Biografia dos Santos

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Vida de Santo Agostinho

Datas Importantes Em Sua Vida

ANO IDADE
354 00 13 de Novembro. Nasce em Tagaste.
365 11 Inicia os cursos de educação geral em Madaura.
370 16 Volta a Tagaste.
371 17 Transfere-se para Cartago, a fim de estudar Retórica e Artes Liberais.
372 18 Morre o seu pai, Patrício.
Apaixona-se e junta-se a uma mulher.
373 19 Lê “O Hortênsio”, de Cícero.
Torna-se maniqueu (seita filosófico-religiosa).
Provável nascimento de Adeodato, seu filho.
374 20 Regressa a Tagaste como professor de Gramática.
376 22 Morre um amigo íntimo.
Agostinho vai de novo a Cartago como professor.
383 29 Vai para Roma, onde continua a docência.
385 31 Depois de ganhar a Cátedra de Retórica da Casa Imperial, por concurso, vai para Milão.
Encontra-se com Santo Ambrósio, Bispo da cidade.
386 32 Outono: CONVERTE-SE À FÉ CATÓLICA.
Passa alguns meses em Cassicíaco.
387 33 Noite da Páscoa (24-25 de abril): É batizado em Milão.
Volta a África e morre sua mãe Mônica (santa), em Óstia Tiberina, porto de Roma.
388 34 Chega a Cartago e pouco depois a Tagaste.
Vende suas posses e funda o primeiro mosteiro.
391 37 É ordenado Sacerdote em Hipona.
395 41 É Sagrado Bispo Auxiliar.
396 42 Sucede ao Bispo Valério em Hipona.
400 46 Publica as “Confissões”.
426 72 Publica a “Cidade de Deus”.
430 76 Genserico ataca Numídia e cerca Hipona.
28 de agosto, Agostinho morre em Hipona.
Agostinho vive hoje na família Agostiniana que lhe reconhece como Pai, no culto da Igreja que o venera como Santo, em todas as almas recuperadas que lhe devem o seu retorno a Deus e nas mentes privilegiadas que o admiram por seu gênio fecundo.

Biografia- Confissões

Agostinho recorda os pecados cometidos na infância

Quem me poderá lembrar os pecados cometidos na infância, já que ninguém há que diante de ti seja imune ao pecado, nem mesmo o recém-nascido com um dia apenas de vida sobre a terra? (1) Quem, senão um pequerrucho, onde vejo a imagem daquilo que não lembro de mim mesmo? Qual era então o meu pecado? Seria talvez o de buscar avidamente, aos berros, os seios da minha mãe? Se mostrasse hoje a mesma avidez, não pelo seio materno, é claro, mas pelos alimentos próprios da minha idade, seria justamente escarnecido e censurado.(p.23)

Vi e observei bem uma criança dominada pela inveja: não falava ainda, mas olhava, pálida e incitada para o seu irmão de leite. Quem já não observou esse fato? Dizem que as mães e amas têm não sei que remédio para eliminar tais defeitos; sem dúvida não é inocente a criança que, diante da fonte generosa e abundante de leite, não admite dividi-la com um irmão embora muito necessitado desse alimento para sustentar a vida. No entanto, tais fatos são tolerados com indulgência, não por serem de pouca ou nenhuma importância, mas porque desaparecerão ao correr dos anos. Prova disso é que nos irritamos contra tal procedimento, quando o surpreendemos em pessoa de mais idade.(p.24).

No entanto, é verdade que eu pecava, Senhor meu Deus, ordenador e criador de tudo o que existe na natureza, com exceção do pecado, de que é apenas regularizador (1). Eu pecava, Senhor Deus meu, agindo contra as disposições dos pais e dos mestres, pois podia no futuro fazer bom uso desses conhecimentos que eles queriam que eu adquirisse, qualquer que tenha sido o motivo que os movia a isso. E eu desobedecia não para fazer coisa melhor, mas pelo amor ao jogo, amando nas disputas o orgulho da vitória, e amava também essas histórias frívolas, que tanto me deleitava os ouvidos, com uma curiosidade que a cada dia brilhava aos meus olhos com os espetáculos (2) e jogos dos adultos. No entanto, os que presidem tais jogos sobressaem tanto em prestígios, que quase todos desejam para seus filhos essa honra.(p.28).

Mas tu, para quem estão contados os nossos cabelos (1), utilizavas em meu proveito o erro dos que me coagiam, e utilizavas a minha falta para castigar-me; punição que eu merecia, embora pequeno, pois era grande pecador. Assim, tu me fazias o bem por meio daqueles que não o faziam, e me davas justa retribuição pelos meus próprios pecados. Estabeleceste, de fato, e efetivamente acontece, que toda alma desregrada seja seu próprio castigo (2).(p.31)

Rodapé – A mãe de Agostinho preferiu adiar o batismo do filho para a idade madura, a fim de que se apagasse as culpas da juventude; não queria que o menino, já batizado, maculasse no pecado a imagem do cristão.(p.31).

Permite, ó Deus, que fale um pouco também da inteligência, dádiva tua que esbanjava em frivolidades.(p.38)

Os dezesseis anos

Quero recordar as minhas torpezas passadas, as corrupções de minha alma, não porque as ame, ao contrário, para te amar, ó meu Deus. É por amor do teu amor que retorno ao passado, percorrendo os antigos caminhos dos meus graves erros. A recordação é amarga, mas espero sentir tua doçura, doçura que não engana, feliz e segura, e quero recompor minha unidade depois dos dilaceramentos interiores que sofri quando me perdi em tantas bagatelas, ao afastar-me de tua Unidade (1).

Desde a adolescência, ardi em desejos de me satisfazer em coisas baixas, ousando entregar-me como animal a vários e tenebrosos amores! Desgastou-me a beleza da minha alma e apodreci aos teus olhos, enquanto eu agradava a mim mesmo e procurava ser agradável aos olhos dos homens.

Preso às paixões ilusórias

Do lado dos desejos carnais e da própria natureza da puberdade emanavam vapores que me enevoavam e ofuscavam o coração, a ponto de não mais distinguir entre um amor sereno e as trevas de uma paixão. Um e outro ardiam confusamente em mim, arrastando a minha fraca juventude pelos despenhadeiros das paixões, e a submergiam num abismo de vícios.

Tua cólera concentrava-se em mim, e eu não percebia. Ensurdecera-me o ruído das cadeias da minha mortalidade, justo castigo à soberba da minha alma, e eu me afastava cada vez mais de ti; e tu o permitias. Eu me agitava, me dissipava, ardia nas paixões da carne; e tu calavas. Ó alegria que tão tarde encontrei! Tu calavas, e eu de ti me afastava, multiplicando as sementes estéreis do sofrimento, em degradação insolente e inquieto esgotamento.(p.46).

Todos elogiavam muito meu pai, que gastava mais do que lhe permitia o patrimônio familiar, nas despesas necessárias para a permanência do seu filho longe de casa por motivos de estudos. Muitos outros cidadãos, bem mais ricos que ele, não se interessavam do mesmo modo pelos filhos. No entanto, meu pai não se preocupava em saber se eu crescia aos teus olhos, meu Deus, e se vivia castamente, desde que fosse eloqüente; mas eu era vazio (3) em relação à tua cultura, ó meu Deus, único e verdadeiro senhor do teu campo (4), que é o meu coração.

Interrupção dos estudos

6 Mas, quando aos dezesseis anos, as necessidades domésticas me forçaram a interromper os estudos por algum tempo, e eu, livre de qualquer escola, passe a viver com meus pais, os espinhos das paixões me subiram à cabeça, sem que houvesse mão para os arrancar. Pelo contrário, meu pai um dia me viu no banho e percebeu em mim os sinais da puberdade e adolescência inquieta; antegozando desde logo a alegria dos netos que eu lhe daria, relatou-o, com alegria, à minha mãe, essa alegria nasce da embriaguez em que este mundo miserável esquece o Criador, para em teu lugar, Senhor, amar tuas criaturas, embriaguez que se inclina ao vinho invisível de uma vontade pervertida que se inclina para o que é baixo.

Mas, no coração de minha mãe já havias começado a edificar o teu templo, a lançar os fundamentos de tua santa habitação. Meu pai, no entanto, era apenas catecúmeno de há pouco tempo. Por isso, minha mãe agitou-se, apreensiva e temerosa. Apesar de eu ainda não ser batizado, receou que eu enveredasse por caminhos tortuosos trilhados por aqueles que voltaram para ti as costas e não a face (5).(p.48)

Vergonha de ser casto(respeito humano)

Mas eu ignorava e caminhava para minha perdição, com cegueira tal, que me envergonhava, diante de meus companheiros, de parecer menos depravado que os outros, quando os ouvia exaltando as próprias infâmias, tanto mais dignas de glória quanto mais infames eram; eu queria fazer o mesmo, não só pelo fato em si, mas pelo louvor que disso resultava.(p.49).

Vícios

Nada é tão digno de censura como o vício; no entanto, para não ser censurado, eu mergulhava ainda mais no vício; quando não me podia igualar a meus companheiros corruptos, fingia ter praticado o que não praticara, para não parecer desprezível pela inocência ou ridículo por ser casto.

8 Eis com que companheiros andava eu pelas praças de Babilônia, revolvendo-me na lama como se fosse em cinamomo e perfumes preciosos. E para afundar-me ainda mais, o inimigo invisível me pisoteava e seduzia, porque era eu fácil de seduzir.(p.50).

Furto das peras

Tua lei, Senhor, condena certamente o furto, como também o faz a lei inscrita no coração humano, e que a própria iniqüidade não consegue apagar. Nem mesmo um ladrão tolera ser roubado, ainda que seja rico e o outro cometa o furto obrigado pela miséria. E eu quis roubar, e o fiz, não por necessidade mas por falta de justiça e aversão a ela por excesso de maldade. Roubei de fato coisas que já possuía em abundância e da melhor qualidade; e não para desfrutar do que roubava, mas pelo gosto de roubar, pelo pecado em si. Havia, perto da nossa vinha, uma pereira carregada de frutos nada atraentes, nem pela beleza nem pelo sabor. Certa noite, depois de prolongados divertimentos pela praças até altas horas, como de costume, fomos, jovens malvados que éramos, sacudir a árvore para lhe roubarmos os frutos. Colhemos quantidade considerável, não para nos banquetearmos, se bem que provamos algumas, mas para jogá-las aos porcos. Nosso prazer era apenas praticar o que era proibido.

Eis o meu coração, Senhor, o coração que olhaste com misericórdia no fundo do abismo. Que o meu coração te diga, agora, o que procurava então, ao praticar o mal sem outro motivo que não a própria malícia. Era asquerosa e eu gostava dela. Gostava de arruinar-me, gostava de destruir-me; amava, não o objeto que me arrastava ao nada, mas o aniquilamento em si. Pobre alma embrutecida, que se apartava do teu firme apoio para autodestruir-se, buscando, não algo desonesto, mas a própria desonestidade!(p.51).

Causa do crime

Quando se indaga da causa de um crime, nela ordinariamente não acreditamos, enquanto não descobrimos que pode ter sido o desejo de obter algum dos bens, que chamamos de inferiores, ou o medo de perdê-lo (2); são , de fato, belos e atraentes esses bens, embora sejam desprezíveis e baixos quando comparados aos bens superiores e beatíficos.(p.53).

Soberba

A soberba quer imitar a grandeza, enquanto somente tu és o Deus altíssimo que estás sobre todas as coisas (2).

13 E a ambição, o que procura senão honras e glórias, enquanto somente tu és digno de ser honrado e glorificado eternamente?(p.54).

…É assim que o homem peca, quando se afasta de ti e busca fora de ti a pureza e a limpidez, que ele não pode encontrar senão voltando para ti.(p.55).

Reconhecimento da Misericordia de Deus

Como agradecerei ao Senhor (1) por minha memória recordar tais fatos, sem que isso perturbe a minha alma? Hei de amar-te, Senhor, hei de dar-te graças e exaltar-te porque me perdoaste atos tão graves e tão maus. Sei que, pela tua graça e misericórdia, meus pecados também fizeram como gelo ao sol (2); devo à tua graça também todo mal que não pratiquei. A que ponto não poderia ter chegado, eu que amei o pecado por si mesmo, sem motivo? Senhor, proclamo que me perdoaste todas as culpas, quer cometidas voluntariamente, quer as que, por tua graça, não cometi.

Qual homem que, consciente da sua própria fraqueza, tem a ousadia de atribuir às próprias forças o mérito da castidade e da inocência, a ponto de amar-te menos, como se não precisasse de tua misericórdia, pela qual perdoas as culpas de quem arrependido se volta para ti?

Quem, chamando por ti, seguiu a tua voz e evitou as faltas, de cuja confissão e relato toma conhecimento nestas páginas, não se ria de mim, doente que fui curado por aquele médico, a quem ele próprio deve o fato de não ter caído doente, ou de ter sido menos doente do que eu. Que esse alguém apenas te ame meu Deus, ainda mais, reconhecendo que aquele que me libertou da exaustão do pecado, o preservou também da mesma funesta debilidade.(p.56).

Influência das más companhias

Meu Deus, eis diante de ti a lembrança viva de minha alma. Sozinho, eu não cometeria aquele furto, no qual não me comprazia na coisa que eu roubava, mas no ato de roubar; sozinho, não me teria atraído a idéia de roubar nem sequer teria roubado.

Oh amizade tão inimiga! Oh sedução misteriosa da mente, vontade de fazer o mal por brincadeira ou diversão, gracejo, prazer de lesar os outros sem vantagem pessoal ou sede de vingança! Basta que alguém diga: “Vamos, mãos à obra!” E temos vergonha de não ser despudorados.(p.58).

Jovem Estudante

Minha alma estava doente

Minha alma estava doente, coberta de chagas, ávida de contato com as coisas sensíveis. Mas, se estas não tivessem alma, certamente não seriam amadas.

Era para mim mais doce amar e ser amado, se eu pudesse gozar do corpo da pessoa amada. Assim, eu manchava as fontes da amizade com a sordidez da concupiscência e turbava a pureza delas com a espuma infernal das paixões. Não obstante eu ser feio e indigno, apresentava-me, nem excesso de vaidade, como pessoa elegante e refinada. Mergulhei então no amor em que desejava ser envolvido.(p.61).

Felicidade ilusória

Que sejam, pois, alguma vez amados os sofrimentos. Acautela-se porém contra a impureza, ó minha alma, e conserva-te sob a proteção do meu Deus, do Deus de nossos pais, digno de todo louvor e honra por todos os séculos (1). Foge da impureza!

. Mas, atualmente tenho mais compaixão do homem que se alegra no vício, do que pena de quem sofre a privação de um prazer funesto e a perda de uma felicidade ilusória.(p.63).

Vida de pecado

Tão cegos são os homens, que chegam a gloriar-se da própria cegueira!

Eu era o primeiro nas aulas de retórica, o que me satisfazia o orgulho e me fazia inchar de vaidade. No entanto, Senhor, tu sabes que eu era muito mais controlado que os outros e que me esquivava de promover as desordens praticadas pelos “arruaceiros” (nome sinistro e diabólico de que se orgulhavam como sinal de civilizados). Vivia contudo entre eles com a despudorada vergonha de não saber imitá-los. Encontrava-me com eles e alegrava-me com a sua amizade, se bem me esquivasse sempre de seus empreendimentos, isto é, das desordens com que escarneciam com arrogância dos tímidos e inocentes, provocando-os com zombarias e regalando-se com esses cruéis divertimentos.(p.65).

Não tem humildade para ler a Bíblia

Resolvi por isso dedicar-me ao estudo das Sagradas Escrituras, para conhecê-las. E encontrei um livro que não se abre aos soberbos… Tal obra foi feita para acompanhar o crescimento dos pequenos, mas eu desdenhava fazer-me pequeno (2), e, no meu orgulho, sentia-me grande.(p.67-68).

Cai na seita do maniqueísmo

Caí assim nas mãos de homens desvairados pela presunção, extremamente carnais e loquazes. Suas palavras traziam as armadilhas do demônio, numa mistura confusa do teu nome com o de nosso Senhor Jesus Cristo e do Espírito Santo consolador (1). Pronunciavam continuamente tais nomes, que eram apenas sons e movimentos de lábios, mas seus corações eram vazios da verdade. Repetiam: “verdade, verdade!” E me falavam muito dela, mas não a possuíam: pelo contrário, ensinavam falsidades, não só a teu respeito, que és realmente a verdade, mas também sobre a existência do mundo, criatura tua.(p.68).

Sonho da Mãe Monica

Ouviste-a, e não lhe desprezaste as lágrimas que, brotando-lhe dos olhos, regavam a terra por toda parte em que orava. Sim, tu a ouviste. Porque, de quem senão de ti veio aquele sonho tão consolador, que ela aceitou tornar a viver comigo e ter-me à sua mesa, o que antes recusava fazer, por horror e aversão às blasfêmias do meu erro? Nesse sonho, viu-se de pé sobre uma régua de madeira, e um jovem luminoso e alegre lhe foi sorridente ao encontro, enquanto ela estava triste e amargurada. Perguntando-lhe os motivos da tristeza e das lágrimas cotidianas, não por curiosidade, mas para instruí-la, como acontece muitas vezes. E respondendo ela que chorava a minha perdição, ele a confortou, aconselhando-lhe que prestasse atenção e visse que onde ela se encontrava aí estava também eu. Ela olhou e me viu diante de si, de pé, na mesma régua. De onde viria tal sonho, senão do fato de teres ouvido a voz do seu coração, ó Bondade onipotente, que cuidas de cada um como se de um só cuidasses, e de todos como se fossem um só?(p.78-79).

Orações de Monica

Passaram-se de fato nove anos, durante os quais eu me revolvi no lodo desse profundo abismo (3) e nas trevas do erro, tentando levantar-me, mas afundando-me cada vez mais. No entanto, aquela viúva casta, piedosa e sóbria – tal como gostas que sejam – sustentada sempre pela esperança, mas sem poupar lágrimas, não cessava de chorar por mim diante de ti, em todos os momentos de suas orações. Desse modo, chegavam à tua presença as preces dela, mas tu permitias ainda que me revolvesse e Debatesse, naquelas trevas.(p.80).

Professor

Vida de pecado

Durante os nove anos que se seguiram, dos dezenove aos vinte e oito anos de idade, fui muitas vezes seduzido e sedutor, enganado e enganador, em meio às diversas paixões, ensinando, de público, as ciências chamadas liberais e, em nome particular, praticando uma religião indigna de tal nome. Ora, soberbo, ora supersticioso, sempre vaidoso. Ora em busca do quimérico louvor popular – até mesmo de aplauso no teatro – e dos concursos de poesia, das disputas de coroas de feno (1), de espetáculos frívolos e dos desregramento das paixões. Ora, desejando purificar-me dessas manchas, levava alimentos aos chamados eleitos e santos, para que estes, nas oficinas de seus estômagos, fabricassem anjos e deuses que nos libertassem (2).

Eu tinha essas opiniões e as praticava, como meus amigos, enganando a eles e a mim mesmo. Riam-se de mim os orgulhosos ainda não salutarmente humilhados e esmagados por ti, meu Deus. Mas, para teu louvor, não deixarei por isso de confessar minhas indignidades. Imploro me concedas que eu possa percorrer com memória fiel o caminho de meus erros passados, oferecendo-te sacrifícios de júbilo (3).(p.85).

Durante esses anos, eu vivia em companhia de uma mulher, a quem não estava unido legítimo matrimônio, mas que a imprudência de uma paixão inquieta me fez encontrar. Era, porém, uma só, e eu lhe era fiel. Com esta união experimentei pessoalmente a diferença entre o laço conjugal instituído em vista da procriação, e uma ligação baseada na paixão sensual, da qual podem nascer filhos sem serem desejados, embora uma vez nascidos se imponham ao amor dos pais.(p.86-87).

Amigo morre

Crescemos juntos desde meninos, fomos colegas de escola e de folguedos; mas só então tornou-se verdadeiramente meu amigo, embora não fosse essa a verdadeira amizade, pois a amizade só é verdadeira quando une pessoas ligadas a ti pelo amor derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (1). Todavia, essa amizade, amadurecida ao calor dos mesmos interesses, era para mim cheia de suavidade. Eu o desviara da verdadeira fé que ele, ainda jovem, professava um tanto superficialmente, e o arrastara para as superstições falsas e perniciosas que tantas lágrimas por minha causa custaram à minha mãe. Suas idéias, como as minhas, incidiam no erro, e eu não podia passar sem ele. Mas eis que alcançaste os fugitivos, Senhor Deus das vinganças (2), e ao mesmo tempo fonte de toda misericórdia, que convertes os homens a ti pelos caminhos mais estranhos. Levaste-o desta vida, quando apenas um ano se passara nessa amizade, a mais doce de todas as suavidades da minha vida.(p.90).

Desgosto da vida

Mas por que falar de tudo isso? Não é este o momento para indagações, mas de confessar-me a ti. Eu era infeliz, como infeliz é todo espírito subjugado pelo amor às coisas mortais, cuja perda o dilacera, e então deixa perceber a extensão da infelicidade que já o oprimia antes de perdê-las.(p.93).

Vida passageira

15 Deus das virtudes, volta-nos para ti, mostra-nos a tua face e seremos salvos (1). Para qualquer parte que se volte a alma humana, se não se fixa em ti, se agarra à dor, ainda que se detenha nas belezas que estão fora de ti e fora de si mesma. Estas nada teriam de belo, se não proviessem de ti. Nascem e morre: nascendo, começam a existir e a crescer para chegar à maturidade; porém, uma vez maduras, decaem e morrem. Nem tudo envelhece, mas tudo morre. Portanto, no exato momento em que nascem começam a existir, quanto mais rapidamente crescem para o ser, tanto mais correm para o não ser. Tal é a condição que lhes impuseste, por serem partes de coisas que não existiam simultaneamente. São coisas que, desaparecendo e sucedendo-se umas às outras, compõem o universo. Também assim se realizava a fala, através de sinais sonoros. E o discurso não seria completo, se cada palavra, depois de pronunciada, não morresse para deixar lugar a outra.(p.97).

Só Deus é estável

Não sejas vã, ó minha alma. Não ensurdeças o ouvido do coração com o tumulto de tuas vaidades. Ouve também: é o próprio Verbo que clama para voltares. O lugar do repouso imperturbável está onde não se renuncia ao amor, se este não recua. Eis que estas coisas passam para deixar lugar a outras, e de todas essas partes se forma o universo das realidades inferiores. “Porventura eu me afasto de um lugar para outro?”, diz o Verbo de Deus: “Fixa nele a tua morada, confia-lhe tudo que dele recebes, ó minha alma, já cansada de tantos enganos. Entrega à verdade tudo o que da verdade tens recebido, e nada perderás; reflorirá tudo o que em ti estiver apodrecido, todas as tuas doenças serão curadas, as tuas fraquezas serão reparadas, renovadas estarão estreitamente ligadas a ti, e não te arrastarão para o abismo, mas subsistirão contigo junto a Deus, que é sempre estável e presente.

17 Por que te deixas perverte e segues a tua carne? Que ela se converta e te siga! O que ela te faz sentir são apenas partes de um todo que ignoras do teu corpo fossem capazes de compreender o todo e não tivessem sido, para teu castigo, rigorosamente limitados a uma parte do todo, desejarias que passasse tudo quanto existe no presente para melhor saboreares o conjunto. Ora igualmente pelos sentidos é que ouves tudo o que se diz, e, naturalmente, não desejas que parem as sílabas, pelo contrário, que passem rapidamente e outras se sucedam, e assim possas compreender o pensamento. O mesmo acontece com as partes que, formando um todo, não são coexistentes: percebidas em conjunto, dão mais prazer do que cada uma separadamente.(p.99).

18 Se te agradam os corpos, louva a Deus por eles e dirige o teu amor a quem os criou, para não lhe desagrades ao encontrar prazer em tais criaturas. Se te agradam as almas, ama a elas em Deus, pois são também  mutáveis e somente nele tornam-se estáveis; de outro modo, passariam e pereceriam. Portanto é em Deus que deves amá-las; leva-as contigo até ele, dizendo-lhes: “Amemos, amemos a Deus!” Foi ele o criador dessas realidades, e delas não está longe, pois não as abandonou depois de criá-las. Dele elas vêm e nele existem. Ele está onde se saboreia a verdade. Ele esta no íntimo do nosso coração; mas o coração se afastou dele.(p.99).

Escreveu maus livros

27 Tinha cerca de vinte e seis anos ou vinte e sente anos quando escrevi aqueles livros, revolvendo no pensamento imagens materiais que me zumbiam aos ouvidos do coração. Ó doce verdade, era tua doce melodia interior que eu escutava ao meditar sobre o belo e o conveniente. Desejava ouvir-te e ficar contigo tomado de alegria ouvindo à voz do esposo (9), mas não o podia, porque as vozes do erro arrastavam-me para fora, e o peso da soberba me precipitava no abismo. Não me concedias ao ouvido o gozo e a alegria, nem podiam meus ossos rejubilar-se, pois não tinha ainda sido humilhados (1).

30 Mas sendo escravo das piores paixões, de que me servia ter lido e compreendido por mim mesmo todos os livros que pude ler sobre as artes chamadas liberais? Comprazia-me neles, sem perceber de onde provinha tudo o que encerravam de certo e verdadeiro. Voltava as costas à luz, e a face aos objetos por ela iluminados; e, assim, o meu rosto, com que os via iluminados, não era ele próprio iluminado.(p.107).

Maniqueísmo

Durante cerca de nove anos, em que me pensamento errante escutava a doutrina maniqueísta, , aguardava ansiosamente a chegada desse Fausto. Quando finalmente me foi possível, com alguns amigos, fazer que ele me escutasse num momento oportuno, então lhe apresentei algumas dificuldades que me perturbavam. Descobri logo que ele nada entendia das disciplinas liberais, com exceção da gramática, da qual conhecia apenas o corriqueiro. Tinha lido alguns discursos de Cícero, pouquíssimas obras de Sêneca, algumas obras de poetas, e umas poucas, de seus correligionários, escritas em latim mais cuidado. Depois que me pareceu evidente ser aquele homem incompetente nas ciências em que o considerara competentíssimo, comecei a desesperar de sua capacidade para explicar e resolver os problemas que me angustiavam. Apagado assim meu entusiasmo pelas obras maniqueístas, e nada podendo esperar de outros mestres, já que o de maior fama se revelara tão incompetente diante dos problemas que me angustiavam, resolvi manter com ele relações baseadas apenas no grande interesse que mantinha pela literatura, que eu, como professor de retórica, ensinava aos jovens de Cartago.(p.120-123)

A doutrina maniqueísta

Conservava ainda a idéia de que não éramos nós que pecávamos, mas alguma outra natureza estabelecida em nós. O fato de estar sem culpa e de não dever confessar o mal após tê-lo cometido satisfazia o meu orgulho; desse modo eu não permitia que curasses minha alma que pecara contra ti

Agostinho aos 30 anos

Reflexões

Ó minha esperança desde a minha juventude (1), onde estavas, para onde te retiraste? Não foste tu que me criaste e me quiseste diferente dos animais, mais inteligente que as aves do céu? E, no entanto, eu caminhava em meio às trevas e por terrenos escorregadios. Eu te buscava fora de mim, e não encontrava o Deus do meu coração (2). Havia chegado ao fundo do mar, e não tinha mais confiança nem esperança de encontrar a verdade.(p.139).

Inicio de arrependimento

Eu ainda não pedia em gemidos que viesses em meu auxílio, mas estava cheio de ardor em tua busca, ávido de discussão. Considerava o próprio Ambrósio um homem realiza.do segundo o espírito do mundo, homenageado pelos poderosos; somente seu celibato parecia-me duro de suportar.

Eu, que nem de longe suspeitava o que era substância espiritual, então me envergonhei alegremente de ter vociferado por tantos anos, não contra a fé católica, mas contra as ficções criadas por imaginações carnais. Tinha sido temerário e ímpio por ter acusado a fé católica, sem antes me haver informado através de pesquisa séria. Tu, porém, que estás tão alto e tão perto, tão escondido e tão presente, que não tens membros maiores e menores e que existes todo em toda parte, mesmo não possuindo esta forma corpórea, fizeste à tua imagem o homem que, da cabeça aos pés, está contido num determinado espaço.(p.143).

Só a fé podia curar-me: desse modo, os olhos da minha inteligência, já purificada, se dirigiriam à tua verdade imutável e perfeita (2). Mas, assim como acontece muitas vezes, depois de experimentar um médico mau, a gente receia confiar num bom, o mesmo acontecia à saÚde de minha alma, que somente poderia curar-se pela fé, mas, para não acabar novamente acreditando em coisas falsas, recusava a cura, resistindo a ti que fabricaste o remédio da fé e, dotando-o de tão grande poder, o derramaste sobre todas as enfermidades da terra.(p.145).

Preferência da fé católica

Desde então comecei a preferir a doutrina católica, porque agora compreendia: era mais modesto e sincero prescrever a fé em algo que não podia ser demonstrado, tanto por incapacidade da maioria dos homens, como simplesmente por absoluta impossibilidade, do que zombar da fé, prometendo temerariamente uma ciência, para afinal impor a crença numa grande quantidade de fábulas absurdas, incapazes de demonstração.

Assim eu meditava, e tu estavas a meu lado. Eu suspirava e tu me ouvias. Eu tateava e tu me guiavas. Eu andava pelos largos caminhos do mundo (3), e tu não me abandonavas.(p.147-148).

Um mendigo o faz refletir

…passando por uma viela de Milão, reparei num pobre mendigo que, talvez meio bêbado, estava alegre e de bom humor. Entristeci-me, e fiz notar aos amigos, que me acompanhavam, as angústias provocadas por nossas loucuras. Pois, com todos os nossos esforços (como eram então os meus, carregando sob o aguilhão das paixões o peso da miséria, peso que aumentava à medida que eu o arrastava), onde queríamos chegar, senão à alegria segura em que nos precedera o mendigo e onde talvez nunca chegaríamos? Ele, de fato, com aquelas poucas moedas recebidas de esmola, tinha alcançado a alegria da felicidade efêmera, que eu me esforçava para conseguir dando voltas por tantos caminhos tortuosos e cheios de angústias.(p.148).

A castidade é dom de Deus

Parecia-me grande infelicidade privar-me do abraço de uma mulher, e não pensava no remédio que contra esta fraqueza nos proporciona tua misericórdia, pois nunca fizera a experiência. Pensava que a continência dependesse apenas de nossas forças, e eu achava que não as possuía. Era insensato, a ponto de não saber, como diz a Escritura (3), que ninguém pode ser continente, se tu não lhe concedes tal dom. E tu o terias concedido a mim, se meus gemidos te houvessem ferido os ouvidos; se eu houvesse lançado aos teus pés, com extrema confiança, todas as minhas angústias (4).(p.159).

Escravo do prazer

No entanto, multiplicavam-se os meus pecados. Quando de mim foi arrebatada a mulher com quem vivia, considerada impedimento ao meu casamento, meu coração, que lhe era afeiçoadíssimo, ficou profundamente ferido e sangrou por muito tempo. Ela voltou para a África fazendo a ti o voto de jamais pertencer a outro homem e deixando para mim o filho que me havia dado. Mas eu, infeliz, fui incapaz de imitar a esta mulher! Eu não conseguia suportar a espera de dois anos para receber a esposa que tinha pedido. Na realidade eu não amava o matrimônio; eu era, sim, escravo do prazer. E tratei de arranjar outra mulher, não como esposa legítima, para manter e alimentar intacta ou agravar a doença da minha alma até o casamento, e aí chegar sem haver interrompido meus hábitos.

No entanto, não cicatrizara ainda a ferida aberta pela separação de minha companheira. Mas, após o momento da dor mais pungente, a ferida gangrenava e me fazia sofrer, talvez menos agudamente, porém, com maior desesperança de cura.(p.163).

A conversão

Quanto a mim, aborrecia-me a vida que levava no mundo, e era para mim fardo

pesadíssimo, agora que os apetites mundanos, como a esperança de honras e riquezas, já não me animavam para suportar tão pesada servidão. Essas paixões haviam perdido para mim o encanto, diante de tua doçura e da beleza de tua casa, que já amava. Mas sentia-me ainda fortemente amarrado à mulher. Sem dúvida o Apóstolo não me proibia de casar, embora em seu ardente desejo de ver todos os homens semelhantes a ele, exortasse a um estado mais elevado.

Mas eu, ainda muito fraco, escolhia a condição mais fácil; por isso, vivia hesitando em tudo o mais, e me desgastava com preocupações enervantes, pois a vida conjugal, a que me julgava destinado e obrigado, ter-me-ia obrigado a novas incumbências, que eu não queria suportar.(p.202).

Toma e Lê

E tu, Senhor, até quando? Até quando, Senhor, hás de estar irritado! Esquece-te de minhas iniqüidades passadas! Sentia-me ainda preso a elas, e gemia, e lamentava: “Até quando? Até quando direi amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não pôr fim agora às minhas torpezas?”

Assim falava, e chorava oprimido pela mais amarga dor do meu coração. Mas eis que, de repente, ouço da casa vizinha uma voz, de menino ou menina, não sei, que cantava e repetia muitas vezes: “Toma e lê, toma e lê”.

E logo, mudando de semblante, comecei a buscar, com toda a atenção em minhas lembranças se porventura esta cantiga fazia parte de um jogo que as crianças costumassem cantarolar; mas não me lembrava de tê-la ouvido antes. Reprimindo o ímpeto das lágrimas, levantei-me. Uma só interpretação me ocorreu: a vontade divina mandava-me abrir o livro e ler o primeiro capitulo que encontrasse. Tinha ouvido dizer que Antão, assistindo por acaso a uma leitura do Evangelho, tomara para si esta advertência: “Vai, vende tudo o que tens, dá-lo aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me” – e que esse oráculo decidira imediatamente sua conversão. Depressa voltei para o lugar onde Alípio estava sentado, e onde eu deixara o livro do Apóstolo ao me levantar. Peguei-o, abri-o, e li em silêncio o primeiro capítulo que me caiu sob os olhos: “Não caminheis em glutonarias e embriaguez, não nos prazeres impuros do leito e em leviandades, não em contendas e rixas; mas revesti-vos de nosso Senhor Jesus Cristo, e não cuideis de satisfazer os desejos da carne”. Não quis ler mais, nem era necessário. Quando cheguei ao fim da frase, uma espécie de luz de certeza se insinuou em meu coração, dissipando todas as trevas de dúvida. Então, marcando com o dedo, ou não sei com que, fechei o livro, e com o rosto já tranqüilo, revelei a Alípio o que se passara. Ele, por sua vez, me revelou o que acontecera com ele, e que eu ignorava. Pediu para ver o que eu tinha lido; mostrei-lhe, ele prosseguiu a leitura. Eu ignorava o texto seguinte, que era este: Recebei ao fraco na fé, palavras que aplicou a si mesmo, e mo revelou. Fortificado por essa advertência, firmou-se nessa resolução e santo propósito, bem de acordo com seus costumes, nos quais já há muito tempo tomara grande vantagem sobre mim.

Fomos depois à procura de minha mãe, que ao saber do sucedido, ficou radiante. Contamo-lhe como o caso se passara; ela exultou, triunfante e bendizendo a ti, que és poderoso para dar-nos mais do que pedimos ou entendemos, porque via que lhe havias concedido, a meu respeito, muito mais do que constantemente te pedia com tristes gemidos e lágrimas. De tal forma me converteste a ti, que já não procurava esposa, nem abrigava esperança alguma deste mundo, mas estava já naquela “regra de fé” em que há tantos anos me havias mostrado à minha mãe. E assim converteste seu pranto em alegria, muito mais fecunda do que havia desejado, e muito mais preciosa e pura do que a que podia esperar dos netos nascidos de minha carne.(p.226-227).

Doença

E subia, no versículo seguinte, um profundo clamor de meu coração: Oh! Em paz! Oh! Em seu próprio Ser! Mas, que disse? Dormirei e descansarei! Com efeito, quem nos há de resistir quando se cumprir a palavra que está escrita: A morte foi devorada pela vitória?

Tu és esse mesmo Ser, e não mudas, e em ti está o repouso que faz esquecer todos os sofrimentos. Porque ninguém pode ser comparado a ti e nem vale pensar em adquirir outras coisas que não sejam o que tu és; mas tu, Senhor, singularmente me firmaste na esperança.

Eu lia isto, e me inflamava. Não sabia que fazer com aqueles surdos, de quem eu fora a peste, um cão raivoso e cego que ladrava contra a Bíblia, dulcificada por seu mel celestial e iluminada por tua luz. E me consumia de dor por causa dos inimigos de tuas Escrituras.

Quando poderei recordar tudo o que aconteceu naqueles dias de descanso? Mas não esqueci, nem quero silenciar, a aspereza de um açoite que usaste em mim, e a admirável presteza de tua misericórdia.

Atormentavas-me então com uma dor de dentes, que se agravara a tal ponto de me impedir até de falar. Ocorreu-me ao pensamento pedir a todos os amigos, que rogassem por mim, ó Deus da salvação! Escrevi meu pedido numa tabuleta encerada, e lha dei para que o lessem.

Apenas dobramos os joelhos com suplicante afeto, logo a dor desapareceu. E que dor! E como desapareceu! Enchi-me de espanto, eu o confesso, meu Deus e Senhor. Nunca, desde minha infância, havia experimentado coisa semelhante. No fundo de meu coração penetrou o sinal da tua vontade e, alegre na fé, louvei teu nome. contudo, esta fé não me deixava viver tranqüilo quanto a meus pecados passados, que ainda não me haviam sido perdoados por teu batismo.(p.241).

Agostinho teve filho que morreu antes da sua conversão

Juntamos também a nós o jovem Adeodato, filho carnal de meu pecado; a quem dotaste de grandes qualidades. Tinha cerca de quinze anos, mas por seu talento ultrapassava já muitos homens maduros e doutos. Confesso-te que eram dons teus, meu Senhor e meu Deus, criador de todas as coisas, tão poderoso para corrigir nossas deformidades, pois este menino nada havia de

meu, senão meu pecado. Se o criei em tua disciplina, foste tu, e mais ninguém, quem no-lo inspirou. Sim, confesso que eram dons teus.

Há um livro meu que se intitula O Mestre, no qual Adeodato dialoga comigo. Tu sabes que todos os pensamentos ali manifestados são dele quando tinha dezesseis anos. Muitas outras qualidades maravilhosas notei ainda nele, admirado por sua inteligência. Mas quem, além de ti, poderia ser o autor dessas maravilhas? Cedo o arrebataste desta terra; e a lembrança dele se torna mais tranqüila, nada mais tendo a temer por sua infância, por sua adolescência ou por toda sua vida adulta. Associamo-lo a nós como irmão na graça, para educá-lo em tua lei. Fomos batizados, e os remorsos de nossa vida passada se afastaram de nós.(p.243).

Santa Monica Dócil

Educada assim na modéstia e na temperança, mais sujeita a seus pais pela tua mão que por seus pais a ti, logo que chegou à idade núbil, foi dada em matrimônio a um homem, a quem serviu como a senhor. Procurou conquistá-lo para ti, falando0lhe de ti com suas virtudes, com as quais tu a tornavas bela e reverentemente amável e admirável ante seus olhos. Suportou suas infidelidades conjugais com tanta paciência, que jamais teve com ele a menor briga por isso, pois esperava que tua misericórdia viria sobre ele, e que lhe trouxesse, com a fé, a castidade. Seu marido, se de um lado era sumamente afetuoso, por outro era extremamente colérico, mas ela tinha o cuidado de não contrariá-lo nem com ações, nem com palavras, se o visse irado.

Logo que o via calmo e sossegado, oportunamente, mostrava-lhe o que havia feito, se por acaso se tivesse irritado desmedidamente.

Muitas senhoras, embora tendo maridos mais calmos, traziam no rosto as marcas das pancadas que as desfiguravam. Conversando entre amigas, lamentavam a conduta dos maridos. Minha mãe reprovava-lhes a língua e, como por gracejo, lembrava-lhes que, desde a leitura do contrato matrimonial, deviam considerá-lo como documento que as tornava servas, e portanto proibia-lhes de serem altivas com seus senhores. Essas senhoras, que conheciam o mau gênio de seu marido, admiravam-se de que jamais ninguém tivesse ouvido ou percebido qualquer indício que Patrício maltratasse a mulher, nem sequer que algum dia tivessem brigado por questões domésticas. E como lhe pedissem confidencialmente a razão disso, minha mãe expunha-lhes seu agir habitual, como acima mencionei. Algumas, após experimentar, punham-no

em prática e davam-lhe graças; as que não a imitavam continuavam a sofrer humilhações e violências.

Sua sogra, a princípio irritara-se contra ela por causa dos mexericos de criadas malévolas. Mas conseguiu conquistá-la com respeito, contínua tolerância e mansidão, que ela mesma, espontaneamente, denunciou ao filho as línguas intrigantes das criadas, que perturbavam a paz doméstica entre ela e a nora, e pediu que as castigasse. Ele, em obediência à mãe, para manter a disciplina familiar e a harmonia entre os seus, mandou açoitar as acusadas, segundo a vontade da acusante; e esta prometeu-lhes ainda que esse era o prêmio que devia esperar quem, querendo agradá-la, lhe dissesse mal da nora. E ninguém mais se atreveu a fazê-lo, e viveram as duas em doce e memorável harmonia.(p.248-249).

As minhas boas obras

As obras boas são tuas obras e teus dons; as más são meus pecados. As obras boas são tuas obras e teus dons; as más são meus pecados, objeto de teus juízos.(p.266).

Tarde te amei!…

Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro de mim, e eu lá fora, a te procurar! Eu, disforme, me atirava à beleza das formas que criaste. Estavas comigo, e eu não estava em ti. Retinham-me longe de ti aquilo que nem existiria se não existisse em ti. Tu me chamaste, gritaste por mim, e venceste minha surdez. Brilhaste, e teu esplendor afugentou minha cegueira. Exalaste teu perfume, respirei-o, e suspiro por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me, e o desejo de tua paz me inflama.(p.295).

Gula

Exposto a estas limitações, luto diuturnamente contra a concupiscência do comer e do beber, pois não é coisa que possa cortar de uma vez por todas, apenas com o propósito de nunca mais recair, como fiz com a luxúria. É uma rédea imposta a meu paladar, ora para afrouxá-la, ora para retesá-la. E quem é, Senhor, que não se deixa arrastar às vezes além dos limites do necessário? Se existe alguém assim, é de fato grande, e deve engrandecer teu nome. eu porém não sou desse número, porque sou pecador. Contudo, também, eu engrandeço teu nome, e Aquele que venceu o mundo intercede junto a ti por meus pecados. Conta-me entre os membros enfermos de seu corpo, porque teus olhos viram minhas imperfeições e porque todos serão inscritos em teu livro.(p.302).

Tentação da vanglória

Sou pobre e necessitado, e só melhoro quando, com gemidos íntimos e com desagrado de mim mesmo, busco tua misericórdia, até que minha indigência seja reparada e sanada com a paz que o olho soberbo ignora! Todavia, as palavras de nossa boca, ou nossos atos conhecidos dos homens, encerram uma tentação muito perigosa, filha do amor dos louvores que, para nos iludir com certa excelência, recolhe e mendiga os aplausos alheios. A vanglória me tenta até quando a critico em mim, e é por isso mesmo que eu a desaprovo. Muitas vezes, por excesso de vaidade, há quem se glorie até mesmo do desprezo da vanglória; mas de fato não é mais do desprezo da vanglória que se orgulha, porque ninguém a despreza quando se gloria de a desprezar.(p.315);

A morte de Mônica

Não me lembro bem o que respondi a tais palavras. Mas cerca de cinco dias mais tarde, ou pouco mais, caiu de cama, com febre. Durante a doença, teve um dia um desmaio, ficando por pouco tempo sem sentidos e sem reconhecer os presentes. Acudimos de imediato, e logo voltou a si. Vendo-nos a seu lado, a mim e a meu irmão (chamava-se Navígio, e era o mais velho dos irmãos), perguntou-nos, como quem procura algo: “Onde estava eu?” – Depois, vendo-nos atônitos de tristeza, nos disse: “Sepultareis aqui a vossa mãe” – Eu me calava, retendo as lágrimas, mas meu irmão disse umas palavras em que desejava vê-la morrer na pátria e não em terras distantes. Ao ouvi-lo, minha mãe repreendeu-o com o olhar, e aflita por ter pensado em tais coisas; depois, olhando para mim, disse: “Vê o que ele diz” – E depois para ambos: “Sepultem

este corpo em qualquer lugar, e não se preocupem mais com ele. Peço apenas que se lembrem de mim diante do altar do Senhor, onde quer que estejam”. E tendo-nos exposto seu pensamento com as palavras que pôde, calou-se; sua moléstia agravou-se e suas dores aumentaram. Soube também depois que em Óstia, estando eu ausente, falou certo dia com alguns amigos meus, com maternal confiança, sobre o desprezo desta vida e o benefício da morte. Eles, maravilhados da coragem dessa mulher – dádiva tua – perguntaram-lhe se não temia deixar o corpo tão longe da pátria. “Nada está longe para Deus – disse ela – nem preciso temer que ele ignore, no fim dos tempos, o lugar onde me ressuscitará”. Por fim, nove dias após cair enferma, aos cinqüenta e seis anos de idade e aos trinta e três da minha, aquela alma santa e piedosa libertou-se do corpo.(p.254-255).

Sabedoria

O pecado e a falsidade do horóscopo

Voltei pois minha atenção ao caso dos gêmeos, muitos dos quais saem do seio materno com tão breve intervalo de tempo, que por mais que o pretendam importante, não pode ser apreciado pela observação humana, nem pode ser considerado nos signos que o astrólogo lançará mão para fazer uma previsão certa. Mas os vaticínios não serão verdadeiros pois, vendo os mesmos signos, deveria predizer a mesma sorte para Esaú e Jacó, sendo que os sucessos da vida de ambos foram muito diversos. O astrólogo, portanto, deveria prognosticar coisas falsas, ou, no caso de falar coisas verdadeiras, estas forçosamente deveriam ser diferentes, a despeito da identidade das observações. Logo, se seus prognósticos fossem verdadeiros, não o seriam por efeito da arte, mas do acaso. Porque tu, Senhor, governador justíssimo do Universo, por inspiração secreta, desconhecida dos consulentes e astrólogos, fazes que cada um ouça a resposta que lhe convém, de acordo com os méritos das almas, do fundo do abismo de teu justo juízo. E que o homem não se atreva a dizer: Que é isto? Por que isto? Não o diga, não o diga, porque é um simples homem.(p.181).

Do mesmo modo, a pessoa de fé possui todas as riquezas do mundo (2) e, mesmo que nada tenha, é como quem tudo possui (3), pois está unida a ti, Senhor de todas as coisas, pouco importando se nada sabe sobre o percurso da Ursa Maior!(p.118).

Não julgar

Portanto, muitas ações que aos homens pareciam reprováveis, na realidade são aprovadas por ti, enquanto outras que os homens elogiam, tu as condenas. De fato, sucede muitas vezes que a aparência de um ato não corresponde à intenção de quem o pratica ou às circunstâncias desconhecidas no momento.(p.77).

Quem conhece a Deus o louva

Grande és tu, Senhor, e sumamente louvável: grande a tua força, e atua sabedoria não tem limite (1). E quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação; o homem carregado com sua condição mortal, carregado com o testemunho de seu pecado (2) e com o testemunho de que resistes aos soberbos (3); e, mesmo assim, quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação. Tu o incitas para que sinta prazer em louvar-te ; fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti (4). Dá-me, Senhor, saber e compreender (5) qual seja o primeiro: invocar-te ou louvar-te; conhecer-te ou invocar-te (6). Mas, quem te invocará sem te conhecer? Por ignorá-lo, poderá invocar alguém em lugar de outro. Ou será que é melhor seres invocado, para seres conhecido? Como, porém, invocarão aquele a quem não crêem? E como terão fé sem ter quem anuncie? (7) Louvarão o Senhor aqueles que o procuram (8). Quem o procura o encontra (9), e, tendo-o encontrado, o louvará. Que eu te busque, Senhor, invocando-te; e que eu te invoque, crendo em ti: tu foste anunciado. Invoca-te, Senhor, a minha fé, que me deste, que me inspiraste pela humanidade de teu Filho, pelo ministério de teu pregador.(p.15)

Louvor a Deus

“Quem é, pois, senhor, senão o Senhor? Ou quem é deus, senão o nosso Deus?” (1). Ó altíssimo, infinitamente bom, poderosíssimo, antes todo-poderoso, misericordioso, justíssimo, ocultíssimo, presentíssimo, belíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível, imutável que tudo muda, nunca novo (2) e nunca antigo, tudo inovando (3), conduzindo à decrepitude os soberbos, sem que disto se apercebam (4), sempre em ação e sempre em repouso, recolhendo e de nada necessitando; carregando, preenchendo e protegendo, criando, nutrindo e concluindo; buscando ainda que nada te falte. Amas, e não te apaixonas; tu és cioso (5), porém tranqüilo; tu te arrependes (6) sem sofrer; entras em ira (7), mas és calmo; mudas as coisas sem mudar o teu plano; recuperas o que encontras sem nunca teres perdido; nunca estás pobre, mas te alegras com os lucros; não és avaro e exiges os juros (8); nós te damos em excesso (9), para que sejas nosso devedor. Mas, quem possui alguma coisa que não seja tua? (10) Pagas as dívidas, sempre que devas a ninguém, e perdoas o que te é devido, sem nada perderes.(p.18)

Contra o homossexualismo

Existirá tempo ou lugar em que seja injusto amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento, e ao próximo como a si mesmo (1)? Por isso, os crimes contra a natureza, como os de Sodoma (2), devem ser sempre e em toda parte condenados e punidos. Mesmo que todos os homens os cometessem, todos estariam incluídos na mesma condenação, em virtude da lei divina, que não criou os homens para que fizessem tal uso de si mesmos. É de fato uma violação do vínculo que deve subsistir entre Deus e nós, o profanar, pela paixões depravadas, a própria natureza de que ele é o autor. Os atos imorais, contrários aos costumes humanos, devem ser evitados por causa desses mesmos costumes, variáveis conforme os tempos, a fim de que não seja violado pelo capricho de quem quer que seja, cidadão ou estrangeiro, o pacto estabelecido pelo costume ou pela lei de uma cidade ou nação.(p.74).

Fonte: Confissões. Santo Agostinho. Paulus.1984.


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