lo na rua? Se o abandonarem, será que Deus não vai pedir-lhes conta de sua alma? Além disso, não lhes pesa na consciência desperdiçar a ocasião de exercitar a caridade e o zelo e, conseqüentemente, perder o mérito de reconduzir esse menino ao caminho da virtude? Se você o mandarem embora, Deus dará a outros o cuidado e a graça de educá-lo. E vocês vão lamentar terem perdido, por impaciência, esta glória missão, e será tarde demais. Adotamos este garoto. Não podemos mais abandoná-lo. Temos que guardá-lo conosco, embora nos incomode e não corresponda às nossas atenções. Devemos trabalhar sem desanimar, para que ele mude. Tenham coragem. Deus não vai permitir que tantos sacrifícios por amor desse órfão, tantos atos de caridade praticados para com ele, fiquem sem resultado. Rezem por esse menino e, tenho plena certeza, em breve lhes dará tanta consolação, quanto desgosto lhes tem causado”. Dito e feito. Pouco tempo depois, aquele menino impossível que, por anos a fio causava tanto desgosto aos Irmãos, mudou completamente: tornou-se calmo, dócil, ajuizado, parecia um anjo. Após a Primeira Comunhão, feita nas mais edificantes disposições, solicitou admissão ao noviciado. Foi atendido. Cheio de estima por sua vocação, veio a ser um Irmão piedoso, regular e obediente. Faleceu como um santo na idade de vinte e um anos, nos braços do Pe. Champagnat, cheios de gratidão pelo grande bem que lhe fizera.(470-473).

Formação educacional dos pobres

Não podendo providenciar aos indigentes todos os recursos corporais que desejavam pois a situação e os recursos não permitiam, procurou compensar amplamente, formando mestres para ministrar instrução primária e educação cristã às crianças pobres.

Foi sobretudo para elas que fundou o Instituto e é vontade sua que os Irmãos se considerem particularmente encarregados da instrução dessas crianças. Já nos primeiros compromissos que impôs aos Irmãos, o piedoso Fundador mencionara esse ponto e julgara-o tão importante que o colocou em primeiro lugar: Nós nos comprometemos acima de tudo, a instruir gratuitamente todos os indigentes que o sr. Pároco nos apresenta. Não bastava ensinarem o catecismo. Deviam transmitir todos os conhecimentos necessários à condição social das crianças e não fazer distinção alguma entre ricas e pobres.(p.476-477).

Conceitos de Champagnat sobre a educação das crianças.

Educar uma criança não é ensinar-lhe a ler, escrever e iniciá-la nos diversos conhecimentos do ensino primário. Essas noções bastariam, se o homem fosse feito só para este mundo. Mas outro destino o aguarda. Ele existe para o céu, para Deus. É para atingir essa finalidade que há de ser educado. Educar uma criança é, pois, desvendar-lhe tão nobre e sublime destino e oferecer-lhe os meios para atingi-lo. Numa palavra, educar uma criança é fazer dela bom cristão e virtuoso cidadão. Em conseqüência da queda origina, o homem vem ao mundo com o germe de todos os vícios, e também de todas as virtudes. É um lírio entre espinhos. Uma vinha, mas necessita de poda; o campo do pai de família, no qual foi lançada a boa semente, mas onde o inimigo semeou o joio. A finalidade da educação é arrancar os espinhos, podar a vinha, amanhara o campo e arrancar o joio.

Ao fundar o Instituto, o Pe. Champagnat não tencionava dar aos meninos apenas a instrução primária, nem apenas ensinar-lhes as verdades da fé, mas ainda dar-lhes a educação, com o sentido acima indicado. “Se fosse apenas para ensinar as ciências humanas aos jovens, não haveria necessidade de Irmãos; bastariam os demais professores. Se pretendêssemos ministrar somente a instrução religiosa, limirar-nos-íamos a ser simples catequistas, reuniríamos as crianças uma hora por dia, para transmitir-lhes as verdades cristãs. Nosso objetivo, contudo, é mais abrangente. Queremos educar as crianças, isto é, instruí-las sobre seus deveres, ensinar-lhes a praticá-los, infundir-lhes o espírito e os sentimentos do cristianismo, os hábitos religiosos, as virtudes do cristão e do bom cidadão. Para tanto, é preciso que sejamos educadores, vivamos no meio das crianças e que elas permaneçam muito tempo conosco”.
Ainda no intuito de proporcionar educação mais apurada, o piedoso Fundador autoriza os Irmãos a aceitarem alunos internos e insiste em que todo estabelecimento escolar tenha um pátio para os jogos dois alunos. “Se tivéssemos em vista apenas nosso interesse e tranqüilidade”, escrevia a um prefeito, “não lhe pediria um pátio, não lhes dá outra vantagem, a não ser a de se tornarem os jogos. É unicamente por nos empenharmos em dar-lhes bons princípios e afastá-los das más companhias que solicitamos um local de recreio”.

O Pe. Champagnat dizia muitas vezes que um dos meios mais adequados para atrair alunos è escola e formá-los à virtude, consistia em preparar bem o catecismo e tornar as instruções agradáveis. Para isso apontava os meios seguintes:
1. Decorar ou, pelo menos, ler com atenção e reflexão a lição que se vai explicar;
2. anotar os pontos mais importantes, sobre os quais será preciso chamar particularmente a atenção dos alunos;
3. prever as perguntas secundárias que poderão ser feitas sobre cada um desses pontos, entrosando-as entre si, de maneira a desenvolver a verdade e pô-la ao alcance dos menos inteligentes;
4. servir-se, com freqüência, de comparações, parábolas, exemplos, historinhas, para tornar mais sensível a verdade, confirmá-la e prender a atenção dos alunos;
5. proceder de tal modo que as perguntas secundárias de esclarecimento seja sempre breves, claras, práticas e simples;
6. fazer com que os alunos entendam perfeitamente o texto do catecismo, pois isto os ajuda muito a compreender as explicações que serão feitas e a conservá-las na memória;
7. no ensino do catecismo, visar sempre aos quatro pontos seguintes:
a) fazer conhecer e amar a Jesus Cristo;
b) mostrar os atrativos, os encantos, as vantagens da virtude e da felicidade dos que a praticam;
c) mostrar, igualmente, a fealdade e sordidez do vício, os males e castigos que provoca e inspirar extremo horror ao pecado;
d) conquistar o coração da criança, levá-la a amar a religião e a cumprir os deveres por amor;
8. durante a preparação do catecismo, fazer-se freqüentemente estas perguntas: Será que estou bem a par do que vou ensinar e explicar? Será que estou entendendo bem esta lição, esta verdade? Estou bem convencido? Como devo proceder para ser bem compreendido pelas crianças, para tornar-me agradável, educar-lhes a vontade, para fazerem o bem que esta verdade exige ou evita o mal que ela proíbe?
9. assumir e manter atitude séria, fisionomia alegre, afável e modesta que transpire o grande prazer que sentimos em falar de Deus.(p498-499).

Perseverança

Sto Tomás ensina que uma das maiores provas de nossa predestinação é perseverança nas boas resoluções, na prática das boas obras empreendidas para a glória de Deus e, sobretudo, a perseverança na vocação que abraçamos. A afirmação do Anjo da Escola fundamenta-se nas palavras de Cristo: “Quem perseverar até o fim será salvo” E nestas outras: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus”.
Uma das características mais notáveis da vida do Pe. Champagnat, foi a generosidade e a perseverança com que praticou a virtude. Mostrou-se perseverante em tudo e em toda parte, tanto nas coisas pequenas, como nas grandes. Perseverante na oração entregando-se a este santo exercício com assiduidade e fervor admiráveis, apesar dos contratempos e das ocupações de que sua vida era repleta. Perseverante na correção dos próprios defeitos, na mortificação da natureza, submetendo-a ao espírito e combatendo em si tudo aquilo que poderia opor-se ao trabalho da graça ou embaçar a pureza da alma. Perseverante em suportar, com perfeita resignação, as contradições e perseguições dos homens, as aflições, enfermidades, adversidades e todas as penas inerentes à direção de uma comunidade numerosa. Perseverante na vocação, trabalhando sem descanso para ser-lhe fiel, dedicando-se totalmente aos compromissos assumidos. Perseverante nas obras começadas para a glória de Deus e a salvação das almas, embora os meios humanos financeiros lhe faltassem com freqüência, e obstáculos sem conta surgissem para barrar-lhe o caminho.
“Mesmo que a terra inteira estivesse contra mim, eu não retrocederia”, afirmava às vezes. “Basta-me saber que Deus quer o projeto e que meus superiores o aprovam; depois disto, pouco me importam as objeções dos homens e as dificuldades. Não lhes dou a mínima importância. Se tivéssemos que parar cada vez que faltassem os meios humanos, ou porque algum obstáculo viesse obstruir a passagem, não faríamos nada. Satanás é essencialmente inimigo do bem. É impossível empreendermos uma boa obra sem ele se opor, sem ele envidar todos os esforços para levá-la ao fracasso e sem jogar todas as paixões humanas contra ela. Amedrontar-se em tal situação e desanimar perante os obstáculos seria injuriar a Deus. Seria desconhecer a nota peculiar de suas obras, que é a cruz, atraiçoar os interesses da religião e entregar covardemente a vitória ao demônio”.
A persistência e firmeza do Pe. Champagnat salvaram vários estabelecimentos que os ímpios haviam jurado liquidar. Com o objetivo de se descartarem dos Irmãos, sucedeu freqüentes vezes, em várias localidades, que os censurassem, caluniassem e perseguissem. Chegaram mesmo a suprimir-lhes os vencimentos e a empregar toda a sorte de medidas para impedir que as crianças lhes freqüentassem as aulas. Contudo, foram inúteis todos os esforços do inferno. A perseverança e a paciência do Fundador conseguira-lhe o triunfo em todas as provações. Jamais cedeu um palmo ao inimigo. Preferiu sustentar, às custas da comunidade, os Irmãos perseguidos, a abandonar as escolas. Atitude tão desinteressada conquistou-lhe a confiança das pessoas de bem e lhe valeu muitos pedidos. Prazerosamente confiavam a administração das escolas a um homem capaz de fazer tais sacrifícios para conservar as obras que a caridade punha em suas mãos.(p.506-507).

Pregação de São Marcelino Champagnat

Finalizamos esta biografia de nosso venerado Pai, analisando uma belíssima instrução aos Irmãos sobre a constância, ao comentar o Evangelho do segundo domingo do Advento:

“A constância é virtude indispensável ao cristão para salvar-se, e mais ainda, ao religioso para perseverar na vocação e adquirir a perfeição de seu estado. O comportamento de Cristo no Evangelho de hoje confirma de modo cabal esta verdade. O divino Mestre tece esplêndido elogio a S. João Batista e declara, perante todo o povo, que ele é o maior dos filhos dos homens. Ora, que é que Jesus louva de modo especial e acima de tudo, no santo Precursor? Será a maravilhosa inocência, uma vez que, durante toda a vida, provavelmente não cometeu nenhuma falta venial voluntária? De modo algum. Será a humildade, tão profunda, que se julgava indigno de desatar as correias das sandálias de Jesus Cristo? De modo algum. Jesus não fala da humildade no elogio que faz a João Batista. Será o amor à castidade, que o leva a censurar com destemor, a conduta criminosa de Herodes? Também não. Os elogios de Jesus não visam à castidade, por elevada e sublime que seja. Referem-se todos à constância do santo Precursor. Para chamar a atenção sobre a firmeza inabalável de S. João, Nosso Senhor interroga aos que o cercam: que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Não! Alma tão fraca, tão leviano caráter não teria provocado vossa curiosidade e admiração. Que fostes ver então? Fostes ver um homem perseverante no exercício das mais raras e heróicas virtudes. Um homem constantemente fiel em cumprir a missão que Deus lhe confiou. perseverante na vocação e no gênero de vida austero que abraçou. Um homem sempre fiel ao serviço de Deus, na edificação do próximo, na denúncia, na repreensão aos pecadores. Constante em sofrer, com paciência inalterável e perfeita resignação, as perseguições dos maus. Foi esse o homem que fostes ver!”
“E por que Jesus Cristo louva tanto a constância? Porque esta virtude, de certo modo, encerra todas as outras e, sem ela, as outras não servem para nada. O importante, afirma Santo Agostinho, não é começar bem; é terminar bem, pois segundo Jesus Cristo, unicamente aquele que perseverar até o fim, será salvo. Porque essa é a virtude de todos os dias e de todos os instantes. De fato, a vida do cristão, ainda mais a do religioso, é combate contínuo. Para corrigir nossos defeitos, praticar a virtude, salvar a alma, urge fazer-nos constante violência e lutar contra tudo que nos rodeia. Conseqüentemente temos que lutar:

1. Contra nós mesmos, nossas paixões, nossas más inclinações, contra nossos sentidos, para mantê-los na submissão e na sobriedade;
2. Conta o demônio, leão rugidor, sempre alerta, que ronda sem cessar em volta de nós, para nos devorar; contra o sedutor dos filhos de Deus, anjo das trevas, que se transmuda em anjo de luz para melhor disfarçar suas ciladas e para mais facilmente nos apanhar em suas redes;
3. Contra o mundo, suas vaidades, máximas e escândalos; contra os maus exemplos de nossos coirmãos, não os imitando, mas cumprindo o dever e a Regra; contra nossos pais e amigos, para não atendermos à voz da carne e do sangue e amá-los sempre em Deus e por e por Deus; contra os que se tornam nossos inimigos, pagando-lhes o mal com o bem, amontoados dessa forma, como diz o Apostilo, carvões acesso nas suas cabeças.
4. Contra todas as criaturas e as cosas que nos cercam, para não nos afeiçoarmos a elas, mas nos servimos delas como simples meios para chegarmos a Deus e realizar nossa salvação.
5. Finalmente, devemos combater e lutar contra o próprio Deus, pressionando-o santamente, por meio de fervorosas orações, suportando com paciência e resignação a aridez espiritual, os dissabores, as tentações, todas as provações que a Divina Providência quiser enviar-nos”.
“Ora, só a firmeza inabalável e a constância enérgica podem sustentar pelejar tão violenta e tão persistente. Os volúveis, os pusilânimes, os covardes não agüentam, e correm sério perigo de se perder. A eles se dirigem as terríveis palavras de Nosso Senhor: ‘Quem põe a mão no arado e olha para trás – isto é, o inconstante – não é apto para o Reino de Deus’”.
Glória, só a Deus!

Bibliografia: Furet, Jean-Baptiste. Vida de São Marcelino José Bento Champagnat – São Paulo: Loyola: SIMAR, 1999

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