Biografia dos Santos

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Biografia de Santo Antônio de Padua por Colasanti, Pecora e Frei Paulo Back

Início

Santo Antônio nasceu em Portugal, na cidade de Lisboa, no fim do século XII, sendo a data mais mencionada nas biografias a de 15 de agosto de 1195. Seus pais, Martim de Bulhões e Tereza Taveira, eram muito religiosos e o educaram com muito carinho na religião cristã. Sobre a casa de seus pais, em Lisboa, foi erguida a Igreja de Santo Antônio, bem próxima à catedral de Santa Maria…Santo Antônio recebeu na pia batismal o nome de Fernando. Desde muito pequeno acompanhava os pais nas celebrações religiosas na Catedral. Ainda menino foi encaminhado para a escola dos Cônegos Regulares, onde recebeu boa formação humana e educação cristã aprimorada. A mãe teria consagrado o menino à Santíssima Mãe de Deus, desde os primeiros anos de vida. E ele foi crescendo em sabedoria e graça, servindo ao altar de Deus como acólito.(p.9 e p.14. Frei Paulo Back – Nova Trezena de Santo Antônio).

Cronologia de Santo Antônio

1195(ou 1190) Em 15 de agosto nasce em Lisboa, Portugal, Fernando de Bulhões(depois Frei Antônio).

1201(a 1210) Fernando freqüenta a escola da catedral de Lisboa. Reside no mosteiro agostiniano de Santa Cruz, em Coimbra, onde inicia seus estudos de Filosofia e Teologia.

1220 Provável ano de sua ordenação sacerdotal. Em 16 de janeiro desse ano, cinco frades franciscanos são martirizados em Marrocos e seus despojos são venerados no Mosteiros de Santa Cruz. No verão, Fernando adere ao movimento franciscano e recebe o hábito de São Francisco no Convento de Olivas, em Coimbra, com o nome de Frei Antônio. Parte em missão para o Marrocos.

1221 Doente, inicia a viagem de retorno a Portugal, mas o navio naufraga e ele chega à ilha de Sicília(Itália), no convento de Messina. Entre 30 de maio e 8 de junho desse ano, participa do Capítulo das Esteiras, em Assis(Itália), e conhece pessoalmente São Francisco. Frei Antônio é transferido para o Convento de Monte Paulo(Eremitério).

1222 Convidado a participar de uma ordenação sacerdotal em Forli, faz um sermão de improviso, revelando grande dom de oratória e seu profundo conhecimento da Bíblia;

Em setembro é nomeado pregador.

1223 Realiza pregações missionárias em Rimini

1224 Professor de Teologia em Bologna.

1224(a 1227) É missionário na França, em montpellier, Toulose e Limonges. É nomeado Custódio dos frades em Limonges; funda o convento de Brive e participa do Sínodo de Bourges. Realiza pregações em Saint-Julien e na Abadia de Solignac, tornando-se guardião dos frades em Le Puy.

1227 No final do ano retorna à Itália

1228(a1230) Como Ministro Provincial, visita os conventos do norte da Itália e viaja várias vezes a Milão. Prega em Marca Trevignana e termina em Pádua seus Sermões Dominicais.

1230 Ensina Teologia para os frades em Pádua. Renuncia ao cargo de Provincial. É recebido pelo Papa Gregório IX para interpretar a Regra da Ordem Franciscana. Retorna a Pádua e compõe os Sermões Festivos.

1231 De 5 de fevereiro a 23 de março prega os Sermões da Quaresma. Em 17 de março, por mediação de Santo Antônio, a prefeitura promulga um decreto que torna menos cruel a condição dos que devem e não conseguem pagar suas dívidas. Em meados de maio, abençoa a cidade de Pádua.Na segunda quinzena de maio até 13 de junho vive no eremitério de Campo Sampiero, em Arcela, nos arredores de Pádua. Em 13 de junho, à tarde, morre Frei Antônio.

Até 17 de junho realizam-se solenes funerais. Em 1 de junho desse ano inicia-se o processo de sua canonização.

1232 Em 30 de maio, menos de um ano após sua morte, ocorre a solene canonização de Santo Antônio na catedral de Spoleto, pelo papa Gregório IX.

1263 Solene exumação dos restos mortais de Santo Antônio e a descoberta da língua intacta, na presença de São Boaventura.

1931 Na celebração do centenário de sua morte(700 anos), o Papa Pio XI lança um programa espiritual: “Por Antônio a Jesus”(Retornar ao Senhor por meio de Santo Antônio).

1946 Em 16 de janeiro, Santo Antônio é proclamado(“Doutor Evangélico”, pelo Papa Pio XII. (p.5-7. Frei Paulo Back – Nova Trezena de Santo Antônio).

Aos 15 anos

Já aos 15 anos de idade, o jovem Fernando de Bulhões sentiu o desejo de buscar o caminho da vida religiosa. Foi aceito pelos cônegos regulares de Santo Agostinho, os frades agostinianos, no Mosteiro de São Vicente, em Lisboa. Jovem inteligente, durante dois anos recebeu destes frades excelente formação intelectual e religiosa. Como estava em sua cidade natal, recebia muitas visitas de amigos e familiares. Por esse motivo, pediu para ser transferido para Coimbra, para o Mosteiro de Santa Cruz, cerca de 200km de Lisboa. Permaneceu ali 8 anos, recebendo a mais sólida formação filosófica e teológica. (p.19. Frei Paulo Back – Nova Trezena de Santo Antônio).

Excelente pregador

A sólida formação que o jovem Fernando recebeu em Coimbra junto aos frades agostinianos, proporcionou-lhe a graça de poder receber a ordenação sacerdotal. Como padre, ele adquire uma grande familiaridade com a Sagrada Escritura. A inteligência e a facilidade que tinha para decorar textos dão a ele a capacidade de adquirir um conhecimento extraordinário da Bíblia Sagrada. Irá ser um grande pregador da palavra de Deus. A Igreja vai lhe confiar a difícil tarefa de pregar contra os erros dos hereges albigenses. A Ordem Franciscana vai fazer dele o primeiro grande professor de teologia e ele virá a ser chamado de “Arca do Testamento”. (p.25. Frei Paulo Back – Nova Trezena de Santo Antônio).

Chamado em sua própria época de “o martelo dos hereges” e “arca do testamento”, ele combateu heresias que contestavam o valor de toda a vida, a autoridade da Igreja e a própria natureza de Deus. Era eloqüente e eficiente na pregação da verdade para uma sociedade que em geral a ignorava. Além disso, não só proclamou o Evangelho, mas também o viveu plenamente, de modo que sua própria vida atestava a profunda verdade de suas palavras. (p.16. Madeline Pecora Nugent. Antônio, Palavras de fogo, vida de luz. Ed.Paulinas.2008).

Santo Antônio e a vocação franciscana

O modo de viver do Frades Menores suscitava admiração e estima junto aos habitantes de Coimbra e das cercanias. Todos, pequenos e grandes, queriam troc ar algumas palavras com eles para também contagiar-se com sua alegria. Fernando também havia se encontrado com eles, muitas vezes, pelos caminhos da cidade, e acolhera-os no mosteiro.

Tinha ouvido deles algumas das maravilhosas experiências vividas por Francisco de Assis: o convite que lhe fizera o Crucifixo de São Damião, para que lhe restaurasse sua igreja; o beijo no leproso; a renuncia à herança paterna diante do bispo; a escolha da pobreza evangélica, para assemelhar-se mais intimamente ao Cristo crucificado etc…(p.16.Giovanni M Colasanti. Antônio de Pádua. Um santo também para você.. Ed. Paulinas).

Todos os dias Francisco pregou aos frades e aos camponeses – senhoras e senhores que também vinham para ouvi-lo. “A luxúria deste mundo é curta, mas a punição que segue é infinita”, lembrou ele. “Os sofrimentos nesta vida são curtos, mas glórias na vida futura são infinitas. (p.80. Madeline Pecora Nugent. Antônio, Palavras de fogo, vida de luz. Ed.Paulinas.2008).

Quando o jovem Fernando era estudante de Teologia, em Coimbra, ele conheceu os filhos de São Francisco que morava no convento de Santo Antão de Olivas, muito próximo ao seu mosteiro. Em fevereiro de 1220, Fernando fica sabendo que os frades menores que tinham ido pregar missões em Marrocos haviam sido martirizados.

Os restos mortais dos Franciscanos foram velados na capela do Mosteiro da Santa Cruz. Fernando decide ser franciscano também. E em 1221 ele é admitido na Ordem Franciscana, recebendo o nome de Frei Antônio e vestindo o hábito de São Francisco, com o grande sonho de poder morrer mártir também. (p.30. Frei Paulo Back – Nova Trezena de Santo Antônio).

Pregação aos Peixes em Rimini


“Então eu disse coisas que vocês não querem ouvir,” reverberou a voz de Antônio acima da multidão em dispersão. O frade levantou os olhos para o céu e fez uma brevíssima pausa. Então pulou da rocha e encaminhou-se para o rio.

“Ouçam a palavra de Deus, vocês, peixes do mar..já que os hereges não a querem escutar…Meus irmãos peixes, vocês devem muitíssimo, na medida em que são capazes, agradecer a seu Criador por ter lhes dado um elemento tão nobre no qual viver….água salgada. Deus deu-lhes muitos abrigos contra as tempestades e alimento que podem viver.”

… “Deus, seu amável e gentil criador, quando criou vocês ordenou-lhes que crescessem e se multiplicassem. Ele lhes deu sua benção. Quando o grande dilúvio engoliu todo o mundo e todos os outros animais foram destruídos, Deus preservou somente vocês sem dano ou prejuízo…

…A vocês, Deus deu a ordem de preservar Jonas, que havia sido jogado no mar, e, depois de três dias, um de vocês o lançou para a praia são e salvo. Um de vocês manteve em sua boca o tributo de que nosso Senhor Jesus Cristo necessitava, o qual ele, pobre e humilde, não poderia pagar se vocês não lhe tivessem dado a moeda. Vocês foram a comida do Rei  eterno, Cristo Jesus, antes da Ressurreição e, de novo, depois dela,…quando nosso Senhor…comeu peixe na praia com seus apóstolos. Por todos esses favores, vocês devem louvar e bendizer a Deus que lhes concedeu tantos benefícios.”

Benedetto não sabia para onde olhar. Para a praia, onde a multidão volúvel estava começando a se movimentar em direção ao sacerdote. Para a água, que estava cintilando com fileiras de peixinhos…Ou para Antônio, cujo olhar passeava, de um lado para o outro, sobre as ondas mansas como se estivesse exortando criaturas racionais a louvar a Deus.

“Bendito seja o Deus eterno, pois peixes da água honram-no mais do que pessoas que negam sua doutrina. Os animais irracionais escutam mais prontamente a palavra de Deus do que a humanidade sem fé.”

…Minha gente boa e meus queridos peixes, obrigado por ouvirem com o coração. Voltem agora em paz para casa.”

As águas movimentaram-se e borbulharam. Quando Benedetto enxugou os olhos e conseguiu enxergar de novo, a superfície do rio estava coberta de círculos que rapidamente se ampliavam onde milhares de peixes tinham mergulhado sob as ondas.

Fonte: (p.117-121) Madeline Pecora Nugent. Antônio, Palavras de fogo, vida de luz. Ed.Paulinas.2008).

Milagre Eucarístico em Rimini


Santo Antônio, durante uma pregação na cidade de Rimini (Itália), foi envolvido numa disputa com uns hereges, que negavam a presença real de Jesus na Eucaristia e que pretendiam ver uma prova irrefutável disso.Um dos hereges, de nome Bonovillo, disse-lhe: ‘Não acredito que a Hóstia seja o Corpo de Cristo! Mas quero desafiar-te, ó frade: se a minha mula se ajoelhar diante da Hóstia, então acreditarei’. ‘Aceito o desafio’ – respondeu Santo Antonio – ‘Daqui a três dias, trarás a mula a esta mesma praça, diante do povo. Eu trarei a Eucaristia e o animal ajoelhar-se-á diante do Pão consagrado.’

O herético aceitou, dizendo: ‘Está bem. Vou manter a mula fechada e em jejum estes três dias. Depois trazê-la-ei aqui, à presença de todos os habitantes, e apresentar-lhe-ei a cevada.

E tu apresentar-lhe-ás a Hóstia, que dizes que é o Corpo do Homem-Deus. Se a mula ignorar a cevada e se ajoelhar diante da Hóstia, far-me-ei católico’. Santo Antônio retirou-se para o convento e durante aqueles dias dirigiu-se ao Senhor com a oração e o jejum. No dia estabelecido, Santo Antônio apresentou-se com o Santíssimo Sacramento. À vista do Santo que avançava, um profundo silêncio estendeu-se por toda aquela multidão. Então Santo Antônio, em voz alta ordenou à mula: ‘Em nome do teu Criador, que trago vivo, verdadeiro, real e substancial nas minhas mãos, embora indignamente, ordeno-te, ó mula, que venhas já ajoelhar-te diante d´Ele, a fim de que estes hereges reconheçam que toda a criação é submissa e obediente ao Cordeiro que Se imola sobre os nossos altares’. O herético suava frio, gritando com a besta e tentando-a com o seu alimento preferido. Mas o animal, recusando a cevada do patrão, aproximou-se docilmente do religioso: dobrou as patas anteriores diante da Hóstia e assim ficou. O herético veio então lançar-se aos pés de Santo Antônio, confessando publicamente o seu erro e, a partir daquele dia, tornou-se um dos mais zelosos colaboradores do Santo. Toda a sua família entrou também com ele no seio da verdadeira Igreja e ele, no ardor do seu reconhecimento para com Deus, fundou com o seu dinheiro uma igreja dedicada ao Príncipe dos Apóstolos, São Pedro. (p.41.Giovanni M Colasanti. Antônio de Pádua. Um santo também para você.. Ed. Paulinas).

Natureza de Jesus

A natureza divina vem do Pai celestial; a natureza humana de sua mãe terrena.

(p.137. Madeline Pecora Nugent. Antônio, Palavras de fogo, vida de luz. Ed.Paulinas.2008).

Contra a usura

“São Mateus o diz bem. ‘Espaçoso é o caminho que leva a perdição’. Quem  vai por este caminho? Certamente, não os pobres de Cristo que entram pela porta estreita. O caminho para a destruição é um mar imenso pelo qual nadam os usurários a caminho do inferno. Essas pessoas gananciosas abundam em todo o oceano, tendo o mundo em seu poder.”…Os pobres de Bolonha estavam na miséria por causa da usura. Trapaceiros emprestavam dinheiro aos necessitados a trinta cinqüenta e até oitenta por cento de juros. Como os pobres definhando em miséria, poderiam pagá-lo de volta? Ás vezes, em desespero, os tomadores de empréstimo contratavam assassinos para matar os homens a quem deviam dinheiro…os usurários engordavam e bebiam vinhos finos que bem poderiam ter sido feitos com o suor e sangue dos destituídos…Essas pessoas miseráveis não se preocupam nem um pouco com as realidades da vida. Jamais pensam como entraram neste mundo completamente nuas, nem pensam que vão sair dele enroladas em alguns trapos. Como entraram na posse de tantas coisas? Antônio fez uma pausa. “Por meio de roubo e logro…Portanto, levantem os olhos..não temam…se levantarem os olhos e reconhecerem seus pecados, ‘certamente viverão e não morrerão’. (p.148-149;p.151. Madeline Pecora Nugent. Antônio, Palavras de fogo, vida de luz. Ed.Paulinas.2008).

Santo Antônio confessava mendigos

As confissões continuariam até que o último mendigo foi absolvido.

(p.153. Madeline Pecora Nugent. Antônio, Palavras de fogo, vida de luz. Ed.Paulinas.2008).

Oração pedindo intercessão à Nossa Senhora

“Oramos a ti, Nossa Senhora, nossa esperança. Somos jogados de um lado para o outro pela tempestade dos mares da vida. Que tu, Estrela-do-Mar, nos ilumine e conduza para nosso porto seguro. Assiste-nos com tua presença protetora quando estivermos prestes a partir desta vida, para que mereçamos deixar esta prisão sem medo e alcançar alegremente o reino do júbilo sem fim. Esperamos receber esses favores de Jesus Cristo, a quem tu carregaste em teu ventre bendito e alimentaste em teu santíssimo seio. A ele seja dada toda honra e glória, para todo o sempre. Amém.” (p.160. Madeline Pecora Nugent. Antônio, Palavras de fogo, vida de luz. Ed.Paulinas.2008).

Importância de ser verdadeiro

Não temas as pessoas, padre. A verdade não deve ser abandonada por se temer oposição. Por temerem oposição, os pregadores cegos ficaram sujeitos à cegueira da alma. São ‘cegos guiando cegos’. Alguns homens ricos dão a pregadores o esterco de bens terrenos para escapar de repreensões. No entanto, padre, peço-lhe que seja um pregador autêntico que não dá importância alguma a prata e ao ouro. (p.162. Madeline Pecora Nugent. Antônio, Palavras de fogo, vida de luz. Ed.Paulinas.2008).

Importância de ser afável

Um pregador deve ser afável, tratando as almas arrependidas e humildes com compaixão e misericórdia. Assim, quando você pregar a palavra de Deus, pregue com determinação e firmeza para tocar o coração de seus ouvintes. Entretanto, se esses ouvintes proferirem insultos e afrontas contra você, permaneça gentil, clemente e amistoso. (p.163. Madeline Pecora Nugent. Antônio, Palavras de fogo, vida de luz. Ed.Paulinas.2008).

Após a benção no lago as rãs ficam silenciosas

Antônio tinha abençoado a água de um lago e pedido às rãs barulhentas que estavam ali que fizessem silêncio. Depois disso, elas jamais tinham voltado a coaxar. (p.183. Madeline Pecora Nugent. Antônio, Palavras de fogo, vida de luz. Ed.Paulinas.2008).

Temperança

Com um irmão caído, precisamos nos mostrar nem demasiadamente afáveis nem demasiadamente duros, nem brandos como carne nem duros como osso; nele, temos de amar nossa própria natureza humana, enquanto odiamos sua falha. (p.187. Madeline Pecora Nugent. Antônio, Palavras de fogo, vida de luz. Ed.Paulinas.2008).

A importância do bom testemunho

Quando os dois chegaram aos subúrbios da cidade, Antônio comentou: “Acabamos de pregar um bom sermão meu rapaz”. O comentário surpreendeu o noviço. “Mas não dissemos coisa alguma”.

“Nossas maneiras pacíficas e nossa aparência modesta foram um sermão para as pessoas que nos viram. Muitas vezes o ser pode influenciar mais do que o falar. (p.187. Madeline Pecora Nugent. Antônio, Palavras de fogo, vida de luz. Ed.Paulinas.2008).

Santa pobreza


“Ó valor inestimável da pobreza! Quem não a tem não possui coisa alguma, mesmo que possua tudo. Que alegria há em você! Pois, quando somos pobres e humildes, esvaziamos a nós mesmos de tudo que possuímos. Então ficamos ocos, podendo conter tudo que seja derramado em nós. Em nós, ó Deus, derrama uma infusão de graça divina até transbordarmos de alegria”. (Santo Antônio). “Senhor, faze com que eu não tenha coisa alguma, para que tenha tudo que és tu”, sussurrou o noviço. (p.193. Madeline Pecora Nugent…);

Importa que eu diminua e Deus cresça

“A Igreja foi confiada a Pedro por Cristo, com as palavras: ‘Apascenta minhas ovelhas’. Não uma vez, mas três vezes. Nem uma vez sequer Ele disse a Pedro para tosquiá-las ou tosá-las. É como se Jesus dissesse: ‘Se tu me amas por causa de mim mesmo, apascenta minhas ovelhas, não tuas ovelhas, mas as minhas. Procura minha glória entre elas, não a tua; meu ganho, e não o teu, pois o amor de Deus é provado pelo amor ao próximo. (p.202. Madeline Pecora Nugent…);

Oração

“Ó Luz do mundo, Deus infinito, Pai da eternidade, Doador de sabedoria e conhecimento, e inefável Concessor de toda graça espiritual, tu conheces todas as coisas antes que sejam feitas. Tu, que crias as trevas e a luz, estende tua mão e toca minha boca. Torna-a como uma espada afiada para proferir eloqüentemente tuas palavras. Torna minha língua, ó Senhor, como uma seta escolhida para declarar fielmente teus prodígios. Coloca teu Espírito, ó Senhor, em meu coração para que eu perceba. Coloca-o em minha alma para que eu o conserve na memória. Coloca-o na minha consciência para que eu medite. Se forma amorosa, santa, misericordiosa, clemente e gentil, inspira-me com tua graça. (p.204. Madeline Pecora Nugent…);

Conselho ao herege sincero

Muitas vezes acontece que pessoas sinceras estão sinceramente equivocadas. (p.217. Madeline Pecora Nugent…);

Chagas de Jesus

Cristo mostrou suas chagas para gravar em nosso coração os sinais de seus sofrimentos; e, quarto, para evocar em nós compaixão, de modo que não o crucificássemos de novo com os cravos de nossos pecados….Cristo mostra-nos as chagas em suas mãos, seus pés e no seu lado e diz: ‘Vejam as mãos que criaram e formaram vocês; vejam como foram perfuradas por cravos… “Quando nosso Senhor mostrou aos apóstolos as chagas em suas mãos, seus pés e na lateral de seu corpo, ele repetiu: ‘A paz esteja convosco’. Somente se mantivermos em nosso coração a memória das chagas de Cristo e ouvirmos suas palavras, encontraremos a verdadeira paz de coração. (p.220. Madeline Pecora Nugent…);

Santo Antônio e o menino Jesus


O barão abriu os olhos e ergueu a cabeça. Levantou-se e sacudiu um joelho e então o outro, para afastar a rigidez que os acometera…o corredor que levava aos seus aposentos estava fracamente iluminado com uma única tocha no centro. Junto ao quarto do barão havia um quarto de hóspedes em que Antônio estava alojado. Os superiores de Antônio tinham-no instruído a escrever seus sermões da Páscoa para que outros sacerdotes pudessem usá-los…Por isso, o barão esperava ver…a luz de vela sob a porta de Antônio. Em vez disso, o que ele notou foi um brilho intenso. Ao mesmo tempo, ouviu o balbucio de uma criança no quarto….nenhum dos servos da casa tinha criança pequena…a essa altura, a criança estava dando risadinhas…o barão inclinou-se e espiou pelo buraco da fechadura…Antônio estava banhado por uma luz, que vinha de uma criancinha…sentada um pouco oscilante sobre o livro mais grosso. Enquanto o barão observava, o frade segurava as mãos na frente da criança, seus dois dedos indicadores estendidos para o bebê. A criança levantou as mãos e agarrou um dedo com cada uma das mãozinhas…com a ajuda do sacerdote, pôs-se na ponta dos pés. As pernas do garotinho subiam e desciam, enquanto ele ria…O sacerdote virou o rosto para a porta, pois a criança subitamente estendeu os braços exatamente na direção do senhor do castelo. Enquanto o garotinho fazia isso, quase caindo dos braços do sacerdote, o barão curvou a cabeça em espanto por uma fração de segundo. Quando ergueu os olhos de novo, os braços de Antônio estavam vazios…O barão curvou a cabeça e ajoelhou-se. Estava espantado demais, comovido demais, com profunda alegria, até para chorar….”Meu senhor”, disse o frade suavemente, “Cristo permitiu que você o visse e recebesse sua mensagem.(p.230-233. Madeline Pecora Nugent…);

O notário…ao dobrar a rua, viu um frade de túnica cinza que não lhe era familiar caminhando em sua direção. Quando o notário chegou perto, o frade olhou para ele, então se ajoelhou e baixou a cabeça até o chão. O notári continuou a cavalgar. O novo frade deve pensar que sou um rei, pensou ele. Poucos dias depois, o notário vo0ltou a se encontrar com o frade. Dessa vez, o notário estava cambaleando, meio bêbado, saindo da taverna local com uma das prostitutas da cidade pendurada em seu braço. De novo Antônio ajoelhou-se e curvou a cabeça até o chão.

No dia seguinte, quando a mente do notário ficou lúcida, ele pensou no segundo ato de reverência do sacerdote. Talvez esteja zombando de mim. Mais duas vezes aconteceu este mesmo tipo de incidente. O notário começou a se sentir constrangido. Observava por onde caminhava ou cavalgava e, se via algum frade de túnica cinza na mesma rua, tomava outro rumo….O notário estava cavalgando pela praça cheia de gente, quando, ao contornar a tenda de um agricultor, defrontou-se com Antônio. De novo, o padre ajoelhou-0se e curvou-se.

Enquanto duas jovens senhoras elegantemente sufocavam o riso, o notário falou rispidamente; “Padre, eu deveria golpeá-lo com a espada para punir a zombaria….Por que se curva diante de mim e me faz de bobo publicamente?…Antônio ergueu a cabeça e olhou para o notário, mas não se levantou. Ó irmão, você não sabe a honra que Deus reservou a você. Tornei-me um pobre irmão menor de Francisco, porque desejava ser um mártir para a glória de Deus…Entretanto, Deus revelou-me que, um dia, você alcançará o sonho que eu tinha para mim mesmo.

O notário começou a gargalhar. “Que coisa mais ridícula”.

“Quando sua hora bem-aventurada chegar, peço-lhe que se lembre de mim”. Padre, você está enganado”. O notário cuspiu o rosto do frade, que estava erguido para ele, e esporeou seu cavalo.(p.243). “Que Deus o abençoe exclamou Antônio. E quando chegar sua hora lembre-se de mim.

…A conversão viera lentamente, como o gotejar incessante de uma água produzindo uma marca em uma pedra.Depois do Batismo de Filipe, o notário começou a ter dificuldades para dormir; imagens perturbavam-no. Imagens de sua infância, de sua fé, de padre Antônio…Uma manhã quando os pássaros cantavam…ele parou o cavalo junto a um córrego cristalino e rezou enquanto o animal bebia sedentamente. Senhor, se tu realmente existes, mostra-me o que devo fazer. Todo dia, durante uma semana, cavalgou  para o mesmo lugar e fez a mesma oração. Então o bispo foi para Puy-em-Velay e pregou palavras de fogo às pessoas. Exortou a se unirem a ele em uma cruzada à Terra Santa para converter os sarracenos à verdadeira fé em Cristo…As pessoas que morressem lá na causa de Cristo, dizia o bispo, podiam ter a certeza de que iriam para o céu. Esta era sua resposta – uma oportunidade para obter a remissão de seus pecados. No fundo de sua alma ele sabia que não retornaria da terra santa…No caminho para lá, na missa diária e em oração, sua fé cresceu e aprofundou-se…Quando o grupo de cavaleiros e crentes cristãos chegou a Jerusalém, o bispo começou a pregar….falou aos seguidores de Maomé sobre sua própria vida e sua maldade e proclamou a grandeza de Cristo como verdadeiro Filho de Deus…Todos foram torturados e todos iriam morrer…Com uma prece pelo sacerdote em seus lábios, foi lançado sobre a areia. Alguém empurrou um CEP de madeira para debaixo de seu pescoço. Senhor abençoa o sacerdote. Abençoa a missão dele, orou ele enquanto ouvia o movimento de uma espada impelida em direção ao seu pescoço. (p.237-248. Madeline Pecora Nugent…);

Sabedoria

“Mesmo que as tentações da carne e a impureza sejam fortes, a verdade de Cristo é mais forte e vence todos esses pecados.” Cristo é vida para as pessoas sem vida. ‘(p.268. Madeline Pecora Nugent…);

É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha…

“Havia uma porta EM Jerusalém chamada de ‘buraco da agulha’. Era tão estreita que um camelo não conseguia passar por ela, pois o camelo é um animal orgulhoso e altivo. Ele se recusava a se abaixar o suficiente para passar pela porta. Essa porta é o Cristo humilde. Os orgulhosos e avarentos, aqueles que carregam falsas pretensões e riquezas, não podem entrar por essa porta.  Os que desejam entrar têm de se humilhar curvando-se. Têm de se ajoelhar diante de Cristo, o mais humilde de todos, e admitir seus pecados. Então entrarão pela porta e serão salvos, contanto que perseverem.”…Louvor a ti, meu Senhor Cristo, ‘o caminho, a verdade e a vida’, ‘a porta’ através da qual o pecador humilde pode entrar no reino de Deus. Amém.”(p.269-270. Madeline Pecora Nugent…);

A comida envenenada

As conversões que as pregações de Antônio operavam, um pouco em toda parte, suscitavam raiva e desejo de vingança entre os chefes das seitas heréticas. Nos debates públicos, não conseguiam derrubá-lo nem fazê-lo calar…Pensaram então, em matar frei Antônio…envenená-lo… Certo dia, um pequeno grupo de hereges cultos fingiu pedir esclarecimentos a frei Antõnio, sobre algumas dúvidas a respeito da bondade de Deus. Como eram muito ocupados e não dispunham de muito tempo suplicaram a Antônio para que viesse tomar a refeição junto com eles, assim poderiam conversar…Quando a conversa já estava ao auge, serviram a Antônio uma perdiz. Essa- disse o dono da casa – mandei preparar só para você…Frei Antônio olhou-a atentamente; depois, como se estivesse sido iluminado do Alto, disse: -Mas por que desejam envenenar-me?…os hereges empalideceram…até que um deles..disse…-Olhe, Pai! Não tínhamos a intenção de fazer-lhe mal. Só queríamos saber se realmente Jesus falava a verdade, quando dizia que, se seus discípulos bebessem ou comessem algo envenenado, não lhe faria mal algum. (p.42-43.Giovanni M Colasanti. Antônio de Pádua. Um santo também para você.. Ed. Paulinas).

Então, mantendo sua mão direita acima do trigo envenenado, ele fez o sinal da cruz. Apanhou sua colher, mergulhou-a na comida e então levou-a a boca….O sacerdote engoliu uma colherada e então outra. “Você deve dizer ao cozinheiro-chefe para envenenar mais a comida…jamais saboreei algo tão gostoso….No final, o conde Silvestro e vários outros crentes tinham prometido voltar à Igreja Católica. .”(p.323. Madeline Pecora Nugent…);

Conhecimento de si mesmo

Jamais podemos conhecer a verdade sobre Cristo a não ser que saibamos a verdade sobre nós mesmos. Nosso valor provém não de nós mesmos, pois somos apenas humildes animais, mas do fato de , como o asno do Domingo de Ramos, estamos carregando Cristo. Se nos virmos dessa maneira, um dia Cristo, nossa verdade, nos dirá em seu eterno banquete: ‘Meu honesto e humilde amigo, venha mais para cima”. (p.388. Madeline Pecora Nugent…);

Humildade

Assim como todos os vícios dependem do orgulho, pois este é o início de todo pecado, a humildade é a mãe e a raiz de todas as virtudes. Deus resiste ao orgulhoso, mas mostra-se ao humilde e usa-o. (p.388. Madeline Pecora Nugent…);

“A verdadeira humildade não pode sofrer nem dor por causa de alguma injustiça nem rancor por causa da boa sorte de outra pessoa.” (p.389. Madeline Pecora Nugent…);

Contemplação

A oração dá-nos a graça de agir para Deus. Somente das alturas da contemplação podemos descer para instruir e trabalhar entre os fiéis, para mostrar em nossa própria vida o caminho da salvação. (p.390. Madeline Pecora Nugent…);

Não se preocupar com os bens temporais

“Se o espírito colocar de lado o cuidado ansioso com coisas temporais, jamais se aproximará de Deus. As pessoas que estão presas em infinitas preocupações temporais fazem com que os fardos do pecado e o peso da preocupação com o mundo alcancem sua alma. As coisas temporais são como uma nuvem matinal. Não são absolutamente nada, no entanto, como uma nuvem, parecem ser algo. A nuvem matinal impede que vejamos o sol, e o excesso de bens temporais desvia a alma dos pensamentos de Deus. (p.423. Madeline Pecora Nugent…);

Cura

Um jovem chamado Leonardo tinha procurado Antônio para se confessar…Como fazia com todos os penitentes, Antônio tinha ouvido pacientemente, dado conselhos e a absolvição e enviado o jovem para casa. Não muito tempo depois, disseram a Antônio que Leonardo tinha cortado fora seu pé. Ele e Lucas foram às pressas para a casa do jovem…tomando o rosto de Leonardo em suas mãos, Antônio perguntou com a voz cheia de agonia: “Leonardo por que você fez isso? Padre, chorou o tremulo rapaz, ‘quando lhe contei que tinha chutado minha mãe, você disse que “Se o seu pé é ocasião de escândalo para você corte-o. É melhor você entrar para a vida sem um dos pés, do que ter os dois pés e ser jogado no inferno.”

…Por que você fez isso? Perguntou o santo – Não precisava cortar seu pé, bastava só controlar-se a si mesmo e dominar sua raiva….Leonardo, o corpo é o templo de Deus. Nunca, nunca o mutile.

Oh Leonardo, meu sincero penitente. Onde está o pé?

Antônio levantou a cabeça, seus olhos fechados abriram-se e um profundo suspiro escapou do seu peito. “Vamos rezar, Leonardo.” Durante longos momentos, os quatro na casa oraram em conjunto. Então Antônio levantou-se para ir embora. “Não remova a atadura durante muitas semanas. Continuarei a orar pela cura. Muitas semanas mais tarde, quando Leonardo removeu a atadura, o pé permaneceu preso. (p.439-440. Madeline Pecora Nugent…); (p.81-82.Giovanni M Colasanti. Antônio de Pádua. Um santo também para você.. Ed. Paulinas).

O verdadeiro pregador

“O pregador deve saber primeiro o quê, a quem e quando prega, e depois deve se perguntar se vive segundo aquilo que prega”…“Quem segue verdadeiramente Jesus deseja que todos o sigam.” (Nova Trezena de Santo Antônio. Frei Paulo Back, OFM. p.43).

Confissão

“Confesso-me a um homem, não como a um homem, mas como a Deus”. O sacramento da penitência é chamado ‘Casa de Deus’, porque os pecadores se reconciliam com Deus, como filho pródigo se reconcilia com o pai, que o acolhe novamente em casa. É também chamado de ‘porta do paraíso’ porque através da confissão o penitente é chamado a beijar os pés, as mãos e a face do Pai celeste.” (Nova Trezena de Santo Antônio. Frei Paulo Back, OFM. p.48).

Santo Antônio – Casamenteiro

Uma moça queria se casar, mas como era muito pobre, não tinha condições de alcançar seu objetivo. Pôs-se a rezar diante da imagem do santo, pedindo a graça. Caiu nas mãos da moça um bilhete, que dizia: “Vá até o comerciante mais rico da cidade e peça que ele lhe dê em ouro o equivalente ao peso do bilhete. Quando o comerciante colocou o bilhete na balança, o bilhete pesava tanto que a moça conseguiu a quantia que precisava para o seu casamento. O certo é que, em vida, Santo Antônio sempre se dedicou a ajudar os casais em crise a superar os momentos de conflito, a combater a imoralidade e o adultério. (Nova Trezena de Santo Antônio. Frei Paulo Back, OFM. p.66).

Biografia de Santo Antônio pelo Vaticano

CERIMÓNIA LITÚRGICA POR OCASIÃO DA COMEMORAÇÃO
DO 750º ANIVERSÁRIO DA MORTE DE SANTO ANTÓNIO

HOMILIA DO CARDEAL AGOSTINO CASAROLI

Basílica de Pádua
Domingo, 6 de Setembro de 1981

Enquanto, na recolhida grandiosidade desta Basílica, se aproximam do fim as celebrações litúrgicas comemorativas do septingentésimo quinquagésimo aniversário da morte daquele que os paduanos, e muitos dos que chegam aqui peregrinos de todas as partes da terra, chamam afectuosamente o “Santo”, parece-me quase ver — reunidos aqui hoje connosco, e com o Santo Padre João Paulo II que, impossibilitado de vir nesta ocasião a Pádua, nela está contudo espiritualmente presente — parece-me quase ver multidões de homens que, espalhados por todos os Continentes, dirigem o pensamento e a oração para o “Santo do mundo inteiro”, como o definiu o grande Pontífice Leão XIII.

Na realidade, bem difícil é descobrir cidade ou aldeia do orbe católico onde não se encontre um altar, ou ao menos uma imagem, de António de Pádua; e a sua serena e tranquilizadora imagem ilumina, com o sorriso, milhões de casas cristãs, nas quais à fé alimenta, por seu meio, a esperança na Providência do Pai celeste.

Santo da Providência na verdade, sempre pronto e poderoso intercessor junto dela, é considerado e sentido pelos crentes, especialmente pelos mais humildes e indefesos, mas não por eles só, este filho da generosa terra portuguesa, arribado às praias da Sicília e de lá subindo a caminho de Assis, radiosa ainda com a presença do seu Pobrezinho, e depois para o norte da Itália, para fazer por último, desta ilustre cidade, a sua cidade, indissoluvelmente ligada durante os séculos ao seu nome.

Ele, que o Papa Paulo VI com grandiosa expressão chamou uma vez “este querido, bom e, digamos ainda, também tão cortês, porque cheio de serviços, o querido Santo António”, continua a exercitar a sim extraordinária atracção sobre inúmeros fiéis, esperançados em encontrar, nele, paciente e benévola audição, também nas pequenas dificuldades e contrariedades da vida quotidiana, e ainda mais nas maiores, que impelem o homem a procurar quem apresente, apoie e torne eficaz a sua súplica a Deus.

“Si quaeris miracula…” Se desejas milagres — é a antiga hinódia — que Julião da Spira compôs pouco depois da canonização de António, ou seja pouco mais de um ano a contar da sua morte — a qual prossegue caracterizando a relação de muitos cristãos com o Taumaturgo de Pádua. E esta relação às vezes parece empobrecer um pouco a figura do Santo, senão mesmo favorecer formas pouco iluminadas de religiosidade popular.

Longe de mim querer perturbar esse clima de confiança que séculos de experiência criaram, dando lugar aquilo que não injustamente foi chamado “o fenómeno antoniano”.

Mas, numa circunstancia excepcional como esta, e depois de um reflorescimento de estudos apaixonados ter procurado, e conseguido, fazer dalgum modo redescobrir, na sua justa estatura, na sua verdadeira dimensão, o Santo de Pádua, é necessário perguntarmo-nos se ele não tem ainda outra, mais vasta, mais elevada, mensagem para lançar ao mundo, recolhido este ano, na recordação do longínquo 13 de Junho de 1231, quando na solidão do ermitério da Arcella, depois do fatigante regresso do seu refúgio de Camposampiero, o grande filho de São Francisco, a menos de cinquenta anos do piíssimo trânsito do Pai, o seguia na glória do Céu, realizando em si mesmo quanto ele escrevera num seu Sermão para a Ressurreição do Senhor: “Quando a alma está a tal ponto iluminada, a tal ponto elevada, é então que o vigor do corpo falta, o rosto empalidece e a carne se afrouxa”.

A sua morte, prematura se calculamos os anos da sua breve existência, chegava coroando uma vida a tal ponto iluminada, que maior luminosidade e maiores alturas nunca poderia atingir.

Os últimos dez anos da sua breve mas intensa peregrinação terrestre, além de nos cuidados do ensino e no triénio de governo provincial, passara-os no exercício do ministério sacerdotal, e sobretudo na pregação. Depois do início imprevisto e surpreendente de Forlì, ei-lo, pregoeiro da Palavra, a percorrer incansável a Itália do norte e o sul da França, para voltar depois à Itália, até à Quaresma por ele pregada aqui em Pádua na vigília, agora, do fim da sua vida, extenuado nas forças, mas arrebatador ainda numa oratória feita de ensino e exemplo. “A vicia do pregador — deve ser quente e a doutrina luminosa”, deixará escrito ele mesmo.

Entre os seus ouvintes contam-se também doutos e poderosos — na primavera de 1228 o Papa Gregário IX quis que ele fosse pregador dos Cardeais e dos Prelados da Cúria Romana —, mas o seu público habitual eram as grandes multidões, compostas sobretudo de gente simples e pobre.

Todavia, o ensinamento por ele dado a estes, como aos outros, era o fruto de longa e profunda preparação. Oh, os anos serenos da adolescência e da juventude, gastos no solene silêncio dos claustros agostinianos de Lisboa e de Santa Cruz em Coimbra, na oração e no estudo, como atleta preparado misteriosamente pela Graça para a extraordinária aventura que o veria entre os primeiros grandes franciscanos, exemplo de humildade, de pobreza e de penitência, mas simultaneamente portador — na Ordem recém-nascida — da exigência de um vigoroso esforço cultural, que Francisco pareceu durante um momento temer, quase como um perigo para “o estudo da oração e o espírito de devoção”, que ele considerava ser característica, primeira e fundamental, dos seus Irmãos.

As antigas figurações do Santo apresentam-no tendo na mão o símbolo da ciência e da sabedoria: o livro. E a sabedoria, bem mais que a virtude taumatúrgica, é, juntamente com a santidade da vida, aquilo que celebram os contemporâneos de António, como característica sua, própria e excepcional.

A sua cultura, que não desprezava os conhecimentos das ciências humanísticas e nem sequer as naturais, então (para dizer a verdade) ainda nos princípios, centrava-se no Livro Sagrado, a Bíblia, Gregório IX, depois de o ouvir, pôde chamar-lhe “Arca do Testamento” e “Escrínio das Sagradas Escrituras”. É tradição que o mesmo Pontífice, ao proceder à sua canonização em Espoleto, a ele se dirigiu com a invocação “O Doctor optime, Ecclesiae sanctae lumen, beato Antoni…!” — Doutor admirável, luz da santa Igreja, Santo António — reconhecendo-o assim como Doutor da Igreja.

Este reconhecimento foi solenemente ratificado, em 1946, pelo Papa Pio XII. Mas o que sobretudo me impressiona é o apelativo que, em relação com os outros luminares da Igreja — com nomes ilustres e títulos sugestivos — lhe é atribuído, quase como seu distintivo: Doctor Evangelicus! — Doutor Evangélico.

E em tal apelativo parece-me poder descortinar qual é, na realidade, a mensagem que António de Pádua tem para enviar também a nós, homens do fim do século XX da era cristã.

Esta mensagem bem se enquadra naquela acção taumatúrgica, naquela “cortesia” em escutar e servir, da qual falava o Papa Paulo VI, cortesia que, aos olhos de muitos cristãos, quase velou o verdadeiro rosto de Santo António: Doutor e evangelizador. Ele, de facto, como os Apóstolos de Jesus enviados através do mundo, pregou e quer ainda hoje pregar o Evangelho de Cristo, e fá-lo “Domino cooperante et sermonem confirmante, sequentibus signis” — O Senhor cooperava com eles, confirmando-lhes a palavra com os milagres que a acompanhavam — (Mc 16, 20). Demonstração de bondade e de amor, os sinais maravilhosos, que o povo cristão continua a atribuir à intercessão do Santo, para isto são principalmente destinados: para confirmar os homens na verdade, para reforçar a fé vacilante ou para a despertar adormecida, para levar a que seja acolhida — pelos doutos e pelos indoutos — a luz do Evangelho.

Com muita razão, qual mote inspirador do ano antoniano em curso, foi escolhida a afirmação que atribuiu Cristo a Si e António ele Pádua fez própria: Evangelizare pauperibus misit Me (Lc 4, 18) — (Deus) enviou-Me para anunciar a boa nova aos pobres.

Disto, do Evangelho, é que tem necessidade o mundo de hoje.

Do Evangelho: da Sua doutrina e do Seu espírito.

Ele apareceu no mundo, há quase dois milénios, como luz nas trevas, como mensagem de esperança: anúncio de alegria para os incertos, os oprimidos, os desiludidos e os desesperançados; fogo de amor trazido à terra, para toda ser por ele incendiada.

A tantos séculos — desde que a voz do Mestre se levantou num ângulo perdido do grande Império de Roma, difundindo-se depois por todo o orbe — devemos perguntar-nos que é feito, hoje, daquela luz, daquela esperança, daquele incêndio: Quantos olhos se erguem para o céu, que Ele nos abre para mostrar-nos o Pai e indicar-nos o caminho que a Ele conduz? Quantos corações aceitam verdadeiramente a Sua lei de amor e de fraternidade, que não conhece barreiras nem confins, nem ódios, nem injustiças, nem opressões, nem guerras?

Enquanto o homem moderno muitas vezes se interroga, angustiado, sobre o seu ser e o seu destino, enquanto a humanidade tem agora de perguntar-se se não está para ficar sepultada, de um momento para o outro, debaixo dos seus crescentes triunfos nas ciências e na técnica, esta antiga e sempre nova voz deve, com renovada insistência, ressoar forte na terra.

A isto nos convida, a nós sacerdotes, a nós cristãos todos, o Doutor Evangélico. E a todos convida ele a não fecharmos os olhos a tanta luz; os ouvidos, o coração, a tão grande Mensagem: que é Mensagem de salvação, Mensagem de justiça, Mensagem de amor, Mensagem de paz. Desça a sua Bênção sobre a Itália e sobre o mundo todo. E seja ela nova primavera de esperança, na luz da Boa Nova, para a humanidade inteira!

Fonte:http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/card-casaroli/1981/documents/rc_seg-st_19810906_santo-antonio_po.html

PAPA BENTO XVI

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010

São António de Pádua

Queridos irmãos e irmãs!

Há duas semanas apresentei a figura de São Francisco de Assis. Esta manhã gostaria de falar de outro santo pertencente à primeira geração dos Frades Menores: António de Pádua ou, como é também chamado, de Lisboa, referindo-se à sua cidade natal. Trata-se de um dos santos mais populares de toda a Igreja Católica, venerado não só em Pádua, onde foi construída uma maravilhosa Basílica que conserva os seus despojos mortais, mas em todo o mundo. São queridas aos fiéis as imagens e as imagens que o representam com o lírio, símbolo da sua pureza, ou com o Menino Jesus no colo, em recordação de uma milagrosa aparição mencionada por algumas fontes literárias.

António contribuiu de modo significativo para o desenvolvimento da espiritualidade franciscana, com os seus salientes dotes de inteligência, equilíbrio, zelo apostólico e, principalmente, fervor místico.

Nasceu em Lisboa numa família nobre, por volta de 1195, e foi baptizado com o nome de Fernando. Uniu-se aos cónegos que seguiam a regra monástica de Santo Agostinho, primeiro no mosteiro de São Vicente em Lisboa e, sucessivamente, no da Santa Cruz em Coimbra, famoso centro cultural de Portugal. Dedicou-se com interesse e solicitude ao estudo da Bíblia e dos Padres da Igreja, adquirindo aquela ciência teológica que fez frutificar na actividade do ensino e da pregação. Aconteceu em Coimbra o episódio que contribuiu para uma mudança decisiva na sua vida: ali, em 1220 foram expostas as relíquias dos primeiros cinco missionários franciscanos, que tinham ido a Marrocos, onde encontraram o martírio. A sua vicissitude fez nascer no jovem Fernando o desejo de os imitar e de progredir no caminho da perfeição cristã: então, pediu para deixar os Cónegos agostinianos e para se tornar Frade Menor. O seu pedido foi aceite e, tomando o nome de António, partiu também ele para Marrocos, mas a Providência divina dispôs de outro modo. Após uma doença, foi obrigado a partir para a Itália e, em 1221, participou no famoso “Capítulo das Esteiras” em Assis, onde encontrou também São Francisco. Em seguida, viveu algum tempo no escondimento total num convento de Forli, no norte da Itália, onde o Senhor o chamou para outra missão. Enviado, por circunstâncias totalmente casuais, a pregar por ocasião de uma ordenação sacerdotal, mostrou ser dotado de ciência e eloquência, e os Superiores destinaram-no à pregação. Começou assim na Itália e na França, uma actividade apostólica tão intensa e eficaz que induziu muitas pessoas que se tinham afastado da Igreja a reconsiderar a sua decisão. António foi também um dos primeiros mestres de teologia dos Frades Menores, ou até o primeiro. Iniciou o seu ensino em Bolonha, com a bênção de São Francisco, o qual, reconhecendo as virtudes de António, lhe enviou uma breve carta, que iniciava com estas palavras: “Agrada-me que ensines teologia aos frades”. António lançou as bases da teologia franciscana que, cultivada por outras insignes figuras de pensadores, teria conhecido o seu ápice com São Boaventura de Bagnoregio e com o beato Duns Escoto.

Tornando-se Superior dos Frades Menores da Itália setentrional, continuou o ministério da pregação, alternando-o com as funções de governo. Concluído o cargo de Provincial, retirou-se para perto de Pádua, aonde já tinha ido outras vezes. Após um ano, faleceu nas portas da cidade, a 13 de Junho de 1231. Pádua, que o tinha acolhido com afecto e veneração durante a vida, tributou-lhe para sempre honra e devoção. O próprio Papa Gregório IX, que depois de o ter ouvido pregar o tinha definido “Arca do Testamento”, canonizou-o só um ano depois da morte, em 1232, também após os milagres que se verificaram por sua intercessão.

No último período de vida, António pôs por escrito dois ciclos de “Sermões”, intitulados respectivamente “Sermões dominicais” e “Sermões sobre os Santos”, destinados aos pregadores e aos professores dos estudos teológicos da Ordem franciscana. Nestes Sermões ele comentava os textos da Escritura apresentados pela Liturgia, utilizando a interpretação patrístico-medieval dos quatro sentidos, o literal ou histórico, o alegórico ou cristológico, o antropológico ou moral, e o analógico, que orienta para a vida eterna. Hoje redescobre-se que estes sentidos são dimensões do único sentido da Sagrada Escritura e que é justo interpretar a Sagrada Escritura procurando as quatro dimensões da sua palavra. Estes Sermões de Santo António são textos teológico-homiléticos, que reflectem a pregação bíblica, na qual António propõe um verdadeiro itinerário de vida cristã. É tanta a riqueza de ensinamentos espirituais contida nos “Sermões”, que o Venerável Papa Pio XII, em 1946, proclamou António Doutor da Igreja, atribuindo-lhe o título de “Doutor evangélico”, porque desses escritos sobressai o vigor e a beleza do Evangelho; ainda hoje os podemos ler com grande proveito espiritual.

Nestes Sermões Santo António fala da oração como de uma relação de amor, que estimula o homem a dialogar docilmente com o Senhor, criando uma alegria inefável, que suavemente envolve a alma em oração. António recorda-nos que a oração precisa de uma atmosfera de silêncio que não coincide com o desapego do rumor externo, mas é experiência interior, que tem por finalidade remover as distracções causadas pelas preocupações da alma, criando o silêncio na própria alma. Segundo o ensinamento deste insigne Doutor franciscano, a oração é articulada em quatro atitudes indispensáveis que, no latim de António, são assim definidas: obsecratio, oratio, postulatio, gratiarum actio. Poderíamos traduzi-las do seguinte modo: abrir com confiança o próprio coração a Deus; é este o primeiro passo do rezar, não simplesmente colher uma palavra, mas abrir o coração à presença de Deus; depois, dialogar afectuosamente com Ele, vendo-o presente comigo; e depois muito natural apresentar-lhe as nossas necessidades; por fim, louvá-lo e agradecer-lhe.

Deste ensinamento de Santo António sobre a oração captamos uma das características específicas da teologia franciscana, da qual ele foi o iniciador, isto é, o papel atribuído ao amor divino, que entra na esfera dos afectos, da vontade, do coração, e que é também a fonte da qual brota uma consciência espiritual, que supera qualquer conhecimento. De facto, amando, conhecemos.

Escreve ainda António: “A caridade é a alma da fé, torna-a viva; sem o amor, a fé esmorece” (Sermomes Dominicales et Festivi II, Messaggero, Pádua 1979, p. 37).

Só uma alma que reza pode realizar progressos na vida espiritual: é este o objecto privilegiado da pregação de Santo António. Ele conhece bem os defeitos da natureza humana, a nossa tendência a cair no pecado, e portanto exorta a continuar a combater a inclinação da avidez, do orgulho, da impureza, e a praticar as virtudes da pobreza e da generosidade, da humildade e da obediência, da castidade e da pureza. No início do século XVIII, no contexto do renascimento das cidades e do florescer do comércio, crescia o número de pessoas insensíveis às necessidades dos pobres. Por este motivo, António convidou várias vezes os fiéis a pensar na verdadeira riqueza, a da cruz, que tornando bons e misericordiosos, faz acumular tesouros para o Céu. “Ó ricos assim exorta ele tornai-vos amigos… dos pobres, acolhei-os nas vossas casas: serão depois eles, os pobres, quem vos acolherão nos eternos tabernáculos, onde há a beleza da paz, a confiança da consciência, a opulenta tranquilidade da eterna saciedade” (Ibid., p. 29).

Não é porventura este, queridos amigos, um ensinamento muito importante também hoje, quando a crise financeira e os graves desequilíbrios económicos empobrecem não poucas pessoas, e criam condições de miséria? Na minha Encíclica Caritas in veritate recordo: “A economia tem necessidade da ética para o seu correcto funcionamento não de uma ética qualquer, mas de uma ética amiga da pessoa” (n. 45).

António, na escola de Francisco, coloca sempre Cristo no centro da vida e do pensamento, da acção e da pregação. Esta é outra característica típica da teologia franciscana: o cristocentrismo. Ela contempla benevolamente, e convida a contemplar, os mistérios da humanidade do Senhor, o homem Jesus, de modo particular, o mistério da Natividade, Deus que se fez Menino, se entregou nas nossas mãos: um mistério que suscita sentimentos de amor e de gratidão para com a bondade divina.

Por um lado a Natividade, ponto central do amor de Cristo pela humanidade, mas também a visão do Crucifixo inspira em António pensamentos de reconhecimento para com Deus e de estima pela dignidade da pessoa humana, de modo que todos, crentes e não-crentes, possam encontrar no Crucificado e na sua imagem um significado que enriquece a vida. Escreve Santo António: “Cristo, que é a tua vida, está pendurado diante de ti, para que tu olhes para a cruz como para um espelho. Nela poderás conhecer quanto mortais foram as tuas feridas, que nenhum remédio teria podido curar, a não ser o do sangue do Filho de Deus. Se olhares bem, poderás dar-te conta de como são grandes a tua dignidade humana e o teu valor… Em nenhum outro lugar o homem pode aperceber-se melhor do seu valor, a não ser olhando para o espelho da cruz” (Sermones Dominicales et Festivi III, pp. 213-214).

Meditando estas palavras podemos compreender melhor a importância da imagem do Crucifixo para a nossa cultura, para o nosso humanismo nascido da fé cristã. Precisamente olhando para o Crucifixo vemos, como diz Santo António, como é grande a dignidade humana e o valor do homem. Em nenhum outro ponto se pode compreender quanto o homem vale, precisamente porque Deus nos torna tão importantes, nos vê tão importantes, que somos, para Ele, dignos do seu sofrimento; assim, toda a dignidade humana aparece no espelho do Crucifixo e olhar em sua direcção é sempre fonte do reconhecimento da dignidade humana.

Queridos amigos, possa António de Pádua, tão venerado pelos fiéis, interceder pela Igreja inteira, e sobretudo por aqueles que se dedicam à pregação; oremos ao Senhor para que nos ajude a aprender um pouco desta arte de Santo António. Os pregadores, inspirando-se no seu exemplo, tenham a preocupação de unir doutrina sólida e sã, piedade sincera, incisiva na comunicação. Neste Ano sacerdotal, rezemos para que os sacerdotes e os diáconos desempenhem com solicitude este ministério de anúncio e de actualização da Palavra de Deus aos fiéis, sobretudo através das homilias litúrgicas. Sejam elas uma apresentação eficaz da eterna beleza de Cristo, precisamente como António recomendava: “Se pregas Jesus, Ele comove os corações duros; se o invocas, alivia das tentações amargas; se o pensas, ilumina o teu coração; se o lês, sacia-te a mente” (Sermones Dominicales et Festivi III, p. 59).


Saudações

Saúdo, com fraterna amizade, os grupos vindos de São Paulo, Rio de Janeiro, Ribeirão Preto e demais peregrinos de língua portuguesa, desejando que esta visita aos lugares santificados pela pregação e martírio dos Apóstolos Pedro e Paulo possa confirmar a todos na fé, esperança e caridade. A Virgem Mãe vos acompanhe e proteja!

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2010/documents/hf_ben-xvi_aud_20100210_po.html#

CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II
CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE Santo Antonio de Pádua

Aprendi com grande satisfação que as quatro famílias franciscanas estão se preparando para celebrar com as medidas adequadas VIII centenário de Santo António, figura carismática universalmente venerado e invocado.

A Ordem Franciscana inteira está envolvida na sua preparação para o Jubileu do modelo exemplar, junto com a cidade de Pádua, que admite no seu território o centro da devoção de Anthony, e com a de Lisboa, onde o santo nasceu…

Durou apenas 36 anos sua existência terrena. Os quatorze primeiros foram gastos na escola episcopal de sua cidade. Aos quinze anos, ele pediu para entrar entre os Cônegos Regulares de Santo Agostinho, foi ordenado sacerdote aos vinte anos: dez anos de vida caracterizado pela busca e rigorosos cuidados de Deus, através do estudo intensivo de teologia… e aperfeiçoamento interior.

Mas Deus continuou a questionar o espírito do jovem padre Fernando: esse era o nome que recebeu na fonte batismal. No mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, conheceu um grupo de franciscanos…de Assis, que foi para o Marrocos para testemunhar o Evangelho, mesmo à custa do martírio. Nessa ocasião, o jovem Fernando experiências com um novo desejo: proclamar o Evangelho aos gentios, sem parar, para enfrentar o risco de vida.

No outono de 1220 ele deixou o mosteiro e se tornou um seguidor de Francisco de Assis, tomando o nome de Antonio. Partiu, em seguida, para Marrocos, mas uma grave doença o obrigou a desistir do seu ideal missionário.

Assim começou o último período de sua existência, durante o qual ele foi guiado por Deus nas estradas que nunca teria pensado em ir. Depois de arrancados de sua terra natal e seus projetos no exterior da evangelização, Deus o levou a viver a forma ideal de vida evangélica em solo italiano. Anthony viveu experiência franciscana onze anos apenas, mas assimilados a ponto de, “Cristo” e o ideal do Evangelho, se tornarem para ele uma regra de vida encarnada no cotidiano.

Seguimos você, como a criatura segue o Criador, o Pai como filhos, como a mãe das crianças como o pão ao faminto, o doente como o médico, o cansaço da cama, como os exilados casa “(S. Augustini, Sermões, II, p. 484).

Em Cristo, ele construiu sua vida

Toda a sua pregação foi uma contínua e incansável proclamação do Evangelho. Anúncio verdadeiro, corajoso, claro. A Pregação era sua maneira de transformar a fé nas almas, para purificá-los, confortá-los, iluminá-los (p. 154).

Em Cristo, ele construiu sua vida. As virtudes do Evangelho, sobretudo a pobreza de espírito, mansidão, humildade, castidade, a misericórdia, a coragem da paz foram os temas constantes de sua pregação.

Ele usou todos os instrumentos científicos então conhecido de aprofundar o conhecimento da verdade do Evangelho e para tornar mais compreensível o anúncio. O sucesso de seu ministério confirmou que ouviu falar a mesma língua dos seus ouvintes, capazes de comunicar eficazmente os conteúdos da fé e aceitar os valores do Evangelho na cultura popular de seu tempo.

Pedindo ao Senhor, Pastor e Mestre de todas as almas, por intercessão de Santo António, um pregador eminente e padroeiro dos pobres, será dada a todos com generosidade e seguir fielmente os ensinamentos do Evangelho, eu concedo uma especial Bênção Apostólica para você, a família franciscana inteira e todos os devotos do grande santo.

Cidade do Vaticano, em 13 de junho de 1994, o décimo sexto do meu Pontificado.

IOANNES PAULUS PP. JOHN PAUL PP. II II

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/1996/documents/hf_jp-ii_let_19960116_st-anthony-doctor_it.html

Escreve Santo Antônio de Pádua: “Cristo, que é a tua vida, está suspenso diante de ti, para que tu olhes para a cruz como num espelho… se olhares para Ele, poderás perceber como são grandes a tua dignidade… e o teu valor…. Em nenhum outro lugar, o homem pode perceber melhor quanto ele vale do que contemplando-se no espelho da cruz” (Sermones Dominicales et Festivi III, pp. 213-214).

http://www.vatican.va/news_services/liturgy/2010/documents/ns_lit_doc_20100402_via-crucis-present_po.html

Sermões de Santo Antônio

SERMÕES DE SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA

Na solidão encontrarás o Senhor

1. Naquele tempo disse Jesus a Pedro: “Segue-me” (Jo 21,19). Neste passo do Evangelho, podem-se observar duas coisas: a imitação de Cristo e seu amor para com seu fiel discípulo.

I – A Imitação de Cristo.

2. A imitação de Cristo está expressa nas palavras: “Segue-me”. Sim, isso ele o diz a Pedro, mas também a todo cristão: “segue-me, tu também, nu como nu o sou, livre de todo apego como livre o sou”. Por isso é que Jeremias afirma: “ Chamar-me-ás de Pai e não te cansarás de andar atrás de mim” (3,19). Segue-me, portanto, e joga fora o peso que levas, pois, carregado como estás, não podes andar atrás de mim que corro. “Corri, diz o salmista, tendo sede” (Sal 61,5); sede, entende-se, de salvar a humanidade. E para onde ele corre? Na direção da cruz. Por isso, corre também tu atrás de Cristo para que assim como ele tomou sua cruz por ti, tu também tomes a tua cruz por ti. Lê-se no evangelho de Lucas: “Se alguém quer vir após mim, renegue a si mesmo” (9,23), quer dizer, sacrifique a própria vontade, tome sua cruz mortificando a carne, todos os dias, isto é, continuamente, e assim siga-me. Portanto: segue-me! Ou então, se quiseres vir a mim e encontrar-me, segue-me, isto é, procura-me à parte. Ele diz aos discípulos: “Vinde à parte a um lugar deserto e descansai um pouco. Com efeito, tão grande era a multidão que ia e vinha que ele não tinha nem mesmo o tempo para comer” (Mc 6,31). Que coisa! Quantas paixões da carne, que multidão de pensamentos vão e vêm pelo nosso coração! E assim não temos nem o tempo de nos alimentar com o alimento da eterna doçura, nem de sentir o sabor da contemplação interior. Eis porque o bondoso Mestre diz ainda: “Vinde à parte, para longe da multidão, vinde a um lugar apartado, isto é, à solidão interior, da mente e do corpo, e descansai um pouco.

Sim, “um pouco”, porque como diz o Apocalipse: “Fez-se silêncio no céu por mais ou menos uma meia hora” (8,1) e o Salmo 54,7: “Quem me dará asas de pomba para voar e encontrar repouso?”. E o profeta Oséias também diz: “Eis que eu a amamentarei e conduzi-la-ei ao deserto e lhe falarei ao coração” (2,16). Nestas três expressões (amamentarei-conduzirei-falarei ao coração) podem-se notar também três situações: aquela de quem está no começo, aquela de quem está progredindo e aquela de quem já está na perfeição. É a graça que amamenta quem está no começo e o ilumina para que cresça e progrida de virtude em virtude; e por isso o conduz do barulho dos vícios, do tumulto dos pensamentos à solidão, isto é, à quietude interior da mente. Aí então, torna-o perfeito, fala-lhe ao coração e ele sente a doçura da inspiração divina e pode elevar-se de corpo e alma à alegria do espírito. E então, como é grande em seu coração a devoção! E como são grandes também a contemplação e o êxtase! Através da grandeza da devoção, a pessoa eleva-se acima de si mesma.

Através da sublime contemplação ela se sente como que transportada ainda acima de si mesma e, através do êxtase, ela é levada como para fora de si mesma. Por isso: “segue-me”. O Senhor fala como uma mãe carinhosa que quando está ensinando seu nenê a caminhar, mostra-lhe o pão ou uma maçã e lhe diz: “Vem, vem, eu vou te dar!” E quando a criança está pertinho, pronta para pegar, a mãe, devagarinho.. vai se afastando e dizendo-lhe, mostrando o pão e a maçã: “Vem, vem, pega!” Existem também pássaros que tiram do ninho seus filhotes e, voando, os ensina a voar e segui-los. Assim faz Cristo: ele mesmo se coloca como exemplo para que o sigamos e promete o prêmio no Reino dos Céus.

3. Segue-me, portanto, porque eu conheço o bom caminho pelo qual conduzir-te. No Livro dos Provérbios encontra-se escrito a este propósito: “Mostrar-te-ei o caminho da sabedoria. Conduzir-te-ei pelos caminhos da retidão. Quando neles entrares, teus passos não serão trôpegos e, se correres, não haverás de

tropeçar” (4,11-12). O caminho da sabedoria é o caminho da humildade. Bem diferente é o caminho da estultícia, porque é o caminho do orgulho. Jesus mesmo no-lo mostrou quando disse: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para vossas almas” (Mt 11,29). O caminho é estreito, dá apenas para dois pés, de tal modo que nenhum outro possa passar. Diz-se em latim `semita’, isto é, “meia estrada”,`semis iter’, pois “semis” quer dizer metade e `iter’ quer dizer caminho. Caminhos da retidão

são os da pobreza e da obediência. Por eles é que Cristo te conduz com seu exemplo, ele mesmo pobre e obediente. Nesses caminhos não existe estrada tortuosa; tudo é bem plaino, bem reto! Mas o que causa maravilha é o fato que, mesmo sendo assim tão estreitos, os passos dados neles não são indecisos, sem jeito. O caminho do mundo, ao contrário, é largo e espaçoso. E, no entanto, os seculares, aqueles que vivem segundo o mundo, acham que ele nunca é suficientemente largo: são como bêbados que acham sempre estreito qualquer caminho, mesmo o largo. Com efeito, a maldade tem uma estreiteza conatural. A pobreza e a obediência, ao contrário, contêm, é claro, uma restrição, mas por isso mesmo doam também liberdade, porque a pobreza torna rico e a obediência livre. Quem percorrer esses caminhos seguindo a Jesus, jamais encontrará o tropeço das riquezas ou o tropeço da própria vontade. Segue-me, portanto, e mostrar-te-ei “aquilo que olho não viu, ouvido não ouviu nem penetrou em coração de homem” (1Cor 2,9). “Segue-me e dar-te-ei, diz Isaías, tesouros escondidos e riquezas ocultas” (45,3). E o mesmo: “Ù vista disso ficarás radiante de alegria e teu coração estremecerá e se dilatará” (60,5). Haverás de ver a Deus face a face, assim como ele é e te encherás de delícias e riquezas na dupla estola da alma e do corpo. Teu coração admirará as ordens dos anjos e a moradia dos bem-aventurados e, por causa da imensa felicidade, se dilatará na exultação e no louvor. Portanto: segue-me! II – O Amor de Cristo para com o seu discípulo fiel.

4. O amor de Cristo para com a pessoa que lhe é fiel é bem demonstrado, por exemplo, na seguinte passagem: “Pedro, então, tendo-se voltado, viu que o estava seguindo o discípulo que Jesus amava, aquele que na ceia tinha se inclinado sobre o seu peito” (Jo 21,20). Quem realmente segue a Cristo, deseja que todos sigam o Senhor. Eis porque se dirige ao próximo com carinho, com oração devota e com a pregação. O voltar-se de Pedro significa exatamente isto e concorda com o final do Apocalipse – “O esposo e a esposa, isto é, Cristo e a Igreja, dizem: Vem! E quem escuta diga por sua vez: Vem! (22,17). Cristo, por meio da inspiração celeste, e a Igreja, por meio da pregação, dizem ao homem e à mulher: Vem! E quem ouve essas palavras, diga por sua vez ao próximo: Vem! Não queres seguir a Jesus? Portanto: tendo-se voltado, Pedro viu que o estava seguindo aquele discípulo que Jesus amava. E Jesus ama quem o segue. No livro dos Números diz-se o seguinte: “O meu servo Caleb, que me seguiu fielmente, eu o introduzirei na terra que ele percorreu. E a sua

geração dela tomará posse” (14,24). A Glossa, sem dizer o nome, mas com as palavras “que Jesus amava” está indicado o discípulo João e ele se distingue dos outros não porque Jesus amasse somente a ele, mas porque amava mais a ele do que aos outros. Amava também os outros, mas a este o amava com “maior afeição”. E Jesus gratificou-o com uma ternura maior de seu amor, pois o havia chamado quando era ainda virgem e virgem ele permaneceu; por isso a ele Jesus confiou sua própria mãe. Este foi um gesto imenso de amor! Somente João repousou a cabeça no peito de Jesus” no qual estão encerrados todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Col 2,3). Nesse mesmo gesto estava como que prefigurado o fato dos inumeráveis segredos divinos que ele haveria de escrever, a diferença dos demais evangelistas.

5. Pode-se observar também que Jacó descansou sobre uma pedra e João sobre o peito de Jesus. Aquele durante a caminhada, este durante a ceia. Em Jacó são representados os peregrinos sobre a terra, em João os bem-aventurados. Aqueles, durante a caminhada terrena, estes, já chegados à pátria celeste. No livro do Gênesis, se diz: “Jacó partiu de Bersabéia e dirigia-se a Haran. Querendo descansar, pegou uma pedra, colocou-a sob a cabeça e dormiu. E, em sonho, viu uma escada em pé e anjos subindo e descendo por ela e o Senhor no topo da escada.” (28,10-13). Jacó é o justo ainda peregrino sobre esta terra onde tem muito que lutar. Ele sai de Bersabéia que significa “sétimo poço” e representa o poço sem fundo da cobiça humana, exatamente como o sétimo dia do qual se lê não ter fim.

Dirige-se rumo a Haran que significa “alto” e representa por isso a Jerusalém celeste. O profeta Habacuc o diz: “Subirei e me unirei ao nosso povo já em paz”, o nosso povo que triunfou sobre a maldade do século. E, por desejar aliviar o cansaço de sua peregrinação, o justo coloca sob a cabeça uma pedra e adormece. A cabeça é a mente. A pedra é a firmeza da fé. A escada em pé representa o duplo amor a Deus e ao próximo. Os anjos são os homens justos que sobem até Deus elevando-se com suas mentes, mas abaixando-se até o próximo através da compaixão. A

pessoa justa, então, durante a peregrinação terrena, coloca a mente na firmeza da fé para descansar. Eis porque está escrito nos Provérbios: “O arganaz, uma espécie de marmota, por sua natureza, é fraco e faz seu esconderijo na pedra” (30,26). O arganaz, animal tímido, representa quem é fraco no espírito e por isso não sabe opor-se com força aos ataques de qualquer espécie e coloca na pedra da fé o travesseiro da sua esperança para aí poder descansar e dormir e ver elevar-se em si mesmo a escada do amor. Observe-se que o Senhor está no topo da escada por dois motivos: para sustentá-la e para acolher os que nela sobem. Na realidade ele sustenta o peso da nossa fragilidade de modo a estarmos em grau de subir a escada através das obras do amor. E ele acolhe aqueles que sobem para que possamos também nós tornar-nos eternos e bem aventurados com ele que é eterno e bem aventurado. E então, naquela ceia que nos saciará para sempre, descansaremos, com João, sobre o peito de Jesus. O coração no peito é o amor no coração.

Descansaremos em seu amor, porque haveremos de amá-lo com todo o coração e com toda a alma e encontraremos nele todos os tesouros da sabedoria e da ciência. O amor de Jesus! Que tesouro colocado no amor! Que sabedoria de inestimável sabor! Que ciência ele nos faz conhecer! “Serei saciado, diz o salmista, quando aparecer a tua glória” (16,15) e “Esta é a vida eterna: conhecer a Ti, o único verdadeiro Deus e aquele que enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17,3). A Ele sejam dados louvor e glória pelos séculos eternos. Amém.(Na Festa de São João Evangelista, III,pg.31-35)

Traduzido diretamente dos originais em latim por frei Geraldo Monteiro, conforme a edição crítica: “Sermões Dominicais e Festivos, III volume, Pádua, 1979, Ed. Messaggero Padova”.

Deixemos a vaidade do mundo!

“Jesus, tendo saído daquele lugar, retirou-se para a região de Tiro e Sidônia…”(Mt 15,21). “Jesus, tendo saído…”etc. A saída de Jesus representa a saída de toda pessoa humana que se converte e sai da vaidade do mundo. Sobre isto, se lê e se canta na história deste domingo (2º da Quaresma): “Tendo Jacó saído de Bersabéia partiu para Harã (Gn 28,10). Eis como concordam os dois Testamentos: “Jesus, tendo saído daquele lugar, retirou-se para a região de Tiro e Sidônia”, diz Mateus. “Jacó, tendo saído de Bersabéia, partiu para Harã”, diz Moisés no Gênesis. “Jacó é interpretado como ‘suplantador’ e representa o pecador convertido que, sob a planta (do pé) da razão pisa, esmaga a sensualidade da carne. Ele sai de Bersabéia, que se interpreta `sétimo poço’, indicativo da insaciável cobiça deste mundo que é a raiz de todos os males. Deste poço fala João no seu evangelho, colocando as palavras da Samaritana na conversa com Jesus:

“Senhor! Nem sequer tens uma vasilha e o poço é profundo”. E Jesus responde: “Todos aqueles que beberem desta água, ainda terão sede” (Jo 4,11.13). Ó Samaritana! Disseste com toda razão e verdade que o poço é profundo. Com efeito, a cobiça do mundo é profunda, exatamente porque não tem o fundo da suficiência, da saciedade. Por isso, quem quer que seja que beber da água deste poço, entendida como riquezas e prazeres temporais, terá sede de novo. E é verdade mesmo, devemos repetí-lo, porque até Salomão o diz nas parábolas: “A sanguessuga tem duas filhas que dizem: Quero mais, quero mais” (Pv 30,15). A sanguessuga é o diabo que tem sede da nossa alma e deseja bebê-la. Suas são a duas filhas, isto é, as riquezas e os prazeres que sempre dizem: “Quero mais, quero mais” e nunca “Basta!” Diz também o Apocalipse: “Do poço subiu uma fumaça como a fumaça de uma grande fornalha, de modo que o sol e o ar ficaram escuros por causa da fumaça do poço. E da fumaça se espalharam gafanhotos pela terra” (9,2-3). A fumaça que cega os olhos da razão sobe do poço da cobiça mundana que é a grande fornalha da Babilônia. Por causa dessa fumaça é que se obscureceram o sol e o ar. O sol e o ar simbolizam os religiosos. “Sol”, porque os religiosos devem ser sempre puros, cheios de afeição e lúcidos: puros pela castidade, cheios de afeição pelo amor e lúcidos pela pobreza. “Ar”, porque eles devem ser “aéreos”, quer dizer, contemplativos. Infelizmente, por causa de nossos pecados, saiu a fumaça do poço da cobiça e já defumou a todos. É por isso que Jeremias deplora nas Lamentações: “Ai! Como se escureceu o ouro, como mudou sua mais esplêndida cor!” (Lm 4,1).

ol e ouro, ar e cor esplêndida significam a mesma coisa. O esplendor do sol e do ouro se obscureceu, o ar e a cor mudaram. E observe-se bem a exatidão com que Jeremias disse: “escureceu e mudou”. Com efeito, a fumaça da cobiça escurece o esplendor da vida religiosa e obscurece a esplêndida cor da contemplação celeste, na qual o vulto da alma torna-se misticamente invadido por uma esplêndida cor, isto é, torna-se cândido e vermelho: cândido pela encarnação do Senhor, vermelho pela sua paixão, cândido pelo branco marfim da castidade, vermelho pelo ardente desejo do esposo celeste. Lamentavelmente, esta esplêndida cor, hoje em dia, está bastante deteriorada porque foi defumada pela fumaça da cobiça, sobre a qual ainda está escrito: “E da fumaça do poço saíram gafanhotos pela terra”.

Os gafanhotos, pelos saltos que dão, representam todos os religiosos, os quais, com ambos os pés da pobreza e da obediência, devem saltar para a altura da vida eterna. Infelizmente, porém, com um salto para trás, da fumaça do poço, eles saíram pela terra e, como se diz no Êxodo, “cobriram a superfície da terra” (10,5). Hoje não se vêem mercados, não se fazem reuniões civis ou eclesiásticas nas quais não se encontrem monges e religiosos. Compram e

revendem, “constroem e destroem, tornam redondo o que era quadrado” (Horácio, Epist.), isto é, torcem e retorcem qualquer coisa. Nos processos convocam as partes, brigam diante dos juizes, pagam legistas e advogados, induzem testemunhas a jurarem junto com eles por coisas transitórias, frívolas e vãs. Dizei-me, ó religiosos insensatos, se nos profetas ou nos evangelhos de Cristo ou nas cartas de Paulo, se na regra de São Bento ou de Santo Agostinho vós encontrastes essas brigas, essas distrações, esses clamores e essas declarações nos processos por coisas efêmeras e caducas. Ou pelo contrário, não é o próprio Senhor que diz aos Apóstolos, aos monges, a todos os religiosos e não a modo de conselho, mas de ordem mesmo, já que escolheram o caminho da perfeição: “Eu vos digo: amai os vossos inimigos, fazei o bem àqueles que vos odeiam; abençoai aqueles que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos caluniam. E a quem te bate numa face, apresenta-lhe também a outra. E a quem te leva o manto, não recuses a túnica. Dá a quem te pede e não reclames de quem toma o que é teu. Como quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. E se amais apenas os que vos amam, que méritos tereis? Os pecadores também amam aqueles que os amam. E se fazeis o bem aos que vo-lo fazem, que méritos tereis? Até mesmo os pecadores agem assim” (Lc 6,27-33).

Esta é a regra de Jesus Cristo que deve ser preferida a todas as regras, instituições, tradições, invenções, porque “não há servo maior que seu patrão, nem apóstolo maior que aquele que o enviou” (Jo 13,16).Observai, escutai e vede, ó povos todos, se existe bobeira, se existe presunção igual à deles. Em suas regras e constituições está escrito que cada monge ou cônego tenha duas ou três túnicas e dois pares de calçados, de acordo com o inverno ou o verão. Se por acaso acontece de não terem essas coisas no tempo e no lugar que querem, dizem que não se está observando o que é mandado e isso vai mesquinhamente contra a regra.

Olhai com que escrúpulo querem observar a regra naquilo que é prescrito em vantagem do corpo, mas a regra de Jesus Cristo, sem a qual não podem salvar-se, observam pouco ou nada. E o que direi do clero e dos prelados da Igreja? Se um bispo ou um prelado da Igreja fizer algo contra um decreto do Papa Alexandre, Papa Inocêncio ou de qualquer outro papa, imediatamente é acusado, o acusado é convocado, o convocado é julgado por seu crime e, depois de julgado, é deposto. Ao contrário, se ele cometer algo de grave contra o Evangelho de Jesus Cristo, que ele tem por obrigação de vida observar, não há ninguém que o acuse, ninguém que o repreeenda. “Com efeito, todos amam o que é seu e não o que é de Jesus Cristo” (cfr. Fil 2,21). O próprio Cristo, com relação a essas coisas, tanto aos religiosos como ao clero, diz: “Invalidastes a Palavra de Deus por causa da vossa tradição. Hipócritas! Bem profetizou Isaías a vosso respeito, quando disse: `Este povo me honra com os lábios, mas o coração está longe de mim. Em vão me prestam culto, pois o que ensinam são mandamentos humanos’ (Mt 15,6-9). E de novo: “Ai de vós, fariseus, que pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as hortaliças, mas deixais de lado a justiça e o amor de Deus! Importava praticar estas coisas sem deixar de lado aquelas. Ai de vós, fariseus, que apreciais o primeiro lugar nas sinagogas e as saudações nas praças públicas…

Ai de vós, doutores da lei, que impondes aos homens fardos insuportáveis e vós mesmos não tocais esses fardos com um dedo sequer… Ai de vós, doutores da lei, porque tomastes as chaves da ciência! Vós mesmos não entrastes e impedistes os que queriam entrar! (Lc 11,42-43.46.52). Portanto, bem se diz no Apocalipse que “saiu a fumaça do poço como a fumaça de uma grande fornalha que escureceu o sol e o ar e, da fumaça do poço, se espalharam sobre a terra os gafanhotos”. E observe-se ainda que o poço da cobiça humana é chamado “sétimo poço” e isso por dois motivos: ou porque

é o `lixo’ e a fossa de sete crimes (pois a cobiça, como diz o Apóstolo, é a raiz de todos os males (Tm.6,10), ou porque a cobiça não tem o fundo da saciedade tal qual se lê no Gênesis que o “sétimo dia não teve tarde” (Gn 2,2). É deste infeliz poço, pois, que o pecador arrependido consegue sair. A ele se aplicam as palavras:

“Jacó, tendo saído de Bersabéia, partiu para Harã”. “Jesus, tendo saído dali, partiu para a região de Tiro e Sidônia”. Vejamos o que significam esses três nomes: Tiro, Sidônia e Harã. Tiro é interpretado como “angústia”, Sidônia “caça da tristeza”, Harã “excelsa ou indignação”. A pessoa arrependida, que sai da cobiça do mundo, vai para as regiões de Tiro, isto é, da angústia. Observe-se bem que a pessoa verdadeiramente arrependida tem duas angústias: a primeira é aquela que ela sente pelos pecados cometidos, a segunda é aquela que ela tem que agüentar por causa das três tentações, a do diabo, do mundo e a da carne. Sobre a primeira diz Jó: “As coisas que antes a minha alma não queria tocar, agora na minha angústia, tornaram-se o meu alimento” (6,7). Com efeito, para a pessoa arrependida, por causa da angústia do arrependimento que ela sente pelos pecados, quais alimentos saborosos são as vigílias intensas, as lágrimas abundantes, os freqüentes jejuns. Tudo isso a alma, isto é, a sua sensualidade saciada de coisas temporais, aborrecia até tocar, antes de voltar à penitência. É por isso que diz Salomão nas Parábolas: “A alma saciada pisa o favo de mel, mas a alma faminta toma até o amargo como se fosse doce” (Pr 27,7). Observe-se como calham bem Tiro e Harã, isto é, a angústia e o excelso, pois quem quiser chegar às coisas excelsas, sublimes, não poderá fazê-lo sem passar pela angústia. Assim também, a pessoa arrependida que quer subir à plenitude da vida eterna, deve antes passar por Tiro. É o próprio Senhor que o diz em Lucas: “Não era necessário que o Cristo

sofresse – eis aí Tiro – para entrar assim em sua glória – eis aí Harã – ? (24,26).

Frei Geraldo Monteiro,Tradução do latim “Sermões Dominicais e Festivos”, vol. I, pp.105-109 –Ed.Messaggero – Pádua – 1979.

Um novo modo de pensar e de viver

O tentador aproximou-se de Jesus e disse-lhe: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães” (Mt 4,3). O diabo em circunstâncias semelhantes procede de maneira semelhante. Com a mesma tática com que tentou Adão no paraíso terrestre, tentou também a Cristo no deserto e continua

tentando qualquer cristão neste mundo. Tentou o primeiro Adão pela gula, pela vanglória e pela avareza e, tentando-o, venceu-o. Ao segundo Adão, isto é, Cristo, ele tentou de maneira semelhante, mas no foi vencido no seu intento porque quem ele tentava então não era somente um homem, mas era também Deus! Nós, que somos participantes de ambos, do homem segundo a carne e de Deus segundo o espírito, despojemo-nos do homem velho com suas obras que são a gula, a vanglória e a avareza e vistamo-nos do homem novo, renovados pela confissão, para frearmos, com o jejum, o desenfreado ardor da gula, para abatermos, com a humildade da confissão, a altura da vanglória, para pisarmos, com a contrição do coração, o denso lodo da avareza. “Bem aventurados, diz o Senhor, os pobres em espírito”, isto é, os que têm o espírito dolorido e o coração contrito, “porque deles é o reino dos céus” (Mt 5,3).

Procure ainda observar que, assim como o diabo tentou de gula o Senhor no deserto, de vanglória no templo, de avareza no cimo do monte, assim também faz conosco todos os dias: tenta-nos de gula no deserto do jejum, de vanglória no templo da oração e do ofício, de tantas formas de avareza no monte dos nossos cargos. Enquanto fazemos jejum, ele nos sugere a gula, com a qual pecamos em cinco maneiras, como diz o verso: “antes do tempo, abundantemente, demais, com voracidade e com delicadeza exagerada” (São Gregório). ANTES DO TEMPO, isto é, quando se come antes da hora; ABUNDANTEMENTE, quando se excita a gulosice da língua e se quer aumentar um apetite fraco com temperos, especiarias e toda espécie de comida; DEMAIS, quando se come mais comida do que o corpo necessita; pois dizem alguns gulosos: temos que fazer jejum, então vamos comer para suprir de uma só vez tanto o almoço quanto a janta. Estes são como o bicho-da-seda que não sai da árvore em que está até não devorá-la completamente. O “bruco” (bicho-da-seda) é chamado assim porque é feito quase só de boca e simboliza muito bem os gulosos que são tudo, gula e barriga, e assaltam o prato como se fosse uma fortaleza e não o deixam se antes não o devoraram todo: ou se estoura a barriga ou se esvazia o prato! COM VORACIDADE quando o homem se joga sobre qualquer comida como se fosse assaltar uma fortaleza, abre os braços, estica as mãos, come com todo seu corpo; à mesa é como um cão que, na comida, não quer ter rivais. COM DELICADEZA EXAGERADA quando se procura só comidas deliciosas e preparadas com grande esmero.

Como se lê no primeiro livro dos Reis, sobre os filhos de Heli, que não queriam aceitar a carne cozida, mas só a crua, para poderem prepará-la com mais temperos e outras iguarias. Semelhantemente, o diabo nos tenta de vanglória no templo. Com efeito, enquanto estamos em oração, enquanto recitamos o ofício e estamos ocupados na pregação, somos assaltados pelo diabo com os dardos da vanglória e, infelizmente, muitas vezes feridos. Existem efetivamente alguns que, enquanto oram e dobram os joelhos e soltam suspiros, querem ser vistos. E há outros que, quando cantam em coro, modulam a voz, fazem falsetes e desejam ser ouvidos. Enfim, há também os que, quando pregam, elevam a voz como trovão, multiplicam as citações, interpretam-nas a seu modo, giram-se pra cá e pra lá e desejam ser louvados. Todos esses mercenários – acreditem-me – “já receberam sua recompensa” (Mt 6,2) e colocaram sua filha no prostíbulo. Diz Moisés no Levítico: “Não profanes a tua filha, fazendo-a prostituir-se” (19,29). Filha minha é a minha obra e eu a prostituo, quer dizer, a coloco no prostíbulo quando a vendo pelo dinheiro da vanglória. Por isso é que o Senhor nos aconselha: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora ao teu Pai que está lá no segredo” (Mt 6,6). Tu, quando quiseres rezar ou fazer alguma coisa de bom – e é nisto que consiste o “orar sem cessar” – entra em teu quarto, isto é, no segredo do teu coração, e fecha a porta dos cinco sentidos para não desejar nem ser visto nem ser escutado nem ser louvado. Com efeito, diz Lucas (1,9)

que Zacarias entrou no templo do Senhor na hora do incenso. No tempo da oração ‘que se eleva à presença do Senhor como o incenso’ (Salmo 140,2). Tu deves entrar no templo do teu coração e orar ao teu Pai e “o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (Mt 6,6). Além disso, do alto dos nossos encargos, da nossa passageira dignidade, somos tentados a cometer muitos pecados de avareza.

Não existe só a avareza do dinheiro, mas também aquela do querer ser mais do que os outros. Os avarentos, mais têm mais desejam possuir. Aqueles que ocupam altos postos, quanto mais sobem mais querem subir e assim acontece que caem com numa queda muito mais ruidosa, já que “os ventos sopram mais nos lugares altos” (Ovídio) e “aos ídolos é que são oferecidos sacrifícios nas alturas” (4 Reis 12,3). Diz Salomão a propósito: “O fogo não diz nunca: basta!” (Prov 30,16). O fogo, quer dizer, a avareza do dinheiro e das honrarias não diz nunca: basta! Mas o que é que diz então? “Mais, mais!” þ Senhor Jesus, tirai, tirai estes dois “mais, mais” dos prelados de vossa Igreja, que se pavoneiam no alto de suas dignidades eclesiásticas e gastam o vosso patrimônio, por Vós conquistado com os tapas, com as flagelações, com as cusparadas, com a cruz, com os cravos, com o vinagre, com o fel e a lança. Nós, portanto, que somos chamados cristãos por causa do nome de Cristo, imploramos todos juntos, com a devoção da alma e ao mesmo Jesus Cristo, e pedimos insistentemente que ele, do espírito de contrição, nos faça chegar ao deserto da confissão, a fim de que, nesta Quaresma, mereçamos receber o perdão de todas as nossas maldades e, renovados e purificados, nos tornemos dignos de gozar da alegria da sua santa Ressurreição e ser colocados na glória da felicidade eterna. No-lo conceda Aquele a quem se deve toda honra e toda glória por todos os séculos dos séculos. Amém. Tradução: Frei Geraldo Monteiro, OFM Conv. Sermões Dominicais e Festivos 1º Domingo de Quaresma, pp. 81-84

Nós deixamos tudo…

Naquele tempo disse Simão Pedro a Jesus: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos” (Mt 19,27). Neste evangelho podem-se notar duas coisas: a grandeza dos apóstolos no juízo final e a recompensa daqueles que deixam as coisas passageiras deste mundo. A Grandeza dos Apóstolos no Juízo Final A

grandeza apostólica provém das palavras “Eis que nós deixamos tudo”. Pedro “corredor ágil, que faz a sua corrida” (Jeremias 2,23) diz: “Eis que nós deixamos tudo!” Pedro, fizeste bem, pois, carregado de peso, não poderias acompanhar Aquele que corre, Cristo! Um pouco antes, ele tinha ouvido o Senhor dizer: “Em verdade eu vos digo, dificilmente um rico entrará no Reino dos Céus” (Mt 19,23). Por isso, para entrar com facilidade, tudo deixou. Mas, o que significa “tudo”? As coisas exteriores e e as interiores, isto é, aquilo que possuíamos e também a vontade de possuir, de tal modo que não nos restou absolutamente nada. Sobre isso diz o Senhor pela boca do Profeta Isaías: “Destruirei até o nome de Babilônia, seu resto, a sua descendência e a sua posteridade” (14,22).

O nome Babilônia significa “propriedade”, como se disséssemos: “meu, teu”. Cristo destruiu nos apóstolos não só este nome, mas até “o resto” da propriedade; e não só isso, mas também a descendência, quer dizer, a tentação de ter, e a posteridade, isto é, a vontade de possuir. Felizes os religiosos em que essas coisas foram destruídas, porque só assim poderão dizer verdadeiramente: Eis que nós deixamos tudo! Olhai os apóstolos “que voam”. Pelo que, diz Isaías: “Quem são estes que vêm deslizando como nuvens, como pombas de volta aos seus pombais?” As nuvens são leves. Os apóstolos, deixando o peso do mundo, voam ligeiros nas asas do amor seguindo a Jesus. Diz Jó: “Conheces por acaso os grandes caminhos das nuvens e a ciência perfeita?” (37,16). Grande caminho é deixar tudo. Caminho

estreito durante a peregrinação desta vida, mas largo e grande no momento da recompensa. Ciência perfeita é amar a Jesus e segui-Lo. Este foi o caminho e esta foi a ciência dos apóstolos que, como pombas, voaram a seus pombais. Pombais em latim se diz “Fenestrae” e é como dizer “que se leva para fora” (ferentes extra). Os apóstolos e os homens apostólicos, inocentes e simples como pombas, voaram bem para longe das coisas terrenas a tal ponto que guardaram as janelas dos sentidos para que não voltassem, saindo através delas, aquelas coisas exteriores que tinham abandonado. Por essas janelas saiu aquela pomba sem coração que se deixou seduzir. Conta o livro do Gênesis que “Dina (filha de Jacó) saiu para ver as moças daquela região. Mas

Siquém (príncipe) raptou-a e violou a sua virgindade” (cf.34,1-2). Assim também a alma desventurada é levada para fora através dos sentidos do corpo para ver as belezas mundanas e, enquanto vagueia pra cá e pra lá, é raptada com seu consentimento pelo diabo e o resultado é a sua ruína. Que diferença entre os dois vôos! Os apóstolos, das coisas terrenas voam rumo às celestes, a pessoa pecadora, das coisas celestes desce para as terrenas. Ela voa pra o diabo, eles para Cristo! “Eis que te seguimos” (Mt 19,27). Por Ti, Jesus, deixamos tudo, nos tornamos pobres. E pois que és rico, nós Te seguimos para que nos faça ricos também.

São os mais miseráveis entre todos os homens aqueles religiosos que deixam tudo e no entanto não seguem a Cristo. Esses têm um duplo prejuízo: são privados de qualquer consolação externa e não possuem nem a interior. Os mundanos, mesmo não tendo as consolações interiores, pelo menos têm aquelas exteriores. “Nós te seguimos”. Nós, criaturas, seguimos o Criador; nós, filhos, seguimos o pai; nós, crianças, seguimos a mãe; nós, famintos, seguimos o pão; nós, com sede, seguimos a fonte; nós, doentes, seguimos o médico; nós, cansados, seguimos o leito; nós, exilados, seguimos o paraíso! “Nós Te seguimos”: nós corremos atrás da fragrância dos teus perfumes (Ct 1,3), porque a fragrância de teus perfumes supera a de todos os demais aromas (Ct 4,10). Lê-se na História Natural que a pantera é uma fera de beleza maravilhosa, cujo cheiro é de tanta suavidade que supera qualquer outro perfume. Por isso, quando os outros animais pressentem sua presença, imediatamente se avizinham e seguem-na, porque se sentem reforçados de modo admirável pela sua visão e pelo seu perfume (Aristóteles e Plínio). Quão grande seja a beleza e a suavidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, os bem aventurados o experimentam na pátria celeste, mas também as pessoas justas,

de algum modo, o experimentam nesta vida. E os apóstolos, logo que experimentaram a suavidade de Jesus, tendo deixado tudo, imediatamente O seguiram. “Eis que nós te seguimos: que recompensa teremos?” (Mt 19,27) “Como aqueles que procuram um tesouro: alegram-se sobremaneira quando encontram um sepulcro”(Jó 3,21-22). O tesouro no sepulcro é o símbolo de Deus no corpo, assumido da Virgem Maria.  Apóstolos, já encontrastes o tesouro, já o tendes totalmente. O que procurais a mais? “Que recompensa teremos”? O que quereis ter ainda mais? Conservai aquilo que encontrastes, porque Ele é tudo o que procurais. Nele, diz Baruc, existe a sabedoria, a prudência, a fortaleza, a inteligência, a longevidade e o alimento, a luz dos olhos e a paz” (3,12-14). Existe a sabedoria que tudo cria; a prudência com que governa todas as coisas criadas; a fortaleza com que freia o diabo; a inteligência com que tudo penetra; a longevidade com que perpetua os seus; o alimento com que sacia; a luz com que ilumina; a paz com que conforta e doa serenidade. “E Jesus lhes disse: em verdade eu vos digo, vós que me seguistes” (Mt 19,28). O Senhor não responde: “Vós que deixastes tudo”, mas “vós que me seguistes” – isso é próprio dos apóstolos e dos perfeitos. Muitos deixam suas coisas e no entanto não seguem a Cristo porque, por assim dizer, se agarram a si mesmos. Se quiseres seguir e alcançar, é preciso que deixes a ti mesmo.

Quem segue alguém pelo caminho, não olha para si, mas para o outro, que constituiu como guia para seu caminho. Deixar-se a si mesmo significa não confiar em si em nenhum caso, considerar-se inútil mesmo quando se fez tudo o que tinha sido mandado, desprezar-se a si mesmo como um cão morto ou uma pulga (1Sm 24,15), no próprio coração não antepor-se a ninguém, julgar-se inferior a todos, até aos maiores pecadores, considerar todas as próprias obras boas como panos sujos de uma mulher menstruada, colocar-se diante de si mesmo e chorar como diante de um morto, humilhar-se profundamente em qualquer ocasião e lançar-se totalmente nos braços de Deus. Ouçamos o que é prometido àqueles que assim O seguem. “Na nova criação: (in regeneratione) a primeira regeneração acontece na alma através do batismo, a segunda acontecerá no corpo no dia do juízo, quando os mortos ressurgirão incorruptos” (1Cor 15,52), quando “o Filho do homem”, isto é Jesus, na condição de servo, submetido a juízo aqui na terra, “sentar-se-á”, isto é, exercitará o seu poder de juiz “sobre o trono da sua glória”, isto é, a Igreja, onde se manifestará o seu poder, “sentareis também vós sobre os doze tronos” (Mt19,28).

Se somente os doze apóstolos, sentados sobre doze tronos, serão juízes com Cristo no dia do juízo, onde se sentará Paulo, “vaso de eleição” (At 9,15), que hoje de lobo se transformou em cordeiro, que trabalhou mais do que todos (1Cor 15,10), que “foi arrebatado até o terceiro céu e ouviu segredos que não é lícito ao homem revelar” (2Cor 12,2)? Onde se sentará, repito, um homem tão grande assim, se no tribunal existem para os juízes somente doze tronos, do momento que ele afirma: “Não sabeis que julgaremos os anjos” (1Cor 6,3), isto é, os anjos maus? Por isso é preciso saber que o número doze é usado para indicar a plenitude do poder e que com as doze tribos de Israel entendem-se todos aqueles que deverão ser julgados. Eis, portanto, que os pobres, junto com Jesus pobre, filho da Virgem pobrezinha, julgarão com justiça o mundo inteiro (Sl 9,9). Jó também diz: “Deus não salva os ímpios, mas deixará aos pobres o juízo” (36,6). Diz “aos pobres” e não aos ricos” cuja glória será a sua confusão” (Fl 3,19). Com efeito, os ricos ficarão confusos quando virem sentados em juízo com Cristo e com Cristo julgar, “aqueles que um dia desprezaram e ultrajaram” (Sab 5,3). Tradução: Frei Geraldo Monteiro, OFM Conv – Conversão de S. Paulo, Vol.III, pp. 83-87 Sermões Dominicais e Festivos Ed.Mess. Padova – 1979

Anunciação da Bem-aventurada Virgem Maria

IV. Reflexão.

10. “O anjo Gabriel foi enviado” etc. Acabamos de ouvir de que maneira a Virgem Maria concebeu o Filho de Deus Pai. Vamos ver agora, brevemente, de que jeito a alma concebe o espírito da salvação. Na Virgem Maria vemos representada a alma fiel: “virgem” pela integridade da fé. Com efeito, diz o Apóstolo: “Eu vos prometi a um único esposo, para apresentar-vos como virgem casta a Cristo” (2Cor 11,2). “Maria”, isto é, estrela do mar, pela profissão da própria fé. “Crê-se com o coração para obter a justiça”, eis a virgem. “Com a boca faz-se a profissão de fé para obter a salvação” (Rm 10,10): eis a estrela que da amargura do mundo guia ao porto da salvação eterna. Essa virgem mora em Nazaré da Galiléia, quer dizer, “na flor da emigração”.

A flor é a esperança do fruto. Com efeito, a alma fiel espera “emigrar”, passar da fé à visão, da sombra à verdade, da promessa à realidade, da flor ao fruto, do visível ao invisível. Dizem os pastores: “Vamos até Belém, porque ali encontraremos bons pastos, o pão dos anjos, o Verbo Encarnado. Lemos em Isaías: “Alegria dos burros selvagens, pastagem dos rebanhos” (32,14). Nos burros selvagens estão simbolizados os justos, cuja alegria será a pastagem dos rebanhos, quer dizer, o esplendor e a felicidade dos anjos, porque junto com os anjos pastarão, isto é, gozarão da visão do Verbo Encarnado. A essa virgem é enviado o anjo Gabriel, cujo nome significa “Deus me confortou”. Nele é indicada a infusão da graça divina e sem o seu conforto a alma desfalece.

Por isso diz Judite: “Dai-me forças, ó Senhor, Deus de Israel, nesta hora”. E, com o punhal, golpeou duas vezes o pescoço de Holofernes e cortou-lhe a cabeça” (13,9-10). Holofernes significa “enfraquece o boizinho engordado”. Nele é representado o pecador que, engordado com a gordura das coisas temporais, é despojado pelo diabo das virtudes e assim se enfraquece e fica doente. A cabeça de Holofernes é a soberba do diabo. Diz Gênesis: “Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (3,15). No calcanhar é indicado o fim da vida. A Virgem Maria esmigalhou a soberba do diabo por meio da humildade, mas ele a tentou, no calcanhar, durante a paixão de seu Filho. Quem quiser arrancar de si mesmo a soberba do diabo, deve golpeá-lo duas vezes. Esse duplo golpe é a lembrança do nosso nascimento e o pensamento da nossa morte. Quem medita assiduamente sobre esses dois momentos da sua vida arranca de si a soberba do diabo, mas antes é preciso que implore o sustento da graça divina. “Agi virilmente e o vosso coração será confortado” (Sl

30,25). 11. “Entrando o anjo onde ela estava”. Aqui é colocada em evidência a solidão da alma que mora em si mesma, lendo no livro da própria miséria e indo à busca da doçura divina: por isso ela merece ouvir dizer:

“Ave!” O nome de Eva que quer dizer “ai” ou desgraça. Lido ao contrário fica Ave. A alma que se encontra no pecado mortal é Eva, ou seja, “ai” e desgraça, mas se ela se converte à penitência e ouve dizer-lhe Ave, quer dizer “sem ai”. “Cheia de graça”. Quem derrama ainda alguma coisa numa vasilha cheia perde tudo aquilo que nela coloca. Assim também na alma, se ela for cheia de graça, não pode entrar nela a sujeira do pecado. A graça penetra todos os espaços e não deixa nenhum pedacinho vazio em que possa entrar e ficar aquilo que lhe é contrário. Quem tudo compra, tudo quer possuir. E a alma é tão grande que ninguém pode preenchê-la a não ser somente Deus que, como diz São João, “é infinitamente maior que o nosso coração e conhece todas as coisas” (1Jo 3,20).

Uma vasilha bem cheia derrama em todas as partes. Da plenitude da alma recebem todos os sentidos porque, como diz o profeta Isaías, “será de sábado a sábado” (66), quer dizer, da paz interior virá a paz dos sentidos e dos membros. “O Senhor é contigo”. Ao contrário, lemos no Êxodo: “Não irei contigo, porque tu és um povo de cabeça dura” (33,3), isto é, desobediente e soberbo. É como se dissesse: “Eu iria contigo se fosses humilde!” Por isso ao humilde ele promete: “Tu és o meu servo: mesmo que tiveres que atravessar as águas eu estarei contigo e os rios não te submergirão. Se tiveres que atravessar o fogo, não te queimarás, a chama não poderá te queimar” (Is 43,2). Nas águas é simbolizada a sugestão do diabo, nos rios a gula e a luxúria; no fogo, o dinheiro e a abundância das coisas materiais; na chama, a vanglória. O servo, isto é, a pessoa humilde com quem está o Senhor, passa ileso através das sugestões do diabo, porque nem a gula nem a luxúria o cobrem. Quem está com a cabeça totalmente coberta não pode ver, cheirar, falar e ouvir distintamente. Assim, também quem estiver totalmente coberto pela gula e pela luxúria fica privado da faculdade de contemplar, discernir, reconhecer o seu pecado e obedecer. O humilde, mesmo que caminhe através do fogo das coisas temporais, não se queima com a avareza ou com a vanglória. 12. “Tu és bendita entre as mulheres”.

Lê-se na História Natural que as mulheres sentem compaixão bem mais intensamente do que os homens, derramam lágrimas bem mais do que os homens e possuem uma memória muito mais duradoura do que os homens (Aristóteles). Nessas três qualidades são indicadas a piedade com o próximo, a devoção das lágrimas, a lembrança da paixão do Senhor. Lemos no Cântico dos Cânticos: “Coloca-me como um selo em teu coração, uma tatuagem em teu braço, porque forte como a morte é o amor!” (8,6): o teu amor pelo qual morreste! Bem-aventuradas aquelas almas que possuem essas três qualidades. Entre elas é bendita, com o privilégio de uma bênção especial, a alma fiel e humilde, rica de obras de caridade. E em mérito a essa bênção, continua: “Eis que conceberás e darás à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus”. Lemos ainda na História Natural que as mulheres grávidas sentem dores, perdem o apetite, a vista fica anuviada. Outras mulheres grávidas não gostam de vinho, porque bebendo-o perdem as forças. Isso acontece também com a alma. Quando, sob a ação do Espírito Santo, concebe o espírito da salvação: começa a arrepender-se de seus pecados, sente repugnância pelas coisas temporais, desagrada-se a si mesma, (este é o significado do anuviamento da vista); acostumada a admirar-se com gosto, não gosta do vinho da luxúria. Por estes sinais poderás julgar se a alma concebeu o espírito da salvação que em seguida dará à luz quando der fruto na luz das obras boas. E a esse fruto dará o nome de “salvação” (Jesus), porque tudo o que faz é em vista da salvação. É a intenção – foi dito – que qualifica a obra. A alma fiel age para agradar a Deus, para obter o perdão dos pecados, edificar o próximo e alcançar a salvação. Digne-se conceder a salvação também a nós Aquele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém. Tradução: Frei Geraldo Monteiro, OFM Conv Sermões de Santo Antônio Ed. Messaggero – Padova,1979 – Volume III, pp158-161

Paixão de Jesus e a Formação da nossa Vida

1. Naquele tempo disse Jesus aos seus discípulos: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6,24). Nós lemos no livro de Tobias que o anjo Rafael lhe disse: “Abre o peixe, pega o coração, o fel e o fígado e coloca-os de lado para ti; são remédios necessários e úteis” (6,5). Vamos ver que significado têm o peixe, seu coração, o fel e fígado. O peixe é a figura de Cristo que diz a Pedro: “Vai mais para o fundo do mar, joga o anzol e o primeiro peixe que vier, pega-o, abre-lhe a boca e encontrarás uma moeda de prata (estatere): pega-a e entrega-lhes por mim e por ti” (Mt 17,26). O peixe, portanto, é figura de Cristo que morou neste mar grande e espaçoso; primeiro, ele foi mais para o fundo, isto é, ele se ofereceu à morte pela nossa redenção, para que aquilo que se encontrou em sua boca, quer dizer, em seu testemunho, fosse dado por Pedro e pelo Senhor. Foi pago exatamente um único preço, mas dividido, porque foi dado por Pedro como pecador, enquanto, que o Senhor não tinha cometido pecado algum. A moeda é o estatere, que vale quatro dracmas, para que fosse manifestada a semelhança na carne, enquanto o Patrão (o Senhor) e o servo são libertados com o mesmo preço. Ou então, o estatere na boca de Cristo é figura da sua misericórdia e da sua justiça. Misericórdia, quando disse: “Vinde a mim vós todos que estais cansados e oprimidos” (Mt 11,28) . Justiça quando dirá: “Ide, malditos, para o fogo eterno” (Mt 25,31). Abre, portanto, o peixe, isto é, medita profundamente sobre a vida de Cristo e ali encontrarás o seu coração, o fel e o fígado. Com o coração nós compreendemos, com o fel nós nos enraivecemos e com o fígado nós amamos. No coração é simbolizada a sabedoria, no fel a amargura e no fígado o amor de Jesus Cristo. Com o sabor da sabedoria que se estende de um confim a outro e governa com bondade excelente todas as coisas (Sab 8,1), tempera a tua insipiência; mistura a amargura da sua paixão aos teus prazeres; coloca o seu amor acima de qualquer outro amor, pois sem o seu amor deve-se dizer dor e não amor. Estes são os remédios úteis à tua alma e se tu os guardares para ti, serás servo não do diabo mas de Deus, não da carne mas do espírito, não do mundo, mas do céu! A sabedoria de Cristo quebra o poder do diabo. Diz Jó: “A sua sabedoria abateu o soberbo” (26,2). O antigo adversário foi derrotado não pela força mas pela sabedoria, porque quando se arrojou temerariamente contra Cristo, em quem não havia nada que lhe dissesse respeito, com razão lhe escapou das mãos o homem sobre o qual quase tinha o direito de dominar. A amargura da paixão de Cristo consegue sufocar até os apetites da carne. Disse alguém: “A lembrança do Crucificado crucifica os vícios!” E sobre isso, olha o sermão do Domingo de Quinquagésima, no Evangelho: “Um cego estava sentado à beira do caminho”. Semelhantemente o contra-veneno do seu amor elimina o veneno das riquezas. Com efeito, está escrito no livro de Tobias que: “a sua fumaça”, isto é, a eficácia do seu amor, “expulsa qualquer espécie de demônio”(6,8), isto é, toda ganância de riquezas que, como demônios, despedaçam e fazem sofrer os homens. Todos os ricos deste mundo são como que endemoniados, se movem de um lado para outro, feitos servos não do verdadeiro mas do falso patrão. É propriamente deles que o Evangelho diz: “Ninguém pode servir a dois senhores”. 2. Considera que queremos dividir o Evangelho de hoje em três partes. A primeira: “Ninguém pode servir a dois senhores”. A segunda: “Eu vos digo: não vos preocupeis!” A terceira: “Procurai em primeiro lugar o Reino de Deus! A primeira trata dos dois senhores, a segunda nos ensina a eliminar qualquer preocupação, a terceira nos manda procurar antes de tudo o Reino de Deus. Observa também que neste Domingo se lê na igreja o livro de Tobias do qual tomaremos alguns passos para ver sua concordância com as três partes do Evangelho. No intróito da missa canta-se o salmo: “Piedade de mim, Senhor, a Vós eu grito o dia inteiro”(85,3). Lê-se depois na Carta de São Paulo apóstolo aos Gálatas: “Se vivemos do Espírito, caminhemos também segundo o Espírito”(5,25). Vamos dividí-la em três partes para ver a sua concordância

com as três partes do Evangelho. A primeira parte: “Se vivemos no Espírito”. A segunda parte: “Levai o peso uns dos outros”. A terceira parte: “Quem semeia no Espírito”. Presta muita atenção porque esta Carta é lida junto com o Evangelho pelo fato que o Senhor, no Evangelho, proíbe as preocupações da alma, isto é, da animalidade; ensina a procurar o Reino de Deus. E Paulo, na carta, ensina a viver segundo o Espírito, ensina a semear não na carne mas no espírito, porque quem semeia no espírito há de recolher a vida eterna. I. Os dois senhores.

3. “Ninguém pode servir a dois senhores: ou odiará a um e amará o outro, ou preferirá um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à Riqueza!” (Mt 6,2). Pensa que a alma tem duas potências: a razão e a sensualidade que são como que dois senhores. Do domínio da razão, Isaac diz no livro do Gênesis: “Eu o constituí teu senhor e coloquei sob seu serviço todos os seus irmãos” (27,37). E isto acontece quando a própria vontade e os sentidos do corpo são colocados sob o domínio da razão. Com efeito, no mesmo livro, Jacó diz de Judá: “Ele amarra à videira o seu burrinho, e à parreira, meu filho, a sua burra”. (Gn 49,11). Judá é a figura do penitente, a videira é a razão, a parreira o arrependimento, a burra a sensualidade, o burrinho os seus impulsos. Por isso Judá amarra a burra à videira e o burrinho à parreira, quando o penitente domina a sensualidade do coração com o arrependimento e coloca sob o jugo da razão os estímulos da sensualidade.

Em Gênesis trata-se ainda disso na parte em que José diz aos seus irmãos: “Parecia-me que estivéssemos amarrando os feixes de trigo no meio do campo, quando eis que o meu feixe se levantou e ficou em pé e os vossos feixes se colocaram a seu redor e se prostraram diante do meu. Disseram-lhe os seus irmãos: “Por acaso te tornarás nosso rei? Ou nos submeteremos à tua autoridade?” (Gn 37,7-8). O feixe, em latim ‘manípulus’, manípulo, porque se pega com as mãos, é um feixe de ramos de trigo. José é a figura do justo, cujo ‘manípulo’ é a razão que, quando se ergue em pé por meio do desprezo das coisas temporais e permanece imóvel nas alturas da contemplação, os outros feixes, isto é, os sentidos do corpo, se submetem a seu comando. Por isso Isaac diz: “Sê senhor de teus irmãos e prostrem-se diante de ti os filhos de tua mãe”

(Gn 27,29). E Isaías: “Virão a ti, de cabeça baixa, os filhos de teus opressores “, isto é, de desejos da carne “e adorarão as pegadas dos teus pés aqueles que te insultaram” (60,14). E sobre o domínio da sensualidade diz Moisés: “Pois que não serviste o Senhor teu Deus com a alegria e a felicidade do coração no meio da abundância de todas as coisas, servirás a teu inimigo que te colocará sobre o pescoço um jugo de ferro,até que te tiver destruído” (Dt 28,47.48). Pois que Adão não quis submeter-se Àquele que lhe estava acima, não se submeteu a ele aquele que lhe estava abaixo. Aliás, o próprio Adão foi obrigado a servir ao seu inimigo, isto é, ao diabo, ou à sua carne, de quem nenhum inimigo é mais aguerrido em prejudicar; seu jugo férreo, isto é, a sensualidade ou a carnalidade, foi colocado sobre o pescoço da razão. Diz o Eclesiástico: “Como jugo pesado pesa sobre os filhos de Adão desde o dia de seu nascimento!” (40,1). O jugo pesado sobre os filhos de Adão desde o dia de seu nascimento é o pecado original, ou seja, a fome do pecado ou a concupiscência à qual, diz Agostinho, não se deve permitir mandar. E existem os seus desejos, isto é, as concupiscências de cada dia que são as armas nas mãos do diabo que provêm da fraqueza da natureza. Esta fraqueza é o tirano que dá origem aos maus desejos. Queres ouvir como é pesado o jugo dos filhos de Adão?

Escuta o que está escrito nos “Dogmas da Igreja”. Tem como certo, sem nenhuma sombra de dúvida, que todos os homens, concebidos da união do homem e da mulher, nascem com o pecado original, sujeitos à impiedade, destinados à morte, portanto, por natureza “filhos da ira” (Ef 2,3), “da qual ninguém pode se livrar senão por meio da fé no Mediador entre Deus e os homens” Cristo Senhor! Tradução: frei Geraldo Monteiro (Sermões Dominicais e Festivos, volume II, Pádua, 1979, Edições Mensageiro, pp. 221-225)

As três saudações de Paz

“Veio Jesus e, pondo-se no meio deles, lhes disse: A paz esteja convosco”. Tendo dito isso, mostroulhes as mãos e o lado. O discípulos se alegraram ao ver o Senhor. E Jesus lhes disse de novo: ‘A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio’ ” (Jo 20,19-20). É preciso notar, antes de tudo, que neste trecho do Evangelho é dito por três vezes “A paz esteja convosco” por causa das três pazes que Cristo restabeleceu: – entre Deus e o homem, reconciliando este último com o Pai por meio de seu sangue; – entre o anjo e o homem, assumindo a natureza humana e elevando-a acima dos coros dos anjos; – entre homem e homem, reunindo em si como pedra angular, o povo dos Judeus e o dos Gentios (pagãos). Observe-se também que na palavra PAZ (PAX em latim) há três letras que formam uma só sílaba. Com isso é simbolizada a Unidade e a Trindade de Deus. No “P” é indicado o Pai, no “A”, que é a primeira das vogais, é indicado o Filho que é a voz (o vogal) do Pai. No “X” que é consoante dupla, é indicado o Espírito Santo que procede de ambos (do Pai e do Filho). Quando, portanto, Jesus disse: “A paz esteja convosco”, ele nos recomendou a fé na Unidade e na Trindade. “Veio Jesus e se pôs no meio deles”. O centro é o lugar que compete a Jesus; no céu, no seio da Virgem, na manjedoura da grei e no patíbulo da cruz. No céu: “O Cordeiro que está no meio do trono”, isto é, no seio do Pai, “os guiará e os conduzirá às fontes de água da vida” (Ap 7,17), isto é, à saciedade dos gozos celestes. No seio da Virgem: “Exultai e cantai louvores, habitantes de Sião, porque grande é no meio de vós o Santo de Israel” (Is 12,6). Ó bem-aventurada Maria que és a figura dos habitantes de Sião, isto é, da Igreja, que na encarnação do vosso Filho fundaste o edifício da sua fé, exulta com todo o coração, canta com a boca o teu louvor: “Minha alma glorifica o Senhor!”, porque o grande, o pequeno e o humilde, o santo e o santificador de Israel está no meio de ti, isto é, em teu seio! Na manjedoura da grei: “Serás conhecido entre dois animais” (Hab 3,2 – Glossa). “O boi conhece o seu proprietário e o burro a manjedoura do seu dono” (Is 1,3). No patíbulo da cruz:“Crucificaram junto com Jesus outros dois, de um lado e de outro e Jesus no meio” (Jo 19,18). Veio, pois, Jesus e se colocou no meio deles. “Eu estou no meio de vós – nos diz São Lucas – como aquele que serve (22,27). Ele está no centro de todo coração. Está no centro porque dele, como do centro, todos os raios da graça se irradiam a nós que caminhamos ao seu redor e nos agitamos na periferia. Com tudo isso estão de

acordo as palavras dos Atos dos Apóstolos: “Naqueles dias, Pedro, tendo-se levantado no meio dos irmãos, (estava reunido um grupo de quase cento e vinte homens) disse: “Irmãos…”, etc. e tudo aquilo que aconteceu para a eleição de Matias (cf. Atos 1,1-1). Cristo, ressuscitado dos mortos, colocou-se no meio dos discípulos.

Pedro que, antes de todos, tinha caído renegando-O, levantou-se no meio dos irmãos, indicando com isso a nós que, levantando-nos do pecado, nos colocamos no meio dos irmãos, porque no centro existe o amor que se estende seja ao amigo que ao inimigo. “Veio, pois, Jesus e se colocou no meio dos discípulos e disse: ‘A paz esteja convosco”.

É preciso lembrar que existem três tipos de paz. Em primeiro lugar, a paz do tempo sobre a qual está escrito no livro dos Reis que “Salomão esteve em paz com todos ao seu redor” (com os países limítrofes) (5,4). Segundo, a paz do coração, sobre a qual se diz: “Na paz eu me deito e logo adormeço” (salmo 4,9); e ainda: “A Igreja estava em paz em toda a Judéia, Galiléia e Samaria; crescia e caminhava no temor do Senhor, cheia do conforto do Espírito Santo” (Atos 9,31). Judéia quer dizer “confissão”, Galiléia “passagem” e Samaria “guarda”. Portanto, a Igreja, isto é, a alma fiel, encontra a paz nestas três coisas: na confissão, na passagem dos vícios às virtudes, na guarda do preceito divino e da graça recebida. Desse modo ela cresce e caminha de virtude em virtude no temor do Senhor; não um temor servil mas um afetuoso temor filial; e em toda tribulação sente-se cheia da consolação do Espírito Santo. Terceiro: a paz da eternidade, sobre a qual

diz o salmo: “Ele construiu a paz em teus confins” (147,14). A primeira paz, tu deves ter com o próximo, a segunda contigo mesmo e assim, na oitava da ressurreição, terás também a terceira paz, com Deus no céu! Coloca-te, pois, no meio e terás a paz com o próximo. Se não estiveres no meio, não poderás ter a paz. Com efeito, na “circunferência” não há paz nem tranqüilidade, antes, movimento e volubilidade. Conta-se sobre os elefantes que, quando eles têm que enfrentar um combate, possuem um cuidado todo especial para com os feridos: fecham-nos ao centro do grupo junto com os mais fracos. Assim também tu: acolhe no centro do amor o próximo fraco e ferido. Como fez aquele guarda da cadeia de que se fala nos Atos dos Apóstolos que, tomando à parte Paulo e Silas naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os ferimentos, conduziu-os à sua casa, preparou-lhes de comer e ficou imensamente contente junto com toda a sua família por ter acreditado em Deus (cf. Atos 16,33-34). “Jesus colocou-se no meio dos discípulos e lhes disse: ‘A paz esteja convosco!’ Tendo dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado”. Lucas escreve que Jesus disse: “Olhai as minhas mãos e os meus pés: sou eu mesmo!” (24,39).

Conforme meu parecer, o Senhor mostrou aos apóstolos as mãos, o lado e os pés por quatro razões.Primeira, para mostrar que tinha realmente ressuscitado e tirar-nos assim qualquer dúvida. Segunda, porque a pomba, isto é, a Igreja ou mesmo a alma fiel pudesse fazer seu ninho nas suas chagas como que em profundas fendas e assim pudesse proteger-se da vista do gavião que trama ciladas para pegá-la. Terceira, para imprimir em nossos corações os sinais extraordinários da sua paixão. Quarta, mostrou-lhes para que também nós, participando de sua paixão, não O preguemos nunca mais na cruz com os cravos dos nossos pecados. Mostrou-nos, portanto, as mãos e o lado dizendo: “Eis as mãos que vos plasmaram, como foram transpassadas pelos cravos! Eis o peito do qual vós, fiéis, Igreja minha, fostes gerados, como Eva foi procriada do costado de Adão, eis como foi aberto pela lança para abrir-vos as portas do paraíso, guardada pela espada flamejante do anjo querubim. O vigor do sangue que jorra do coração de Cristo, afastou o anjo e tornou inócua a espada e a água apagou o fogo. Portanto, não queirais crucificar-me de novo e profanar o sangue da aliança em que fostes santificados e ultrajar o Espírito da graça. Se prestares bem atenção a estas coisas e as escutares, terás paz contigo mesmo, ó homem! Por isso, o Senhor, após ter-lhes mostrado as mãos e o lado, disse de novo: “A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou” à paixão, embora me ame, assim também eu, com o mesmo amor, vos envio ao encontro daqueles sofrimentos aos quais o Pai me enviou. (Sermões de Domingos e Festas, volume I, Pádua, 1979, Edição Mensageiro de Santo Antônio, pp. 235ss)Tradução: Frei Geraldo Monteiro, OFM Conv

As várias ofertas da Virgem Maria

Lemos no Livro dos Juízes: “Água ele pediu, leite ela lhe deu e em uma taça de príncipes ofereceu creme” (5,25). Sísara (chefe do exército de Canaã) significa “exclusão da alegria” e é figura do diabo que, excluído da alegria da vida eterna, procura de todos os modos excluir também os cristãos fiéis. A ele, que pedia a água da concupiscência, a nossa Jael (Maria) ofereceu o leite. Foi por divino conselho que o mistério da encarnação do Senhor permaneceu escondido ao diabo. Vendo que a beata Virgem era casada, estava grávida e deu à luz a um filho e o amamentava, o diabo pensou que também ela fosse sujeita à concupiscência e ao pecado e, por isso, aproximou-se dela para exigir-lhe, como preço, a água da concupiscência. A Virgem, porém, amamentando seu Filho, levou ao engano o diabo e assim matou-o com a estaca da tenda e com o martelo. Na estaca, que serve para fixar e fechar a tenda, é representada a virgindade de Maria. No martelo, que tem a figura de um tau (T), é representada a cruz de Cristo. Jael, portanto, ou seja, a Virgem Maria, matou o inimigo, o diabo, com a virgindade do seu corpo e com a paixão do seu Filho pregado na cruz. Por isso, diz o Livro de Judite: “Uma mulher hebréia, sozinha, cobriu de vergonha a casa do rei Nabucodonosor. Com efeito, eis Holofernes que jaz no chão, decapitado” (14,18). Adonái, Senhor, Deus grande e admirável, a Vós o louvor e a glória, a Vós que nos destes a salvação pela mão da vossa Filha e Mãe, a gloriosa Virgem Maria! No trecho citado no início, prestemos atenção às palavras “ofereceu creme numa taça de príncipes”. São estas palavras que nos deram motivo para as considerações preliminares. Vejamos o que significam a taça, os príncipes e o creme. Na copa é representada a humilde condição do pobre, nos príncipes, os apóstolos; e, no creme, a humanidade de Cristo. Em sua humilde condição de pobreza – que até os “príncipes” (os apóstolos) teriam tido, ricos na fé, mas pobres neste mundo –, Maria ofereceu, no templo, o creme, quer dizer, o Filho que tinha gerado, do qual diz o profeta Isaías: “Nutrir-se-á de mel e coalhada” (7,15). No mel é indicada a divindade; na coalhada, a humanidade do Salvador. Ele nutriu-se de mel e coalhada quando uniu, em si mesmo, a natureza divina e a humana e, por isso, “aprendeu”, isto é, fez com que também nós aprendêssemos a “rejeitar o mal e a escolher o bem” (Is 7,15). Em sua pobreza, Maria ofertou o Filho e, com ele, a oferta dos pobres, isto é, um par de rolas ou duas pombinhas, como prescrevia a lei de Deus. “Quando uma mulher engravidar, e der à luz a um filho homem, será impura por sete dias” (Lv 12,2), à exceção, porém, daquela que deu à luz permanecendo virgem. Nem o Filho nem a Mãe precisavam de ofertas para purificar-se, mas o fizeram para que nós fôssemos libertados do temor da lei, isto é, da prescrição da lei que era observada por medo. E continuava a lei: “Quando os dias de sua purificação se

completarem, isto é, após quarenta dias, deverá oferecer um cordeiro na entrada da tenda. Se não o encontrar ou não tiver a possibilidade de oferecer um cordeiro, oferecerá duas rolas ou duas pombinhas”( Lv 12, 6.8). Esta era a oferta dos pobres, que não tinham a possibilidade de oferecer um cordeiro, e isto é dito porque em tudo deveriam manifestar-se a humildade e a pobreza do Senhor e de sua Mãe. E fazem esta oferta fazem aqueles que são realmente pobres. Observe-se que, se a rola perder o companheiro, ficará sozinha para sempre. Vai embora solitária, não bebe água límpida, não sobe sobre um ramo verde. A pomba também é simples. Tem o ninho mais rústico e pobre entre os demais pássaros, a ninguém fere com as unhas nem com o bico. Não vive de rapinas. Com o bico nutre seus filhotes com o que ela mesma se nutriu. Não come cadáveres. Nunca ataca os outros pássaros nem os mais pequeninos. Alimenta-se de grãos. Esquenta sob as asas, como se fossem seus, os filhotes dos outros. Mora na beira dos rios para defender-se do gavião.

Faz o ninho entre as pedras. Quando a tempestade ameaça, refugia-se no ninho. Defende-se com as asas. Voa em grupo. Seu canto é como um gemido. É prolífica e alimenta os gêmeos. Observe-se também que quando as pombas criam e os pequenos crescem, o macho vai bicar na terra salgada, coloca no bico dos pequenos aquilo que pegou, para que se acostumem à comida. E se a fêmea, pelo sofrimento do parto, demora para voltar, o macho a bica e a empurra com força para dentro do ninho. Também os pobres no espírito, isto é, os verdadeiros penitentes, dado que pecando mortalmente perderam seu “companheiro”, isto é, Jesus Cristo, vivem sozinhos na solidão do espírito e do corpo, longe do tumulto das coisas temporais. Não bebem a água clara dos gozos terrenos, mas aquela turva da dor e do pranto. “A minha alma está perturbada, diz o Senhor. O que direi?” (Jo 12,27). Não sobem nos ramos verdejantes da glória temporal de que diz o profeta Ezequiel: “Levam os ramos no nariz” (8,17). Os escravos da luxúria carregam no nariz o ramo da glória temporal para não sentir o fedor do pecado e o mau cheiro do inferno. Além disso, os verdadeiros penitentes são simples como as pombas. O lugar em que moram e a cama em que dormem é rústica e pobre. Não ofendem ninguém. Aliás, perdoam a quem os ofende. Não vivem de rapina, mas distribuem suas coisas. Confortam e sustentam, com a palavra da pregação, aqueles que lhes são confiados e partilham alegremente com os demais a graça que lhes foi dada. Não se unem aos cadáveres, isto é, ao pecado mortal. Diz o verso: “Alguns cadáveres caíram pela espada, outros de morte natural”. Não escandalizam nem o grande nem o pequeno. Alimentam-se de puro grão, isto é, da pregação da Igreja e não dos hereges, que é impura. Tornam-se tudo a todos, promovem tanto a salvação de estranhos quanto de conhecidos. Amam a todos no coração de Cristo. Vivem à beira dos rios da Sagrada Escritura para se precaverem de longe das tentações do diabo que trama sempre alguma coisa para raptá-los e assim se defendem. Fazem seus ninhos nas fendas da

rocha, isto é, nas chagas do peito de Cristo e, se houver a tempestade da tentação carnal, correm ao peito de Cristo e ali se refugiam e oram com o Profeta: “Sede para mim, ó Senhor, uma torre firme diante do adversário” (Salmo 60,4) e ainda “Sede, ó Deus, a minha proteção” (Salmo 70,3). Não se defendem com as unhas da vingança, mas com as asas da humildade e da paciência. O jeito melhor de vencer – diz o filósofo – é a paciência”; e ainda: “O refúgio das desgraças é a paciência”. Em união com a Igreja, com a comunidade de fiéis junto deles, eles se elevam até as coisas celestes. Seu canto é um gemido. Suas melodias são lágrimas e suspiros. Cheios de boa vontade, nutrem com o máximo escrúpulo os “dois gêmeos”, isto é, o amor de Deus e do próximo. Observe-se ainda que o penitente deve ter duas virtudes: misericórdia e justiça. A misericórdia, por assim dizer, é a fêmea, que guarda os filhotes; a justiça é o macho. A terra salgada é a carne de Cristo, cheia de amargura da qual o penitente deve sugar o amargor e o salgado e colocá-los na boca dos filhotes, isto é, das suas obras, para que, acostumados com tal alimento, vivam sempre na dor e na amargura, “crucificando a carne com seus vícios e concupiscência” (Gal 5,24). Não se esqueça também de que a discrição (prudência) é a mãe de todas as virtudes. Sem ela não se deve oferecer sacrifício. Por isso, se a pomba, isto é, a misericórdia, demora para voltar até seus filhotes (às obras boas) por causa do parto, isto é, da dor, dos gemidos e do arrependimento, a justiça, como macho, deve dirigi-la e guiá-la com uma certa energia, para que nutra os filhotes (as boas obras) e, nutrindo-os, os guarde. O penitente, portanto, arrependa-se de seus pecados, mas de modo tal a não tirar de si mesmo o necessário, sem o que não poderia viver. E, assim, quem oferecer tais rolas e pombas, o sumo sacerdote Jesus Cristo o libertará de qualquer fluxo de sangue, isto é, de qualquer impureza do pecado.

(Sermões de Domingos e Festas, volume II, pp.135-139, Edição Mensageiro de Santo Antônio)Tradução: Frei Geraldo Monteiro, OFM Conv

Jesus intercede por nós junto ao Pai

“Eu roguei ao Pai por vocês: o próprio Pai os ama, porque vocês me amaram e acreditaram que eu saí do Pai” (Jo 16,26). Cristo, sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, mediador entre Deus e os homens, roga por nós ao Pai. Lemos no livro do Levítico: “O sacerdote rogará por eles e o Senhor lhes será propício” (4,20); e novamente: “o sacerdote rogará por ele e pelo seu pecado e este lhe será perdoado” (4,26). Estão muito bem de acordo com tudo isso as palavras do livro dos Números: “Moisés disse a Aarão: “pega o turíbulo, acende-o com o fogo do altar coloca incenso e dirige-te ao povo para orar por ele: porque a ira do Senhor se acendeu e o flagelo já começou. Aarão cumpriu a ordem: foi ao meio do povo já golpeado pelo flagelo, ofereceu o incenso; e permanecendo entre os mortos e os vivos, orou em favor do povo e o flagelo cessou” (Num 16,46-48). “Disse Moisés a Aarão”, isto é, disse o Pai ao Filho: “Pega o turíbulo” da humanidade que foi feito por obra de Beseleel (Nm 31,1) que quer dizer “sombra divina”, sombra do Espírito Santo no seio da Virgem gloriosa que justamente pelo Espírito Santo foi “sombreada” levando-lhe assim o refrigério e extinguindo nela de maneira total a fome do pecado. “Enche” com o fogo da divindade o turíbulo da humanidade em que morou corporalmente a plenitude da divindade.E justamente diz: “do altar”, porque “eu saí do Pai e vim ao mundo” (Jo 16,28) “E coloca incenso” da tua paixão, e assim, qual mediador rogarás em favor do povo que o incêndio do diabo está devastando atrozmente. E Jesus, obediente à vontade de quem mandara, pegou o turíbulo, correu “à morte e morte de cruz”. E estando “na cruz com os braços abertos, entre os mortos e os vivos”, isto é, entre os dois ladrões, dos quais um foi salvo e o outro condenado – ou também “entre os mortos e os vivos”, isto é, entre aqueles que estavam presos no cárcere do inferno e aqueles que viviam na miséria deste exílio – livrou-os todos do incêndio da perseguição diabólica, oferecendo-se a si mesmo como sacrifício de suave odor. E justamente de si mesmo ele diz: “Eu rogarei ao Pai por vocês”. E João, em sua carta canônica, escreve: “Nós temos um advogado junto ao Pai, Jesus Cristo justo: ele é propiciação – isto é, expiação – pelos nossos pecados” (1Jo 2,1). Por isso é que todos os dias nós O oferecemos ao Pai no sacramento do altar afim de que sempre de novo se ofereça por nossos pecados. Com efeito, nós fazemos como a mulher que tem uma criança pequenina quando o marido nervoso quer agredi-la:

segurando a criança nos braços, coloca-a diante do homem, falando: “Bate nela! Bate nela!” A criança, com lágrimas nos olhos, sofre junto com a mãe. O pai, comovendo-se diante das lágrimas do filho a quem ama intensamente, perdoa a esposa, por causa do filho. Assim também nós: a Deus Pai nervoso com os nossos pecados oferecemos o seu filho Jesus Cristo no sacramento do altar como aliança da nossa reconciliação. E Deus Pai, se não for por nós, pelo menos em consideração a seu Filho amado, afaste de nós os merecidos flagelos e nos perdoe lembrando-se de suas lágrimas, sofrimentos e paixão. O próprio Filho diz por boca do profeta Isaías: “Eu o criei e eu o conduzirei, eu o levarei e o salvarei”(46,4). Observem-se bem os quatro verbos: eu “criei” o homem e o “conduzirei” em meus ombros como uma ovelha perdida e cansada; eu o “levarei” como a mãe carrega a criança nos braços. E que é que pode fazer o Pai senão responder: “Eu o salvarei”? Por isso é que Cristo diz com muita propriedade: “Eu rogarei ao Pai por vocês; o próprio Pai os ama porque vocês me amaram e acreditaram que eu saí do Pai”. Pai e Filho são uma coisa só. O próprio Filho o afirmou: “Eu e o Pai somos uma coisa só” (Jo 10,30). Quem ama o Pai, ama também o Filho, e o Pai e o Filho o amam. No Evangelho de João, com efeito, o Filho diz: “Quem me ama será amado pelo meu Pai e eu também o amarei e me manifestarei a ele (14,21). Por tudo quanto diz respeito a este amor, estão de acordo também as palavras da carta de São Tiago: “Quem fixa o olhar sobre a lei da perfeita liberdade e lhe permanecer fiel, não como quem escuta e se esquece, mas como quem que a coloca em prática, este sim, será feliz em praticá-la” (1,25). A lei da perfeita liberdade é o amor de Deus que torna o homem perfeito em tudo e livre de toda escravidão. Diz o Salmo (36,31), sobre o justo: “A lei do seu Deus está em seu coração”.

Com efeito, no coração do justo está a lei do amor de Deus e por isso diz Deus: “Filho, dê-me seu coração!” (Pv 23,26). Como o falcão tira dos pássaros que apanha, antes o coração e o come, assim também Deus nada procura e nada ama no homem mais do que o coração no qual está a lei do amor e por isso “seus passos não vacilarão” (Sl 36,31). Os passos dos justos são as suas obras ou mesmo os afetos do coração que nunca vacilarão, isto é, nunca cairão no laço da sugestão diabólica nem escorregarão na praça da vaidade mundana. Sobre o laço fala Jó: “Seu pé será preso pelo laço e a sede se lançará contra ele” (18,9). O pé do inimigo está preso no laço da má sugestão e assim lança-se contra ele a sede da cobiça. Sobre a escorregada fala Jeremias: “Nossos pés escorregaram no caminho rumo às nossas praças” (Lm 4,18). Praça vem da palavra grega platós, que significa largura. Nossos pés – ditos aqui em latim “vestigia”, porque por meio deles se investiga, isto é, descobre-se o percurso de quem passou – estão indicando as obras em base

às quais alguém é reconhecido. Na imensidão suja do prazer mundano escorregam as obras dos pecadores, porque caem de pecado em pecado e por fim se arruinam no inferno. Diz o salmo: “Seus caminhos tornem-se escuros e escorregadios e o anjo do Senhor”, isto é, o anjo mau (ele também é criatura de Deus!) “os persiga” (34,6) até que os precipite no abismo do inferno. Ao invés, os passos do justo não vacilam, porque em seu coração está a lei do amor e quem lhe é fiel “encontrará a felicidade em observá-la”. O amor de Deus infunde a graça na vida presente e a felicidade da glória na vida futura. A ela nos conduza Aquele que é bendito nos séculos dos séculos. Amém. “Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas em suas necessidades e conservar-se puros neste mundo” (Tg 1,26). A religião é chamada assim porque por meio dela nós “ligamos” a nossa alma ao único Deus para render-lhe o culto divino. Escutem as pessoas religiosas o que é que diz o Senhor no Apocalipse: “Eu não imporei sobre vocês outros pesos: segurem aqueles que vocês já têm”(2,24), isto é, o Evangelho! E a verdadeira religião consiste nessas duas coisas: na misericórdia e na inocência. Com efeito, ordenando visitar os órfãos e as viúvas, ela sugere tudo o que devemos fazer pelo próximo; e mandando preservar-nos sem mancha neste mundo, mostra-nos tudo aquilo em que nós devemos ser castos. Peçamos, portanto, irmãos caríssimos, a nosso Senhor Jesus Cristo que nos infunda a sua graça com que possamos inclinar-nos e chegar à plenitude da verdadeira felicidade, rogue por nós junto ao Pai, nos conceda a verdadeira religião a fim de que possamos alcançar o reino da vida

eterna. No-lo conceda Aquele que é digno de louvor, princípio e fim, admirável e inefável nos séculos eternos. E toda religião pura e sem mancha diga: Amém, aleluia! (Sermões, Ed. Mens. Sto. Antonio, 1979, V Domingo depois da Páscoa)

Tradução: Frei Geraldo Monteiro, OFM Conv

Quarta-feira de Cinzas início do jejum

1. Naquele tempo disse Jesus aos seus discípulos: “Quando jejuardes, não fiqueis tristes como os hipócritas que desfiguram o rosto para se fazer ver pelos homens que estão jejuando. Em verdade, eu vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Tu, ao contrário, quando jejuares, urge a cabeça, lava o rosto para que os homens não vejam que estás jejuando, mas o teu Pai que está no secreto” (Mt 6,16-18).Neste trecho evangélico vamos tratar de dois assuntos: o jejum e a esmola.

I. O jejum

2. “Quando jejuais”. Nesta primeira parte devem-se considerar quatro coisas: • o fingimento dos hipócritas; • a unção da cabeça; • o lavar o rosto; • a ocultação do bem. “Quando jejuais”. Lê-se na História Natural que com a saliva do homem em jejum resiste-se aos animais portadores de veneno; aliás, se uma

cobra o ingere, morre (Plínio). Portanto, no homem em jejum existe verdadeiramente um grande remédio. Adão no paraíso terrestre, até que não comeu (jejum) do fruto proibido, permaneceu na inocência. Eis aí o remédio que mata a diabólica serpente e restitui o paraíso, perdido por culpa da gula. Por isso conta-se que Ester castigou seu corpo com jejuns para fazer cair o orgulhoso Aman e reconquistar aos judeus a benevolência do rei Assuero. Jejuai, portanto, se quiserdes conseguir estas duas coisas: a vitória sobre o diabo e a restituição da graça perdida. Mas “quando jejuais, não fiqueis tristes como os hipócritas”, isto é, não queirais ostentar o vosso jejum com a tristeza do rosto. Hipócrita diz-se também “dourado”, isto é, que tem a aparência do ouro mas, internamente, na consciência é barro. Este é o ídolo dos babilônios (Baal), de quem diz Daniel: “Não te enganes, ó rei, este ídolo, de fora é de bronze; dentro, porém, é só barro” (14,6). O bronze ressoa e pelo aspecto pode quase parecer ouro. Assim também o hipócrita ama o som do louvor e ostenta um pouquinho de santidade.

O hipócrita é humilde no rosto, simples no vestir, submisso na voz, mas lobo em sua mente. Esta tristeza não é segundo Deus. É uma maneira estranha de buscar para si mesmo o louvor, essa de ostentar os sinais da tristeza. Os homens estão acostumados a alegrar-se quando ganham dinheiro. Mas trata-se de negócios diferentes: nestes últimos existe a vaidade, nos outros a falsidade. “Desfiguram-se (em latim exterminant) o rosto”, isto é, desfiguram-no para além dos limites da condição humana. Como se pode orgulhar da beleza das vestes, pode-se também fazê-lo da sua feiúra e falta de cor. Não se deve abandonar nem a uma sem cor exagerada e nem a uma excessiva vaidade: é bom estar na justa medida! “A fim de serem vistos pelos homens…” Qualquer coisa que fazem é apenas, aparência, pintado de um falso colorido. Fazem-no para aparecerem diferentes dos outros e serem chamados “super-homens”, até mesmo por causa da aviltação. “…jejuam”. O hipócrita jejua para receber louvor disso, o avarento para encher o bolso, o justo para agradar a Deus. “Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa”. Eis a recompensa do prostíbulo, de que diz Moisés: “Não prostituas tua filha” (Lv 19,29). Filha representa as obras deles: colocam-nas no prostíbulo do mundo para receberem a recompensa do louvor. Seria loucura de quem vendesse como uma moeda de chumbo uma preciosa moeda de ouro. Na realidade vende por um preço muito barato algo de grande valor, aquele que faz o bem só para ser louvado pelos homens. 3. “Tu, ao contrário, quando jejuas, unge a cabeça, lava o rosto”. Isto concorda com o que diz Zacarias. “Isto diz o Senhor dos exércitos: O jejum do quarto mês, do quinto, do sétimo e do décimo mês serão para a casa de Judá dias de alegria e felicidade, dias de grande festa” (Zc 8,11). A “casa de Judá” significa “que manifesta” ou “que louva” e representa os penitentes que manifestando e confessando seus pecados prestam louvor a Deus. Destes é e deve ser o jejum do quarto mês, porque jejuam (abstêm-se, de quatro coisas: soberba do diabo, impureza da alma, glória do mundo e injúria ao próximo. “Este é o jejum que eu amo”, diz o Senhor (Is 58,6). O jejum do quinto mês consiste em afastar os cinco sentidos dos pensamentos e prazeres ilícitos. O jejum do sétimo mês é a representação da cobiça terrena; com efeito como se lê que o sétimo dia não tem fim, assim também nem a cobiça do dinheiro chega ao fundo o suficiente. O jejum do décimo mês consiste em deixar de perseguir um fim mau. O final de cada número é o dez: quem quiser contar além tem que começar de novo do um. O Senhor se lamenta pela boca do profeta Malaquias: “Vós me roubais e ainda me dizeis: Em que coisa nós te roubamos? No dízimo e nas primícias (3,8), isto é, na finalidade má e no início de uma intenção perversa. Preste-se atenção, que o profeta coloca o dízimo antes das primícias, porque é sobretudo pela finalidade perversa que é condenada toda a obra precedente. Este jejum transforma-se para os penitentes em alegria da mente felicidade de amor divino e em esplêndida solenidade de celeste convivência. Isto quer dizer ungir a cabeça e lavar o rosto. Unge a cabeça aquele que em seu interior está cheio de alegria espiritual. Lava o rosto aquele que orna as suas obras com a honestidade da vida.

4. O outro sentido. “Tu, ao contrário, quando jejuas…”. São muitos os que nesta Quaresma, jejuam e no entanto continuam em seus pecados. Estes não ungem a cabeça. Há um triplo unguento: o lenitivo (sedativo), o corrosivo e o “pungitivo”. O primeiro é produzido pelo pensamento da morte, o segundo pelo pensamento da presença do futuro Juiz e o terceiro pelo pensamento da geena. Há a cabeça coberta de furúnculo, verrugas e bentiligo. O furúnculo é uma pequena protuberância superficial cheia de podridão (pus); verruga é uma

excrescência de carne supérflua, pelo que verruguento pode significar também “supérfluo”; o bentiligo é uma casca seca que deturpa a beleza. Nestas três doenças estão indicadas a soberba, a avareza e a luxúria obstinada. Tu, ó soberbo, recoloca diante dos olhos da tua mente a corrupção do teu corpo, a podridão e o fedor que terá. Onde estará, então, aquela tua soberba do coração, aquela tua ostentação de riquezas? Aí, então, não existirão mais as palavras cheias de vento, porque a bexiga murcha ao mínimo toque do alfinete.

Estas verdades, meditadas no íntimo de cada um, ungem a cabeça feridenta, isto é, humilham a mente orgulhosa. Tu, ó avarento, lembra-te do último exame, onde haverá o Juiz justo, estará a carnífice pronto a atormentar, os demônios que acusam, a consciência que remorde. “Então a tua prata será jogada fora, o ouro se tornará sujeira, o teu ouro e a tua porta não poderão livrar-te do dia da ira do Senhor (Ez 7,19). Estas verdades, meditadas com atenção, destróem e tiram as verrugas do supérfluo e os dividem entre aqueles que nem o necessário têm. Por isso, quando jejuas, unge tua cabeça com este unguento, para que o que tiras de ti mesmo seja dado ao pobre. E tu, ó luxurioso, começa a pensar na geena do fogo inextinguível, onde haverá morte sem morrer, fim sem terminar, onde se procura mas não se encontra a morte, onde os condenados engolirão a língua e amaldiçoarão o Criador. Lenha daquele fogo serão as almas dos pecadores e o sopro da ira de Deus as incendiará. Diz Isaías: “Desde ontem”, isto é, desde toda a eternidade, “está preparado o Tofet”, a geena do fogo, “profundo e vasto. Fogo e muita lenha são seu alimento; o sopro do Senhor o acenderá como torrente de enxofre” (Is 30,33). Eis o unguento que punge, que penetra, capaz de sarar a mais obstinada luxúria. Como prego tira prego, assim estas verdades, meditadas assiduamente, são em grau de reprimir o estímulo da luxúria. Tu, portanto, quando jejuas, unge a cabeça com este unguento.

5. “Lava o rosto”. As mulheres, quando querem sair em público, ficam na frente do espelho e se descobrirem alguma mancha no rosto, logo se limpam com água. Assim também tu, olha no espelho da tua consciência. E se encontrares alguma mancha de pecado, vai imediatamente à fonte da confissão e, quando

na confissão se lava com lágrimas o rosto do corpo, também o rosto rosto da alma fica limpo e iluminado.

Uma observação: as lágrimas são luminosas na escuridão, são quentes contra o frio, são salgadas contra o fedor do pecado. “Para que os homens não vejam que estás jejuando”. Faz jejum para os homens quem busca os aplausos deles. Faz jejum para Deus quem sofre por seu amor e partilha com os outros aquilo que tira de si mesmo. “Mas só o teu Pai que está no secreto”. Acrescente-se: o Pai está no secreto por causa da fé e recompensa aquilo que é feito em secreto. Portanto, deve-se jejuar somente lá onde ele vê. E é preciso que quem jejua, jejue de tal modo que agrade àquele que carrega no coração. Amém.

II. A esmola

6. “Não acumuleis para vós tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde os ladrões assaltam e roubam” (Mt 6,19). A ferrugem corrói os metais, a traça corrói as roupas; o que se salva destes dois flagelos, os ladrões roubam. Com estas três expressões é condenada toda forma de avareza. Vejamos o significado moral das cinco palavras: terra, tesouros, ferrugem, traça e ladrões. A terra, assim chamada porque se seca (em latim “torret”) pela seca natural, representa a carne que é de tal modo sedenta que nunca diz: chega! Tesouros são os preciosos sentidos do corpo. A ferrugem, doença do ferro, assim chamada do verbo latim “eródere”, indica a impureza que, enquanto parece agradar, acaba com a beleza da alma e a corrói. A traça, assim chamada porque “segura”, indica o orgulho ou então a ira. Os ladrões (em latim

“fures”, de furrus = obscuro), que trabalham na escuridão da noite, representam os demônios. Portanto, se carregamos alguma coisa na carne, escondemos os tesouros na terra, quer dizer: enquanto usamos os preciosos sentidos do corpo nos desejos terrenos ou da carne, a ferrugem; isto é, a impureza, os corrói. Além disso, o orgulho, a ira e demais vícios destróem a roupa dos bons costumes e, se sobrar ainda alguma coisa, os demônios a roubam, pois estão sempre interessados justamente nisso: roubar os bens espirituais. “Acumulai-vos de tesouros no céu”. Imenso tesouro é a esmola! Diz S. Lourenço: “As mãos dos pobres é que colocaram nos tesouros celestes as riquezas da Igreja!” Acumula tesouros no céu quem dá a Cristo e dá a Cristo quem dá ao pobre: Aquilo que fizestes a um destes mais pequeninos, o fizestes a mim! (Mt 25,40).

“Esmola” é uma palavra grega que em latim se diz “misericórdia”. Por sua vez misericórdia significa “que irriga o mísero coração”. O homem irriga o pomar para colher os frutos. Tu, também, irriga o coração do pobre miserável através da esmola que é chamada água de Deus para obter seus frutos na vida eterna. Seja o pobre o teu céu! Coloca nele o teu tesouro, para que nele esteja sempre o teu coração. E isso, sobretudo agora, durante a santa Quaresma. Onde está o coração, aí também está o olho; e onde estão o coração e o olho, alí também está a inteligência, sobre a qual diz o salmo: “Feliz aquele que atende (“intelligit” = tem cuidado) ao mísero e ao pobre” (40,2). Daniel disse a Nabucodonosor: “Seja-te aceito, ó rei, o meu conselho: desconta teus pecados com a esmola, desconta tuas maldades com obras de misericórdia para com os

pobres” (Dn 4,24). Muitos são os pecados, muitas são as maldades e por isso, muitas devem ser as esmolas e muitas as obras de misericórdia para com os pobres. Assim resgatado por elas da escravidão do pecado, possais voltar livres à pátria celeste. Vo-lo conceda Aquele que é bendito nos séculos. Amém.

7. Lê-se no Livro dos Juízes que “Gedeão invadiu os acampamentos de Madiã com tochas, trombetas e ânforas” (7,16…) Isaías também diz: “Eis o Dominador, o Senhor dos exércitos quebrará com o terror a broca de barro; os de alta estatura serão cortados e os poderosos serão humilhados. O centro da selva será destruído a ferro e o Líbano cairá com seus altos cedros” (10,33-34). Vejamos o significado moral de Gedeão, tochas, trombeta e ânforas. Gedeão quer dizer “que gira no útero” e indica a pessoa penitente que, antes de se apresentar à confissão, deve girar no útero da sua consciência em que foi concebido e gerado o filho da vida ou da morte. Ela tem que pensar se já se confessou de todos os seus pecados; e se, depois de ter se confessado, recaiu nos mesmos pecados, e quantas vezes; porque neste caso foi muito, mas muito mesmo mais ingrato para com a graça de Deus. Se transcurou a confissão e por quanto tempo permaneceu em pecado sem confessar-se, e se, com pecado mortal, recebeu o corpo do Senhor. Portanto, a pessoa penitente, ouvindo o Senhor que diz “fazei penitência”, deve julgar a si mesma por todos os dias de sua vida, para ver se ela é “Israel”, isto é, alguém que vê a Deus. Todos os anos, durante a Quaresma, deve analisar a própria consciência, que é a casa de Deus e tudo aquilo que nela encontrar de nocivo ou supérfluo deve

circuncidar na humildade da contrição; e deve também considerar o tempo passado, procurando com diligência aquilo que cometeu, omitiu e, depois disso, voltar sempre ao pensamento da morte que deve ter diante dos olhos, aliás, morar mesmo neste pensamento.

8. A pessoa penitente, como atento explorador, feito assim o giro, deve logo acender a lâmpada que arde e ilumina: nela é indicado o coração contrito o qual, pelo fato de arder também ilumina. E eis o que pode fazer a verdadeira contrição. Quando o coração do pecador se acende com a graça do Espírito Santo, ele arde pela dor e ilumina pelo conhecimento de si mesmo; e então, a consciência, cheia de tribulações e remorsos, e a atormentada impureza é destruída porque seja interna que externamente a paz volta a florescer. E o esplendor do luxo deste mundo, a dissolutez carnal são destruidos desde a alma até a carne, porque tudo o que houver de imundo tanto na alma como no corpo, é queimado pelo fogo da contrição. Feliz aquele que queima e ilumina com esta lâmpada! Dela diz Jó: “lâmpada desprezada nos pensamentos dos ricos, preparada para o tempo estabelecido” (12,5). Os pensamentos dos ricos deste mundo são: guardar as coisas adquiridas e suar para adquirir mais ainda. Por isso, raramente ou nunca se encontra neles a verdadeira contrição. Eles desprezam-na porque fixam sua alma nas coisas passageiras. Com efeito, enquanto procuram com tanto ardor o prazer das coisas materiais, esquecem-se da vida da alma que é a contrição e assim caminham ao encontro da morte. Diz a História Natural que a caça dos cervos se faz assim: dois homens saem, um deles toca a trombeta e canta, o cervo segue o canto porque sente uma atração por ele. No entanto, o segundo homem dispara a flecha, atinge-o e o mata. Assim também acontece com a caça dos ricos. Os dois homens são o mundo e o diabo. O mundo, diante do rico, toca a trombeta e canta porque lhe mostra e promete os prazeres e as riquezas. E enquanto o rico estulto segue-o encantado, já que encontra prazer nessas coisas, é morto pelo diabo, levado à cozinha do inferno para ali ser fervido e assado. 9. Eis, porém, que chega o tempo da Quaresma, instituído pela Igreja para perdoar os pecados e salvar

as almas: na Quaresma prepara-se a graça da contrição que agora está à porta espiritualmente e bate. Se quiseres abrir e acolhê-la ceará contigo e tu com ela. E aí, sim, começarás a tocar a trombeta de maneira maravilhosa. Trombeta é a confissão do pecador contrito. Feita a confissão, deve ser dada a satisfação ou

penitência indicada na ruptura da ânfora ou do vaso de barro. É desprezado o barro, o corpo acaba por sofrer; Madiã é interpretada como “do juízo” ou “iniquidade”, isto é, o diabo que, pelo juízo de Deus, já é condenado, é derrotado e a sua iniquidade arrasada. E é isso que diz o profeta Isaías: “Os de estatura alta”, isto é, os demônios “serão cortados” e “os poderosos”, isto é, os homens orgulhosos “serão humilhados” e “o centro da selva”, isto é, a ganância das coisas materiais “será destruída pelo ferro” do temor de Deus; “e o Líbano”, isto é, o esplendor do luxo mundano “com os seus altos cedros”, isto é, as nulidades, os enganos e as aparências, “cairá”. Atenção! A satisfação, a penitência consiste em três coisas: • na oração, naquilo que diz respeito a Deus, • na esmola, no que diz respeito ao próximo, • no jejum, no que diz respeito a si mesmos. E tudo isso para que a carne que, pelo prazer, conduziu ao pecado, pela expiação conduza ao perdão. E isso digne-se conceder-nos Aquele que é bendito nos séculos. Amém.

(Sermões, vol. III, pg. 139ss) Tradução: frei Geraldo Monteiro, OFM Conv

A incredulidade de Tomé

“Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Então os outros discípulos lhe disseram: ‘Nós vimos o Senhor. “Mas ele lhes disse: ‘Se eu não vir em suas mãos a chaga dos pregos e não colocar os meus dedos no lugar dos pregos e as minhas mãos no seu peito, não acreditarei” (Jo 20,24-25). Tomé quer dizer “abismo” porque, duvidando, alcançou um conhecimento mais profundo e assim sentiu-se mais seguro. Dídimo é uma palavra grega que significa “duplo”, por isso duvidoso (cético). Não foi por acaso, mas por desígnio divino que Tomé não estava com os discípulos e não quis crer naquilo que ouvia contar. Ó ‘desígnio divino! Ó santa dúvida do discípulo! “Se eu não enxergar em suas mãos…” Ele desejava ver reconstituída a tenda de Davi que tinha caído e sobre a qual o Senhor, por boca de Amós, diz: “Naquele dia eu reerguerei a tenda de Davi que caiu e reedificarei as aberturas de suas muralhas (9,11). Em Davi, que quer dizer “de mão forte”, devemos ver a divindade. Na tenda, o corpo do próprio Cristo em que, como numa tenda, habitou a divindade: ‘tenda que caiu com a paixão e com a morte. Por “aberturas” das muralhas pode-se entender as chagas das mãos, dos pés e do peito: o Senhor as reedificou na sua ressurreição. Sobre elas é que Tomé diz: “Se eu não vir em suas mãos as chagas…” O Senhor misericordioso não quis abandonar em sua honesta dúvida aquele discípulo que se tornaria um “vaso de eleição”: tirou-lhe toda sombra de dúvida, misericordiosamente, como tiraria depois a Saulo a cegueira da infidelidade. E eis a concordância nos Atos dos Apóstolos.

Diz Ananias: “Saulo, meu irmão! O Senhor Jesus enviou-me a ti, o mesmo que te apareceu no caminho em que vinhas vindo, a fim de que tu recobres a vista e sejas repleto de Espírito Santo. E improvisamente caíram-lhe dos olhos umas como que escamas e ele recuperou a visão. Levantou-se e foi batizado. Tomou

alimento e sentiu-se fortificado” (At 9,17-19). Realizou-se assim a profecia de Isaías (65,25): “O lobo irá ao pasto junto com o cordeiro”, isto é, Saulo com Ananias que justamente quer dizer “cordeiro”. O corpo da cobra se cobre de escamas. Os Judeus são “as cobras e raça de víboras”. Saulo, imitando a falta de fé dos Judeus, tinha como que recoberto de pele de cobra os olhos do coração, mas depois, caídas as escamas sob a mão de Ananias, manifesta no rosto a luz que recebeu na alma. Assim, sob a mão de Ananias, isto é, de Jesus Cristo que foi conduzido ao sacrifício como um cordeiro. Caíram as escamas da dúvida dos olhos de Tomé e ele recuperou a visão da fé. Profissão de fé de Tomé: confirmação da nossa fé! “Oito dias depois os discípulos estavam de novo em casa; desta vez estava também Tomé. Veio Jesus, com as portas fechadas, colocou-se no meio deles e disse: “Paz a vós!” (Jo 20,26). Não quero explicar de novo aquilo que já foi explicado. “E Jesus disse a Tomé: coloca o teu dedo e olha as minhas mãos; estende a mão e coloca-a no meu peito; não sejas incrédulo, mas tem fé! Respondeu-lhe Tomé dizendo: “Meu Senhor e meu Deus!” E Jesus lhe disse: “Porque me viste, creste. Bem-aventurados os que, mesmo sem terem visto, creram (Jo 20,27-29). Diz o Senhor por boca de Isaías: “Eu te desenhei em minhas mãos (49,16).

Observe-se que, para escrever, são necessárias três coisas: papel, tinta e caneta. As mãos de Cristo eram o papel, seu sangue a tinta, e os cravos a caneta. Cristo, portanto, desenhou-nos em suas mãos por três motivos. Em primeiro lugar, para mostrar ao Pai as cicatrizes das chagas que tinha sofrido por nós e induzi-lo assim à misericórdia. Depois, para não esquecer-se nunca de nós e por isso ele mesmo diz por boca de Isaías: “Pode talvez uma mulher esquecer sua criança e não ter piedade do filho do seu ventre? Mesmo que ela se esqueça, eu não me esquecerei de ti. Eis, eu te desenhei em minhas mãos” (49,15-17). Em terceiro lugar, ele escreveu em suas mãos como nós devemos ser e em que devemos crer. Portanto, não sejas incrédulo, ó Tomé, ó cristão, mas tem fé! “Exclamou Tomé: ‘Meu Senhor e meu Deus!’ etc. Respondendo-lhe, o Senhor não disse: “Pois que tocaste” mas “porque viste”, porque a visão é em certo modo um sentido “global” que em geral é de ajuda aos outros quatro. Diz a Glossa: “Talvez não ousou tocar, mas somente olhou ou talvez olhou também tocando. Via um homem e tocava e, para além disso, eliminada toda dúvida, creu que era Deus, professando assim aquilo que não via. “Tomé, viste-me “homem” e creste-me “Deus”!

“Bem-aventurados os que, mesmo sem terem visto, creram. Com estas palavras Jesus louva a fé dos gentios (pagãos), mas usa o tempo passado porque na sua “presciência” via já como acontecido aquilo que haveria de acontecer no futuro. Disso nós entremos, uma confirmação nos Atos dos Apóstolos quando Felipe interrogou o eunuco, funcionária de Candace, rainha da Etiópia: “Crês de todo coração? E ele respondeu:

“Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus!” E o batizou (8,38). O mesmo se diga onde se fala do centurião Cornélio que Pedro batizou juntamente com toda sua família, em nome de Jesus Cristo. Estes dois que creram em Cristo, prefiguraram a Igreja dos gentios (pagãos) que haveria de se regenerar no sacramento do batismo e crer no nome de Jesus Cristo. É a eles que Pedro fala hoje com as palavras da entrada da missa e diz: “Como crianças recém-nascidas, desejai razoáveis o leite sem engano (= puro) da palavra”(1 P 2,2).

Criança, em latim infans, é assim chamada porque não sabe falar (fari=falar). Os fiéis da Igreja, gerados pela água e pelo Espírito Santo, devem ser in-fantes, não falantes, isto é, que não falam a língua do Egito do qual diz o profeta Isaías: “O Senhor recusará a língua do mar do Egito” (11,15). Com a língua indica a eloqüência, com o mar a sabedoria filosófica e com o Egito o mundo. O Senhor, portanto, recusa a língua do mar do Egito quase, através dos simples e não eruditos, demonstra que a sabedoria do mundo é árida e sem sabor. “Razoáveis, sem engano”. Razoável é aquilo que se faz com a razão. A razão é o olhar da alma, com o qual o verdadeiro é contemplado por si mesmo e não através do corpo ou então é o próprio verdadeiro que é contemplado (Santo Agostinho) Razoáveis, portanto, no que diz respeito a Deus e a nós mesmos, sem engano no que diz respeito ao próximo. “Desejar o leite”. O leite de que fala Agostinho: “O pão dos anjos tornou-se leite dos pequeninos”. O leite (em latim Pac) é chamado assim pela sua cor. Com efeito é um líquido branco. Branco em grego se diz ‘leukós’, em latim albus. A sua substância é produzida pelo sangue, pois, após o parto, se uma parte do sangue ainda não foi consumida para a nutrição no útero, por vias naturais, ela sobe até aos mamilos e tornando-se branco por obra deles, assume a natureza e a substância do leite. E daquele momento, torna-se alimento de todo recém-nascido, porque a substância através da qual acontece a geração é a mesma da nutrição: o leite, com efeito é como o sangue fervido, digerido, não corrompido (Aristóteles). No sangue, que tem um aspecto horrível, é apresentada a ira de Deus. No leite, ao invés, que tem sabor doce e cor agradabilíssima, é representada a misericórdia de Deus. O sangue da ira foi mudado em leite de misericórdia no peito, isto é, na humanidade de Jesus Cristo. É assim que diz o Profeta:

“Mudou os raios em chuva” (Salmo 134,7). Os raios da ira divina transformaram-se em chuva de misericórdia, quando o Verbo se fez carne. O eunuco etíope e o centurião Cornélio são figuras dos pecadores convertidos. Cornélio quer dizer “que entende a circuncisão”. Com justiça, Cornélio e o eunuco têm algo em comum: com efeito os penitentes “tornaram-se eunucos pelo reino dos céus, quer dizer, circuncidam, eliminam de si mesmos os desejos carnais e, crendo no nome de Jesus Cristo, lavam-se na fonte viva do arrependimento e renovam-se no batismo da penitência. Fazem como os elefantes, dos quais diz Solino. “As fêmeas antes dos dez anos ignoram o sexo; os machos, antes do quinze. Por dois anos mantêm relações cinco vezes por ano e não mais. E não voltam entre os companheiros do grupo sem antes se lavarem em águas vivas da fonte.”

Assim também os penitentes e os justos, se caíram em algum pecado, envergonham-se de voltar ao número dos fiéis se antes não se lavarem nas águas vivas das lágrimas e da penitência. Peçamos, portanto, irmãos caríssimos, e supliquemos à misericórdia de Jesus Cristo para que, venha e se firme no meio de nós, extirpe do nosso coração toda dúvida e imprima em nossa alma a fé na sua paixão e ressurreição, a fim de que, juntamente com os apóstolos os fiéis da Igreja, possamos alcançar a vida eterna. No-lo conceda aquele que é bendito, digno de louvor e glorioso pelos séculos eternos. E toda alma fiel responda: Amém. Aleluia!(Sermões, vol I, pp. 241-246) Tradução: Frei Geraldo Monteiro, OFM Conv

Haverá um só rebanho e um só pastor

“Tenho ainda outras ovelhas que não são deste rebanho; também a elas eu devo conduzir: e elas escutarão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10,16). A ovelha, um animal macio no corpo e na lã, é chamada em latim “óvis”, de oblação, oferta, porque no início não se ofereciam em sacrifício

touros e sim ovelhas. Ovelhas são os fiéis da Igreja de Cristo que todos os dias sobre o altar da paixão do Senhor e no “sacrifício” do coração arrependido oferecem-se a si mesmos qual hóstia pura, santa e agradável a Deus. “Tenho outras ovelhas”, isto é, os gentios, os pagãos, “que não são deste rebanho”, não são do povo de Israel; “também a estas eu devo conduzir” por meio dos apóstolos e “haverá um só rebanho e um só pastor”. E esta é a Igreja reunida e formada por ambos os povos. Esta é a mulher de que fala o Apocalipse;

“Apareceu no céu um sinal grandioso: uma mulher vestida de sol, com a lua sob seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava pelas dores e trabalho de parto” (Ap 12,1-12). Sentido alegórico. Esta mulher representa a Igreja que de bom alvitre é chamada “mulher”, porque fecunda de muitos filhos que gerou pela água e pelo Espírito Santo. Esta é a mulher vestida de sol . O sol é assim chamado por que ele aparece sozinho, depois de ter obscurecido com o seu fulgor todas as demais estrelas. O sol é Jesus Cristo! Ele habita numa luz inacessível cujo esplendor vela e obscurece os frágeis raios de todos os santos, se forem comparados a ele, porque “não há santo como o Senhor” (1R 2,2). Diz Jó: “Mesmo que eu me lavasse com as águas da neve e minhas mãos brilhassem como nunca, assim mesmo tu me jogarias no lodo e minhas próprias roupas teriam horror de mim (Jó 9,30-31). Nas águas da neve é representada o arrependimento das lágrimas e nas mãos que brilham a perfeição do agir. Diz, pois: mesmo se eu me lavasse com as águas da neve, isto é, do arrependimento, e minhas mãos brilhassem com o esplendor de uma conduta perfeita, mesmo assim me jogarias no lodo, isto é, me farias ver que sou ainda sujo e teriam horror de mim, isto é, me tornariam abominável, as minhas vestes, quer dizer, as minhas qualidades ou os membros do meu corpo, se quisesses tratar-me com rigor: mas, ajuda-me, tu, ó Senhor! Diz Isaías: “Todos nós nos tornamos sujos”, isto é, como um leproso; “todas as nossas justiças são como o pano de mulher menstruada; todos nós caímos como folhas e as nossas maldades nos levaram como vento” (64,6). Por isso o único bom, o único justo e santo é aquele sol de cuja fé e de cuja graça a Igreja é vestida. “E com a lua sob seus pés”. A lua, por causa das variações de seu aspecto. Está indicando a instabilidade da nossa mísera condição. Daqui o dito: “O jogo de sorte muda que nem a lua: cresce e diminui, nunca fica a mesma”. Por isso o Eclesiástico diz: “O estulto muda como a lua” (27,12). O estulto, isto é, o seguidor deste mundo, passa dos “chifres” (forma

da lua no primeiro e último quarto) da soberba à “forma arredondada” da concupiscência carnal e vice-versa.

Esta inconstante prosperidade das coisas caducas deve ser posta sob os pés da Igreja. Os pés da Igreja são todos os prelados que devem conduzí-la como os pés conduzem e sustentam o corpo. E sob estes pés devem ser pisados como esterco todas as coisas temporais. Por isso lemos em Atos: “Todos os que possuíam campos ou casas os vendiam, traziam a importância daquilo que tinha sido vendido e a depositavam aos pés dos Apóstolos” (4,34) porque consideravam como esterco todas aquelas coisas. “Tinha sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas”. As doze estrelas são os doze Apóstolos que iluminam a noite deste mundo. “Vós sois – diz o Senhor – a luz do mundo” (Mt 5,14). A coroa, assim chamada porque é como uma roda em volta da cabeça, de doze estrelas é a fé dos doze apóstolos; e é coroa porque não tolera acréscimo ou diminuição, como todo círculo: e isso porque é completa e perfeita.

A Igreja tem filhos, concebidos como a semente da palavra de Deus, grita pelas dores nos penitentes e sofre no parto pelos esforços de converter os pecadores. Por isso ela, com as palavras de Baruc, diz: “Fui deixada sozinha; me despojei da estola da paz e me vesti com o saco da súplica e gritarei ao Altíssimo por todos os meus dias. Animai-vos, filhos, gritai ao Senhor e ele vos livrará das mãos e do poder dos inimigos.

Ele vos fez partir no luto e no choro, mas vos reconduzirá a mim, o Senhor, na alegria e exultação” (4,19-23).

E isto acontece no dia das Cinzas quando os penitentes são convidados a ficarem fora da igreja e no dia da Ceia do Senhor quando são ali acolhidos. Sentido moral. “Uma mulher vestida de sol”. É a alma fiel de quem diz Salomão: “Quem encontrará uma mulher forte? Seu valor é como aquele das coisas trazidas de longe e da extremidade da terra” (Pv 31,10). Feliz a alma que, revestida pela força do alto, resiste impávida na adversidade e na prosperidade e derrota com coragem os poderes do ar. O valor, o preço desta mulher foi Jesus Cristo que por sua redenção veio de longe; do seio do Pai, em sua divindade e da extremidade da terra, quer dizer, de parentes paupérrimos, em sua humanidade. Ou ainda: por “preço” entendam-se as virtudes. Com este preço se é resgatado, redimido. Diz Salomão: o resgate do homem são suas riquezas (Pv 13,8), isto é, as virtudes (riquezas espirituais) . As virtudes vêm de longe, isto é, do alto; os vícios, ao invés, são nossos familiares, porque provêm de nós mesmos. Esta mulher é vestida de sol. Observe-se que no sol existem três qualidades: candura, esplendor e calor. Na candura é significada a castidade, no esplendor a humildade e no calor a caridade. Com estas três virtudes se confecciona o manto da alma fiel, da esposa do celeste esposo.

Sobre este manto diz Booz a Rute: “Alarga o manto com que te cobres e segura-o com todas as duas mãos.

Ela o estendeu e o segurou estendido e ele colocou seis medidas de cevada e pôs-lhe nos ombros” (Rt 3,15). Booz quer dizer “forte”, Rute “que se vê e tem pressa”. Vejamos o significado da extensão do manto, as duas mãos e as seis medidas de cevada. Rute é a alma que, vendo a miséria deste mundo, a falsidade do diabo, a concupiscência da carne, apressa-se na direção da glória da vida eterna. Alarga este manto quando atribui não a si mas a Deus a sua castidade, a humildade e a caridade e mostra estas virtudes unicamente para a

edificação do próximo. E, para não perdê-las, segura-as com as duas mãos, isto é, com o temor e com o amor de Deus. Nós Vos pedimos, Senhor Jesus, Vós que sois o bom pastor: Guardai-nos como vossas ovelhas, Defendei-nos dos mercenários e do lobo E coroai-nos no vosso Reino Com a coroa da vida eterna. Dignai-vos conceder-nos Vós que sois bendito, glorioso, E digno de louvor por todos os séculos do séculos. E toda ovelha, E toda alma fiel diga: Amém. Aleluia! (Sermões, vol. I, p. 272 e ss, Ed. Mess. Padova, 1979 – II Domingo de Páscoa) Tradução: Frei Geraldo Monteiro, OFM Conv

Circuncisão do Senhor

2. Depois que se completaram os oito dias para ser circuncidado o menino (Lc 2,21). Nesta primeira parte somos ensinados, em sentido místico, como todos os justos, na ressurreição final, serão circuncidados de toda corrupção. Mas porque ouvistes a palavra circuncidado a respeito do Verbo circuncidado, falaremos brevemente da sua circuncisão. Cristo foi circuncidado só no corpo, porque nada tinha para ser circuncidado no espírito, pois não cometeu pecado e não se encontrou mentira na sua boca (1Pd 2,22). E nem sequer contraiu o pecado (original) porque, como diz Isaías, subiu uma nuvem leve (Is 19,1), isto é, assumiu uma carne imune de pecado. Vindo para os seus, porque os seus não o haviam de receber (Jó 1,11), teve de ser circuncidado, a fim de que os judeus não tivessem nenhum pretexto contra ele, dizendo: és incircunciso, deves desaparecer do teu povo, porque segundo o Gênesis, o macho, cuja carne do prepúcio não for circuncidada, perecerá do seu povo (Gn 17,14). És transgressor da lei, não queremos ouvir-te falar contra a lei. É, portanto, circuncidado, pelo menos por três motivos: primeiro, para cumprir a lei – teve de observar o mistério da circuncisão até que fosse instituído o sacramento do batismo -; segundo, para tirar dos judeus a ocasião de o caluniarem; e terceiro, para nos ensinar a ter coração circunciso, da qual diz o Apóstolo São Paulo: a circuncisão do coração está no espírito e não na letra, e o louvor dele procede não dos homens mas de Deus (Rm 2,29).

3. Depois que se completaram os oito dias. Vejamos o que significam as três palavras: o oitavo dia, o menino e a sua circuncisão. A nossa vida se desenvolve, por assim dizer, em sete dias; vem depois o oitavo da ressurreição final. Diz o Eclesiastes: Reparte com sete e mesmo com oito, porque não sabes os males que te podem vir sobre a terra (11,12). Como se dissesse: dedica os sete dias da tua vida às boas obras, porque receberás por eles recompensa no oitavo da ressurreição; neste dia sobrevirá um mal enorme sobre a terra, ou seja, para aqueles que amam a terra, que é ignorado por todo o homem. Na eira correrá o vento, os grãos serão separados da palha (cf Mt 3,12; Lc 3,17) e as ovelhas dos bodes (cf Mt 25,32). O vento na eira significa a separação do juízo final. Os grãos são os justos que serão acolhidos no celeiro celestial. Diz Jó: Irá para o sepulcro com muitos anos, como se amontoa o trigo a seu tempo (Jó 5,26). O sepulcro é a vida eterna, onde os justos entrarão cheios das boas obras, e estarão a salvo dos ataques dos demônios, como um que se esconde num sepulcro para fugir da presença dos homens. A palha, isto é, os soberbos, superficiais e inconstantes, serão queimados no fogo. Desses diz Jó: Serão como palhas em face do vento e como a cinza que o redemoinho espalha (Jó 21,18) Os cordeiros, ou ovelhas, isto é, os humildes e os inocentes, serão colocados à direita de Cristo. Deles escreve Isaías: Assim como o pastor apascenta o seu rebanho, nos seus braços recolherá os cordeiros e os tomará no seu seio; ele mesmo levará as prenhas (Is 40,41).

4. Observa que nestas quatro palavras: apascentar, recolher, tomar e levar, mostram as quatro prerrogativas que os corpos dos justos terão no oitavo dia, ou seja, na ressurreição final. Apascenta pela claridade: Doce é a luz e deleitável é aos olhos ver o sol (Ecl 11, 7); e os justos fulgirão como o sol no reino de Deus (cf Mt 13,43). Se o olho, mesmo corruptível, se deleita assim com o falso brilho do miserável corpo, quanto, imagina, não será o deleite do verdadeiro esplendor do corpo glorificado? Recolherá com a imortalidade: a morte desagrega, a imortalidade reúne. Tomará pela agilidade: toma-se ou pega-se com facilidade o que é ágil. Levará com sutileza: o que sutil se leva com facilidade. As cabras, porém, isto é, os luxuriosos, serão suspensas pelas patas nos ganchos do inferno. Com efeito, o Senhor ameaça, pela boca do profeta Amós, as vacas gordas (cf Am 4,1), isto é, os prelados da Igreja, soberbos e luxuriosos: Eis que virão dias para vós, e vos levarão, levarão os demônios, nos ganchos, e meterão os restos do vosso corpo em caldeiras a ferver. E vós saireis pelas brechas, uma em frente da outra, e sereis lançados para o Hermon (Am 4,2-3). Hermon significa maldição, porque excomungados e amaldiçoados pela Igreja triunfante, irão para o suplício do inferno. Portanto, tudo isto, a glória e a pena, será retribuído a cada um no oitavo dia, isto é, na ressurreição, conforme o que fez na semana desta vida. Lê-se no livro do Gênesis: Jacó serviu por causa de Raquel sete anos; e os dias pareciam-lhe poucos em comparação com a grandeza do amor (Gn 29,20). Era, de fato, formosa de rosto e de gentil presença (Gn 29,17). E continua: E, passada a semana, casou-se com Raquel (Gn 29,28). E mais adiante: Eu era, de dia e de noite, queimado pelo calor e pelo gelo, e o sono fugia-me dos olhos (Gn 31,40). Ó amor da beleza! Ó beleza do amor! Ó glória da ressurreição, quanto fazes sofrer o homem, até chegar às tuas núpcias! O justo, em todos os sete dias da sua vida, serve na indigência do corpo e na humildade do espírito; de dia, isto é, quando lhe sorri a prosperidade com o calor da vanglória; de noite, quando lhe sobrevém a adversidade e é atormentado pelo gelo da tentação diabólica. Assim, foge dele o sono do repouso, porque dentro há lutas, e fora, temores (cf 2Cor 7,5). Teme o mundo, é combatido por si mesmo, e no entanto, no meio de tantos sofrimentos, os dias parecem-lhe poucos, por causa da grandeza do amor. Com efeito, a quem ama, nada é difícil (Cícero). Ó Jacó, por favor, trabalha com paciência, sofre com humildade. Acabada a semana da presente miséria, gozarás das desejadas núpcias da ressurreição gloriosa, em que serás liberto de todo o trabalho e servidão da corrupção.

5. Depois que se completaram os oito dias para ser circuncidado o menino. Diz menino e não velho. Para saber quem é este Menino, leia o sermão do Natal. Na ressurreição final, todo eleito será circuncidado, porque ressuscitará para a glória, como diz Santo Isidoro, sem vício algum, sem defeito nenhum. Ficará longe toda doença, todo impedimento, toda corrupção, toda privação, e qualquer outra coisa indigna daquele reino do sumo Rei, no qual os filhos da ressurreição e da promessa hão de ser iguais aos Anjos de Deus (cf Lc 20,36). Então existirá a verdadeira imortalidade. A condição primeira do homem foi a faculdade de não morrer.

Por causa do pecado, tocou-lhe a pena de não poder deixar de morrer; espera-o na futura felicidade, a terceira condição: o não poder morrer. Então teremos em modo perfeito o livre arbítrio, que foi dado ao primeiro homem para que não pecasse. Será, de fato, perfeito quando este livre arbítrio alcançará o não poder

pecar. Ó oitavo dia, tão esperado, que circuncidas do menino todos os males!

Santo Antônio de Lisboa, Obras Completas, Vol II, pp.689-694; Lello e Irmão – Editores, Porto, 1987. Compilação feita por Frei Antônio Corniatti, OFM Conv

Justiça e Santidade

Justiça é a virtude com a qual, julgando-se corretamente, é dado a cada um o seu. Justiça é como dizer juris status, isto é, o estado de direito. Justiça é o hábito do espírito em atribuir a cada um a dignidade que lhe pertence, tendo em conta a utilidade comum. Fazem parte da justiça: • o temor de Deus • o respeito à religião • a piedade • a humanidade • o gozo do justo e do bom • o ódio do mal • o compromisso da gratidão. O mundo não possui esta justiça porque não teme a Deus, desonra a religião odeia o bem e é ingrato para com Deus.

Será julgado com relação à justiça que não praticou porque não puniu a si mesmo, segundo a justiça, pelos pecados cometidos. Será julgado com relação ‘a justiça, mas não ‘a sua e sim à daqueles que crêem; e do confronto com eles é que receberá a condenação. Cristo não disse: “O mundo não me verá, mas “Vós”, apóstolos, “não me vereis” e isso contra os mundanos que dizem: “Como podemos acreditar naquilo que não vemos? É justiça verdadeira, isto é, é fé que justifica, crer no que não se vê. Ou então: “julgará o mundo com relação à justiça” dos santos. Com efeito, diz o Senhor pela boca do profeta Zacarias: “Será estendido sobre Jerusalém o fio de prumo” (1,16).

O fio de prumo ou chumbinho é um instrumento do pedreiro; em latim se diz: perpendiculum do verbo perpendo que quer dizer controlar, julgar. Consiste em um chumbo ou uma pedra amarrada num barbante e com ele se controla a perpendicularidade das paredes. A justiça dos santos ( a santidade deles) é que nem o fio de prumo que é estendido sobre Jerusalém, isto é, sobre toda pessoa fiel, para medir e ver se sua vida está conforme ao exemplo deles. Todas as vezes que se celebram as festas dos santos, é estendido este fio de prumo sobre a vida dos pecadores. Por isso é que celebramos as festas dos santos para tirarmos da vida deles uma regra para a nossa. É ridículo, portanto, nas solenidades dos santos querer honrá-los com banquetes, quando nós sabemos que eles mereceram o céu através de jejuns.

Amando o mundo e sua glória, dando ao corpo todos os prazeres e acumulando dinheiro, é claro que não imitamos a vida dos santos. Por isso a justiça deles, isto é, a santidade deles será a prova que nós merecemos a condenação. O Julgamento Observe-se que em todo julgamento exigem-se cinco pessoas: o juiz, o réu, três testemunhas. O juiz é o sacerdote. O acusador e réu é o pecador que deve se acusar como réu. As três testemunhas são: contrição, confissão e satisfação ( ou penitência) que testemunham a favor do pecador verdadeiramente arrependido. Diz Agostinho: “Sobe, ó pecador, até o tribunal da tua mente: seja a razão o teu juiz, a consciência o teu acusador, a dor o teu tormento, o temor o teu carnífice. O lugar das testemunhas seja ocupado pelas obras. Os mundanos que não querem submeter-se a tal julgamento, serão condenados com sentença eternamente irrevogável no exame do último julgamento, juntamente com o príncipe deles, o diabo, que já foi julgado.” O apóstolo Tiago, para alertar esses homens a precaver-se do pecado, a amar a justiça, a temer o julgamento, na segunda parte de sua carta acrescenta: “Sabeis muito bem, irmãos meus caríssimos: todo homem esteja pronto a escutar, lento em falar e também lento na ira, porque a ira do homem não realiza a justiça de Deus” (1,19). Todo homem deve estar pronto a escutar o que diz o Apóstolo: “Fugi da fornicação” (1Cor 6,18). Portanto: “esteja todo homem pronto a escutar”.

Todo homem deveria estar pronto a escutar por natureza. Com efeito em latim a orelha é chamada auris como se fosse ávide rapiens, isto é, que agarra avidamente ou ainda hauriens sonum, isto é, que absorve o som. Observe-se que na parte posterior da cabeça não existe carne nem cérebro. Na parte posterior da cabeça está o aparelho da audição. E isso é justo porque a parte posterior da cabeça tem um vácuo, cheio de ar e o instrumento da audição é “aéreo” e portanto, o homem ouve logo, a menos que se interponha algum impedimento. Na cabeça, isto é, na mente em que não há a carne da própria vontade mas o ar da mente devota, passa bem veloz a voz da obediência e por isso é dito: “Ao ouvir-me, logo obedeceu-me” (salmo 17,45). E Samuel no Primeiro Livro dos Reis diz: “Fala, Senhor, que teu servo escuta!”( 3,10).E para

que a obediência penetre mais veloz, é necessário que seja aérea, pura e sensível às coisas do céu, não se apegando a nada das coisas da terra. “Esteja, portanto, todo homem pronto a escutar”. “E lento no falar”. A própria natureza nos ensinou isso fechando a língua com duas portas para que ela não saísse livremente. Com efeito, a natureza colocou na frente da língua como que duas portas, isto é, os dentes e os lábios, para mostrar que a palavra não deve sair a não ser com grande cuidado. Estas duas portas foram fechadas com cuidado por aquele que dizia: “Coloquei guarda em minha boca e porta ao redor de meus lábios” (Salmo 140,3). E corretamente diz: “porta ao redor” ( em latim ostium circumstantiae), porque deve-se guardar não só das palavras ilícitas mas também das ocasiões de falar ilicitamente. Por exemplo: existem pessoas que se envergonham de falar mal de alguém abertamente, mas depois o fazem sob a aparência do elogio e, o que é pior, fazem isso até na confissão. Preste-se atenção, pois não se deve fechar apenas a porta dos dentes mas também a porta dos lábios. Fecha a porta dos dentes e a porta dos lábios aquele que se recusa seja à calúnia seja à adulação. A língua, “mal rebelde”, como diz Tiago, “cheia de veneno mortal” (3,8), fogo que incendeia a floresta das virtudes, incendeia o curso da nossa vida (Tg 3,5-6), arromba a primeira e a segunda porta, sai pelas praças como uma prostituta, faladora e andarilha, inimiga da calma, leva para todos os lugares a desestabilização (Pv 7,8-11). Diz São Bernardo: “Quem poderá calcular quantas coisas ruins comete o pequeno membro da língua, que acúmulo de lixo se ajunta sobre lábios impuros, como é grande o prejuízo causado por uma boca desenfreada! Ninguém avalie de menos o tempo que se perde em palavras ociosas. Justamente porque agora é o tempo favorável e o dia da salvação, a palavra vai embora sem nunca mais voltar e o tempo passa irrevogavelmente. O estulto não sabe aquilo que perde. E dizem: Pode-se passar muito bem uma hora de conversa! Essa hora quem te concedeu foi a generosidade do Criador para obteres o perdão, procurares a graça, fazeres penitência, ganhares a glória”. Igualmente: não exite em definir a língua do caluniador como mais cruel do que

a lança que transpassou o peito de Cristo. A língua, com efeito, transpassa o corpo de Cristo; mas não o transpassa depois de morto e sim o mata justamente transpassando-o. E nem mais cruéis foram os espinhos que se fincaram em sua cabeça, nem os pregos que perfuraram suas mãos e pés, se colocados em confronto com a língua do caluniador que transpassa o próprio coração. Diz o Filósofo: “Não digas coisas torpes. Pouco a pouco, por meio das palavras, acaba-se perdendo até a vergonha”. “Às vezes me arrependi por ter falado, nunca por ter calado”. “Usa mais vezes o ouvido do que a língua”. Portanto, todo homem “seja lento no falar” e assim poderá imitar a justiça dos santos, pois, como afirma Tiago, “aquele que não peca com a palavra é um homem perfeito” (3,2). Seja “lento na ira”, pois ela impede a alma distinguir a verdade. A propósito diz o Filósofo: “Quanto menos reprimires a ira, pela ira tanto mais serás excitado”. “A pessoa irritadiça, quando pára de irar-se, ira-se contra si mesma”. “A ira jamais foi capaz de reflexão”. Por isso é com justiça que se diz: “A ira do homem não realiza a justiça de Deus”. Seja, portanto, todo homem “lento na ira” para não ser golpeado no dia da ira pela irrevogável sentença da condenação, juntamente com o diabo. (IV Domingo de Páscoa, Sermões, Ed. Mess. Padova, 1979, volume I, páginas 322-327) Tradução: frei Geraldo Monteiro, OFM Conv

Quaresma, tempo de misericórdia, a misericórdia de Deus

Sede misericordiosos como misericordioso é vosso Pai. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados. Dai e vos será dado” (Lc 6,36-38). Observe-se que nesta parte do Evangelho estão em evidência cinco mandamentos muito importantes: • Ter misericórdia • Não julgar • Não condenar • Perdoar • Dar. Queremos encontrar a concordância de tudo isso com cinco contos do segundo livro dos Reis (ou segundo livro de Samuel). Primeiro mandamento. “Sede misericordiosos como misericordioso é vosso Pai!”. É chamado de misericordioso quem sofre partilhando da miséria dos outros. Esta “compaixão” é chamada “misericórdia”

porque torna o “coração mísero” (em latim: misericordia, miserum cor) sofrendo com a miséria do outro. Em Deus, ao contrário, a misericórdia é “sem a miséria do coração”. Com efeito, a misericórdia de Deus diz-se “comiseração” (em latim miseratio, como se quisesse dizer “ação de misericórdia” ( em latim misericordiae actio). Neste sentido é que o Senhor diz: “Sede misericordiosos”. E observe-se que, como é tríplice a misericórdia do Pai celeste com relação a ti, assim também, de três modos deve ser tua misericórdia com relação ao próximo. A misericórdia do Pai é graciosa, espaçosa e preciosa. Graciosa porque purifica dos vícios. Diz o Eclesiástico: “Cheia de graça é a misericórdia de Deus no tempo da tribulação, como as nuvens portadoras de chuva no tempo da seca” (35,26). No tempo da tribulação, isto é, quando a alma, atormentada por causa de seus pecados, é inundada pela chuva da graça que a restaura e lava e cancela os pecados.

Espaçosa porque se alarga com o tempo e se expande nas obras boas. Com efeito, diz o Salmo: “A tua misericórdia está diante de meus olhos e me alegro com a tua verdade” (25,3) porque até para mim tornou-se odiosa a minha maldade. Preciosa nas delícias da vida eterna, da qual diz Ana no livro de Tobias: “Quem te honra tem a certeza de que, se sua vida foi colocada à prova, será coroado; se passou através das tribulações, será libertado; se foi oprimido e perseguido, ser-lhe-á concedido entrar na tua misericórdia” (3,21).

A propósito diz o profeta Isaías: “Eu me lembrarei das misericórdias do Senhor e hei de louvar o Senhor por todas as coisas que tem feito por nós e pela multidão de benefícios por ele feitos à casa de Israel, segundo a sua benignidade e segundo a multidão de seus atos de misericórdia” ( 63,7). A tua misericórdia para com o próximo também deve ser de três modos: • deves perdoá-lo, se ele pecou contra ti, • deves instruí-lo, se ele se desviou do caminho da verdade, • deves restaurar suas forças, se ele for um faminto. No primeiro caso, diz Salomão: “É por meio da fé e da misericórdia que são expiados os pecados” ( Pr 15,27). No segundo caso, diz Tiago: “Quem fizer um pecador converter-se de sua vida de pecado, salvará sua alma da morte e cobrirá uma multidão de pecados”( Tg 5,20). No terceiro caso, enfim, diz o Salmo: “Bem-aventurado aquele que tem cuidado do indigente e do pobre” (40,2). Portanto, é com muito boa razão que se diz: “Sede misericordiosos como misericordioso é o vosso Pai!”

4. Concorda com tudo isso aquilo que lemos no segundo livro dos Reis onde se conta que Davi disse a Merib-Baal: “Não temas, porque quero tratar-te com misericórdia por amor a Jônatas, teu pai. Te restituirei todos os campos de Saul, teu avô e tu comerás sempre o pão junto à minha mesa” (2R 9,7=2Sm 9,7). Neste passo é indicada a tríplice misericórdia que se deve ter para com o próximo. Primeiro, quando diz: “por amor de Jônatas”, quer dizer, por amor de Jesus Cristo, o qual disse: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”( Lc 23,34). Com respeito àquele que peca contra ti, deves usar de misericórdia com o coração e com a boca, para perdoá-lo com a boca e com o coração. Em segundo lugar, quando acrescenta: “Restituirei a ti todos os campos de Saul, teu avô”. Campo em latim se diz ager, da palavra ágere que quer dizer fazer, porque nele se faz alguma coisa e simboliza a graça infusa com a unção no batismo: o batizado a recebe para exercitá-la depois nas obras boas. Mas quando Saul, isto é , a alma ungida com o óleo da fé, morre por causa do pecado, então perde a graça e tu lhe restituis quando convertes o batizado de sua vida de pecado. Em terceiro lugar, quando conclui: “E tu comerás sempre o pão junto à minha mesa”. Com efeito, diz Salomão: “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber”( Rom 12,20=Pr 25,21). Por isso é com muito boa razão que se diz: “Sede misericordiosos”. Portanto: sejamos misericordiosos imitando aquelas aves chamadas grous, das quais se diz que , quando querem chegar a um dado lugar, voam bem alto, quase como querendo localizar, a partir de um observatório mais alto, o território a ser alcançado. Aquela que conhece o percurso vai à frente do bando, sacode-lhe a fraqueza do vôo animando com sua voz. E, se a primeira perde a voz ou fica rouca, imediatamente entra uma outra. Todas têm um grande cuidado para com aquelas que se cansam, de modo que, se alguma estiver cansada, todas se unem, sustentam aquelas cansadas até que com o descanso recuperem as forças. Mesmo quando estão no chão, o cuidado delas não diminui: dividem-se os turnos de guarda de modo que uma sobre dez esteja sempre acordada vigiando. As que estão vigiando ficam segurando nas patas uns pequenos pesos que, se eventualmente caem no chão,  logo as avisam que estão cochilando e as acordam. Um grito dá o alarme se surgir um perigo a ser evitado.

Essas aves-grous fogem diante dos morcegos. Sejamos, portanto, misericordiosos como essas aves grous: colocados num observatório mais alto da vida, preocupemo-nos por nós e pelos outros. Sirvamos de guias para quem não conhece o caminho. Com a voz da pregação animemos os preguiçosos, sacudamos os indolentes. Façamos a troca na hora do cansaço, porque, sem alternar o cansaço com o descanso, ninguém consegue resistir por muito tempo. Carreguemos nos ombros os fracos e os doentes para que não venham a cair no meio do caminho. Sejamos vigilantes na oração e na contemplação do Senhor. Seguremos com firmeza entre os dedos a pobreza do Senhor, a sua humildade e a amargura da sua paixão. E se algo de imundo quiser insinuar-se em nós, gritemos logo por socorro e, sobretudo, fujamos dos morcegos, isto é, da vaidade cega do mundo. E por tudo isso, rezemos: Senhor Jesus Cristo, pai misericordioso, Infundi em nós a vossa misericórdia Para que também nós a usemos para conosco e para com os outros, Não julgando nunca a ninguém, Não condenando nunca a ninguém, Perdoando sempre a quem nos ofende E dando sempre nós mesmos e nossas coisas A quem nos pedir. E tudo isso no-lo conceda o próprio Senhor Que é bendito e glorioso Pelos séculos dos séculos. Amém.

(Sermones, Pádua, 1979, Volume I, pp. 459-461) Tradução: Frei Geraldo Monteiro, OFM Conv

A ressurreição do Senhor

1. “A amendoeira florescerá, o gafanhoto engordará, o tempero perderá seu sabor” (Ecl 12,5). Exórdio:

Na Ressurreição, a humanidade de Cristo floresceu como a vara de Aarão.

2. Nós lemos no Livro dos Números que a “vara de Aarão germinou, floresceu ficou cheia de brotos e produziu amêndoas” (Nm 17,23). Aarão, sumo pontífice, é figura de Cristo, o qual, “entrou no santuário não com sangue de bodes ou bezerros, mas com o próprio sangue” (Hb 9,12). Ele é o pontífice que “fez de si uma ponte” para que, através dele pudéssemos passar da margem da mortalidade à margem da imortalidade: hoje floresceu a sua vara! A vara é sua humanidade sobre a qual se diz: “A vara do teu poder estende o Senhor desde Sião” (Sal 109,2). Com efeito, a humanidade de Cristo por meio da qual a divindade exercia o seu poder teve origem em Sião, isto é, o povo judeu “porque, como é dito no Evangelho, a Salvação, isto é, o Salvador, vem dos Judeus” (Jo 4,22). Esta vara permaneceu quase seca no sepulcro por três dias e três noites, mas depois floresceu e produziu fruto, porque ressuscitou e nos trouxe o fruto da imortalidade.

I. Sermão Alegórico

3. “Florescerá a amendoeira”. Diz Gregório que a amendoeira é a primeira entre todas as plantas a dar flores; e diz o Apóstolo que “Cristo é o primogênito daqueles que ressuscitam dos mortos” (cf Col 1,18) porque ele ressuscitou por primeiro. Observe-se que a pena dada ao homem era dupla: a morte da alma e a morte do corpo. “No dia em que comeres – disse o Senhor – morrerás “de morte” ( Gn 2,17), da morte da alma e não poderás subtrair-te à lei da morte. Com efeito, uma outra tradução diz com maior precisão “tornar-te-ás mortal”. Veio o nosso samaritano, Jesus Cristo, e sobre estas duas feridas derramou vinho e óleo, porque com o derramamento de seu sangue destruiu a morte da nossa alma. Diz muito bem Oséias: “Eu os livrarei da mão da morte, eu os resgatarei da morte. Ó morte, eu serei a tua morte! Eu serei a tua mordaça, ó inferno!”

(13,14). Do inferno ele pegou uma parte, e outra parte ele deixou à maneira daquele que morde e com a sua ressurreição aboliu a lei da morte, porque deu esperança de ressurgir: “E não haverá mais a morte” (Ap 21,4). A ressurreição de Cristo é indicada pelo óleo que fica acima dos líquidos. A alegria provada pelos apóstolos na ressurreição de Cristo superou qualquer outra alegria por eles experimentada, quando Jesus ainda estava com eles em seu corpo mortal. Também a glorificação dos corpos superará qualquer outra alegria: “Os discípulos se alegraram ao verem o Senhor” (Jo 20,20).

4. “E o gafanhoto engordará”. Aqui é representada a Igreja primitiva que com a flor da ressurreição do Senhor tornou-se grande e encheu-se de maravilhosa alegria. Escreve Lucas: “Pois que pela grande alegria ainda não acreditavam e ficavam emocionados, Jesus lhes disse: “Tendes aqui algo para comer?

“Ofereceram-lhe então uma porção de peixe frito e um favo de mel” (24,41-42). Peixe frito é figura do nosso Mediador que sofreu a paixão, preso com o laço da morte nas águas do gênero humano, “frito”, por assim dizer, no tempo da paixão; ele é para nós também o favo de mel, por causa de sua ressurreição que hoje celebramos. O favo apresenta o mel na cera e isso representa a divindade revestida pela humanidade. É nesta mistura de cera e mel que se indica que Cristo acolhe no eterno repouso, no seu corpo aqueles que quando sofrem tribulações por causa de Deus, não desistem do amor para com a eterna doçura. Os que, aqui na terra, são por assim dizer “fritos” pela tribulação, serão saciados no céu com a verdadeira doçura. Observe-se que hoje o Senhor apareceu cinco vezes: primeiro a Maria Madalena, depois novamente a ela junto com outros, quando saiu correndo a dar o anúncio aos discípulos; depois a Pedro; depois a Cléofas e seu companheiro e finalmente aos discípulos, a portas fechadas, após o retorno dos dois discípulos de Emaús. Eis, portanto, em que sentido o gafanhoto engordou com a flor da amendoeira, quer dizer, em que sentido a Igreja primitiva se alegrou pela ressurreição do Senhor. O gafanhoto, quando o sol queima, salta e voa.

Assim a Igreja primitiva: quando no dia de Pentecostes o Espírito Santo a inflamou, saltou e voou pelo mundo inteiro através da pregação. “Por toda a terra ecoou o som de sua voz” (Sal 18,5).

Assim engrandecida a Igreja, dissipou-se o tempero que é uma plantinha que se gruda na pedra e representa a Sinagoga a quem foi dada lei escrita sobre a pedra para mostrar sua dureza à qual permaneceu sempre apegada. “Este é um povo de cabeça dura” (Ez 34,9). Quanto mais a Igreja crescia, tanto mais a

Sinagoga se dispersava, isto é, perdia o eu sabor. Está de acordo com tudo isso o que se lê no Livro dos Reis: “Houve uma longa luta entre a casa de Saul e a casa de Davi. A casa de Davi crescia e tornava-se cada vez mais forte enquanto a casa de Saul enfraquecia dia-a-dia.” (2R 3,1). A casa de Davi é a Igreja. A casa de Saul – que quer dizer “aquele que abusa” – representa a Sinagoga que, abusando dos dons especiais de Deus, recebeu o libelo do repúdio e abandonou o tálamo do esposo legítimo. Quão longa tenha sido a luta entre a Igreja e a Sinagoga, mostram-no os Atos dos Apóstolos. A Igreja crescia porque “a cada dia o Senhor acrescentava a ela aqueles que eram salvos” (2,47). Ao invés, a Sinagoga, a cada dia diminuía. “Chama o seu nome de ‘Não meu povo’ porque vós não sois o meu povo e eu não serei o vosso Deus”. E ainda: “Eu me esquecerei totalmente deles. Ao contrário, terei misericórdia da casa de Judá” (Os 1,9), isto é, da Igreja. A Jesus Cristo honra e glória por todos os séculos do séculos. Amém. Sermões Dominicais e Festivos, 1979 Ed. Messaggero, Padova, Volume III, pp. 179-182

Tradução: Frei Geraldo Monteiro, OFM Conv

A Ascensão do Senhor

II. O envio dos Apóstolos para a pregação: sentido moral

6. Eis os sinais que acompanharão aqueles que crerem. Àqueles que derem o coração a Deus, acompanhá-los-ão sinais, porque já sobre o seu coração há o sinal de que se lê nos Cânticos: Põe-me como um sinal em cima do teu coração (Cant 8,6). Quando queremos defender dos ladrões os nossos bens ou a nossa casa, costumamos pôr ali a insígnia ou a bandeira do rei ou de algum grande homem, para que à sua vista temam seguir para a frente. Também se queremos defender o nosso coração dos demônios, ponhamos sobre ele Jesus, que é salvação. E onde há salvação, ali há saúde. Eis os sinais: Em meu nome expulsarão demônios (Mc 16,17).

Aos demônios chamam os gregos daimones, isto é, peritos ou sabedores de coisas. A palavra demônio, em grego, significa o que sabe muito. Os demônios são a sabedoria da carne e a esperteza do mundo. Quais demônios, elas atormentam o espírito do homem e afligem o corpo com preocupações. A sabedoria da carne é o demônio noturno, a esperteza do mundo, o demônio meridiano. A sabedoria da carne é cega, embora esteja convicta que é de visão muito aguda – de noite é de visão muito aguda, como se fora um gato. A esperteza do mundo, porque arde com o calor da malícia, é semelhante ao sol do meio-dia. Aquele que deu o coração a Deus, lança fora de si estes demônios, e faz ainda todos os outros sinais dos quais fala o Evangelho. Falarão em novas línguas. A língua do mundo é língua velha, porque fala coisas velhas a respeito do homem velho. Aqueles a quem os sobreditos demônios atormentam, falam esta língua, mas os lançam fora de si, falam línguas novas, em vida nova. Diz Isaías: naquele dia, haverá cinco cidades na terra do Egito a falar a língua de Canaã e a jurar pelo Senhor dos exércitos: Uma será chamada Cidade do Sol (Is 19,18). A terra do Egito, que se interpreta trevas, é o corpo do homem, cheio de trevas pela pena e pela culpa. Nele há cinco cidades, os cinco sentidos do corpo, dos quais um, a vista, se chama Cidade do Sol. Assim como o sol ilumina todo o mundo, a vista ilumina todo o corpo. Estas cidades falam a língua de Canaã, isto é, mudada. Com a mudança da direita do Altíssimo, depõem o homem velho com os seus atos e revestem o novo, vivendo em justiça e verdade.

Assim como a fala exterioriza a palavra escondida no coração, os cinco sentidos do homem, já mudados e convertidos a Deus, falam dele externamente, tal que é no interior. Isto é o que significa jurar, afirmar a verdade. A verdade, pois, da consciência afirma-se com o testemunho da vida santa, para louvor do Senhor dos exércitos, Senhor dos Anjos. Sobre isto ainda se ajunta: Pegarão em serpentes (Mc 16,18). As serpentes simbolizam a adulação e a detração, que serpenteiam e injetam veneno. O adulador serpenteia, o detrator injeta veneno. Aqueles que falam novas línguas tiram estas serpentes de si. Retirem as coisas velhas da vossa boca (1Reis 2,3). A saliva do homem em jejum mata a serpente; a língua em jejum é uma espécie

de língua nova, cujo antídoto anula o veneno. Mas a antiga serpente como que adulava Eva, quando dizia: De forma alguma morrereis de morte (Gn 3,4). Como que detraía de Deus, quando acrescenta: Deus sabe que, na hora em que comerdes dela, se vos abrirão os olhos e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal (Gn 3,5). Como se dissesse: Deus, cheio de inveja, proibiu-vos, não querendo que vos assemelhásseis a ele na ciência. Eis como o adulador se insinua e o detrator injeta o veneno. Aquele, porém, que está em jejum, cospe na boca da serpente, mata-a, e assim se livra dela.

7. Segue: E se beberem algum veneno mortífero, nada sofrerão. Comentário da Glossa: Quando ouvem as sugestões pestilentas, mas não as transformam em obras, isso não lhes faz mal, ainda que bebam algo de mortífero. Diz Isaías: Não beberão vinho cantando árias. A bebida será amarga para os que a beberem (Is 24,9). Por isso, não lhes fará mal. Não bebe o vinho da sugestão diabólica cantando árias quem não consente nela, antes a rejeita, se dói e lamenta. Por isso a própria bebida, a sugestão diabólica, é amarga para os que

a bebem para os que a ouvem e a sofrem. Ao contrário, Joel: Despertai, ó ébrios, e chorai e uivai todos os que pondes as delícias em beber, porque ele foi tirado da vossa boca (Joel 1,5). Assim é a letra, porque as delícias do vinho depressa desaparecem da boca, desde que passa a garganta. Brevíssima demora da doçura quantos males gera aquele que bebe o vinho da sugestão diabólica, consentindo em espírito e em obras! Diz-se aos ébrios com tal vinho: Despertai, recordando o vosso pecado, chorai, arrependendo-vos de coração, uivai, confessando-vos. Portanto, todo o que possuir em si aqueles quatro sinais dos quais falamos, poderá fazer bem o quinto: Imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados. Chama-se doente, por precisar de remédio ou medicamento. Doente é o pecador, que precisa muito de medicamento, do

exemplo de boas obras. Põe as mãos sobre ele para o curar, para voltar à penitência, aquele que o conforta não só com a palavra da pregação, mas também com o exemplo da obra santa. Amém. Santo Antônio de Lisboa, Obras Completas, Lello & Irmão – Editores, Porto, vol. II, pp. 925-929. Compilação: Frei Antônio Corniatti, OFM Conv

Domingo de Pentecostes

V. Os frutos da graça do Espírito Santo

14. E todos repletos do Espírito Santo começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia se exprimissem (Atos 2,4). São repletos do Espírito Santo. Ele é o único que pode tornar cheia a alma, visto que nem todo o mundo a pode encher. Não recebem outro Espírito, porque não pode receber mais quem está cheio. Por isso, foi dito a Maria Santíssima: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres (Lc 1,28). Nota que no meio das palavras: cheia de graça e bendita és tu entre as mulheres, se diz: o Senhor é contigo. O mesmo Senhor conserva não só interiormente a plenitude da graça, mas também opera, no exterior, a bênção da fecundidade, isto é, das obras santas. Com muita razão ainda, depois de cheia de graça se diz: o Senhor é contigo, já que sem Deus nada podemos fazer ou possuir, nem

sequer conservar o que possuímos. Por isso, depois da graça, é necessário que o Senhor esteja conosco e guarde o que só Ele deu. Quando, pois, ao dar a graça, nos previne, somos seus cooperadores ao guardá-la. E Ele só vigia sobre nós quando também nós vigiamos com Ele. Aparece claro que o Senhor exige de nós esta vigilante cooperação quando diz aos Apóstolos: Não fostes capazes de vigiar comigo por uma hora! Vigiai e orai, para que não entreis em tentação (Mt 26,40-41).

Acertadamente se diz, portanto: E todos ficaram repletos do Espírito Santo. Dele diz o Senhor no Evangelho de hoje: Mas, o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse (Jo 14,26). O Pai enviou o Paráclito em nome do Filho, isto é, para glória do Filho, para manifestar a glória do Filho. Ele vos ensinará, para que saibais; recordar-vos-á, isto é, exortar-vos-á, para que queirais. De fato, a graça do Espírito Santo dá o saber e o querer. Por isso, canta-se hoje na Missa: Vem, Espírito Santo, enche os corações dos teus fiéis, para que possuam ciência, e acende neles o fogo do teu amor, para que queiram realizar o que tiverem aprendido (Seqüência da Missa de Pentecostes). Canta-se ainda: Envia o teu Espírito, e todas as coisas serão criadas com a tua ciência, e

renovareis a face da terra com a boa vontade (cf Sl 103,30). Sobre estas duas coisas há concordância nas Lamentações de Jeremias: Ele do alto enviou fogo sobre os meus ossos e me deu uma lição (Lm 1,13). O Pai no dia de hoje enviou do alto, isto é, do Filho, fogo, a saber, o Espírito Santo, sobre os meus ossos, isto é, sobre os Apóstolos, diz a Igreja, e por ele me deu uma lição, para que saiba e queira.

15. Diga-se, portanto, e todos ficaram repletos do Espírito Santo. A este respeito há concordância no Gênesis: O Senhor fez soprar um vento sobre a terra, e as águas diminuíram; e fecharam-se as fontes do abismo e as cataratas do céu; e foram retidas as chuvas que caíam do céu (Gn 8,1-2). Veja estas quatro coisas: as águas, as fontes, as cataratas e as chuvas. As águas designam as riquezas; as fontes do abismo; as cataratas do céu, os olhos; as chuvas, a abundância de palavras. Quando, pois, o Senhor traz o Espírito Santo para a terra, isto é, o leva ao espírito do pecador, então, diminuem as águas das riquezas, porque são distribuídas aos pobres. Destas águas se escreve no Gênesis: Ao conjunto das águas chamou mares (Gn 1,10).

O amontoar de riquezas não é mais do que amargura de tribulação e de dor. Donde a palavra de Habacuc: Ai daquele que acumula o que não é seu! Até quando amontoará ele contra si o denso lodo? (Hab 2,6). O esterco reunido em casa exala mau cheiro; esparramado, fecunda a terra. Também as riquezas, quando se acumulam sobretudo do que não é seu, mas do alheio, geram o mau cheiro do pecado e da morte. Se, porém, são distribuídas aos pobres e restituídas aos próprios donos, fecundam a terra do espírito e fazem-na frutificar. Abismo é o coração do homem. Dele diz Jeremias: Depravado é o coração do homem e impenetrável; quem o poderá conhecer? (Jr 17,9). As fontes deste abismo são os pensamentos. Fecham-se quando é infundida a graça do Espírito Santo.

Sobre este assunto há concordância no segundo livro das Crônicas: Ezequias juntou muita gente, e taparam todas as fontes e o regato que corria por meio do território, dizendo: Não aconteça que venham os reis dos Assírios e encontrem abundância de água (2Cr 32,4). Ezequias é figura do justo, que deve juntar grande multidão de bons pensamentos e fechar as fontes dos pensamentos iníquos e perversos e o regato das concupiscências, não vão os demônios, logo que achem abundância de águas, por ela destruírem a cidade da alma. As cataratas do céu são as janelas. As janelas assim se chamam por trazerem luz ou porque através delas vemos para fora. Phós em grego significa luz. Na cabeça, colocada no firmamento, há dois luzeiros, dois olhos, semelhantes a duas janelas, através das quais vemos. Estão fechadas à vaidade do mundo quando na alma se infunde a luz da graça.

As chuvas, vocábulo parecido em latim com rios, são as palavras, que sem impedimento correm abundantes por toda parte. Refere Salomão nas Parábolas: O que começa brigas é como o que abre um dique de águas (Prov 17,14). E por isso aconselha o Eclesiástico: Não dês à tua água a mais ligeira abertura (Ecl 25,34). Estas águas são retidas quando, por graça do Espírito Santo, a língua se move para louvar o Criador e confessar o crime. Portanto, diz-se bem: E todos foram repletos do Espírito Santo.

16. E começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia se exprimissem. O que está cheio do Espírito Santo fala várias línguas. As várias línguas são os vários testemunhos de Cristo, tais como a humanidade, a pobreza, a paciência e a obediência. Falamos com estas virtudes quando as mostramos aos outros em nós mesmos. A linguagem é viva, quando falam as obras. Cessem, por favor, as palavras; falem as obras. Estamos cheios de palavras, mas vazios de obras, e, por isso, somos amaldiçoados pelo Senhor. Ele mesmo amaldiçoou a figueira em que não encontrou fruto, mas somente folhas. Ao pregador foi dada a lei, escreve São Gregório, de realizar aquilo que prega. Em vão se gaba do conhecimento da lei

quem destrói com as obras a doutrina. Mas, os Apóstolos falavam conforme o Espírito Santo lhes concedia se exprimissem. Ditoso o que fala segundo o dom do Espírito Santo, não segundo o seu ânimo. Há, de fato, alguns que falam do seu espírito; roubam as palavras dos outros e propõem-nas como próprias e atribuem-nas a si.(Santo Antônio de Lisboa, Obras completas, Vol. I, págs 505-509, Lello & Irmão – Editores,Porto – 1987.)Compilação: Frei Antônio Corniatti, OFM Conv

Natividade da Santíssima Virgem Maria

Exórdio

1. Digamos: A gloriosa Virgem Maria foi como a estrela da manhã entre as nuvens.Escreve o Eclesiástico: A beleza do céu é a glória das estrelas, que ilumina o mundo (Eclo 43, 10). Nestas três palavras observam-se os três fatos que resplandeceram admiravelmente na Natividade de Maria Santíssima. Primeiramente, a exultação dos Anjos, quando se diz: A beleza do céu. Conta-se que um homem santo, mergulhado em devota oração, ouviu a doce melodia dum canto angélico no céu. Passado um ano, no mesmo dia, voltou a ouvi-lo e perguntou ao Senhor que lhe revelasse o que vinha a ser aquilo. Foi-lhe respondido que nesse dia nascera Maria Santíssima. Por esse motivo, os Anjos no céu cantavam louvores ao Senhor. Esta a razão de se celebrar nesse dia a Natividade da gloriosa Virgem. Na segunda palavra observa-se o segundo fato, a pureza da sua Natividade, quando se afirma: A glória das estrelas. Assim como uma estrela difere de outra estrela em claridade (1Coríntios 15,41), assim a Natividade da Virgem Maria difere da natividade de todos os santos. Na terceira palavra observa-se o terceiro fato, a iluminação de todo o mundo, quando se diz: Que ilumina o mundo. A natividade da gloriosa Virgem iluminou o mundo, coberto de trevas e da sombra da morte. E por isso diz bem o Eclesiástico: Como estrela da manhã no meio da névoa etc. Maria Santíssima, mensageira do Salvador e perfeita em tudo 2. A estrela da manhã é chamada de Lúcifer, por luzir mais claramente entre todos os astros. Por isso é chamada a estrela por excelência. Lúcifer, precedendo o sol e anunciando a manhã, com a luz do seu fulgor afasta as trevas da noite. A estrela da manhã ou Lúcifer é Maria Santíssima, que, nascida no meio da névoa, afugentou a névoa tenebrosa, e na manhã da graça anunciou o sol da justiça aos que habitavam nas trevas. Dela diz o Senhor a Jó És tu porventura que fazes aparecer a seu tempo a estrela da manhã (Jó 38,32).Quando chegou o tempo da misericórdia (Salmo 101,14), o tempo de edificar a casa do Senhor, o tempo aceitável e o dia da salvação, o Senhor fez aparecer a estrela da manhã, Maria Santíssima, para luz dos povos. Os povos devem dizer o que disseram a Judite, como se lê no seu livro: O Senhor abençoou-te com a sua fortaleza, porque ele por ti aniquilou os nossos inimigos… Ó filha, tu és bendita do Senhor Deus altíssimo, sobre todas as mulheres que há sobre a terra. Bendito seja o Senhor, que criou o céu e a terra, que te dirigiu para cortares a cabeça ao príncipe dos nossos inimigos. Porque hoje engrandeceu o teu nome tanto, que nunca o teu louvor se apartará da boca dos homens (Judite 13, 22-25). Foi, portanto, Maria Santíssima, na sua Natividade, como a estrela da manhã. Dela diz ainda Isaías: Sairá uma vara do tronco de Jessé, e uma flor brotará da sua raiz (Isaías 11, 1). Repare-se que Maria Santíssima se chama vara, por causa das cinco propriedades que esta possui: é longa, reta, sólida, grácil e flexível. Maria Santíssima foi longa na contemplação, reta na perfeição da justiça, sólida na estabilidade do entendimento, grácil na pobreza, flexível na humildade. Esta vara saiu da raiz de Jessé, pai de Davi, de quem proveio Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo (Mateus 1, 16). Por isso se lê no Evangelho de hoje: Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi (Mateus 1,1).

3. Sairá uma vara da raiz de Jessé e uma flor sairá das suas raízes. Vejamos o que significam, no sentido moral, as três palavras: raiz, vara, flor. A raiz significa a humildade de coração; a vara, a retidão da confissão e a disciplina da satisfação; a flor, a esperança da felicidade eterna. Jessé interpreta-se ilha ou sacrifício, e significa o penitente, cujo espírito deve ser uma espécie de ilha. Chama-se ilha, por estar situado no sal, isto é, no mar. O espírito do penitente situa-se no mar, ou seja, na amargura. O penitente é batido pelas ondas das tentações e, todavia, fica firme. E oferece ao Senhor um sacrifício em odor de suavidade. A raiz de Jessé é a humildade da contrição, de que sai a vara da confissão reta e a disciplina da discreta mortificação. E observe-se que a flor não brota do cimo da vara, mas da raiz. Uma flor brotará da sua raiz, porque a flor, ou a esperança da felicidade eterna, brota, não da mortificação do corpo, mas da humildade do espírito. Com tudo isto concorda o que se lê no Evangelho de hoje, em que São Mateus, descrevendo a geração de Cristo, primeiro põe Abraão, em segundo lugar Davi, em terceiro a transmigração da Babilônia. Abraão que disse: Falarei ao meu Senhor, embora eu seja pó e cinza (Gênesis 18, 27), designa a humildade do coração; Davi, cujo coração reto esteve com o Senhor: Encontrei Davi, um homem segundo o meu coração

(Atos 13, 22), a retidão da confissão; a transmigração de Babilônia, a disciplina da mortificação e a tolerância da tribulação. Se existirem em ti estas três gerações, conseguirás a quarta geração, a de Jesus Cristo, que nasceu da Virgem Maria, de cuja Natividade se diz hoje: Como a estrela da manhã no meio da névoa. 4. E enfim: E como a lua cheia brilha durante a sua vida. Maria Santíssima chama-se lua cheia, porque perfeita sob todos os aspectos. A lua é imperfeita no quarto crescente ou minguante, porque tem mancha e pontas. Mas a gloriosa Virgem nem na sua Natividade teve mancha, porque foi santificada no ventre materno e guardada pelos Anjos, nem durante a vida possuiu as pontas da soberba, e, por isso, brilha plena e perfeita. Chama-se luz, por diluir as trevas. Rogamos-te, portanto, Senhora nossa, que tu, Estrela da manhã, afastes com o teu esplendor a névoa da sugestão diabólica, que encobre a terra do nosso espírito; tu que és a lua cheia, enchas o nosso vazio, diluas as trevas dos nossos pecados, a fim de que mereçamos chegar à plenitude da vida eterna, à luz da glória sem falha. Auxilie-nos o Senhor, que te criou para seres a nossa luz.

Para nascer de ti, fez-te nascer hoje. A Ele seja prestada honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém. Santo Antônio de Lisboa, Obras Completas, Lello & Irmão- Editores, 1987, Volume I, pp. 901-905.

Compilação: Frei Antônio Corniatti, OFM Conv

Sermão aos penitentes ou religiosos e a confissão

1. Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Haverá sinais no sol , na lua e nas estrelas (Lc21,25). 2. Diz Isaías: Naquele dia achar-se-á o germe do Senhor em magnificência e o fruto da terra é sublime (Is. 4,2). Esta expressão é aplicada, no sentido moral, ao pecador convertido. O dia é o sol que resplende sobre a terra. Quando o sol da graça ilumina a terra, isto é, a mente do pecador, então ela produz por si só o germe do Senhor, que simboliza a contrição. Com efeito, Isaías diz: A chuva e a neve descem do céu e inebriam a terra e fecundam-na e fazem-na germinar, a fim de que dê semente ao que semeia e pão ao que come (Is 55,10). A chuva e a neve representam a graça do Espírito Santo. Como a chuva e a neve, a graça desce do céu, isto é, da misericórdia divina. E inebria a terra, quer dizer, o pecador voltado para as coisas da terra, a fim de que a elas se torne insensível; se arrependa até às lágrimas e se manifeste o segredo do seu pecado.

De fato, a embriaguez produz estes três efeitos: torna insensível, provoca as lágrimas, e descobre os segredos. E fecundam-na com o espírito de pobreza, da qual diz Isaías: Sobre nós se derrame o espírito lá do alto (Is 32,15), para que não arda, como refere Jó, sobre ela a sede da cobiça (Jó 18,9). E a faz germinar maravilhosamente. Isto acontece quando o pecador se arrepende de modo absoluto de todos os pecados cometidos e de todas as omissões. Então, produz a semente das boas obras ao que semeia, ou seja, ao penitente que semeia entre lágrimas; e pão ao que come porque colherá em meio à alegria. Portanto, naquele dia achar-se-á o germe do Senhor em magnificência. E em glória.

Do germe da contrição procede a glória da confissão. Desta escreve Isaías à alma penitente: Ser-lhe-á dada a glória do Líbano, a formosura do Carmelo e de Saron (Is.35,2). Líbano se interpreta a brancura;

Carmelo, a circuncisão; e Saron, o canto de tristeza. A confissão produz estes três efeitos: branqueia a alma, elimina as coisas supérfluas e chorando, canta tristemente a melodia: A minha alma está triste até à morte (Mt 26,38). De fato, a mulher quando dá à luz está em tristeza (Jo 16,21). Da brancura da alma, livre do pecado, diz Isaías: Isto acontecerá quando o Senhor tiver limpado as manchas das filhas de Sião e lavado o sangue do meio de Jerusalém com espírito de justiça e em espírito de ardor (Is 4,4). As manchas indicam a imundície dos pensamentos. De fato, diz Jeremias: As suas manchas chegam até aos seus pés (Lam 1,9), isto é, aos afetos; o sangue significa a luxúria da carne, que o Senhor limpou às filhas de Sião, isto é, às almas de Sião, as almas que pertencem à Igreja; com espírito de justiça, que é a confissão, na qual o penitente se julga e se condena a si mesmo; e em espírito de ardor, que é a contrição, pela qual a alma abrasada prorrompe em lágrimas de compunção. Sobre as coisas supérfluas que devem ser eliminadas pela confissão, Isaías diz: Naquele dia, o Senhor, com uma navalha afiada, ou tomada emprestada, conduzida contra aqueles que estão da banda de além do rio, rapará a cabeça, o pêlo dos pés e a barba toda (Is 7,4). A navalha, como que faz o homem novo, significa a confissão, que realmente torna novo o espírito do

homem. Diz Jeremias: Preparai o terreno abandonado e não semeeis sobre espinhos (Jr 4,3), para que estes ao nascer não vão sufocar a palavra da confissão. Esta navalha se diz afiada, ou tomada emprestada: afiada, porque corta o pecado e as suas circunstâncias; tomada emprestada, porque o pecador, na obra da sua salvação, deve como que emprestá-la por uma certa soma, que é a devoção e a humildade. Com esta navalha, o Senhor rapará a cabeça dos que estão da banda de além do rio, os que transpuseram o rio, ou

seja, os que receberam o batismo. A cabeça e os pés significam o princípio e o fim da vida; a barba significa a intrepidez em praticar as boas obras. Com o corte afiado de uma verdadeira confissão, o Senhor rapa no penitente os vícios, significados nos pêlos, desde o início da sua conversão até o fim de sua vida. Rapa ainda toda a barba¸ a fim de que não confie em nenhuma obra realizada, como se fora dele próprio. Devemos confiar, pois, só naquele que nos fez, e não naquilo que nós fizemos. Quem nos fez é todo o bem, o sumo bem; mas, o bem feito por nós assemelha-se ao pano de uma mulher menstruada. Pensa, pois, tu mesmo em que bem se deve confiar. Na verdade, deve-se confiar no bom Senhor Jesus, de quem o profeta diz: Tu és bom (Salmo 118,68).

Escreve Isaías do canto de tristeza: Pela colina de Luit subirá cada um chorando e pelo caminho de Oronaim irão dando gritos de aflição(Is 15,5). E o fruto da terra é sublime. O fruto da terra é a satisfação da penitência. Diz Isaías: Todo o fruto será a expiação do seu pecado (Is 27,9). O fruto da terra é sublime, quando o penitente é humilde, humilhando-se ao sublime e humilde verdadeiro sol, Cristo, que escondeu o esplendor da sua luz com o cilício da nossa condição mortal. Por isso, o Evangelho de hoje diz: Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas.

Santo Antônio de Lisboa, Obras Completas, Lello & Irmão – Editores, 1987 Compilação: Frei Antônio Corniatti, OFM Conv

Natal do Senhor: o Nascimento do Salvador

5. O Nascimento do Salvador: E aconteceu que enquanto lá estavam (Lc 2,6). Onde é o lá? Na casa do pão; e Maria é a casa do pão. O pão dos anjos se transformou em leite para os pequeninos, para que os pequeninos se tornassem Anjos. Deixai, portanto, as crianças virem a mim (Mc 10,14) para que suguem e sejam saciados no seio da sua consolação. Veja: o leite é de sabor doce e de aspecto agradável! Assim Cristo, como diz o Boca de Ouro (São João Crisóstomo), com a sua doçura atraía a si os homens, assim como o diamante atrai o ferro. Ele diz de si mesmo: Os que me comem terão mais fome e os que me bebem terão mais sede (Eclesiástico 24,29). É ainda de aspecto agradável: Para Ele os Anjos desejam olhar (cf 1Pd 1,12). Completaram-se os dias em que devia dar à luz (Lc 2,6). Eis a plenitude do tempo (cf Gl 4,4), o dia da salvação (cf 2Cor 6,2), o ano da benignidade (cf Sl 64,12). Desde a queda de Adão até a vinda de Cristo foi tempo vazio. De fato diz Jeremias: Olhei para a terra e eis que estava vazia e sem nada (Jr 4,22), porque o Diabo tinha destruído tudo; foi dia de dor ou de enfermidade; diz o Salmo: Sempre estiveste perto da cama da sua dor (Sl 40,5); foi ano de maldição, de fato é dito no livro do Gênesis: Maldita seja a terra nas tuas obras

(Gn 3,17). Hoje, porém, cumpriram-se os dias de dar à luz. Da plenitude deste dia todos nós recebemos. E o Salmo: Seremos cheios dos bens da tua casa (Sl 65,5). A ti, Virgem Santíssima, seja dado louvor e glória, porque hoje fomos cheios pela bondade da tua casa, ou seja, do teu ventre. Antes vazios, estamos agora cheios; antes enfermos, agora sãos; antes amaldiçoados, agora abençoados; porque como se diz nos Cânticos: O que vem de ti é um paraíso (Ct 4,13).

6. Continua o Evangelista: E deu à luz o seu Filho primogênito (Lc 2,7). Eis a bondade, eis o paraíso. Correi, portanto, famintos, avarentos e usurários, para quem o dinheiro vale mais do que Deus, e comprai sem dinheiro e sem nenhuma permuta (Is 55,1) o grão de trigo, que hoje a Virgem tirou do tesouro do seu ventre. Deu, portanto, à luz um Filho. Que Filho? O Filho de Deus, Ele mesmo Deus. Ó felicidade acima de toda felicidade! Deste um Filho a Deus Pai! Qual não seria a glória duma mulher pobrezinha, se desse um filho a um imperador deste mundo? Quão maior não é a glória de Maria Virgem que deu um Filho a Deus Pai! Deu à luz o seu Filho. O Pai deu a divindade; a Mãe, a humanidade; o Pai, a majestade; a Mãe, a fraqueza. Deu à luz um Filho, o Emanuel, ou seja, o Deus conosco (cf Mt 1,23). Quem, portanto, está contra nós (cf Rm 8,31). Como escreve Isaías: E pôs sobre a sua cabeça o capacete da salvação (Is 59,17). O capacete é a humanidade; a cabeça, a divindade. A cabeça escondida debaixo do capacete é a divindade escondida debaixo da humanidade. Não se deve, portanto, ter medo. A vitória está da nossa parte, porque conosco está Deus armado. Graças sejam dadas a ti, Virgem gloriosa. Por teu intermédio, Deus está conosco. Deu, portanto, à luz o seu Filho primogênito, gerado do Pai antes de todos os séculos, ou o primogênito dentre os mortos, ou então, o primogênito entre muitos irmãos (cf Rm 8,29).

7. E envolveu-o em panos e reclinou-o numa manjedoura (Lc 2,7). Ó pobreza! Ó humildade! O Senhor do universo é envolvido em paninhos; o Rei dos anjos é reclinado num estábulo. Envergonha-te, insaciável avareza! Desaparece, ó soberba humana! Envolveu-o em panos. Note-se que Cristo no princípio e no fim da vida é envolvido em panos. José (de Arimatéia) diz São Marcos, tendo comprado um lenço e tirando-o da cruz, envolveu-o num lençol (Mc 15,46). Feliz aquele que terminar a sua vida envolvido nos panos da inocência batismal! O velho Adão, quando foi expulso do paraíso terrestre, vestiu uma túnica de peles (cf Gn 3,21). Esta, quanto mais se lava, tanto mais se gasta. Isto significa a carnalidade de Adão e dos seus descendentes. O novo Adão, porém, foi envolvido em panos. O seu brilho representa-nos a pureza da sua Mãe, a inocência batismal e a glória da ressurreição final. E reclinou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para ele na estalagem (Lc 2,7). Eis, como está escrito no livro dos Provérbios, a corça é benquista e o veado é cheio de graça (Pr 5,19). Diz a História Natural que a corça dá à luz em caminho freqüentado. Também a Virgem Santa deu à luz no caminho, porque não havia lugar na estalagem (Lc 2,8). A estalagem se diz em latim diversorium, porque para este lugar se chega por diversos caminhos. Santo Antônio de Lisboa, Obras Completas, Vol II, pp 621-624. Lello e Irmão – editores, 1987. Compilação de Frei Antônio Corniatti, OFM Conv

Dos Sermões de Santo António de Lisboa, presbítero

(I, 226) (Sec. XIII)

A linguagem é viva, quando falam as obras

Quem está cheio do Espírito Santo fala várias línguas. As várias línguas são os vários testemunhos sobre Cristo, como a humildade, a pobreza, a paciência e a obediência; falamo-las, quando mostramos aos outros estas virtudes na nossa vida. A linguagem é viva, quando falam as obras. Cessem, portanto, as palavras e falem as obras. De palavras estamos cheios, mas de obras vazios; por este motivo nos amaldiçoa o Senhor, como amaldiçoou a figueira em que não encontrou fruto, mas somente folhas. Diz São Gregório: «Há uma norma para o pregador: que faça aquilo que prega». Em vão pregará os ensinamentos da lei, se destrói a doutrina com as obras. Mas os Apóstolos falavam conforme a linguagem que o Espírito Santo lhes concedia. Feliz de quem fala conforme o Espírito Santo lhe inspira e não conforme o que lhe parece!

Há alguns que falam movidos pelo próprio espírito e, usando as palavras dos outros, apresentam-nas como próprias, atribuindo-as a si mesmos. Desses e de outros como eles, fala o Senhor pelo profeta Jeremias: Eis- Me contra os profetas que roubam uns aos outros as minhas palavras. Eis-Me contra os profetas, oráculo do Senhor, que forjam a sua linguagem para proferir oráculos. Eis-Me contra os profetas que profetizam sonhos mentirosos – oráculo do Senhor – e, contando-os, seduzem o povo com mentiras e jactância, não os tendo Eu enviado nem dado ordem alguma a esses que não são de nenhuma utilidade para este povo – oráculo do Senhor.

Falemos, por conseguinte, conforme a linguagem que o Espírito Santo nos conceder; e peçamos-lhe, humilde e devotamente, que derrame sobre nós a sua graça, para que possamos celebrar o dia de Pentecostes com a perfeição dos cinco sentidos e a observância do decálogo, nos reanimemos com o forte vento da contrição e nos inflamemos com essas línguas de fogo que são os louvores de Deus, a fim de que, inflamados e iluminados nos esplendores da santidade, mereçamos ver a Deus trino e uno.

O fingido e o verdadeiro morto

Os Fioretti (Pequenas flores) foram escritos em latim, no século XIII, recolhendo historietas e milagres que se contavam de Francisco de Assis. Também nasceram “Fioretti” em torno da vida de Antônio, de Lisboa ou de Pádua. O “Livro dos Milagres” foi escrito por Arnaldo de Serranno, na segunda metade do século XIV, dentro da visão e da mentalidade da época, que todos sabemos compreender. Selecionamos aqui “O fingido e o verdadeiro morto”.

Durante o seu giro missionário pelo Friuli e pela Ístria, Santo Antônio chegou aos arredores de Údine. Lá os franciscanos ainda não eram conhecidos. Ele mesmo era uma figura que suscitava mais desconfiança do que simpatia, mais aversão do que acolhimento. Desejoso de pregar ao povo, trepou numa árvore. Todavia, como referem as tardias tradiçôes locais, em vez de provocar ao menos a curiosidade dos que se achegavam, causou entre o povo reações de insolência, caçoadas e insultos. O Santo jamais enfrentara tal situação na sua vida de pregador. Por isso, imitando o gesto de indignação ensinado por Cristo, sacudiu a poeira dos pés e se afastou. Impressionado, o povo se arrependeu de sua aspereza e acabou abrindo o coração a uma sincera devoção para com o arauto de Cristo. Passou então a Gemona, onde sua pregação colheu grandes frutos entre a população. Aquela gente o levou a erigir uma capela em honra da Virgem Santíssima. Para construí-la iniciaram-se os trabalhos numa atmosfera de intenso entusiasmo. As despesas, naturalmente, corriam por conta das esmolas livres dos devotos.

Um belo dia passou por aquelas paragens um agricultor guiando uma carroça. Antônio lhe pediu ajuda no transporte de pedras. Respondeu o camponês que não podia fazê-lo, porque, infelizmente, estava levando para o cemitério o corpo do seu próprio filho que jazia no fundo do carro. “Seja como dizeis”, replicou o Santo. O vilão prosseguiu sua viagem. Chegando a uma distância onde não podia ser ouvido pelo homem de Deus, aproximou-se do rapaz e o despertou, para juntos rirem-se do frade. Mas o sorriso se lhe apagou súbito na boca, pois, por mais que o chamasse e sacudisse, o jovem não respondeu. Estava morto de fato. Assaltado pelo remorso, o camponês zombeteiro apressou-se em retornar ao Santo, e, entre gemidos, lhe contou tudo. Antônio se enterneceu e confortou o pobre homem. Então, aproximando-se da carroça, com um sinal da cruz, devolveu o jovem à vida.

Sobre Paz e Bem

Peçamos humildemente a Jesus Cristo que nos conceda alegrar-nos só nele, viver modestamente, menosprezar as inquietações do mundo, manifestar-lhe todas as nossas necessidades, a fim de que, protegidos por sua paz, possamos um dia viver na pacífica Jerusalém do céu. Auxilie-nos aquele que é bendito e glorioso pelos séculos eternos. E toda alma pacífica diga: Amém! Aleluia! (3Ad 6d).Busca a paz dentro de ti, em ti mesmo; se a encontrares, terás paz com Deus e com o próximo (5Pn 16a).

Os olhos misericordiosos do Senhor estão sobre os que procuram a paz (5Pn 16a). Coisas necessárias a qualquer justo: a paz do coração, a separação dos bens terrenos, o silêncio da boca, o êxtase da contemplação, a lembrança da própria fragilidade (Pp 18c).

O azeite é o mais excelente de todos os líquidos; a paz de consciência excede o gozo dos bens temporais (Ft 15a). Quem possuir a paz do coração merece de verdade ser chamado filho de Deus Pai, ao qual, juntamente com seu Unigênito, diz na hora da morte: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito, porque da paz do coração passa à paz da eternidade (23Pn 18a). Quem em vida estabelecer com o Senhor a aliança da reconciliação, depois, no reino celeste, repousará na formosura da paz (9Pn 15c).De Deus provém todo o bem que nós possuímos (6Pn 12b). O bem é sempre simples (l0Pn 13a). Jesus Cristo é o Bem, o bem substancial, de quem todas as coisas prendem bondade. Tudo o que há e se move, vive ou existe no céu, como nos anjos, na terra ou debaixo da terra, no ar, na água, dotado de inteligência e de razão, procede daquele Sumo Bem, causa de todas as coisas e fonte de bondade (Ft 9a). A coroa de todo o bem é a humildade (1Qr2 4c). Afasta-te do mal, mas isto ainda não basta: é preciso praticar o bem (5Pn 16a). Note-se que há quatro espécies de orgulho: quando alguém possui um bem e julga ter ele vindo de si mesmo; ou, se dado por Deus, considera-o dado em razão dos seus méritos; ou jacta-se de possuir o que não possui; ou despreza os outros e procura pôr em evidência o que possui (11Pn 3a). Do Livro “Ensinamentos e Admoestações de Santo Antônio de Pádua”, Vozes, 1999.

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Biografia de São João Crisóstomo


CARTA DO PAPA BENTO XVI
POR OCASIÃO DO XVI CENTENÁRIO DA MORTE
DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO

Venerados Irmãos
no episcopado e no sacerdócio
Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo!

1. Introdução

Celebra-se este ano o XVI centenário da morte de São João Crisóstomo, grande Padre da Igreja para o qual olham com veneração os cristãos de todos os tempos. Na Igreja antiga João Crisóstomo distingue-se por ter promovido aquele “frutuoso encontro entre a mensagem cristã e a cultura helénica” que “teve um impacto duradouro nas Igrejas do Oriente e do Ocidente” [1]. Quer a vida quer o magistério doutrinal do Santo Bispo e Doutor ressoam em todos os séculos e ainda hoje suscitam a admiração universal. Os Pontífices Romanos reconheceram sempre nele uma fonte viva de sabedoria para a Igreja e a sua atenção pelo seu magistério aumentou ainda mais durante o último século. Há cem anos São Pio X comemorou o XV centenário da morte de São João convidando a Igreja a imitar as suas virtudes [2]. O Papa Pio XII ressaltou o grande valor da contribuição que São João ofereceu para a história da interpretação das Sagradas Escrituras com a teoria da “condescendência”, ou seja, da “synkatábasis”. Através dela Crisóstomo reconheceu que “as palavras de Deus, expressas através dos homens, se tornaram semelhantes à linguagem humana” [3]. O Concílio Vaticano II incorporou esta observação na Constituição dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina [4]. O Beato João XXIII ressaltou a compreensão profunda que Crisóstomo tinha do vínculo íntimo entre a liturgia eucarística e a solicitude pela Igreja universal [5]. O Servo de Deus Paulo VI frisou o modo como ele “tratou, com tanta nobreza de linguagem e sagacidade de piedade, o Mistério Eucarístico” [6]. Desejo recordar o gesto solene com o qual o meu amadíssimo Predecessor, o Servo de Deus João Paulo II, em Novembro de 2004 entregou importantes relíquias dos Santos João Crisóstomo e Gregório Nazianzeno ao Patriarcado ecuménico de Constantinopla. O Pontífice ressaltou como aquele gesto era verdadeiramente para a Igreja Católica e para as Igrejas Ortodoxas “uma ocasião abençoada para purificar as nossas memórias feridas, para fortalecer o nosso caminho de reconciliação [7]. Eu mesmo, durante a viagem apostólica à Turquia, precisamente na Catedral do Patriarcado de Constantinopla, tive a oportunidade de recordar “os insignes santos e pastores que vigiaram sobre a Sé de Constantinopla, entre os quais São Gregório de Nazianzo e São João Crisóstomo, que também o Ocidente venera como Doutores da Igreja… Na realidade, eles são dignos intercessores por nós diante do Senhor” [8]. Portanto sinto-me feliz porque a circunstância do XVI centenário da morte de São João me oferece a oportunidade de reevocar a sua luminosa figura e propô-la à Igreja universal para a comum edificação.

2. A vida e o ministério de São João

São João Crisóstomo nasceu em Antioquia da Síria nos meados do século IV. Foi instruído nas artes liberais segundo a prática tradicional do seu tempo e revelou-se particularmente dotado na arte do discurso público. Durante os seus estudos, quando ainda era jovem, pediu o baptismo e aceitou o convite do seu Bispo, Melésio, para prestar serviço de leitor na Igreja local [9]. Naquele período os fiéis estavam perturbados com a dificuldade de encontrar um modo adequado para expressar a divindade de Cristo. João tinha-se alinhado com aqueles fiéis ortodoxos que, em sintonia com o Concílio ecuménico de Niceia, confessavam a plena divindade de Cristo, mas mesmo procedendo assim, tanto ele como os outros fiéis não encontravam em Antioquia o favor do governo imperial [10]. Depois do seu baptismo João abraçou a vida ascética. Por influência do seu mestre Teodoro de Tarso, decidiu permanecer celibatário por toda a vida e dedicou-se à oração, ao jejum rigoroso e ao estudo da Sagrada Escritura [11]. Afastando-se de Antioquia, por seis anos conduziu uma vida ascética no deserto da Síria e começou a escrever tratados sobre a vida espiritual [12]. Em seguida, regressou a Antioquia onde, mais uma vez, serviu a Igreja como leitor e, mais tarde, durante cinco anos, como diácono. Em 386, chamado ao presbiterado por Flaviano, Bispo de Antioquia, acrescentou também o ministério da pregação da Palavra de Deus ao da oração e da actividade literária [13].

Durante os doze anos de ministério presbiteral na Igreja antioquena, João distinguiu-se muito pela sua capacidade de interpretar as Sagradas Escrituras de modo compreensível aos fiéis. Na sua pregação ele empenhava-se com fervor para reforçar a unidade da Igreja fortalecendo nos seus ouvintes a identidade cristã, num momento histórico no qual estava ameaçada quer do interior quer do exterior. Justamente, ele intuiu que a unidade entre os cristãos dependia sobretudo de uma verdadeira compreensão do mistério central da fé da Igreja, o da Santíssima Trindade e da Encarnação do Verbo Divino. Todavia, consciente das dificuldades destes mistérios, João dedicava grande empenho em fazer com que o ensinamento da Igreja fosse acessível às pessoas simples da sua assembleia, tanto em Antioquia como, mais tarde, em Constantinopla [14]. E não deixava de se dirigir também aos discordantes, preferindo usar com eles a paciência e não a agressividade, porque acreditava que para superar um erro teológico “nada é mais eficaz do que a moderação e a gentileza” [15].

A fé sólida de João e a sua habilidade na pregação deram-lhe a possibilidade de pacificar os Antioquenos quando, no início do seu presbiterado, o Imperador aumentou a pressão fiscal sobre a cidade causando uma revolta durante a qual alguns monumentos públicos foram destruídos. Depois da revolta o povo, receando a cólera do Imperador, tinha-se reunido na igreja, desejosa de ouvir de João palavras de esperança cristã e de conforto: “Se nós não vos confortamos, onde podereis encontrar conforto?”, disse-lhes [16]. Nos seus sermões durante a quaresma daquele ano, João expôs todos os acontecimentos relacionados com a revolta e recordou aos seus ouvintes as atitudes que devem caracterizar o compromisso cívico dos cristãos [17], sobretudo a rejeição de meios violentos na promoção de mudanças políticas e sociais [18]. Nesta perspectiva, exortava os fiéis ricos a praticar a caridade para com os pobres, a fim de construir uma cidade mais justa e, ao mesmo tempo, recomendava que os mais instruídos aceitassem ser mestres e que todos os cristãos se reunissem nas igrejas para aprender a carregar os pesos uns dos outros [19]. Se era necessário, também sabia consolar os seus ouvintes fortalecendo a sua esperança e encorajando-os a ter confiança em Deus, tanto para a salvação temporal como para a eterna [20], dado que “a tribulação produz a paciência, a paciência, a virtude provada e a virtude provada, a esperança” (Rm 5, 3-4) [21].

Depois de ter servido a Igreja antioquena como presbítero e pregador por doze anos, João foi consagrado Bispo de Constantinopla em 398, e ali permaneceu durante cinco anos e meio. Naquela função, ele ocupou-se da reforma do clero, estimulando os presbíteros, quer com as palavras quer com o exemplo, a viver em conformidade com o Evangelho [22]. Apoiou os monges que viviam na cidade e ocupou-se das suas necessidades materiais, mas procurou reformar a sua vida, ressaltando que eles se tinham proposto dedicar-se exclusivamente à oração e a uma vida retirada [23]. Atento a evitar qualquer ostentação de luxo e a adoptar, mesmo sendo Bispo de uma capital do império, um estilo de vida modesto, foi generosíssimo na distribuição das esmolas aos pobres. João dedicava-se à pregação todos os domingos e nas festas principais. Estava muito atento a fazer com que os aplausos, com frequência recebidos pela sua pregação, não o induzissem a perder o interesse pelo Evangelho que pregava. Por isso, por vezes lamentava-se porque com frequência a mesma assembleia que aplaudia as suas homilias ignorava as exortações a viver autenticamente a vida cristã [24]. Denunciou incansavelmente o contraste que existia na cidade entre o desperdício extravagante dos ricos e a indigência dos pobres e, ao mesmo tempo, em sugerir aos ricos que acolhessem os desabrigados nas suas casas [25]. Via Cristo no pobre; por isso, convidava os seus ouvintes a fazer o mesmo e a agir por consequência [26]. Foram tão persistentes a defesa do pobre e a reprovação de quem era muito rico, que suscitou a contrariedade e também a hostilidade contra ele por parte de alguns ricos e de quantos detinham o poder político [27].

Entre os Bispos do seu tempo João foi extraordinário pelo zelo missionário; enviou missionários para difundir o Evangelho entre os que ainda não o conheciam [28]. Construiu hospitais para a cura dos doentes [29]. Pregando em Constantinopla sobre a Carta aos Hebreus, afirmou que a assistência material da Igreja se deve alargar a cada necessitado, sem ter em conta o credo religioso: “o necessitado pertence a Deus, mesmo se é pagão ou judeu. Mesmo se não crê, é digno de ajuda” [30].

O papel de Bispo na capital do Império do Oriente impunha que João mediasse as delicadas relações entre a Igreja e a corte imperial. Ele encontrou-se com frequência a ser objecto de hostilidades da parte de muitos oficiais imperiais, às vezes devido à sua firmeza em criticar o luxo excessivo com que se circundavam. Ao mesmo tempo a sua posição de Arcebispo metropolitano de Constantinopla colocava-o na difícil e delicada situação de ter que negociar uma série de questões eclesiais que envolviam outros Bispos e outras sedes. Como consequência das intrigas arquitectadas contra ele por adversários poderosos, tanto eclesiásticos como imperiais, foi condenado duas vezes pelo imperador ao exílio. Faleceu a 14 de Setembro de há 1600 anos, em Comana do Ponto durante a viagem rumo à meta final do seu segundo exílio, distante do seu amado rebanho de Constantinopla.

3. O magistério de São João

A partir do século V, Crisóstomo foi venerado pela inteira Igreja cristã, oriental e ocidental, pelo seu testemunho corajoso em defesa da fé eclesial e pela sua dedicação generosa ao ministério pastoral. O seu magistério doutrinal e a sua pregação, como também a sua solicitude pela Sagrada Liturgia mereceram-lhe depressa o reconhecimento de Padre e Doutor da Igreja. Também a sua fama de pregador era consagrada, já a partir do século VI, com a atribuição do título “Boca de ouro”, em grego “Crisóstomo”. Dele escreve Santo Agostinho: “Observa, Juliano, em qual assembleia te introduzi. Aqui está Ambrósio de Milão… aqui João de Constantinopla… aqui Basílio… aqui os outros, e o seu admirável consentimento deveria fazer-te reflectir… Eles resplandeceram na Igreja católica pelo estudo da doutrina. Revestidos e protegidos pelas armas espirituais guiaram vigorosas guerras contra os hereges e, depois de terem levado fielmente ao termo as obras que lhes foram confiadas por Deus, dormem no seio da paz… Eis o lugar no qual te introduzi, a assembleia destes santos não é a multidão do povo: eles não são só filhos, mas também Padres da Igreja” [31].

Digno de especial menção é depois o extraordinário esforço realizado por São João Crisóstomo para promover a reconciliação e a plena comunhão entre os cristãos do Oriente e do Ocidente. Em particular, foi decisiva a sua contribuição para pôr fim ao cisma que separava a sede de Antioquia da de Roma e das outras Igrejas ocidentais. Na época da sua consagração como Bispo de Constantinopla João enviou uma delegação ao Papa Sirício, a Roma. Em apoio desta missão, em vista do seu projecto de pôr fim ao cisma, ele obteve a colaboração do Bispo de Alexandria do Egipto. O Papa Sirício respondeu favoravelmente à iniciativa diplomática de João; o cisma foi assim resolvido pacificamente e restabelecida a plena comunhão entre as Igrejas.

Sucessivamente, nos finais da sua vida, tendo regressado a Constantinopla do primeiro exílio, João escreveu ao Papa Inocêncio e também aos Bispos Venério de Milão e Cromácio de Aquileia, para pedir ajuda no esforço de restabelecer a ordem na Igreja de Constantinopla, dividida por causa das injustiças cometidas contra ele. João solicitava do Papa Inocêncio e dos outros Bispos ocidentais uma intervenção que “conceda como ele escreveu benevolência não só a nós, mas a toda a Igreja” [32]. De facto, no pensamento de Crisóstomo, quando uma parte da Igreja sofre por uma ferida, toda a Igreja sofre pela mesma ferida. O Papa Inocêncio defendeu João com algumas cartas dirigidas aos Bispos do Oriente [33]. O Papa afirmava a sua plena comunhão com ele, ignorando a sua deposição que considerava ilegítima [34]. Escreveu depois a João para o confortar [35], e escreveu também ao clero e aos fiéis de Constantinopla para manifestar o pleno apoio ao seu Bispo legítimo: “João, o vosso Bispo, sofreu injustamente”, reconhecia ele [36]. Além disso, o Papa reuniu um Sínodo de Bispos italianos e orientais com a finalidade de obter justiça para o Bispo perseguido [37]. Com o apoio do imperador do Ocidente, o Papa enviou uma delegação de Bispos ocidentais e orientais a Constantinopla, junto do imperador do Oriente, para defender João e pedir que um Sínodo ecuménico de Bispos lhe fizesse justiça [38]. Quando, pouco antes da sua morte no exílio, estes projectos falharam, João escreveu ao Papa Inocêncio para lhe agradecer o “grande conforto” que tinha sentido pelo generoso apoio que lhe fora concedido [39]. Na sua carta João afirmava que, apesar de estar separado pela grande distância do exílio, ele estava “dia após dia em comunhão” com ele, e dizia: “Tu superaste até o pai mais afectuoso na tua benevolência e no teu zelo para connosco”.

Contudo suplicava-lhe que perseverasse no compromisso de procurar justiça para ele e para a Igreja de Constantinopla, porque “agora a batalha que tens diante de ti deve ser combatida em favor de quase todo o mundo, da Igreja humilhada ao máximo, do povo disperso, do clero agredido, dos Bispos mandados para o exílio, das antigas leis violadas”. João escreveu também aos outros Bispos ocidentais para lhes agradecer o seu apoio [40]: entre eles, na Itália, Cromácio de Aquileia [41], Venério de Milão [42] e Gaudêncio de Bréscia [43].

Tanto em Antioquia como em Constantinopla João falou apaixonadamente da unidade da Igreja espalhada pelo mundo. A este propósito escreveu: “Os fiéis, em Roma, consideram os que estão na Índia como membros do seu próprio corpo” [44] e ressaltava que na Igreja não há espaço para as divisões. “A Igreja exclamava existe não para que quantos se reuniram se dividam, mas para que quantos estão divididos se possam unir” [45]. E encontrava nas Sagradas Escrituras a confirmação divina desta unidade. Pregando sobre a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, recordava aos seus ouvintes que “Paulo se refere à Igreja como “Igreja de Deus” [46] mostrando que deve estar unida, porque se é de Deus está unida, e não só em Corinto, mas também no mundo: de facto, o nome da Igreja não é um nome de separação, mas de unidade e concórdia” [47].

Para João a unidade da Igreja está fundada em Cristo, o Verbo Divino que com a sua Encarnação se uniu à Igreja como a cabeça ao seu corpo [48]: “Onde está a cabeça, lá está também o corpo”, e portanto “não há separação entre a cabeça e o corpo” [49]. Ele tinha compreendido que na Encarnação o Verbo Divino não só se fez homem, mas também se uniu a nós fazendo-se seu corpo [50]: “Dado que para ele não era suficiente fazer-se homem, ser açoitado e morto, ele une-se a nós não só pela fé, mas também de facto nos torna seu corpo”. Comentando o trecho da Carta de São Paulo aos Efésios: “Tudo de facto submeteu aos seus pés e constituiu-o sobre todas as coisas cabeça da Igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que se realiza totalmente em todas as coisas” [51], João explica que “é como se a cabeça fosse completada pelo corpo, porque o corpo é composto e formado pelas suas várias partes. Portanto, o seu corpo é composto por todos. A cabeça é completa e o corpo tornado perfeito quando todos nós estamos juntos e unidos” [52]. João conclui então que Cristo une todos os membros da sua Igreja a si e entre eles. A nossa fé em Cristo exige que nos comprometamos por uma efectiva e sacramental união entre os membros da Igreja, pondo fim a todas as divisões.

Para Crisóstomo, a unidade eclesial que se realiza em Cristo é testemunhada de modo totalmente peculiar na Eucaristia. Denominado “doutor eucarístico” pela vastidão e profundidade da sua doutrina sobre o Santíssimo Sacramento” [53], ele ensina que a unidade sacramental da Eucaristia constitui a base da unidade eclesial em e por Cristo. “Certamente há muitas coisas para nos manter unidos. Uma mesa está posta diante de todos… a todos foi oferecida a mesma bebida ou, aliás, não só a mesma bebida mas também o mesmo cálice. O nosso Pai, querendo conduzir-nos a um terno afecto, dispôs também isto, que bebamos de um só cálice, o que se destina a um amor intenso” [54]. Reflectindo sobre as palavras da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, “O pão que partimos não é porventura comunhão com o corpo de Cristo?” [55], João comenta: para o Apóstolo portanto, “assim como aquele corpo está unido a Cristo, assim também nós estamos unidos a Ele por meio deste pão” [56]. E ainda mais claramente, à luz das seguintes palavras do Apóstolo: “Pois nós, mesmo sendo muitos, somos um só pão, um só corpo” [57], João argumenta: “O que é o pão? O Corpo de Cristo. E o que se tornam eles quando o comemos? O corpo de Cristo; não muitos corpos, mas um só corpo. Assim como o pão, mesmo se feito de muitos grãos, se torna um… assim também nós estamos unidos quer uns aos outros quer a Cristo… Mas, se somos alimentados por um mesmo pão e todos nos tornamos a mesma coisa, por que não mostramos também o mesmo amor, de modo a tornarmo-nos também sob este aspecto uma só coisa?” [58].

A fé de Crisóstomo no mistério de amor que une os crentes a Cristo e entre eles conduziu-o a exprimir uma profunda veneração pela Eucaristia, uma veneração que alimentou particularmente na celebração da Divina Liturgia. Uma das mais ricas expressões da Liturgia oriental leva precisamente ao seu nome: “A Divina Liturgia de São João Crisóstomo”. João compreendeu que a Divina Liturgia coloca espiritualmente o crente entre a vida terrena e as realidades celestes que lhe foram prometidas pelo Senhor. Ele expressava a Basílio Magno o seu temor reverencial ao celebrar os sagrados mistérios com estas palavras: “Quando tu vês o Senhor imolado que jaz sobre o altar e o sacerdote que, estando de pé, reza sobre a vítima… ainda podes pensar que estás entre os homens, que estás na terra? Não és, ao contrário, imediatamente transportado para o céu?”. Os ritos sagrados, diz João, “não são só maravilhosos para ver, mas extraordinários pelo temor reverencial que suscitam. Ali está em pé o sacerdote… que faz descer o Espírito Santo, e reza prolongadamente para que a graça que desce sobre o sacrifício possa iluminar naquele lugar as mentes de todos e torná-las mais maravilhosas que a prata purificada no fogo. Quem pode desprezar este venerando mistério?” [59].

Com grande profundidade Crisóstomo desenvolve a reflexão sobre os efeitos da comunhão sacramental nos crentes: “O sangue de Cristo renova em nós a imagem do nosso Rei, produz uma beleza indizível e não permite que seja destruída a nobreza das nossas almas, mas continuamente a irriga e alimenta” [60]. Por isso João exorta com frequência e insistência os fiéis a aproximar-se dignamente do altar do Senhor, “não com leviandade… não por hábito e formalidade”, mas com “sinceridade e pureza de espírito” [61]. Ele repete incansavelmente que a preparação para a Sagrada Comunhão deve incluir o arrependimento dos pecados e a gratidão pelo sacrifício realizado por Cristo para a nossa salvação. Portanto ele exorta os fiéis a participar plena e devotamente nos ritos da Divina Liturgia e a receber com as mesmas disposições a Sagrada Comunhão: “Não deixeis, suplicamos-vos, que sejamos mortos pela vossa irreverência, mas aproximai-vos d’Ele com devoção e pureza, e quando o virdes diante de vós, dizei a vós mesmos: “Em virtude deste corpo eu já não sou terra e cinza, já não sou prisioneiro, mas livre; em virtude disto espero no paraíso, e receber os seus bens, a herança dos anjos, e conversar com Cristo”” [62].

Naturalmente, da contemplação do Mistério ele tira depois também as consequências morais nas quais envolve os seus ouvintes: ele recorda-lhes que a comunhão com o Corpo e o Sangue de Cristo os obriga a oferecer assistência material aos pobres e aos famintos que vivem entre eles [63]. A mesa do Senhor é o lugar onde os crentes se reconhecem e acolhem o pobre e o necessitado que talvez antes tenham ignorado[64]. Ele exorta os fiéis de todos os tempos a olhar além do altar sobre o qual é oferecido o sacrifício eucarístico e a ver Cristo na pessoa dos pobres, recordando que graças à ajuda prestada podem oferecer no altar de Cristo um sacrifício agradável a Deus [65].

4. Conclusão

Todas as vezes que encontramos estes nossos Padres escreveu o Papa João Paulo II em relação a outro grande Padre e Doutor, São Basílio, “somos por eles confirmados na fé e encorajados na esperança” [66]. O XVI centenário da morte de São João Crisóstomo oferece uma ocasião bastante propícia para incrementar os estudos sobre ele, recuperar os seus ensinamentos e difundir a devoção a ele. Estou espiritualmente presente com ânimo grato e faço bons votos às várias iniciativas e celebrações que são organizadas por ocasião deste XVI centenário. Gostaria de expressar também o meu desejo fervoroso de que os Padres da Igreja “em cuja voz ressoa a constante Tradição cristã” [67] se tornem cada vez mais um ponto firme de referência para todos os teólogos da Igreja. Regressar a eles significa remontar às fontes da experiência cristã, para saborear o seu vigor e genuidade. Portanto, que melhores votos poderia desejar aos teólogos do que os de um renovado compromisso por recuperar o património sapiencial dos santos Padres? Certamente obtêm um enriquecimento precioso para a sua reflexão também sobre os problemas deste nosso tempo.

Apraz-me terminar esta carta com uma última palavra do grande Doutor, na qual ele convida os seus fiéis e também nós, naturalmente a reflectir sobre os valores eternos: “Ainda por quanto tempo estaremos apegados à realidade presente? Quanto tempo será ainda necessário antes de despertarmos? Ainda por quanto tempo descuidaremos a nossa salvação? Deixai-nos recordar aquilo de que Cristo nos considerou dignos, deixai que lhe agradeçamos, glorifiquemos, não só com a nossa fé, mas também com as nossas obras efectivas, que possamos obter os bens futuros pela graça e amorosa ternura de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual e com o qual sejam glorificados o Pai e o Espírito Santo, agora e por todos os séculos. Amém” [68].

A todos a minha Bênção!

Castel Gandolfo, 10 de Agosto de 2007, terceiro ano de Pontificado.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/letters/2007/documents/hf_ben-xvi_let_20070810_giovanni-crisostomo_po.html


PAPA BENTO XVI

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

São João Crisóstomo (2)

Queridos irmãos e irmãs!

Continuamos hoje a nossa reflexão sobre São João Crisóstomo. Depois do período passado em Antioquia, em 397 ele foi nomeado Bispo de Constantinopla, a capital do Império romano do Oriente. Desde o início, João projectou a reforma da sua Igreja:  a austeridade do palácio episcopal devia servir de exemplo para todos clero, viúvas, monges, palacianos e ricos.

Infelizmente, muitos destes, atingidos pelos seus juízos, afastaram-se dele. Solícito pelos pobres, João foi chamado também “Esmoler”. De facto, como administrador atento ele conseguiu criar instituições caritativas muito apreciadas. O seu arrojo nos vários âmbitos fez com que ele se tornasse para alguns um rival perigoso. Ele, contudo, como verdadeiro Pastor, tratava todos de modo cordial e paterno. Sobretudo, destinava considerações sempre ternas às mulheres e cuidados especiais ao matrimónio e à família. Convidava os fiéis a participar na vida litúrgica, por ele tornada esplendorosa e atraente com genial criatividade.

Não obstante o coração generoso, não teve uma vida tranquila. Pastor da capital do Império, viu-se com frequência envolvido em questões e intrigas políticas, devido aos seus contínuos relacionamentos com as autoridades e as instituições civis. Depois, a nível eclesiástico foi acusado de ter superado os confins da própria jurisdição, e tornou-se assim alvo de fáceis acusações. Outro pretexto contra ele foi a presença de alguns monges egípcios, excomungados pelo patriarca Teófilo de Alexandria que se refugiaram em Constantinopla. Uma acesa polémica foi depois originada pelas críticas feitas por Crisóstomo à imperatriz Eudóxia e às suas palacianas, que reagiram desacreditando-o e insultando-o. Chegou-se assim à sua deposição, no sínodo organizado pelo mesmo patriarca Teófilo em 403, com a consequente condenação ao primeiro breve exílio. Depois do seu regresso, a hostilidade suscitada contra ele desde o protesto contra as festas em honra da imperatriz que o Bispo considerava como festas pagãs, sumptuosas e a expulsão dos presbíteros encarregados dos Baptismos na Vigília pascal de 404 marcaram o início da perseguição de Crisóstomo e dos seus seguidores, os chamados “Joanitas”.

Então João denunciou através de carta os factos ao Bispo de Roma, Inocêncio I. Mas já era demasiado tarde. No ano de 406 teve de novo que se refugiar no exílio, desta vez em Cucusa, na Arménia. O Papa estava convencido da sua inocência, mas não tinha o poder de o ajudar. Um Concílio, querido por Roma para uma pacificação entre as duas partes do Império e entre as suas Igrejas, não pôde ser realizado. O deslocamento extenuante de Cucusa para Pytius, meta nunca alcançada, devia impedir as visitas dos fiéis e interromper a resistência do exiliado extenuado:  a condenação ao exílio foi uma verdadeira condenação à morte! São comovedoras as numerosas cartas do exílio, nas quais João manifesta as suas preocupações pastorais com tonalidades de participação e de sofrimento pelas perseguições contra os seus. A marcha rumo à morte terminou em Comano no Ponto. Aqui, João moribundo, foi levado para a capela do mártir São Basilisco, onde rendeu a alma a Deus e foi sepultado, mártir ao lado do mártir (Palladio, Vita 119). Era o dia 14 de Setembro de 407, festa da Exaltação da Santa Cruz. A reabilitação teve lugar em 438 com Teodósio II. As relíquias do santo Bispo, colocadas na igreja dos Apóstolos em Constantinopla, foram depois trasladadas em 1204 para Roma, para a primitiva Basílica constantiniana, e agora jazem na capela do Coro dos Cónegos da Basílica de São Pedro. A 24 de Agosto de 2004 uma considerável parte delas foi doada pelo Papa João Paulo II ao Patriarca Bartolomeu I de Constantinopla. A memória litúrgica do santo celebra-se a 13 de Setembro. O beato João XXIII proclamou-o padroeiro do Concílio Vaticano II.

Foi dito acerca de João Crisóstomo que, quando foi colocado no trono da Nova Roma, isto é, Constantinopla, Deus mostrou nele um segundo Paulo, um doutor do Universo. Na realidade, em Crisóstomo há uma unidade substancial de pensamento e de acção tanto em Antioquia como em Constantinopla. Mudam só o papel e as situações. Meditando sobre as oito obras realizadas por Deus no suceder-se dos seis dias no comentário do Génesis, Crisóstomo deseja reconduzir os fiéis da criação ao criador:  “É um grande bem”, diz, “conhecer o que é a criatura e o que é o Criador”.

Mostra-nos a beleza da criação e a transparência de Deus na sua criação, a qual se torna assim quase que uma “escada” para subir a Deus, para o conhecer. Mas a este primeiro passo acrescenta-se um segundo:  este Deus criador é também o Deus da condescendência (synkatabasis). Nós somos débeis na “subida”, os nossos olhos são débeis. E assim Deus torna-se o Deus da condescendência, que envia ao homem pecador e estrangeiro uma carta, a Sagrada Escritura, de modo que criação e Sagrada Escritura completam-se. À luz da Escritura, da carta que Deus nos deu, podemos decifrar a criação. Deus é chamado “pai terno” (philostorgios) (ibid.), médico das almas (Homilia 40, 3 sobre o Génesis), mãe (ibid.) e amigo afectuoso (Sobre a providência 8, 11-12). Mas a este segundo passo primeiro a criação como “escada” para Deus e depois a condescendência de Deus através duma carta que nos deu, a Sagrada Escritura acrescenta-se um terceiro passo. Deus não só nos transmite uma carta:  em definitiva, desce Ele mesmo, encarna-se, torna-se realmente “Deus connosco”, nosso irmão até à morte na Cruz. E a estes três passos Deus é visível na criação, Deus dá-nos uma sua carta, Deus desce e torna-se um de nós acrescenta-se no final um quarto passo. No arco da vida e da acção do cristão, o princípio vital e dinâmico é o Espírito Santo (Pneuma), que transforma as realidades do mundo. Deus entra na nossa existência através do Espírito Santo e transforma-nos do interior do nosso coração.

Nesta panorâmica, precisamente em Constantinopla João, no comentário continuativo dos Actos dos Apóstolos, propõe o modelo da Igreja primitiva (Act 4, 32-37) como modelo para a sociedade, desenvolvendo uma “utopia” social (quase uma “cidade ideal”). De facto, tratava-se de dar uma alma e um rosto cristão à cidade. Por outras palavras, Crisóstomo compreendeu que não é suficiente dar esmola, ajudar os pobres sempre que precisem, mas é necessário criar uma nova estrutura, um novo modelo de sociedade; um modelo baseado na perspectiva do Novo Testamento. É a nova sociedade que se revela na Igreja nascente. Portanto João Crisóstomo torna-se assim realmente um dos grandes Padres da Doutrina Social da Igreja:  a velha ideia da “polis” grega é substituída por uma nova ideia de cidade inspirada na fé cristã. Crisóstomo defendia com Paulo (cf. 1 Cor 8, 11) a primazia de cada cristão, da pessoa como tal, também do escravo e do pobre. O seu projecto corrige assim a tradicional visão grega da “polis”, da cidade, na qual amplas camadas de população eram excluídas dos direitos de cidadania, enquanto na cidade cristã todos são irmãos e irmãs com iguais direitos. A primazia da pessoa é também a consequência do facto que realmente partindo dela se constrói a cidade, enquanto que na “polis” grega a pátria era superior ao indivíduo, o qual estava totalmente subordinado à cidade no seu conjunto. Assim com Crisóstomo tem início a visão de uma sociedade construída pela consciência cristã. E ele diz-nos que a nossa “polis” é outra, “a nossa pátria está no céu” (Fl 3, 20) e esta nossa pátria também nesta terra nos torna iguais, irmãos e irmãs, e obriga-nos à solidariedade.

No final da sua vida, do exílio nos confins da Arménia, “o lugar mais remoto do mundo”, João, voltando à sua primeira pregação de 386, retomou o tema que lhe era tão querido do plano que Deus prossegue em relação à humanidade:  é um plano “indizível e incompreensível”, mas certamente guiado por Ele com amor (cf. Sobre a providência 2, 6). É esta a nossa certeza.

Mesmo se não podemos decifrar os pormenores da história pessoal e colectiva, sabemos que o plano de Deus se inspira sempre no seu amor. Assim, apesar dos sofrimentos, Crisóstomo reafirmava a descoberta de que Deus ama cada um de nós com um amor infinito, e por isso deseja que todos se salvem. Por seu lado, o santo Bispo cooperou nesta salvação generosamente, sem se poupar, ao longo de toda a sua vida. De facto ele considerava o fim último da sua existência a glória de Deus, que já agonizante deixou como extremo testamento:  “Glória a Deus por tudo!” (Palladio, Vita 11).

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070926_po.html

A Sabedoria

O pastor ausente e as ovelhas em perfeita ordem! Grande feito do pastor: o rebanho, não apenas em sua presença, mas até durante a ausência, demonstra ardente zelo! (p.17)

O desejo do bem-estar não vos atormenta mais e não tendes dificuldade em superá-lo. Com efeito, de uma vez o eliminastes e tornastes a carne inacessível a este desejo, e acostumastes o estômago a se contentar, quanto à comida e à bebida, com o suficiente para não morrer nem merecer castigo…Pois, comida excessiva alimenta o sono. (p.224)

Nossa meta é a seguinte: não apenas expelir a tristeza, mas também encher-vos de grande e permanente alegria. (p.251)

De fato, a tristeza também produz doença. Quando o corpo está fatigado e totalmente fraco, surge enorme e progressivo perigo. (p.301)

Quanto mais intensa a tribulação, mais aumentam as coroas quanto mais o ouro é provado pelo fogo, mais se purifica;…(p.305)

A Caridade

Onde falta a caridade, as outras virtudes de nada nos servem, porque ela constitui a marca dos discípulos do Senhor, a característica dos servos de Deus, o distintivo dos apóstolos. Com efeito, está escrito: “Nisso reconhecerão todos que sois meus discípulos, (se vos amardes uns aos outros.)” João 13, 35. (p.18)

Por esta razão, conforme Cristo disse, não se revelam seus discípulos por intermédio de milagres, e sim pela caridade. (p.18)

Dialoguemos com moderação. Nada mais forte que a moderação e a doçura. Por essa razão também Paulo recomendou que adotemos cuidadosamente tal atitude, nesses termos: “Ora, um servo de Deus não deve brigar; deve ser manso para com todos”. (II Timóteo 2, 24)

Não convém a um servo do Senhor altercar; bem ao contrário, seja ele condescendente com todos, capaz de ensinar, paciente em suportar os males.

Serão capazes de reter a língua no momento em que ela se exalta além da medida e da conveniência, de acalmar o espírito agitado e moderá-lo constantemente, e de estabelecer em nós permanentemente a paz perfeita. (p.31)

Persistência e coragem na Evangelização

Mesmo, caríssimo irmão, se te injuriarem, te derem pontapés e te cuspirem, se fizerem seja o que for, não desistas dos curativos. De fato, os que cuidam de um homem louco devem suportar muitas coisas desta espécie e não podem abandoná-lo apesar de tudo, mas devem apiedar-se e lastimá-lo tanto mais por se tratar de manifestação da doença. (p.49)

Não são efetivamente apenas as feridas corporais, mas também as dores da alma que alcançam coroas inefáveis, e as aflições da alma, se acolhidas como ação de graças, mais do que a do corpo. (p.240)

Fugir das más companhias

Os mais fracos, ao contrário, fujam da companhia deles e evitem o diálogo, não suceda que o pretexto de amizade se transforme em oportunidade de irreligião. (p.49)

Se a amizade deles te é prejudicial e te arrasta a participar da impiedade, até mesmo se forem os próprios pais, foge deles! Se teu olho te prejudica, arranca-o! Com efeito, foi dito: “Se teu olho direito te escandalizar, arranca-o”. (p.29)

Quando o médico visita um doente, com freqüência resultam benefícios para ambos, mas se alguém um tanto fraco vai para junto dos doentes, simultaneamente causa dano a eles e a si mesmo, porque em nada lhes será útil, e a doença lhe acarretará grande mal. Os que ficam olhando pacientes atingidos de oftalmia contraem a moléstia; assim também os que se unem aos blasfemadores, se são mais fracos, arriscam-se a participar de sua impiedade. A fim, portanto, de evitar tão graves perigos, fujamos da companhia deles e contentemo-nos com rezar e implorar a Deus que ama os homens, quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade…(p.50)

Pois, aquele que pratica o mal na terra e, em vez de expiar seu pecado, goza de consideração da parte dos homens, partirá levando tal estima qual penhor mais seguro de castigo. Este o motivo por que o rico ardia horrivelmente, e sofria punição não apenas por causa da crueldade para com Lázaro, mas porque a prosperidade de que gozava continuamente, com tamanha crueldade, não o tornara melhor. (Cf. Lucas 16, 19-31) (p.203)

Então ninguém estará ao nosso lado nem nos livrará do castigo. Nem pai, nem filho, nem filha, nem mãe, nem outro parente qualquer, nem vizinho, nem amigo, nem advogado, nem donativo em dinheiro, nem superabundante fortuna, nem poder imenso: tudo isso será sacudido como pó. O réu, em vista da sentença que o absolve ou condena, conta apenas com seus atos. Ninguém é então julgado por ações alheias, e sim de acordo com o que ele mesmo praticou. (p.221)

A oração

Eu posso, dizem eles, rezar também em casa, enquanto é impossível ouvir em casa homilia ou instrução. Enganas-te a ti mesmo, ó homem. Se, de fato, podes rezar em casa, não pode rezar do mesmo modo que na Igreja…Efetivamente, os sacerdotes presidem a fim de que as orações do povo, mais fracas, unidas às deles, mais fortes, simultaneamente se elevem para o céu. (p.63)

A verdadeira humildade

Considerar-se pecador quem verdadeiramente o é, não constitui, contudo, humildade. A humildade pertence a quem, apesar de consciente de ter praticado muitas boas ações, não tem de si mesmo alta estima…(p.99)

O fariseu atrelava juntos a justiça e o orgulho, a ponto de dizer: “Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, ávidos, nem como este publicano”.(Lucas 18, 11) …E que fez então este último? Não repeliu as injurias, não se irritou com a acusação: acolheu tais palavras com prudência. A seta do inimigo transformou-se-lhe em remédio e cura, a injuria, em elogio, a censura, em coroa. A humildade é tão bela, que não sente as mordeduras dos agravos de outrem e não se enfurece pelo ultrajes do próximo. É até possível tirar desses ataques grande e excelente fruto, como aconteceu no caso do publicano. Na verdade, ao aceitar as injúrias, ele depôs o fardo de seus pecados e, ao dizer: “Tem piedade de mim, que sou pecador!”; voltou para casa justificado, mais do que o outro. (Lucas 18, 13). (p.100-101)

Sucede nos negócios o mesmo que acontece com as riquezas e que sobreveio àquela viúva. Ela, de fato, por ter dado dois óbolos, superou os que tinham dado mais porque se despojara de tudo o que tinha (Marcos 12, 42); igualmente, os que se dão com todas as forças e fazem o possível para solucionar uma questão, mesmo se nada obtiverem, obtêm a recompensa ligada a sua ação. (p.250)

Misericórdia de Deus

Ora, muitas vezes os homens suportam mal, apartam e repelem quem procura se queixar e chorar junto deles; Deus, porém, não age deste modo. Ao contrário, faz com que te aproximes e a si te atrai, e mesmo se passares o dia inteiro a expor-lhe tuas tribulações ficará ainda mais inclinado a amar-te e a atender as tuas súplicas. Justamente isso queria Cristo mostrar-nos aos proclamar: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso de vosso fardo e eu vos darei descanso”. (Mateus 11, 28)(p.103)

Providência de Deus

De fato, a providência de Deus é mais manifesta que o sol com seus raios e, em cada tempo e lugar, no deserto, nos países habitados e inóspitos, na terra e no mar, em qualquer lugar a que vás, perceberás a memória clara e suficiente, antiga e nova, desta providência…(p.122)

Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? E, se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem.(Mateus 7, 9-11) Com isso revela que, na medida em que a maldade difere da bondade, tanto a bondade de Deus supera a solicitude dos pais. (p.124)

A criação: Obra do Amor de Deus

1.Embelezou o céu não somente com astros; ornou-o ainda com o sol e a lua, ocasionando-te, conforme a oportunidade, ora grande prazer, ora enorme utilidade…Assim como o sol regula as horas do dia, a lua estabelece as da noite; (p.129-130)

2.E tudo isso por ti, ó homem! Com efeito, os ventos também foram criados por tua causa…eles refrescam os nossos corpos fatigados…Além disso, os ventos de outra forma são profícuos às águas, pois não permitem que se corrompam estagnadas, mas as agitam constantemente e ventilam; fazem-nas renovadas…(p.134)

3.Se queres examinar a própria noite, verás, nela também, a grande providência do criador. De fato, ela repousa teu corpo cansado, relaxa e distende os membros tensos pelos esforços diurnos, produz uma alteração e restitui-lhes, pelo repouso, vigor pleno. (p.134-135)

A cruz de Jesus é sinal de salvação

Foi pregado numa alta cruz, cuspiam-lhe, batiam-lhe com bastões, era esbofeteado, escarnecido, foi sepultado por caridade, e teve o túmulo selado. E tudo isso ele o suportou por ti com solícita bondade, a fim de:

1.Suprimir a tirania do pecado, destruir a cidadela do diabo, quebrar os laços da morte;

2. Abrir-nos as portas do céu,

3. Fazer desaparecer a maldição, apagar a primeira culpa;

4. Ensinar-te a paciência, treinar-te à resistência de modo que nenhum dos acontecimentos da vida presente te aflija, nem a morte, nem os insultos, nem as injurias, nem as zombarias, nem os açoites, nem as ciladas dos inimigos, nem as calúnias, nem os ataques, as denúncias, as suspeitas etc.

Viveu, também ele, no meio de tudo isso e o partilhou contigo, dominou-o de modo extraordinário, demonstrando e ensinando-te a não temeres nenhuma dessas provas. (p.140)

Apesar de ter visto o Cristo crucificado, flagelado, injuriado, sorvendo fel, coberto de escarros, escarnecido por todo esse povo, condenado por um tribunal, arrastado à morte, nada o escandalizou. Viu a cruz, os cravos fincados e a multidão corrupta a zombar dele; seguiu, contudo, o caminho reto, dizendo: “Lembra-te de mim em teu reino”. (Lucas 23, 42)…Os judeus, ao contrário, que o haviam visto operar milagres, que haviam aproveitado do ensino ministrado em palavras e atos, não somente não tiraram proveito, como foram arrastados ao mais profundo abismo para sua perda, tendo erguido a própria cruz. (p.170-171)

A Perseverança

Quanto mais forte a tempestade, maiores os prêmios, se for suportada com perseverança, ações de graças e a conveniente coragem como, na realidade, a suportais. (p.200)

O coração agradecido

Glória a Deus em tudo. Não cessarei de repeti-lo sempre em tudo o que me acontecer. (p.201)

Fonte: São João Crisóstomo. Coleção Patrística. Ed. Paulus.2007.

Sensibilidade para com os órfãos

Nada de mais doloroso para as crianças do que ficarem órfãos muito cedo, porque devido à idade nada podem por si mesmas, não tem verdadeiramente quem as proteja, e são muitos os que as atacam e lhes armam ciladas, quais ovelhas no meio de lobos que, vindos de todos os lados, as dilaceram e estraçalham. (p.238)

A paciência

Nada se iguala à paciência, mas que ela é, sobretudo, a rainha das virtudes, o fundamento das ações retas, o porto sem ondas, a paz no meio das guerras, o mar liso na tempestade, a segurança no meio das emboscadas;… (p.294)

Eleição do diácono Estevão

Naqueles dias, como crescesse o número dos discípulos, houve queixas dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas teriam sido negligenciadas na distribuição diária. Por isso, os Doze convocaram uma reunião dos discípulos e disseram: Não é razoável que abandonemos a palavra de Deus, para administrar. Portanto, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais encarregaremos este ofício. Nós atenderemos sem cessar à oração e ao ministério da palavra. Este parecer agradou a toda a reunião. Escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo; Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos aos apóstolos, e estes, orando, impuseram-lhes as mãos. Divulgou-se sempre mais a palavra de Deus. Multiplicava-se consideravelmente o número dos discípulos em Jerusalém. Também grande número de sacerdotes aderia à fé. (Atos 6, 1-7)

Prisão do diácono Estevão

Estêvão, cheio de graça e fortaleza, fazia grandes milagres e prodígios entre o povo. Mas alguns da sinagoga, chamada dos Libertos, dos cirenenses, dos alexandrinos e dos que eram da Cilícia e da Ásia, levantaram-se para disputar com ele. Não podiam, porém, resistir à sabedoria e ao Espírito que o inspirava. Então subornaram alguns indivíduos para que dissessem que o tinham ouvido proferir palavras de blasfêmia contra Moisés e contra Deus. Amotinaram assim o povo, os anciãos e os escribas e, investindo contra ele, agarraram-no e o levaram ao Grande Conselho. Apresentaram falsas testemunhas que diziam: Esse homem não cessa de proferir palavras contra o lugar santo e contra a lei. Nós o ouvimos dizer que Jesus de Nazaré há de destruir este lugar e há de mudar as tradições que Moisés nos legou. Fixando nele os olhos, todos os membros do Grande Conselho viram o seu rosto semelhante ao de um anjo. (Atos 6, 8-15)

Discurso de Estevão

Perguntou-lhe então o sumo sacerdote: É realmente assim? 2.Respondeu ele: Irmãos e pais, escutai. O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, quando estava na Mesopotâmia, antes de ir morar em Harã. E disse-lhe: Sai de teu país e de tua parentela, e vai para a terra que eu te mostrar (Gn 12,1). Ele saiu da terra dos caldeus, e foi habitar em Harã. Dali, depois que lhe faleceu o pai, Deus o fez passar para esta terra, em que vós agora habitais. Não lhe deu nela propriedade alguma, nem sequer um palmo de terra, mas prometeu dar-lha em posse, e depois dele à sua posteridade, quando ainda não tinha filho algum. Eis como falou Deus: Tua descendência habitará em terra estranha e será reduzida à escravidão e maltratada pelo espaço de quatrocentos anos. Mas eu julgarei a nação que os dominar – diz o Senhor -, e eles sairão e me prestarão culto neste lugar (Gn 15,13s.; Ex 3,12). E deu-lhe a aliança da circuncisão. Assim, Abraão teve um filho, Isaac, e, passados oito dias, o circuncidou; e Isaac, a Jacó; e Jacó, os doze patriarcas. Os patriarcas, invejosos de José, venderam-no para o Egito. Mas Deus estava com ele. Livrou-o de todas as suas tribulações e deu-lhe graça e sabedoria diante do faraó, rei do Egito, que o fez governador do Egito e chefe de sua casa.

Sobreveio depois uma fome a todo o Egito e Canaã. Grande era a tribulação, e os nossos pais não achavam o que comer. Mas quando Jacó soube que havia trigo no Egito, enviou pela primeira vez os nossos pais para lá. Na segunda, foi José reconhecido por seus irmãos, e foi descoberta ao faraó a sua origem. Enviando mensageiros, José mandou vir seu pai Jacó com toda a sua família, que constava de setenta e cinco pessoas. Jacó desceu ao Egito e morreu ali, como também nossos pais.  Seus corpos foram trasladados para Siquém, e foram postos no sepulcro que Abraão tinha comprado, a peso de dinheiro, dos filhos de Hemor, de Siquém. Aproximava-se o tempo em que devia realizar-se a promessa que Deus havia jurado a Abraão. O povo cresceu e se multiplicou no Egito até que se levantou outro rei no Egito, o qual nada sabia de José. Este rei, usando de astúcia contra a nossa raça, maltratou nossos pais e obrigou-os a enjeitar seus filhos para privá-los da vida.

Por este mesmo tempo, nasceu Moisés. Era belo aos olhos de Deus e por três meses foi criado na casa paterna. Depois, quando foi exposto, a filha do faraó o recolheu e o criou como seu próprio filho. Moisés foi instruído em todas as ciências dos egípcios e tornou-se forte em palavras e obras. Quando completou 40 anos, veio-lhe à mente visitar seus irmãos, os filhos de Israel. Viu que um deles era maltratado; tomou-lhe a defesa e vingou o que padecia a injúria, matando o egípcio. Ele esperava que os seus irmãos compreendessem que Deus se servia de sua mão para livrá-los. Mas não o entenderam.  No dia seguinte, dois dentre eles brigavam, e ele procurou reconciliá-los: Amigos, disse ele, sois irmãos, por que vos maltratais um ao outro? Mas o que maltratava seu compatriota o repeliu: Quem te constituiu chefe ou juiz sobre nós? Porventura queres tu matar-me, como ontem mataste o egípcio?  A estas palavras, Moisés fugiu. E esteve como estrangeiro na terra de Madiã, onde teve dois filhos.

Passados quarenta anos, apareceu-lhe no deserto do monte Sinai um anjo, na chama duma sarça ardente. Moisés, admirado de uma tal visão, aproximou-se para a examinar. E a voz do Senhor lhe falou: Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó. Moisés, atemorizado, não ousava levantar os olhos.  O Senhor lhe disse: Tira o teu calçado, porque o lugar onde estás é uma terra santa. Considerei a aflição do meu povo no Egito, ouvi os seus gemidos e desci para livrá-los. Vem, pois, agora e eu te enviarei ao Egito. Este Moisés que desprezaram, dizendo: Quem te constituiu chefe ou juiz?, a este Deus enviou como chefe e libertador pela mão do anjo que lhe apareceu na sarça. Ele os fez sair do Egito, operando prodígios e milagres na terra do Egito, no mar Vermelho e no deserto, por espaço de quarenta anos.  Foi este Moisés que disse aos filhos de Israel: Deus vos suscitará dentre os vossos irmãos um profeta como eu.  Este é o que esteve entre o povo congregado no deserto, e com o anjo que lhe falara no monte Sinai, e com os nossos pais; que recebeu palavras de vida para no-las transmitir. Nossos pais não lhe quiseram obedecer, mas o repeliram. Em seus corações voltaram-se para o Egito, dizendo a Aarão: Faze-nos deuses, que vão diante de nós, porque quanto a este Moisés, que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que foi feito dele.

Fizeram, naqueles dias, um bezerro de ouro e ofereceram um sacrifício ao ídolo, e se alegravam diante da obra das suas mãos.  Mas Deus afastou-se e os abandonou ao culto dos astros do céu, como está escrito no livro dos profetas: Porventura, casa de Israel, vós me oferecestes vítimas e sacrifícios por quarenta anos no deserto?  Aceitastes a tenda de Moloc e a estrela do vosso deus Renfão, figuras que vós fizestes para adorá-las! Assim eu vos deportarei para além da Babilônia (Am 5,25ss.).  A Arca da Aliança esteve com os nossos pais no deserto, como Deus ordenou a Moisés que a fizesse conforme o modelo que tinha visto.  Recebendo-a nossos pais, levaram-na sob a direção de Josué às terras dos pagãos, que Deus expulsou da presença de nossos pais. E ali ficou até o tempo de Davi.  Este encontrou graça diante de Deus e pediu que pudesse achar uma morada para o Deus de Jacó. Salomão foi quem lhe edificou a casa.  O Altíssimo, porém, não habita em casas construídas por mãos humanas. Como diz o profeta:  O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés. Que casa me edificareis vós?, diz o Senhor. Qual é o lugar do meu repouso?  Acaso não foi minha mão que fez tudo isto (Is 66,1s.)? Homens de dura cerviz, e de corações e ouvidos incircuncisos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo. Como procederam os vossos pais, assim procedeis vós também!  A qual dos profetas não perseguiram os vossos pais? Mataram os que prediziam a vinda do Justo, do qual vós agora tendes sido traidores e homicidas.  Vós que recebestes a lei pelo ministério dos anjos e não a guardastes… (Atos 7, 1-53)

Morte de Estevão

Ao ouvir tais palavras, esbravejaram de raiva e rangiam os dentes contra ele. Mas, cheio do Espírito Santo, Estêvão fitou o céu e viu a glória de Deus e Jesus de pé à direita de Deus: Eis que vejo, disse ele, os céus abertos e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus. Levantaram então um grande clamor, taparam os ouvidos e todos juntos se atiraram furiosos contra ele. Lançaram-no fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas depuseram os seus mantos aos pés de um moço chamado Saulo. E apedrejavam Estêvão, que orava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito. Posto de joelhos, exclamou em alta voz: Senhor, não lhes leves em conta este pecado… A estas palavras, expirou. (Atos 7, 54-60; Atos 8, 1)

FESTA DE  SANTO ESTÊVÃO PROTOMÁRTIR

PAPA BENTO XVI

ANGELUS

Praça de São PedroSábado, 26 de Dezembro de 2009

Queridos irmãos e irmãs!

Com o coração ainda cheio de admiração e inundado pela luz que promana da gruta de Belém, onde com Maria, José e os pastores adorámos o nosso Salvador, hoje recordamos o diácono Santo Estêvão, o primeiro mártir cristão. O seu exemplo ajuda-nos a compreender em maior medida o mistério do Natal e testemunha-nos a maravilhosa grandeza do nascimento daquele Menino no qual se manifesta a graça de Deus, portadora de salvação para os homens (cf. Tt 2, 11). De facto, aquele que geme na manjedoura é o Filho de Deus feito homem, que nos pede para testemunhar com coragem o seu Evangelho, como fez Santo Estêvão o qual, cheio do Espírito Santo, não hesitou em dar a vida por amor do seu Senhor. Ele, como o seu Mestre, morre perdoando os próprios perseguidores e faz-nos compreender como a entrada do Filho de Deus no mundo dê origem a uma nova civilização, a civilização do amor, que não cede perante o mal e a violência e abate as barreiras entre os homens, tornando-os irmãos na grande família dos filhos de Deus.

Estêvão é também o primeiro diácono da Igreja, que fazendo-se servo dos pobres por amor de Cristo, entra progressivamente em plena sintonia com Ele e segue-o até ao dom supremo de si. O testemunho de Estêvão, como o dos mártires cristãos, indica aos nossos contemporâneos muitas vezes distraídos e desorientados, em quem devam depor a sua confiança para dar sentido à vida. De facto, o mártir é aquele que morre com a certeza de saber que Deus o ama e, nada antepondo ao amor de Cristo, sabe que escolheu a melhor parte. Configurando-se plenamente com a morte de Cristo, está consciente de ser germe fecundo de vida e de abrir no mundo veredas de paz e de esperança. Hoje, apresentando-nos o diácono Santo Estêvão como modelo, a Igreja indica-nos, de igual modo, no acolhimento e no amor aos pobres, um dos caminhos privilegiados para viver o Evangelho e testemunhar de modo credível aos homens o Reino de Deus que há-de vir.

A festa de Santo Estêvão recorda-nos também os numerosos crentes, que em várias partes do mundo, são submetidos a provas e sofrimentos por causa da sua fé. Confiando-os à sua celeste protecção, empenhemo-nos em apoiá-los com a oração e a nunca faltar à nossa vocação cristã, pondo sempre no centro da nossa vida Jesus Cristo, que nestes dias contemplamos na simplicidade e na humildade do presépio. Invoquemos para esta finalidade a intercessão de Maria, Mãe do Redentor e Rainha dos Mártires, com a oração do Angelus.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/angelus/2009/documents/hf_ben-xvi_ang_20091226_st-stephen_po.html

 

São Pedro Julião Eymard nasceu em La Mure D´ Iseré, na França, em 4 de fevereiro de 1811. Desde a infância, sentiu grande atração pela presença real de Jesus na Eucaristia. Foi descrito pelo Papa Pio XII como “o maior herói e campeão de Cristo presente nos Tabernáculos”. Fundou a Congregação dos Padres, das Servas do Santíssimo Sacramento e a Obra da Adoração Perpétua. Deu grande incentivo aos Congressos Eucarísticos. Honrava a Virgem Santíssima com o especial título de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. É com justa razão, chamado de “O Apóstolo da Eucaristia”.

 

Bibliografia: São Pedro Julião Eymard. Flores da Eucaristia. Ed.Palavra e Prece. São Paulo, 2005.

Pureza na fé

Ide sempre e cada vez mais a Jesus pela fé simples, ao clarão puro da estrela, tênue raio do céu, conduziu os Magos à perfeita adoração de Jesus no presépio.(cf. Mateus 2, 2.9-11)…Ah pedi com instância a Jesus oculto na Eucaristia este dom da pureza na fé, para que a vossa alma se revista de suas virtudes e de seus merecimentos. (p.9-10)

“E Jesus se manifesta gradualmente à alma, na medida de sua fé e de seu amor, e a alma encontra em Jesus alimento renovado, vida inesgotável. (p.32)

Uma pessoa pobre de espírito, convencida de que nada possui e nada pode por si mesma, faz de sua própria pobreza o título mais precioso e poderoso sobre o Coração de Deus. Quanto mais pobre mais direito se tem à bondade e misericórdia divina. E notemos bem que quanto mais o pobre se coloca em sua pobreza, mais se coloca em seu lugar natural. Somos nada, e, por conseguinte, nossa pobreza rende maior glória a Deus e o torna por assim dizer mais cheio de grandeza e de misericórdia! (p.425)

Senhorio de Jesus

Ó Jesus, sede sempre o rei de meu espírito por vossa verdade, o rei de meu coração por vosso amor, o rei de meu corpo por vossa pureza, o rei de toda minha vida pelo meu desejo de consagrá-la à vossa maior glória. (p.11)

Proclamar o nome de Jesus em público

E aquele que faz claramente profissão de fé, aquele que sabe proclamar o nome de Jesus Cristo, se fortalece na graça. Que todos, em público, conheçam a nossa fé! (p.12)

O Amor transforma o mundo

O amor porque é transformador, produz identidade de vida; torna o rei simples; os sábios, humildes, os ricos, pobres de coração. (p.14)

O amor transforma o homem num Céu em que a Santíssima Trindade se compraz em habitar. (p.247)

Eucaristia

A Eucaristia deve ser também o absoluto do nosso amor a Jesus Cristo, se quisermos alcançar, de nossa parte, o fim que Ele propôs na Comunhão: transforma-nos nEle pela união. (p.15)

A fé nos mostra não somente como Deus de majestade, mas também como Deus de bondade, fonte de toda graça, de todo dom, de todo bem. A piedade de uma alma eucarística deve ser inspirada e alimentada pela Eucaristia e, por assim dizer, concentrar-se nesse elemento divino. (p.19)

Nosso Senhor quer que nos lembremos de tudo quanto fez por nós na Terra, e que honremos sua presença no Santíssimo Sacramento pela meditação de todos os mistérios de sua vida. (p.20)

Nada é mais glorioso para Nosso Senhor que este ato de fé na sua presença eucarística, porque é honrar eminentemente sua veracidade divinal.Com efeito, a maior honra que se pode prestar a alguém é crer na sua palavra, assim como a maior injuria é suspeitá-lo de mentira, duvidar de suas afirmações, pedir-lhe provas, garantia. Ora, se o filho dá crédito à palavra de seu pai;o servo, à de seu amo; o súdito, à palavra do rei, por que não acreditarmos na palavra de Jesus Cristo quando solenemente nos afirma que está presente no Santíssimo Sacramento!(p.21)

E qual é o amor em que devemos crer? O amor de Jesus Cristo, a amor que nos testemunha na Eucaristia, amor que é Ele mesmo, amor vivo e infinito. Felizes daqueles que acreditam no amor de Jesus no Santíssimo Sacramento! Amam, pois crer no amor é amar. (p.22)

Santíssimo Sacramento

Consideremos como Nosso Senhor dedica o seu amor pessoal (cf. Gálatas 2, 20) a cada um de nós. Cada qual O torna para si todo inteiro, sem prejudicar ninguém. Por mais numerosos que sejam os que O recebem, não se divide, não se dá menos a um do que a outro, e mesmo que a Igreja esteja repleta de adoradores, cada um poderá Lhe falar, sendo ouvido, atendido, como se estivesse sozinho… (p.22)

Essa contemplação eucarística se assemelha à visão de Deus no céu,onde Ele se apresenta sempre amável, sempre grandioso, sempre belo aos olhares beatificados dos santos. Assim Jesus no Santíssimo Sacramento se revela sempre novo, mais querido, mais terno, mais amável à alma adoradora, e a contemplação eucarística se torna inesgotável, sempre nova, indo sempre a Jesus Cristo – “de claridade em claridade, de virtude em virtude, de perfeição em perfeição”. (cf. Salmos 83,8; 2 Coríntios 3, 18). (p.24)

Preparemo-nos, pela Comunhão, para o paraíso, onde receberemos Nosso Senhor perpetuamente, e viveremos de seu conhecimento e de seu amor. A Comunhão recebida com freqüência é o penhor seguro da salvação eterna. (p.26)

A falta de fé na Eucaristia jamais provém da evidencia de razões contrarias a este mistério. É as vezes uma fé adormecida pelo entorpecimento dos negócios terrenos. Venha porém a graça despertá-la – a simples graça do retorno para Deus – e o primeiro impulso da alma será instintivamente para a Eucaristia. A incredulidade pode ainda provir de paixões que dominam o coração. Uma paixão que deseja reinar é cruel; não satisfeita, desdenha; atacada, nega. Perguntai a vós mesmos: “Desde quando não creio mais na Eucaristia?” E volvendo à fonte da incredulidade, encontrareis uma fraqueza a que não tivestes coragem de resistir. (p.27)

Jesus está em cada hóstia consagrada e, se esta for partida, ficará Ele todo inteiro sob cada partícula. Em vez de dividi-lO, a fração da hóstia O multiplica. (p.31)

Finalmente, a Eucaristia, como bem supremo da vontade, faz com que a alma considere sem valor os bens e prazeres desta terra e as criaturas. (p.34)

Feliz a alma que sabe encontrar Jesus na Eucaristia, e, na Eucaristia todas as coisas! (p.40)

A Comunhão deve se tornar o eixo da vida, o pensamento dominante do espírito e do coração, a finalidade de qualquer estudo, da piedade, das virtudes. (p.115)

Comungai para amar – comungai amando -, comungai para conseguir amar ainda mais. (p.119)

A Comunhão nos prepara, portanto, para o Céu. (p.123)

Que grande graça morrer após a recepção do Santo Viático! Peçamos muitas vezes esta graça de receber a Santa Comunhão antes de morrer. (p.123)

Querendo Deus alimentar o nosso espírito, deu-lhes o seu pão, a Eucaristia, anunciada por estas palavras da Sagrada Escritura: “Hei de nutri-los com o pão da vida e de inteligência”. (Eclesiástico 15, 3) (p.124)

Lembrai-vos bem que a alma que não comunga jamais conhecerá o Coração de Jesus e a extensão de seu amor. O coração se dá a conhecer por si mesmo, é necessário senti-lo, ouvir-lhe as pulsações. Assim como é preciso provar o mel para sentir-lhe a doçura, assim também é necessário receber Jesus Cristo para conhecê-lO bem. (p.125)

A preparação do corpo requer, além do jejum, trajes que denotem a modéstia e o asseio. A preparação da alma pede, em primeiro lugar, a ausência de todo pecado mortal, e, tanto quanto possível, do pecado venial deliberado. (p.127)

No momento de comungar não vos preocupeis mais com os vossos pecados, o que, além de ser uma perigosa tentação, lançar-vos-ia na tristeza e desassossego, inimigos da piedade. (p.131)

A conversação interior depois da Comunhão não requer um estado de vida espiritual muito elevado. Tendes boa vontade? Jesus vos falará então e compreender-Lhe-eis a linguagem. (p.131)

E, durante o dia, sede como um santo que tivesse passado uma hora no Céu; não vos esqueçais da visita régia de Jesus. (p.132)

Assim, a Comunhão torna a alma feliz mesmo entre as grandes adversidades, feliz de uma felicidade serena e amável. (p.135)

Quando a alma se apresenta à Comunhão num estado de pureza em que não há sequer pecados veniais, a ação de Jesus sobre ela se opera fortemente e sem obstáculo. (p.136)

O amor verdadeiro e perfeito somente na Comunhão tem o seu pleno exercício, pois o fogo que não se alastra, extingue-se. (p.137)

A Comunhão produz a Constancia perseverante; se quereis, portanto, perseverar, recebei Nosso Senhor! (p.138)

A fome de Deus justifica a nossa temeridade. Sim, o grande motivo que nos leva à Comunhão é a fome que sentimos dela. É semelhante ao desejo do enfermo que suspira pela visita do médico, ou pelo copo com água, quando a febre o devora. (p.140)

Existe nas profundezas de nosso coração uma grande tristeza que não nos é possível extirpar. Toda alegria que gozamos nesta Terra é passageira e acaba sempre em lágrimas. É que fomos expulsos de nossos domínios, da casa de Nosso Pai, e essa tristeza faz parte integrante do patrimônio que Adão pecador legou à sua posteridade. Sentimo-la principalmente quando estamos sós e entregues a nós mesmos; está em nós e não sabemos de onde vem. E quantas vezes é terrível essa tristeza! O remédio absoluto é a Comunhão; remédio sempre novo, sempre enérgico, ao qual a tristeza não resiste. Nosso Senhor quis permanecer na Eucaristia e se dar a nós para combater diariamente a nossa tristeza. Ouso até mesmo afirmar que a tristeza se dissipa na alma que comunga com um verdadeiro desejo e uma grande fome de Jesus. A tristeza poderá reaparecer depois, porque é nossa condição de exilados, e far-se-á mesmo sentir tanto mais cedo quanto mais depressa abandonarmos o pensamento da bondade de Nosso Senhor para nos concentrarmos em nós mesmos. Jamais, porém, haveremos de senti-la no momento em que O recebemos. (p.141)

Oh! a alegria, fruto da Comunhão, é o mais belo testemunho da presença de Deus na Eucaristia. (p.142)

O Corpo de Jesus Cristo se une então ao nosso corpo, sua alma à nossa alma, e sua divindade paira sobre ambos. (p.143)

Ao se consumirem as espécies, depois da Comunhão, desaparece a presença corporal de Nosso Senhor, mas, se o pecado não o afastar, nosso corpo continuará participando da virtude do Corpo de Jesus. (p.144)

A Comunhão é o traço de união que Nosso Senhor estabelece entre o Pai Celeste e nós. (p.146)

Que a Comunhão seja, portanto, o centro de nossa vida e de nossas ações. (p.146)

A Eucaristia é o fruto do amor de Jesus Cristo, e o amor reside no coração. (p.194)

Quantos encantos apresenta a virtude na escola da Comunhão! Como se torna fácil a prática da humildade a quem comunga e vê o Deus de glória se humilhar ao ponto de descer a um coração tão pobre, a um espírito tão ignorante, a um corpo tão miserável. (p.208)

Oh! a alma que comunga sente a necessidade imperiosa de abraçar a vida de Quem a salvou e lhe deu a Eucaristia. (p.208)

Ah! Se as almas do Purgatório pudessem voltar a este mundo, o que não fariam para assistir uma única Missa! (p.259)

A primeira das maravilhas que se operam na Eucaristia é a transubstanciação. Jesus, na Ceia, e, hoje em dia, os Sacerdotes, por sua ordem e instituição, tomando o pão e o vinho pronunciam sobre esta matéria as palavras da Consagração, e no mesmo instante toda a substância do pão e a do vinho desaparecem, mudadas que foram no Corpo Sacrossanto e no Sangue adorável de Jesus Cristo! (p.262)

No momento em que o Sacerdote, cercado de legiões de anjos, se inclina profundamente em sinal de respeito para com a ação divina que vai realizar, e em que, falando e operando divinamente em lugar da pessoa de Jesus Cristo, consagra o pão e o vinho no Corpo, Sangue, Alma e Divindade do Homem Deus, e reproduz o mistério da Ceia, adorai esse poder inaudito concedido ao Sacerdote em vosso favor. (p.279)

Representai aos vossos olhos, na elevação, Jesus pendente na Cruz entre o Céu e a Terra como Vítima e Medianeiro entre Deus ofendido e os pobres pecadores. Adorai e oferecei esta Divina Vítima em expiação de vossos pecados e dos pecados de vossos parentes, amigos e de todos os homens. (p.280)

A Eucaristia nos livra de todos os males! (p.335)

Na Eucaristia encontramos o remédio para os nossos males, a satisfação de novas dívidas que contraímos diariamente com a justiça divina, por nossos pecados. Nosso Senhor se oferece cada manhã como Vítima de propiciação pelos pecados do mundo. (p.340)

Viver com coração de criança

A Eucaristia, afeto soberano do coração! O coração há de estar onde se encontra o seu tesouro, isto é, as suas alegrias, os seus desejos, a sua felicidade. (cf. Mateus 6, 21) O pensamento do coração é sempre ativo, é a chama de um fogo sempre ardente. (p.34)

Deixai-vos conduzir pelo Bom Mestre como criancinha, sem vontade própria, e sem outro amor que o seu divino amor, que tudo suaviza. (p.49)

Deus pensa por Noé. Procurai ser como criança, que apenas sente, ama e agradece; (p.54)

Com efeito, quando Deus está contente, estejamos nós também. Se Deus nos ama, que nos importa o resto? Se temos Deus a nosso favor, porque nos inquietamos e nos entristecemos com o que está contra nós? (p.58)

Observai bem esta lei: querer somente o que Deus quer, como Ele quer e quando Ele quer. O santo abandono é o mais puro, é o maior amor. (p.62)

A alma, no santo abandono, dá o coração a Deus, com toda a simplicidade, para O amar em tudo e somente a Ele, em todas as coisas e em qualquer estado. Sentir-se-á feliz se Ele quiser abrasá-la no amor, e receberá com reconhecimento uma graça de consolação, se Ele quiser conceder-lhe. Mas se Nosso Senhor lhe fizer beber algumas gotas do seu cálice de fel ou partilhar de seus desamparos, de sua tristeza, a alma, em santo abandono, sorverá com amor esse cálice, participará da agonia de Jesus, e ser-Lhe-á fiel na provação. (p.65)

A alma que vive em santo abandono entrega inteiramente a Deus a própria vontade, para que Ele a governe e a mova como quiser. (p.66)

Começai todas as vossas ações e também as vossas adorações, por um ato de amor, e abrireis assim, deliciosamente, vossa alma à ação de Jesus. O amor é a única porta do coração. (p.297)

Oh! Deus ama com predileção os pequenos e humildes que vivem a seus pés, sob a influência celeste de seu Coração. (p.194)

O Senhor se agrada do louvor que parte dos lábios das criancinhas porque provém de um coração puro. (p.304)

A ação de graças é para a alma o mais suave ato de amor, e, para Deus, o mais agradável; é a homenagem perfeita à infinita bondade. (p.315)

Eis o segredo da paz interior: a simplicidade da criança. (p.417)

Batismo

O homem recebeu no Batismo uma graça de filiação divina, de adoção de amor,…E quando ele tiver mais idade o amor lhe ensinará a obedecer, a trabalhar, a fazer sacrifícios heróicos, com a maior simplicidade. Assim, o amor de Deus se desenvolve por meio da fé, se avigora com as virtudes que ele inspira e aperfeiçoa. O amor de Deus , portanto, deve ser a primeira ciência do cristão, sua primeira virtude, tal como lhe constitui a lei e a graça soberanas. Viver de amor é o dever de todos, tanto dos que começam como dos que progridem ou dos que estão prestes a atingir o fim (p.45-46)

Providencia Divina

A Providência divina combina todos os acontecimentos, quanto ao tempo e às circunstâncias, em torno dessa alma querida, como se fosse ela o centro do movimento celeste e terrestre, a fim de que tudo sirva para o seu fim sobrenatural. (p.47)

O homem deste século vai ao encontro dos acontecimentos, provoca-os e os faz servir aos seus desejos. O homem de Deus aguarda a hora da Divina Providencia, coopera com o movimento da graça, entrega-se à vontade integral de Deus, presente e futura, com o abandono filial que confia todo o cuidado de si mesmo e reverte toda a glória a Deus Pai. (p.50)

Misericórdia de Deus

Considerando a grande paciência de Deus para com certos ímpios, somos levados a crer que é realidade o que se ouve dizer: basta ser ímpio para viver longamente. O próprio Espírito Santo assim se exprime: “O justo morre deixando por acabar as suas obras (cf.Sabedoria 4, 7), enquanto o ímpio vive muito tempo em sua malícia” (conf. Eclesiastes 8, 12) É que Deus os espera para convertê-los; (conf. Sabedoria 12, 19-20; 2 Pedro 3, 9) Cada hora vale, assim, por um novo perdão, um nova criação de misericórdia sobre nós;(p.69)

Jesus pede somente que o pecador se ponha de joelhos, e lhe diga por entre lágrimas: “Pequei, Senhor, não sou digno de ser perdoado!” Não resiste então, e perdoa tudo! (p.71)

A graça se adapta ao temperamento de cada um, porquanto Deus não quer que destruamos a nossa natureza, e sim o pecado com suas conseqüentes inclinações e maus hábitos. (p.91)

A misericórdia acompanha o homem por toda parte, jamais o abandona, mesmo depois da morte, pois o segue até o purgatório, que é o ultimo esforço da misericórdia de Deus para com o pecador. (p.224)

A misericórdia de Deus para com o homem é infinita; jamais conseguiremos esgotá-la ou abafá-la com as nossas ingratidões. (p.225)

Vida de Oração

Jesus no Santíssimo Sacramento permanece em oração contínua, contemplando se cessar a glória de seu Pai e intercedendo por nós (cf. Hebreus 7, 25), a fim de nos ensinar na oração está o segredo da vida interior; que é necessário cuidar da raiz da árvore se quisermos colher bons frutos; que a vida exterior, tão valiosa aos olhares do mundo, não passa de uma flor estéril se a caridade, que produz os frutos, não for alimentada. Sede, portanto, contempladores de Jesus, para conseguirdes êxito em vossas obras. (p.81)

É a vida de oração que constitui o valor de toda santidade, a raiz da caridade e do amor. (p.82)

Fazer silêncio, destruir o obstáculo que impede o Espírito Santo de orar em nós e nos unirmos à sua prece – eis o exercício e a virtude de oração. (p.84)

O amor provém da intensidade da oração. Sede pois, antes de tudo, uma alma de oração. (p.85)

Os santos são admiráveis em se aproveitar de tudo para excitar os afetos de oração, em toda parte. (p.88)

Sem o hábito da presença de Deus, a vaidade domina o espírito, que então se dissipa e voa de um lado para o outro como o inseto e a borboleta, enquanto o coração procura as consolações piedosas porém humanas, e a vontade se entrega à preguiça e às antipatias naturais. (p.102)

É impossível ficar sempre no campo da batalha; a alma tem necessidade de repousar em Deus. (p.102)

Amai portanto o silencio, a solidão da alma: é o santuário de Deus, onde Ele anuncia os oráculos de amor. (p.104)

Jesus intercede perpetuamente (cf. Hebreus 7, 25) por todos os membros de seu Sacerdócio, a fim de que eles sejam repletos de seu Espírito Santo e de suas virtudes, de zelo por sua glória, e totalmente devotados à salvação das almas que Ele resgatou ao preço de seu Sangue e de sua Vida. Rezai pelo vosso Bispo, a fim de que Deus o conserve, abençoe e console. Rezai pelo vosso Pastor, a fim de que Deus lhe conceda todas as graças de que ele tem necessidade para bem dirigir e santificar o rebanho confiado à sua solicitude e à sua consciência. Pedi muito a Deus que conceda à sua Igreja numerosas e santas vocações sacerdotais; um padre santo é o maior dom do Céu, pois ele pode salvar um país inteiro. (p.321)

Espírito Santo

É verdade de fé que sem o Espírito Santo não somos capazes de um só pensamento sobrenatural (cf. 1 Coríntios 12, 3; 2 Coríntios 3, 5). (p.107)

Somos verdadeiros templos do Espírito Santo(cf. 1 Coríntios 3, 16; 6, 19) e um templo é casa de oração. (p.108)

Rezemos, sim, com o Espírito Santo, e Ele nos ensinará toda a verdade. Assim é que o amor dos apóstolos somente foi perfeito quando receberam o Espírito Santo. (cf. João 16, 13) (p.108)

A pureza é necessária para que Ele habite em nós, pois que o Espírito Santo não se encontra nem opera onde há pecado, porque então estaríamos mortos e nossos membros paralisados, incapazes de prestar cooperação, sempre necessária. O Espírito Santo também não pode trabalhar com uma vontade indolente ou dominada por afeições desregradas. A presença do Espírito Santo se torna então passiva, apesar de ser Ele uma chama que, subindo sempre, quer nos levar consigo. Se tentarmos detê-la, ela se extingue, ou, melhor, o Espírito Santo em breve se afasta da alma assim paralisada e apegada à Terra, pois não tardará em cair em pecado mortal. (p.109)

A nós, adoradores, o Espírito Santo nos faz adorar em espírito e em verdade (João 4, 23). Reza em nós e rezamos nEle, que é, antes de tudo, o Mestre da adoração. Foi Ele quem comunicou aos Apóstolos a força e a graça de orar, e é chamado “Espírito de súplica e oração”. (Zacarias 12, 10) (p.111)

Quanto mais a alma é santa, mais humilde é. (p.417)

Nossa Senhora, Mãe e modelo dos adoradores

Devemos honrar e amar a Santíssima Virgem como verdadeiros filhos, visto que Nosso Senhor no-la deu por mãe. Oh! não duvideis, se os felizes eleitos da Eucaristia, deveis esta graça a Maria, foi Ela quem vos conduziu pela mão até Nosso Senhor. Colocai-vos sob a sua direção, e para serdes bons servos do Rei Jesus, sede filhos devotados de Maria, Rainha e Mãe dos servos de Nosso Senhor, cópia única, verdadeira e perfeita das virtudes de seu Divino Filho. (p.149)

Maria possui o segredo de seu amor; sua grande missão é formar Jesus em nós. Compete à mãe a educação dos filhos, e parece que Jesus, antes de morrer, disse a Nossa Senhora: Entrego em vossas mãos os frutos da Redenção, a salvação dos homens, o serviço de meu Sacramento de Amor; formai-me bons adoradores em espírito e verdade que me adorem e me sirvam como vós mesma me servistes e adorastes. (p.150)

A Santíssima Virgem é aquela mulher privilegiada que, com o calcanhar, esmagou a cabeça da serpente infernal. (cf. Gênesis 3, 15)

Nós, adoradores, devemos ainda considerar, no mistério da Imaculada Conceição, que Deus preservou assim Maria porque desejava habitar nela, e queria encontrar um santuário puro e perfeito. (p.151)

Maria nasceu com uma auréola de grandezas que ultrapassam todas as riquezas dos filhos deste mundo. (p.152)

E nós, adoradores, devemos nos alegrar porque Maria nos traz o Pão da vida (João 6, 35.48), e cumpre-nos saudá-la desde esse dia como a aurora da Eucaristia, porque sabemos que o Senhor há de tomar dela a substancia do Corpo e do Sangue que nos serão dados em alimento no Mistério de seu amor. (p.152)

Imitemos o silêncio, o recolhimento da Santíssima Virgem, e a sua vida oculta em Deus; que ela seja o modelo de nossa vida eucarística. Abraçai portanto a vida simples e desconhecida, os empregos modestos de vossa posição, alegrai-vos de não serdes conhecidos, escondei a pequenina chama de vossa lâmpada, pois o menor sopro poderia apagá-la. (p.153)

O Espírito de Amor santificou Maria para que ela se tornasse digna de ser Mãe de Deus. (p.154)

A vida de Maria é sempre igual, sempre simples e oculta; é o reinado da modéstia humilde e suave, modéstia que forma o distintivo de sua piedade, de suas virtudes e de todos os seus atos. Se quisermos, portanto, ser filhos desta Mãe amável, devemos nos revestir de sua modéstia, tomando-a por tema habitual de nossas meditações. (p.156)

Em Maria, o Verbo se uniu à natureza humana; pela Eucaristia, une-se a todos os homens. (p.157)

O Santo Evangelho proclama a Santíssima Virgem cheia de graça, e o Anjo lhe diz que o Senhor permanece com ela. (cf. Lucas 1, 28) E de que maneira? Plena e soberanamente. O Espírito Santo reina em seu espírito e em seu coração, e dirige todos e cada um de seus pensamentos e afetos. Tornou-se a personalidade de Maria, que nada mais é em si mesma toda entregue que está ao Espírito de Deus, que a cobre, a envolve, e reveste cada uma de suas potências dos raios da graça e do amor. (p.158)

Maria tornou-se sempre escrava de amor do Espírito Santo, e a sua vida toda foi manifestação de sua obediência, sujeição, e total foi a manifestação de sua obediência, sujeição, e total esquecimento de si mesma. E tudo fez por amor; daí ser chamada a Mãe do belo amor, do amor que ama a Deus por Ele mesmo, por causa de suas perfeições e belezas, e porque é o princípio e o fim de tudo. (Cf. Apocalipse 1, 8; 22, 13.) (p.159)

É que Maria não pensava em si mesma: dava amor por amor. (p.159)
Adorar Jesus presente em nossa alma em união com Maria, é o meio mais seguro de Lhe fazermos uma grata recepção, ao mesmo tempo rica de graças para nós. (p.161)

Em criatura alguma Nosso Senhor viveu tão plenamente e reinou com tanta sabedoria como em Nossa Senhora! Não era mais a Virgem, e sim Jesus quem pensava, julgava e queria: Ela se contentava em repetir por cada um de seus pensamentos, por todas as palpitações de seu coração, e particularmente por cada uma de suas ações: Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua santa palavra (cf. Lucas 1, 38). Em Maria, jamais houve resistência, hesitação ou divergência, nem sequer demora em cumprir a vontade de Jesus Cristo, mas ao contrário, sempre identidade de sentimentos, de vistas de querer. (p.163)

O mundo era indigno de receber o Verbo diretamente de Deus. Maria foi nossa medianeira na Encarnação e continua a desempenhar esse mister, porquanto é pelas súplicas de Maria que chegamos ao conhecimentos de Jesus Cristo, abraçamos sua Divina lei, e obtemos o dom da fé. (p.164)

A devoção à Imaculada e Santíssima Virgem é uma conseqüência rigorosa de nossa fé em Jesus Cristo. O culto de Maria acompanha o amor de Jesus, seu Divino Filho. Com efeito, como é possível adorar Jesus Cristo sem honrar aquela de quem O recebemos? Como é possível amar a Jesus sem amar Nossa Senhora, sua divina e terna Mãe, a quem Ele tanto amou? A devoção a Maria é, portanto, o dever filial de todo cristão. (p.165)

Que belo Ostensório é Maria! Ostensório fabricado com esmero pelo próprio Espírito Santo! (p.168)

Foi Maria quem conservou para nós esse Pão! Ovelha divina, nutriu com seu leite virginal o Cordeiro cuja carne vivificante seria o nosso alimento mais tarde! (p.168)

É Maria quem faz a nossa educação cristã. Jesus conquistou todos os tesouros da graça; compete a Maria recolhê-los, distribuir o Pão que Ele nos deixou e fazer observar a lei que promulgou. (p.169)

Quando sofreu Jesus Cristo para nos regenerar! Maria sofrerá com Ele, imóvel ao pé da Cruz, partilhando em seu coração os tormentos da Paixão a fim de se tornar nossa Mãe adotiva. (p.176)

Por meio da Eucaristia a vida da Santíssima Virgem era totalmente interior, silenciosa e oculta afastada do mundo, tendo Jesus por única testemunha e confidente. (p.177)

O Espírito Santo foi o agente divino da Encarnação. Preparou Maria para a dignidade de Mãe de Deus, preservando-a de toda mancha em sua Conceição Imaculada, semeando em sua alma desde esse instante as mais belas virtudes e cultivando-a depois. (p.179)

A Assunção de Maria nos autoriza a dizer: “Ó Deus, nossa miséria é grande, na verdade; esta terra é um vale de lágrimas, (cf. Salmos 79, 6; 5 Os solilóquios de Santo Agostinho, c35,6) porém vos envia o que possui de mais belo, maravilha que jamais imaginou produzir: Maria, vossa Mãe! Olhai-nos, pois, com olhares misericordiosos, em atenção a essa flor bendita de nosso vergel que hoje vos oferecemos; á a mais pura e formosa que nele floresceu.”(p.180)

Ó Maria, minha celestial Rainha e divina Mãe. (p.181)

Sagrado Coração de Jesus

A finalidade da festa do Sagrado Coração é honrar, mais fervorosa e ardentemente, o amor de Jesus Cristo sofrendo e Instituindo o Sacramento de seu Corpo e Sangue. (p.187)

Quão profundas foram as dores do Coração de Jesus! Todas as provocações convergiam para Ele. Foi cumulado de humilhações, ferido pelas mais revoltantes calúnias, que procuravam roubar-lhe a honra; foi saciado de opróbrios e coberto de desprezos. Apesar de tudo isso, porém, ofereceu-se voluntariamente, sem a mais leve queixa. Seu amor foi mais forte que a morte, e as torrentes da desolação não conseguiram arrefecer-lhe o ardor. (p.187)

E que a alma examine se não se contradiz em seu modo de agir, e que repita sem cessar: “Jesus manso e humilde de coração” (Mateus 11, 29) fazei meu coração semelhante ao vosso. (p.199)

Se quereis que Nosso Senhor vos estreite contra o seu Coração e vos cumule de seus favores, sede verdadeiramente humildes. Tender à humildade é tender à santidade, porque uma medida exata e infalível da outra. Quanto mais humilde mais santo sereis. (p.201)

É justo que encontre em nós um coração que ame o que Ele ama, segundo o que nos disse: “Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração”. (Mateus 11, 29).

A humildade de coração produz a doçura. Jesus é manso. A virtude da mansidão constitui o verdadeiro caráter e o espírito de sua vida. Jesus não diz: “Aprendei de Mim que sou manso” (Mateus 11, 29) (p.202)

Jesus é manso por natureza: é o Cordeiro de Deus. É manso por virtude para glorificar seu Pai nesse estado, e é manso por missão de seu mesmo Pai. (p.202)

O silencio de Jesus é paciente. Ouve os que Lhe falam sem jamais interrompê-los, se bem que saiba de antemão ao que Lhe têm a dizer; responde-lhes diretamente, admoesta, corrige com bondade, sem humilhar, sem magoar, como faz o melhor dos mestres para com o aluno. Escuta mesmo as coisas desagradáveis, alheias ao assunto, e sempre encontra ocasião para instruir e fazer o bem. Como é diferente o nosso modo de agir! Mostrando-nos impacientes em demonstrar que já compreendemos o que nos dizem, aborrecidos de escutar o que nos atrasa ou contraria, e tudo isto se revela no semblante e nas maneiras. (p.203)

Jesus é todo mel, todo doçura, todo amor! (cf. Hino do século XII: Jesu dulcis memória – 3º v.). (Brev. romano) Não foge de quem O odeia; convive com simplicidade com aqueles que hão de abandoná-lO, com a mesma simplicidade, a mesma doçura apesar de ter conhecimento de tudo. É que, não tendo chegado ainda o momento de falar, considera o futuro como se Lhe fosse desconhecido. E o que dizer da mansidão de Jesus no sofrimento? Cala-se habitualmente diante do espírito incrédulo de muitos de seus discípulos, diante do coração iníquo e ingrato de Judas, de quem conhece os pérfidos pensamentos e maquinações infames. Jesus tem a posse de si mesmo; é calmo, afetuoso com todos, como se não soubesse de coisa alguma. Entretém com eles as relações de sempre, a fim de respeitar o segredo que o Pai guarda com referência a eles. (p.204)

Jesus, mesmo na Paixão, não recebeu tantas humilhações como no Santíssimo Sacramento! A Terra é para Ele um Calvário de ignomínia. Vêem-se mesmo cristãos O desprezam, esquecendo esse Coração que lhes testemunhou tanto amor e que ainda se consome de amor por eles!… (p.213)

Ah! Jesus procurava um consolador em sua agonia, suspirava, no alto da cruz, por quem compartilhasse de sua dor profunda! Hoje em dia, porém, mais do que nunca, é necessária a reparação para com o Coração adorável de Jesus. (p.213)

Ora, no Santíssimo Sacramento, o Coração de Jesus está cheio de vida, palpitando por nós. (p.215)

Deus é Amor

Séculos e séculos antes de existirmos, Deus nos concebera em seu pensamento, nos idealizara em seus desígnios, pensamento e desígnio de amor. (cf. Efésios 1, 4) Ah! jamais O haveremos de amar como Ele nos ama. Ainda mesmo que nos esforcemos por dilatar o nosso amor, estendê-lo, fazê-lo ultrapassar os limites, estaremos sempre aquém do devido reconhecimento, sempre devedores de amor! (p.219)

Sim, Deus nos ama e não se contenta em nos amar genericamente, como parte de um todo, o que seria muito, aliás, e mais suficiente para a nossa salvação. Mas Ele quer atingir o extremo do amor infinito, e, por isto nos ama individualmente, particularmente, como se cada um de nós fosse o único a existir neste mundo. (cf. Gálatas 2, 20) (p.220)

A bondade de Deus que sobressai dentre todas é a bondade que perdoa. Deus é bom, e me ama, porque me perdoa quando O ofendo. Não tenho necessidade de outra prova de seu amor; nenhuma outra é mais convincente, nenhuma nos sensibiliza tão profundamente. (p.224)

A Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana

Ora, é pela Eucaristia que a Igreja forma Jesus Cristo em seus filhos. A Eucaristia é o Pão Vivo (João 6, 51) com que lhes entretém a vida sobrenatural, e o meio de que se serve para educá-los, pois somente na Eucaristia as almas encontram a abundancia de luz e de vida, a força de todas as virtudes. (p.368)

A caridade maternal da Igreja nos acompanha até mesmo no Purgatório, onde ainda exerce o poder de seu sufrágio. (p.371)

A Igreja de Jesus Cristo é a Igreja Romana, que se personifica no Papa, sucessor de Pedro e Vigário de Jesus Cristo neste mundo. (p.372)

O Papa é Jesus Cristo ensinando, Jesus Cristo santificando, Jesus Cristo governando a sua Igreja. (p.372)

A Igreja é ainda o Bispo, representante do Papa, numa diocese, e que, por intermédio do mesmo Papa, recebeu de Jesus Cristo o poder e a graça de “governar a Igreja de Deus”, como diz São Paulo (cf. 2 Timóteo 1, 8)A Igreja é o Sacerdote, representante do Bispo numa paróquia, e que, no dizer do referido Apóstolo, é o Ministro de Jesus Cristo e o dispensador dos mistérios. (p.373)

O Papa é na Igreja o que o sol é para o mundo (Mateus 5, 14) e o que a alma é para o corpo. Os Bispos e os Sacerdotes recebem dele a doutrina e a regra de conduta a fim de comunicá-las a todo o povo cristão. (p.373)

É necessário em primeiro lugar honrar o Papa como o Vigário visível de Jesus Cristo. O Papa é o Doutor dos Doutores, o Pai dos Pais, o Mestre dos Mestres; (p.375)

Ah! o Sacerdócio é a maior dignidade que existe sobre a Terra; (p.378)
O Sacerdote prolonga a missão do Salvador sobre a Terra; no altar continua e remata o sacrifício do Calvário, aplicando às almas os frutos divinos de salvação. No Confessionário, purifica as almas no sangue de Jesus Cristo, gerando-as à santidade de seu amor. No púlpito, anuncia a verdade, o Evangelho de amor. Faz com que se projetem sobre as almas os raios desse Sol divino que ilumina e fecunda o homem de boa vontade. Ao pé do Tabernáculo, adora o seu Deus oculto por amor, como fazem os anjos na glória. Intercede aí por seu povo, pois é o poderoso medianeiro entre Deus e o pobre pecador. No mundo, o Sacerdote é amigo do pobre, o consolador do aflito, do enfermo, o pai de todos. É o homem de Deus. (1 Timóteo 6, 11; 2 Timóteo 3, 17) Jesus Cristo ama o seu Sacerdote e lhe prodigaliza as suas graças, os seus favores. (p.379)

O Sacerdote completa a obra da criação, elevando o homem até Deus, e refazendo-o à sua imagem e semelhança, que foram manchadas e deformadas pelo pecado. (p.380)

O Sacerdote é o filho predileto de Maria Santíssima: é Ela que o inicia na piedade desde a infância, e que lhe conserva a virtude. É Maria que sustenta seu fervor, que o conduz pela mão até os pés do altar e o apresenta ao Bispo, como fez outrora, levando Jesus ao Templo. Nossa Senhora infunde igualmente coragem nos múltiplos sacrifícios dos estudos, das lutas e responsabilidades do Sacerdócio. E o padre formado por Maria tornar-se-á de certo um santo e bom Ministro do altar, e será bem acolhido por Jesus. (p.383)

Ah! quão belo, quão divino e cheio de grandeza é o Sacerdote! Participa e completa a paternidade de Deus Pai. (p.386)

O Espírito Santo ama o Sacerdote, porque é o instrumento de que se serve para gerar nas almas a vida Divina e renovar, em suas mãos, a obra admirável da Encarnação operada no seio de Maria. (p.386)

E Nosso Senhor Jesus Cristo?! Ah! Ele ama o Sacerdócio, e o ama acima de tudo, pois que lhe concedeu todo o poder sobre a sua Pessoa, que somente pode viver com os homens, trabalhar entre eles e acercar-se dos pecadores, por intermédio do Sacerdote! Nosso Senhor não pode passar sem o seu Sacerdote! (p.386)

O Sacerdote é o homem do Coração de Nosso Senhor, que o ama sobre todas as coisas. Foi por amor que o tornou Sacerdote; é o fruto de suas mãos e de seu Coração. O Sacerdote brota das chagas de Jesus Cristo. (p.387)

O Sacerdote teria, assim, motivo de se envaidecer. Mas Deus, a fim de conservá-lo na humildade, deixa-lhe os seus defeitos, fragilidade, tentações e pecados, como contrapeso suficiente para mantê-lo no seu próprio nada. O sacerdote necessita também de misericórdia, e, ao perdoar os pecados de seu irmão, sente que, do mesmo modo, carece de perdão. (p.387)

Pedi, Sacerdotes, bons Sacerdotes. Toda família que conta entre seus membros um Sacerdote será eternamente enobrecida. Nosso Senhor a abençoa e protege com amor privilegiado. (p.389)

Desprezar o Sacerdote, pecar contra ele, seria pecar contra o próprio Jesus Cristo. “Aquele que vos despreza a Mim despreza”(Lucas 10, 16) (p.390)

Que os fiéis estejam, pois, bem precavidos contra a astucia infernal de seus inimigos que , com o intuito de destruir-lhes a fé no Sacerdote, não cessam de apontar os seus defeitos de homem, e de caluniá-lo à vontade, a fim de torná-lo desprezível e por este meio escandalizar os fracos. (p.390)

Cristão, compadecei-vos de vossos Sacerdotes! (p.392)

Família

Um pai de família deve se aplicar, portanto, antes de tudo, em dar aos seus filhos uma educação cristã, como alicerce sólido e indispensável de todo estado honesto e de futuro feliz. Deve, com grande cuidado, velar pela moralidade das escolas e das casas de educação às quais deseja confiar a inocência e fraqueza de seus filhos. (p.401)

Que o pai seja severo na proibição de livros perigosos, pois a impressão que deixam é indelével. Que seja intransigente em se tratando de más companhias, porquanto a mais sólida virtude não resiste por muito tempo a tão funesto escolho. (p.403)

A norma de sua vida, a vida de mãe de família é uma vida de dependência. Ao abraçar o seu estado, ela faz a Deus o sacrifício de sua liberdade e de sua vontade. (p.407)

Maria Santíssima jamais saiu dos limites da vocação simples e escondida que Deus Lhe havia traçado. E por isto foi tão agradável a Deus, tão perfeita em seu amor. (p.407)

A missão divina da mãe de família é missão de fé, de virtude, de oração e de sofrimento. (p.410)

A missão da mãe de família é missão de virtude. A mãe de família deve inspirar a virtude e torná-la amável a cada um dos seus. (p.411)

A mãe cristã ensinará muito cedo seus filhos a rezar, encarregando-se de fazer com que eles cumpram cada dia este dever. Há de habituá-los, sobretudo, à pratica da visita freqüente ao Santíssimo Sacramento, levando-os consigo à Igreja desde os mais tenros anos. (p.411)

Não amais por acaso a alguém neste mundo? Mães, não tendes vós um amor apaixonado pelos vossos filhos? Esposas, não amais profundamente vossos esposos? Filhos, tendes lugar em vossos corações para outra coisa além de vossos pais?

Pois bem! Revertei esse amor para Jesus. Não existem dois amores, mas apenas um. Nosso Senhor não vos pede que tenhais dois corações, um para Ele e outro para os que amais neste mundo. (p.415)

Bibliografia: São Pedro Julião Eymard. Flores da Eucaristia. Ed.Palavra e Prece. São Paulo, 2005.

O Amor de Jesus

O amor é o ponto de partida do serviço de Jesus Cristo e da perfeição evangélica. O amor, ponto de partida do serviço de Jesus Cristo. (p.14)

O amor é o ponto de partida do apostolado, do zelo pela Glória de Deus. Antes de confiar sua Igreja a Pedro, Jesus quer fazer dele o discípulo do amor;… “Simão, filho de João, tu me amas mais que estes?”, responde vivamente Pedro, “tu sabes que eu te amo”. O amor genuíno é humilde, eis por que Pedro não ousa comparar-se aos outros. “Apascenta os meus cordeiros”, trabalha por mim. Eis aí a única prova de amor, isto é, a dedicação filial.  (p.17)

O Amor de Jesus só pode ser devidamente apreciado na Sagrada Comunhão, quando a alma está dominada por esse fogo Divino. Ora, o fogo não se define, faz-se sentir. (p.49)

A caridade do adorador não se limita a este mundo. Vai visitar as almas que padecem no Purgatório, levar-lhes o socorro de seus sufrágios, de suas indulgências, do Santo Sacrifício; vai espargir algumas gotas do Sangue Divino sobre suas dores, sobre as expiações de seus pecados, a fim de consolá-las e de lhes abrir com maior brevidade as portas da Pátria Celeste. (p.58)

A vida mais longa, mais bela, mais rica, não passa de uma morte, digna de lágrimas, quando não tem a Jesus Cristo por fim. (p.164)

Fazei tudo por amor a Deus, sofrei tudo por Ele, e esse Bom Pai se agradará de nós. Ah! quão felizes seríeis se o amor fosse a regra, o motivo e a recompensa de vossos atos. Pode quem ama a Deus e é amado por Deus desejar ainda algo sobre a terra? (p.167)

É pela cruz que vamos a Jesus, que nos unimos a Jesus e que vivamos de seu Amor. Grande Graça é a Graça dos sofrimentos, e grande virtude é saber sofrer a sós em seu Amor. (p.233)

Eucaristia

A Sagrada Comunhão é a derradeira graça de amor, e nela Jesus Cristo se une espiritual e realmente ao fiel, a fim de nele produzir a perfeição de sua Vida e de sua Santidade. (p.71)

A Santa Igreja exige o máximo respeito diante do Santíssimo Sacramento, sobretudo quando exposto. Então deve reinar um silêncio ainda mais absoluto, uma atitude ainda mais respeitosa; (p.79)

O amor de Deus da Eucaristia deve ir mais longe ainda; deve preocupar-se em saber se Jesus será recebido digna e decentemente na casa do enfermo; (p.87)

Maria foi sempre a primeira adoradora de Jesus em todos os seus Mistérios. Convinha, com efeito, que coubesse a Coração tão puro e tão inflamado de amor a honra da primeira homenagem, e que recebesse a Graça inicial de no-la comunicar. Foi Maria que primeiro adorou o Verbo Encarnado em seu seio virginal; quem, ao vê-lo nascer, lhe ofereceu o primeiro dom de amor, que lhe fez a primeira profissão de fé. (p.89-90)

Em todas essas homenagens, o adorador tomará a Maria como modelo e protetora. Saberá honrá-la e amá-la como Rainha do Cenáculo e Mãe dos adoradores, os títulos mais caros ao seu Coração e mais gloriosos para Jesus. (p.94)

Mas a vida interior de Maria reside principalmente no amor que tem ao seu Divino Filho, partilhando com ele todos os seus pensamentos, todos os seus sentimentos, todos os seus desejos. Ela nunca perdia a lembrança da Presença de Jesus; unia-se incessantemente à sua oração e às suas adorações; vivia nele e para ele, recolhida na contemplação ininterrupta de sua Divindade e de sua santa Humanidade, toda submissa, toda entregue à influencia de sua Graça. (p.97)

Jesus no Santíssimo Sacramento, é sempre o Bom Mestre que, unicamente, aponta o caminho do Céu, ensina a Verdade de Deus, comunica a Vida de Amor. (p.121)

Jesus, no Santíssimo Sacramento, é sempre o Salvador em estado de imolação, oferecendo-se sem cessar ao Pai, como o fez na Cruz, pela salvação dos homens; apontando-lhe suas Chagas profundas e seu Coração aberto, para obter o perdão do gênero humano. (p.121)

O Céu se regozija, a Santíssima Trindade se compraz em ouvir a alma cristã exclamar: “Não vivo mais eu, mas Jesus vive em mim”. (p.175)

O Sacerdócio

Aos Sacerdotes, respeito religioso, honras angélicas. São eles os anjos da Nova Lei, os embaixadores celestes, os ministros de Deus. Desprezar o Padre, pecar contra ele, é pecar contra o próprio Jesus Cristo. “Aquele que vos despreza, me despreza” (Lucas 10, 16), disse o Salvador. (p.106)

Sabedoria

Desconfiai também da tentação de zelo, que nos leva a pensar nos outros e a descuidar-nos de nós mesmos. (p.181)

Amar a Deus é por Ele sofrer; amá-lO muito, é querer sofrer muito; amá-lO, perfeitamente, é morrer por Ele. (p.234)

Fomos talhados para sofrer, porque fomos criados para o Céu de Jesus Crucificado. A semente da Glória é o sofrimento. (p.235)

O sofrimento que, na intenção de Deus, se destinava a purificar-nos, a santificar-nos, a aproximar-nos dele, a levar-nos ao Céu, produz infelizmente, muitas vezes, efeito todo contrário. É que não sabemos sofrer. (p.236-237)

Coragem, o tempo esta passando, o Céu se aproximando e também Deus em seu eterno Amor. (p.239)

Em momento de provação, de sofrimento, de tentações de revolta, de irritação, entregai cuidadosamente a alma à Virgem Santíssima, vossa Mãe, a Jesus, vosso doce Salvador. (p.240)

A tempestade purifica a atmosfera, mas é passageira, e o sol surge em seguida mais belo e mais brilhante. (p.246)

Misericórdia de Deus

Oh! quanto deseja Jesus a volta do pecador e quanto sofre ao vê-lo retardá-la. (p.93)

Ao perdão, Nosso Senhor acrescenta Graças de uma doçura inefável. Afasta-nos a lembrança penosa dos nossos pecados, em vez de nos conservar um sentimento de pesar contínuo, diminui a dor, aviva a confiança, distribui a paz e alegria, a tal ponto que quem, cheio de vergonha se confessar por entre lágrimas, se erguerá absolvido e tão feliz, que a si mesmo causará admiração. No mundo, quem esteve na prisão levará sempre o vexame de um mau nome. Jesus reabilita aqueles a quem perdoa e trata-os como se nunca o tivesse ofendido. Quantas vezes os maiores pecadores não se tornam os maiores Santos! Assim São Paulo, para glorificar a Misericordia Divina, confessa ter sido um blasfemador, um perseguidor, o primeiro dos pecadores; no entanto Nosso Senhor chama-o de vaso de eleição. (p.97)

Deus nos amou desde toda eternidade, Verdade esta que devemos meditar toda a vida. Sempre existimos no Amor divino, e a Santíssima Trindade sempre nos teve presente: O Pai pensava na criatura; o Filho, naqueles que havia de remir; o Espírito Santo, nos que havia de santificar. (p.201)

A Misericordia de Deus é magnânima; perdoa generosamente e para sempre. Não sabe esquecer senão radicalmente. Restitui-nos a alegria da inocência e a honra primitiva. (p.231)

O caminho da perfeição

Ah! Que vigilância é necessária para não se tornar um sepulcro caiado! É bem mais fácil parecer perfeito aos outros quando no íntimo não se é nada, do que, sendo santo interiormente aparentá-lo exteriormente. (p.20)

Um dia, seremos amplamente recompensados de tudo quanto tivermos feito. Mas enquanto esperamos, entreguemo-nos somente ao serviço Divino. (p.45)

Mas existe uma espécie de orgulho mais perniciosa e que devemos evitar de modo particular: é o orgulho espiritual, que consiste em se gloriar das Graças Divinas, em se fazer a si o fim dos dons sobrenaturais, em se coroar com os benefícios Divinos. (p.75)

Foi na sua Agonia sangrenta que, no dizer de alguns santos, Nosso Senhor reparou sobremodo os pecados de pensamento…Agora, quanto à sensualidade da gula. O Salvador, que sempre vivera como pobre, contentando-se, a maior parte do tempo, com pão e água, nada provou no correr da Paixão. Depois de ter suado Sangue e água, de ter sido flagelado com três mil golpes, de percorrer, sob o ardente sol oriental, as ruas de Jerusalém, carregando a Cruz, cai extenuado, atormentado pela sede viva. Todavia esperará o Calvário para manifestá-la e por única resposta lhe oferecerão vinagre. A sensualidade do leito. Não é o leito da Cruz bastante duro? E o de Getsêmani? E o primeiro não foi a palha do presépio?…A palha, a terra e a Cruz, eis como Jesus satisfaz as imortificações do deitar.  (p.79-80).

Os apóstolos tornaram-se amigos e confidentes de Jesus, cujos segredos conheciam. “Chamo-vos meus amigos e não somente meus servos, porque tudo o que aprendi de meu Pai, vo-lo ensinei”. (p.102)

Se alguém vos amar em virtude de vossas qualidades, dizei-lhe: Não vos conheço! Iludi-vos afeiçoando-se a mim, que já não existo naturalmente. Dei a Jesus Cristo minha personalidade e meu coração e só Ele vive em mim. (p.114)

A cruz é antes um consolo que um suplício; assim o entenderam os Santos, ao abraçarem-na com tanto amor, com tanta alegria. (p.122)

O corpo não tem inteligência, nem fé. A vontade, por conseguinte o dominará e conduzirá; é um animal levado unicamente pela pancada. Ignora o que seja sobriedade e honra; a virtude lhe é desconhecida, é desregrado por natureza e deseja obstinadamente satisfazer seus caprichos. (p.124)

Mortifiquemos, pois, esse corpo que nos pode trair. (p.124)

Amar a Deus, rezar, tomar resoluções, é bom, é necessário, mas não basta; é preciso ainda subjugar vosso escravo. Enquanto o homem não domar o corpo, não será nem santo, nem verdadeiramente devoto; não produzirá atos bons, e sua piedade não será nem sólida nem duradoura. (p.126)

São Paulo prega em todas a suas epístolas a crucificação da carne, dos sentidos, do homem velho. É preciso reduzi-lo à escravidão, e quem não conseguir domá-lo por completo, jamais será virtuoso. Nisso consiste o exercício exterior e a prova da virtude da mortificação. (p.126-127)

Deus permitirá, por vezes, que as almas mais virtuosas vejam as coisas por um prisma turvo. Elas vos perseguirão, apesar de vossa inocência, a fim de vos purificar cada vez mais. Deus vos imporá ainda as enfermidades e os sofrimentos físicos, qual outra expiação corporal. Não os procurareis, nem às tentações e perseguições, mas se os encontrardes, aceitai-os, agradecendo à Misericordia Divina, que vos obriga desde já penitencia, para mais tarde vos poupar. (p.130-131)

A vida religiosa é um Calvário, é a escola do sofrimento, e procura-se nela um leito de preguiça. Ao faltar qualquer coisa, há impaciências, murmúrios…Viestes a vida religiosa para ser tratados melhor que em casa? Mil vezes, então, seria melhor ter ficado lá mesmo. (p.133)

Acreditai no que digo. Ninguém, nada neste mundo poderá vos tornar verdadeiramente felizes. Isso está reservado a Nosso Senhor. (p.163)

No Céu, os Santos são recompensados até do bem que fizeram às almas que, apesar dos seus socorros, se perderam. (p.165)

O retiro é a conversão real do homem natural ao homem espiritual, ou seja, da virtude imperfeita à perfeita. (p.197)

O homem, ao ser batizado, terá o seu nome inscrito no Livro da Vida; seu lugar no Céu ficará marcado, será o herdeiro da glória, com direito à herança de Jesus Cristo e nele. (p.210)

Desejar o Céu é um sentimento santo. E Deus, se difundiu em vossa vida sofrimentos, perseguições e cruzes, foi para despertar-vos este desejo. É ainda porque permite a inconstância nas amizades humanas. Não nos quer ver apegados aos bens terrenos, nem a pessoa alguma. Não fomos criados uns para os outros, mas só para Deus. (p.214)

Deus, em seu Amor, criou-nos para o Céu, que deve ser o objeto dos nossos desejos, o único e verdadeiro fim a que devemos visar. Se estamos na terra, é para nos tornarmos dignos do Céu. (p.216)

O Voto de pobreza dá os bens, o da virgindade, o coração; o da obediência, a vontade. De certo, em toda a plenitude de sua significância, mesmo interior e espiritual, esses Votos envolvem-vos completamente e consagram-vos inteiramente a Deus. (p.252)

Trabalhar naturalmente é amontoar num saco furado que nada pode conservar. Mas em que consiste essa vida natural? Consiste em trabalhar para si, em ser o fim de tudo o que se faz, em vez de tudo fazer por Deus; em obrar segundo o impulso natural e o amor-próprio, em procurar-se a si mesmo, a seu repouso, ou proveito naquilo que se faz. Sereis natural se fordes sensual de espírito, esforçando-vos por satisfazer à curiosidade; de coração, procurando expandir-se e descansar na afeição da criatura ou mesmo deixando-vos abater quando Deus vos retirar as consolações; de corpo, entregando-vos à moleza e aspirando repouso; sereis natural se não aceitardes as disposições em que Deus vos quiser, aridez, tentações, sofrimentos, ou se, em vez de aceitá-las com resignação exclamardes com impaciência: “Ah! quisera ser feliz!”…O nosso pobre eu é a raiz dessa vida natural; é o amor-próprio que almeja ser seu fim e gozar do que faz. (p.296-297)

A condição primordial à vida sobrenatural é o estado de Graça, a amizade de Deus e a fé ativa que opera pela caridade. Não fizéssemos outra coisa na vida senão nos mantermos no estado de Graça, já seria a perfeição, por subentender uma delicadeza excessiva em não ofender a Deus. O estado de Graça, então, nos faria praticar todas as virtudes, já que o Espírito Santo, estando em nós, estimularia sempre nossa vontade e nos levaria a produzir constantemente atos santos, qual terra bem semeada e adubada que produz com regularidade o seu fruto. O estado de Graça vivifica tudo e, ao se aperfeiçoar, a tudo aperfeiçoa. E certos místicos, baseados nesse motivo, afirmam que basta manter-se sempre nesse estado de Graça, porque tudo que for feito sob sua influencia será puro e sobrenatural, pois o estado santifica os atos. (p.297-298)

Que toda a nossa vida, nossas ações e nossos pensamentos nos sejam inspirados por Jesus Cristo, que se fez nossa alma e nosso corpo, nosso espírito e nosso pensamento, que se fez todo em nós, e em todos, e que deseja substituir nossa vida pela sua, nosso ser natural, o ser de adão, pelo seu Ser sobrenatural, o Ser do Filho de Deus. Numa palavra, procura substituir nossa personalidade pela Sua, a fim de nos identificar nele, de agirmos unicamente pelo Pai, para o Pai, em Jesus Cristo, seu Filho, e em seu Espírito Santo. Então seremos em verdade religiosos e santos; e Deus encontrará em nós sua gloria e em nós porá suas complacências. (p.413)

Humildade

Outro caráter da caridade de Cristo é a humildade. Ele se considerava como servo de seus apóstolos. Nunca nos coloquemos acima dos outros, nunca nos consideremos como superiores pela ciência ou pelas virtudes…Talvez vosso irmão possua, em grau menor, qualidades, ciência, virtudes, e nesse caso vos deve respeito. Mas, a vós, não vos cabe desejar um lugar superior ao dele, nem o tratar com altivez. (p.168)

Quando a alma se perturba, desanima, é porque deixou de ser simples, olhou para baixo e não para o alto. Sejamos como a criança, simples e cândida. (p.172)

Nunca invejeis a sorte dos Superiores, mas antes vos condoais deles. Tornaram-se responsáveis por vós e no dia do juízo por vós responderão. (p.173)

Amai-vos e respeita-vos como irmãos, que a crítica da vida alheia não penetre nas vossas conversações; que vossos olhos sejam simples e não vejam somente os defeitos. (p.176)

Comparai um homem piedoso, mas leviano, e um pecador que acaba de se converter, mas que é sério; ponde a ambos no caminho da perfeição e vereis que este em breve deixará aquele para traz. (p.181)

Se Deus vos conduzisse pelas veredas das humilhações, ser-vos-ia custoso? Mas é um favor! A todos inspiraríeis dó e todos viriam em socorro. Se apresentásseis maior riqueza que os outros, então todos desejariam roubar-vos. (p.191)

Queixamo-nos das dificuldades do caminho, das cruzes que encontramos. Mas são as chaves do Paraíso. (p.214)

Mas a santa pureza, qual lírio no deserto, cresce por entre espinhos; conservai-a cuidadosamente, envolvendo-vos nos espinhos da modéstia e mortificação. (p.281)

Deus sabe quão propensos somos ao orgulho, a nos comprazermos em nós mesmos…E como resultado disso temos e embora nos custe a crer…que Deus nos abaixa à medida que nos concede maiores Graças, quanto mais santo, mais humilhado; (p.314)

“Só desanima quem não tem confiança em Nosso Senhor”. (p.316)

“À medida que crescerdes na piedade e na virtude, aumentarão as tentações de desanimo”. (p.394)

Jesus Cristo manifesta sua humildade na dependência que mostra para com seu Divino Pai. Devolve-lhe toda a Glória e declara receber dele seu Ser, sua ação, sua palavra, seu pensamento. (p.415)

“A mansidão é necessária no trato com o próximo”.(p.424)

Eucaristia

Considerai a hora de adoração que vos cabe como uma hora celestial; (p.13)

Haverá algo de mais simples do que comparar o nascimento de Jesus no presépio com seu nascimento sacramental no Altar e nos corações? (p.17)

A ação de graças é, para a alma, o mais suave e, para Deus, o mais agradável ato de amor; é a homenagem perfeita prestada à sua infinita Bondade. A Eucaristia constitui, portanto, o mais excelente agradecimento. Eucaristia significa ação de graças e Jesus, agradecendo ao Pai por nós, torna-se nossa mesma ação de graças. (p.20)

…quais devem ser os efeitos da Eucaristia em nós. Em primeiro lugar deve fazer-nos morrer ao pecado e às inclinações viciosas; em segundo, morrer ao mundo, crucificando-nos com Jesus Cristo…Em terceiro, morrer a nós mesmos, aos nossos gostos, desejos, sentidos para nos revestir de Jesus Cristo de tal forma que Ele viva em nós e que nós sejamos apenas seus membros, dóceis a suas vontades. (p.72)

Nosso Senhor não quis permanecer na terra somente pela sua Graça, sua Verdade e sua Palavra, mas sim pela sua Pessoa. (p.82)

Ora, pela Eucaristia a Igreja forma a Jesus Cristo nos seus filhos. Pela Eucaristia, o Pão Vivo, alimenta sua Vida sobrenatural. (p.87)

E Jesus se manifesta gradualmente à nossa alma segundo a medida da fé e do Amor, e esta encontra em Jesus alimento renovado, Vida inesgotável. (p.94)

Em Jesus temos consolação, repouso nas horas de cansaço, nas aflições da alma, nos quebrantamentos do coração. Na Eucaristia encontramos bálsamo para os nossos males, pagamento das nossas dívidas que, em virtude dos nossos pecados, contraímos diariamente para com a Justiça Divina. Nosso Senhor oferece-se a cada manhã, qual Vítima de propiciação, pelos pecados do mundo. (p.136)

Quantos soberanos reinam pelo amor? Só Jesus Cristo não impõe seu jugo pela força, pois seu Reinado é todo doçura; (p.148)

Deus deu-nos uma capacidade intelectual que rapidamente se esgota, mas foi generoso em se tratando do coração, que pode sempre amar mais. (p.159)

Reparai os Santos e vede como o amor os transborda, os faz sofrer, os abrasa. É um fogo que os consome incessantemente. (p.169)

Tudo o que pertence à Pessoa do Filho de Deus é infinitamente digno de veneração. A menor parcela do seu Corpo, a mais leve gota de seu Sangue, merecem as adorações do Céu e da terra. (p.249)

A Eucaristia é o Céu antecipado. (p.256)

A Eucaristia deposita em nós o fermento da ressurreição, a causa de uma glória especial e mais brilhante que, semeada na carne corruptível, brotará sobre nosso corpo ressuscitado e imortal. (p.258)

Já não notaste que, ao possuir Jesus no coração desejais o Paraíso e desprezais tudo o mais? (p.259)

Humildade

E, quanto maior a perfeição, maior a humildade, porque mais se tem para dar a Deus. (p.186)

Seremos humildes de coração se recebermos de Deus, em toda situação, qualquer humilhação, qual bem, qual ato que lhe rende muita glória; de aceitarmos nosso estado e nossos deveres, quaisquer que sejam, sem nos envergonhar da nossa posição; se formos simples e naturais por entre graças divinas extraordinárias. (p.194-195)

A pobreza interior, bem entendida, torna-se o remédio às três concupiscências que trazemos em nós. Ataca a vaidade, a cobiça de tudo saber, a sensualidade do espírito. (p.212)

“É preciso que Ele cresça e que eu diminua”. (João 3, 30)..Devemos visar fazer crescer a Nosso Senhor..Então nós nos prostramos, nos diminuímos e colocamos a Nosso Senhor no seu trono. Tal idéia, na prática, nos levará longe. Por enquanto nada somos, mas talvez um dia surjam entre os adoradores, homens de mérito. (p.269)

Mansidão

A humildade de coração produz a doçura. Jesus foi doce. Essa virtude é, por assim dizer, o traço dominante de sua Vida. É seu Espírito. “Aprendei de mim que sou manso”. (p.196)

Mui necessária seria essa mansidão de coração. E não a temos. Quantas vezes, pelo contrário, irritamo-nos, e muito, quer por pensamentos, quer por juízo!…Se prevemos alguma contradição, logo fervem em nosso espírito argumentos, justificações, respostas enérgicas. Ah! quão longe estamos da mansidão do Cordeiro! É o amor-próprio que só vê a si, aos seus interesses, (p.197)

Admirável de Paciência para com o povo que o cerca, portando-se com calma encantadora no meio de muitas agitações, dos pedidos, das exigências de um povo…(p.200)

O silencio de mansidão de Jesus é paciente. Ouve até o fim aqueles que lhe falam, sem jamais os interromper, embora saiba de antemão tudo o que lhe vão dizer. Responde-lhes diretamente. Repreende, corrige com Bondade, sem humilhar, sem a ninguém ferir, procedendo qual o melhor dos mestres para com o aluno inexperiente. Contam-lhe coisas desagradáveis, estranhas ao assunto, encontrando Ele sempre ocasião de instruir, de semear o bem. (p.202)


São Pedro Julião Eymard. A Divina Eucaristia. 2002. Vol.1.4.5.Edições Loyola.

S. Luís de Montfort, um apóstolo de Maria e dos pobres

Em Maria e por Maria é que

o Filho de Deus se fez homem para nossa salvação.

São Luís Montfort

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II
À FAMÍLIA MONFORTINA POR OCASIÃO
DO 50° ANIVERSÁRIO DA CANONIZAÇÃO DO FUNDADOR

Ao Reverendo Padre WILLIAM CONSIDINE
Superior-Geral da Companhia de Maria
Ao Reverendo Irmão JEAN FRIANT
Superior-Geral dos Irmãos da Instrução cristã de São Gabriel
À Reverenda Madre BÁRBARA O’DEA
Superiora-Geral das Filhas da Sabedoria

1. A família monfortina vai abrir um ano consagrado à celebração do quinquagésimo aniversário da canonização de São Luís-Maria Grignion de Montfort, que teve lugar em Roma a 20 de Julho de 1947. Com a Companhia de Maria, os Irmãos de São Gabriel e as Filhas da Sabedoria, sinto-me feliz por dar graças ao Senhor pela grande irradiação deste santo missionário, cujo apostolado foi nutrido por uma profunda vida de oração, uma inabalável fé em Deus Trindade e uma intensa devoção à Santíssima Virgem Maria, Mãe do Redentor.
Pobre entre os pobres, profundamente integrado na Igreja apesar das incompreensões que encontrou, São Luís-Maria tomou por lema estas simples palavras: «Só Deus». Ele cantava: «Só Deus é a minha ternura, só Deus é o meu sustentáculo, só Deus é todo o meu bem, a minha vida e a minha riqueza» (Cântico 55, 11). Nele, o amor por Deus era total. Era com Deus e por Deus que ia ao encontro dos outros e percorria os caminhos da missão. Continuamente consciente da presença de Jesus e de Maria, era em todo o seu ser uma testemunha da caridade teologal, que ele desejava fazer partilhar. A sua acção e a sua palavra não tinham por finalidade senão chamar à conversão e fazer viver de Deus. Os seus escritos são de igual modo testemunhos e louvores ao Verbo encarnado, e também a Maria, «obra-prima do Altíssimo, milagre da Sabedoria eterna» (cf. O amor da Sabedoria eterna, n. 106).
2. A mensagem que nos deixou o Padre de Montfort baseia-se, de modo inseparável, nas meditações da mística e na pedagogia pastoral do apóstolo. A partir das grandes correntes teológicas então difundidas, ele exprimia a sua fé pessoal em função da cultura do seu tempo. Alternadamente poético e familiar à linguagem dos seus interlocutores, o seu estilo pode surpreender os nossos contemporâneos, mas isto não os deve impedir de se inspirarem nas suas intuições fecundas. Eis por que é precioso o trabalho realizado pela família monfortina hoje, pois ajuda os fiéis a perceberem a coerência duma visão teológica e espiritual, sempre orientada para uma intensa vida de fé e de caridade.
Antes de tudo, São Luís-Maria impressiona pela sua espiritualidade teocêntrica. Ele tem «o gosto de Deus e da Sua verdade» (O amor da Sabedoria eterna, n. 13) e sabe comunicar a sua fé em Deus, do Qual exprime ao mesmo tempo a majestade e a doçura, pois Deus é fonte transbordante de amor. O Padre de Montfort não hesita em abrir aos mais humildes o mistério da Trindade, que inspira a sua oração e a sua reflexão sobre a Encarnação redentora, obra das Pessoas divinas. Quer fazer compreender a actualidade da presença divina no tempo da Igreja; escreve sobretudo: «A conduta que as três Pessoas da Santíssima Trindade tiveram na Encarnação e a primeira vinda de Jesus Cristo, Elas conservam-na todos os dias, duma maneira invisível, na santa Igreja, e a conservá-la-ão até à consumação dos séculos, na última vinda de Jesus Cristo » (Tratado da verdadeira devoção, n. 22). Na nossa época, o seu testemunho pode ajudar a fundar com vigor a existência cristã sobre a fé no Deus vivo, sobre uma relação calorosa com Ele e sobre uma sólida experiência eclesial, graças ao Espírito do Pai e do Filho, cujo reino continua no presente (cf. Oração abrasada, n. 16).
3. A pessoa de Cristo domina o pensamento de Grignion de Montfort: «Jesus Cristo, nosso Salvador, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, deve ser o fim último de todas as nossas outras devoções » (Tratado da verdadeira devoção, n. 61). A Encarnação do Verbo é para ele realidade absolutamente central: «Ó Sabedoria eterna […] adoro-Vos […] no seio do vosso Pai durante a eternidade, e no seio virginal de Maria, vossa digna Mãe, no tempo da vossa Encarnação» (O amor da Sabedoria eterna, n. 223). A ardente celebração da pessoa do Filho de Deus encarnado, que se encontra em todo o ensinamento do Padre de Montfort, conserva hoje o seu inestimável valor, porque depende duma concepção equilibrada do ponto de vista da doutrina e leva à adesão de todo o ser Àquele que revela à humanidade a sua verdadeira vocação. Possam os fiéis escutar esta exortação: «Jesus Cristo, a Sabedoria eterna, é tudo o que podeis e deveis desejar. Desejai-O, procurai- O […] como única e preciosa pérola » (ibid., n. 9)!
A contemplação das grandezas do mistério de Jesus caminha a par e passo com a da Cruz, da qual Montfort fazia o maior sinal das suas missões. Muitas vezes provado de maneira árdua, conheceu pessoalmente o seu peso, como o testemunha uma carta à sua irmã, a quem pede que reze por ele «a fim de obter de Jesus crucificado a força para carregar as cruzes mais rudes e mais pesadas » (Carta 24). Todos os dias, ele pratica a imitação de Cristo naquilo a que chama o amor ardente da Cruz, na qual vê «o triunfo da Sabedoria eterna» (O amor da Sabedoria eterna, cap. XIV). Mediante o sacrifício do Calvário, o Filho de Deus, ao fazer-Se pequenino e humilde até ao extremo, assume a condição dos Seus irmãos submetidos ao sofrimento e à morte. Cristo manifesta nisto, de maneira eloquente, o Seu amor infinito e abre à humanidade a via da vida nova. Luís-Maria, que seguia o seu Senhor e fazia «a sua morada na Cruz» (ibid., n. 180), dá um testemunho de santidade, que os seus herdeiros na família monfortina devem dar, por sua vez, a fim de mostrar a este mundo a verdade do amor salvífico.
4. Para conhecer a Sabedoria eterna, incriada e encarnada, Grignion de Montfort convidou constantemente a confiar na Santíssima Virgem Maria, tão inseparável de Jesus que «antes se separaria a luz do sol» (Verdadeira devoção, n. 63). Ele continua a ser um incomparável cantor e discípulo da Mãe do Salvador, na qual celebra aquela que conduz de maneira segura a Cristo: «Se estabelecemos a sólida devoção da Santíssima Virgem, é só para estabelecer de modo mais perfeito a de Jesus Cristo e para obter um meio fácil e seguro para encontrar Jesus Cristo» (ibid., n. 62). Pois Maria é a criatura escolhida pelo Pai e totalmente consagrada à sua missão materna. Tendo entrado em união com o Verbo mediante o seu livre consentimento, encontra-se associada de maneira privilegiada à Encarnação e à Redenção, de Nazaré até ao Gólgota e ao Cenáculo, absolutamente fiel à presença do Espírito Santo. Ela «encontrou graça diante de Deus para todo o mundo em geral e para cada um em particular » (ibid., n. 164).
Deste modo Luís-Maria chama a consagrar- se totalmente a Maria, para acolher a sua presença no mais íntimo da alma. «Maria torna-se tudo para esta alma junto de Jesus Cristo: esclarece o seu espírito pela sua fé pura. Aprofunda o seu coração mediante a sua humildade, amplia-a e abraça-a pela sua caridade, purifica-a com a sua pureza, enobrece e engradece-a pela sua maternidade» (O segredo de Maria, n. 57). O recurso a Maria leva sempre a dar a Jesus um lugar mais importante na vida; é significativo, por exemplo, que Montfort convida o fiel a voltar-se para Maria antes da comunhão: «Suplicareis a esta boa Mãe que vos prepare o próprio coração, a fim de receber nele o seu Filho com as suas mesmas disposições» (Verdadeira devoção, n. 266).
No nosso tempo, em que a devoção mariana é viva mas nem sempre suficientemente esclarecida, seria bom reencontrar o fervor e o justo estilo do Padre de Montfort, para atribuir à Virgem o seu verdadeiro lugar e aprender a orar: «Ó Mãe de misericórdia, dai-me a graça de obter a verdadeira sabedoria de Deus e de me colocar por isso no número daqueles que amais, ensinais e conduzis […] Ó Virgem fiel, tornai-me em todas as coisas um perfeito discípulo, imitador e escravo da Sabedoria encarnada, Jesus Cristo, vosso Filho» (O amor da Sabedoria eterna, n. 227). Sem dúvida, algumas transposições de linguagem impõem-se, mas a família monfortina deve continuar o seu apostolado mariano no espírito do seu fundador, a fim de ajudar os fiéis a manterem uma relação viva e íntima com aquela que o Concílio Vaticano II honrou como um membro especial e absolutamente único da Igreja, recordando que, «a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo, como ensinava Santo Ambrósio» (Lumen gentium, 63).
5. O ano monfortino chama a atenção para os principais eixos da espiritualidade de São Luís-Maria, mas de igual modo é oportuno recordar que este último foi um missionário extraordinariamente irradiante. Depois da sua ordenação, ele escrevia: «Sinto um grande desejo de fazer amar a nosso Senhor e à sua Santa Mãe, de ir, duma maneira pobre e simples, ensinar o catecismo aos pobres». Ele viveu em plena fidelidade a esta vocação, a qual será compartilhada com os sacerdotes que a ele se unirão. Nas Regras dos Sacerdotes missionários da Companhia de Maria, ele convida o missionário apostólico a pregar com simplicidade e verdade, sem temor e com caridade, «e com santidade, não tendo em vista senão Deus, sem interesse a não ser o da Sua glória, e praticando em primeiro lugar o que ensina aos outros» (n. 62).
No momento em que se impõe na maior parte das regiões do mundo a necessidade duma nova evangelização, o zelo do Padre de Montfort pela Palavra de Deus, a sua solicitude pelos mais pobres, a sua aptidão para se fazer ouvir pelos mais simples e para estimular a piedade, as suas qualidades de organizador, as suas iniciativas para prolongar o fervor pela fundação de movimentos espirituais ou para envolver os leigos no serviço dos pobres, tudo isto, com as adaptações queridas, pode inspirar os apóstolos de hoje. Uma das constantes das numerosas missões pregadas pelo próprio São Luís-Maria merece ser ressaltada hoje: ele pede a renovação das promessas do baptismo, fazendo desta iniciativa uma introdução à absolvição e à comunhão. Isto assume uma surpreendente actualidade, neste primeiro ano preparatório para o Grande Jubileu do Ano 2000, precisamente consagrado a Cristo e ao sacramento do Baptismo. Montfort tinha bem compreendido a importância deste sacramento, que consagra a Deus e constitui a comunidade, e também a necessidade de descobrir de novo, numa firme adesão de fé, o alcance dos compromissos do baptismo.
Como andarilho do Evangelho, inflamado pelo amor de Jesus e da Sua santa Mãe, ele soube comover as multidões e fazer com que amassem o Cristo Redentor, contemplado na Cruz. Oxalá ele sustente os esforços dos evangelizadores do nosso tempo!
6. Caros Irmãos e Irmãs da grande família monfortina, neste ano de oração e de reflexão sobre a preciosa herança de São Luís-Maria, encorajo-vos a fazer frutificar este tesouro que não deve ficar escondido. O ensinamento do vosso fundador e mestre une-se aos temas que a Igreja inteira medita ao aproximar-se o Grande Jubileu; ele indica o caminho da verdadeira Sabedoria, que é preciso abrir a muitos jovens que procuram o sentido da própria vida e uma arte de viver.
Aprecio as vossas iniciativas para difundir a espiritualidade monfortina, nas formas que convêm às diferentes culturas, graças à colaboração dos membros dos vossos três Institutos. Sede também um apoio e uma referência para os movimentos que se inspiram na mensagem de Grignion de Montfort, a fim de dar à devoção mariana uma autenticidade cada vez mais segura. Renovai a vossa presença junto dos pobres, a vossa inserção na pastoral eclesial, a vossa disponibilidade para a evangelização.

Ao confiar a vossa vida religiosa e o vosso apostolado à intercessão de São Luís-Maria Grignion de Montfort e da Beata Maria Luísa Trichet, concedo de todo o coração a Bênção Apostólica a vós, assim como a todos os que vos estão próximos e a quem servis.
Vaticano, 21 de Junho de 1997.
Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/1997/documents/hf_jp-ii_let_19970621_montfort_po.html

Biografia de Monfort por Pe. Amílcar José Alves Tavares, SMM:

S. Luís Maria de Montfort nasceu a 31 de Janeiro de 1673, num pequeno vilarejo chamado Montfort, localizado na Bretanha francesa. Foi batizado no dia seguinte ao seu nascimento. Era o filho primogênito de uma família numerosa.

Com 11 anos deu entrada no colégio dos jesuítas de Rennes, onde recebeu uma sólida formação humana e espiritual. Aí conclui o curso de filosofia em 1692. Sentindo-se chamado ao sacerdócio decide ir em 1693 para Paris de modo a poder ingressar no Seminário de S. Sulpício, em vista dos estudos teológicos que freqüenta na Universidade de Sorbonne. Recebe uma formação teológica apurada e sistemática na qual apoiará sempre o seu trabalho missionário. Revela-se um aluno brilhante tanto nas ciências teológicas quanto na “ciência dos santos”. É ordenado sacerdote a 5 de Junho de 1700. Tinha decidido ser padre para se consagrar à causa da evangelização dos povos em países estrangeiros, socorrer os pobres e proclamar o “Reino de Jesus Cristo por Maria”.

Em Julho de 1706 vai a Roma a pé para ser recebido pelo Papa Clemente XI para que o confirmasse na sua vocação missionária. É recebido no dia 6 de Julho desse ano. O Papa confere-lhe o título de Missionário Apostólico e lhe pede para ser missionário na França “renovando o espírito do cristianismo nos cristãos”. Em obediência ao Papa, Montfort tornou-se num missionário exímio e destacou-se pela sua grande devoção a Nossa Senhora. Para dar continuidade ao seu ardor missionário fundou a Congregação dos Missionários Monfortinos, a Congregação das Filhas da Sabedoria e dos Irmãos de S. Gabriel. Como complemento à sua atividade missionária escreveu vários livros com destaque para o Tratado da Verdadeira Devoção a Maria.

Montfort legou à Igreja uma espiritualidade original, centralizada na Sabedoria e nos meios para alcançá-la; entre esses meios se destaca Maria. Uma espiritualidade que leva a uma consagração total a Jesus por Maria.

Morreu a 28 de Abril de 1716, com 43 anos, após ter realizado mais de uma centena de missões populares. Foi beatificado em 1888 e canonizado, em Roma, em 1947 pelo Papa Pio XII.

S. Luís Maria santificou-se como missionário itinerante, devorado pelo zelo pela evangelização dos pobres. Levava sempre consigo a Bíblia, o crucifixo, o rosário, símbolos e síntese da sua própria experiência espiritual e da mensagem que proclamava: dar a conhecer e amar a Santíssima Virgem para fazer conhecer e amar a Jesus Cristo.

Fonte:http://www.monfortinos.kit.net/vida.html

Biografia – 1.FALSINA. Eugênio. Só Deus. A vida de São Luís Maria de Monfort. Edições Monfortinas. 2.PÉROUAS Louis. Vida e Obras de São Luís Maria Grignion de Monfort.

Luís Maria nasce a 31 de janeiro de 1673 numa pequena cidade da Bretanha francesa chamada Monfort-la-Cane…(p.13/2). Se interessava mais pelas ciências dos santos do que pela teologia.(p.17/2)

Tinha quatro ou cinco anos quando, vendo a mãe sofrer, chegava perto dela para consolá-la com palavras cheias de fé.(p.31/1).

Remexia os volumes da biblioteca paterna à procura de algum livro que o aproximasse da teologia e das matérias eclesiásticas. Foi durante essas buscas, provavelmente, que lhe chegou às mãos uma obra um pouco fora do comum pelo texto e ilustrações, vinda de uma viagem qualquer do advogado a Paris…Luís Maria queimou-o e fez bem. Surpreendido pelo pai, recebeu uma repreensão em regra.(p.43/1).

Afinal Luís Maria tomou a decisão e falou a seu pai…Porque o advogado cedeu: Luís Maria podia tornar-se padre, mas sem pedir à família que suportasse outras despesas.(p.43/1).

Luis Maria ocupa aqueles quatro meses(antes do sacerdócio) preparando pregações, tomando notas, compondo cânticos que lhe poderão servir no futuro ministério.(p.82/1).

Lhe custava mais vencer o seu impulso e a paixão da cólera que todas as demais(paixões)juntas.(p.14/2).

Tornou-se sacerdote no dia 5 de junho de 1700, sábado das têmporas da primavera, junto com muitíssimos outros diáconos.(p.77/1).
Luís Maria assumiu a mísera situação com a heroicidade de adaptação de adaptação que lhe ocorreria um dia para sentir-se mais próximo dos pobres que evangelizava.(p.56/1).

Aquele hospital foi um dos primeiros lugares que recebeu a visita de Luís Maria, completamente esfarrapado, sete meses depois de ter saído do seminário de São Sulpicio, a tal ponto que seria difícil não ver nesta atitude uma forma de desprezo. “Alguns pobres…, ao ver-me…com roupas tão parecidas com a deles, foram comunicar aos outros, e entre eles decidiram dar-me uma esmola. Alguns meses mais tarde, o bispo local o nomeou oficialmente capelão daqueles pobres ali recolhidos.(p.20/2)

No decorrer do ano 1702 reúne uma comunidade, chamada Sabedoria, umas dez pobres mais fervorosas, dentre as quais elege uma cega como superiora. No local das reuniões coloca uma cruz, na qual escreve… “Amor pela cruz. Desejo de cruzes. Desprezo. Dores. Perseguições. Afrontas.(p.21/2).

No final do verão de 1703, quando estava em Paris, Luis Maria se deparou não apenas abandonado pelos seus antigos mestres, mas também atingido pelso mais variados rumores. Seu fiel confidente, João Batista Blain, confessa que ele mesmo guardava sérias dúvidas sobre seu amigo. Monfort se refugiou então num pequeno quarto debaixo da escadaria da rua Pot-de-Fer, onde saboreia, ao mesmo tempo, consolos espirituais e uma satisfação ambígua, a de se ver caluniado desta maneira.(p.23/1).

Um dois anos e meio mais tarde, em Potiers, duvida de novo da sua vocação: “Encontrava tantas dificuldades em fazer o bem na França…que me perguntava se devia parar ou ir em busca de uma colheita mais abundante.(p.23/2).

O que mais se destacava nele era um dom e uma graça singular para conquistar corações. Assim quem o escutava, punha nele toda confiança…A confiança imediata e fácil que o povo tinha nele era tão grande que conseguiu fundar em várias paróquias a oração da noite, o rosário e os enterros nos cemitérios; o que se tentava conseguir há muito tempo..ele conseguiu logo na primeira proposta que fez.(p.25/2).

Na verdade tenho muita inclinação para trabalhar para a salvação dos pobres em geral, mas não tanto para me fixar e me limitar a um hospital…eu sacrificaria de boa vontade meu tempo, minha saúde e minha vida, mesmo para a salvação dos pobres deste desolado abrigo, se vós o julgais conveniente.(p.113/1).

“Dêem preferência às aldeias mais que às cidades, aos pobres mais do que aos ricos”.(p.76/2).

Algumas pessoas, tendo abandonado a prática do Rosário, tinham recaído nos seus pecados de antigamente; outras, devido à perseverança no Rosário, mantiveram-se na graça de Deus, crescendo cada dia na virtude.(p.79/2).

“Os nossos pobres continuam a procurá-lo.”(Bispo de Potiers).[p.121/1]

Por duas semanas percorre todos os lados da cidade e da periferia em busca de todos os mendigos; visita os presos, os doentes nos hospitais, e começa um trabalho de controle. Todos os pobres que o podem, são convidados à igreja de São Nicolau, mas a afluência é extraordinária e a igreja se revela insuficiente…e o Bispo lhe entrega a igreja de Saint-Porchaire, para que o vaivém dos pobres não incomode os burgueses que não amam misturas inconvenientes.(p.126/1).

“Que cruz sem cruz!”(p.132/1).

Nada faz ou diz sem a recordação, o olhar, o aceno a Nossa Senhora.(p.133).

Após a morte desses superiores, passei por ainda maiores perseguições. Um pobre, exaltado e orgulhoso, se pôs no instituto à frente de alguns libertinos para me contradizer, defendendo sua causa junto aos administradores e condenando-me na minha causa junto aos administradores, porque u lhe disse com ousadia mas com doçura suas verdades, que são bebedeiras, contendas, etc. Quase nenhum dos administradores(embora eu não tome nada da casa,nem mesmo um pedaço de pão, pois os estranhos me dão de comer por caridade) faz esforço para punir esses vícios e corrigir essas desordens internas, e quase todos não pensam senão no bem temporal e exterior da casa…(p.139/1).

Eu digo seguramente, pois o melhor sinal de que a pessoa é amada por Deus, é quando ela é odiada pelo mundo e atormentada por cruzes, ou seja, por privações das coisas legítimas, por oposições às nossas vontades mais santas, por injúrias as mais atrozes e as mais sensíveis, por perseguições e más interpretações da parte das pessoas mais bem intencionadas e de nossos próprios amigos, por doenças que menos nos agradam(p.154/1).

Recebei a comunhão todo dia, pois vós duas tendes(as filhas da sabedoria) tendes grande necessidade dela, contanto que não cometais nenhum pecado venial deliberado.(p.160).

Estou no Abrigo geral com cinco mil pobres, para fazê-los viver para Deus e para morrer a mim mesmo. Não me acuseis de mudança ou de resfriamento com relação aos Poitiers..não conheço mais amigos aqui senão Deus somente.(p.170/1).

Pobres amavam o Grignion

Senhor, se o Grignion estivesse aqui, ao lado desta nova Diretora, que regulamentos e que justiças não faria respeitar nesta casa! Perdoai, senhor, a ousadia que nos permitimos: é a nossa múltipla pobreza e os grandes sofrimentos por que passamos que nos levam a sermos importunos…Se pudéssemos rever o senhor Grignion por uma vez mais, seríamos mais obedientes e mais fiéis a Deus, e lhe pediríamos, senhor que O conserve e que Lhe aumente as bênçãos e a perseverança final – Os pobres de Potiers(p.197/1).

Dormia sobre um pouco de palha e muito mal coberto; muitas vezes comia pão preto…durante todas as nossas refeições da manhã e da tarde dava lugar na nossa mesa para um pobre, dava-lhe de beber no seu próprio copo cheio de água e de vinho até que sobrasse um terço que ele bebia depois.(p.205/1).

Vida de missionário

Não é imaginável quanto sofreu em dores, humilhações e cansaço durante toda viagem: cem vezes foi repelido pelos párocos e pelos infiéis aos quais pedia hospitalidade; muitas vezes foi obrigado a dormir diante da porta deles ou sob vestíbulos das igrejas, porque era tido como um espião ou como um padre vagabundo…Quando podia pernoitava nos abrigos…(p.240/1).

Acusam-te de fazer tudo de própria iniciativa; teria sido melhor fazer menos bem, mas fazê-lo sob a obediência, consultando os superiores, e não iniciar jamais alguma coisa sem sua ordem ou parecer.(p.281/1)

Blain, além disso, afirma não ter conseguido entender o amigo com o qual tinha compartilhado muitos anos de estudo e amizade: “Todos reconhecem que é muito pobre, muito recolhido e mortificado, ou seja, estão de acordo em encontrar nele as virtudes evangélicas e a semelhança com Jesus Cristo; no entanto, se duvida de que seja realmente animado pelo seu espírito; Foi por este motivo que me mostrei frio nos relacionamentos com o senhor Monfort, e que me impedi de unir-me a ele e que me fez até ter medo de manter muitos contatos com ele…(p.299/1).

Monfort…fundou ao menos três institutos religiosos e contribuiu para redigir outras Regras e Constituições para institutos não seus…Tornou-se sacerdote aos 27 anos, aos 30 funda um instituto; passa cerca de cinco anos como capelão em abrigos de mendigos; empregou ao todo mais de um ano em caminhadas e peregrinações, para dedicar depois somente pouco menos de dez anos á pregação, para morrer apenas aos 43 anos.(p.301-302/1)

Mas Luís Maria de Monfort é conhecido na França e em toda a Igreja sobretudo por uma qualificação: missionário da missões populares e da pregação em geral.

Quarta-feira da semana in Albis, Mons. De Champflour chega à paróquia e recebe uma acolhida natural minuciosamente preparada por Monfort e pelos outros missionários; o Pastor fica particularmente comovido e impressionado. Mas Luís Maria não consegue fazer o discurso de boas-vindas; é substituído pelo pároco..Logo depois, é obrigado a lançar-se no catre porque não consegue mais ficar de pé: o médico diagnostica um ataque de pleurisia aguda…Segunda-feira, dia 27, sentindo-se próximo do fim, Monfort convoca Mulot porque deseja ditar o testamento… E tendo sussurrado a última reprimenda ao tentador: “Agora me atacas inutilmente: estou entre Jesus e Maria!, entra em coma. Expira pelas 20 horas daquela mesma noite, 28 de abril de 1716. Tinha 43 anos, três meses e oito dias.(p.294; 296/1).

Fonte: FALSINA. Eugenio. Só Deus. A Vida de São Luís Maria de Monfort. Edições Monfortinas.
PÉROUAS. Louis. Vida e Obras de São Grignion de Monfort. Edições Monfortinas.

1)Cartas aos amigos da cruz

Amigo da cruz(p.34-36)

Amigo da cruz é aquele que, tal como um rei poderoso e verdadeiro herói, vence o demônio, o mundo e a carne nas suas três concupiscências. Com o amor pelas humilhações, vence o orgulho de Satanás; com o seu amor pela pobreza triunfa sobre a avareza do mundo; com o seu amor pelo sofrimento apaga a sensualidade do corpo.

Amigo da cruz é o homem santo e desapegado dos bens terrenos, que leva o seu coração acima de tudo quanto é caduco e perecível. A sua pátria está no céu; vive neste mundo como estrangeiro e peregrino, sem se deixar aprisionar pelas coisas do mundo, que observa do alto com olhar indiferente e as fixa com desdém.

Amigo da cruz é, enfim, aquele que leva Cristo consigo, ou melhor, que é um outro Cristo; por isso poderá repetir com toda a autoridade: “Já não sou eu que vivo mais Cristo que vive em mim”. (Gl 2, 20).

Eu vos pergunto, caros Amigos da Cruz: será que o vosso comportamento corresponde efetivamente ao grande nome que trazeis? Ou, pelo menos, tendes um desejo sincero e uma vontade decidida a que seja assim, com a graça de Deus, à sombra da Cruz e na companhia de Maria ‘a Virgem Dolorosa’? Recorrestes, de fato, aos meios necessários para alcançar tal fim? Será que vos colocastes no caminho correto da vida, que é via estreita e espinhosa do Calvário? Ou fostes colocar-vos, sem pensar, na estyrada fácil e espaçosa do mundo, que é a estrada da perdição?

…Estai atentos para não vos sentardes ma companhia repelente dos mundanos; não sigais os seus conselhos e não trilheis seus caminhos.

Dois caminhos

À vossa direita tendes o partido do nosso amável Salvador. Este avança por uma estrada bem mais estreita e dificultosa devido à corrupção do mundo. À frente da fila vai o divino Mestre, de pés nus, com a cabeça coroada de espinhos, com o corpo coberto de sangue carregando uma pesadíssima cruz. Só um punhado de pessoas O seguem, e essas são, efetivamente, corajosas. Quanto as restantes, ou a sua voz não chega até elas devido aos tumultos do mundo, ou então não Têm coragem de seguí-Lo na pobreza, na dor, na humilhação e nas outras cruzes que todos os dias da vida é obrigatoriamente necessário carregar com Ele.(p.37).

À direita, ‘o pequeno rebanho que segue Jesus Cristo, fala só de lágrimas, de penitência, de oração e de desprezo do mundo. Ouvem-se ali a cada passo palavras como estas, entrecortadas de soluços: ‘soframos, choremos, jejuemos, rezemos, escondamo-nos, humilhemo-nos, tornemo-nos pobres, mortifiquemo-nos, já quem não tiver o espírito de Jesus Cristo – ou seja o espírito da Cruz – não Lhe pertence, e os que são de Jesus Cristo crucificaram a sua carne com seus desejos…Coragem! – exclamam eles. Coragem! Se Deus está por nós, em nós e diante de nós, quem será contra nós?Aquele que está em nós é mais forte do que aquele que está no mundo….lutemos, pois, segundo o Evangelho e não segundo as máximas da moda.(p.38-39).

À vossa esquerda tendes o partido do mundo e do demônio. À primeira vista este é mais numerosos, mais esplêndido e atraente do que o outro. A elite dos indivíduos corre atrás dele, acotovelando-se, apesar dos seus serem caminhos largos e espaçosos devido às grandes multidões que por lá passam como torrentes: é uma estrada toda coberta de flores, rodeada de diversões e prazeres, coberta de ouro e prata.(p.37)
Os mundanos, pelo contrário, para se encorajarem a perseverar nas suas maldades sem escrúpulos, todos os dias gritam os seus slogans: “A vida! A vida! Vivamos a vida! Paz! Alegria! Comamos, bebamos, cantemos, dancemos, divertamo-nos! Deus é Pai de misericórdia e não nos criou para nos condenar; Deus não nos proíbe o divertimento; por isso não seremos condenados; nada de escrúpulos, portanto! Não, não morrereis!, etc.

A via da perfeição Cristã

Na realidade toda a via da perfeição cristã consiste nisto:

Na firme vontade de tornar-se santo: “Se alguém quiser vir após mim…’

Na conversão: ‘Renuncie a si mesmo…’

Na mortificação: ‘Tome a sua cruz…’

Na ação: ‘Siga-me…’

Se alguém quer…Repare-se no desafio, que aparece no singular. Não está escrito ‘se alguns…’mas se alguém”: isto para indicar que será sempre um número reduzido de cristãos que aceitarão tornar-se conforme a Jesus Cristo crucificado e carregar a própria cruz….é tão pequeno que se Deus quisesse reagrupá-los, lhes gritaria como fez outrora pela boca de um profeta: “E vós sereis recolhidos um a um, um desta província, outro daquele reino.(p.42-43).

Se alguém quer…, ou seja, se alguém tiver vontade de verdade, uma vontade total, que provém não já da natureza, da tradição, do amor próprio, do interesse ou do respeito humano, mas sim de uma graça eficaz do Espírito Santo, que não é concedida a todos: “Nem a todos é dado conhecer os mistérios dos céus.”(p.43).

Renuncie a si mesmo…Como estão longe da companhia dos Amigos da Cruz os que sofrem numa atitude de orgulho, os sábios segundo o mundo…não sabem aceitar uma reprovação sem se desculparem, nem sofrerem um atraque sem se defenderem, ou que alguém os rebaixe sem eles se elevarem.(p.45-46).

Tome a sua cruz!:ou seja, aquela cruz que a minha sabedoria determinou para ele ‘em número, peso e medida’(Pr 31, 10); a sua, aquela que eu medi para ele com as minhas próprias mãos e grande precisão, respeitando as quatro dimensões: espessura, comprimento, largura e profundidade;

Na sua espessura, pela perda de bens, humilhações, desprezo, dores, doenças e provações espirituais, que a cada dia até à morte, a minha Providência vai lhe reservando;

No seu comprimento é composta por um determinado período de dias ou de meses em que se verá aniquilado pela calúnia, ou imobilizado em cima de uma cama, ou reduzido ao estado de pedinte, ou tomado por tentações, aridez, ou outras mortificações de ordem espiritual;

Na sua largura é composta por um conjunto de circunstância muito duras e amargas, por parte de amigos, familiares e parentes;

Na sua profundidade, é composta pelas mais recônditas provações com que o porei à prova, e sem que ele possa encontrar conforto nas criaturas que, além do mais, até lhe voltarão as costas e, tal como eu, o farão sofrer.(p.46-47).

Tome a sua cruz! E não deverá arrastá-la, sacudi-la, reduzi-la ou escondê-la. Pelo contrário, leve-a bem erguida nas suas mãos, sem impaciência, nem azedume, nem murmurações…enfim sem qualquer vergonha ou respeito humano….repetindo como São Paulo: “Deus me livre de me gloriar a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.”

Caros Amigos da Cruz, sabeis, na verdade, que sois todos pecadores. Não há ninguém entre vós que não mereça o inferno. Mais ainda do que vós mereço-o eu. E os nosso pecados terão que receber castigo, neste ou no outro mundo. Se receberem o castigo neste mundo, e com o nosso acordo, o castigo será cheio de amor, uma vez que assim sendo, será a minha misericórdia – que governa o mundo – a atuar, e não já propriamente o rigor da justiça…Se, porém, o castigo devido pelos nossos pecados ficar reservado para o além, será então executado pela justiça rigorosa de Deus, que fará passar tudo a fero e fogo.(p.49).

Se pudéssemos arrancar do demônio o ‘diário escrito contra nós’ – em que ele tem anotados todos os nossos pecados e respectiva pena que lhes corresponde – , ficaríamos espantados do nosso grande déficit e seríamos muito felizes se pudéssemos sofrer anos a fio neste mundo, para não sofrer um só dia no outro.(p.51).

Paciência

Se não quiserem sofrer com alegria como Jesus Cristo, ou com paciência como o bom ladrão; tereis de beber até o fundo o cálice mais amargo, sem receberes qualquer consolação da graça, e devereis carregar todo o peso da cruz sem o auxílio de Jesus Cristo.(p.61).

Se, pelo contrário, sofrerdes como convém, então a cruz se tornará para vós num jugo muito suave, que Jesus ajudará a carregar.(p.62).

Siga-me

Não devereis procurar-vos cruzes de propósito ou por culpa própria. Não se pode provocar um mal para obter um bem. Não se deverá…fazer uma ação má para daí provocar o desprezo dos outros. Pelo contrário, é preciso imitar Jesus Cristo, de quem o evangelho diz que ‘fez todas as coisas, não por amor próprio ou vaidade, mas para agradar ao Pai e salvar o próximo.(p.69);

Sofrimentos

Tirai proveito dos pequenos sofrimentos do que de grandes. O Senhor não considera tanto o sofrimento em si mesmo, mas sim a maneira como se sofre. Sofrer muito, mas sofrer mal, é sofrer como os condenados; sofrer muito e até corajosamente, mas por uma causa má, é sofrer como um mártir do demônio; sofrer pouco ou até muito, mas sofrer por Deus, é sofrer como os santos. Se é verdade que podemos escolher entre as cruzes, então devemos optar, de modo particular, pelas menores em mais ocultas e que se apresentam ao lado de outras maiores e mais vistosas….tirai proveito de tudo; não deixeis perder, seja o que for, da verdadeira cruz, ainda que seja uma simples picada de mosquito ou de um alfinete, ou a indelicadeza de um vizinho, uma injúria insignificante, a perda de poucos vinténs…um cansaço corporal ou uma pequena dor em algum dos membros…Até mesmo diante das menores adversidades dizei: “Bendito seja Deus. Obrigado Senhor”.(p.76-77).

“Foi pela fé que Moisés, uma vez crescido, renunciou a ser tido como filho da filha do faraó, preferindo participar da sorte infeliz do povo de Deus, a fruir dos prazeres culpáveis e passageiros. Com os olhos fixos na recompensa, considerava os ultrajes por amor de Cristo como um bem mais precioso que todos os tesouros dos egípcios.”(Hebreus 11, 24-26).

“Aceitem sempre a cruz com gratidão”(p.88).

Monfort tinha muitos inimigos

Tenho grandes inimigos pela frente: todos os mundanos que amam e estimam as coisas caducas e perecíveis, me desprezam, me ridicularizam e me perseguem(p.101).

Maria

É por Maria que procuro e que vou encontrar Jesus, que eu esmagarei a cabeça da serpente e vencerei todos os meus inimigos e a mim mesmo, para a maior glória de Deus.(p.102).

Dois sentimentos

Sinto assim, eu me encontro, desde que estou aqui, como que dividido entre dois sentimentos que parecem opostos. Sinto por um lado um amor secreto do retiro e da vida oculta, para aniquilar e combater minha natureza corrompida que gosta de aparecer. Por outro lado, sinto grandes desejos de fazer amar Nosso Senhor e sua Santa Mãe, de ir, de um modo pobre e simples, dar catecismo aos pobres do campo, incentivar os pecadores na devoção à Santíssima Virgem.(p.124-125).

Amor aos pobres

O Monsenhor, de saudosa memória, recebeu-me de braços abertos e me deu abrigo e alimento no pequeno Seminário, até que me colocasse no hospital. Durante este tempo, que foi quase dois meses, dei catecismo, com despesas pagas pelo Monsenhor, a todos os pobres mendigos da cidade, que ia procurar nas ruas.(p.152).

Fonte: Carta aos amigos da cruz. Edições Monfortinas.

2) O amor da sabedoria eterna

Sabedoria

O sábio não se vanglorie da sua sabedoria, nem o forte da sua força, nem o rico das suas riquezas, mas quem quiser vangloriar-se procure a sua glória em conhecer-Me a mim e não em conhecer outras coisas.(p.25).

Nada é tão doce como o conhecimento da Sabedoria divina. Felizes aqueles que a escutam; mais felizes ainda aqueles que andarem pelos seus caminhos(p.26).

O conhecimento da Sabedoria eterna não é apenas o mais nobre e o mais doce, mas ainda o mais útil e o mais necessário, já que a vida eterna consiste em conhecer a Deus e seu filho Jesus Cristo.(p.27).

Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado.(I Coríntios 2, 2)
Mas tudo isso, que para mim eram vantagens, considerei perda por Cristo. 8.Na verdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com esse bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo. (Filipenses 3, 7-8)
Mas crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele a glória agora e eternamente.(2 Pd 3, 18)
Estai de sobreaviso, para que ninguém vos engane com filosofias e vãos sofismas baseados nas tradições humanas, nos rudimentos do mundo, em vez de se apoiar em Cristo.(Colossenses 2, 8)

Se considerarmos o significado da palavra em si mesma ‘sabedoria’ quer dizer, em geral, ‘ciência saborosa’, ou seja, o gosto de Deus e da sua verdade.(p.30).

Deixo, pois, aos filósofos os argumentos da sua filosofia, já que são inúteis; deixo aos alquimistas os segredos da sua ciência mundana. “No entanto, de sabedoria é que nós falamos entre os perfeitos…”(p.31).

Ela é um sopro do poder de Deus, uma irradiação límpida da glória do Todo-poderoso; assim mancha nenhuma pode insinuar-se nela. É ela uma efusão da luz eterna, um espelho sem mancha da atividade de Deus, e uma imagem de sua bondade. Embora única, tudo pode; imutável em si mesma, renova todas as coisas. Ela se derrama de geração em geração nas almas santas e forma os amigos e os intérpretes de Deus, porque Deus somente ama quem vive com a sabedoria!(Sb 7, 25-28).

A sabedoria faz o seu próprio elogio, honra-se em Deus, gloria-se no meio do seu povo.Ela abre a boca na assembléia do Altíssimo, gloria-se diante dos exércitos do Senhor, é exaltada no meio do seu povo, e admirada na assembléia santa. Entre a multidão dos eleitos, recebe louvores, e bênçãos entre os abençoados de Deus. .Ela diz: Saí da boca do Altíssimo; nasci antes de toda criatura. Eu fiz levantar no céu uma luz indefectível, e cobri toda a terra como que de uma nuvem..Habitei nos lugares mais altos: meu trono está numa coluna de nuvens..Sozinha percorri a abóbada celeste, e penetrei nas profundezas dos abismos. Andei sobre as ondas do mar,.e percorri toda a terra. Imperei sobre todos os povos.e sobre todas as nações..Tive sob os meus pés, com meu poder, os corações de todos os homens, grandes e pequenos. Entre todas as coisas procurei um lugar de repouso, e habitarei na moradia do Senhor. Então a voz do Criador do universo deu-me suas ordens, e aquele que me criou repousou sob minha tenda. E disse-me: Habita em Jacó, possui tua herança em Israel, estende tuas raízes entre os eleitos. Desde o início, antes de todos os séculos, ele me criou, e não deixarei de existir até o fim dos séculos; e exerci as minhas funções diante dele na casa santa. Assim fui firmada em Sião; repousei na cidade santa, e em Jerusalém está a sede do meu poder.Lancei raízes no meio de um povo glorioso, cuja herança está na partilha de meu Deus; e fixei minha morada na assembléia dos santos. Elevei-me como o cedro do Líbano, como o cipreste do monte Sião; cresci como a palmeira de Cades, como as roseiras de Jericó. Elevei-me como uma formosa oliveira nos campos, como um plátano no caminho à beira das águas. Exalo um perfume de canela e de bálsamo odorífero, um perfume como de mirra escolhida; como o estoraque, o gálbano, o ônix e a mirra, como a gota de incenso que cai por si própria, perfumei minha morada. Meu perfume é como o de um bálsamo sem mistura. Estendi meus galhos como um terebinto, meus ramos são de honra e de graça. Cresci como a vinha de frutos de agradável odor, e minhas flores são frutos de glória e abundância. Sou a mãe do puro amor, do temor (de Deus), da ciência e da santa esperança, em mim se acha toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude. Vinde a mim todos os que me desejais com ardor, e enchei-vos de meus frutos; pois meu espírito é mais doce do que o mel, e minha posse mais suave que o favo de mel. A memória de meu nome durará por toda a série dos séculos. Aqueles que me comem terão ainda fome, e aqueles que me bebem terão ainda sede. Aquele que me ouve não será humilhado, e os que agem por mim não pecarão. Aqueles que me tornam conhecida terão a vida eterna. Tudo isso é o livro da vida, a aliança do Altíssimo, e o conhecimento da verdade.(Eclesiástico 24, 1-32).

As árvores e plantas a que a Sabedoria se compara e que produzem frutos de qualidades tão diversificadas, indicam a grande variedade de estados, de funções e de virtudes nas próprias almas. São estas como cedros, devido à elevação dos seus corações para o céu; são como ciprestes, devido à sua meditação contínua sobre a morte; são como palmeiras, devido à humildade em suportar fadigas; são como roseiras, em virtude da capacidade que têm de martírio e derramamento de sangue; são como plátanos porque plantados ao longo das correntes de água; são como terebintos de majestosos ramos devido à extensão da caridade para com os irmãos; são enfim, como todas as outras plantas perfumadas, tais como o bálsamo, a mirra, devido à vida solitária e ao desejo de serem conhecidas mais por Deus do que pelos homens.(p.39).

São João afirma que tudo foi criado pelo Verbo, ou seja, a Sabedoria eterna. Salomão define-a como mãe e artífice de todas as coisas. Note-se que ele não lhe chama apenas de artífice, do universo, mas também de mãe: o artífice, na verdade, não ama e não cuida da sua obra como uma mãe cuida de seu filho. A sabedoria eterna, depois de ter criado todas as coisas, também permanece nelas para mantê-las em seu regaço, sustentá-las e renová-las.(p.42).

Adoração

A sabedoria eterna, para mais facilmente se aproximar dos homens e para lhes testemunhar mais sensivelmente o seu amor, chegou ao ponto de fazer-se homem, de tornar-se criança, de fazer-se pobre e até de morrer por eles numa cruz.

Deus ama tanto as crianças que quis vir ao mundo através do ventre de Maria, como um bebê. Nasceu num lugar humilde. O amor de Deus é infinito, pois ao fazer-se homem, decide por ser o mais indefeso dos seres humanos, um bebê. Percebe-se o amor inesgotável de Deus pelo ser humano.

No pecado original, pelo orgulho, Adão e Eva quiseram ser grandes, quiseram ser Deus. A melhor forma de vencer o orgulho é a humildade. Por isso, Deus, humilhou-se, se fez homem para pagar todos nossos pecados. A humildade e o amor foram tão infinitos que Deus se fez pequeno, veio ao mundo como um bebê. Que gesto maravilhoso de humildade e de amor pelo ser humano! A humildade de Deus que fez-se um bebê para nascer no ventre virginal de Maria não tirou sua excelência e poder. Por isso, a primeira adoração de Jesus ocorreu quando ainda era bebê. Quando havia nascido. Vejamos:

Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.(Mateus 2, 11).

São Luís Grignion Monfort disse: O amabilíssimo salvador tinha um rosto tão doce e tão bondoso, que cativara de imediato os corações e os olhos de quantos n’Ele pousavam. Os pastores que lhe foram visitar no presépio ficaram de tal maneira encantados com a doçura e suavidade do seu rosto, que permaneceram ali dias inteiros, autenticamente extasiados, na sua contemplação. Os reis até mesmo os mais altivos, mal se aperceberam dos traços amorosos daquela criança, depressa depuseram sua altivez, indo ajoelhar, sem dificuldade, aos pés do seu berço. E quantas vezes terão dito uns para os outros: “Amigos, como é agradável estar aqui! Não temos experiência nos nossos palácios dum prazer como este, que se sente neste estábulo, a contemplar o Menino-Deus.(p.116).

Por isso, quando adoramos Jesus na Eucarístia, repetimos o gesto dos três reis magos que adoraram Jesus ainda bebê. Quando ainda era bem pequeno. Da mesma forma que os reis magos acreditaram que aquele lindo bebê que nascia era Deus, assim também, devemos crer em toda missa, após aas palavras de consagração do padre, pelo milagre da consubstanciação, nasce o menino Jesus na pequena Eucaristia. A eucaristia é a presença plena de Jesus e por isso deve ser adorada. Faz-se necessário encher de flores e presentes todos os santíssimos do mundo. Por isso, Jesus disse: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!” Devemos ter o olhar puro dos reis magos, que viram naquele humilde presépio, mais do que um lindo e humilde bebê, pois viram a Deus, Jesus Cristo, o Salvador. E por isso, se prostraram e o adoraram. Assim, quando vemos a humilde Eucaristia devemos reconhecer Jesus e o adorar eternamente. Todos os santíssimos do mundo devem ter uma imagem de Nossa Senhora ao lado do Santíssimo. Assim, como Maria esteve na primeira adoração de Jesus(ao nascer) também se encontra em todos santíssimos para presenciar com felicidade as adorações e interceder junto ao seu Filho Amado por nós, os pecadores.

Monfort disse: “Querendo a sabedoria, por um lado manifestar o seu amor pelos homens até morrer por eles para salvá-los e, por outro lado, não podendo abandoná-los à sua sorte, eis que encontrou um segredo admirável de morrer mas de continuar a viver, e permanecendo com os mesmos homens até o fim dos tempos: trata-se da amorosa instituição da eucaristia.E, para poder cumprir até a perfeição o seu amor neste mistério, não hesitou mesmo a alterar e derrubar as próprias leis da natureza. Se ela não se esconde debaixo do esplendor de um diamante ou de outra pedra preciosa é porque não deseja ficar com o homem apenas exteriormente; mas esconde-se sob as aparências dum pequeno pedaço de pão – que é o alimento próprio do homem – a fim de que, comido pelo mesmo homem, possa penetrar dentro do seu coração e aí encontrar suas delícias. É a invenção dum amor intenso.”(p.74)

Sejamos puros como as crianças

Deus ama tanto as crianças que as coloca como prioridade do Reino dos céus. Por isso, quando temos um coração de criança que é dócil a palavra de Deus e busca praticar o que Jesus ensinou, acabamos escolher o caminho mais fácil para chegar a salvação: o caminho da pequenez.

Porque, Jesus só nos revelou, no evangelho, sua infância(até os 12 anos) e sua vida pública(30-33 anos)?

A resposta é simples: Jesus queria ensinar-nos a necessidade de sermos como crianças. Termos um coração puro, dócil, que não julga e que vê além das aparências. Quis mostrar que os últimos(crianças – são dependentes) serão os primeiros; e os primeiros(adultos – são independentes) serão os últimos. Por isso, para sermos santos devemos ser dependentes de Deus e confiar nossa vida em suas mãos, seguindo a pureza infantil que Jesus nos recomendou.

Jesus disse:”Deixai vir a mim os pequequinos e não os impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se lhes assemelham. Em verdade vos digo: todo o que não receber o Reino de Deus com a mentalidade de uma criança, nele não entrará.” Em seguida, ele as abraçou e as abençoou, impondo-lhes as mãos. (Marcos 10, 14-16)

Vejamos outras passagens da Bíblia sobre os pequeninos:

O menino ia crescendo e se fortificava: estava cheio de sabedoria, e a graça de Deus repousava nele..Seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa..Tendo ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa..Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o menino Jesus em Jerusalém, sem que os seus pais o percebessem..Pensando que ele estivesse com os seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e o buscaram entre os parentes e conhecidos..Mas não o encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura dele..Três dias depois o acharam no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os.Todos os que o ouviam estavam maravilhados da sabedoria de suas respostas.Quando eles o viram, ficaram admirados. E sua mãe disse-lhe: Meu filho, que nos fizeste?! Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição.Respondeu-lhes ele: Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?Eles, porém, não compreenderam o que ele lhes dissera.Em seguida, desceu com eles a Nazaré e lhes era submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração.E Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens.(Lucas 2, 40-52).

Sim, excelso é o Senhor, mas olha os pequeninos, enquanto seu olhar perscruta os soberbos. (Salmos 137,6)

Todo aquele que der ainda que seja somente um copo de água fresca a um destes pequeninos, porque é meu discípulo, em verdade eu vos digo: não perderá sua recompensa. (São Mateus 10,42)

Assim é a vontade de vosso Pai celeste, que não se perca um só destes pequeninos. (São Mateus 18,14)

Responderá o Rei: – Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. (São Mateus 25,40)

Naquele mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-te porque assim foi do teu agrado. (São Lucas 10,21)

Mas todo o que fizer cair no pecado a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que uma pedra de moinho lhe fosse posta ao pescoço e o lançassem ao mar! (São Marcos 9,42)

Os mundanos

Mandamentos ditados pelo mundo:

1)Conhecerás bem o mundo;
2)Viverás como homem honrado;
3)Orientarás bem os teus negócios;
4)Guardarás bem o que te pertence;
5)Procurarás sair do anonimato;
6)Procurarás ganhar-te amigos;
7)Freqüentarás a alta sociedade;
8)Comerás e beberás bem;
9)Não alimentarás melancolias;
10)Evitarás a singularidade, a rudeza, a beatice.

Quando, na maior parte das vezes, pensam falam e agem, é somente em vista de ter ou conservar algum bem temporal algum bem temporal, ao passo que – no que se refere à salvação, e aos meios para alcançá-la, como sejam, a confissão, a comunhão, a oração, etc. – sim, dão-lhe uma tênue atenção, fazem-no com ligeireza, por puro formalismo, com irregularidade e apenas para tranqüilizarem a consciência e salvarem as aparências.(p.82).

A sabedoria carnal é o amor pelo prazer. Os sábios segundo o mundo professam essa sabedoria quando não procuram senão o prazer dos sentidos; quando têm prazer em comer e beber; quando afastam de si tudo o que eventualmente poderá mortificar e incomodar o corpo…A sabedoria diabólica é o amor pela estima, pelas honrarias.(p.83).

A Cruz

A cruz é, portanto, o patrimônio e a recompensa de quantos desejam e possuem a Sabedoria eterna. Esta amável soberana, porém – que tudo fez em número, peso e medida – não envia cruzes aos seus amigos senão na proporção das suas forças; ainda assim, derrama tal doce unção sobre as suas cruzes, que elas acabam por tornar-se-lhes fonte de delícias.(p.102).

Docilidade de Jesus

Se os soldados romanos e os judeus lhe taparam o rosto, pois não terá sido senão para mais ousadamente o esbofetearem e maltratarem, já que dos seus olhos e do seu rosto saía um encantador de beleza de tal maneira doce e encantador capaz de desarmar os mais cruéis.(p.117).

Jesus é doce nas palavras. Enquanto vivia na terra, a todos conquistava com a doçura das suas palavras, e nunca se lhe ouviu levantar a voz, ou discutir com animosidade…milhares e milhares de pessoas humildes abandonaram as suas casas e famílias para irem ouvi-lo, até no interior do deserto, ficando diversos dias sem comer nem beber, saciando-se apenas da doçura das suas palavras. Foi com essa doçura de palavras, que atuavam como um íman, que Jesus cativou os Apóstolos a seguí-lo, sarou os doentes mais incuráveis, e consolou os mais aflitos.(p.118).

Jesus, enfim, é doce nas suas ações e em todo o seu comportamento: “Fez bem todas as coisas, ou seja, tudo quando Jesus Cristo fez, realizou-se com tal maestria, sabedoria, santidade e doçura, que não é possível encontrar-lhe qualquer defeito ou falha.(p.119).

Os pobres e crianças seguiam-no por toda parte, considerando-o um entre elas. Viam nesse querido Salvador tanta simplicidade, benignidade, condescendência e caridade que se acotovelavam à sua volta para se aproximarem d’Ele.(p.119).

Perdoar sempre

Conta S. Dionísio de Areopagita que um bispo, de nome Carpo, depois de muitos esforços, conseguiu converter um idólatra. Informado, porém, de que outro pagão tinha conseguido depois levá-lo a apostatar, decidiu fazer, durante toda uma noite, orações insistentes a Deus para que a injúria feita à Majestade divina fosse vingada e pediu castigo para o culpado. Quando, porém, se encontrava no auge mais caloroso do seu zelo e da sua oração, eis que viu a terra abrir-se de rompante e viu ainda, na orla do inferno, esse apóstata e idólatra que os demônios tentavam levar para dentro. Erguendo os olhos, viu que os céus se abriram e viu Jesus Cristo rodeado duma multidão de anjos que, dirigindo-se para ele, disse-lhe: “Carpo, tu pedes vingança. Então não me conheces? Sabes tu, porventura, o que estás a pedir? E não sabes quanto me custaram os pecadores? Por que queres tu que Eu os condene?É que Eu os amo tanto que, se fosse preciso, Eu estaria disposto a morrer por cada um deles, uma segunda vez”. E, aproximando-se mais de Carpo, mostrou-lhe as costas descobertas, dizendo-lhe: “Carpo, se queres vingança bate em mim, de preferência a maltratares o pecador.”(p.123-124).

Amar os inimigos

Já houve, é verdade, casos de amigos que deram a vida pelos seus amigos; mas será que já alguém – excetuando o Filho de Deus – tenha dado a vida pelos seus inimigos?(p.140).

A cruz e Jesus

Jamais a cruz sem Jesus nem Jesus sem a cruz!(p.151).

No grande dia dó juízo, cessarão todas as relíquias dos santos, mesmo as dos mais eminentes, porém, no que toca às da sua Cruz, a Sabedoria divina ordenará aos primeiros coros de Serafins e Querubins para irem, pelo mundo afora, procurar e recolher todos os pedaços da Cruz verdadeira que, graças à sua amorosa onipotência, não construindo senão uma única cruz, ou seja, Aquela em que a própria Sabedoria divina morreu. E fará com que essa Cruz seja transportada em triunfo pelos Anjos, que entoarão cânticos de alegria. Ela far-se-á preceder por essa Cruz, pousada em cima da nuvem brilhante e, com ela e por ela, julgará o mundo. Quão alegria sentirão então os amigos da Cruz, ao contemplá-la; e qual não será o desespero de seus inimigos por não poderem suportar a visão da Cruz tão resplandecente e aterradora e gritarão às montanhas para que caiam sobre eles, e aos infernos, que os engulam. (p.152).

A cruz é boa preciosa por uma infinidade de razões:

a. Porque nos torna semelhantes a Jesus Cristo;
b. Porque nos torna filhos dignos de Deus Pai, membros dignos de Jesus Cristo e templos dignos do Espírito Santo. Deus Pai corrige todos aqueles que adota como filhos. Pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho (Pr 3,11s).(Hb 12, 6)
c. A Cruz é boa porque ilumina a inteligência, dando-lhe mais compreensão do que todos livros do mundo: “O que não foi posto à prova pouco sabe.”
d. A Cruz, quando carregada dignamente, torna-se causa, alimento e prova de amor…Ela é a prova mais segura do amor a Deus, já que foi essa a prova que o próprio Deus usou para provar o seu amor para com o homem.
e. A Cruz é boa porque é uma fonte abundante de toda espécie de doçuras, e faz brotar na alma a alegria, a paz e a graça.
f. Ela é boa porque prepara, para quem a carrega, uma riqueza incomparável de glória eterna.(p.156-158).

Alegrai-vos, rejubilai, já que a Cruz que carregais é um dom precioso que faz inveja aos próprios bem-aventurados, uma vez que eles já não podem carregá-la.

Fonte: O amor da sabedoria eterna.Edições Monfortinas.

3)Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem

Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por ela que deve reinar no mundo.

Toda a sua vida Maria permaneceu oculta; por isso o Espírito Santo e a Igreja a chamam Alma Mater – Mãe escondida e secreta. Tão profunda era a sua humildade, que, para ela, o atrativo mais poderoso, mais constante era esconder-se de si mesma e de toda criatura, para ser conhecida somente de Deus. Para atender aos pedidos que ela lhe fez de escondê-la, empobrecê-la e humilhá-la, Deus providenciou para que oculta ela permanecesse em seu nascimento, em sua vida, em seus mistérios, em sua ressurreição e assunção, passando despercebida aos olhos de quase toda criatura humana. Seus próprios parentes não a conheciam; e os anjos perguntavam muitas vezes uns aos outros: Quae est ista?… – Quem é esta? (Ct 3, 6; 8, 5) pois que o Altíssimo lha escondia; ou, se algo lhes desvendava a respeito, muito mais, infinitamente, lhes ocultava.

Deus Pai consentiu que jamais em sua vida ela fizesse algum milagre, pelo menos um milagre visível e retumbante, conquanto lhe tivesse outorgado o poder de fazê-los. Deus Filho consentiu que ela não falasse, se bem lhe houvesse comunicado a sabedoria divina. Deus Espírito Santo consentiu que os apóstolos e evangelistas a ela mal se referissem, e apenas no que fosse necessário para manifestar Jesus Cristo. E, no entanto, ela era a Esposa do Espírito Santo.

Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo, cujo conhecimento e domínio ele reservou para si. Maria é a Mãe admirável do Filho, a quem aprouve humilhá-la e ocultá-la durante a vida para lhe favorecer a humildade, tratando-a de mulher – mulier (Jo 2, 4; 19, 26), como a uma estrangeira, conquanto em seu Coração a estimasse e amasse mais que todos os anjos e homens. Maria é a fonte selada (Ct 4, 12) e a esposa fiel do Espírito Santo, onde só ele pode penetrar. Maria é o santuário, o repouso da Santíssima Trindade, em que Deus está mais magnífica e divinamente que em qualquer outro lugar do universo, sem excetuar seu trono sobre os querubins e serafins; e criatura algumas, pura que seja, pode aí penetrar sem um grande privilégio.

Digo com os santos: Maria Santíssima é o paraíso terrestre do novo Adão, no qual este se encarnou por obra do Espírito Santo, para aí operar maravilhas incompreensíveis. É o grande, o divino mundo de Deus, onde há belezas e tesouros inefáveis. É a magnificência de Deus, em que ele escondeu, como em seu seio, seu Filho único, e nele tudo que há de mais excelente e mais precioso. Oh! que grandes coisas e escondidas Deus todo-poderoso realizou nesta criatura admirável, di-lo ela mesma, como obrigada, apesar de sua humildade profunda: Fecit mihi magna qui potens est (Lc 1, 49). O mundo desconhece essas coisas porque é inapto e indigno.

Os santos disseram coisas admiráveis desta cidade santa de Deus; e nunca foram tão eloqüentes nem mais felizes, – eles o confessam – que ao tomá-la como tema de suas palavras e de seus escritos. E, depois, proclamam que é impossível perceber a altura dos seus méritos, que ela elevou até ao trono da Divindade; que a largura de sua caridade, mais extensa que a terra, não se pode medir; que está além de toda compreensão a grandeza do poder que ela exerce sobre o próprio Deus; e, enfim, que a profundeza de sua humildade e de todas as suas virtudes e graças são um abismo impossível de sondar. Ó altura incompreensível! Ó largura inefável! Ó grandeza incomensurável! Ó insondável!

Todos os dias, dum extremo da terra ao outro, no mais alto dos céus, no mais profundo dos abismos, tudo prega, tudo exalta a incomparável Maria. Os nove coros de anjos, os homens de todas as idades, condições e religiões, os bons e os maus. Os próprios demônios são obrigados, de bom ou mau grado, pela força da verdade, a proclamá-la bem-aventurada. Vibra nos céus, como diz São Boaventura, o clamor incessante dos anjos: Sancta, sancta, sancta Maria, Dei Genitrix et Virgo; e milhões e milhões de vezes, todos os dias, eles lhe dirigem a saudação angélica: Ave, Maria…, prosternado-se diante dela e pedindo-lhe a graça de honrá-la com suas ordens. E a todos se avantaja o príncipe da corte celeste, São Miguel, que é o mais zeloso em render-lhe e procurar toda a sorte de homenagens, sempre atento, para ter a honra de, à sua palavra, prestar um serviço a algum dos seus servidores.

Toda a terra está cheia de sua glória, particularmente entre os cristãos, que a tomam como padroeira e protetora em muitos países, províncias, dioceses e cidades. Inúmeras catedrais são consagradas sob a invocação do seu nome. Igreja alguma se encontra sem um altar em sua honra; não há região ou país que não possua alguma de suas imagens milagrosas, junto das quais todos os males são curados e se obtêm todos os bens. Quantas confrarias e congregações erigidas em sua honra! quantos institutos e ordens religiosas abrigados sob seu nome e proteção! quantos irmãos e irmãs de todas as confrarias , e quantos religiosos e religiosas a entoar os seus louvores, a anunciar as suas maravilhas! Não há criancinha que, balbuciando a Ave-Maria, não a louve; mesmo os pecadores, os mais empedernidos, conservam sempre uma centelha de confiança em Maria. Dos próprios demônios no inferno, não há um que não a respeite, embora temendo.

Depois disto é preciso dizer, em verdade, com os santos:

De Maria nunquam satis… Ainda não se louvou, exaltou, amou e serviu suficientemente a Maria, pois muito mais louvor, respeito, amor e serviço ela merece. É preciso dizer, ainda, com o Espírito Santo: Omnis gloria eius filiae Regis ab intus – Toda a glória da Filha do Rei está no interior (Sl 44, 14), como se toda a glória exterior, que lhe dão, a porfia, o céu e a terra, nada fosse em comparação daquela que ela recebe no interior, da parte do Criador, e que desconhecem as fracas criaturas, incapazes de penetrar o segredo dos segredos do Rei.

Devemos, portanto, exclamar com o apóstolo: Nec oculus vidit, nec auris audivit, nec in cor hominis ascendit (1Cor 2, 9) – os olhos não viram, o ouvido não ouviu, nem o coração do homem compreendeu as belezas, as grandezas e excelências de Maria, o milagre dos milagres da graça6, da natureza e da glória. Se quiserdes compreender a Mãe – diz um santo – compreendei o Filho. Ela é uma digna Mãe de Deus: Hic taceat omnis lingua – Toda língua aqui emudeça.

Meu coração ditou tudo o que acabo de escrever com especial alegria, para demonstrar que Maria Santíssima tem sido, até aqui, desconhecida, e que é esta uma das razões por que Jesus Cristo não é conhecido como deve ser. Quando, portanto, e é certo, o conhecimento e o reino de Jesus Cristo tomarem o mundo, será uma conseqüência necessária do conhecimento e do reino da Santíssima Virgem Maria. Ela o deu ao mundo a primeira vez, e também, da segunda, o fará resplandecer. No sentido de: conhecida insuficientemente, como se depreende de todo este parágrafo e da expressão: “Jesus Cristo não é conhecido como deve ser”.

Necessidade da devoção à Santíssima Virgem

Confesso com toda a Igreja que Maria é uma pura criatura saída das mãos do Altíssimo. Comparada, portanto, à Majestade infinita ela é menos que um átomo, é, antes, um nada, pois que só ele é “Aquele que é” (Ex 3, 14) e, por conseguinte, este grande Senhor, sempre independente e bastando-se a si mesmo, não tem nem teve jamais necessidade da Santíssima Virgem para a realização de suas vontades e a manifestação de sua glória. Basta-lhe querer para tudo fazer. Digo, entretanto, que, supostas as coisas como são, já que Deus quis começar e acabar suas maiores obras por meio da Santíssima Virgem, depois que a formou, é de crer que não mudará de conduta nos séculos dos séculos, pois é Deus, imutável em sua conduta e em seus sentimentos.

Deus quis servir-se de Maria na Encarnação.

Deus Pai só deu ao mundo seu Unigênito por Maria. Suspiraram os patriarcas, e pedidos insistentes fizeram os profetas e os santos da lei antiga, durante quatro milênios, mas só Maria o mereceu, e alcançou graça diante de Deus8, pela força de suas orações e pela sublimidade de suas virtudes. Porque o mundo era indigno, diz Santo Agostinho, de receber o Filho de Deus diretamente das mãos do Pai, ele o deu a Maria a fim de que o mundo o recebesse por meio dela.

Em Maria e por Maria é que o Filho de Deus se fez homem para nossa salvação. Deus Espírito Santo formou Jesus Cristo em Maria, mas só depois de lhe ter pedido consentimento por intermédio de um dos primeiros ministros da corte celestial.Deus Pai transmitiu a Maria sua fecundidade, na medida em que a podia receber uma simples criatura, para que ela pudesse produzir o seu Filho e todos os membros de seu Corpo Místico. Deus Filho desceu ao seu seio virginal, qual novo Adão no paraíso terrestre, para aí ter suas complacências e operar em segredo maravilhas de graça. Deus, feito homem, encontrou sua liberdade em se ver aprisionado no seio da Virgem Mãe; patenteou a sua força em se deixar levar por esta Virgem santa; achou sua glória e a de seu Pai, escondendo seus esplendores a todas as criaturas deste mundo, para revelá-las somente a Maria; glorificou sua independência e majestade, dependendo desta Virgem amável, em sua conceição, em seu nascimento, em sua apresentação no templo, em seus trinta anos de vida oculta, até à morte, a que ela devia assistir, para fazerem ambos um mesmo sacrifício e para que ele fosse imolado ao Pai eterno com o consentimento de sua Mãe, como outrora Isaac, como o consentimento de Abraão à vontade de Deus. Foi ela quem o amamentou, nutriu, sustentou, criou e sacrificou por nós.

Ó admirável e incompreensível dependência de um Deus, de que nos foi dado conhecer o preço e a glória infinita, pois o Espírito Santo não a pôde passar em silêncio no Evangelho, como incógnitas nos ficaram quase todas as coisas maravilhosas que fez a Sabedoria encarnada durante sua vida oculta. Jesus Cristo deu mais glória a Deus, submetendo-se a Maria durante trinta anos, do que se tivesse convertido toda a terra pela realização dos mais estupendos milagres. Oh! quão altamente glorificamos a Deus, quando, para lhe agradar, nos submetemos a Maria, a exemplo de Jesus Cristo, nosso único modelo. Se examinarmos atentamente o resto da vida de Jesus, veremos que foi por Maria que ele quis começar seus milagres. Pela palavra de Maria ele santificou São João no seio de Santa Isabel; assim que as palavras brotaram dos lábios de Maria, João ficou santificado, e foi este seu primeiro e maior milagre de graça. Foi ao humilde pedido de Maria, que ele, nas núpcias de Caná, mudou água em vinho, sendo este seu primeiro milagre sobre a natureza. Ele começou e continuou seus milagres por Maria, e por Maria os continuará até ao fim dos séculos.

O Espírito Santo, que era estéril em Deus, isto é, não produzia outra pessoa divina, tornou-se fecundo em Maria. É com ela, nela e dela que ele produziu sua obra-prima, de um Deus feito homem, e que produz todos os dias, até ao fim do mundo, os predestinados e os membros do corpo deste Chefe adorável. Eis por que, quanto mais, em uma alma, ele encontra Maria, sua querida e inseparável esposa, mais operante e poderoso se torna para produzir Jesus Cristo n essa alma, e essa alma em Jesus Cristo. Não se quer dizer com isto que a Santíssima Virgem dê a fecundidade ao Espírito Santo, como se ele não a tivesse. Sendo Deus, ele possui a fecundidade ou a capacidade de produzir, como o Pai e o Filho. Não a reduz, porém, a ação, e não gera outra pessoa divina. O que se quer dizer é que o Espírito Santo, por intermédio da Virgem, da qual se quis servir, se bem que não lhe fosse absolutamente necessário, reduziu ao ato a sua fecundidade, produzindo, nela e por ela, Jesus Cristo e seus membros. É um mistério da graça inacessível até aos mais sábios e espirituais dentre os cristãos.

Deus quer servir-se de Maria na santificação das almas

A conduta das três pessoas da Santíssima Trindade, na encarnação e primeira vinda de Jesus Cristo, é a mesma de todos os dias, de um modo visível, na Igreja, e esse procedimento há de perdurar até à consumação dos séculos, na última vinda de Cristo. Deus Pai ajuntou todas as águas e denominou-as mar; reuniu todas as graças e chamou-as Maria. Este grande Deus tem um tesouro, um depósito riquíssimo, onde encerrou tudo que há de belo, brilhante, raro e precioso, até seu próprio Filho; e este tesouro imenso é Maria, que os anjos chamam o tesouro do Senhor, e de cuja plenitude os homens se enriquecem. Deus Filho comunicou a sua Mãe tudo que adquiriu por sua vida e morte: seus méritos infinitos e suas virtudes admiráveis. Fê-la tesoureira de tudo que seu Pai lhe deu em herança; é por ela que ele aplica seus méritos aos membros do corpo místico, que comunica suas virtudes, e distribui suas graças; é ela o canal misterioso, o aqueduto, pelo qual passam abundante e docemente suas misericórdias. Deus Espírito Santo comunicou a Maria, sua fiel esposa, seus dons inefáveis, escolhendo-a para dispensadora de tudo que ele possui. Deste modo ela distribui seus dons e suas graças a quem quer, quanto quer, como quer e quando quer, e dom nenhum é concedido aos homens, que não passe por suas mãos virginais. Tal é a vontade de Deus, que tudo tenhamos por Maria e assim será enriquecida, elevada e honrada pelo Altíssimo, aquela que, em toda a vida, quis ser pobre, humilde e escondida até ao nada. Eis a opinião da Igreja e dos Santos Padres.

Se eu me dirigisse aos espíritos fortes desta época, tudo isso, que digo simplesmente, poderia prová-lo pela Sagrada Escritura, pelos Santos Padres, citando longas passagens em latim e aduzindo os mais fortes argumentos, que o Padre Poiré deduz e desenvolve em sua Tríplice coroa da Santíssima Virgem. Falo, porém, aos pobres e aos simples que, por serem de boa vontade e terem mais fé que a maior parte dos sábios, crêem com mais simplicidade e mérito, e, portanto, contento-me de lhes simplesmente a verdade, sem me preocupar em citar todos os textos latinos, embora mencione alguns, mas sem os rebuscar muito. Continuemos.

Pois que a graça aperfeiçoa a natureza e a glória aperfeiçoa a graça, é certo que Nosso Senhor continua a ser, no céu, tão Filho de Maria, como o foi na terra. Por conseguinte, ele conserva a submissão e obediência do mais perfeito dos filhos para com a melhor das mães. Cuidemos, porém, de não atribuir a essa dependência o menor abaixamento ou imperfeição em Jesus Cristo. Maria está infinitamente abaixo de seu Filho, que é Deus, e, portanto, não lhe dá ordens, como uma mãe terrestre as dá a seu filho. Maria, porque está toda transformada em Deus pela graça e pela glória que, em Deus, transforma todos os santos, não pede, não quer, não faz a menor coisa contrário à eterna e imutável vontade de Deus. Quando se lê, portanto, nos escritos de São Bernardo, São Bernardino, São Boaventura, etc., que no céu e na terra tudo, o próprio Deus, está submisso à Santíssima Virgem13, devemos entender que a autoridade, que Deus espontaneamente lhe conferiu, é tão grande que ela parece ter o mesmo poder que Deus, e que suas preces e rogos são tão eficazes que se podem tomar como ordens junto de sua Majestade, e ele não resiste nunca às súplicas de sua Mãe, porque ela é sempre humilde e conformada à vontade divina.

Se Moisés, pela força de sua oração, conseguiu sustar a cólera de Deus contra os israelitas, e de tal modo que o altíssimo e infinitamente misericordioso Senhor lhe disse que o deixasse encolerizar-se e punir aquele povo rebelde, que devemos pensar, com muito mais razão, da prece da humilde Maria, a digna Mãe de Deus, que tem mais poder junto da Majestade divina, que as preces e intercessões de todos os anjos e santos do céu e da terra?

No céu, Maria dá ordens aos anjos e aos bem-aventurados. Para recompensar sua profunda humildade, Deus lhe deu o poder e a missão de povoar de santos os tronos vazios, que os anjos apóstatas abandonaram e perderam por orgulho. E a vontade do Altíssimo, que exalta os humildes (Lc 1, 52), é que o céu, a terra e o inferno se curvem, de bom ou mau grado, às ordens da humilde Maria, pois ele a fez soberana do céu e da terra, general de seus exércitos, tesoureira de suas riquezas, dispensadora de sua graças, artífice de suas grandes maravilhas, reparadora do gênero humano, medidora para os homens, exterminadora dos inimigos de Deus e a fiel companheira de sua grandezas e de seus triunfos.

Por meio de Maria, Deus Pai quer que aumente sempre o número de seus filhos, até a consumação dos séculos, e diz-lhes estas palavras: In Iacob inhabita – Habita em Jacob (Ecli 24, 13), isto é, faze tua morada e residência em meus filhos e predestinados, figurados por Jacob e não nos filhos do demônio e nos réprobos, que Esaú figura.

Assim como na geração natural e corporal há um pai e uma mãe, há, na geração sobrenatural, um pai que é Deus e uma mãe, Maria Santíssima. Todos os verdadeiros filhos de Deus e os predestinados têm Deus por pai, e Maria por mãe; e quem não tem Maria por mãe, não tem Deus por pai. Por isso, os réprobos, os hereges, os cismáticos, etc., que odeiam ou olham com desprezo ou indiferença a Santíssima Virgem, não têm Deus por pai, ainda que disto se gloriem, pois não têm Maria por mãe. Se eles a tivessem por Mãe, haviam de amá-la e honrá-la, como um bom e verdadeiro filho ama e honra naturalmente sua mãe que lhe deu a vida.

O sinal mais infalível e indubitável para distinguir um herege, um cismático, um réprobo, de um predestinado, é que o herege e o réprobo ostentam desprezo e indiferença pela Santíssima Virgem e buscam por suas palavras e exemplos, abertamente e às escondidas, às vezes sob belos pretextos, diminuir e amesquinhar o culto e o amor a Maria. Ah! Não foi nestes que Deus Pai disse a Maria que fizesse sua morada, pois são filhos de Esaú.

O desejo de Deus Filho é formar-se e, por assim dizer, encarnar-se todos os dias, por meio de sua Mãe, em seus membros. Ele lhe diz: “In Israel hereditare – Possui tua herança em Israel” (Ecli 24, 13), como se dissesse: Deus, meu Pai, deu-me por herança todas as nações da terra, todos os homens bons e maus, predestinados e réprobos. Eu os conduzirei, uns com a vara de ouro, outros com a vara de ferro; serei o pai e advogado de uns, o justo vingador para outros, o juiz de todos; mas vós, minha querida Mãe, só tereis por herança e possessão os predestinados, figurados por Israel. Como sua boa mãe vós lhes dareis a vida, os nutrireis, educareis; e, como sua soberana, os conduzireis, governareis e defendereis.

“Um grande número de homens nasceu nela”, diz o Espírito Santo: Homo et homo natus est in ea. Conforme a explicação de alguns Santos Padres o primeiro homem nascido em Maria é o homem-Deus, Jesus Cristo; o segundo é um homem puro, filho de Deus e de Maria por adoção. Se Jesus Cristo, o chefe dos homens, nasceu nela, os predestinados, que são os membros deste chefe, devem também nascer nela, por uma conseqüência necessária. Não há mãe que dê à luz a cabeça sem os membros ou os membros sem a cabeça: seria uma monstruosidade da natureza. Do mesmo modo, na ordem da graça, a cabeça e os membros nascem da mesma mãe, e, se um membro do Corpo Místico de Jesus Cristo, isto é, um predestinado, nascesse de outra mãe que Maria, que produziu a cabeça, não seria um predestinado, nem membro de Jesus Cristo, e sim um monstro na ordem da graça.

Além disso, pois que Jesus é agora, mais do que nunca, o fruto de Maria, como lhe repetem mil e mil vezes diariamente o céu e a terra: “…e bendito é o fruto do vosso ventre”, é certo que Jesus Cristo, para cada homem em particular, que o possui, é tão verdadeiramente o fruto e obra de Maria como pra todo o mundo em geral. Deste modo, se qualquer fiel tem Jesus Cristo formado em seu coração, pode atrever-se a dizer: “Mil graças a Maria! este Jesus que eu possuo é, com efeito, seu fruto, e sem ela eu jamais o teria”. Pode-se ainda aplicar-lhes, com mais propriedade que São Paulo aplica a si próprio, as palavras: “Quos iterum parturio, donec formetur Christus in vobis” (Gal 4, 19): Dou à luz todos os dias os filhos de Deus, até que Jesus Cristo seja nele formado em toda a plenitude de sua idade. Santo Agostinho, sobrepujando a si mesmo, e tudo o que acabo de dizer, confirma que todos os predestinados, para serem conformes à imagem do Filho de Deus, são, neste mundo ocultos no seio da Santíssima Virgem, e aí guardados, alimentados, mantidos e engrandecidos por esta boa Mãe, até que ela os dê à glória, depois da morte, que é propriamente o dia de seu nascimento, como qualifica a Igreja a morte dos justos. Ó mistério de graça, que os réprobos desconhecem e os predestinados conhecem muito pouco.

É vontade de Deus Espírito Santo que nela e por ela se formem eleitos. “In electis meis mitte radices” (Ecli 24, 12), lhe diz ele: Minha bem-amada e minha esposa, lança em meus eleitos as raízes de todas as virtudes, a fim de que eles cresçam de virtude em virtude e de graça em graça.

Tive tanta complacência em ti, quando vivias na terra, praticando as mais sublimes virtudes, que desejo ainda encontrar-te sobre a terra sem que deixes de estar no céu. Reproduze-te, portanto, em meus eleitos. Que eu veja neles com complacência as raízes de tua fé invencível, de tua humildade profunda, de tua mortificação universal, de tua oração sublime, de tua caridade ardente, de tua firmíssima esperança e de todas as tuas virtudes. É sempre a minha esposa tão fiel, tão pura e tão fecunda como nunca: que tua fé me dê fiéis, que tua pureza me dê virgens, que tua fecundidade me dê eleitos e templos. Quando Maria lança suas raízes em uma alma, maravilhas de graça se produzem, que só ela pode produzir, pois é a única Virgem fecunda que não teve jamais, nem terá semelhante em pureza e fecundidade. Maria produziu, com o Espírito Santo, a maior maravilha que existiu e existirá – um Deus-homem; e ela produzirá, por conseguinte, as coisas mais admiráveis que hão de existir nos últimos tempos. A formação e educação dos grandes santos, que aparecerão no fim do mundo, lhe está reservada, pois só esta Virgem singular e milagrosa pode produzir, em união com o Espírito santo, as obras singulares e extraordinárias. Quando o Espírito Santo, seu esposo, a encontra numa alma, ele se apodera dessa alma, penetra-a com toda a plenitude, comunicando-se-lhe abundantemente e na medida que lhe concede sua esposa; e uma das razões por que, hoje em dia, o Espírito Santo não opera, nas almas, maravilhas retumbantes, é não encontrar ele uma união bastante forte entre as almas e sua esposa fiel e inseparável. Digo esposa inseparável porque, depois que este Amor substancial do Pai e do Filho desposou Maria para produzir Jesus Cristo, o chefe dos eleitos, e Jesus Cristo nos eleitos, nunca a repudiou, pois ela tem sido sempre fiel e fecunda.
Papel especial de Maria nos últimos tempos

Por meio de Maria começou a salvação do mundo e é por Maria que deve ser consumada. Na primeira vinda de Jesus Cristo, Maria quase não apareceu, para que os homens, ainda insuficientemente instruídos e esclarecidos sobre a pessoa de seu Filho, não se lhe apegassem demais e grosseiramente, afastando-se, assim, da verdade. E isto teria aparentemente acontecido devido aos encantos admiráveis com que o próprio Deus lhe havia ornado a aparência exterior. São Dionísio, o Areopagita, o confirma numa página que nos deixou22 e em que diz que, quando a viu, tê-la-ia tomado por uma divindade, tal o encanto que emanava de sua pessoa de beleza incomparável, se a fé, em que estava bem confirmado, não lhe ensinasse o contrário. Mas, na segunda vinda de Jesus Cristo, Maria deverá ser conhecida e revelada pelo Espírito Santo, a fim de que por ela seja Jesus Cristo conhecido, amado e servido, pois já não subsistem as razões que levaram o Espírito Santo a ocultar sua esposa durante a vida e a revelá-la só pouco depois da pregação do Evangelho.

Deus quer, portanto, nesses últimos tempos, revelar-nos e manifestar Maria, a obra-prima de suas mãos:

1º Porque ela se ocultou neste mundo, e, por sua humildade profunda, se colocou abaixo do pó, obtendo de Deus, dos apóstolos e evangelistas, não ser quase mencionada.

2º Porque, sendo a obra-prima das mãos de Deus, tanto aqui em baixo, pela graça, como no céu, pela glória, ele quer que, por ela, os viventes o louvem e glorifique sobre a terra.

3º Visto ser ela a aurora que precede e anuncia o Sol da justiça, Jesus Cristo, deve ser conhecida e notada para que Jesus Cristo o seja.

4º Pois que é a via pela qual Jesus Cristo nos veio a primeira vez, ela o será ainda na segunda vinda, embora de modo diferente.
5º Pois que é o meio seguro e o caminho reto e imaculado para se ir a Jesus Cristo e encontrá-lo plenamente, é por ela que as almas, chamadas a brilhar em santidade, devem encontrá-lo. Quem encontrar Maria encontrará a vida (cf. Prov 8, 35), isto é, Jesus Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6). Mas não pode encontrar Maria quem não a procura; quem não a conhece, e ninguém procura nem deseja o que não conhece. É preciso, portanto, que Maria seja, mais do que nunca, conhecida, para maior conhecimento e maior glória da Santíssima trindade.

6º Nesses últimos tempos, Maria deve brilhar, como jamais brilhou, em misericórdia, em força e graça. Em misericórdia para reconduzir e receber amorosamente os pobres pecadores e desviados que se converterão e voltarão ao seio da Igreja católica; em força contra os inimigos de Deus, os idólatras, cismáticos, maometanos, judeus e ímpios empedernidos, que se revoltarão terrivelmente para seduzir e fazer cair, com promessas e ameaças, todos os que lhes forem contrários. Deve, enfim, resplandecer em graça, para animar e sustentar os valentes soldados e fiéis de Jesus Cristo que pugnarão por seus interesses.

7º Maria deve ser, enfim, terrível para o demônio e seus sequazes como um exército em linha de batalha, principalmente n esses últimos tempos, pois o demônio, sabendo bem que pouco tempo lhe resta para perder as almas, redobra cada dia seus esforços e ataques. Suscitará, em breve, perseguições cruéis e terríveis emboscadas aos servidores fiéis e aos verdadeiros filhos de Maria, que mais trabalho lhe dão para vencer.

É principalmente a estas últimas e cruéis perseguições do demônio, que se multiplicarão todos os dias até ao reino do Anticristo, que se refere aquela primeira e célebre predição e maldição que Deus lançou contra a serpente no paraíso terrestre. Vem a propósito explicá-la aqui, para glória da Santíssima Virgem, salvação de seus filhos e confusão do demônio.

“Inimicitias ponan inter te et mulierem, et semen tuum et semen illius; ipsa conteret caput tuum, et tu insidiaberis calcaneo eius” (Gn 3, 15): Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te pisará a cabeça, e tu armarás traições ao seu calcanhar.

Uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade irreconciliável, que não só há de durar, mas aumentar até ao fim: a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e sequazes de Lúcifer; de modo que Maria é a mais terrível inimiga que Deus armou contra o demônio. Ele lhe deu até, desde o paraíso, tanto ódio a esse amaldiçoado inimigo de Deus, tanta clarividência para descobrira malícia desta velha serpente, tanta força para vencer, esmagar e aniquilar esse ímpio orgulhoso, que o temor que Maria inspira ao demônio é maior que o que lhe inspiram todos os anjos e homens e, em certo sentido, o próprio Deus. Não que a ira, o ódio, o poder de Deus não sejam infinitamente maiores que os da Santíssima Virgem, pois as perfeições de Maria são limitadas, mas, em primeiro lugar, Satanás, porque é orgulhoso, sofre incomparavelmente mais, por ser vencido e punido pela pequena e humilde escrava de Deus, cuja humildade o humilha mais que o poder divino; segundo, porque Deus concedeu a Maria tão grande poder sobre os demônios, que, como muitas vezes se viram obrigados a confessar, pela boca dos possessos, infunde-lhes mais temor um só de seus suspiros por uma alma, que as orações de todos os santos; e uma só de suas ameaças que todos os outros tormentos.

O que Lúcifer perdeu por orgulho, Maria ganhou por humildade. O que Eva condenou e perdeu pela desobediência, salvou-o Maria pela obediência. Eva, obedecendo à serpente, perdeu consigo todos os seus filhos e os entregou ao poder infernal; Maria, por sua perfeita fidelidade a Deus, salvou consigo todos os seus filhos e servos e os consagrou a Deus.

Deus não pôs somente inimizade, mas inimizades, e não somente entre Maria e o demônio, mas também entre a posteridade da Santíssima Virgem e a posteridade do demônio. Quer dizer, Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos do demônio. Não há entre eles a menor sombra de amor, nem correspondência íntima existe entre uns e outros. Os filhos de Belial, os escravos de Satã, os amigos do mundo (pois é a mesma coisa) sempre perseguiram até hoje e perseguirão no futuro aqueles que pertencem à Santíssima Virgem, como outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú, seu irmão Jacob, figurando os réprobos e os predestinados. Mas a humilde Maria será sempre vitoriosa na luta contra esse orgulhoso, e tão grande será a vitória final que ela chegará ao pontro de esmagar-lhe a cabeça, sede de todo o orgulho. Ela descobrirá sempre sua malícia de serpente, desvendará suas tramas infernais, desfará seus conselhos diabólicos, e até ao fim dos tempos garantirá seus fiéis servidores contra as garras de tão cruel inimigo.

Mas o poder de Maria sobre todos os demônios há de patentear-se com mais intensidade, nos últimos tempos, quando Satanás começar a armar insídias ao seu calcanhar, isto é, aos seus humildes servos, aos seus pobres filhos, os quais ela suscitará para combater o príncipe das trevas. Eles serão pequenos e pobres aos olhos do mundo, e rebaixados diante de todos como o calcanhar em comparação com os outros membros do corpo. Mas, em troca, eles serão ricos em graças de Deus, graças que Maria lhes distribuirá abundantemente. Serão grandes e notáveis em santidade diante de Deus, superiores a toda criatura, por seu zelo ativo, e tão fortemente amparados pelo poder divino, que, com a humildade de seu calcanhar e em união com Maria, esmagarão a cabeça do demônio e promoverão o triunfo de Jesus Cristo.

Os apóstolos dos últimos tempos

Deus quer, finalmente, que sua Mãe Santíssima seja agora mais conhecida, mais amada, mais honrada, como jamais o foi. E isto acontecerá, sem dúvida, se os predestinados puserem em uso, com o auxílio do Espírito Santo, a prática interior e perfeita que lhes indico a seguir. E, se a observarem com fidelidade, verão, então, claramente, quanto lho permite a fé, esta bela estrela do mar, e chegarão a bom porto, tendo vencido as tempestades e os piratas. Conhecerão as grandezas desta soberana e se consagrarão inteiramente a seu serviço, como súditos e escravos de amor. Experimentarão suas doçuras e bondades maternais a amá-la-ão ternamente como seus filhos estremecidos. Conhecerão as misericórdias de que ela é cheia e a necessidade que têm de seu auxílio, e há de recorrer a ela em todas as circunstâncias como à sua querida advogada e medianeira junto de Jesus Cristo. Reconhecerão que ela é o meio mais seguro, fácil, mais rápido e mais perfeito de chegar a Jesus Cristo, e se lhe entregarão de corpo e alma, sem restrições, para assim também pertencerem a Jesus Cristo.

Mas quem serão esses servidores, esses escravos e filhos de Maria? Serão ministros do Senhor ardendo em chamas abrasadoras, que lançarão por toda a parte o fogo do divino amor.

Serão “sicut sagittae in manu potentis” (Sl 126, 4) – flechas agudas nas mãos de Maria toda-poderosa, pronta a traspassar seus inimigos.

Serão filhos de Levi, bem purificados no fogo das grandes tribulações, e bem colados a Deus, que levarão o ouro do amor no coração, o incenso da oração no espírito, e a mirra da mortificação no corpo e que serão em toda parte para os pobres e os pequenos o bom odor de Jesus Cristo, e para os grandes, os ricos e os orgulhosos do mundo, um odor repugnante de morte.

Serão nuvens trovejantes esvoaçando pelo ar ao menor sopro do Espírito Santo, que, sem apegar-se a coisa alguma nem admirar-se de nada, nem preocupar-se, derramarão a chuva da palavra de Deus e da vida eterna. Trovejarão contra o pecado, e lançarão brados contra o mundo, fustigarão o demônio e seus asseclas, e, para a vida ou para a morte, traspassarão lado a lado, com a espada de dois gumes da palavra de Deus (Cf. Ef 6, 17), todos aqueles a quem forem enviados da parte do Altíssimo.

Serão verdadeiros apóstolos dos últimos tempos, e o Senhor das virtudes lhes dará a palavra e a força para fazer maravilhas e alcançar vitórias gloriosas sobre seus inimigos; dormirão sem ouro nem prata, e, o que é melhor, sem preocupações no meio dos outros padres, eclesiásticos e clérigos, “inter medios cleros” (Sl 67, 14) e, no entanto, possuirão as asas prateadas da pomba, para voar, com a pura intenção da glória de Deus e da salvação das almas, aonde os chamar o Espírito Santo, deixando após si, nos lugares em que pregarem, o ouro da caridade que é o cumprimento da lei (Rom 13, 10).

Sabemos, enfim, que serão verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, andando nas pegadas da pobreza e humildade, do desprezo do mundo e caridade, ensinado o caminho estreito de Deus na pura verdade, conforme o santo Evangelho, e não pelas máximas do mundo, sem se preocupar nem fazer acepção de pessoa alguma, sem poupar, escutar ou temer nenhum mortal, por poderoso que seja. Terão na boca a espada de dois gumes da palavra de Deus; em seu ombros ostentarão o estandarte ensangüentado da cruz, na direita, o crucifixo, na esquerda o rosário, no coração os nomes sagrados de Jesus e de Maria, e, em toda a sua conduta, a modéstia e a mortificação de Jesus Cristo.

Eis os grandes homens que hão de vir, suscitados por Maria, em obediência às ordens do Altíssimo, para que o seu império se estenda sobre o império dos ímpios, dos idólatras e dos maometanos. Quando e como acontecerá?… Só Deus o sabe!… Quanto a nós, cumpre calar-nos, orar, suspirar e esperar: Exspectans exspectavi (Sl 39, 2).

Até aqui dissemos alguma coisa sobre a necessidade que temos da devoção à Santíssima Virgem. Com o auxílio de Deus direi agora em que consiste esta devoção, expondo, porém, antes, algumas verdades fundamentais, que esclarecerão esta grande e sólida devoção que quero manifestar.

Jesus Cristo é o fim último da devoção à Santíssima Virgem

Primeira verdade. – Jesus Cristo, nosso salvador, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, deve ser o fim último de todas as nossas devoções; de outro modo, elas serão falsas e enganosas. Jesus Cristo é o alfa e omega23, o princípio e o fim de todas as coisas. Nós só trabalhamos, como diz o apóstolo, para tornar todo homem perfeito em Jesus Cristo, pois é em Jesus Cristo que habita toda a plenitude da Divindade e todas as outras plenitudes de graças, de virtudes, de perfeições; porque nele somente fomos abençoados de toda a bênção espiritual; porque é nosso único mestre que deve ensinar-nos, nosso único Senhor de quem devemos depender, nosso único chefe ao qual devemos estar unidos, nosso único modelo, com o qual devemos conformar-nos, nosso único médico que nos há de curar, nosso único pastor que nos há de alimentar, nosso único caminho que devemos trilhar, nossa única verdade que devemos crer, nossa única vida que nos há de vivificar, e nosso tudo em todas as coisas, que deve bastar-nos. Abaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos. Deus não nos deu outro fundamento para nossa salvação, nossa perfeição e nossa glória, senão Jesus Cristo. Todo edifício cuja base não assentar sobre esta pedra firme, estará construído sobre areia movediça, e ruirá fatalmente, mais cedo ou mais tarde. Todo fiel que não está unido a ele, como um galho ao tronco da videira, cairá e secará, e será por fim atirado ao fogo. Fora dele tudo é ilusão, mentira, iniqüidade, inutilidade, morte e danação. Se estamos, porém, em Jesus Cristo e Jesus Cristo em nós, não temos danação a temer; nem os anjos do céu, nem os homens da terra, nem criatura alguma nos pode embaraçar, pois não pode separar-nos da caridade de Deus que está em Jesus Cristo. Por Jesus Cristo, com Jesus Cristo, em Jesus Cristo, podemos tudo: render toda a honra e glória ao Pai, em unidade do Espírito Santo e tornar-nos perfeitos e ser para nosso próximo um bom odor de vida eterna.

Se estabelecermos, portanto, a sólida devoção à Santíssima Virgem, teremos contribuído para estabelecer com mais perfeição a devoção a Jesus Cristo, teremos proporcionado um meio fácil e seguro de achar Jesus Cristo. Se a devoção à Santíssima Virgem nos afastasse de Jesus Cristo, seria preciso rejeitá-la como uma ilusão do demônio. Mas é tão o contrário, que, como já fiz ver e farei ver, ainda, nas páginas seguintes, esta devoção só nos é necessária para encontrar Jesus Cristo, amá-lo ternamente e fielmente servi-lo.

Volto-me, aqui, um momento, pra vós, ó Jesus, a fim de queixar-me amorosamente à vossa divina majestade, de que a maior parte dos cristãos, mesmo os mais instruídos desconhecem a ligação imprescindível que existe entre vós e vossa Mãe Santíssima. Vós, Senhor, estais sempre com Maria, e Maria sempre convosco, nem pode estar sem vós; doutro modo, ela deixaria de ser o que é; e de tal maneira está ela transformada em vós pela graça, que já não vive, já não existe; sois vós, meu Jesus, que viveis e reinais nela, mais perfeitamente que em todos os anjos e bem-aventurados. Ah! Se conhecêssemos a glória e o amor que recebeis nesta admirável criatura, bem diferentes seriam os nossos sentimentos a respeito de vós e dela. Maria está tão intimamente unida a vós que mais fácil seria separar do sol a luz, e do fogo o calor; digo mais: com mais facilidade se separariam de vós os anjos e os santos que a divina Mãe, pois que ela vos ama com amais ardor e vos glorifica com mais perfeição que todas as vossas outras criatura juntas.

Depois disto, meu amável Mestre, não é triste e lamentável ver a ignorância e as trevas em que jazem todos os homens na terra, a respeito de vossa Mãe Santíssima? Não falo dos idólatras e pagãos, que, não vos conhecendo, também não se importam de conhecê-la; nem falo dos hereges e cismáticos, que não têm a peito ser devotos de vossa Mãe Santíssima, a não ser de um modo especulativo, seco, estéril e indiferente. Estes senhores raras vezes falam de Maria e da devoção que se lhe deve ter, porque, dizem, receiam que se abuse dessa devoção e que se vos ofenda, honrando excessivamente vossa Mãe Santíssima. Se vêem ou ouvem algum devoto da Santíssima Virgem falar muitas vezes, de um modo terno, forte e persuasivo, da devoção a esta boa Mãe, como de um meio seguro e sem ilusão, dum caminho curto e sem perigo, duma via imaculada e sem imperfeição, e dum segredo maravilhoso para chegar a vós e vos amar perfeitamente, clamam contra ele, e lhe apresentam mil razões falsas, para provar-lhes que não é necessário falar tanto a respeito da Santíssima Virgem, que há muito abuso nessa devoção, que é preciso empenhar-se em destruir, e aplicar-se em falar sobre vós em vez de favorecer a devoção à Virgem Maria, a quem o povo já ama suficientemente.

Às vezes metem-se a falar da devoção à vossa Mãe Santíssima, não, porém, para assentá-la e propagá-la, e sim para destruir os abusos que dela se fazem. Estes senhores são, no entanto, desprovidos de piedade, e não têm por vós sincera devoção, pois que não a têm a Maria. Consideram o rosário, o escapulário, o terço, como devoções de mulheres, próprias de ignorantes, sem as quais se pode obter muito bem a salvação. E se lhes cai nas mãos algum devoto da Virgem Santíssima, que recita o seu terço ou pratica qualquer outra devoção Mariana, mudam-lhe em pouco tempo o espírito e o coração: em lugar do terço lhe aconselham recitar os sete salmos; em vez da devoção à Santíssima Virgem aconselham a devoção a Jesus Cristo.

Ó meu amável Jesus, terá essa gente o vosso espírito? Será possível que vos agradem, agindo desse modo? Poderá alguém agradar-vos sem fazer todos os esforços para agradar a Maria, por medo de vos desagradar? A devoção à vossa Mãe impede a vossa? Atribuir-se-á ela as honras que lhe damos? Formará ela um partido diverso do vosso? É ela, acaso, uma estrangeira sem a menor ligação convosco? É desagradar-vos querer agradecer-lhe? Separamo-nos, talvez, ou nos afastamos de vosso amor, se nos damos a ela e a amamos?

Entretanto, meu amável Mestre, a maior parte dos sábios, em castigo de seu orgulho, não se afastariam mais da devoção à Santíssima Virgem, nem a olhariam com mais indiferença, se tudo o que acabo de dizer fosse verdade. Guardai-me, Senhor, guardai-me de seus sentimento e de suas práticas, e dai-me uma parte dos sentimentos de reconhecimento, de estima, de respeito e de amor, que tendes para com vossa Mãe Santíssima, a fim de que eu vos ame e glorifique na medida em que vos imitar e mais de perto vos seguir.

Concedei-me a graça de louvar dignamente vossa Mãe Santíssima, como se nada fosse o que, até aqui, disse em sua honra. “Fac me digne tuam Matrem collaudare”, a despeito de todos os seus inimigos, que são os vossos, e que eu lhes repita com os santos: “Nom praesumat aliquis Deum se habere propitium qui bem edictam Matrem offensam habuerit. – Não presuma receber a graça de Deus, quem ofende sua Mãe Santíssima”.

E, para alcançar de vossa misericórdia uma verdadeira devoção a vossa Mãe Santíssima, e inspirá-la a toda a terra, fazei que eu vos ame ardentemente, e recebei para este fim a súplica ardente que vos dirijo com Santo Agostinho23 e vossos verdadeiros amigos:
No sentido de satisfazer aos desejos dos fiéis que não compreendem o latim, damos aqui uma tradução desta oração.

“Vós sois, ó Jesus, o Cristo, meu Pai santo, meu Deus misericordioso, meu Rei infinitamente grande; sois meu bom pastor, meu único mestre, meu auxílio cheio de bondade, meu pão vivo, meu sacerdote eterno, meu guia para a pátria, minha verdadeira luz, minha santa doçura, meu reto caminho, sapiência minha preclara, minha pura simplicidade, minha paz e concórdia; sois, enfim, toda a minha salvaguarda, minha herança preciosa, minha eterna salvação…

Ó Jesus Cristo, amável Senhor, por que, em toda a minha vida, amei, por que desejei outra coisa senão vós? Onde estava eu quando não pensava em vós? Ah! que, pelo menos, a partir deste momento meu coração só deseje a vós e por vós se abrase, Senhor Jesus! Desejos de minha alma, correi, que já bastante tardastes; apressai-vos para o fim a que aspirais; procurai em verdade aquele procurais. Ó Jesus anátema seja quem não vos ama. Aquele que não vos ama seja repleto de amarguras. Ó doce Jesus, sede o amor, as delícias, a admiração de todo coração dignamente consagrado à vossa glória. Deus de meu coração e minha partilha, Jesus Cristo, que em vós meu coração desfaleça, e sede vós mesmo a minha vida. Acenda-se em minha alma a brasa ardente de vosso amor e se converta num incêndio todo divino, a arder para sempre no altar de meu coração; que inflame o âmago de minha alma; para que no dia de minha morte eu apareça diante de vós inteiramente consumido em vosso amor… Amém”.

Quis transcrever no original esta oração admirável de Santo Agostinho para que assim a possam recitar as pessoas que entendem latim. Recitemo-la todos os dias para pedir o amor de Jesus, que procuramos por intermédio da Santíssima Virgem.

Pertencemos a Jesus Cristo e a Maria na qualidade de escravos

Segunda verdade. – Do que Jesus é para nós, concluímos que não nos pertencemos, como diz o apóstolo (1Cor 6, 19), e sim a ele, inteiramente, como seus membros e seus escravos, comprados que fomos por um preço infinitamente caro, o preço de seu sangue. Antes do batismo o demônio nos possuía como escravos, e o batismo nos transformou em escravos de Jesus Cristo e só devemos viver, trabalhar e morrer para produzir frutos para o homem-Deus (Rom 7, 4), glorificá-lo em nosso corpo e fazê-lo reinar em nossa alma, pois somos sua conquista, seu povo adquirido, sua herança. Pelo mesmo motivo o Espírito Santo nos compara24: 1º a árvores plantadas ao longo das águas da graça, nos campos da Igreja, árvores que devem dar seus frutos no tempo adequado; 2º aos galhos de uma videira de que Jesus Cristo é o tronco, e que devem produzir boas uvas; 3º a um rebanho cujo pastor é Jesus, e esse rebanho deve multiplicar-se e dar leite; 4º a uma boa terra de que Deus é o lavrador, e na qual a semente se multiplica, rendendo trinta, sessenta, cem vezes mais. Jesus amaldiçoou a figueira estéril (Mt 21, 19) e declarou condenado o servo inútil que n ao fizera valer o seu talento (Mt 25, 24-30). Tudo isso nos prova que Jesus Cristo quer receber alguns frutos de nossas mesquinhas pessoas: quer receber nossas boas obras, porque as boas obras lhe pertencem exclusivamente: “Creati in operibus bonis in Christo Iesu – Criados em Jesus Cristo para boas ações” (Ef 2, 10). Essas palavras do Espírito Santo mostram que Jesus Cristo é o único fim de todas as nossas boas obras, e que devemos servi-lo não somente como servidores assalariados, mas como escravos de amor. Explico-me.

Há duas maneiras, aqui na terra, de alguém pertencer a outrem e de depender de sua autoridade. São a simples servidão e a escravidão, donde a diferença que estabelecemos entre servo e escravo. Pela servidão, comum entre os cristãos, um homem se põe a serviço de outro por um certo tempo, recebendo determinada quantia ou recompensa.

Pela escravidão, um homem depende inteiramente de outro durante toda a vida, e deve servir a seu senhor, sem esperar salário nem recompensa alguma, como um dos animais sobre que o dono tem direito de vida e morte. Há três espécies de escravidão25: por natureza, por constrangimento e por livre vontade.
Por natureza, todas as criaturas são escravas de Deus: “Domini est terra et plenitudo eius” (Sl 23, 1). Os demônios e os réprobos são escravos por constrangimento; e os justos e os santos o são por livre e espontânea vontade. A escravidão voluntária é a mais perfeita, a mais gloriosa aos olhos de Deus, que olha o coração (1Rs 16, 7), que pede o coração (Prov 23, 26) e que é chamado o Deus do coração (Sl 72, 26) ou da vontade amorosa, porque, por esta escravidão, escolhe-se, sobre todas as coisas, a Deus e seu serviço, ainda quando não o obriga a natureza.

A diferença entre um servo e um escravo é total:

1º Um servo não dá a seu patrão tudo o que é, tudo o que possui ou pode adquirir por outrem ou por si mesmo; mas um escravo se dá integralmente a seu senhor, com tudo o que possui ou possa adquirir, sem nenhuma exceção.
2º O servo exige salário pelos serviços que presta a seu patrão; o escravo, porém, nada pode exigir, seja qual for a assiduidade, a habilidade, a força que empregue no trabalho.
3º O servo pode deixar o patrão quando quiser, ou ao menos quando expirar o tempo de serviço, mas o escravo não tem esse direito.
4º O patrão não tem sobre o servo direito algum de vida e de morte, de modo que, se o matasse como mata um se seus animais de carga, cometeria um homicídio; mas, pelas leis, o senhor tem sobre o escravo o poder de vida e morte ; de modo que pode vendê-lo a quem o quiser ou matá-lo, como, sem comparação, o faria a seu cavalo.
5º O servo, enfim, só por algum tempo fica a serviço de um patrão, enquanto o escravo o é para sempre.

Só a escravidão, entre os homens, põe uma pessoa na posse e dependência completa de outra. Nada há, do mesmo modo, que mais absolutamente nos faça pertencer a Jesus Cristo e a sua Mãe Santíssima do que a escravidão voluntária, conforme o exemplo do próprio Jesus Cristo, que, por nosso amor, tomou a forma de escravo: “Formam servi accipiens” (Filip 2, 7), e da Santíssima Virgem, que se declarou a escrava do Senhor (Lc 1, 38). O apóstolo honra-se várias vezes em suas epístolas com o título de “servus Christi”. A Sagrada Escritura chama muitas vezes os cristãos de “servi Christi”, e esta palavras “servus”, conforme a observação acertada de um grande homem, significava, outrora, apenas escravo, pois não existiam servos como os de hoje, e os ricos só eram servidos por escravos ou libertos. E para que não haja a menor dúvida de que somos escravos de Jesus Cristo, o Concílio de Trento usa a expressão inequívoca “mancipia Christi” e no-lo aplica: escravos de Jesus Cristo. Isto posto:

Digo que devemos pertencer a Jesus Cristo e servi-lo, não só como servos mercenários, mas como escravos amorosos, que, por efeito de um grande amor, se dedicam a servi-lo como escravos, pela honra exclusiva de lhe pertencer. Antes do batismo, éramos escravos do demônio; o batismo nos fez escravos de Jesus Cristo. Importa, pois, que os cristãos sejam escravos ou do demônio ou de Jesus Cristo.

O que digo absolutamente de Jesus Cristo, digo-o também da Virgem Maria, pois Jesus Cristo, escolhendo-a para sua companheira inseparável na vida, na morte, na glória, em seu poder no céu e na terra, deu-lhe pela graça, relativamente à sua majestade, os mesmos direitos e privilégios que ele possui por natureza. “Quidquid Deo convenit per naturam, Mariae convenit per gratiam… – Tudo que convém a Deus pela natureza, convém a Maria pela graça”, dizem os santos. Assim, conforme este ensinamento, pois que ambos têm a mesma vontade e o mesmo poder, têm também os mesmos súditos, servos e escravos.

Podemos, portanto, seguindo a opinião dos santos e de muitos doutos, dizer-nos e fazer-nos escravos da Santíssima Virgem, para deste modo nos tornarmos mais perfeitamente escravos de Jesus Cristo.29 A Santíssima Virgem é o meio de que Nosso Senhor se serviu para vir até nós; e é o meio de que nos devemos servir para ir a ele.30 Bem diferente é ela das outras criaturas, as quais, se a elas nos apegarmos, poderão antes afastar-nos que aproximar-nos de Deus. A mais forte inclinação de Maria é unir-nos a Jesus Cristo, seu divino Filho; e a mais forte inclinação do Filho é que vamos a ele por meio de sua Mãe Santíssima. E isto é para ele tanta honra e prazer, como seria para um rei honra e prazer, se alguém, para tornar-se mais perfeitamente seu escravo, se fizesse escravo da rainha. Eis por que os Santos Padres, e São Boaventura com eles, dizem que a Santíssima Virgem é o caminho para chegar a Nosso Senhor: “Via veniendi ad Christum est appropinquare ad illam”.

Além disso, se a Virgem Santíssima, como já disse (v. nº 38), é a rainha e soberana do céu e da terra – “Imperio Dei omnia subiciuntur et Deus” 32, dizem Santo Anselmo, São Bernardo, São Boaventura – não possui ela tantos súditos e escravos quantas criaturas existem?3 Não é razoável que, entre tantos escravos por constrangimento, haja alguns por amor, que de boa vontade e na qualidade de escravos, escolham Maria para sua soberana? Pois então os homens e os demônios terão seus escravos voluntários e Maria não há de tê-los? Seria desonra para um rei se a rainha, sua companheira, não possuísse escravos sobre os quais tivesse direito de vida e morte34, pois a honra e o poder do rei são a honra e o poder da rainha; e pode-se acreditar que Nosso Senhor, o melhor de todos os filhos, que deu a sua Mãe Santíssima parte de todo o seu poder, considere um mal ter ela escravos?35 Terá ele menos respeito e amor a sua Mãe do que teve Assuero a Éster e Salomão a betsabé? Quem ousaria dizê-lo ou pensá-lo sequer?

Mas onde me leva minha pena? Por que me detenho aqui a provar uma coisa tão evidente? Se alguém recusa confessar-se escravo de Maria, que importa? Que se faça e diga escravo de Jesus Cristo. É o mesmo que ser escravo da Santíssima Virgem, pois Jesus é o fruto e a glória de Maria. e isto se faz perfeitamente pela devoção de que falaremos a seguir.36

Devemos despojar-nos do que há de mau em nós

Terceira verdade. – Nossas melhores ações são ordinariamente manchadas e corrompidas pelo fundo de maldade que há em nós. Quando se despeja água limpa e clara em uma vasilha suja, que cheira mal, ou quando se põe vinho em uma pipa cujo interior está azedado por outro vinho que aí antes se depositara, a água límpida e o vinho bom adquirem facilmente o mau cheiro e o azedume dos recipientes. Do mesmo modo, quando Deus põe no vaso de nossa alma, corrompido pelo pecado original e pelo pecado atual, suas graças e orvalhos celestiais ou o vinho delicioso de seu amor, estes dons divinos ficam ordinariamente estragados ou manchados pelo mau germe e mau fundo que o pecado deixou em nós; nossas ações, até as mais sublimes virtudes, disto se ressentem. É, portanto, de grande importância, para adquirir a perfeição, que só se consegue pela união com Jesus Cristo, despojar-nos de tudo que de mau existe em nós. Do contrário, Nosso Senhor, que é infinitamente puro e odeia infinitamente a menor mancha na alma, nos repelirá e de modo algum se unirá a nós.

Para despojar-nos de nós mesmos, é preciso conhecer primeiramente e bem, pela luz do Espírito Santo, nosso fundo de maldade, nossa incapacidade para todo bem, nossa fraqueza em todas as coisas, nossa inconstância em todo tempo, nossa indignidade de toda graça e nossa iniqüidade em todo lugar. O pecado de nossos primeiros pais nos estragou completamente, nos azedou, inchou e corrompeu, como o fermento azeda, incha e corrompe a massa em que é posto. Os pecados atuais que cometemos, sejam mortais ou veniais, perdoados que estejam, aumentam em nós a concupiscência, a fraqueza, a inconstância e a corrupção, deixando maus traços em nossa alma.

Nosso corpo é tão corrompido, que o Espírito Santo (Rom 6, 6; Sl 50, 7) o chama corpo do pecado, concebido no pecado, nutrido no pecado, e só apto para o pecado, corpo sujeito a mil e mil males, que se corrompe sempre mais cada dia, e que só engendra a doença, os vermes, a corrupção.

Nossa alma, unida ao corpo, tornou-se tão carnal, que é chamada carne: “Toda a carne tinha corrompido o seu caminho” (Gn 6, 12). Toda a nossa herança é orgulho e cegueira no espírito, endurecimento no coração, fraqueza e inconstância na alma, concupiscência, paixões revoltadas e doenças no corpo. Somos, naturalmente, mais orgulhosos que os pavões, mais apegados à terra que os sapos, mais feios que os bodes, mais invejosos que as serpentes, mais glutões que os porcos, mais coléricos que os tigres e mais preguiçosos que as tartarugas; mais fracos que os caniços, e mais inconstantes do que um catavento. Tudo que temos em nosso íntimo é nada e pecado, e só merecemos a ira de Deus e o inferno eterno.

S. Luís Maria fala de nosso nada e de nossa impotência na ordem sobrenatural, sem o socorro da graça (v. com efeito, mais adiante o n. 83: Nosso íntimo…, tão corrompido, se nós apoiamos em nossos próprios trabalhos… para chegar a Deus…). Depois disto, por que admirar-se de ter Nosso Senhor dito que quem quisesse segui-lo devia renunciar a si mesmo e odiar a própria alma; que aquele que amasse sua alma a perderia e quem a odiasse se salvaria? (Jo 12, 25). A Sabedoria infinita, que não dá ordens sem motivo, só ordena que nos odiemos porque somos grandemente dignos de ódio: só Deus é digno de amor, enquanto nada há mais digno de ódio do que nós.

Em segundo lugar, para despojar-nos de nós mesmos, é preciso que todos os dias morramos para nós, isto é, importa renunciarmos às operações das faculdades da alma e dos sentidos do corpo, precisamos ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos, servir-nos das coisas deste mundo como se não o fizéssemos (cf. 1Cor 7, 29-31), o que São Paulo chama morrer todos os dias: “Quotidie morior” (1Cor 15, 31). “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só, e não produz fruto apreciável: Nizi granum frumenti cadens in terram mortuum fuerit, ipsum solum manet” (Jo 12, 24-25). Se não morrermos a nós mesmos, e se as mais santas devoções não nos levarem a esta morte necessária e fecunda, não produziremos fruto que valha, nossas devoções serão inúteis, todas as nossas obras de justiça ficarão manchadas por nosso amor-próprio e nossa própria vontade, e Deus abominará os maiores sacrifícios e as melhores ações que possamos fazer. Na hora da nossa morte, teremos as mãos vazias de virtudes e méritos, e não brilhará em nós a menor centelha do puro amor, que só é comunicado às almas mortas a si mesmas, almas cuja vida está oculta com Jesus Cristo em Deus (Col 3, 3).

Em terceiro lugar, é preciso escolher entre todas as devoções à Santíssima Virgem, a que nos leva com mais certeza a este aniquilamento do próprio eu. Esta será a devoção melhor e mais santificante, pois é mister reconhecer que nem tudo que luz é ouro, nem tudo que é doce é mel, e nem tudo que é fácil de fazer e praticar é o mais santificante. Do mesmo modo que a natureza tem segredos para fazer em pouco tempo, sem muitos gastos e com facilidade, certas operações naturais, há segredos, na ordem da graça, pelos quais se fazem, em pouco tempo, com doçura e facilidade, operações sobrenaturais, como despojar-nos de nós mesmos, encher-nos de Deus, e tornar-nos perfeitos. A prática que quero revelar é um desses segredos da graça, desconhecido da maior parte dos cristãos, conhecidos de poucos devotos, praticado e apreciado por um número bem diminuto. Antes de abordar esta prática, apresento uma quarta verdade que é conseqüência da terceira.

Temos necessidade de um medianeiro junto do próprio medianeiro que é Jesus Cristo

Quarta verdade. – É muito mais perfeito, porque é mais humilde, tomar um medianeiro para nos aproximarmos de Deus. Se nos apoiarmos sobre nossos próprios trabalhos, habilidade e preparações, para chegar a Deus e agradar-lhe, é certo que todas as nossas obras de justiça ficarão manchadas e peso insignificante terão junto de Deus, para movê-lo a unir-se a nós e nos atender, pois, como acabo de demonstrar, nosso íntimo é extremamente corrupto. E não foi sem razão que ele nos deu medianeiros junto de sua majestade. Viu nossa iniqüidade e incapacidade, apiedou-se de nós, e, para dar-nos acesso às suas misericórdias, proporcionou-nos intercessores poderosos junto de sua grandeza; de sorte que negligenciar esses medianeiros e aproximar-se diretamente de sua santidade sem outra recomendação é faltar ao respeito a um Deus tão alto e tão santo; é menosprezar este Rei dos reis, como não se faria a um rei ou príncipe da terra, do qual ninguém se aproximaria sem a recomendação de um amigo.

Nosso Senhor é nosso advogado e medianeiro de redenção junto de Deus Pai; é por intermédio dele que devemos rezar com toda a Igreja triunfante e militante; é por intermédio dele que obtemos acesso junto de sua majestade, em cuja presença não devemos jamais aparecer, a não ser amparados e revestidos dos méritos de Jesus Cristo, como Jacob revestindo-se da pele de cabrito para receber a bênção de seu pai Isaac.

Mas temos necessidade de um medianeiro junto do próprio medianeiro? Será a nossa pureza suficiente para que nos permita unir-nos diretamente a ele, e por nós mesmos? Não é ele Deus, em tudo igual ao Pai, e, por conseguinte, o Santo dos santos, digno de tanto respeito como seu Pai? Se ele, por sua caridade infinita, se constituiu nosso penhor e medianeiro junto de Deus seu Pai, para aplacá-lo e pagar-lhe o que lhe devíamos, quer isto dizer que lhe devemos menos respeito e tomar por sua majestade e santidade?

Digamos, pois, ousadamente, com São Bernardo38, que temos necessidade de um medianeiro junto do Medianeiro por excelência, e que Maria Santíssima é a única capaz de exercer esta função admirável. Por ela Jesus Cristo veio a nós, e por ela devemos ir a ele. Se receamos ir diretamente a Jesus Cristo Deus, em vista da sua grandeza infinita, ou por causa de nossa baixeza, ou, ainda, devido aos nossos pecados, imploremos afoitamente o auxílio e intercessão de Maria nossa Mãe; ela é boa e terna; nela não há severidade nem repulsa, tudo nela é sublime e brilhante contemplando-a, vemos nossa pura natureza. Ela não é o sol, que, pela força de seus raios, nos poderia deslumbrar em nossa fraqueza, mas é bela e suave como a lua (Cant 6, 9), que recebe a luz do sol e a tempera para que possamos suportá-la. É tão caridosa que a ninguém repele, que implore sua intercessão, ainda que seja um pecador; pois, como dizem os santos, nunca se ouviu dizer, desde que o mundo é mundo, que alguém que tenha recorrido à Santíssima Virgem, com confiança e perseverança, tenha sido desamparado ou repelido.39 Ela é tão poderosa que jamais foi desatendida em seus pedidos; basta-lhe apresentar-se diante de seu Filho para pedir-lhe algo, e ele só ouve o pedido para logo conceder-lhe o que ela pede; é sempre amorosamente vencido pelo seios, pelas entranhas e pelas preces de sua querida Mãe.

Tudo isto é tirado de São Bernardo e de São Boaventura. De acordo com suas palavras, temos três degraus a subir para chegar a Deus: o primeiro, mais próximo de nós e mais conforme à nossa capacidade, é Maria; o segundo é Jesus Cristo; e o terceiro é Deus Pai.40 Para ir a Jesus é preciso ir a Maria, pois ela é a medianeira de intercessão. Para chegar ao Pai eterno é preciso ir a Jesus, que é nosso medianeiro de redenção. Ora, pela devoção que preconizo, mais adiante, é esta a ordem perfeitamente observada. É muito difícil para nós conservar as graças e tesouros recebidos de Deus

Quinta verdade. – É extremamente difícil, devido à nossa fraqueza e fragilidade, conservarmos em nós as graças e os tesouros que recebemos de Deus:

1º Porque este tesouro, mais valioso que o céu e a terra, nós os guardamos em vasos frágeis: “Habemus thesaurum istum in vasis fictilibus” (2Cor 4, 7); em um corpo corruptível, em uma alma fraca e inconstante que um nada perturba e abate.

2º porque os demônios, que são ladrões finórios, buscam surpreender-nos de improviso para nos roubar e despojar; espreitam dia e noite o momento favorável a seu desígnio; andam incessantemente ao redor de nós, prontos a devorar-nos (cf 1Ped 5, 8) e, pelo pecado, arrebatar-nos, num momento, tudo que em longos anos conseguimos alcançar de graças e méritos. E tanto mais devemos temer esta desgraça, sabendo quão incomparável é sua malícia, sua experiência, suas astúcias e seu número. Pessoas tem havido muito mais cheias de graças do que nós, mais ricas em virtudes, mais experientes, mais elevadas em santidade, que foram surpreendidas, roubadas, saqueadas lamentavelmente. Ah! quantos cedros do Líbano, quantas estrelas do firmamento se têm visto cair miseravelmente, perdendo em pouco tempo toda a sua altivez e claridade. A que atribuir tão estranha mudança? Não foi falta de graça, pois a graça não falta a ninguém; foi falta de humildade. Essas pessoas acreditavam-se mais fortes e suficientes do que o eram na realidade; julgavam-se capazes de guardar seus tesouros; fiaram-se e apoiaram-se em si próprias; creram sua casa bastante segura e bem fortes os seus cofres para guardar o precioso tesouro da graça, e, devido a essa segurança imperceptível que tinham em si (conquanto lhes parecesse que se apoiavam na graça de Deus), é que o justíssimo Senhor, abandonando-as às próprias forças, permitiu que fossem roubadas. Ah! se tivessem conhecido a devoção admirável que vou expor, em seguida, teriam confiado seu tesouro à Virgem poderosa e fiel, que o teria guardado como seu próprio bem, fazendo mesmo, disso, um dever de justiça.

3º É difícil perseverar na justiça, por causa da corrupção do mundo. O mundo está, atualmente, tão corrompido, que é quase necessário que os corações religiosos sejam manchados, se não pela lama, ao menos pela poeira dessa corrupção; de modo que se pode considerar um milagre o fato de uma pessoa manter-se firme no meio dessa torrente impetuosa sem que o turbilhão a arraste; no meio desse mar tempestuoso sem que o furor das ondas a submerja ou a pilhem os piratas e corsários no meio desse ar empestado sem que os miasmas a contaminem. É a Virgem, a única fiel, na qual a serpente não teve parte jamais, que faz este milagre em favor daqueles e daquelas que a servem da mais bela maneira.

Escolha da verdadeira devoção à Santíssima Virgem

Conhecidas estas cinco verdades, é preciso, mais do que nunca, fazer agora uma boa escolha da verdadeira devoção à Virgem Santíssima, pois, como jamais, pululam falsas devoções a Maria Santíssima, as quais passam facilmente por devoções verdadeiras. O demônio, como um moedeiro falso e um enganador fino e experimentado, tem já enganado e perdido inúmeras almas, inculcando uma falsa devoção à Santíssima Virgem, e todos os dias vale-se de sua experiência diabólica para lançar outros mais à eterna condenação, divertindo-as e acalentando-as no pecado, sob o pretexto de algumas orações mal recitadas e de algumas práticas exteriores que lhes inspira. Como um moedeiro falso só falsifica ordinariamente moedas de ouro e prata, raras vezes imitando outros metais, que não compensam o trabalho, do mesmo modo o espírito maligno não se detém em falsificar outras devoções que não sejam as de Jesus e de Maria, à santa comunhão, e à Virgem Santíssima, porque são estas como ouro e a preta entre os metais.

É, portanto, de grande importância conhecer primeiramente as falsas devoções à Santíssima Virgem, para evitá-las, e a verdadeira, para abraçá-la; segundo, entre tantas práticas diferentes da verdadeira devoção à Virgem Santíssima, distinguir a mais perfeita, a mais agradável a Maria Santíssima, a que mais glória dá a Deus, a mais santificante para nós, para a esta nos apegarmos.

Os sinais da falsa e da verdadeira devoção à Santíssima Virgem

§ I. Os falsos devotos e as falsas devoções à Santíssima Virgem.

Conheço sete espécies de falsos devotos e falsas devoções à Santíssima Virgem: 1º os devotos críticos, 2º os devotos escrupulosos, 3º os devotos exteriores, 4º os devotos presunçosos, 5º os devotos inconstantes, 6º os devotos hipócritas, 7º os devotos interesseiros.

1º Os devotos críticos

Os devotos críticos são, em geral, sábios orgulhosos, espíritos fortes e presumidos, que têm no fundo uma certa devoção à Santíssima Virgem, mas que vivem criticando as práticas de devoção que a gente simples tributa de boa-fé e santamente a esta boa Mãe, pelo fato de estas devoções não agradarem à sua culta fantasia. Põem em dúvida todos os milagres e histórias narrados por autores dignos de fé, ou inseridos em crônicas de ordens religiosas, atestando as misericórdias e o poder da Santíssima Virgem. Repugna-lhes ver pessoas simples e humildes ajoelhadas diante de um altar ou de uma imagem da Virgem, às vezes no recanto de uma rua, rezando a Deus; chegam a acusá-las de idolatria, como se estivesse adorando a pedra ou a madeira. Dizem que, de sua parte, não apreciam essas devoções exteriores e que seu espírito não é tão fraco que vá dar fé a tantos contos e historietas que se atribuem à Santíssima Virgem. Quando alguém lhes repete os louvores admiráveis que os Santos Padres dão à Santíssima Virgem, respondem que são flores de retórica, ou exagero, que aqueles escritores eram oradores; ou dão, então, uma explicação má daquelas palavras

Esta espécie de falsos devotos e orgulhosos e mundanos é muito para temer e eles causam um mal infinito à devoção à Santíssima Virgem, dela afastando eficazmente o povo, sob pretexto de destruir-lhes os abusos.

2º Os devotos escrupulosos

Os devotos escrupulosos são aqueles que receiam desonrar o Filho, honrando a Mãe, e rebaixá-lo se a exaltarem demais. Não podem suportar que se repitam à Santíssima Virgem aqueles louvores justíssimos que lhe teceram os Santos Padres; não suportam sem desgosto que a multidão ajoelhada aos pés de Maria seja maior que ante o altar do Santíssimo Sacramento, como se fossem antagônicos, e como se os que rezam à Santíssima Virgem não rezassem a Jesus Cristo por meio dela. Não querem que se fale tão freqüentemente da Santíssima Virgem, nem que se recorra tantas vezes a ela.

Algumas frases eles as repetem a cada momento: Para que tantos terços, tantas confrarias e devoções exteriores à Santíssima Virgem? Vai nisso muito de ignorância! É fazer da religião uma palhaçada. Falai-me, sim, dos que são devotos de Jesus Cristo (e eles o nomeiam, muitas vezes, sem se descobrir, digo-o sem parêntesis): cumpre recorrer a Jesus Cristo, pois é ele o nosso único medianeiro; é preciso pregar Jesus Cristo, isto sim que é sólido!

Em certo sentido é verdade o que eles dizem. Mas, pela aplicação que lhe dão, é bem perigoso e constitui uma cilada sutil do maligno, sob o pretexto de um bem muito maior, pois nunca se há de honrar mais a Jesus Cristo, do que honrando a Santíssima Virgem, desde que a honra que se presta a Maria não tem outro fim que honrar mais perfeitamente a Jesus Cristo, e que só se vai a ela como ao caminho para atingir o termo que é Jesus Cristo.

A santa Igreja, como o Espírito Santo, bendiz primeiro a Santíssima Virgem e depois Jesus Cristo: “benedicta tu in mulieribus et benedictus fructus ventris tui Iesus”. Não porque a Santíssima Virgem seja mais ou igual a Jesus Cristo: seria uma heresia intolerável, mas porque, para mais perfeitamente bendizer Jesus Cristo, cumpre bendizer antes a Maria. digamos, portanto, com todos os verdadeiros devotos de Maria, contra seus falsos e escrupulosos devotos: Ó Maria, bendita sois vós entre todas as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus!

3º Os devotos exteriores

Devotos exteriores são as pessoas que fazem consistir toda a devoção à Santíssima Virgem em práticas exteriores; que só tomam interesse pela exterioridade da devoção à Santíssima Virgem, por não terem espírito interior; que recitarão às pressas uma enfiada de terços, ouvirão, sem atenção, uma infinidade de missas, acompanharão as procissões sem devoção, farão parte de todas as confrarias sem emendar de vida, sem violentar suas paixões, sem imitar as virtudes desta Virgem Santíssima. Amam apenas o que há de sensível na devoção, sem interesse pela parte sólida. Se suas práticas não lhes afetam a sensibilidade, acham que não há nada mais a fazer, ficam desorientados, ou fazem tudo desordenadamente. O mundo está cheio dessa espécie de devotos exteriores e não há gente que mais critique as pessoas de oração que se dedicam à devoção interior sem desprezar o exterior de modéstia, que acompanha sempre a verdadeira devoção.

4º Os devotos presunçosos

Os devotos presunçosos são pecadores abandonados a suas paixões, ou amantes do mundo, que, sob o belo nome de cristãos e devotos da Santíssima Virgem, escondem ou o orgulho, ou a avareza, ou a impureza, ou a embriaguez, ou a cólera, ou a blasfêmia, ou a maledicência, ou a injustiça, etc.; que dormem placidamente em seus maus hábitos, sem violentar-se muito para se corrigir, alegando que são devotos da Virgem; que prometem a si mesmos que Deus lhes perdoará, que não hão de morrer sem confissão, e não serão condenados porque recitam seu terço, jejuam aos sábados, pertencem à confraria do santo Rosário ou do Escapulário, ou a alguma congregação; porque trazem consigo o pequeno hábito ou a cadeiazinha da Santíssima Virgem, etc.

Quando alguém lhes diz que sua devoção não é mais do que ilusão e uma presunção perniciosa capaz de perdê-los, recusam-se a crer; dizem que Deus é bom e misericordioso e que não nos criou para nos condenar; que não há homem que não peque; que eles não hão de morrer sem confissão; que um bom peccavi à hora da morte basta; de mais a mais que eles são devotos da Santíssima Virgem, cujo escapulário usam; e em cuja honra dizem, todos os dias, irrepreensivelmente e sem vaidade (isto é, com fidelidade e humildade) sete Pai-nossos e sete Ave-Marias; que recitam mesmo, uma vez ou outra, o terço e o ofício da Santíssima Virgem; que jejuam, etc. Para confirmar o que dizem e mais aumentar a própria cegueira, relembram umas histórias que leram ou ouviram, verdadeiras ou falsas não importa, em que se afirma que pessoas mortas em pecado mortal, sem confissão, só pelo fato de que em vida tinham feito algumas orações ou práticas de devoção à Santíssima Virgem ressuscitaram para se confessar, ou sua alma permaneceu milagrosamente no corpo até se confessarem, ou, ainda, que, pela misericórdia da Santíssima Virgem, obtiveram de Deus, na hora da morte, a contrição e o perdão de seus pecados, e se salvaram. Eles esperam, portanto, a mesma coisa.

Não há, no cristianismo, coisa tão condenável como essa presunção diabólica; pois será possível dizer de verdade que se ama e honra a Santíssima Virgem, quando, pelos pecados, se fere, se traspassa, se crucifica e ultraja impiedosamente a Jesus Cristo, seu Filho? Se Maria considerasse uma lei salvar essa espécie de gente, ela autorizaria um crime, ajudaria a crucificar e injuriar seu próprio Filho. Que o ousaria pensar?

Digo que abusar assim da devoção à Santíssima Virgem, a mais santa e mais sólida devoção a Nosso Senhor e ao Santíssimo Sacramento, é cometer um horrível sacrilégio, o maior e o menos perdoável, depois do sacrilégio de uma comunhão indigna.

Confesso que, para ser alguém verdadeiramente devoto da Santíssima Virgem, não é absolutamente necessário ser santo ao ponto de evitar todo pecado, conquanto seja este o ideal; mas é preciso ao menos (note-se bem o que vou dizer): Em primeiro lugar, estar com a resolução sincera de evitar ao menos todo pecado mortal, que ofende tanto a Mãe como o Filho. Segundo, fazer violência a si mesmo para evitar o pecado. Terceiro, filiar-se a confrarias, rezar o terço, o santo rosário ou outras orações, jejuar aos sábados, etc.

Isto é maravilhosamente útil à conversão de um pecador, mesmo empedernido; e se meu leitor estiver nestas condições, como que tenha já um pé no abismo, eu lho aconselho, contanto, porém, que só pratique estas boas obras na intenção de, pela intercessão da Santíssima Virgem, obter de Deus a graça da contrição e do perdão dos pecados, e de vencer seus maus hábitos, e não para continuar calmamente no estado de pecado, a despeito dos remorsos de consciência, do exemplo de Jesus Cristo e dos santos, e das máximas do santo Evangelho.

5º Os devotos inconstantes

Devotos inconstantes são aqueles que são devotos da Santíssima Virgem periodicamente, por intervalos e por capricho: hoje são fervorosos, amanhã tíbios; agora mostram-se prontos a tudo empreender em serviço de Maria e logo após já não parecem os mesmos. Abraçam logo todas as devoções à Santíssima Virgem, ingressam em todas as suas confrarias, e em pouco tempo já nem observam as regras com fidelidade; mudam como a lua42, e Maria os esmaga sob seus pés como faz ao crescente, pois eles são volúveis e indignos de ser contados entre os servidores deste Virgem fiel, que têm a fidelidade e a constância por herança. Vale mais não se sobrecarregar de tantas orações e práticas de devoção, e fazer poucas com amor e fidelidade, a despeito do mundo, do demônio e da carne.

6º Os devotos hipócritas

Há também falsos devotos da Santíssima Virgem, os devotos hipócritas, que cobrem seus pecados e maus hábitos com o manto desta Virgem fiel, a fim de passarem aos olhos do mundo por aquilo que não são.

7º Os devotos interesseiros

Há ainda os devotos interesseiros, que só recorrem à Santíssima Virgem para ganhar algum processo, para evitar algum perigo, para se curar de alguma doença ou em qualquer necessidade desse gênero, sem o que a esqueceriam; uns e outros são falsos devotos que não têm aceitação diante de Deus e de sua Mãe Santíssima.

Cuidemos, portanto, de não pertencer ao número dos devotos críticos que em coisa alguma crêem e de tudo criticam; dos devotos escrupulosos que receiam ser demasiadamente devotos da Santíssima Virgem, por respeito a Jesus Cristo; dos devotos exteriores que fazem consistir toda a sua devoção em práticas exteriores; dos devotos presunçosos, que, sob o pretexto de sua falsa devoção continuam marasmados em seus pecados; dos devotos inconstantes que, por leviandade, variam suas práticas de devoção, ou as abandonam completamente à menor tentação; dos devotos hipócritas que se metem em confrarias e ostentam as insígnias da Santíssima Virgem a fim de passar por bons; e, enfim, dos devotos interesseiros, que só recorrem à Santíssima Virgem para se livrarem dos males do corpo ou obter bens temporais.

§ II. A verdadeira devoção à Santíssima Virgem.

Depois de descobrir e condenar as falsas devoções à Santíssima Virgem, cumpre estabelecer em poucas palavras a devoção verdadeira, que é: 1º interior, 2º terna, 3º santa, 4º constante, 5º desinteressada.
1º A verdadeira devoção é interior

Antes de tudo, a verdadeira devoção à Santíssima Virgem é interior, isto é, parte do espírito e do coração. Vem da estima em que se tem a Santíssima Virgem. Da alta idéia que se formou de suas grandezas, e do amor que se lhe consagra.

2º A verdadeira devoção é terna

Em segundo lugar é terna, quer dizer cheia de confiança na Santíssima Virgem, da confiança de um filho em sua mãe. Impele uma alma a recorrer a ela em todas as necessidades do corpo e do espírito, com extremos de simplicidade, de confiança e de ternura; ela implora o auxílio de sua boa Mãe em todo o tempo, em todo lugar, em todas as coisas: em suas dúvidas, para ser esclarecida; em seus erros, para se corrigir; nas tentações, para ser sustentada; em suas fraquezas, para ser fortificada; em suas quedas, para ser levantada; em seus abatimentos, para ser encorajada; em seus escrúpulos, para ficar livre deles; em suas cruzes, trabalhos e reveses da vida, para ser consolada. Em todos os males do corpo e do espírito, enfim, Maria é o refúgio, e não há receio de importunar esta boa Mãe e desagradar a Jesus Cristo.

5º A verdadeira devoção é desinteressada

A verdadeira devoção à Santíssima Virgem é, finalmente, desinteressada, leva a alma a buscar não a si mesma, mas somente a Deus em sua Mãe Santíssima. O verdadeiro devoto de Maria não serve a esta augusta Rainha por espírito de lucro e de interesse, nem para seu bem temporal ou eterno, corporal ou espiritual, mas unicamente porque ela merece ser servida, e Deus exclusivamente nela; o verdadeiro devoto não ama a Maria precisamente porque ela lhe faz ou ele espera dela algum bem, mas porque ela é amável. Só por isto ele a ama e serve nos desgostos e na aridez, como nas doçuras e no fervor sensível, sempre com a mesma fidelidade; ama-a nas amarguras do Calvário como nas alegrias de Caná. Oh! como é agradável e precioso aos olhos de Deus e de sua Mãe Santíssima, esse devoto, que em nada se busca nos serviços que presta à sua Rainha. Mas, também, quão raro é encontrá-lo agora. E é com o fito de que cresça o número desses fiéis devotos, que empunhei a pena para escrever o que tenho, com particular fruto, ensinado em público e em particular nas minha missões, durante anos e anos.

Muitas coisas já disse sobre a Santíssima Virgem. Mais ainda tenho, entretanto, a dizer, e infinitamente mais omitirei, seja por ignorância, incapacidade ou falta de tempo, no desígnio que tenho de formar um verdadeiro devoto de Maria e um verdadeiro discípulo de Jesus Cristo.

Oh! bem empregado seria o meu esforço, se este escrito, caindo nas mãos duma alma bem nascida, nascida de Deus e de Maria, e não do sangue, ou da vontade da carne, nem da vontade do homem (cf. Jo 1, 13), lhe desvendasse e inspirasse, pela graça do Espírito Santo, a excelência e o prêmio da verdadeira e sólida devoção à Santíssima Virgem, como vou indicar. Se eu soubesse que meu sangue pecaminoso poderia servir para fazer entrar no coração as verdades que escrevo em honra de minha querida Mãe e soberana Senhora, da qual sou o último dos filhos e escravos, em lugar de tinta eu o usaria para formar esses caracteres, na esperança que me anima de encontrar boas almas que, por sua fidelidade à prática que ensino, compensarão minha boa Mãe e Senhora das perdas que lhe têm causado minha ingratidão e infidelidade.

Sinto-me, mais do que nunca, animado a crer e esperar em tudo que tenho profundamente gravado no coração, e que há muitos anos peço a Deus: que mais cedo ou mais tarde a Santíssima Virgem terá mais filhos, servidores e escravos, como nunca houve, e que, por este meio, Jesus Cristo, meu amado Mestre, reinará totalmente em todos os corações.

114. Vejo, no futuro, animais frementes, que se precipitam furiosos para dilacerar com seus dentes diabólicos este pequeno manuscrito e aquele de quem o Espírito Santo se serviu para escrevê-lo, ou ao menos para fazê-lo ficar envolto nas trevas e no silêncio de uma arca, a fim de que ele não apareça. Atacarão até, e perseguirão aqueles e aquelas que o lerem e o puserem em prática. Mas não importa! tanto melhor! Esta visão me encoraja e me dá a esperança de um grande sucesso, isto é, um esquadrão de bravos e destemidos soldados de Jesus e de Maria, de ambos os sexos, para combater o mundo, o demônio e a natureza corrompida, nos tempos perigosos que virão, e como ainda não houve.

As práticas da verdadeira devoção à Santíssima Virgem

§ I. As práticas comuns.

Há muitas práticas interiores da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. As principais são, abreviadamente, as seguintes:

Honrá-la, como a digna Mãe de Deus, com o culto de hiperdulia, isto é, estimá-la e honrá-la sobre todos os outros santos, como a obra-prima da graça e a primeira depois de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. 2. Meditar suas virtudes, seus privilégios e seus atos. 3. Contemplar suas grandezas. 4. Fazer-lhe atos de amor, de louvor e reconhecimento. 5. Invocá-la cordialmente. 6. Oferecer-se e unir-se a ela. 7. Em todas as ações ter a intenção de agradar-lhe. 8. Começar, continuar, e acabar todas as ações por ela, nela, com ela e para ela, a fim de fazê-las por Jesus Cristo, em Jesus Cristo, com Jesus Cristo e para Jesus Cristo, nosso último fim. Mais adiante explicaremos esta última prática (Ver cap. VIII, art, II).

A verdadeira devoção à Santíssima Virgem tem também muitas práticas exteriores, das quais as principais são:

1º Alistar-se em suas confrarias e ingressar em suas congregações; 2º ingressar numa das ordens instituídas em sua honra; 3º publicar seus louvores; 4º dar esmolas, jejuar e mortificar-se o espírito e o corpo em sua honra; 5º trazer consigo suas insígnias, como o santo rosário ou o terço, o escapulário ou a cadeiazinha; 6º recitar com devoção, atenção e modéstia ou o santo rosário, composto de quinze dezenas de Ave-Maria, em honra dos quinze mistérios principais de Jesus Cristo, ou o terço de cinco dezenas, contemplando os cinco mistérios gozosos: anunciação, a visitação, a natividade de Jesus Cristo, a purificação e o encontro de Jesus no templo; os cinco mistérios dolorosos: a agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras, sua flagelação, a coroação de espinhos, Jesus levando cruz, e a crucificação; os cinco mistérios gloriosos: a ressurreição de Jesus, sua ascensão, a descida do Espírito Santo, a assunção da Santíssima Virgem em corpo e alma ao céu, e sua coroação pelas três pessoas da Santíssima Trindade. Pode-se recitar também uma coroa de seis ou sete dezenas em honra dos anos que se crê a Santíssima Virgem ter vivido na terra; ou a coroinha da Santíssima Virgem, composta de três Pai-nossos e doze Ave-Marias, em honra de sua coroa de doze estrelas ou privilégios; outrossim o ofício da Santíssima Virgem universalmente conhecido e recitado pela Igreja; o pequeno saltério da Santíssima Virgem que São Boaventura compôs em sua honra, tão terno e devoto que não se pode recitá-lo sem enternecimento; quatorze Pai-nossos e Ave-Marias em honra de suas quatorze alegrias; quaisquer outras orações, enfim, hinos e cânticos da Igreja, como o “Salve Rainha”, o “Alma”, o Ave Regina caelorum”, ou o “Regina caeli”, conforme os diferentes tempos; ou o “Ave, Maris Stella”, “O gloriosa Domina”, etc., ou o “Magnificat”, e outras orações e hinos de que andam cheios os devocionários; 7º cantar e fazer cantar em sua honra cânticos espirituais; 8º fazer-lhe um certo numero de genuflexões ou reverências, dizendo-lhe, p. ex., todas as manhãs, sessenta ou cem vezes: “Ave, Maria, Virgo Fidelis”, para, por meio dela, obter de Deus a fidelidade às graças durante o dia; e à noite: “Ave, Maria, Mater Misericordiae”, para, por intermédio dela, alcançar de Deus o perdão dos pecados cometidos durante o dia; 9º ter zelo por suas confrarias, ornar seus altares, coroar e enfeitar suas imagens; 10º carregar nas procissões ou fazer que se conduza sua imagem nas procissões, e trazê-la consigo como uma arma eficaz contra o demônio; 11º mandar fazer imagens que a representem, ou seu nome, e colocá-los nas igrejas, nas casas, nos pórticos ou à entrada das cidades, igrejas e casas; 12º consagrar-se a ela, de uma maneira especial e solene.

Há uma quantidade de outras práticas da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, que o Espírito Santo tem inspirado às almas de escol, e que são muito santificantes. Pode-se encontrá-las mais extensamente no livro “Paraíso aberto a Filágia”do Padre Paulo Barry, da Companhia de Jesus. Aí o autor coligiu grande número de devoções praticadas pelos santos em honra da Santíssima Virgem, devoções maravilhosamente úteis para santificar as almas, desde que sejam praticadas como devem, isto é:

1º Com reta e boa intenção de agradar só a Deus, de unir-se a Jesus Cristo como o nosso fim último, e de edificar o próximo; 2ª com atenção, sem distrações voluntárias; 3º com devoção, sem precipitação nem negligência; 4º com modéstia e compostura, em atitude respeitosa e edificante.

§ II. A prática perfeita.

Depois de ler quase todos os livros que tratam da devoção à Santíssima Virgem e de conversar com as pessoas mais santas e instruídas destes últimos tempos, declaro firmemente que não encontrei nem aprendi outra prática de devoção à Santíssima Virgem semelhante a esta que vou iniciar, que exija de uma alma mais sacrifícios a Deus, que a despoje mais completamente de seu amor-próprio, que a conserve com mais fidelidade na graça e a graça nela, que a una com mais perfeição e facilidade a Jesus Cristo, e, afinal, que seja mais gloriosa para Deus, santificante para a alma e útil ao próximo.

O essencial desta devoção consiste no interior que ela deve formar, e, por este motivo, não será compreendida igualmente por todo o mundo. Alguns hão de deter-se no que ela tem de exterior, e não passarão avante, e estes serão o maior número; outros, em número reduzido, entrarão em seu interior, mas subirão apenas um degrau. Quem alcançará o segundo? Quem se elevará ao terceiro? Quem, finalmente, se identificará nesta devoção? Aquele somente a quem o Espírito de Jesus Cristo revelar este segredo. Ele mesmo conduzirá a esse estado a alma fiel, fazendo-a progredir de virtude em virtude, de graça em graça e de luz em luz, para que ela chegue a transformar-se em Jesus Cristo, e atinja a plenitude de sua idade sobre a terra e de sua glória no céu.

Da perfeita devoção à Santíssima Virgem ou a perfeita consagração a Jesus Cristo

A mais perfeita devoção é aquela pela qual nos conformamos, unimos e consagramos mais perfeitamente a Jesus Cristo, pois toda a nossa perfeição consiste em sermos conformados, unidos e consagrados a ele. Ora, pois que Maria é, de todas as criaturas, a mais conforme a Jesus Cristo, segue daí que, de todas as devoções, a que mais consagra e conforma uma alma a Nosso Senhor é a devoção à Santíssima Virgem, sua santa Mãe, e que, quanto mais uma alma se consagrar a Maria, mais consagrada estará a Jesus Cristo.

Eis por que a perfeita consagração a Jesus Cristo nada mais é que uma perfeita e inteira consagração à Santíssima Virgem, e nisto consiste a devoção que eu ensino; ou, por outra, uma perfeita renovação dos votos e promessas do santo batismo.

Uma perfeita e inteira consagração de si mesmo à Santíssima Virgem

Esta devoção consiste, portanto, em entregar-se inteiramente à Santíssima Virgem, a fim de, por ela, pertencer inteiramente a Jesus Cristo.46 É preciso dar-lhe 1º nosso corpo com todos os seus membros e sentidos, 2º nossa alma com todas as suas potências, 3º nossos bens exteriores, que chamamos de fortuna, presentes e futuros, 4º nossos bens interiores e espirituais, que são nossos méritos, nossas virtudes e nossas boas obras passadas, presentes e futuras. Numa palavra, tudo que temos na ordem da natureza e na ordem da graça, e tudo que, no porvir, poderemos ter na ordem da natureza, da graça e da glória, e isto sem nenhuma reserva, sem a reserva sequer de um real, de um cabelo, da menor boa ação, para toda a eternidade, sem pretender e nem esperar a mínima recompensa de sua oferenda e de seu serviço, a não ser a honra de pertencer a Jesus Cristo por ela e nela, mesmo que esta amável Senhora não fosse, como é sempre, a mais liberal e reconhecida das criaturas.

Importa notar, aqui, duas coisas que há nas boas obras que fazemos, a saber: a satisfação e o mérito, ou o valor satisfatório ou impetratório e o valor meritório. O valor satisfatório ou impetratório duma boa obra é uma boa ação na medida em que satisfaz a pena devida pelo pecado, ou em que obtêm alguma nova graça; o valor meritório ou o mérito é uma boa ação, em quanto merece a graça e a glória eterna. Ora, nesta consagração de nós mesmos à Santíssima Virgem, nós lhe damos todo o valor satisfatório, impetratório e meritório, ou por outra, as satisfações e os méritos de todas as nossas boas obras: damos-lhe nossos méritos, nossas graças e nossas virtudes, não para comunicá-los a outrem (porque nossos méritos, graças e virtudes, propriamente falando, são incomunicáveis; só Jesus Cristo, fazendo-se nosso penhor diante do Pai, pôde comunicar-nos seus méritos), mas para no-los conservar, aumentar e encarecer, como diremos ainda. (V. nn. 146, ss). Damos-lhe nossas satisfações para que ela as comunique a quem bem lhe pareça e para maior glória de Deus.

Daí segue 1º que, por esta devoção, damos a Jesus Cristo, do modo mais perfeito, pois que o fazemos pelas mãos de Maria, tudo que lhe podemos dar, e muito mais que por outras devoções, pelas quais lhe damos uma parte de nosso tempo ou de nossas boas obras, ou uma parte de nossas satisfações e mortificações. Aqui damos e consagramos tudo, até o direito de dispor dos bens interiores, e as satisfações que ganhamos por nossas boas obras, dia a dia: e isto não se faz nem mesmo numa ordem religiosa. Nestas, consagram-se a Deus os bens de fortuna pelo voto de pobreza, os bens do corpo pelo voto de castidade, a vontade própria pelo voto de obediência, e, às vezes, a liberdade do corpo pelo voto de clausura. Não se lhe dá, porém, a liberdade ou o direito que temos de dispor de nossas boas obras, nem se renuncia tanto como se pode ao que o cristão tem de mais precioso e caro: seus méritos e satisfações.

2º Uma pessoa, que assim voluntariamente se consagrou e sacrificou a Jesus Cristo por Maria, já não pode dispor do valor de nenhuma de suas boas ações. Tudo o que sofre, tudo o que pensa, diz e faz de bem pertence a Maria, para que ela de tudo disponha conforme a vontade e para maior glória de seu Filho, sem que, entretanto, esta dependência prejudique de modo algum as obrigações de estado no qual esteja presentemente, ou venha a estar no futuro: por exemplo, as obrigações de um sacerdote que, por dever de ofício ou por outro motivo, deve aplicar o valor satisfatório e impetratório da santa missa a um particular; pois não se faz esta oferta a não ser conforme a ordem de Deus e os deveres de estado.

3º A consagração é feita conjuntamente à Santíssima Virgem e a Jesus Cristo; à Santíssima Virgem como ao meio perfeito que Jesus Cristo escolheu para se unir a nós e nós a ele; e a Nosso Senhor como o nosso fim último, ao qual devemos tudo o que somos, como a nosso Redentor e nosso Deus.

Uma perfeita renovação dos votos do batismo

Disse acima (V. nº 120) que a esta devoção podia-se chamar muito bem uma perfeita renovação dos votos ou promessas do santo batismo.

Todo cristão, antes do batismo, era escravo do demônio, pois lhe pertencia. Na ocasião do batismo o cristão, por sua própria boca ou pela de seu padrinho e de sua madrinha, renunciou a Satanás, a suas pompas e obras, e tomou Jesus Cristo para seu Mestre e soberano Senhor, passando a depender dele, na qualidade de escravo por amor. É o que se faz pela presente devoção: renuncia-se (como está indicado na fórmula de consagração) ao demônio, ao mundo, ao pecado e a si próprio, dando-se inteiramente a Jesus Cristo pelas mãos de Maria. Faz-se até algo mais, pois se, no batismo, falamos ordinariamente pela boca de outrem, pela boca do padrinho ou da madrinha, nesta devoção fazemo-lo nós mesmos, voluntariamente, com conhecimento de causa.

No batismo não é pelas mãos de Maria que nos damos a Jesus Cristo, pelo menos duma maneira expressa, nem fazemos doação a ele do valor de nossas boas ações; depois do batismo, ficamos inteiramente livres de aplicar esse valor a quem quisermos ou de conservá-lo para nós. Por essa devoção, damo-nos, porém, a Nosso Senhor pelas mãos de Maria, e lhe consagramos o valor de todas as nossas ações.

É tão verdade isto, que o Concílio de Sens convocado por ordem de Luís o Bonachão para pôr cobro às grandes desordens dos cristãos, declarou que a causa principal da corrupção reinante vinha do esquecimento e ignorância em que se vivia dos compromissos tomados no santo batismo; e não encontrou melhor remédio tão grande mal do que induzir os cristãos a renovar as promessas do santo batismo.

O Catecismo de Concílio de Trento, fiel intérprete deste santo Concílio, exorta os curas a fazer o mesmo, e a relembrar aos fiéis que estão ligados e consagrados a Nosso Senhor Jesus Cristo, como escravos a seu Redentor e Senhor. Eis as palavras textuais: “Parochus fidelem populum ad eam rationem cohortabitur ut sicat aequissimum esse… nos ipsos, nom secus ac mancipia Redemptori nostro et Domino in perpetuum addicere et consecrare”.49
49) Catec. Conc. Trid., p. I, cap. 3, art. 2, § 15, “De secundo Symboli articulo” in fine.

Ora, se os Concílios, os Santos Padres e a própria experiência nos mostram que o melhor meio de remediar os desregramentos dos cristãos é fazê-los relembrar as obrigações assumidas no batismo e renovar os votos que então fizeram, não é natural que se faça isto presentemente, de um modo perfeito, por esta devoção e consagração a Nosso Senhor, por intermédio de sua Mãe Santíssima? Digo “de um modo perfeito” porque nos servimos, nesta consagração a Jesus Cristo, do mais perfeito de todos os meios, que é a Santíssima Virgem.

Respostas a algumas objeções

Não se pode objetar que esta devoção seja nova ou sem importância. Não é nova porque os concílios, os padres e muitos autores antigos e modernos falam desta consagração a Nosso Senhor ou renovação das promessas do batismo, como de uma prática antiga, aconselhando-a a todos os cristãos. Esta prática também não é sem importância, pois a principal fonte de todas as desordens e conseqüente condenação dos cristãos está no esquecimento e indiferença por esta renovação.

Alguns podem alegar que esta devoção, levando-nos a dar a Nosso Senhor, pelas mãos de Maria Santíssima, o valor de todas as nossas boas obras, orações, mortificações e esmolas, nos torna impotentes para socorrer as almas de nossos parentes, amigos e benfeitores.

A esses respondo primeiro que não é crível que nossos amigos, parentes ou benfeitores sofram prejuízo por nos termos devotado e consagrado sem reserva ao serviço de Nosso Senhor e de sua Mãe Santíssima. Seria fazer uma injúria ao poder e bondade de Jesus e Maria, que saberão muito bem valer os nossos parentes, amigos e benfeitores, aproveitando o nosso crédito espiritual, ou por outro meio qualquer.

Segundo, esta prática não impede que rezemos pelos outros, vivos ou mortos, se bem que a aplicação de nossas boas obras dependa da vontade da Santíssima Virgem; e, bem ao contrário, esta circunstância nos levará a rezar com muito mais confiança, do mesmo modo que uma pessoa rica, que tivesse doado a um grande príncipe todos os seus bens, rogaria com redobrada confiança a esse príncipe que beneficiasse a algum amigo necessitado. Seria até causar prazer a esse príncipe dar-lhe ocasião de demonstrar seu reconhecimento a uma pessoa que de tudo se tivesse despojado para engrandecê-lo, que se tivesse reduzido a completa pobreza para honrá-lo. O mesmo se deve dizer de Nosso Senhor e da Santíssima Virgem: eles jamais se deixarão vencer em reconhecimento.

Outros dirão, talvez: Se eu der à Santíssima Virgem todo o valor de minhas ações para que ela o aplique a quem quiser, terei de sofrer talvez muito tempo no purgatório.

Esta objeção, produto do amor-próprio e da ignorância da liberalidade de Deus e de sua Mãe Santíssima, destrói-se por si mesmo. Uma alma cheia de fervor e generosa, que antepõe os interesses de Deus aos seus próprios, que tudo que tem dá a Deus inteiramente, sem reserva, que só aspira à glória e ao reino de Jesus Cristo por intermédio de sua Mãe Santíssima, e que se sacrifica completamente para obtê-lo, esta alma generosa, repito, e liberal, será castigada no outro mundo por ter sido mais liberal e desinteressada que as outras? Muito ao contrário, é a esta alma, como veremos a seguir, que Nosso Senhor e sua Mãe Santíssima se mostram mais generosos neste mundo e no outro, na ordem da natureza, da graça e da glória.

Vejamos agora, o mais brevemente que pudermos, os motivos que nos recomendam esta devoção, os maravilhosos efeitos que ela produz nas almas fiéis, e as práticas desta devoção.

Esta devoção nos põe inteiramente ao serviço de Deus

Primeiro motivo, que nos mostra a excelência desta consagração de nós mesmos a Jesus Cristo pelas mãos de Maria.

Desde que não se pode conceber sobre a terra emprego mais relevante que o serviço de Deus; se o menor servidor de Deus é mais rico, mais poderoso e mais nobre que todos os reis e imperadores da terra que não sejam também servidores de Deus, quais não serão as riquezas, o poder e a dignidade do fiel e perfeito servidor que se tiver devotado ao serviço divino, tão inteiramente e sem reserva quanto for capaz!? Assim será um fiel e amoroso escravo de Jesus e Maria, que, pelas mãos de Maria Santíssima, se entregar inteiramente ao serviço deste Rei dos reis, e que não reservar nada para si: nem todo ouro da terra e as belezas do céu o podem pagar.

As outras congregações, associações e confrarias eretas em honra de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, que promovem grande bem no cristianismo, não mandam que se dê tudo sem reserva; não prescrevem a seus associados mais que certas práticas e atos para satisfazerem suas obrigações; deixam-nos livres em todas as outras ações e instantes de sua vida. Mas nesta devoção, que apresento, damos sem reserva a Jesus e Maria todos os nossos pensamentos, palavras, ações e sofrimentos, e todos os momentos da vida: de sorte que, ou despertados ou adormecidos, bebendo ou comendo, nas ações as mais importantes como nas mais corriqueiras, pode-se sempre dizer em verdade que o fazemos, embora nem sequer nos ocorra a idéia, pertence a Jesus e Maria em virtude da nossa oferta, a menos que a retratemos expressamente. Que consolação!

Além disso, como já ficou dito, não há outra prática como esta, pela qual nos desfazemos facilmente dum certo espírito de propriedade, que se insinua até nas melhores ações; e nosso bom Jesus nos dá esta grande graça em recompensa do ato heróico e desinteressado que fizemos, cedendo-lhe, pelas mãos de sua Mãe Santíssima, todo o valor de nossas boas obras. Se, mesmo neste mundo, ele dá o cêntuplo àqueles que, por seu amor, abandonam os bens exteriores, temporais e caducos (cf. Mt 19, 20), em que proporção dará aos que lhe sacrificarem até seus bens interiores e espirituais?!

Jesus, nosso divino amigo, deu-se a nós sem reserva, seu corpo e sua alma, suas virtudes, graças e méritos: “Se toto totum me comparavit” – diz São Bernardo: Ele ganhou-me inteiramente dando-se inteiramente a mim. A justiça e a gratidão exigem, portanto, que lhe demos tudo que pudermos. Foi ele o primeiro a ser liberal para conosco; sejamos também generosos para com sua liberalidade, durante a vida, na hora da morte e por toda a eternidade. “Cum liberali liberalis erit”.

Esta devoção leva a imitar o exemplo dado por Jesus Cristo, e a praticar a humildade

Segundo motivo, que nos mostra que é justo e vantajoso aos cristãos consagrar-se, por esta prática, inteiramente à Santíssima Virgem, a fim de pertencer mais perfeitamente a Jesus Cristo.

Este bom Mestre não desdenhou encerrar-se no seio da Santíssima Virgem, como um cativo, um escravo amoroso, e submeter-se a ela, obedecendo-lhe durante trinta anos. É aqui, repito, que o espírito humano se confunde, quando reflete seriamente nesta atitude da divina Sabedoria encarnada, que não quis, embora podendo, dar-se diretamente aos homens, preferindo fazê-lo por intermédio da Santíssima Virgem; que não quis aparecer no mundo em plena idade viril, independentemente de quem quer que fosse, mas como uma criancinha dependendo dos cuidados de sua Mãe Santíssima, e mantida por ela. Esta Sabedoria infinita, cheia de um desejo imenso de glorificar a Deus seu Pai e de salvar os homens, não encontrou meio algum mais perfeito nem mais simples de fazê-lo, do que submetendo-se em todas as coisas à Santíssima Virgem, não só durante oito, dez ou quinze anos, mas durante trinta anos; e ele deu mais glória a Deus seu Pai durante todo esse tempo de submissão à Santíssima Virgem, como não lhe deu empregando os últimos três anos de sua vida a fazer prodígios, e pregar por toda parte, a converter os homens. Oh! que grande glória damos a Deus, submetendo-nos a Maria, a exemplo de Jesus.

Com um exemplo tão visível e conhecido por todo mundo, seremos insensatos a ponto de pensar que encontraremos um meio mais perfeito e mais certo submetendo-nos a Maria, a exemplo de seu Filho?

Lembremos aqui, para prova da dependência que devemos ter para com Maria, o que já ficou dito (nn. 14-39), citando os exemplos que nos dão o Pai, o Filho e o Espírito Santo nesta dependência. Deus Pai nos deu e nos dá seu Filho por ela somente, só produz outros filhos por meio dela, e só por intermédio dela nos comunica suas graças. Deus Filho foi formado para todo o mundo, por ela, e não é senão por ela que é formado todos os dias, e gerado por ela em união com o Espírito Santo, é ela a única via pela qual nos comunica suas virtudes e seus méritos. O Espírito Santo formou Jesus Cristo por meio dela, e por meio dela forma os membros de seu corpo místico, e só por ela nos dispensa seus dons e favores. Depois de exemplos tão claros e instantes, poderemos, sem uma extrema cegueira, prescindir de Maria, deixar de consagrar-nos a ela e de depender dela para irmos a Deus e a ele nos sacrificarmos?

Deus, vendo que somos indignos de receber suas graças diretamente de suas mãos divinas, dá-as a Maria, a fim de obtermos por ela o que ele nos quer dar; e também redunda em glória para ele, receber pelas mãos de Maria o reconhecimento, o respeito e o amor que lhe devemos por seus benefícios. É, pois, muito justo que imitemos o procedimento de Deus, a fim – diz São Bernardo54 – de que a graça volte a seu autor pelo mesmo canal por onde veio: “Ut eodem alveo ad largitorem gratia redeat quo fluxit”.

É o que fazemos por meio de nossa devoção: oferecemos e consagramos à Santíssima Virgem tudo o que somos e tudo o que possuímos, a fim de que Nosso Senhor receba por sua mediação a glória e o reconhecimento que lhe devemos. Reconhecemo-nos indignos e incapazes de, por nós mesmos, aproximar-nos de sua majestade infinita; e por isso servimo-nos da intercessão da Santíssima Virgem.

Além disso, é uma prática de grande humildade, virtude que Deus ama acima de todas as outras. Uma alma que se eleva a si mesma, rebaixa Deus; Deus resiste aos soberbos e dá sua graça aos humildes (Tg 4, 6). Se vos rebaixais crendo-vos indignos de aparecer diante dele e de vos aproximar dele, ele desce, rebaixa-se para vir até vós, para comprazer-se em vós, e para vos elevar. Quando, porém, tentamos aproximar-nos atrevidamente de Deus, sem medianeiro, Deus se esquiva e não conseguimos atingi-lo. Oh! quanto ele ama a humildade de coração. É a esta humildade que convida esta prática de devoção, pois ensina a não nos aproximarmos diretamente de Nosso Senhor, por misericordioso e doce que ele seja, mas a nos servirmos sempre da intercessão da Santíssima Virgem tanto para comparecer diante de Deus, como para lhe falar, aproximar-nos dele, oferecer-lhe qualquer coisa, para nos unirmos ou nos consagrarmos a ele.

Esta devoção nos proporciona as boas graças da Santíssima Virgem

§ I. Maria se dá a quem é seu escravo por amor.

Terceiro motivo. A Santíssima Virgem, Mãe de doçura e misericórdia, que jamais se deixa vencer em amor e liberalidade, vendo que alguém se lhe entrega inteiramente, para honrá-la e servir-lhe, despojando-se do que tem de mais caro para com isso adorná-la, entrega-se também inteiramente e dum modo inefável, a quem tudo lhe dá. Ela o faz imergir no abismo de suas graças, e reveste-o de seus merecimentos, dá-lhe o apoio de seu poder, ilumina-o com sua luz, abrasa-o de seu amor, comunica-lhe suas virtudes: sua humildade, sua fé, sua pureza, etc.; constitui-se seu penhor, seu suplemento, seu tudo para com Jesus. Como, enfim, essa pessoa consagrada é toda de Maria, Maria também é toda dela; de modo que se pode dizer desse perfeito servo e filho de Maria o que São João Evangelista diz de si próprio, que ele a tomou como um bem, para sua casa: “Accepit eam discipulus in sua” (Jo 19, 27).

É isto que produz na alma fiel uma grande desconfiança, desprezo e ódio de si mesma, ao lado de uma confiança ilimitada na Santíssima Virgem, sua boa Senhora. Já não procura, como antes, o seu apoio em suas próprias disposições, intenções, méritos, virtudes e boas obras, pois, tendo sacrificado tudo a Jesus por esta boa Mãe, só lhe resta um tesouro que resume todos os seus bens e de que ele não dispõe, e esse tesouro é Maria.

É o que o faz aproximar-se de Nosso Senhor, sem receio servil nem escrupuloso, e rezar com extrema confiança; é o que o faz adquirir os sentimentos do devoto e sábio abade Ruperto, o qual, aludindo à vitória de Jacob sobre o anjo (cf. Gn 32, 23), dirige à Santíssima Virgem estas belas palavras: “Ó Maria, minha princesa e Mãe Imaculada de Deus-homem, Jesus Cristo, é meu desejo lutar com este Homem, isto é, o Verbo divino, armado não com meus próprios méritos, mas com os vossos: “O Domina, Dei Genitrix, Maria, et incorrupta Mater Dei e hominis, non meis, sed tuis armatus meritis, cum isto Viro, scilicet Verbo Dei, luctare cupio”.

Oh! quão poderoso e forte é, para Jesus Cristo, quem está armado dos méritos e da intercessão da digna Mãe de Deus, que, como diz Santo Agostinho, venceu amorosamente o Todo-poderoso.

§ II. Maria purifica nossas boas obras, embeleza-as e as torna aceitáveis a seu Filho.

Esta bondosa Senhora purifica, embeleza e torna aceitáveis a seu Filho todas as nossas boas obras, porque, por esta devoção, as damos todas a ele pelas mãos de sua Mãe Santíssima.

1º Ela as purifica de toda mancha de amor-próprio e do apego imperceptível à criatura, apego que se insinua insensivelmente nas melhores ações. Desde que elas estão em suas mãos puríssimas e fecundas, estas mesmas mãos, que não foram jamais manchadas nem ociosas, e que purificam tudo que tocam, tiram do presente que lhe fazemos tudo que pode deteriorá-lo ou torná-lo imperfeito.
2º Ela embeleza nossas boas ações ornando-as com seu méritos e virtudes. É como se um campônio, querendo ganhar a amizade do rei, se dirigisse à rainha, e lhe apresentasse uma maçã, que representasse todo o seu lucro, e lhe pedisse que a oferecesse ao rei. A rainha, acolhendo a pobre dádiva do camponês, punha-a no centro de grande e magnífico prato de ouro, e apresentava-a assim ao rei, da parte do ofertante. Nestas circunstâncias, a maçã, indigna por si mesma de ser oferecida ao rei, torna-se um presente digno de sua majestade, devido ao prato de ouro e à importância da pessoa que a apresenta.

3º Ela apresenta essas boas obras a Jesus Cristo, pois nada retém para si do que lhe ofertamos. Tudo remete fielmente a Jesus. Se algo lhe damos a ela, damos necessariamente a Jesus. Se a louvamos e glorificamos, logo ela louva e glorifica a Jesus. Hoje como outrora, quando Santa Isabel a exaltou, ela canta, quando a louvamos e bendizemos: “Magnificat anima mea Dominum…” (Lc 1, 46).

4º Faz Jesus aceitar essas boas obras, por pequeno e pobre que seja o presente que ofertamos ao Santo dos Santos e Rei dos reis. Quando apresentamos alguma coisa a Jesus, de nossa própria iniciativa e apoiados em nossa própria capacidade e disposição, Jesus examina o presente e muitas vezes o rejeita em vista das manchas que a dádiva contraiu do nosso amor-próprio, como antigamente rejeitou os sacrifícios dos judeus por estarem cheios de vontade própria. Quando, porém, lhe apresentamos algo pelas mãos puras e virginais de sua bem-amada, tomamo-lo pelo seu lado fraco, se me é permitida a expressão. Ele não considera tanto a oferta que lhe fazemos como sua boa Mãe que lha apresenta; não olha tanto a procedência como a portadora. Deste modo, Maria, que nunca foi repelida, e, pelo contrário, foi sempre bem recebida, faz que seja agradavelmente recebido pela Majestade divina tudo que lhe apresenta, pequeno ou grande: basta que Maria lho apresente para que Jesus o receba e acolha. Conselho valioso é o que dava São Bernardo aos que dirigia no caminho da perfeição: “Quando quiserdes oferecer qualquer coisa a Deus, tende o cuidado de oferecê-lo pelas mãos agradáveis e digníssimas de Maria, a menos que queirais ser rejeitados” – Modicum quid offerre desideras, manibus Mariae offerendum tradere cura, si non vis sustinere repulsam.

E, como vimos (n. 146), a própria natureza não inspira aos pequenos como agir em relação aos grandes? Por que não há de levar-nos a graça a fazer o mesmo em relação a Deus, que está infinitamente acima de nós, e diante do qual somos menos que átomos? tendo além disso uma advogada tão poderosa, que não foi jamais repelida; tão habilidosa que conhece os segredos para ganhar o Coração de Deus; tão boa e caridosa que não se esquiva a ninguém, por pequeno e mau que seja.

Referirei mais adiante a verdadeira figura das verdades que afirmo, na história de Jacob e Rebeca (v. cap. VI).

Esta devoção é um meio excelente de promover a maior glória de Deus

Quarto motivo. Esta devoção fielmente praticada é um excelente meio para fazer com que o valor de todas as nossas boas obras contribua para a maior glória de Deus. Quase ninguém age com este nobre intuito, apesar de a isto estarmos obrigados, ou porque não conhece em que consiste a maior glória de Deus, ou porque não a quer. Mas a Santíssima Virgem, a quem conferimos o valor de nossas boas obras, sabe perfeitamente em que consiste a maior glória de Deus, e nada faz que não contribua para este fim. Daí, um perfeito servo dessa amável Soberana, que a ela se consagrou inteiramente, como dissemos, pode dizer ousadamente que o valor de todas as suas ações, pensamentos e palavras, é aproveitado para a maior glória de Deus, a não ser que revogue expressamente a intenção de sua oferta. Pode-se encontrar algo de mais consolador para uma alma que ama a Deus com um amor puro e desinteressado, e que preza mais a glória e os interesses de Deus, que os seus próprios interesses?

Esta devoção conduz à união com Nosso Senhor

Quinto motivo. Esta devoção é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro para chegar à união com Nosso Senhor, e nisto consiste a perfeição do cristão.

§ I. Esta devoção é um caminho fácil.

É um caminho fácil; é um caminho que Jesus Cristo abriu quando veio a nós, e no qual não há obstáculo que nos impeça de chegar a ele. Pode-se, é verdade, chegar a ele por outros caminhos; mas encontram-se muito mais cruzes e mortes estranhas, e muito mais empecilhos, que dificilmente se vencem. Será preciso passar por noites obscuras, por combates e agonias terríveis, escalar montanhas escarpadas, pisando espinhos agudos, atravessar desertos horríveis. Enquanto que pelo caminho de Maria passa-se com muito mais doçura e tranqüilidade.

Aí se encontram, sem dúvida, rudes combates a travar, e dificuldades enormes para vencer. Mas esta boa Mãe e Senhora está sempre tão próxima e presente a seus fiéis servos, para alumiá-los em suas trevas, esclarecê-los em suas dúvidas, encorajá-los em seus receios, sustê-los em seus combates e dificuldades, que, em verdade, este caminho virginal, para chegar a Jesus Cristo é um caminho de rosas e de mel, em vista de outros caminhos. Houve alguns santos, mas em pequeno número, como Santo Efrém, São João Damasceno, São Bernardo, São Bernardino, São Boaventura, São Francisco de Sales, etc., que trilharam este caminho ameno para ir a Jesus Cristo, porque o Espírito Santo, esposo fiel de Maria, o indicou a eles por uma graça especial; os outros santos, porém, que são em muito maior número, embora tenham tido devoção à Santíssima Virgem, não entraram, ou entraram muito pouco, nesta via. E por isso tiveram de arrostar provas bem mais rudes e mais perigosas.

A que atribuir, então, – dirá algum fiel servidor desta boa Mãe, – que seus servos tenham de enfrentar tantas ocasiões de sofrer, e mais que os outros que não lhe são devotos? Contradizem-nos, perseguem-nos, caluniam-nos, não os suportam57; ou, então, andam em trevas interiores, e em aridez de deserto onde não pinga nem uma gota de orvalho celeste. Se esta devoção torna mais fácil o caminho que conduz a Jesus Cristo, donde vem que eles são tão desprezados?

Respondo-lhes que é bem verdade que os mais fiéis servos da Santíssima Virgem, porque são os seus grandes favoritos, recebem dela as maiores graças e favores do céu, isto é, as cruzes; mas sustento que são também os servidores de Maria que levam estas cruzes com mais facilidades, mérito e glória; e mais que, onde outro qualquer pararia mil vezes e até cairia, eles não se detêm e, ao contrário, avançam sempre, porque esta boa Mãe, cheia de graça e unção do Espírito Santo, adoça todas as cruzes que para eles talha, no mel de sua doçura maternal e na unção do puro amor; deste modo, eles as suportam alegremente, como nozes confeitadas, que, de natureza, são amargas. E creio que uma pessoa que quer ser devota e viver piedosamente em Jesus Cristo, e, por conseguinte, sofrer perseguições e carregar todos os dias sua cruz, não carregará nunca grandes cruzes, ou não as carregará alegremente até ao fim, sem uma terna devoção à Santíssima Virgem, que torna doces as cruzes; do mesmo modo que uma pessoa não poderia, sem uma grande violência, impossível de manter indefinidamente, comer nozes verdes que não fossem saturadas de açúcar.

§ II. Esta devoção é um caminho curto.

Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho curto58, para encontrar Jesus Cristo, seja porque dele não nos extraviamos, seja porque, como acabo de dizer, nele marchamos com mais alegria e facilidade, e, conseqüentemente, com mais prontidão. Avançamos mais, em pouco tempo de submissão e dependência a Maria, do que em anos inteiros de vontade própria e contando apenas com o próprio esforço; pois o homem obediente e submisso a Maria Santíssima cantará vitórias (Prov. 21, 28) assinaladas sobre seus inimigos. Estes hão de querer impedi-lo de avançar, ou obrigá-lo a recuar, ou derrubá-lo; mas, apoiado, auxiliado e guiado por Maria, ele, sem cair, sem recuar, sem mesmo atrasar-se, avançará a passos de gigante em direção a Jesus Cristo, pelo mesmo caminho, que, como está escrito (Sl 18, 6), Jesus trilhou para vir a nós em largos passos e em pouco tempo.
Por que viveu Jesus Cristo tão pouco sobre a terra, e por que esses poucos anos que aqui viveu passou-os quase todos em submissão e obediência a sua Mãe? Ah! é que, tendo vivido pouco, encheu a carreira de uma longa vida (Sb 4, 13); viveu longamente e mais do que Adão, do qual veio reparar as perdas, embora este tenha vivido mais de novecentos anos; e Jesus Cristo viveu longamente, porque viveu bem submisso e bem unido a sua Mãe Santíssima, para obedecer a Deus seu Pai; pois: 1º aquele que honra sua mãe assemelha-se a um homem que entesoura, diz o Espírito Santo, isto é, aquele que honra a Maria, sua Mãe, ao ponto de submeter-se a ela e obedecer-lhe em tudo, em breve se tornará rico, pois acumula tesouros todos os dias, pelo segredo desta pedra filosofal: “Qui honorat matrem, quasi qui thesaurizat” (Ecli 3, 5); 2º porque, conforme uma interpretação espiritual da palavra do Espírito Santo: “Senectus mea in misericordia uberi, – Minha velhice se encontra na misericórdia do seio” (Sl 91, 11), é no seio de Maria, que “envolveu e gerou um homem perfeito” (cf. Jer 31, 22), e que “teve a capacidade de conter aquele que o universo todo não compreende nem contém”59, é no seio de Maria que os jovens envelhecem em luz, em santidade, em experiência e em sabedoria, e onde, em poucos anos, se atinge a plenitude da idade de Jesus Cristo.

§ III. Esta devoção é um caminho perfeito.

Esta prática de devoção à Santíssima Virgem é um caminho perfeito para ir e unir-se a Jesus Cristo, pois Maria é a mais perfeita e a mais santa das criaturas, e Jesus Cristo, que veio perfeitamente a nós, não tomou outro caminho em sua grande e admirável viagem. O Altíssimo, o Incompreensível, o Inacessível, aquele que é, quis vir a nós, pequenos vermes da terra, que nada somos. Como se fez isto? O Altíssimo desceu perfeita e divinamente até nós por meio da humilde Maria, sem nada perder de sua divindade e santidade; e é por Maria que os pequeninos devem subir perfeita e divinamente ao Altíssimo sem recear coisa alguma. O Incompreensível deixou-se compreender e conter perfeitamente por Maria, sem nada perder de sua imensidade; é também pela pequena Maria que devemos deixar-nos conduzir e conter perfeitamente sem a menor reserva. O Inacessível aproximou-se, uniu-se estreitamente, perfeitamente e até pessoalmente à nossa humanidade por meio de Maria, sem perder uma parcela de sua majestade; é também por Maria que devemos aproximar-nos de Deus e unir-nos a sua majestade, perfeita e estreitamente, sem temor de repulsa. Aquele que é quis, enfim, vir ao que não é, e fazer que aquele que não é se torne Deus ou aquele que é. E ele o fez perfeitamente, dando-se e submetendo-se inteiramente à Virgem Maria sem deixar de ser no tempo aquele que é na eternidade; outrossim, é por Maria que, se bem que sejamos nada, podemos tornar-nos semelhantes a Deus, pela graça e pela glória, dando-nos a ela tão perfeita e inteiramente, que nada sejamos em nós mesmos e tudo nela, sem receio de enganar-nos.

Ainda que me apresentem um caminho novo para ir a Jesus Cristo, e que esse caminho seja pavimentado com todos os merecimentos dos bem-aventurados, ornados de todas as suas virtudes heróicas, iluminado e decorado de todas as luzes e belezas dos anjos, e que todos os anjos e santos lá estejam para conduzir, defender e amparar aqueles e aquelas que o quiserem palmilhar; em verdade, em verdade, digo ousadamente, e digo a verdade, eu havia de preferir a este, tão perfeito, o caminho imaculado de Maria: “Posui immaculatam viam meam” (Sl 18, 33), via ou caminho sem a menor nódoa ou mancha, sem pecado original ou atual, sem sombras nem trevas; e quando meu amável Jesus vier, em sua glória, uma segunda vez à terra (como é certo) para aqui reinar, o caminho que escolherá será Maria Santíssima, o mesmo pelo qual ele veio com segurança e perfeitamente a primeira vez. A diferença entre a primeira e a última vinda é que a primeira foi secreta e oculta, e a segunda será gloriosa e retumbante; ambas, porém, são perfeitas, porque, como a primeira, também a segunda será por Maria. Eis um mistério que não podemos compreender: “Hic taceat omnis lingua”.

§ IV. Esta devoção é um caminho seguro.

Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho seguro para irmos a Jesus Cristo e adquirirmos a perfeição, unindo-nos a ele:

1º Porque esta prática, preconizada por mim, não é nova; é tão antiga, que não se pode, como diz Boudon60, em um livro que escreveu sobre esta devoção, determinar-lhe com toda a precisão os começos. Em todo caso é certo que há mais de 700 anos encontram-se vestígios dela na Igreja.Santo Odilon, abade de Cluni, que viveu cerca do ano 1040 foi um dos primeiros que a praticaram na França, conforme está anotado em sua vida.

O cardeal Pedro Damião refere que em 1016 o bem-aventurado Marinho, seu irmão, se fez escravo da Santíssima Virgem, em presença de seu diretor e de um modo bem edificante: pôs a corda ao pescoço, tomou a disciplina, e depositou sobre o altar uma quantia de dinheiro como sinal do seu devotamento e consagração à Santíssima Virgem; e assim continuou tão fielmente, que, na hora da morte, mereceu ser visitado e consolado por sua boa Soberana, de cujos lábios recebeu as promessas do paraíso em recompensa de seus serviços.

Cesário Bollando menciona um ilustre cavaleiro, Vautier de Birbak, parente chegado dos duques de Lovaina, que, aí pelo ano 1300 fez esta consagração à Santíssima Virgem. O padre Simão de Roias da Ordem da Trindade, também chamada da redenção dos cativos, pregador do rei Filipe III, pôs em voga esta devoção em toda a Espanha (em 1611) e na Alemanha63; a instâncias de Filipe III, obteve de Gregório XV grandes indulgências para aqueles que a praticassem.

O padre de Los Rios, da Ordem de S. Agostinho, aplicou-se com seu íntimo amigo, o padre de Roias, a espalhar esta devoção por toda a Espanha e Alemanha, o que fez por seus escritos e pregações. Compôs um grosso volume intitulado “Hierarquia Mariana”64, no qual trata com piedade e erudição, da antiguidade, da excelência e da solidez desta devoção.

Os reverendos padres teatinos estabeleceram esta devoção na Itália, na Sicília e na Sabóia, no século 17.O rev. Padre Estanislau Falácio, da Companhia de Jesus, incrementou maravilhosamente esta devoção na Polônia.

O rev. Padre Cornélio a Lápide, recomendável tanto por sua piedade como por seu profundo saber, tendo recebido de vários bispos e teólogos a incumbência de dar seu parecer sobre esta devoção, examinou-a acuradamente e teceu-lhe louvores dignos de sua piedade, e seu exemplo foi seguido por muitas outras pessoas importantes. Os reverendos padres Jesuítas, sempre zelosos do serviço da Santíssima Virgem, apresentaram ao duque Fernando da Baviera, em nome dos congreganistas de Colônia, um pequeno tratado desta devoção.66 O duque, que era, então arcebispo de Colônia, deu-lhe sua aprovação e a permissão de imprimi-lo, exortando todos os curas e religiosos de sua diocese de propagar, quanto pudessem, esta sólida devoção.

O cardeal de Bérulle, cuja memória é abençoada por toda a França, foi um dos mais zelosos em espalhar esta devoção, apesar de todas as calúnias e perseguições que lhe levantaram e moveram os críticos e os libertinos. Acusaram-nos de inventar novidade e superstição; escreveram e publicaram contra ele um panfleto difamatório, e serviram-se, ou antes o demônio, por seu ministério, de mil estratagemas para impedi-lo de divulgar na França esta devoção. Mas o grande e santo homem só opôs a suas calúnias uma inalterável paciência, e às suas objeções, contidas no tal libelo, um pequeno escrito em que as refuta energicamente, demonstrando que esta devoção é fundada no exemplo de Jesus Cristo, nas obrigações que lhe devemos, e nos votos que fizemos no santo batismo, e é especialmente com esta última razão que ele fecha a boca a seus adversários, fazendo ver que esta consagração à Santíssima Virgem e a Jesus Cristo por suas mãos, nada mais é que uma perfeita renovação das promessas do batismo. Diz, enfim, muitas coisas belas que se podem ler nas suas obras.

No livro de Boudon, já citado (n. 159), encontra-se os nomes dos Papas que aprovaram esta devoção, dos teólogos que a examinaram, pode-se ler das perseguições que lhe suscitaram e que venceu, e dos milhares de pessoas que a abraçaram, sem que jamais Papa algum a tenha condenado; nem seria possível fazê-lo sem derrubar os fundamentos do cristianismo. Fica, portanto, de pé que esta devoção não é nova, e que não é comum, por ser preciosa demais para ser apreciada e praticada por todo mundo.

2º Esta devoção é um meio seguro para ir a Jesus Cristo, porque pertence à Santíssima Virgem e lhe é próprio conduzir-nos a Jesus Cristo, como compete a Jesus Cristo conduzir-nos ao Pai celestial. E não creiam erroneamente as pessoas espirituais que Maria seja um empecilho no caminho que conduz à união divina. Pois seria possível que aquela que achou graça diante de Deus para o mundo todo em geral, e para cada uma em particular, fosse um empecilho a uma alma que busca a grande graça da união com ele? Seria possível que aquela que tem sido cheia e superabundante de graças, e tão unida e transformada em Deus, a ponto de ele encarnar-se nela, impedisse uma alma de ficar perfeitamente unida a Deus?

É verdade que a vista de outras criaturas, ainda que santas, poderia, talvez, em certos tempos, retardar a união divina; mas não Maria, como já disse e direi sempre sem me cansar. Uma das razões por que tão poucas almas atingem a plenitude da idade de Jesus Cristo, é que Maria, a Mãe do Filho e a Esposa do Espírito Santo, não está suficientemente formada nos corações. Quem quiser o fruto bem maduro e formado deve ter a árvore que a produz; quem quer possuir o fruto de vida, Jesus Cristo, deve ter a árvore da vida, que é Maria. Quem quiser ter em si a operação do Espírito Santo, deve ter sua Esposa fiel e inseparável, Maria Santíssima, que o torna fértil e fecundo, como já dissemos alhures (nn. 20-21).

Persuadi-vos, portanto, de que quanto mais contemplardes Maria em vossas orações, meditações, ações e sofrimentos, se não de um modo distinto e perceptível, ao menos geral e imperceptível, tanto mais perfeitamente encontrareis Jesus Cristo, que, com Maria, é sempre grande, poderoso, ativo e incompreensível, e muito mais que no céu e em qualquer criatura do universo. Assim, Maria Santíssima, toda abismada em Deus, esta longe de tornar-se um obstáculo aos perfeitos no seu caminho para chegar à união com Deus, e, bem ao contrário, não houve até hoje, nem haverá nunca criatura que nos auxilie mais eficazmente do que ela nesta grande obra, seja pelas graças que para este efeito vos comunicará, pois ninguém fica cheio do pensamento de Deus se não for por ela, diz um santo: “Nemo cogitatione Dei repletur nisi per te”; seja pelas ilusões e trapaças do espírito maligno contra o qual ela vos garantirá.

Onde está Maria, não entra o espírito maligno; e um dos sinais mais infalíveis de que se está sendo conduzido pelo bom espírito, é a circunstância de ser muito devoto de Maria, de pensar nela muitas vezes, e de falar-lhe freqüentemente. É esta a opinião de um santo68 que acrescenta que, como a respiração é sinal inconfundível de que o corpo não está morto, o pensamento assíduo e a invocação amorosa de Maria é um sinal certo de que a alma não está morta pelo pecado.

Maria sozinha esmagou e exterminou as heresias, diz a Igreja com o Espírito Santo que a conduz: “Sola cunctas haereses interemisti in universo mundo”; e embora os críticos resmunguem contra esta afirmação, jamais um fiel devoto de Maria cairá na heresia ou na ilusão, pelo menos formal; poderá errar materialmente, tomar a mentira por verdade, e o espírito maligno pelo bom, e isto mesmo não tão facilmente como outro qualquer. Mais cedo ou mais tarde, porém, reconhecerá sua falta e seu erro material, e, quando o reconhecer, não teimará de modo algum em crer e sustentar o que tomara por verdade.

Qualquer pessoa, portanto, sem receio de ilusão comum às pessoas de oração, que quiser avançar no caminho da perfeição e achar segura e perfeitamente Jesus Cristo, abrace de todo o coração, “corde magno et animo volenti” (2Mac 1, 3), esta devoção à Santíssima Virgem, que talvez ainda desconheça. Entre neste caminho excelente que não conhecia e que eu lhe mostro (1Cor 12,31). É um caminho trilhado por Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, nosso único chefe. Os fiéis que o trilharem não podem estar enganados.

É um caminho fácil devido à plenitude da graça e da unção do Espírito Santo, de que está cheio: ninguém, que marche neste caminho, se cansa, nem recua. É um caminho curto que em pouco tempo nos leva a Jesus Cristo. É um caminho perfeito, onde não há lama, nem poeira, nem a menor sujeira do pecado. É, enfim, um caminho seguro que, de um modo reto e garantido, sem voltas para a direita ou para a esquerda, nos conduz a Jesus Cristo e à vida eterna. Entremos, portanto, neste caminho, e marchemos dia e noite, até a plenitude da idade de Jesus Cristo (cf. Ef. 4, 13).

Esta devoção dá uma grande liberdade interior

Sexto motivo. Esta prática de devoção dá, às pessoas que a praticam fielmente, uma grande liberdade interior, que é a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8,21). Visto que, por esta devoção, nos tornamos escravos de Jesus Cristo, consagrando-nos todo a ele nesta condição, este bom Mestre, em recompensa do cativeiro por amor a que nos submetemos, tira, primeiro, à alma todo escrúpulo e temor servil, que a constrangem, escravizam e perturbam; segundo, alarga o coração por uma santa confiança em Deus, fazendo-o considerá-lo como Pai; terceiro, inspira-lhe um amor terno e filial.

Sem me deter em amontoar razões para provar esta verdade, contento-me de citar uma passagem histórica que li na vida da Madre Inês de Jesus, religiosa jacobina do convento de Langeac em Auvergne, a qual morreu em odor de santidade nesse mesmo lugar, em 1634. Não tinha ela ainda sete anos, quando, uma ocasião, sofrendo tormentos de espírito, ouviu uma voz que lhe disse que, se ela quisesse livrar-se de todos os seus sofrimentos e ser protegida contra todos os seus inimigos, se fizesse quanto antes escrava de Jesus e de sua Mãe Santíssima. Mal chegou em casa, entregou-se inteiramente a Jesus e Maria, como lhe aconselhara a voz, embora não soubesse antes em que consistia esta devoção; e, tendo encontrado uma corrente de ferro, cingiu-se com ela os rins e a usou até à morte. Depois desse ato todas as suas penas e escrúpulos cessaram, e ela se achou numa grande paz e bem-estar de coração, e isto a levou a ensinar esta devoção a muitas outras pessoas, que fizeram grandes progressos, entre outros, a M. Olier, que instituiu o seminário de São Sulpício, e a muitos outros padres e eclesiásticos do mesmo seminário… Um dia a Santíssima Virgem lhe apareceu e lhe pôs ao pescoço uma cadeia de ouro para lhe testemunhar a alegria de tê-la como escrava de seu Filho e sua; e Santa Cecília, que acompanhava a Santíssima Virgem, lhe disse: Felizes os fiéis escravos da Rainha do céu, pois gozarão da verdadeira liberdade: “Tibi servire libertas”.
Nosso próximo aufere grandes bens desta devoção

Sétimo motivo. O que pode ainda levar-nos a abraçar esta devoção são os grandes bens que por ela receberá nosso próximo. Pois, praticando-a, exercemos para com ela a caridade de uma maneira eminente, já que lhe damos pelas mãos de Maria o que temos de mais caro, isto é, o valor satisfatório e impetratório de todas as nossas boas obras, sem excetuar o menor dos bons pensamentos e o mais leve sofrimento; consentimos em que tudo que adquirimos, e que havemos de adquirir de satisfações, seja, até à hora da morte, empregado conforme à vontade da Santíssima Virgem, à conversão dos pecadores ou à libertação das almas do purgatório.

Não é isto amar perfeitamente o próximo? Não é este o verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, que se reconhece pela caridade? (Jo 13, 35). Não é este o meio de converter os pecadores, sem temer a vaidade, e de livrar as almas do purgatório, sem fazer quase nada mais do que aquilo a que cada um está obrigado em seu estado?

Para conhecer a excelência deste motivo, seria preciso conhecer o bem que é converter um pecador ou livrar uma alma do purgatório: bem infinito, maior que criar o céu e a terra, pois que é dar a uma alma a posse de Deus. Mesmo que, por esta prática, não se livrasse mais que uma alma do purgatório, ou se convertesse apenas um pecador, não seria isto bastante para induzir todo homem verdadeiramente caridoso a abraçá-la?

É preciso notar ainda que nossas boas obras, passando pelas mãos de Maria, recebem um aumento de pureza, e, por conseguinte, de mérito e de valor satisfatório e impetratório; por isso elas se tornam muito mais capazes de aliviar os pecadores do purgatório e de converter os pecadores do que se não passassem pelas mãos virginais e liberais de Maria. O pouco que damos pela Santíssima Virgem, sem vontade própria, e por uma desinteressada caridade, tornar-se, em verdade, bem mais potente para abrandar a cólera de Deus e atrair sua misericórdia; e há de verificar-se à hora da morte que uma pessoa fiel a esta prática terá, por este meio, libertado inúmeras almas do purgatório, e convertido muitos pecadores, conquanto só tenha feito as ações comuns e ordinárias do seu estado. Que alegria haverá em seu julgamento! Que glória na eternidade!

Esta devoção é um meio admirável de perseverança

Oitavo motivo. Finalmente, o motivo mais poderoso, que, de certo modo, nos induz a esta devoção à Santíssima Virgem, é constituir um meio admirável para perseverar na virtude e ser fiel. Como se explica que a maior parte das conversões dos pecadores não seja durável? Donde vem a facilidade de recair no pecado? Por que a maior parte dos justos, ao invés de avançar de virtude em virtude e adquirir novas graças, perdem muitas vezes o pouco de virtudes e graças que tinham? Esta infelicidade provém, como já o demonstrei (v. nn. 87-89), de que o homem, sendo tão corrompido, tão fraco e tão inconstante, fia-se em si próprio, e crê-se capaz de guardar o tesouro de suas graças, virtudes e méritos.

Por esta devoção confiamos à Santíssima Virgem, fiel por excelência, tudo o que possuímos; tomamo-la por depositária universal de todos os bens da natureza e da graça. É em sua fidelidade que confiamos, no seu poder que nos apoiamos, em sua misericórdia e caridade que nos baseamos para que ela conserve e aumente nossas virtudes e méritos, a despeito do demônio, do mundo e da carne, que envidam todos os esforços para no-los arrebatar. Dizemos-lhe como um bom filho a sua mãe: “Depositum custodi” (1Tm 6, 20), isto é, minha boa Mãe e Soberana, reconheço que até ao presente muito mais graças tenho de Deus recebido por vossa intercessão, do que mereço, e minha funesta experiência me ensina que bem frágil é o vaso em que guardo esse tesouro, e que por demais fraco e miserável eu sou, para conservá-lo em mim: “adolescentulus sum ergo et contemptus” (Sl 118, 141); recebei em depósito tudo o que possuo, e conservai-mo por vossa fidelidade e vosso poder. Se me guardardes, nada perderei; se me sustentardes, não cairei; se me protegerdes, estarei a salvo de meus inimigos.

É o que diz S. Bernardo para inspirar-nos esta prática: “Enquanto Maria vos sustenta, não caís; enquanto vos protege, não temeis; enquanto vos conduz, não vos fatigais; e, sendo-vos propícia, chegareis ao porto da salvação: Ipsa tenente, non corruis; ipsa protegente, nom metuis; ipsa duce, nom fatigareis; ipsa propitia, pervenis”72 O mesmo parece dizer São Boaventura em termos ainda mais claros: A Santíssima Virgem, diz ele, está não só detida na plenitude dos santos, mas também guarda e detém os santos na plenitude para que esta plenitude não diminua; impede que suas virtudes se dissipem, que seus méritos pereçam, que se percam sua graças, que os prejudiquem os demônios; impede, por fim, que Nosso Senhor castigue os pecadores: “Virgo nom solum in plenitudine sanctorum detinetur, sed etiam in plenitudine sanctos detinet, ne plenitudo minuatur; detinet virtutes ne fugiant; detinet merita ne pereant; detinet gratias ne effluant; detinet daemones ne noceant; detinet Filium ne peccatores percutiat”.

A Santíssima Virgem é a Virgem fiel que, por sua fidelidade a Deus, repara as perdas que Eva infiel causou por sua infidelidade, e que obtém de Deus a fidelidade e a perseverança para aqueles que a ela se apegam. Por isso um santo a compara à âncora firme, porque os retém e impede de soçobrar no m ar agitado deste mundo, onde tantas pessoas naufragam por não se firmarem nesta âncora inabalável. “Prendemos, diz ele, as almas à vossa esperança, como a uma âncora firme: Animas ad spem tuam sicut ad firmam anchoram alligamus”. Foi a ela que os santos mais se agarraram, e prenderam os outros, com o fito de perseverar na virtude. Felizes, mil vezes felizes os cristãos que agora se apegam fiel e inteiramente a ela, como a uma âncora firme. Os arrancos da tempestade deste mundo não os farão submergir, nem perder os tesouros celestes. Bem-aventurados os que nela buscam abrigo como na arca de Noé. As águas do dilúvio de pecados, que afogam tanta gente, não lhes farão mal, pois: “Qui operantur in me non peccabunt” – os que se guiam por mim não pecarão (Ecli 24, 30), diz ela com a Sabedoria. Bem-aventurados os filhos infiéis da desgraçada Eva que se apegam à Mãe e Virgem fiel, que permanecem sempre fiéis e que não faltam jamais à sua palavra: “Fidelis permanet, se ipsam negare non potest”75, e que ama aqueles que a amam: “Ego diligentes me diligo” (Prov 8, 17), não só um amor afetivo, mas um amor efetivo e eficaz, impedindo-os, por uma grande abundância de graças, de recuar na virtude, ou de cair no caminho, perdendo a graça de seu Filho.

Esta boa Mãe recebe sempre, por pura caridade, tudo que lhe entregamos em depósito; e, desde que ela o recebeu como depositária, é obrigada por justiça, em virtude do contrato de depósito, a guardá-lo para nós; do mesmo modo que uma pessoa, a quem eu confiasse mil escudos, seria obrigada a guardá-los para mim, de tal modo que se, por sua negligência, meus mil escudos se perdessem seria ela, com justiça, a responsável. Mas isto não acontece, pois Maria, a virgem fiel, jamais deixaria perder-se, por sua negligência, o que lhe tivéssemos confiado. Antes passarão o céu e a terra do que ela ser negligente e infiel para com aqueles que dela se fiam.

Pobres filhos de Maria! extrema é vossa fraqueza, grande, vossa inconstância, viciado, o vosso íntimo! Sois, eu o confesso, da mesma massa corrompida que os filhos de Adão e Eva; mas não percais por isso a coragem; consolai-vos, regozijai-vos: eis o segredo que vos ensino, segredo desconhecido de quase todos os cristãos, até dos mais devotos.

Não deixeis vosso ouro e vossa prata nos cofres, já forçados pelo espírito maligno que vos roubou, cofres por demais exíguos e fracos e velhos para conter um tesouro tão grande e tão precioso. Não depositeis a água pura e cristalina da fonte em vossos vasos machados e infeccionados pelo pecado. Pode ser que o pecado aí já não esteja, mas o odor permanece ainda e a água ficará contaminada. Não despejeis vosso vinho fino em velhos tonéis que já contiveram vinho ordinário: ficará estragado e o perdereis.

Embora me entendais, almas predestinadas, falo mais abertamente. Não confieis o ouro de vossa caridade, a prata de vossa pureza, as águas das graças celestes, nem os vinhos de vossos méritos e virtudes a um saco roto, a um cofre velho e quebrado, a um vaso conta minado e corrompido, como vós sois; porque sereis pilhados pelos ladrões, isto é, os demônios, que buscam e espreitam, noite e dia, o momento próprio para o ataque; estragareis, com o mau odor do amor-próprio, da confiança própria e da vontade própria, tudo o que Deus vos dá de mais puro.

Depositai, derramai no seio e no coração de Maria todos os vossos tesouros, todas as vossas graças e virtudes. Maria é um vaso espiritual, um vaso honorífico, um vaso insigne de devoção: “vas spirituale, vas honorabile, vas insigne devotionis”. Depois que aí se encerrou o próprio Deus em pessoa, com todas as suas perfeições, este vaso tornou-se todo espiritual, e a morada espiritual das almas mais espirituais. Tornou-se honorável, e o trono de honra dos maiores príncipes da eternidade. Tornou-se insigne na devoção e a morada dos mais ilustres em doçura, em graças e virtudes. Tornou-se, enfim, rico como uma casa de ouro, forte como a torre de Davi, puro como uma torre de marfim.

Oh! quão feliz é o homem que tudo deu a Maria e que nela confia em tudo e por tudo. Ele é todo de Maria e Maria é toda dele. Pode dizer afoitamente com David: “Haec facta est mihi: Maria foi feita para mim” (Sl 118, 56); ou com o discípulo amado: “Accepi eam in mea” (Jo 19, 27) – Eu a tomei como toda a minha riqueza; ou com o próprio Jesus Cristo: “Omnia mea tua sunt, et omnia tua mea sunt: Todas as minhas coisas são tuas, e as tuas são minhas” (Jo 17, 10).

Se algum crítico, ao ler isto, achar que falo exageradamente e por excesso de devoção, infeliz dele, pois não me compreende, ou por ser um homem carnal que não aprecia as coisas do espírito, ou por ser do mundo que não pode receber o Espírito Santo, ou por ser orgulhoso e crítico, que condena e despreza o que não entende. As almas, porém, que não nasceram do sangue nem da vontade da carne (Jo 1, 13) mas de Deus e de Maria, me compreendem e apreciam; e é para elas, afinal, que eu escrevo.

Digo, entretanto, para uns e outros, voltando ao assunto interrompido, que Maria Santíssima, porque é a mais honesta e mais generosa de todas as puras criaturas, não se deixa vencer jamais em amor e liberalidade. E por um ovo, diz um santo homem ela dá um boi, isto é, por pouco que lhe demos ela dá mais do que recebeu de Deus; e, por conseguinte, se uma alma se lhe entrega sem reserva, se nela depositamos toda a nossa confiança, trabalhando de nosso lado em adquirir as virtudes e domar as paixões.

Que os fiéis servidores de Maria digam, pois, ousadamente com São João Damasceno: “Tendo confiança em vós, ó Mãe de Deus, serei salvo; tendo vossa proteção, não temerei; com vosso auxílio, combaterei os meus inimigos e os porei em fuga; pois vossa devoção é uma arma de salvação que Deus dá a quem quer salvar: Spem tuam habens, o Deipara, sevabor; defensionem tuam possidens, non timebo; persequar inimicos meos et in fugam vertam, habens protectionem tuam et auxilium tuum; nam tibi devotum esse est arma quaedam salutis quae Deus his dat quos vult salvos fieri” (Sermo de Annunc.).
Capítulo VI

Figura bíblica desta perfeita devoção: Rebeca e Jacó

De todas as verdades que acabo de descrever em relação à Santíssima Virgem, o Espírito Santo nos apresenta, na Sagrada Escritura (Gn 27), uma figura admirável na história de Jacó, o qual recebeu a bênção de Isaac, graças à solicitude e engenho de sua mãe Rebeca.Ei-la tal como conta o Espírito Santo. Em seguida ajuntarei a explicação.

§ I. História de Jacó.

Esaú vendera a Jacó, seu direito de primogenitura. Anos depois, Rebeca, mãe dos dois irmãos, assegurou a Jacó, – que ela amava ternamente, – as vantagens daquele privilégio, empregando, para isto, uma astúcia santa e cheia de mistério. Pois Isaac, sentindo-se extremamente velho, quis, antes de morrer, abençoar seus filhos, e, chamando Esaú, o preferido, ordenou-lhe que fosse caçar algo para ele comer. Depois o abençoaria. Rebeca, prontamente, pôs Jacó ao corrente do que se passava, e disse-lhe que fosse buscar dois cabritos no rebanho. Assim que ele lhos trouxe, ela os preparou do modo que Isaac mais gostava. Em seguida, com as vestes de Esaú, que ela guardava, vestiu Jacó e com as peles dos cabritos envolveu-lhe o pescoço e as mãos, a fim de que Isaac, que não podia ver, acreditasse, tateando-lhe as mãos, que fosse Esaú, embora ouvindo a voz de Jacó. Isaac, com efeito, ficou surpreso ao ouvir a voz que ele reconhecia como de Jacó, mas, fazendo-o aproximar-se e tateando-lhe os pelos que cobriam as mãos do filho, murmurou: Em verdade a voz é de Jacó, mas as mãos são de Esaú. E, convencido, comeu. Em seguida, ao beijar Jacó sentiu a fragrância das roupas de Esaú, o que acabou por dissipar-lhe as dúvidas. Abençoou-o, então, e desejou-lhe o orvalho do céu e a fecundidade da terra; estabeleceu-o senhor de todos os seus irmãos, e terminou a bênção com estas palavras: “Aquele que te amaldiçoar seja amaldiçoado, e aquele que te abençoar seja cumulado de bênçãos”.

Apenas Isaac acabara de falar, entrou Esaú trazendo um guisado da caça que abatera, e o apresentou ao pai, pedindo-lhe que comesse e em seguida o abençoasse. O santo patriarca ficou extremamente surpreendido, ao ficar ciente do engano, mas, longe de retratar o que fizera, confirmou-o, pois reconhecia no fato, evidentemente, o dedo de Deus. Então Esaú, como observa a Sagrada Escritura, gritou com grande clamor, e acusando em altas vozes o embuste do seu irmão, perguntou ao pai se ele não tinha outra bênção. Neste ponto, notam os Santos Padres, ele era a imagem dos que facilmente conciliam Deus com o mundo, querendo gozar ao mesmo tempo as consolações do céu e as da terra. Isaac, comovido pelos gritos de Esaú, abençoou-o, enfim, mas a bênção que lhe deu foi uma bênção terrena, sujeitando-o ao irmão. Por isso Esaú concebeu um ódio tão profundo contra Jacó que, para matá-lo, só esperava a morte do pai. E Jacó não teria podido evitar a morte, se sua extremosa mãe Rebeca não o protegesse com sua habilidade e os bons conselhos que lhe deu e que ele seguiu.

§ II. Interpretação da história de Jacó.

Antes de explicar esta história tão bela, é preciso notar que, conforme todos os Santos Padres e intérpretes da Sagrada Escritura, Jacó é figura de Jesus Cristo e dos predestinados, enquanto Esaú é figura dos réprobos; basta, apenas, examinar a atitude de um e de outro para verificá-lo.

1º Esaú, o mais velho, era forte e robusto de corpo, destro e habilidoso no manejo do arco e na arte da caça.

2º Quase não parava em casa, e, confiante em sua força e destreza, só trabalhava fora, ao ar livre.

3º Pouco se incomodava de agradar a sua mãe Rebeca, e nada fazia por ela.

4º Era guloso e gostava tanto de satisfazer o paladar, que chegou a vender seu direito de progenitura por um prato de lentilhas.

5º Estava, como Caim, cheio de inveja de seu irmão Jacó, e o perseguia sem tréguas.

Eis a conduta dos réprobos, todos os dias:

1º Fiam-se em sua força e indústria nos negócios temporais; são muito fortes, muito hábeis e esclarecidos para as coisas da terra, mas extremamente fracos e ignorantes nas coisas do céu: “In terrenis fortes, in caelestibus debiles”. Por isso:

2º Não se demoram ou se demoram muito pouco em sua própria casa, quer dizer no seu interior, que é a casa interior e essencial dada por Deus a cada homem para aí morar, conforme seu exemplo, pois Deus mora sempre em sua casa. Os réprobos não amam o retiro, nem a espiritualidade, nem a devoção interior e chamam de espírito acanhados, carolas e selvagens aqueles que são espirituais e retirados do mundo, e que trabalham mais no interior do que fora.

3º Os réprobos não se preocupam de modo algum com a devoção à Santíssima Virgem, a Mãe dos predestinados. É verdade que não a odeiam formalmente, fazem-lhe às vezes um elogio, dizem que a amam, praticam até alguma devoção em sua honra, mas, de resto, não suportariam vê-la amada ternamente, porque não têm para ela as ternuras de Jacó. Acham motivo de censura nas práticas de devoção, a que se entregam os bons filhos e servos da Santíssima Virgem para obter sua afeição, na certeza de que esta devoção lhes é necessária à salvação, e acham mais que, desde que não odeiam formalmente a Santíssima Virgem, e que não desprezam abertamente sua devoção, isso é bastante e já ganharam as boas graças da Santíssima Virgem e são seus servos, ao recitarem ou resmungarem algumas orações em sua honra, sem a menor ternura por ela nem emenda para eles.

4º Esses réprobos vendem seu direito de primogenitura, isto é, os gozos do paraíso, por um prato de lentilhas, os prazeres da terra. Riem, bebem, comem, divertem-se, jogam, dançam, etc…, sem a mínima preocupação, como Esaú, de se tornarem dignos da bênção do Pai celeste. Em três palavras, eles só pensam na terra, só amam a terra, só falam e agem pela terra e pelos prazeres terrenos, vendendo, por um instante de prazer, por uma vã fumaça de honra, e por um pedaço de matéria amarela ou branca, a graça batismal, sua veste de inocência, sua celestial herança.

5º Os réprobos, finalmente, em segredo ou às claras, odeiam e perseguem diariamente os predestinados. Prejudicam-nos quanto podem, desprezam-nos, roubam-nos, enganam-nos, empobrecem-nos, expulsam-nos, reduzem-nos a pó; enquanto eles mesmos fazem fortuna, gozam seus prazeres, vivem em situação esplêndida, enriquecem, se engrandecem e levam vida folgada.

2º Jacó, figura dos predestinados

1º Jacó, o caçula, era de compleição franzina, meigo e sossegado. Permanecia em casa o mais possível, para ganhar as graças de sua Mãe Rebeca, que o amava ternamente. Se saía de casa, não o fazia por vontade própria, nem por confiança em sua própria habilidade, mas para obedecer a sua mãe.

2º Amava e honrava sua mãe: por isso ficava em casa junto dela. Seu maior contentamento era vê-la; evitava tudo que pudesse desagradar-lhe e fazia tudo que imaginava agradar-lhe. Tudo isso concorria para aumentar em Rebeca o amor que dedicava ao filho.

3º Em todas as coisas ele era submisso a sua mãe, obedecia-lhe inteiramente em tudo, com obediência pronta, sem tardanças, e amorosa, sem queixas; ao menor sinal da vontade materna, o pequeno Jacó corria e trabalhava. Acreditava piamente, sem discutir, em tudo que a mãe lhe dizia: por exemplo, quando Rebeca o mandou buscar os dois cabritos, e ele os trouxe a fim de ela os preparar para Isaac, Jacó não replicou nem observou que bastava um para satisfazer o apetite de um só homem, mas, sem discernir, fez exatamente como ela mandou.

4º Ele depositava uma confiança sem limites em sua querida mãe; como não contava absolutamente com sua própria experiência, apoiava-se unicamente na proteção e nos desvelos maternos. Chamava por ela em todas as suas necessidades e consultava-a em todas as suas dúvidas: por exemplo, quando lhe perguntou se, em vez da bênção, não receberia a maldição de seu pai, creu e confiou na resposta que ela lhe deu de que tomaria sobre si a maldição.

5º Ele imitava, enfim, na medida de sua capacidade, as virtudes que via em sua mãe; e parece que uma das razões por que ele permanecia em casa, tão sedentário, é que procurava imitar sua virtuosa mãe, e afastar-se de más companhias, que corrompem os costumes. Por tal motivo tornou-se digno de receber a dupla bênção de seu querido pai.

Eis também a conduta diária dos predestinados:

1º Vivem em casa, sedentáriamente, com sua mãe, quer dizer, amam o recolhimento, são interiores, e se aplicam à oração, mas conforme o exemplo e a companhia de sua Mãe, a Santíssima Virgem, cuja glória está toda no interior e que, durante a vida inteira, tanto amou o retiro e a oração. É verdade que aparecem às vezes fora, no mundo; fazem-no, porém, em obediência à vontade de Deus e de sua querida Mãe, para cumprir os deveres de seu estado. Por grandes coisas que façam no exterior e que apareçam, preferem muito mais as que se fazem no interior, em companhia da Santíssima Virgem, porque aí executam a grande obra de sua perfeição, ao lado da qual todas as outras são como brinquedos de criança. Por isso, enquanto que seus irmãos e irmãs trabalham muitas vezes para o exterior com mais entusiasmo, habilidade e sucesso, recebendo os louros e aprovações do mundo, eles sabem, pela luz do Espírito Santo, que há muito mais glória, bem e prazer em permanecer oculto no reconhecimento com Jesus Cristo, seu modelo, numa submissão inteira e perfeita a sua Mãe, do que em realizar, por si próprio, maravilhas naturais e da graça no mundo, como tantos Esaús e réprobos. “Gloria et divitiae in domo eius” Sl 111, 3) – a glória para Deus e as riquezas para os homens encontram-se na casa de Maria.

Senhor Jesus, quão amáveis são vossos tabernáculos! O pardal encontrou uma casa para se alojar, e a rola, um ninho, onde abrigar seus filhotes. Oh! como é feliz o homem que mora na casa de Maria, na qual fizestes, primeiro, a vossa morada! É nesta casa de predestinados que ele de vós somente pede socorro, e em seu coração dispôs subidas e degraus de todas as virtudes, para elevar-se à perfeição neste vale de lágrimas. “Quam dilecta tabernacula…” (Sl 83).

2º Eles amam ternamente e honram em verdade a Santíssima Virgem, como sua boa Mãe e Senhora. Amam-na não só com a boca, mas verdadeiramente; honram-na não só no exterior, mas no fundo do coração; evitam, como Jacó, tudo que pode desagradar-lhe, e praticam com fervor tudo que crêem poder adquirir-lhes sua benevolência. Trazem-lhe e lhe entregam não só dois cabritos como Jacó a Rebeca, mas seu corpo e sua alma, com tudo que do corpo e da alma depende, de que são figura os dois cabritos de Jacó, 1º para que ele os receba como um dom que lhe pertence; 2º para que os sacrifique e faça morrer ao pecado e a si próprios, escorchado-os e despojando-os da própria pele de seu amor-próprio, e para agradar, por este meio, a Jesus, seu filho, que não quer para amigos e discípulos, senão aqueles que estiverem mortos a si mesmos; 3º para que os prepare ao gosto do Pai celeste, e para servir à sua maior glória, que ela conhece melhor que nenhuma outra criatura; 4º para que, por seus cuidados e intercessões, este corpo e esta alma, purificados de toda mancha, bem mortos, bem despojados e bem preparados, sejam um manjar delicado, digno do paladar e da bênção do Pai celeste. Não é o que farão as pessoas predestinadas, que apreciarão e praticarão a consagração perfeita a Jesus Cristo pelas mãos de Maria, como lhes ensinamos, para testemunhar a Jesus e Maria um amor efetivo e corajoso?

Os réprobos dizem que amam a Jesus, que honram Maria, mas não com sua substância76, com os seus haveres, ao ponto de lhes sacrificar seu corpo com os sentidos, sua alma com todas as paixões, como fazem os predestinados.

3º Eles são submissos e obedientes à Santíssima Virgem, como a sua boa Mãe a exemplo de Jesus Cristo, que, dos trinta e três anos que viveu sobre a terra, dedicou trinta a glorificar a Deus seu Pai, por uma perfeita e inteira submissão a sua Mãe Santíssima. A ela obedecem, seguindo com exatidão os seus conselhos, como o pequeno Jacó seguia os de sua mãe, que lhe diz: “Acquiesce consiliis meis” (Gn 27, 8) – Meu filho, segue meus conselhos; aos quais a Santíssima Virgem diz: “Quodcumque dixerit vobis facite” – Fazei tudo o que ele vos disser (Jo 2, 5). Por ter obedecido a sua mãe, Jacó recebeu a bênção, como por milagre, embora por direito natural não devesse recebê-la; porque os servos nas bodas de Cana seguiram o conselho da Santíssima Virgem, foram honrados com o primeiro milagre de Jesus Cristo, que nessa ocasião, a pedido de sua Mãe, converteu a água em vinho. Assim, todos aqueles que até ao fim dos séculos receberem a bênção do Pai celeste, e forem honrados com as maravilhas de Deus, só receberão estas graças em conseqüência de sua perfeita obediência a Maria; os Esaús, ao contrário, perderão sua bênção, por falta de submissão à Santíssima Virgem.

4º Os predestinados têm uma grande confiança na bondade e no poder da Santíssima Virgem; reclamam sem cessar o seu socorro; olham-na como a estrela polar guiando-os a seguro porto; comunicam-lhe, com o coração aberto, suas penas e suas necessidades; acolhem-se à sua misericórdia e doçura para, por sua intercessão, alcançar o perdão de seus pecados, ou para gozar de seus maternais carinhos em suas aflições e contrariedades. Atiram-se até, escondem-se e se perdem dum modo admirável em seu regaço amoroso e virginal, para aí ficarem abrasados de amor, para aí se purificarem das menores manchas, e para aí encontrarem plenamente a Jesus, que aí reside como no mais glorioso dos tronos. Oh! que felicidade! “Não creais, diz o abade Guerrrico, que seja maior felicidade habitar o seio de Abraão que o seio de Maria, pois neste colocou o Senhor o seu trono: Ne credideris maioris esse felicitatis habitare in sinu Abrahae quam in sinu Mariae, cum in eo Dominus possuerit thronum suum”.

Os réprobos, ao contrário, põem toda a confiança em si próprios, só comem, como o filho pródigo, o que comem os porcos; como vermes, só se alimentam de terra; e porque amam somente as coisas visíveis e passageiras, como os mundanos, não apareciam as doçuras e suavidades do seio de Maria. Não sentem aquele apoio e aquela confiança que os predestinados sentem pela Santíssima Virgem, sua boa Mãe. Amam miseravelmente sua fome exterior, como diz São Gregório78, porque não querem provar a suavidade que está preparada no próprio íntimo deles e no íntimo de Jesus e de Maria.

5º Finalmente, os predestinados mantêm-se nos caminhos da Santíssima Virgem, isto é, imitam-na, e nisto eles são verdadeiramente felizes e devotos, trazendo assim o sinal infalível de sua predestinação. Esta boa Mãe lhes diz: “Beati qui custodiunt vias meas” (Prov 8, 32) – Bem-aventurados os que praticam minhas virtudes, e caminham sobre as pegadas de minha vida, com o socorro da divina graça. Eles são felizes neste mundo, durante sua vida, devido à abundância de graças e de doçuras que eu lhes comunico de minha plenitude e com muito mais abundância que aos outros que não me imitam tão esforçadamente; eles são felizes em sua morte, que é doce e tranqüila, e na qual eu os assisto, para os conduzir às alegrias da eternidade; serão finalmente, felizes na eternidade, porque jamais se perdeu algum dos meus servos, que durante a vida tenha imitado fielmente as minhas virtudes.

Os réprobos, ao contrário, são infelizes durante a vida, em sua morte e na eternidade, porque não imitam a Santíssima Virgem em suas virtudes, contentando-se com pertencer a alguma de suas confrarias, com recitar uma ou outra oração em sua honra ou fazer qualquer devoção exterior.

Ó Virgem Santíssima, minha boa Mãe, quão felizes são aqueles – eu o repito com transportes de coração – quão felizes são aqueles que, sem se deixar seduzir por uma falsa devoção, guardam fielmente vossos caminhos, vossos conselhos e vossas ordens! Quão infelizes, porém, e malditos, aqueles que, abusando de vossa devoção, não guardam os mandamentos de vosso Filho! “Maledicti omnes qui declinant a mandatis tuis” – Malditos os que se afastam de teus mandamentos (Sl 118, 21).

A Santíssima Virgem e os seus escravos por amor. Eis, em seguida, os caridosos deveres que a Santíssima Virgem cumpre como a melhor das mães, para com seus fiéis servos, que a ela se deram como indiquei, e conforme a figura de Jacó.

§ I. Ela os ama.

“Ego diligentes me diligo” – Eu amo aqueles que me amam” (Prov 8, 17). Ela os ama 1º porque é sua verdadeira Mãe; ora, uma mãe ama sempre seu filho, o fruto de suas entranhas; 2º ela os ama por reconhecimento, pois que eles efetivamente a amam como sua boa Mãe; 3º ela os ama, porque, sendo predestinados, Deus os ama: “Iacob dilexi, Esau autem odio habui – Amei Jacó, porém aborreci Esaú” (Rm 9, 13); 4º ela os ama porque eles se lhe consagraram, e porque são sua partilha e herança: “In Israel hereditare” (Ecli 24, 13).

Ela os ama ternamente, e com mais ternura do que todas as mães juntas. Acumulai, se puderdes, num só coração materno e por um filho único, todo o amor natural que todas as mães deste mundo têm por seus filhos: sem dúvida essa mãe amaria muito esse filho. É verdade, entretanto, que Maria ama ainda mais ternamente seus filhos do que aquela mãe amaria o seu. Ela não os ama somente com afeição, mas também com eficácia. Seu amor por eles é ativo e efetivo, como aquele de Rebeca por Jacob, e muito mais. Eis o que esta boa Mãe, da qual Rebeca era apenas a figura, faz com o fito de alcançar, para seus filhos, a bênção do Pai celestial.

1º Ela espreita, como Rebeca, as ocasiões favoráveis de lhes proporcionar algum bem, de os engrandecer, de os enriquecer. Ela vê claramente em Deus todos os bens e males, as boas e más fortunas, as bênçãos e as maldições divinas, e por isso, já de longe, dispõe as coisas para isentar seus servos de todo mal e cumulá-los de todos os bens; de sorte que, se há um bom proveito para alcançar em Deus, pela fidelidade duma criatura em algum alto emprego, é certo que Maria o conseguirá para algum de seus filhos, e lhe dará a graça de chegar ao fim com fidelidade: “Ipsa procurat negotia nostra”, diz um santo.

2º Ela lhes dá bons conselhos, como Rebeca a Jacó: “Fili mi, acquiesce consiliis meis” – Meu filho, segue meus conselhos” (Gn 27, 8). E, entre outros conselhos, ela lhes sugere levar-lhe dois cabritos, isto é, seu corpo e sua alma, de lhos consagrar para que ela prepare um manjar agradável a Deus, e de fazer tudo que Jesus Cristo, seu Filho, nos ensinou pela palavra e pelo exemplo. Se não é diretamente que lhes dá seus conselhos, fá-lo pelo ministério dos anjos, para os quais constitui o maior prazer e a maior honra obedecer à menor de suas ordens para descer à terra e auxiliar seus fiéis servos.

3º Quando lhe levamos e consagramos nosso corpo e nossa alma com tudo que deles depende, sem nada excetuar, que faz esta boa Mãe? O mesmo que fez, outrora, Rebeca aos dois cabritos que Jacó lhe trouxe: 1º mata-os, tirando-lhes a vida do velho Adão; 2º escorcha-os e despoja da pele natural, das inclinações naturais, do amor próprio, da vontade própria e de todo apego à criatura; 3º purifica-os de toda mancha, sujeira e pecado; 4º prepara-os ao gosto de Deus e para sua maior glória. Ninguém como ela conhece perfeitamente este gosto divino e esta maior glória do Altíssimo, e, portanto, só ela pode, sem enganar-se aprontar e preparar nosso corpo e nossa alma de acordo com esse gosto infinitamente elevado e essa glória infinitamente oculta.

4º Esta boa Mãe, depois de receber a oferenda perfeita que lhe fizemos de nós mesmos e de nossos próprios méritos e satisfações, pela devoção de que falei, depois de nos ter despojado de nossos antigos hábitos, limpa-nos e nos torna dignos de aparecer diante de nosso Pai celeste. 1º Ela nos cobre com as vestes limpas, novas, preciosas e perfumadas de Esaú, o primogênito, isto é, de Jesus Cristo seu Filho, daquelas vestes que ela conserva em sua casa, ou, por outra, em seu poder, pois que é a tesoureira, a dispensadora universal dos méritos e virtudes de seu Filho Jesus Cristo, dons que ela dispensa e comunica a quem quer, quando quer, como quer, e em quanto quer, como já vimos acima (cf. nn. 25 e 141). 2º Ela rodeia o pescoço e as mãos de seus servos com o pelo dos carneiros mortos e escorchados, quer dizer, ela os reveste dos méritos e do valor de suas próprias ações. Ela mata e mortifica, em verdade, tudo que eles têm de impuro e imperfeito em suas pessoas; mas não perde nem dissipa o bem que neles a graça já realizou; pelo contrário, guarda-o e aumenta-o para lhes ornar e fortalecer o pescoço e as mãos, isto é, para que eles tenham força para carregar o jugo do Senhor, que se carrega ao pescoço, e para fazerem grandes coisas que redundem na glória de Deus e na salvação de seus irmãos. 3º Ela põe um novo perfume e uma nova graça nessas vestes e ornamentos, pelo contato de suas próprias vestes: seus méritos e suas virtudes, que ela, ao morrer, lhes legou em testamento, como diz uma santa religiosa do século 17, morta em odor de santidade, e que o soube por revelação; de modo que todos os seus servidores, seus fiéis servos e escravos ficam duplamente vestidos: com as vestes dela e com as de seu Filho: “Omnes domestici eius vestiti sunt duplicibus” (Prov 31, 21). Por isso eles não têm que recear o frio de Jesus Cristo, branco como a neve, que os réprobos, completamente nus e despojados dos méritos de Jesus Cristo e da Santíssima Virgem, não poderão suportar.

5º Ela consegue-lhes, enfim, a bênção do Pai celeste, se bem que eles sejam os segundos, os filhos adotivos, e, portanto, não devessem recebê-la. Com essas roupas novas, preciosas e odorosas, e com seu corpo e alma bem preparados e dispostos, eles se aproximam confiantes do leito de repouso do Pai celeste. Este os ouve e os reconhece pela voz, a voz do pecador; toca-lhes as mãos cobertas de pêlos; aspira o perfume que de suas vestes se desprende; come alegremente o que Maria lhe preparou; e neles reconhecendo os méritos e o bom odor de seu Filho e de sua Mãe Santíssima: 1º dá-lhes sua dupla bênção, bênção do orvalho do céu: “De rore caeli” (Gn 27, 28), isto é, da graça divina que é a semente da glória: “Benedixit nos in omni benedictione spirituali in Christo Iesu” (Ef 1, 3: Deus nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo Jesus); bênção da fertilidade da terra: “De pinguetudine terrae” (Gn 27, 28), em outras palavras, que este bom Pai lhes dá seu pão cotidiano e uma abundância suficiente de bens deste mundo; 2º fá-los senhores de seus outros irmãos, os reprovados, embora esta primazia nem sempre transpareça neste mundo que passa num instante, e no qual dominam muitas vezes os reprovados: “Peccatores effabuntur et gloriabuntur… (Sl 93, 3, 4), Vidi impium superexaltatum e elevatum” (Sl 36, 35); essa primazia é, no entanto, verdadeira e será manifestada por toda a eternidade, no outro mundo, onde os justos, como diz o Espírito Santo, dominarão e comandarão as nações: “Dominabuntur populis” (Sb 3, 8); 3º sua majestade, não contente de abençoá-los em suas pessoas e em seus bens, abençoa ainda todos os que eles abençoarem, e amaldiçoa todos os que os amaldiçoarem e perseguirem.

§ II. Ela os mantém.

O segundo dever de caridade que a Santíssima Virgem exerce para com seus fiéis servos é provê-los de tudo para o corpo e para a alma. Ela lhes fornece as vestes duplas, como acabamos de ver; dá-lhes de comer os manjares mais finos da mesa de Deus; dá-lhes o pão da vida que ela formou: “A generationibus meis implemini” (Ecli 24, 26): “Meus queridos filhos, lhes diz ela, sob o nome da Sabedoria, enchei-vos de meus frutos, isto é, de Jesus, o fruto de vida que eu pus no mundo para vós. – “Venite, comedite panem meum et bibite vinum quod miscui vobis” (Prov 9, 5); “comedite et bibite, et inebriamini, carissimi” (Cant 5, 1): Vinde, lhes repete, comei do meu pão, que é Jesus, e bebei do vinho de seu amor, que para vós preparei com o leite de meus seios. E como é a tesoureira e a dispensadora dos dons e das graças do Altíssimo, ela toma uma boa porção, a melhor, para alimentar e sustentar seus filhos e servos. Eles são fortalecidos com o pão vivo, embriagados com o vinho que gera virgens (cf. Zc 9, 17); são levados ao seio: “ad ubera portamini” (Is 66, 12); e têm tanta facilidade em carregar o jugo de Jesus Cristo, que quase não lhe sentem o peso, graças ao óleo da devoção com que ela o faz apodrecer: “Iugum eorum computrescet a facie olei” (Is 10, 27).

§ III. Ela os conduz.

O terceiro bem que a Santíssima Virgem faz a seus fiéis servos é conduzi-los e dirigi-los conforme a vontade de seu Filho. Rebeca conduzia o pequeno Jacó e de vez em quando lhe dava bons conselhos, e deu-lhos tanto para ele atrair a bênção de Isaac, como para subtrair-se à fúria de Esaú. Maria, a estrela do mar, guia todos os seus fiéis servos a bom porto; mostra-lhes os caminhos da vida eterna; desvia-os dos passos perigosos; leva-os pela mão nas sendas da justiça; sustém-nos quando estão prestes a cair; levanta-os quando caíram; repreende-os, como mãe caridosa, quando comentem alguma falta; e, até, às vezes, os castiga amorosamente. Um filho que obedece a Maria, pode acaso errar o caminho que leva à eternidade? “Ipsam sequens, non devias: Seguindo-a, não vos extraviareis”, diz São Bernardo. Não temais que um verdadeiro filho de Maria se deixe enganar pelo demônio e venha a cair em alguma heresia formal. Onde se manifesta a mão condutora de Maria, aí não se encontram nem o espírito maligno com suas ilusões, nem os hereges com seus sofismas: “Ipsa tenente, non corruis”.

§ IV. Ela os defende e protege.

O quarto favor que a Santíssima Virgem presta a seus filhos e fiéis servos é defendê-los e protegê-los de seus inimigos. Rebeca, por seus cuidados e por sua habilidade livrou Jacó dos perigos que o ameaçavam, e particularmente da morte que lhe jurara Esaú, e que, no auge da raiva e inveja que o dominavam, ele teria levado a termo, como outrora Caim a seu irmão Abel. Maria, a Mãe misericordiosa dos predestinados, abriga-os sob as asas de sua proteção, como uma galinha aos pintinhos. Ela lhes fala, abaixa-se até a eles, é condescendente para com suas fraquezas, protege-os contra as garras do gavião e do abutre; acompanha-os como um exército em linha de batalha: “ut castrorum acies ordinata” (Ct 6, 3). Pode um homem, garantido por um exército de cem mil soldados, ter receio de seus inimigos? Menos ainda há de recear um servo fiel de Maria, rodeado que está da proteção e força de sua Mãe Santíssima. Esta Mãe e Princesa poderosa enviaria antes batalhões de milhares de anjos em socorro de um só de seus servos, para que se não dissesse que um servo fiel de Maria, que a ela se confiou, sucumbiu à malícia, ao número e à força do inimigo.

§ V. Ela intercede por eles.

O quinto, enfim, e o maior bem, que a amabilíssima Maria proporciona a seus fiéis devotos, é interceder por eles junto de seu Filho, apaziguá-lo por suas preces, uni-los a ele por um forte elo, e para ele os conservar.

Rebeca mandou a Jacó que se aproximasse do leito de Isaac; e o ancião tateou as mãos e os braços do filho, abraçou-o e beijou-o com alegria, mostrando-se contente e satisfeito com o acepipe que Jacó lhe apresentava. E ao aspirar com extrema satisfação o perfume que se evolava das vestes de Esaú, exclamou: “Ecce odor filii mei sicut odor agri pleni, cui benedixit Dominus: Eis que o cheiro de meu filho é como o cheiro de um campo florido que o Senhor abençoou” (Gn 27, 27). Este campo florido, cujo odor encanta o coração do pai, outro não é que o odor das virtudes e dos méritos de Maria, que é um campo cheio de graça, no qual Deus Pai semeou, qual grão de trigo dos eleitos, o seu Filho único.

Oh! benvindo é, junto de Jesus Cristo, Pai do futuro século, um filho que rescende o bom odor de Maria. E quão pronta e perfeitamente lhe fica unido, já o demonstramos longamente.

Além disso, depois de cumular de favores seus filhos e servos fiéis, Maria Santíssima lhes obtém a bênção do Pai celestial e a união com Jesus Cristo, e, mais, conserva-os em Jesus Cristo e Jesus Cristo neles. Ela os guarda e por eles vela constantemente, para que não percam a graça de Deus e não caiam nas armadilhas do inimigo: “In plenitudine sanctos detinet: Detém os santos em sua plenitude”, e ajuda-os a perseverar até ao fim, como já vimos.

Aí está a explicação desta grande e antiga figura da predestinação e da condenação, figura tão desconhecida e tão cheia de mistérios.

Meu querido irmão, convencei-vos de que, se vos tornardes fiel às práticas interiores e exteriores desta devoção, que vos indico em seguida:

Conhecimento e desprezo de si mesmo

1º Pela luz que o Espírito Santo vos dará por intermédio de Maria, sua querida esposa, conhecereis vosso fundo mau, vossa corrupção e vossa incapacidade para todo bem, e, em conseqüência deste conhecimento, vos desprezareis, e será com horror que pensareis em vós mesmo. Considerar-vos-eis como uma lesma asquerosa que tudo estraga com sua baba, como um sapo repugnante que tudo envenena com sua peçonha, ou como a serpente traiçoeira que só busca enganar. A humilde Maria vos dará, enfim, parte de sua profunda humildade, com que vos desprezareis a vós mesmo, sem desprezar pessoa alguma, e gostareis até de ser desprezado.

Participação da fé de Maria

2º A Santíssima Virgem vos dará uma parte na fé, a maior que já houve na terra, maior que a de todos os patriarcas, profetas, apóstolos e todos os santos. Agora, reinando nos céus, ela já não tem esta fé, pois vê claramente todas as coisas em Deus, pela luz da glória. Com assentimento do Altíssimo, ela, entretanto, não a perdeu ao entrar na glória; guardou-a para seus fiéis servos e servas na Igreja militante. Quanto mais, portanto, ganhardes a benevolência desta Princesa e Virgem fiel, tanto mais profunda fé tereis em toda a vossa conduta: uma fé pura, que vos levará à despreocupação por tudo que é sensível e extraordinário; uma fé viva e animada pela caridade que fará com que vossas ações sejam motivadas por puro amor; uma fé firme e inquebrantável como um rochedo, que vos manterá firme e contente no meio das tempestades e tormentas; uma fé ativa e penetrante que, semelhante a uma chave misteriosa, vos dará entrada em todos os mistérios de Jesus Cristo, nos novíssimos do homem e no coração do próprio Deus; fé corajosa que vos fará empreender sem hesitações, e realizar grandes coisas para Deus e a salvação das almas; fé, finalmente, que será vosso fanal luminoso, vossa via divina, vosso tesouro escondido da divina Sabedoria e vossa arma invencível, da qual vos servireis para aclarar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte, para abrasar os tíbios e os que necessitam do ouro candente da caridade, para dar vida aos que estão mortos pelo pecado, para tocar e comover, por vossas palavras doces e poderosas, os corações de mármore e derrubar os cedros do Líbano, e para, enfim, resistir ao demônio e a todos os inimigos da salvação.

Graça do puro amor

3º Esta Mãe do amor formoso (Ecli 24, 24) aliviará vosso coração de todo escrúpulo e de todo temor servil; ela o abrirá e alargará para correr pelo caminho dos mandamentos de seu Filho (cf. Sl 118, 32), com a santa liberdade dos filhos de Deus, e para nele introduzir o puro amor, de que ela possui o tesouro; de tal modo que não mais vos conduzireis, como o fizestes até aqui, pelo receio ao Deus de caridade, mas pelo puro amor, unicamente. Passareis a olhá-lo como vosso bondoso Pai, tratando de agradar-lhe incessantemente; com ele conversareis confidentemente, à semelhança de um filho com seu pai. Se, por acaso, o ofenderdes, humilhar-vos-eis em continente diante dele, pedir-lhe-eis perdão humildemente, lhe estendereis simplesmente a mão, e vos levantareis amorosamente, sem perturbação nem inquietação, se sem desfalecimentos continuareis a caminhar para ele.

Grande confiança em Deus e em Maria

4º A Santíssima Virgem vos encherá de grande confiança em Deus e nela: 1º porque não vos aproximareis mais de Jesus Cristo por vós mesmo, mas sempre por intermédio desta bondosa Mãe; 2º porque, tendo lhe dado todos os vossos méritos, graças e satisfações, para que deles disponha à sua vontade, ela vos comunicará suas virtudes e vos revestirá de seus méritos, de sorte que podereis dizer confiantemente a Deus: “Eis Maria, vossa serva: faça-se em mim conforme a vossa palavra: Ecce ancilla Domini; Fiat mihi secundum verbum tuum” (Lc 1, 38); 3º porque, desde que vos destes a ela inteiramente, de corpo e alma, ela, que é liberal com os liberais, e mais liberal que os próprios liberais, dar-se-á a vós em troca, e isto de um modo maravilhoso, mas verdadeiro; assim podereis dizer-lhe ousadamente: “Tuus sum ego, salvum me fac! – Eu vos pertenço, Santíssima Virgem, salvai-me!” (Sl 118, 94) ou, como já disse (cf. nº 179), com o discípulo amado: “Accepi te in mea” – eu vos tomei, Mãe Santíssima, como todo o meu bem. Podereis ainda dizer com São Boaventura: “Ecce Domina salvatrix mea, fiducialiter agam, et non timebo, quia fortitudo mea, et laus mea in Domino es tu…” e em outro lugar: “Tuus totus ego sum, et omnia mea tua sunt; o Virgo gloriosa, super omnia benedicta, ponam te ut signaculum super cor meum, quia fortis est ut mors dilectio tua82 – Minha querida Senhora e Salvadora, agirei com confiança e não temerei porque sois minha força e meu louvor no Senhor… Sou todo vosso, e tudo que tenho vos pertence; ó gloriosa Virgem, bendita sobre todas as coisas criadas, que eu vos ponha como uma marca sobre meu coração, pois vossa dileção é forte como a morte!” Podereis dizer a Deus com os sentimentos do profeta: “Domine, non est exaltatum cor meum, neque elati sunt oculi mei; neque ambulavi in magnis, neque in mirabilibus super me; si non humiliter sentiebam, sed exaltavi animam meam; sicut ablactatus est super matre sua, ita retributio in anima mea (Sl 130, 1-2) – Senhor, nem meu coração nem meus olhos têm motivo para se elevar e ensoberbecer, nem de buscar coisas grandes e maravilhosas; e mesmo assim, ainda não sou humilde; mas elevei e encorajei minha alma pela confiança; sou como uma criança, afastada dos prazeres da terra e apoiada ao seio de minha mãe; e é neste seio que sou cumulado de bens. 4º O que aumenta ainda vossa confiança nela é que, tendo lhe dado em depósito tudo o que tendes de bom para dar ou guardar, confiareis menos em vós e muito mais nela, que é vosso tesouro. Oh! que confiança e consolação para uma alma poder chamar também seu o tesouro de Deus, onde Deus depositou o que tem de mais precioso! “Ipsa est thesaurus Domini – Ela é, diz um santo, o tesouro do Senhor”.

Comunicação da alma e do espírito de Maria

5º A alma da Santíssima Virgem se comunicará a vós para glorificar o Senhor; seu espírito tomará o lugar do vosso para regozijar-se em Deus, contanto que pratiqueis fielmente esta devoção. “Sit in singulis anima Mariae, ut magnificet Dominum; sit in singulis spiritus Mariae, ut exultet in Deo84 – Que a alma de Maria esteja em cada um para aí glorificar o Senhor; que o espírito de Maria esteja em cada um para aí regozijar-se em Deus”. Ah! quando virá este tempo feliz em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana nos corações, para submetê-los plenamente ao império de seu grande e único Jesus? Quando chegará o dia em que as almas respirarão Maria, como o corpo respira o ar? Então, coisas maravilhosas acontecerão neste mundo, onde o Espírito Santo, encontrando sua querida Esposa como que reproduzida nas almas, a elas descerá abundantemente, enchendo-as de seus dons, particularmente do dom da sabedoria, a fim de operar maravilhas de graça. Meu caro irmão, quando chegará esse tempo feliz, esse século de Maria, em que inúmeras almas escolhidas, perdendo-se no abismo de seu interior, se tornarão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar Jesus Cristo? Esse tempo só chegará quando se conhecer e praticar a devoção que ensino, “Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariae”.

Transformação das almas em Maria à imagem de Jesus Cristo

6 º Se Maria, que é a árvore da vida, for bem cultivada em nossa alma pela fidelidade às práticas desta devoção, ela dará fruto em seu tempo; e seu fruto não é outro senão Jesus Cristo. Vejo tantos devotos e devotas que buscam Jesus Cristo, estes por uma via e uma prática, aqueles por outra; e muitas vezes depois de muito labutar durante a noite, podem dizer: “Per totam noctem laborantes, nihi cepimus – Trabalhamos a noite inteira, nada apanhamos” (Lc 5, 5). E pode-se responder-lhes: “Laborastis multum, et intulistis parum – muito trabalhastes e pouco ganhastes”.85 Jesus Cristo está ainda muito fraco em vós. Mas, pelo caminho imaculado de Maria e por esta prática divina que ensino, trabalha-se durante o dia, trabalha-se num lugar santo, trabalha-se pouco. Em Maria não há noite, pois ela jamais pecou, nem teve sequer a sombra dum pecado. Maria é um lugar santo, o Santo dos santos, em que se formam e modelam os santos.

Notai, se vos apraz, que eu digo que os santos são moldados por Maria. Há grande diferença entre executar uma figura em relevo, a martelo e a cinzel, e executá-la por molde. Os escultores e estatuários têm de esforçar-se muito para fazer uma figura da primeira maneira, e gastam muito tempo; mas, da segunda maneira, trabalham pouco e terminam em pouco tempo. S. Agostinho chama a Santíssima Virgem “forma Dei”, o molde de Deus. “Si formam Dei te appellem, digna exsistis”85: o molde próprio para formar e moldar deuses. Aquele que é lançado no molde divino fica em breve formado e moldado em Jesus Cristo, e Jesus Cristo nele: com pouca despesa e em pouco tempo, ele se tornará deus, pois foi lançado no mesmo molde que formou um Deus.

Parece-me que posso muito bem comparar esses diretores e pessoas devotas que pretendem formar Jesus Cristo em si mesmos ou nos outros, por meio de práticas diferentes destas, a escultores que, depositando toda a confiança na própria perícia, conhecimento e arte, dão uma infinidade de marteladas e embotam o cinzel numa pedra dura, ou numa madeira áspera, para fazer a imagem de Jesus Cristo; e às vezes não conseguem dar expressão natural a Jesus Cristo, ou por falta de conhecimentos ou devido a algum golpe desastrado que prejudica toda a obra. Aqueles, porém, que abraçam este segredo da graça que lhes apresento, eu os comparo a fundidores e moldadores que, tendo encontrado o belo molde de Maria, no qual Jesus Cristo foi natural e divinamente formado, sem se fiar na própria habilidade, mas unicamente na eficiência do molde, lançam-se e perdem-se em Maria para se tornarem o retrato natural de Jesus Cristo.

Bela e verdadeira comparação! Quem a compreenderá, porém? Desejo que sejais vós, querido irmão. Mas lembrai-vos que só se lança no molde o que está fundido e líquido, isto é, que é mister destruir e fundir em vós o velho Adão, para que venha a ser o novo em Maria.

A maior glória de Jesus Cristo

7º Por esta prática, fielmente observada, dareis a Jesus Cristo mais glória em um mês, que por qualquer outra, embora mais difícil, em muitos anos. – Eis as razões do que afirmo:

1º Porque, fazendo vossas ações pela Santíssima Virgem, como esta prática ensina, abandonais vossas próprias intenções e operações, ainda que boas e conhecidas, para vos perder, por assim dizer, nas da Santíssima Virgem, embora as desconheçais; e por aí entrais a participar da sublimidade de suas intenções, que foram tão puras, que ela deu mais glória a Deus, pela menor das suas ações, por exemplo, fiando na sua roca, dando um ponto de agulha, do que um São Lourenço estendido na grelha, por seu cruel martírio, e mesmo que todos os santos por suas mais heróicas ações; pelo que, durante sua vida neste mundo, ela conquistou tal soma inefável de graças e méritos que se contariam antes as estrelas do firmamento, as gotas d’água do mar e os grãos de areia das praias; e ela deu mais glória a Deus que todos os anjos e santos reunidos e como eles jamais deram nem poderão dar. Ó prodígio de Maria! vós só podeis realizar prodígios de graça nas almas que querem de boa mente abismar-se em vós.

2º Porque uma alma, por esta prática, considerando nada tudo o que pensa ou faz por si mesma, e pondo todo o seu apoio e complacência nas disposições de Maria, para aproximar-se de Jesus Cristo e até para falar-lhe, pratica mais humildade que as almas que agem por si mesmas, que se apóiam e comprazem nas próprias disposições. Conseqüentemente, ela glorifica mais altamente a Deus, que só é glorificado perfeitamente pelos humildes e pequenos de coração.

3º Porque a Santíssima Virgem, querendo, por sua grande caridade, receber em suas mãos virginais o presente de nossas ações, dá-lhes uma beleza e brilho admiráveis; ela mesma as oferece a Jesus Cristo, e Nosso Senhor é assim mais glorificado que se nós lhas oferecêssemos por nossas mãos criminosas.

4º Enfim, porque nunca pensais em Maria, sem que ela, em vosso lugar, pense em Deus. Nunca a louvais nem honrais, sem que ela convosco louve e honre a Deus. Maria está toda em conexão com Deus, e com toda a propriedade eu a chamaria a relação de Deus, que só existe em referência a Deus, o eco de Deus, que só diz e repete Deus. Santa Isabel louvou Maria e chamou-a bem-aventurada, porque ela creu, e Maria, o eco fiel de Deus, entoou: “Magnificat anima mea Dominum – Minha alma glorifica o Senhor” (Lc 1, 46). O que fez nessa ocasião, Maria o faz todos os dias; quando a louvamos, amamos, honramos ou lhe damos algo, Deus é louvado, amado, honrado, e recebe por Maria e em Maria.

Práticas exteriores

Se bem que o essencial desta devoção consista no interior, ela conta também práticas exteriores que é preciso não negligenciar: “Haec oportuit facere et illa non omittere” (Mt 23, 23); tanto porque as práticas exteriores bem feitas ajudam as interiores, como porque relembram ao homem, que se conduz sempre pelos sentidos, o que fez ou deve fazer; também porque são próprias para edificar o próximo que as vê, o que já não acontece com as práticas puramente interiores. Nenhum mundano, portanto, critique, nem meta aqui o nariz, dizendo que a verdadeira devoção está no coração, que é preciso evitar exterioridades, que nisto pode haver vaidade, que é preferível ocultar cada um sua devoção, etc. Respondo-lhes com meu Mestre: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16). Não quer isto dizer, como observa S. Gregório86, que devamos fazer nossas ações e devoções exteriores para agradar os homens e daí tirar louvores, o que seria vaidade; mas fazê-las às vezes diante dos homens, com o fito de agradar a Deus e glorificá-lo, sem, preocupar-nos com o desprezo ou os louvores dos homens.

Citarei apenas abreviadamente algumas práticas exteriores, que não qualifico de exteriores porque sejam feitas sem interior, mas porque contêm qualquer exterioridade, e para distingui-las das que são estritamente interiores.

§ I. Consagração depois de exercícios preparatórios.

Primeira prática. Aqueles e aquelas que quiserem adotar esta devoção, que não está erigida em confraria, como seria de desejar87, depois de ter, como já disse na primeira parte desta preparação ao reino de Jesus Cristo88, empregando ao menos doze dias em desapegar-se do espírito do mundo, contrário ao de Jesus Cristo, dedicarão três semanas a encher-se de Jesus Cristo por intermédio da Santíssima Virgem. Eis a ordem a observar:

Durante a primeira semana aplicarão todas as orações e atos de piedade para pedir o conhecimento de si mesmo e a contrição por seus pecados. Tudo farão em espírito de humildade. Para isso poderão, se quiserem, meditar sobre o que ficou dito sobre o nosso fundo de maldade (V. acima n. 78 e seguintes), e considerar-se, nos seis dias desta semana, como uma lesma, um sapo, um porco, uma serpente, um bode; ou, então, estas três palavras de São Bernardo: “Cogita quid fueris, semen putridum; quid sis, vas stercorum; quid futurus sis, esca verminum”.

Durante a segunda semana, aplicar-se-ão em todas as suas orações e obras cotidianas, em conhecer a Santíssima Virgem. Implorarão este conhecimento ao Espírito Santo. Poderão ler e meditar o que já dissemos a respeito. Recitarão, como na primeira semana, as ladainhas do Espírito Santo, o “Ave, Maris Stella”, e mais um rosário todos os dias, ou pelo menos o terço, nesta intenção.

A terceira semana será empregada em conhecer Jesus Cristo. Poderão ler e meditar o que dissemos neste sentido, e recitar a oração de santo Agostinho, inserida no número 67. Poderão, com o mesmo santo, dizer e repetir centenas de vezes por dia: “Noverim te: Senhor, que eu vos conheça”, ou então: Domine, ut videam – Senhor, fazei que eu veja quem sois”. Como nas semanas precedentes, recitarão as ladainhas do Espírito Santo e o “Ave, Maris Stella”, ajuntando as ladainhas do Santíssimo nome de Jesus.

Ao fim destas três semanas, confessar-se-ão e comungarão na intenção de se darem a Jesus Cristo na condição de escravos por amor, pelas mãos de Maria. E depois da comunhão, que cuidarão de fazer conforme o método que segue (v. n. 266), recitarão a fórmula de consagração, que se encontra também adiante (v. p. 280); será necessário que a escrevam ou mandem escrever, se não estiver impressa, e a assinem no mesmo dia em que a fizerem.
Nesse dia, será bom renderem algum tributo a Jesus Cristo e a sua Mãe Santíssima, seja em penitência de sua infidelidade passada às promessas do batismo, seja em sinal de sua dependência do domínio de Jesus e de Maria. Ora, esse tributo será conforme a devoção e capacidade de cada um: um jejum, uma mortificação, uma esmola, um círio. Ainda que não dêem mais que um alfinete em homenagem, contanto que o dêem de bom coração, é o bastante para Jesus, que só olha a boa vontade.Todos os anos, ao menos, no mesmo dia, renovarão a consagração, observando as mesmas práticas durante três semanas.

Poderão até, todos os meses e, quiçá, todos os dias, renovar, com as poucas palavras seguintes, tudo o que fizerem: “Tuus totus ego sum, et omnia mea tua sunt – Sou todo vosso e tudo o que tenho vos pertence”, ó meu amável Jesus, por Maria, vossa Mãe Santíssima.

§ II. Recitação da coroinha da Santíssima Virgem.

Segunda prática. Recitarão todos os dias de sua vida, sem, entretanto, nenhum constrangimento, a coroinha da Santíssima Virgem, composta de três Pai-Nossos e doze Ave-Marias, em honra dos doze privilégios e grandezas da Santíssima Virgem. Esta prática é muito antiga e tem seu fundamento na Sagrada Escritura. São João viu uma mulher coroada de doze estrelas, vestida do sol e tendo a lua debaixo de seus pés (Ap 12, 1) e esta mulher, na opinião dos intérpretes93, é a Santíssima Virgem.

Há muitos modos de rezar bem esta coroinha e seria demasiado longo mencioná-los. O Espírito Santo o inspirará àqueles e àquelas que mais fiéis se mostrarem a esta devoção. Para rezá-la bem simplesmente é preciso dizer em primeiro lugar: “Dignare me laudare te, Virgo sacrata; da mihi virtutem contra hostes tuos”; em seguida, reza-se o credo, depois um Pai-Nosso, quatro Ave-Marias e um Glória ao Pai; ainda um Pai-Nosso, quatro Ave-Marias, e um Glória ao Pai; e assim por diante. Ao terminar, diz-se: “Sub tuum praesidium”.

§ III. Usar pequenas cadeias de ferro.

Terceira prática. É muito louvável, glorioso e útil àqueles e àquelas, que assim demonstrarão ser escravos de Jesus em Maria, trazer, como sinal de sua amorosa escravidão, pequenas cadeias de ferro, bentas com uma bênção especial.

Estas demonstrações exteriores não são na verdade, essenciais, e uma pessoa pode bem se dispensar, embora tenha abraçado esta devoção. Não posso, contudo, esquivar-me a louvar aqueles e aquelas que, depois de terem rompido as cadeias vergonhosas da escravidão do demônio, a que os tinha arrastado o pecado original, e talvez os pecados atuais, se entregaram voluntariamente à gloriosa escravidão de Jesus Cristo e com S. Paulo se gloriam de estar acorrentados por Jesus Cristo (cf. Ef 3, 1), com correntes que, embora de ferro e sem brilho, são mais gloriosas e mais preciosas que todos os colares de ouro dos imperadores.

Nos tempos de outrora era a cruz o que havia de mais infamante; hoje, no entanto, é o símbolo mais glorioso do cristianismo. Digamos o mesmo dos ferros da escravidão. Nada havia de mais ignominioso entre os antigos, e ainda atualmente entre os pagãos. Entre os cristãos, porém, são mais ilustres, pois elas nos livram e preservam dos liames vergonhosos do pecado e do demônio; elas nos restituem a liberdade e nos ligam a Jesus e Maria, não a contragosto e a força, como a forçados, mas por caridade, por amor, como filhos: “Traham eos in vinculis caritatis” (Os 11, 4) – eu os atrairei a mim, diz Deus pela boca do profeta, com os vínculos da caridade, que, por conseqüência, são fortes como a morte (cf. Ct 8, 6), e, de certo modo, mais fortes naqueles que fielmente trouxeram, até a morte, esses distintivos gloriosos. Pois a morte, destruindo-lhes embora o corpo e reduzindo-o à podridão, não destruirá as algemas de sua escravidão, as quais por serem de ferro, não se corrompem tão facilmente. E, no dia da ressurreição dos corpos, no juízo final, quem sabe, essas cadeias, pendentes ainda de seus ossos, não virão a constituir uma parte de seus ossos, não virão a constituir uma parte de sua glória, mudando-se em cadeias de luz e de glória? Felizes, portanto, mil vezes felizes os escravos ilustres de Jesus em Maria, que até ao túmulo usarem essas cadeias!

Eis os motivos por que se usam estas cadeiazinhas:

1º Relembram ao cristão os votos e compromissos do batismo, a renovação perfeita das promessas batismais que ele fez por esta devoção, e a estrita obrigação em que está de se conservar fiel. O homem, porque se deixa levar mais pelos sentidos do que pela fé pura, esquece facilmente suas obrigações para com Deus, se não tiver algo que lhas traga à memória. Por isso estas pequenas cadeias servem para lembrar ao cristão aquelas cadeias do pecado e da escravidão do demônio, de que o santo batismo o livrou, e a dependência que, neste sacramento, votou a Jesus Cristo, e a ratificação dessa dependência, feita ao renovar os seus votos; e um dos motivos por que tão poucos cristãos pensam nas promessas do santo batismo, e vivem com tanta libertinagem como se nada houvessem prometido a Deus, como se fossem pagãos, é não trazerem nenhuma marca ou distintivo exterior que disso os relembre.

2º Mostra que ele não se envergonha de ser escravo e servo de Jesus Cristo, e que renunciou à escravidão funesta do mundo, do pecado e do demônio.

3º Garantem-no e preservam-no dos grilhões do pecado e do demônio, pois, ou estaremos agrilhoados pelas correntes do inimigo, ou traremos as cadeias da caridade e da salvação: “Vincula peccatorum; in vinculis caritatis”.

Ah! querido irmão, despedacemos os grilhões do pecado e dos pecadores, do mundo e dos mundanos, do demônio e de seus asseclas, e lancemos longe de nós seu jugo funesto: “Dirumpamus vincula eorum et proiiciamus a nobis iugum ipsorum” (Sl 2, 3). Metamos nossos pés, para servir-nos das palavras do Espírito Santo, em seus ferros gloriosos e nosso pescoço em suas cadeias: “Iniice pedem tuum in compedes illius, e in torques illius collum tuum” (Ecli 6, 25). Curvemos os ombros e carreguemos a Sabedoria, que é Jesus Cristo, e não nos enfademos de suas correntes: “Subiice humerum tuum et porta illam, et ne acedieris vinculis eius” (Ecli 6, 26). Notareis que o Espírito Santo, antes de dizer estas palavras, prepara a alma, a fim de que ela não rejeite o importante conselho. Eis as suas palavras: “Audi fili, et accipe consilium intellectus, et ne abiicias consilium meum – Ouve, filho, e recebe uma sábia advertência, e não rejeites o meu conselho” (Ecli 6, 24).

Permiti, caríssimo amigo, que me uma aqui ao Espírito Santo, para dar-vos o mesmo conselho: “Vincula illius, alligatura salutaris” (Ecli 6, 31) – Suas cadeias são cadeias de salvação. Jesus pendente da cruz deve atrair tudo a si, e tudo, de bom ou mau grado, será atraído. Do mesmo modo ele atrairá os réprobos pelas correntes de seus pecados, para acorrentá-los, como forçados e demônios, à sua ira eterna e à sua justiça vingadora. Nos últimos tempos, porém, atrairá especialmente os predestinados, pelas cadeias da caridade: “Omnia grahan ad meipsum” (Jo 12, 32). “Trahan eos in vinculis caritatis” (Os 11, 4).

Esses amorosos escravos de Jesus Cristo ou acorrentados de Jesus Cristo, “vincti Christi” (Ef 3, 1), podem usar suas cadeias ou ao pescoço ou no braço, ou na cintura, ou nos pés. O padre Vicente Caraffa, sétimo geral da Companhia de Jesus, falecido em odor de santidade no ano 1643, usava, como sinal de sua servidão, um círculo de ferro nos pés, e dizia que lamentava não poder arrastar publicamente os grilhões. A madre Inês de Jesus, a quem já nos referimos (n. 170), trazia sempre uma corrente de ferro na cintura. Outros a usaram ao pescoço, em penitência pelos colares de pérola que costumam usar no mundo. Outros a usaram no braço, para se lembrarem, no trabalho manual, que eram escravos de Jesus Cristo.

§ IV. Devoção especial ao mistério da Encarnação.

Quarta prática. Terão uma devoção especial pelo mistério da Encarnação do Verbo, a 25 de março96, que é o mistério adequado a esta devoção, pois que esta devoção foi inspirada pelo Espírito Santo: 1º para honrar e imitar a dependência em que Deus Filho quis estar de Maria, para glória de Deus seu Pai e para nossa salvação; dependência que transparece particularmente neste mistério em que Jesus se torna cativo e escravo no seio de Maria Santíssima, aí dependendo dela em tudo; 2º para agradecer a Deus as graças incomparáveis que concedeu a Maria, principalmente por tê-la escolhido para sua Mãe digníssima, escolha feita neste mistério. São estes os dois fins principais da escravização a Jesus Cristo em Maria.
96) No dia 25 de março, todos os membros da Arquiconfraria de Maria, Rainha dos corações, podem ganhar uma indulgência plenária.

Peço-vos notar que digo ordinariamente: “o escravo de Jesus em Maria, a escravização a Jesus em Maria”. Pode-se, é verdade, dizer como muitos já o disseram até aqui, “o escravo de Maria, a escravidão da Santíssima Virgem”. Creio, porém, que é melhor dizer “escravo de Jesus em Maria” como aconselhava M. Tronson, superior geral do seminário de S. Sulpício, o qual era conhecido por sua rara prudência e grande piedade. Assim aconselhou ele a um eclesiástico que o consultou sobre o assunto. As razões são estas:

1º Visto estarmos num século orgulhoso, em que pululam os sábios enfatuados, os espíritos fortes e críticos, que sempre acham o que falar das mais sólidas e bem estabelecidas práticas de piedade, é preferível, para evitar-lhes ocasião de crítica desnecessária, dizer “escravidão de Jesus em Maria” e dizer-se “escravo de Jesus Cristo” do que escravo de Maria. Assim a denominação desta devoção será dada antes pelo caminho e meio para atingir este fim, Maria Santíssima. Pode-se, entretanto, usar uma ou outra sem o menor escrúpulo, como eu faço. Um homem, por exemplo, que vai de Orleans a Tours pelo caminho de Amboise, pode evidentemente dizer que vai a Amboise e que vai a Tours. A única diferença é que Amboise é apenas o caminho para ir a Tours e Tours é o fim, o termo de sua viagem.

Como o principal mistério que se celebra e honra nesta devoção é o mistério da Encarnação, no qual só se pode contemplar Jesus em Maria, e encarnado em seu seio, é mais adequado dizer-se “a escravidão de Jesus em Maria”, de Jesus residindo e reinando em Maria, conforme a bela oração de tantos homens célebres: “Ó Jesus vivendo em Maria, vinde e vivei em nós, em vosso espírito de santidade”, etc.

3º Este modo de falar patenteia ainda mais a união íntima entre Jesus e Maria. Tão intimamente estão unidos que um é tudo no outro: Jesus é tudo em Maria e Maria é tudo em Jesus; ou, melhor, ela já não existe, mas Jesus somente nela, e antes se separaria do sol a luz, do que apartar Maria de Jesus. É assim que se pode chamar Nosso Senhor “Jesus de Maria”, e a Santíssima Virgem “Maria de Jesus”.

O tempo não me permite deter-me aqui para explicar as excelências e as grandezas do mistério de Jesus vivendo e reinando em Maria, ou a Encarnação do Verbo. Contento-me, por isso, em dizer, em três palavras, que é este o primeiro mistério de Jesus Cristo, o mais oculto, o mais elevado e o menos conhecido; que é neste mistério que Jesus, em colaboração com Maria, em seu seio, e por isto chamado pelos santos “aula sacramentorum”, sala dos segredos de Deus, escolheu todos os eleitos; que foi neste mistério que ele operou todos os mistérios subseqüentes de sua vida, pela aceitação deles: “Iesus ingrediens mundum dicit: Ecce venio ut faciam, Deus, voluntatem tuam” (Hb 10, 5-9). Por conseguinte, este mistério é um resumo de todos os mistérios, e contém a vontade e a graça de todos. Este mistério é, enfim, o trono da misericórdia, da liberdade e da glória de Deus. O trono da misericórdia de Deus, porque, já que não podemos aproximar-nos de Jesus senão por Maria, não podemos ver Jesus nem falar-lhe senão por intermédio de Maria. Jesus atende sempre a sua querida Mãe e concede sempre sua graça e sua misericórdia aos pobres pecadores: “Adeamus ergo cum fiducia ad thronum gratiae – Cheguemo-nos, pois, confiadamente, ao trono da graça” (Hb 4, 16). É o trono de sua liberalidade para Maira, porque este novo Adão, enquanto permanceu nesse veradeiro paraíso terrestre, aí realizou ocultamente tantas maravilhas que nem os anjos nem os homens as compreendem; por isso os santos chamaram Maria a magnificência de Deus: “Magnificentia Dei”, como se Deus só fosse magnífico em Maria: “Solummodo ibi magnificus Dominus” (Is 33, 21). É o trono de sua glória para seu Pai, pois foi em Maria que Jesus Cristo acalmou perfeitamente seu Pai irritado contra os homens; que ele recuperou perfeitamente a glória que o pecado lhe tinha arrebatado, e que, pelo sacrifício, que neste mistério fez da sua vontade e de si mesmo, lhe deu mais glória como jamais lhe deram todos os sacrifícios da antiga lei, e, finalmente, lhe deu uma glória infinita como ainda não recebera de criatura humana.

§ V. Grande devoção à Ave-Maria e ao terço.

Quinta prática. Terão grande devoção ao recitar a Ave-Maria, ou a Saudação Angélica, da qual bem poucos cristãos, mesmos esclarecidos, conhecem o valor, o mérito, a excelência e a necessidade. Foi preciso que a Santíssima Virgem aparecesse várias vezes a grandes santos muito doutos, para demonstrar-lhes o mérito desta pequena oração, como sucedeu a S. Domingos, a S. João Capistrano, ao bem-aventurado Alano de la Roche. E eles compuseram livros inteiros sobre as maravilhas e a eficácia da Ave-Maria, para conversão das almas. Altamente publicaram e pregaram que a salvação do mundo começou pela Ave-Maria, e a salvação de cada um em particular está ligada a esta prece; que foi esta prece que trouxe à terra seca e árida o fruto da vida, e que é esta mesma prece que deve fazer germinar em nossa alma a palavra de Deus e produzir o fruto da vida, Jesus Cristo; que a Ave-Maria é um orvalho celeste, que umedece a terra, isto é, a alma, para fazer brotar o fruto no tempo adequado; e que uma alma que não for orvalhada por esta prece ou orvalho celeste não dará fruto algum, nem dará senão espinhos, e não estará longe de ser amaldiçoada (Hb 6, 8).

No livro “De dignitate Rosarii” do bem-aventurado Alano de la Roche, lê-se o seguinte que a Santíssima Virgem lhe revelou: “Saibas, meu filho, e comunica-o a todos, que um sinal provável e próximo de condenação eterna é a aversão, a tibieza, a negligência em rezar a Saudação Angélica, que foi a reparação de todo o mundo – Scias enim et secure inteligas et inde late omnibus patefacias, quod videlicet signum probabile est et propinquum aeternae damnationis horrere e acediari ac negligere Salutationem angelicam, totius mundi reparationem” (cap. II). Eis aí palavras consoladoras e terríveis, que se custaria a crer, se não no-la garantissem esse santo homem e antes dele S. Domingos, como, depois dele, muitos personagens fidedignos, com a experiência de muitos séculos. Pois sempre se verificou que aqueles que trazem o sinal de condenação, como os hereges, os ímpios, os orgulhosos, e os mundanos, odeiam e desprezam a Ave-Maria e o terço. Os hereges ainda aprendem e recitam o Pai-Nosso, mas abominam a Ave-Maria e o terço. Trariam antes uma serpente sobre o peito do que o rosário ou o terço. Os orgulhosos também, embora católicos, mas tendo as mesmas inclinações que seu pai Lúcifer, desprezam ou mostram uma indiferença completa pela Ave-Maria, considerando o terço uma devoção efeminada, suficiente para os ignorantes e analfabetos. Ao contrário, tem-se visto e a experiência o prova que aqueles e aquelas que possuem outros e grandes indícios de predestinação, amam, apreciam e recitam com prazer a Ave-Maria. E que quanto mais são de Deus, tanto mais amam esta oração. É o que a Santíssima Virgem diz também ao bem-aventurado Alano, em seguida às palavras que citei.

Não sei como isto acontece nem por que; entretanto é verdade, e não conheço melhor segredo para verificar se uma pessoa é de Deus, do que examinar se gosta ou não de rezar a Ave-Maria e o terço. Digo: gosta, pois pode acontecer que alguém esteja na impossibilidade natural ou até sobrenatural de dizê-la, mas sempre a ama e a inspira aos outros.

Almas predestinadas, escravas de Jesus em Maria, aprendei que a Ave-Maria é a mais bela de todas as orações, depois do Pai-Nosso. É a saudação mais perfeita que podeis fazer a Maria, pois é a saudação que o Altíssimo indicou a um arcanjo, para ganhar o coração da Virgem de Nazaré. E tão poderosas foram aquelas palavras, pelo encanto secreto que contêm, que Maria deu seu pleno consentimento para a Encarnação do Verbo, embora relutasse em sua profunda humildade. É por esta saudação que também vós ganhareis infalivelmente seu coração, contanto que a digais como deveis.

A Ave-Maria, rezada com devoção, atenção e modéstia, é, como dizem os santos, o inimigo do demônio, pondo-o logo em fuga, e o martelo que o esmaga; a santificação da alma, a alegria dos anjos, a melodia dos predestinados, o cântico do Novo Testamento, o prazer de Maria e a glória da Santíssima Trindade. A Ave-Maria é um orvalho celeste que torna a alma fecunda; é um beijo casto e amoroso que se dá em Maria, é uma rosa vermelha que se lhe apresenta, é uma pérola preciosa que se lhe oferece, é uma taça de ambrosia e de néctar divino que se lhe dá. Todas estas comparações são de santos ilustres.

Rogo-vos instantemente, pelo amor que vos consagro em Jesus e Maria, que não vos contenteis de recitar a coroinha de Santíssima Virgem, mas também o vosso terço, e até, se houver tempo, o vosso rosário, todos os dias, e abençoareis, na hora da morte, o dia e a hora em que me acreditastes; e, depois de ter semeado sob as bênçãos de Jesus e de Maria, colhereis bênçãos eternas no céu: Qui seminat in benedictionibus, de benedictionibus et metet” (2Cor 9, 6).

§ VI. Recitação do Magnificat

Sexta prática. Para agradecer a Deus pelas graças que concedeu à Santíssima Virgem, dirão freqüentemente o Magnificat, a exemplo da bem-aventurada Maria d’Oignies e de muitos outros santos. É a única oração e a única obra composta por Maria, ou, melhor, que Jesus fez por meio dela, pois ele fala pela boca de sua Mãe Santíssima. É o maior sacrifício de louvor que Deus já recebeu na lei da graça. É, dum lado, o mais humilde e o mais reconhecido e, doutro, o mais sublime e mais elevado de todos os cânticos. Há neste cântico mistérios tão grandes e tão ocultos, que os próprios anjos ignoram. Gerson, que foi um doutor tão sábio quanto piedoso, depois de empregar grande parte de sua vida escrevendo tratados cheios de erudição e piedade, sobre os mais difíceis temas, tremeu e vacilou no fim da carreira, ao empreender a explicação do Magnificat, com que tencionava coroar todas as suas obras. Num volume in-folio, ele nos diz coisas admiráveis do belo e divino cântico. Entre outras, afirma que a Santíssima Virgem o recitava muitas vezes sozinha, principalmente depois da santa comunhão, em ação de graças. O sábio Benzônio, num explicação do mesmo cântico, cita vários milagres operados por sua virtude, e diz que os demônios tremem e fogem, quando ouvem as palavras do Magnificat: “Fecit potentiam in brachio suo, dispersit superbos mente cordis sui” (Lc 1, 51).

§ VII. O desprezo pelo mundo.

Sétima prática. Os fiéis servos de Maria devem desprezar, odiar e fugir ao mundo corrompido, e servir-se das práticas de desprezo pelo mundo, que assinalamos na primeira parte.

Práticas especiais e interiores para os que querem tornar-se perfeitos

Além das práticas exteriores da devoção que vimos referindo, as quais não se deve omitir por negligência ou desprezo, na medida que o estado e as condições de cada um o permitem, acrescentamos algumas práticas interiores assaz santificantes para aqueles chamados pelo Espírito Santo a mais alta perfeição.

Consiste, em quatro palavras, em fazer todas as suas ações por Maria, com Maria, em Maria e para Maria, a fim de fazê-las mais perfeitamente por Jesus, com Jesus, em Jesus e para Jesus.

§ I. Fazer todas as ações por Maria.

1º É preciso fazer todas as ações por Maria, quer dizer, em todas as coisas obedecer à Santíssima Virgem, e em tudo conduzir-se por seu espírito, que é o santo espírito de Deus. São filhos de Deus os que se conduzem pelo espírito de Deus: “Qui spiritu Dei aguntur, ii sunt filii Dei” (Rm 8, 14). E os que pautam sua conduta pelo espírito de Maria são filhos de Deus, como já demonstramos; entre tantos devotos da Santíssima Virgem, só os que se conduzem por seu espírito é que são devotos verdadeiros e fiéis. Disse que o espírito de Maria é o espírito de Deus, porque ela jamais se conduziu por seu próprio espírito, e sempre pelo espírito de Deus, e este de tal modo a dominou que acabou tornando-se seu próprio espírito. Por isto, diz Santo Ambrósio: “Sit in singulis… etc. – Esteja a alma de Maria em cada um para glorificar o Senhor; esteja em cada um o espírito de Maria para que se regozija em Deus”. Quão feliz é uma alma quando, a exemplo do bom irmão jesuíta Rodriguez, falecido em odor de santidade, é toda possuída e governada pelo espírito de Maria, que é um espírito suave e forte, zeloso e prudente, humilde e corajoso, puro e fecundo!

Para que a alma se deixe conduzir por este espírito de Maria, é mister: 1º Renunciar ao próprio espírito, às próprias luzes e vontades, antes de qualquer coisa: por exemplo, antes da oração, antes de dizer ou ouvir a santa missa, antes de comungar, etc…; pois as trevas de nossa vontade própria, se bem que nos pareçam boas, poriam obstáculo ao santo espírito de Maria. 2º É preciso entregar-se ao espírito de Maria para ser por ele movido e conduzido como ela quiser. Cumpre colocar-se e permanecer entre suas mãos virginais como um instrumento nas mãos dum operário, como uma cítara nas mãos dum artista. Cumpre abandonar-se e perder-se nela, como uma pedra que se atira ao mar. E isto se faz simplesmente e num instante, por um só olhar do espírito, um pequeno movimento da vontade, ou verbalmente. Dizendo, por exemplo: “Renuncio a mim mesmo, dou-me a vós, minha querida Mãe”. E ainda que não sintamos nenhuma doçura sensível neste ato de união, ela não deixa de ser verdadeiro, do mesmo modo que, se disséssemos, com desagrado de Deus: “Dou-me ao demônio”, com a mesma sinceridade, embora o disséssemos sem mudança alguma sensível, não pertenceríamos menos verdadeiramente ao demônio. 3º É preciso, de tempos em tempos, durante uma ação ou depois, renovar o ato de oferecimento e de união, e, quanto mais o fizermos, mais cedo nos santificaremos, e mais cedo chegaremos à união com Jesus Cristo, que segue sempre necessariamente a união com Maria, pois o espírito de Maria é o espírito de Jesus.

§ II. Fazer todas as ações com Maria.

2º É mister fazer todas as ações com Maria, isto é, em todas as ações olhar Maria como um modelo acabado de todas as virtudes e perfeições, que o Espírito Santo formou numa pura criatura, e imitá-lo na medida de nossa capacidade. Cumpre, portanto, que, em cada ação, consideremos como Maria a fez ou faria se estivesse em nosso lugar. Devemos, por isso, examinar e meditar as grandes virtudes que ela praticou durante a vida, especialmente 1º sua fé viva, pela qual creu fielmente e constantemente até ao pé da cruz, sobre o Calvário; 2º sua humildade profunda que a levou a esconder-se, a calar-se, a submeter-se a tudo e a colocar-se em último lugar; 3º sua pureza virginal, que jamais teve nem terá semelhante sob o céu, e por fim todas as suas outras virtudes. Lembrai-vos, repito-o uma segunda vez, de que Maria é o grande e único molde de Deus102 próprio para fazer imagens vivas de Deus, com pouca despesa e em pouco tempo; e que uma alma que encontrou este molde, e que nele se perde, fica em breve mudada em Jesus Cristo, aí representado ao natural.

3º É preciso fazer todas as ações em Maria.

Para compreender cabalmente esta prática, é necessário saber que a Santíssima Virgem é o verdadeiro paraíso terrestre do novo Adão, de que o antigo paraíso terrestre é apenas figura. Há, portanto, neste paraíso terrestre, riquezas, belezas, raridades e doçuras inexplicáveis, que o novo Adão, Jesus Cristo, aí deixou. Neste paraíso ele pôs suas complacências durante nove meses, aí operou suas maravilhas e aí acumulou riquezas com a magnificência de um Deus. Este lugar santíssimo é formado de uma terra virgem e imaculada, da qual se formou e nutriu o novo Adão, sem a menor mancha ou nódoa, por operação do Espírito Santo que aí habita. É neste paraíso terrestre que está em verdade a árvore da vida que produziu Jesus Cristo, o fruto da vida; a árvore da ciência do bem e do mal, que deu a luz ao mundo. Há, neste lugar divino, árvores plantadas pela mão de Deus e orvalhadas por sua unção divina, árvores que produziram e produzem, todos os dias, frutos maravilhosos dum sabor divino; há canteiros esmaltados de belas e variegadas flores de virtudes, cujo perfume delicia os próprios anjos. Ostentam-se neste lugar prados verdes de esperança, torres fortes e inexpugnáveis e fortes, habitações cheias de encanto e segurança, etc. Ninguém, exceto o Espírito Santo, pode dar a conhecer a verdade oculta sob estas figuras de coisas materiais. Reina neste lugar um ar puro, sem infecção, um ar de pureza; um belo dia sem noite, da humanidade santa; um belo sol sem sombras, da Divindade; uma fornalha ardente e contínua de caridade, na qual todo o ferro que aí se lança fica abrasado e se transforma em ouro; há um rio de humildade que surge da terra, e que, dividindo-se em quatro braços, rega todo este lugar encantado: são as quatro virtudes cardeais.

O Espírito Santo, pela boca dos Santos Padres, chama também a Santíssima Virgem: 1º a porta oriental, por onde o sumo sacerdote Jesus Cristo entra e vem ao mundo (cf. Ez 44, 2-3); por ela entrou da primeira vez, e por ela virá da segunda; 2º o santuário da Divindade, o reclinatório da Santíssima Trindade, o trono de Deus, a cidade de Deus, o altar de Deus, o templo de Deus, o mundo de Deus. Todos estes diferentes epítetos e louvores são verdadeiros em relação às diversas maravilhas e graças que o Altíssimo realizou em Maria. Oh! que riqueza! que glória! que prazer! que felicidade poder entrar e habitar em Maria, em quem o Altíssimo colocou o trono de sua glória suprema!

Mas quão difícil é a pecadores, como somos, alcançar a permissão e a capacidade e a luz para entrar em lugar tão alto e tão santo, guardado não por um querubim, como o antigo paraíso terrestre, mas pelo próprio Espírito Santo, que nele se tornou o Senhor absoluto e do qual diz: “Hortus conclusus soror mea sponsa, hortus conclusus, fons signatus” (Ct 4, 12). Maria é fechada; Maria é selada; os miseráveis filhos de Adão e Eva, expulsos do paraíso terrestre, só tem acesso a este outro paraíso por uma graça especial do Espírito Santo, a qual devem merecer. Depois que, pela fidelidade, obtivermos esta graça insigne, é com complacência que devemos morar no belo interior de Maria, aí repousar em paz, aí apoiar-nos com toda a confiança, aí seguramente esconder-nos e perder-nos sem reserva, a fim de que neste seio virginal: 1º a alma se alimente do leite de sua graça e de sua misericórdia maternal; 2º aí fique livre de suas perturbações, de seus temores e escrúpulos: 3º aí esteja em segurança, ao abrigo de todos os seus inimigos, o demônio, o mundo e o pecado, que aí não tem jamais entrada; e por isso ela diz que os que operam nela, não pecarão: “Qui operantur in me, non peccabunt” (Ecli 24, 30), isto é, os que em espírito, habitam a Santíssima Virgem, não cometerão pecado grave; 4º para que a alma fique formada em Jesus e Cristo e Jesus Cristo nela; porque o seu seio, como dizem os Santos Padres103, é a sala dos sacramentos divinos, onde Jesus Cristo e todos os eleitos se formaram: “Homo et homo natus est in ea” (Sl 86, 5).

§ IV. Fazer todas as ações para Maria.

4º É preciso fazer finalmente todas as ações para Maria. Porque, desde que nos entregamos completamente a seu serviço, é justo que façamos tudo para ela, como um criado, um servo, um escravo. Não a tomamos, porém, como fim último de nossos serviços, que é somente Jesus Cristo, mas como fim próximo, intermédio misterioso, e o meio mais fácil de chegar a ele. A exemplo de um bom servo e escravo, é preciso que não fiquemos ociosos, e sim que, apoiados por sua proteção, empreendamos e realizemos grandes coisas para tão augusta Soberana. É preciso defender seus privilégios quando alguém os disputar; sustentar sua glória, quando alguém a atacar; atrair todo o mundo, se for possível, ao seu serviço e a esta verdadeira e sólida devoção; falar, clamar contra todos os que abusem de sua devoção para ultrajar seu Filho; e ao mesmo tempo estabelecer esta verdadeira devoção. E como recompensa destes pequenos serviços, não devemos pretender mais que a honra de pertencer a uma Princesa tão amável, e a felicidade de, por meio dela, ficarmos unidos a Jesus Cristo, seu Filho, com um liame indissolúvel no tempo e na eternidade.

Glória a Jesus em Maria!
Glória a Maria em Jesus!
Glória a Deus somente!

Suplemento

Modo de praticar esta devoção na santa comunhão
Antes da comunhão

1º Humilhar-vos-eis profundamente diante de Deus. 2º Renunciareis a vosso íntimo corrompido e a vossas disposições, ainda que vosso amor-próprio vo-las faça parecer boas. 3º Renovareis vossa consagração, dizendo: “Tuus totus ego sum, et omnia mea sunt: Sou todo vosso, minha querida Senhora, com tudo que tenho105 4º Suplicareis a esta boa Mãe que vos empreste seu coração, para, com as mesmas disposições, receberdes seu Filho. Fareis ver a ela, que importa à glória de seu Filho não ser introduzido num coração tão manchado como o vosso, e tão inconstante, que havia de tirar-lhe a glória ou perdê-la; se ela, entretanto, quiser habitar em vós para receber seu Filho, pode-o facilmente, em vista do domínio que tem sobre os corações; e, por ela, seu Filho será bem recebido, sem mancha, e sem perigo de ser ultrajado: “Deus in medio eius non commovebitur” (Sl 45, 6). Dir-lhe-eis confidentemente que tudo que lhe tendes dado de vossos bens é pouco para honrá-la, mas pela santa comunhão, lhe dareis o mesmo presente que o Pai eterno lhe deu, presente que mais há de honrá-la, que se lhe désseis todos os bens do mundo; e que, enfim, Jesus deseja ainda ter nela suas complacências e seu repouso, seja, embora, em vossa alma, mais suja e pobre do que o estábulo, ao qual Jesus não opôs dificuldades em descer, pois que ela lá estava. Com as seguintes e ternas palavras lhe pedireis seu coração: “Accipio te in mea omnia. Praebe mihi cor tuum, o Maria!”.

Durante a comunhão

Prestes a receber Nosso Senhor Jesus Cristo, dir-lhe-eis três vezes, depois do “Pater”: “Domine, non sum dignus…” etc., como se dissésseis, pela primeira vez, ao Pai eterno que, devido a vossos maus pensamentos e ingratidões para com ele, não sois digno de receber seu único Filho. Eis, porém, Maria, sua serva: “Ecce ancilla Domini”, que tudo faz por vós, e que vos dá uma confiança e esperança especiais, junto de sua Majestade: “Quoniam singulariter in spe constituisti me” (Sl 4, 10).

Direis ao Filho: “Domine, non sum dignus…” etc., que não sois digno de recebê-lo, por causa de vossas palavras inúteis e más, e vossa infidelidade em seu serviço; vós lhe rogais, entretanto, que tenha piedade de vós, pois que ides introduzi-lo na morada de sua própria Mãe e vossa, e que não o deixareis partir, sem que ele venha aí alojar-se: “Tenui eum, nec dimitttam, donec introducam illum in domum matris meae, et in cubiculum genitricis meae” (Ct 3, 4). Implorar-lhe-eis que se levante e venha para o lugar de seu repouso e para a arca de sua santificação: “Surge, Domine, in requiem tuum, tu et arca sanctificationis tuae” (Sl 131, 8). Dir-lhe-eis que, de modo algum, depositais vossa confiança em vossos méritos, vossa força e vossas preparações, como Esaú, e sim nos de Maria, vossa querida Mãe, a exemplo do pequeno Jacob nos desvelos de Rebeca; que, pecador e Esaú que sois, ousais aproximar-se de sua santidade, ornado e apoiado pelas virtudes de sua Mãe Santíssima.

Direis ao Espírito Santo: “Domine, non sum dignus…” etc., que não sois digno de receber a obra-prima de sua caridade, em vista da tibieza e iniqüidade de vossas ações e de vossas resistências a suas inspirações. Mas toda a vossa confiança é Maria, sua fiel Esposa. E direis com São Bernardo: “Haec mea maxima fiducia est; haec tota ratio spei meae”.107 Podeis mesmo pedir-lhe que desça ainda a Maria, sua Esposa inseparável; pois seu seio é tão puro e seu coração tão abrasado como sempre, e que se ele não descer à vossa alma, Jesus e Maria não serão aí formados, nem dignamente alojados.
107) “De Aquaeductu”, n. 7.

Depois da santa comunhão

Inteiramente recolhido, os olhos fechados, depois da santa comunhão, introduzireis Jesus Cristo no coração de Maria. A sua Mãe o dareis, e ela o receberá amorosamente, colocá-lo-á em lugar de honra, adorá-lo-á profundamente, amá-lo-á perfeitamente, abraçá-lo-á estreitamente, e, em espírito e verdade, lhe prestará honras que nós, cercados de espessas trevas, desconhecemos.

Ou, então, jazei profundamente humilhado, na presença de Jesus residindo em Maria; ou permanecei como um escravo à porta do palácio real, onde o Rei se entretém com a Rainha; e, enquanto eles conversam sem necessidade de vossa presença, ide em espírito ao céu e a toda a terra rogar às criaturas que em vosso lugar agradeçam, adorem e amem a Jesus e Maria: “Venite, adoremus, venite!” (Sl 94, 6).

Ou, ainda, pedi a Jesus, em união com Maria, que, por meio dela venha à terra o seu reino, ou a divina sabedoria, ou o amor divino, ou o perdão de vossos pecados, ou qualquer outra graça, mas sempre por Maria e em Maria. E, considerando-vos a vós mesmo, dizei: “Ne respicias, Domine, peccata mea – Senhor, não olheis os meus pecados”108, “sed oculi tui videant aequitates Mariae”109: mas que vossos olhos só vejam em mim as virtudes e graças de Maria. E, lembrando-vos de vossos pecados, acrescentareis: “Inimicus homo hoc fecit” (Mt 13, 28): Eu, que sou o meu maior inimigo, cometi esses pecados; ou, então: “Ab homine iniquo et doloso erue me” (Sl 42, 1), ou “Te oportet crescere, me autem minui” (cf. Jo 3, 30): Meu Jesus, é preciso que cresçais em minha alma e que eu diminua. Maria, é preciso que cresçais em mim e que eu seja menos do que tenho sido. “Crescite et multiplicamini” (Gn 1, 22): “Ó Jesus e Maria, crescei em mim e multiplicai-vos fora, nos outros.

São infinidade os pensamentos que o Espírito Santo fornece, e vos fornecerá se fordes bastante interior, mortificado e fiel a esta grande e sublime devoção, que acabo de ensinar-vos. Lembrai-vos que, quanto mais deixardes Maria agir em vossa comunhão, mais será Jesus glorificado; e tanto mais deixareis agir Maria para Jesus, e Jesus em Maria, quanto mais profundamente vos humilhardes, e, então, os ouvireis em paz e silêncio, sem vos afligirdes para ver, degustar, nem sentir, pois, em toda parte, o justo vive da fé, e especialmente na santa comunhão que é um ato de fé: “Iustus meus ex fide vivit” (Hb 10, 38).

Fontes: São Luís Grignon Monfort – Cartas aos amigos da cruz; o amor da sabedoria eterna; a vida de São Luís Maria de Monfort; Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem; Vida e Obra de Monfort; Edições Monfortinas.

Biografia de Monfort por  H. Jongen

Pobreza

 De tudo que ganhava..guardava apenas o necessário. Uma mulher pobre vem, um dia, lhe contar sua extrema dificuldade. “De quanto precisa”? pergunta o seminarista. E em lugar da pequena quantia pedida, ele lhe entrega tudo que havia em sua bolsa. Vêm oferecer-lhe uma batina nova. Sem sequer experimentá-la, dá-a de esmola.(p.20).

 Amor ao estudo

 Aplica-se seriamente ao estudo. Um dia, deve defender em público uma tese sobre a graça. Seus colegas haviam resolvido encostá-lo à parede, e citaram uma quantidade de textos difíceis dos Padres da Igreja. Luís ouve imperturbável; retoma cada uma das objeções levantadas e as refuta, citando de cor outros textos dos mesmos autores.(p.23).

 Conversava com as pessoas pelo caminho

 Em 1699, foi designado para fazer com outro seminarista uma peregrinação a Chartres, o santuário de Nossa Senhora. Os dois jovens fazem a pé um trajeto de vários dias de caminhada. Era o tempo da colhieta. Luís na pode evitar de deixar de vez em quando seu companheiro e ir conversar com os trabalhadores das colheitas.(p.22).

 A 5 de julho de 1700, Luís foi ordenado sacerdote. Depois, empregou uma semana inteira preparando-se para sua primeira missa. Uma testemunha dessa primeira Missa, confessará mais tarde: “Vi um homem como um anjo no altar”.(p.23).

 Pregação

 De outra vez, é designado para pregar um retiro a religiosas. Não se dá a conhecer imediatamente, mas pede uma esmola em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. “Não podemos dar esmola a todos os que passam, respondem-lhe, continuem seu caminho.” Daí a pouco percebem que acabam de despedir o próprio pregador do retiro. Apressam-se em chamá-lo e o convidam a sentar-se diante de uma mesa bem provida. O missionário exclama: “Como, minha Irmã, oferece uma boa refeição ao Pe. Monfort, e recusa um pedaço de pão que lhe é pedido em nome de Jesus Cristo; isto é faltar a fé e a caridade ao mesmo tempo.(p.24).

 Traz um pobre para dormir em sua casa

 Prega missão em Dinant. Certo dia, encontra lá, estendido no chão, um mendigo todo coberto de úlcera. Enrijecido de frio, o infeliz não podia proferir uma palavra.Monfort o carrega nos ombros e o leva para sua casa. É tarde e tudo já está fechado. Mas o homem de Deus desperta o porteiro, gritando: “Abra a porta para Jesus Cristo”. Deita o pobre em sua cama e, ajoelhando-se no chão gelado, passa a noite conversando com Deus.(p.25).

 Era modesto

 Um ano após sua ordenação, vai visitar o hospital de Poitiers. Está tão miseravelmente vestido que os pobres organizam entre si uma coleta para ajudá-lo”.”Bendizei mil vezes a Deus, escreve Monfort de ser tido por pobre e trazer seus gloriosos trajes.(p.25)

 Escolhe párea sai servir os pobres à mesa. Pede os trabalhos mais humildes. É visto varrendo a casa e limpando o pátio. Suplica, como um favor, o quarto menos confortável, e cede para um pobre a única coberta que possui. Considera-se honrado de poder prestar aos doentes os mais repugnantes serviços.(p.25).

 …Quer que um pobre tome as refeições com ele, de preferência algum que sofra de doença repelente.(p.27).

 Quando diante de uma repreensão, um hospitalizado se revolta e se zanga, ele se ajoelha e só se levanta quando passou a cólera do outro. O deliquente não tem outra saída senão ajoelhar-se também para pedir perdão por seu comportamento.(p.27)

 Escolhe uma cega como superiora das enfermeiras

 80 pobres caem doentes…O capelçao quer tentar formar enfermeiras capazes de socorrer o próximo por amor de Deus só. Escolhe entre as hospitalizadas as mais desvalidas: um grupo de moças doentes, aleijadas, disformes, à frente das quais coloca uma cega. Todos se admiram dessa escolha: “Padre, o senhor nos deu uma superiora cega! – Minha Filha, responde Monfort, é para que vocês não considerem a superiora que Deus lhes dá e lhe obedeçam por amor, sem olhar para seus talentos e defeitos.(p.26). Em pouco tempo, essas moças piedosas e ativas souberam dar um aspecto novo ao hospital. Mas, mais uma vez, o capelão é caluniado junto da autoridade.

 Serenidade em todos os momentos

 Em 1703, Monfort está em Paria. De novo, a aflição dos pobres o atrai irresistivelmente… Uma manhã, encontra em sua mesa um bilhete pelo qual a Direção do hospital lhe comunica uma remuneração pelos serviços prestados: ele recusa. Insistem que ele aceite pelo menos uma roupa e chapéu novo. Consente, mas julgando o chapéu muito luxuoso para ele, troca-o imediatamente pelo gorro de um miserável. Ei-lo nas ruas da grande capital, sem pão nem abrigo.

 Carta dos pobres

 Neste momento, entregam-lhe uma carta que os pobres de Poitiers escreveram ao diretor espiritual dele: “senhor, diziam eles, nós, quatroicentos pobres, vos suplicamos muito humildemente, para maior glória e amor de Deus, fazer com que volte a nós nosso venerável pastor, aquele que ama tanto os pobres, Pe. Grignion…Seria um grande bem se nos enviásseis nosso anjo…Perdoai-nos, senhor, a ousadia: nossa indigência e nossos grandes sofrimentos é que nos fazem importunar-vos. Se pudermos revê-lo, seremos mais obedientes e fiéis para nos entregarmos a nosso Deus.

 Monfort não pôde resistir a esta súplica. Tendo uma senhora piedosa lhe oferecido o dinheiro para viagem, apressa-se em dá-lo ao primeiro mendigo que encontra, e parte para Poitiers, a pé, como sempre. No hospital, o acolhimento é entusiasta: beijam-lhe as mãos e à noite soltam foguetes de alegria.

 Por impossível que pareça, desacreditado junto à Direção do hospital, foi alguns meses depois despedido pela segunda vez. (p.26-27).

 Confissão

 Preferiria, dizia ele, sofrer no purgatório por ter sido demasiado manso com meus penitentes do que por tê-los tratado com uma severidade que desespera”. Chama-se a si mesmo o maior dos pecadores, que, sem o auxílio da Virgem Santíssima, estaria condenado há muito tempo.(p.28).

 Separa briga

 Certo dia, encontra um grupo de operários e soldados que, num tumulto ensurdecedor, se atacam mutuamente, com pedras e paus. Monfort se aproxima, ajoelha-se, diz uma Ave-Maria, beija o solo e se atira entre os combatentes. Consegue, não sem grande esforço, separá-los.Percebe então uma mesa de jogo que todos os dias dá lugar a cenas semelhantes; derruba-a e pisa em cima.Vendo isso, os soldados apanham-no pelos cabelos, rasgam seu casaco, e o ameaçam de morte se ele não pagar a mesa. Ele pergunta o preço. “Cinquenta libras”! é a resposta. “De boa vontade, diz Monfort, eu pagaria cinqüenta milhões de libras para queimar todos os jogos de azar semelhantes a este. Esta resposta exaspera os soldados: levam-no prisioneiro ao quartel. Monfort os acompanha…recitando em voz alta o terço…Finalmente um amigo o liberta de suas mãos, o que muito entristece o prisioneiro. (p.33-34).

 Desde a mais tenra infância, Monfort se sentia atraído pela Paixão de Cristo, simbolizada na Cruz. Seu pequeno crucifixo jamais o deixava.(p.39).

 “Jamais a Cruz sem Jesus, jamais Jesus sem a Cruz.”

 Pão e água

 “Não almoçaremos, diz Monfort em nome de todos; dá nosso almoço aos pobres e traz-nos pão e água.”(p.41)

 Paciência nas adversidades

 Durante uma missão, cai doente: uma úlcera perigosa faz temer por sua vida…o paciente tudo suporta com alegria…encoraja o cirurgião a não poupá-lo, assegurando-lhe que rezará por ele. Quando a dor atinge o máximo, entoa um dos seus cânticos: “Viva Jesus, Viva a Cruz!(p.43).

 Por amor à Cruz, Monfort estabeleceu em muitos lugares a confraria dos Amigos da Cruz. Seus membros se comprometiam a ser um modelo de perfeita paciência e mortificação. Foi a eles que dirigiu as páginas imortais da Carta aos amigos da Cruz.(p.47).

  Mariano

 As festas de Maria são para ele verdadeiras festas porque são dias especialmente consagrados a sua Mãe. Por nada deste mundo ele deixaria passar esses dias sem celebrar a missa.(p.51).

 Monfort estava sempre munido de um grande terço, e era muitas vezes chamado “o Padre do Terço grande”.(p.52)

 …Nas paróquias onde trabalhava, legava, como uma relíquia preciosa, a devoção do terço.(p.52).

Fonte: H. Jongen, S.M.M São Luís Maria Grignion de Monfort. Um Homem Livre. 1. Ed. 1977.

São Pio X, sucessor de Leão XIII, foi Papa de 1903 a 1914. O segundo de doze filhos, nasceu em uma família modesta(o pai era empregado municipal; a mãe, costureira). Em 1893,Leão XIII nomeou-o Patriarca de Veneza,e foi eleito papa em 1903; quis adotar o nome Pio emhomenagem aos papas homônimos anteriores que tanto sofreram pela Igreja.
beatificado em 1951 e canonizado em 3 de Setembro de 1954 por Pio XII.

Biografia do Vaticano sobre SãoPio X

Um grande Papa canonizado pela Igreja, São Pio X, dedicou precisamente às crianças não pouca atenção e esforço pastoral. No dia 8 de agosto de 1910 emanava-se o Decreto “Quam singulari”, através do qual o Santo Padre Pio X estabelecia que se podia admitir as crianças à Primeira Comunhão já a partir da idade de sete anos.
Tratou-se de um acontecimento muito importante para a pastoral das crianças, pois sem a necessidade de esperar mais tempo, elas podiam assim aproximar-se da Comunhão Eucarística, depois de terem recebido nas respectivas paróquias a devida preparação que lhes permitia aprender os primeiros elementos fundamentais da fé cristã. Com efeito, já naquela época a idade da discrição tinha sido estabelecida por volta dos sete anos, quando a criança já consegue distinguir o pão comum do Pão eucarístico, verdadeiro Corpo de Cristo.


Juntamente com São Pio X, muitos de nós estão convencidos de que esta prática de permitir que as crianças recebam a Primeira Comunhão já a partir dos sete anos de idae confere à Igreja copiosas graças do Céu. Além disso, não se pode esquecer que na Igreja primitiva o sacramento da Eucaristia se administrava até aos recém-nascidos, imediatamente depois do Batismo, sob as espécies de umas poucas gotas de vinho.


Permitir que as crianças possam receber Jesus Eucarístico quanto antes possível representou, durante muitos séculos, um dos alicerces mais firmes da pastoral destinada aos mais pequeninos no seio da Igreja; este hábito foi restabelecido por São Pio X na sua época, tendo por isso sido elogiado pelos seus Sucessores e, ainda mais vezes, pelo nosso Santo Padre João Paulo II.
O cânone 914 do Código de Direito Canônico acolheu plenamente o pensamento do Sumo Pontífice: “Os pais, em primeiro lugar, e aqueles que fazem as suas vezes, assim como o pároco, têm a obrigação de procurar fazer com que as crianças que já alcançaram o uso da razão se preparem convenientemente e se nutram quanto antes, depois da Confissão sacramental, com este alimento divino”.


Recentemente, o Santo Padre João Paulo II voltou a refletir sobre aquela decisão de São Pio X, com palavras de admiração; e fê-lo no seu livro intitulado: “Levantai-vos, vamos!”: “Um testemunho comovedor de amor pastoral pelas crianças foi dado pelo meu predecessor São Pio X, com a sua decisão acerca da Primeira Comunhão. Ele não somente reduziu a idade necessária para aproximar-se da Mesa do Senhor, fruto este de que eu mesmo gozei em maio de 1929, mas ofereceu também a possibilidade de receber a Comunhão até mesmo antes de ter completado sete anos de idade, caso a criança em questão demonstre um discernimento que se possa considerar suficiente. A Sagrada Comunhão antecipada foi uma decisão pastoral que merece ser recordada e elogiada. Ela produziu muitos frutos de santidade e de apostolado entre as crianças, favorecendo o surgimento de mais vocações sacerdotais” (João Paulo II, “¡Levantaos! ¡Vamos!”, Plaza Janés, Barcelona 2004, pág. 97).
Nós sacerdotes, chamados por Deus a conservar o Santo Sacramento do altar em união com os nossos Bispos, podemos e devemos cuidar que sobretudo as crianças sejam os primeiros destinatários deste imenso dom: a Eucaristia, que Deus depositou nas nossas frágeis mãos de argila, nas nossas mãos consagradas.

Fonte:http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cevang/p_missionary_works/infantia/documents/rc_ic_infantia_doc_20090324_boletin13p7_po.html

Catecismo Maior de São Pio X.Edições Santo Tomás.2005.

Catecismo Maior de São Pio X

Porque chamamos ao Credo Símbolo dos apóstolos?

O Credo chama-se Símbolo dos Apóstolos porque é um compêndio das verdades da fé,ensinadas pelos Apóstolos(p.40).

Que quer dizer a palavra “Credo, eu creio” que dizeis no começo do Símbolo?

A palavra “Credo, eu creio” quer dizer: eu tenho por absolutamente verdadeiro tudo o que nestes doze artigos se contém; e o creio mais firmemente do que se o visse com os meus olhos,porque Deus, que não pode nem enganar-Se nem enganar-nos, revelou estas verdades à Santa Igreja Católica, e por meio d’Ela as revela também a nós(p.41).

O mundo foi criado somente pelo Pai?

O mundo foi criado igualmente por todas as três Pessoas divinas, porque aquilo que uma Pessoa faz às criaturas, fazem-no com um dó e o mesmo ate e também as outras.

Por que então a criação se atribui particularmente ao Pai?

Atribui-se a criação particularmente ao Pai porque a criação é efeito da onipotência divina, a qual se atribui particularmente ao Pai, como se atribui a sabedoria ao Filho e a bondade ao Espírito Santo, embora todas as três Pessoas tenham a mesma onipotência, sabedoria e bondade(p.43).

Porque dizeis que nada sucede sem que Deus o queira ou permita?

Diz-se que nada sucede no mundo sem que Deus o queira ou permita porque há coisas que Deus quer e manda, e outras que Ele não quer, mas não impede, como o pecado(p.44).

Por que Deus não impede o pecado?

Deus não impede o pecado porque até do abuso que o homem faz da liberdade que Ele concedeu sabe tirar um bem, e fazer resplandecer ainda mais a sua misericórdia ou a sua justiça.(p.44).

Qual é a criatura mais nobre que Deus colocou sobre a terra?

A criatura mais nobre que Deus colocou sobre a terra, é o homem.
(…)
Que é o homem?(p.46-50).

O homem é uma criatura racional, composta de alma e corpo.

Que é a alma?

A alma é a parte mais nobre do homem, porque é substância espiritual, dotada de inteligência e de vontade, capaz de conhecer a Deus e de O possuir eternamente.

Pode-se ver e apalpar a alma humana?

Não se pode ver nem apalpar a nossa alma, porque é espírito.

Morre a alma humana com o corpo?

A alma humana nunca morre; a fé e a mesma razão provam que la é imortal.

É livre o homem nas suas ações?

Sim, o homem é livre nas suas ações; e cada qual sente, dentro de si mesmo, que pode fazer uma ação e deixar de fazê-la, ou fazer antes uma que outra.

Explicai com um exemplo a liberdade humana.

Se eu disser voluntariamente uma mentira, sinto que poderia deixar de dizê-la, e calarme, e que poderia também falar de outro modo, dizendo a verdade.

Por que se diz que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus?

Diz-se que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, porque a alma humana é espiritual e racional, livre na su i ação, capaz de conhecer e de amar a Deus, e de gozá-Lo eternamente, perfeições que refletem em nós um raio da infinita grandeza de Deus.

Em que estado criou Deus os nossos primeiros pais Adão e Eva?

Deus criou Adão e Eva no estado de inocência e de graça; mas depressa o perderam,pelo pecado.

Além da inocência e da graça santificante, com cedeu Deus ao nossos primeiros pais outros dons?

Além da inocência e da graça santificante, Deus concedeu aos nossos primeiros pais outros dons, que eles deviam transmitir, juntamente com a graça santificante, aos seus descendentes, e eram: a integridade, isto é, a perfeita sujeição dos sentidos à razão; a imortalidade; a imunidade de todas as dores e misérias; e a ciência proporcionada ao seu estado.

Qual foi o pecado de Adão?

O pecado de Adão foi um pecado de soberba e de grave desobediência.

Qual foi o castigo do pecado de Adão e Eva?

Adão e Eva perderam a graça de Deus e o direito que tinham ao céu, foram expulsos do Paraíso Terrestre, sujeitos a muitas misérias na alma e no corpo, e condenados a morrer.

Se Adão e Eva não tivessem pecado, ficariam livres da morte?

Se Adão e Eva não tivessem pecado, mas se se tivessem conservado fiéis a Deus, depois de uma permanência feliz e tranqüila neste mundo, teriam sido levados por Deus ao Céu, sem morrer, a gozar uma vida eterna e gloriosa.

Eram estes dons devidos ao homem?

Estes dons não eram devidos por nenhum título ao homem, mas eram absolutamente gratuitos e preternaturais; e por isso, tendo Adão desobedecido ao preceito divino, Deus pôde, sem injustiça, privar deles a Adão e a toda a sua descendência.

Este pecado, é próprio somente de Adão?

Este pecado não é só de Adão, mas é também nosso, embora por diverso título. É próprio de Adão, porque ele o cometeu com um ato da sua vontade, e por isso nele foi pessoal. É nosso, porque tendo Adão pecado como cabeça e fonte de todo o gênero humano, é transmitido por geração natural a todos os seus descendentes, e por isso para nós é pecado original.

Como é possível que o pecado original se transmita a todos os homens?

O pecado original transmite-se a todos os homens, porque tendo Deus conferido ao gênero humano, em Adão, a graça santificante e os outros dons preternaturais, com a condição de que ele não desobedecesse, e tendo este desobedecido tia sua qualidade de cabeça e pai do gênero humano, tornou a natureza humana rebelde a Deus. Por isso a natureza humana é transmitida a todos os descendentes de Adão num estado de rebeldia contra Deus, privada da graça divina e dos outros dons.

Contraem todos os homens o pecado original?

Sim, todos os homens contraem o pecado original, exceto a Santíssima Virgem que dele foi preservada por Deus, com singular privilégio, na previsão dos merecimentos de Jesus Cristo Nosso Salvador.

Depois do pecado de Adão, já não poderiam os homens salvar-se?

Depois do pecado de Adão, os homens já não poderiam salvar-se, se Deus não tivesse usado para com eles de misericórdia.

Qual foi a misericórdia de que Deus usou para com o gênero humano?

A misericórdia de que Deus usou para com o gênero humano, foi prometer logo a Adão um Redentor divino, ou Messias, enviá-Lo depois a seu tempo, para libertar os homens da escravidão do demônio e do pecado.

Quem é o Messias prometido?(p.46-50).

O Messias prometido é Jesus Cristo, como nos ensina o segundo artigo do Credo.
(…)

Que nos ensina o segundo artigo do Credo: e em Jesus Cristo, um só seu Filho, Nosso Senhor?(p.50-53).

O segundo artigo do Credo ensina-nos que o Filho de Deus é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade; que Ele é Deus eterno, todo-poderoso, Cria for e Senhor, como o Padre; que se fez homem par nos salvar; e que o Filho, de Deus feito homem se chama Jesus Cristo.

Por que se chama Filho a segunda Pessoa?

A segunda Pessoa chama-se Filho porque é gerada pelo Padre por via de inteligência, desde toda da ti eternidade; e por este motivo se chama também Verbo eterno do Padre.

Sendo também nós filhos de Deus, por que Jesus Cristo se chama Filho único de Deus Pai?

Jesus Cristo chama-se Filho único de Deus porque só Ele é por natureza seu Filho, e nós seus filhos por criação e por adoção.

Por que Jesus Cristo se chama Nosso Senhor?

Chama-se Jesus Cristo Nosso Senhor não se porque, enquanto Deus, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, nos criou, como também porque, em enquanto Deus e homem nos remiu com seu Sangue.

Por que o Filho de Deus feito homem se o chama Jesus?

O Filho de Deus feito homem chama-se Jesus que quer dizer Salvador, porque nos salvou da morte eterna que merecíamos por nossos pecados.

Quem deu o nome de Jesus ao Filho de feito homem?

Foi o mesmo Padre Eterno que deu o nome de Jesus ao Filho de Deus feito homem, por meio do Arcanjo São Gabriel, quando este anunciou à Virgem Santíssima o mistério da Encarnação.

Por que o Filho de Deus feito homem se chama também Cristo?

O filho de Deus feito homem chama-se também Cristo, que quer dizer Ungido e
consagrado, porque antigamente ungiam-se os reis, os sacerdotes e os profetas e Jesus é Rei dos reis, Sumo Sacerdote e Sumo Profeta.

Foi Jesus Cristo verdadeiramente ungido e consagrado com unção corporal?

A unção de Jesus Cristo não foi corporal, como a dos antigos reis, sacerdotes e profetas, mas toda espiritual e divina, porque a plenitude da divindade habita nEle substancialmente.

Tiveram os homens algum conhecimento de Jesus Cristo antes da sua vinda?

Sim, os homens tiveram conhecimento de Jesus Cristo antes da sua vinda, pela promessa do Messias, que Deus fez aos nossos primeiros pais Adão e Eva, a qual renovou aos santos Patriarcas; e também pelas profecias e muitas figuras que O designavam.

Como sabemos nós que Jesus Cristo é verdadeira mente o Messias e o Redentor prometido?

Sabemos que Jesus Cristo é verdadeiramente o Messias e o Redentor prometido, porque nEle se cumpriu:
1) tudo o que anunciavam as profecias;
2) tudo o que representavam as figuras do Antigo Testamento.

Que prediziam as profecias acerca do Redentor?

As profecias prediziam acerca do Redentor: a tribo e a família da qual devia sair; o lugar e o tempo do nascimento; os seus milagres e as mais minuciosas circunstâncias da sua Paixão e morte; a sua ressurreição e ascensão ao Céu; o seu reino espiritual, universal e perpétuo, que é a Santa Igreja Católica.

Quais são as principais figuras do Redentor no Antigo Testamento?

As principais figuras do Redentor no Antigo Testamento são o inocente Abel, o sumo sacerdote Melquisedec, o sacrifício de Isaac, José vendido pelos irmãos, o profeta Jonas, o cordeiro pascal e a serpente de bronze, levantada por Moisés tio deserto.

Como sabemos nós que Jesus Cristo é verdadeiro Deus?

Sabemos que Jesus Cristo é verdadeiro Deus:

1) pelo testemunho do Padre Eterno, quando disse: Este é O meu Filho muito amado, no qual tenho posto todas as minhas complacências: ouvi-O ;

2) pela afirmação do próprio Jesus Cristo, confirmada com os mais estupendos
milagres;

3) pela doutrina dos Apóstolos;

4) pela tradição constante da Igreja Católica.

Quais são os principais milagres operados por Jesus Cristo?

Os principais milagres operados por Jesus Cristo são, além da sua ressurreição, a saúde restituída aos enfermos, a vista aos cegos, o ouvido aos surdos, a vida aos mortos.
(…)

Que nos ensina o terceiro artigo do Credo: o qual foi concebido pelo poder do
Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem?(p.53-55).

O terceiro artigo do Credo ensinam-nos que o Filho de Deus tomou um corpo e uma alma, como nós temos, no seio puríssimo de Maria Santíssima, Pelo poder do Espírito Santo, e que nasceu desta Virgem.
Concorreram o Pai e o Filho também para formar o corpo e para criar a alma de Jesus Cristo?

Sim, para formar o corpo e para criar a alma de Jesus Cristo, concorreram todas as três Pessoas divinas.

Por que se diz só: foi concebido pelo poder do Espírito Santo?

Diz-se só: foi concebido pelo poder do Espírito Santo, porque a Encarnação do Filho de Deus é obra de bondade e de amor, e as obras de bondade e de amor atribuem-se ao Espírito Santo.

Fazendo-se homem, deixou o Filho de ser Deus?

O Filho de Deus, fazendo-se homem, não deixou de ser Deus.

Então Jesus Cristo é Deus e homem ao mesmo tempo?

Sim, o Filho de Deus encarnado, isto é, Jesus Cristo, é Deus e homem ao mesmo tempo, perfeito Deus e perfeito homem.

Há então em Jesus Cristo duas naturezas?

Sim, em Jesus Cristo, que é Deus e homem, há duas naturezas, a divina e a humana.

E haverá também em Jesus Cristo duas pessoas, a divina e a humana?

No Filho de Deus feito homem há só uma Pessoa, que é a divina.

Quantas vontades há em Jesus Cristo?

Em Jesus Cristo há duas vontades, uma divina, outra humana.

Tinha Jesus Cristo vontade livre?

Sim, Jesus Cristo tinha vontade livre, mas não podia fazer o mal, porque poder fazer o mal é defeito, e não perfeição da liberdade.

Serão uma e a mesma Pessoa o Filho de Deus e o Filho de Maria Santíssima?

O Filho de Deus e o Filho de Maria Santíssima são a mesma Pessoa, isto é, Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

E a Virgem Maria, será Mãe de Deus?

Sim, Maria Santíssima é Mãe de Deus, porque é Mãe de Jesus Cristo, que é verdadeiro Deus.

De que maneira veio Maria a ser Mãe de Jesus Cristo?

Maria veio a ser Mãe de Jesus Cristo unicamente por virtude do Espírito Santo.

É de fé que Maria foi sempre Virgem?

Sim, é de fé que Maria Santíssima foi sempre Virgem, e é chamada a Virgem por excelência.(p.53-55).

(…)

Que nos ensina o quarto artigo do Credo: padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado?(p.55-59)

O quarto artigo do Credo ensina-nos que Jesus Cristo, para remir o mundo com o seu precioso Sangue, padeceu sob Pôncio Pilatos, governador da Judéia, e morreu no madeiro da Cruz, da qual foi descido, e no fim sepultado.

Que quer dizer a palavra padeceu?

A palavra padeceu exprime todos os sofrimentos suportados por Jesus Cristo na sua Paixão.

Padeceu Jesus Cristo enquanto Deus ou enquanto homem?

Jesus Cristo padeceu enquanto homem somente, porque enquanto Deus não podia padecer nem morrer.

Que espécie de suplício era o da cruz?

O suplício da cruz era, naqueles tempos, o mais cruel e ignominioso de todos os suplícios.

Quem foi que condenou Jesus Cristo a ser crucificado?

Quem condenou Jesus Cristo a ser crucificado foi Pôncio Pilatos, governador da Judéia, o qual no entanto reconhecera a sua inocência; mas cedeu covardemente às ameaças dos judeus.

Não poderia livrar-Se Jesus Cristo das mãos dos judeus ou de Pilatos?

Sim, Jesus Cristo podia livrar-Se das mãos dos judeus ou de Pilatos; mas, conhecendo que a vontade do seu Eterno Padre era que Ele padecesse e morresse pela nossa salvação, submeteu-Se voluntariamente, e até saiu ao encontro dos seus inimigos, e deixou-Se espontaneamente prender e conduzir à morte.

Onde foi crucificado Jesus Cristo?

Jesus Cristo foi crucificado sobre o monte Calvário.

Que fez Jesus Cristo na Cruz?

Jesus Cristo na Cruz orou pelos seus inimigos, deu por Mãe ao discípulo São João, e na pessoa dele a nós todos, a sua mesma Mãe, Maria Santíssima; ofereceu a sua morte em sacrifício, e satisfez à justiça de Deus pelos pecados dos homens.

Não bastaria que viesse um Anjo satisfazer por nós?

Não bastava que viesse um Anjo satisfazer por nós, porque a ofensa feita a Deus pelo pecado era, sob certo aspecto, infinita; e para satisfazê-la requeria-se unia pessoa que tivesse merecimento infinito

Para satisfazer à justiça divina era necessário que Jesus Cristo fosse Deus e homem ao mesmo tempo?

Sim, era necessário que Jesus Cristo fosse homem para poder padecer e morrer, e era necessário que fosse Deus, para que os seus sofrimentos fossem de valor infinito.

Por que razão era necessário que os merecimentos de Jesus Cristo fossem de valor infinito?

Era necessário que os merecimentos de Jesus Cristo fossem de valor infinito, porque a majestade de Deus, ofendida pelo pecado, é infinita.

Era necessário que Jesus Cristo padecesse tanto?

Não era absolutamente necessário que Jesus Cristo padecesse tanto, porque o menor dos seus sofrimentos bastaria para a nossa redenção, pois cada um dos seus atos era de valor infinito.

Por que então Jesus quis sofrer tanto?

Jesus quis sofrer tanto, para satisfazer mais abundantemente à justiça divina, para nos mostrar mais claramente o seu amor, e para nos inspirar maior horror ao pecado.

Aconteceram prodígios na morte de Jesus?

Sim, na morte de Jesus obscureceu-se o sol, tremeu a terra, abriram-se algumas sepulturas, e muitos mortos ressuscitaram.

Onde foi sepultado o corpo de Jesus Cristo?

O corpo de Jesus Cristo foi sepultado num túmulo novo, escavado na rocha do monte, pouco distante do lugar onde Ele foi crucificado.

Na morte de Jesus Cristo, separou-se a divindade do corpo e dá alma?

Na morte de Jesus Cristo a divindade não se separou nem do corpo nem da alma; mas só a alma se separou do corpo.

Por quem morreu Jesus Cristo?

Jesus Cristo morreu pela salvação de todos os homens, e satisfez por todos.

Se Jesus Cristo morreu pela salvação de todos, por que nem todos se salvam?

Jesus Cristo morreu por todos, mas nem todos se salvam, porque nem todos O
reconhecem, nem todos seguem a sua lei, nem todos se servem dos meios de
santificação que nos deixou.

Para nos salvarmos não tenha morrido por nós?

Para nos salvarmos não basta que Jesus basta que Jesus Cristo tenha morrido por nós, mas é necessário que sejam aplicados, a cada um de nós, o fruto e os merecimentos da sua Paixão e morte, aplicação que se faz, sobretudo, por meios dos Sacramentos, instituídos para este fim pelo mesmo Jesus Cristo; e como muitos ou não recebem os Sacramentos, ou não os recebem com as condições devidas, eles tornam inútil para si próprios a morte de Jesus Cristo(p.55-59).

(…)

Por que as almas dos justos não foram introduzidas no Paraíso antes da morte de Jesus Cristo?(p.59).

As almas dos justos não foram introduzidas no Paraíso antes da morte de Jesus Cristo, porque pelo pecado de Adão o Paraíso estava fechado; e convinha que Jesus Cristo, cuja morte o reabriu, fosse o primeiro ti entrar nele.

Por que Jesus Cristo quis esperar até ao terceiro dia para ressuscitar?

Jesus Cristo quis demorar até tio terceiro dia para ressuscitar, para mostrar de modo insofismável, que verdadeiramente tinha morrido.

Foi a ressurreição de Jesus Cristo semelhante à dos outros homens ressuscitados?

A ressurreição de Jesus Cristo não foi semelhante à dos outros homens ressuscitados, porque Jesus Cristo ressuscitou por virtude própria, e os outros foram ressuscitados por virtude de Deus.(p.59)

(…)

Que nos ensina o sexto artigo do Credo: subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso?(p.60)

O sexto artigo do Credo ensina-nos que Jesus quarenta dias depois da sua ressurreição na presença dos seus discípulos, subiu por Si mesmo tio Céu e que sendo, enquanto Deus, igual ao Pai Eterno na Glória, enquanto homem, foi elevado acima de todos os Anjos e de todos os Santos, e constituído Senhor de todas as coisas.

Por que Jesus Cristo, depois da sua ressurreição, esteve quarenta dias na terra, antes de subir ao Céu?

Jesus Cristo, depois da sua ressurreição, esteve quarenta dias na terra, antes de subir ao Céu, para provar, com várias aparições, que ressuscitara verdadeiramente, e para instruir melhor os Apóstolos e confirmá-los nas verdades da fé.

Por que Jesus Cristo subiu ao Céu?

Jesus Cristo subiu ao Céu:

1) para tomar posse do seu reino, que havia merecido com sua morte;
2) para preparar o nosso lugar na glória, e para ver nosso Mediador e Advogado junto do Pai Eterno;
3) para enviar o Espírito Santo aos seus Apóstolos.

Por que se diz de Jesus Cristo que subiu ao Céu, e de sua Mãe Santíssima se diz que foi levada para o Céu?

Diz-se de Jesus Cristo que subiu, e de sua Mãe Santíssima que foi levada ao Céu, porque Jesus Cristo, sendo Homem-Deus, subiu ao Céu por virtude própria; mas sua Mãe, que era criatura, embora a mais digna de todas, foi levada ao Céu por virtude de Deus.

Explicai as palavras: Está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso.

As palavras está sentado significam ti posse pacífica que Jesus Cristo tem da sua glória, o as palavras à direita de Deus Padre todo-poderoso exprimem que Ele, tem o lugar de honra sobre todas as criaturas.(p.60).

Por que é a Igreja Católica tão perseguida?

A Igreja Católica é tão perseguida, porque assim foi também perseguido o seu Divino Fundador, e porque reprova os vícios, combate as paixões e condena todas as injustiças e todos os erros.(p.71).

(…)

Que nos ensina o nono artigo do Credo com aquelas palavras: na comunhão dos Santos ?(p.77-81)

Com as palavras: na comunhão dos Santos, o nono artigo do Credo ensina nos que na Igreja, pela íntima união que existe entre todos os seus membros, são comuns os bens espirituais, assim internos Como externos, que lhe pertencem.

Quais são na Igreja os bens comuns internos?

Os bens comuns internos na Igreja são: a graça que se recebe nos Sacramentos, a Fé, a Esperança, a Caridade, os merecimentos infinitos de Jesus Cristo, os merecimentos superabundantes da Santíssima Virgem e dos Santos, e o fruto de todas as boas obras que na mesma Igreja se fazem.

Quais são os bens externos comuns na Igreja?

Os bens externos comuns na Igreja são: os sacramentos, o Santo Sacrifício da
Missa, as orações públicas, as funções religiosas, e todas as outras práticas exteriores que unem entre si os fiéis.

Nesta comunhão de bens entram todos os filhos da Igreja?

Na comunhão dos bens internos entram somente os cristãos que estão em graça de Deus; os que estão em pecado mortal não participam de todos estes bens.

Por que não participam de todos estes bens aqueles que estão em pecado mortal?

Porque é a graça de Deus. vida sobrenatural da alma, que une os fiéis a Deus e a Jesus Cristo como seus membros vivos e os torna capazes de fazer obras meritórias para a vida eterna; e porque aqueles que se encontram em estado de pecado mortal, não tendo a graça de Deus, estão excluídos da comunhão perfeita dos bens espirituais e não podem fazer obras meritórias rias para a vida eterna.

Então os cristãos que estão em pecado mortal não tiram proveito nenhum dos bens internos e espirituais da Igreja?

Os cristãos que estão em pecado mortal tiram ainda assim algum proveito dos bens internos e espirituais da Igreja, porquanto conservam o caráter de cristãos, que é indelével, e a virtude da Fé que é a raiz de toda justificação. Por isso são auxiliados pelas orações e boas obras dos fiéis, para obterem a graça da conversão.

Os que estão em pecado mortal podem participar dos bens externos da Igreja?

Os que estão em pecado mortal podem participar dos bens externos da Igreja, contanto que não estejam separados da mesma Igreja pela excomunhão.

Por que os membros desta comunhão, considerados no seu conjunto, se chamam Santos ?

Os membros desta comunhão chamam-se Santos, porque todos são chamados à santidade, e foram santificados por meio do Batismo, e muitos deles atingiram já a santidade perfeita.

A comunhão dos Santos estende-se também ao Céu e ao Purgatório?

Sim, a comunhão dos Santos estende-se também ao Céu e ao Purgatório, porque a caridade une as três igrejas – triunfante, padecente e militante -; e os Santos rogam a Deus por nós e pelas almas do Purgatório, e nós damos honra e glória aos Santos, e podemos aliviar as almas do Purgatório, aplicando, em sufrágio delas, Missas, esmolas, indulgências e outras boas obras.

§ 6o – Daqueles que estão fora da Igreja

Quem são os que não participam da comunhão dos Santos?

Aqueles que não participam da comunhão dos Santos são, na outra vida, os condenados, e nesta vida aqueles que não pertencem nem à alma nem ao corpo da Igreja, quer dizer, aqueles que estão em estado de pecado mortal e se encontram fora da verdadeira Igreja.

Quem são os que se encontram fora da verdadeira Igreja?

Encontram-se fora da verdadeira Igreja os infiéis, os judeus, os hereges, os apóstatas, os cismáticos e os excomungados.

Quem são os infiéis?

Os infiéis são aqueles que não foram batizados e não crêem em Jesus Cristo, seja porque crêem e adoram falsas divindades, como os idólatras; seja porque, embora admitam o único Deus verdadeiro, não crêem em Cristo Messias, nem como vindo na pessoa de Jesus Cristo, nem como havendo de vir ainda: tais são os maometanos e outros semelhantes.

Quem são os judeus?

Os judeus são aqueles que professam a lei de Moisés, não receberam o batismo, nem crêem em Jesus Cristo.

Quem são os hereges?

Os hereges são as pessoas batizadas que recusam com pertinácia crer em alguma verdade revelada por Deus e ensinada conto de fé pela Igreja Católica: por exemplo, os arianos, os nestorianos e as várias seitas dos protestantes.

Quem são os apóstatas?

Os apóstatas são aqueles que abjuram, isto é, renegam, com ato externo, a fé católica, que antes professavam.

Quem são os cismáticos?

Os cismáticos são os cristãos que, não negando explicitamente dogma algum, se separam voluntariamente da Igreja de Jesus Cristo, ou dos legítimos Pastores.

Quem são os excomungados?

Os excomungados são aqueles que por faltas graves são fulminados com excomunhão pelo Papa ou pelo Bispo, e portanto são separados, como indignos, do corpo da Igreja, a qual espera e deseja a sua conversão.

Deve-se temer a excomunhão?

Deve-se temer grandemente a excomunhão, porque é o castigo mais grave e mais terrível que a Igreja pode infligir aos seus filhos rebeldes e obstinados.

De que bens ficam privados os excomungados ?

Os excomungados ficam privados das orações publicas, dos Sacramentos, das
indulgências e excluídos da sepultura eclesiástica.

Podemos nós auxiliar de alguma maneira os ex. comungados ?

Nós podemos auxiliar de alguma maneira os excomungados e todos os outros que estão fora da verdadeira Igreja com advertências salutares, com orações e boas obras, suplicando a Deus que pela sua misericórdia lhes conceda a graça de se converterem à Fé e de entrarem na comunhão dos Santos.

(…)

Que nos ensina o undécimo artigo do Credo: na ressurreição da carne?

O undécimo artigo do Credo ensina-nos que todos os homens hão de ressuscitar, retomando cada alma o corpo que teve nesta vida.(p.82-84).

Como se fará a ressurreição dos mortos?

A ressurreição dos mortos realizar-se-á por virtude de Deus Onipotente, a Quem nada é impossível.

Quando será a ressurreição dos mortos?

A ressurreição de todos os mortos será no fim do inundo, e depois seguir-se-á o Juízo universal.
Por que quer Deus a ressurreição dos corpos?

Deus quer a ressurreição dos corpos para que a nossa alma, tendo feito o bem ou o final unida ao corpo, receba juntamente com ele o prêmio ou o castigo.

Ressuscitarão os homens, todos da mesma maneira?

Não. Haverá enorme diferença entre os corpos dos eleitos e os corpos dos condenados;porque somente os corpos dos eleitos terão, à semelhança de Jesus Cristo ressuscitado, os dotes dos corpos gloriosos.

Quais são estes dotes que adornarão os corpos dos bem-aventurados?

Os dotes que adornarão os corpos gloriosos dos bem-aventurados são:

1°. a impassibilidade, pela qual eles não mais poderão estar sujeitos a males, nem dores de espécie alguma, nem às necessidades de alimento, de repouso e de qualquer outra coisa;
2°. a claridade, pela qual eles resplandecerão como o sol e as estrelas;
3°. a agilidade, pela qual eles poderão passar num momento sem fadiga, de um lugar para outro e da terra ao Céu;
4°. a sutileza, pela qual eles poderão, sem obstáculo, passar através de qualquer corpo, como fez Jesus Cristo ressuscitado.

Como serão os corpos dos condenados?

Os corpos dos condenados serão destituídos dos dotes dos corpos gloriosos dos bem-aventurados, e trarão o horrível estigma da reprovação eterna.(p.82-84).

Que quer dizer a palavra Amém no fim do Credo?

A palavra Amém no fim das orações significa: assim seja; no fim do Credo significa: assim é, que quer dizer: creio que é absolutamente verdadeiro tudo o que nestes doze artigos se contém, e estou mais certo disso do que se o visse com os meus olhos.(p.85).

(…)

Que pedimos na sexta petição: e não nos deixeis cair em tentação?(p.98)

Na sexta petição: e não nos deixeis cair em tentação, pedimos a Deus que nos livre das tentações, ou não permitindo que sejamos tentados, ou dando-nos graças para não sermos vencidos.

Que são as tentações?

As tentações são um incitamento ao pecado que nos vem do demônio, ou das pessoas más ou das nossas paixões.

É pecado ter tentações?

Não é pecado ter tentações, mas é pecado consentir nelas, ou expor-se voluntariamente ao perigo de consentir.

Por que permite Deus que sejamos tentados?

Deus permite que sejamos tentados, para provar a nossa fidelidade, para fortalecer as nossas virtudes e para aumentar os nossos merecimentos.

Que devemos fazer para evitar as tentações?

Para evitar as tentações devemos fugir das ocasiões perigosas, guardar os sentidos, receber com freqüência a os santos sacramentos, fazer uso da oração, especialmente da devoção a Maria Santíssima, Senhora Nossa.

Para que nos servem as tribulações que Deus nos manda?

As tribulações que Deus nos envia nos são úteis para fazermos penitência das nossas culpas, para provar nossas virtudes, e sobretudo para levar-nos à imitação de Jesus Cristo, nossa cabeça, ao qual é justo que nos conformemos nos sofrimentos, se quisermos ter parte na sua glória (p.99).

(…)

Que oração costumamos rezar depois do Padre-Nosso?(p.100-102).

Depois do Padre-Nosso rezamos a saudação angélica, isto é, a Ave-Maria, por meio da qual recorremos à Santíssima Virgem.

Por que é a Ave-Maria chamada saudação angélica?

Chama-se a Ave-Maria saudação angélica, porque principia com a saudação que dirigiu à Virgem Maria o Arcanjo São Gabriel.

De quem são as palavras da Ave-Maria?

As palavras da Ave-Maria são, em parte do Arcanjo São Gabriel, em parte de Santa Isabel e em parte da Igreja.

Quais são as palavras do Arcanjo São Gabriel?

As palavras do Arcanjo São Gabriel são: Ave, cheia de graça; o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres .
Quando disse o Anjo a Maria estas palavras?

O Anjo disse a Maria estas palavras quando Lhe foi anunciar da parte de Deus o mistério da Encarnação, que nEla devia operar-se.

Que temos em vista ao saudarmos a Santíssima Virgem com as mesmas palavras do Arcanjo?

Ao saudarmos a Santíssima Virgem com as mesmas palavras do Arcanjo, nós nos congratulamos com Ela, lembrando os dons e singulares privilégios com que Deus a favoreceu de preferência a todas as outras criaturas.

Quais são as palavras de Santa Isabel?

As palavras de Santa Isabel são: Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre .

Quando disse Santa Isabel estas palavras?

Santa Isabel disse estas palavras, inspirada por Deus, quando, três meses antes de nascer seu filho João Batista, foi visitada pela Santíssima Virgem, que já trazia no seio o seu Divino Filho Jesus.

Que fazemos ao dizer estas palavras?

Ao dizer estas palavras de Santa Isabel, congratulamo-nos com Maria Santíssima pela sua excelsa dignidade de Mãe de Deus, bendizemos a Deus e damos-Lhe graças por nos ter dado Jesus Cristo por meio de Maria.

De quem são as demais palavras da Ave-Maria?

Todas as demais palavras da Ave-Maria foram acrescentadas pela Igreja.

Que pedimos com as últimas palavras da Ave-Maria?

Com as últimas palavras da Ave-Maria pedimos o proteção da Santíssima Virgem no decurso desta vida e especialmente na hora da nossa morte, no qual nos será mais necessária.

Por que depois do Padre-Nosso, dizemos antes a Ave-Maria do que outra qualquer oração?

Porque a Santíssima Virgem é a Advogada mais poderosa junto de Jesus Cristo: por isso, depois de termos rezado a oração que Jesus Cristo nos ensinou, pedimos à Santíssima Virgem que nos alcance as graças que imploramos.

Por que motivo é tão poderosa a Santíssima Virgem?

A Santíssima Virgem é tão poderosa, porque é Mãe de Deus, e é impossível que não seja atendida por Ele.

Que nos ensinam os Santos a respeito da devoção à Virgem Maria?

A respeito da devoção a Maria, os Santos nos ensinam que os seus verdadeiros devotos são por Ela amados e protegidos com amor de Mãe muito terna, e por meio dEla têm a certeza de encontrar a Jesus Cristo, e de alcançar o Paraíso.

Qual é a devoção à Virgem Maria, que a Igreja nos recomenda de modo especial?

A devoção que a Igreja nos recomenda de modo especial em honra da Santíssima Virgem é a reza do santo Rosário(p.100-102).

(…)

É coisa boa e útil recorrer à intercessão dos Santos?(p.102-103)

É coisa utilíssima invocar os Santos, e todo o Cristão o deve fazer. Devemos invocar particularmente nossos Anjos da Guarda, São José, protetor da Igreja, os Santos Apóstolos, o Santo do nosso nome e os Santos protetores da diocese e da paróquia.

Que diferença há entre as orações que fazemos a Deus e as que fazemos aos
Santos?

Entre as orações que fazemos a Deus e as que fazemos aos Santos, há esta diferença:que a Deus, invocamo-Lo a fim de que, como autor das graças, nos dê os bens e nos livre dos males, e aos Santos, invocamo-los para que, como advogados junto de Deus, intercedam por nós.

Que queremos dizer, quando dizemos que um Santo concedeu uma graça?

Quando dizemos que um Santo concedeu uma graça, queremos dizer que esse Santo obteve de Deus aquela graça.(p.102-103).

(…)

§ 1o – Do primeiro Mandamento da Lei de Deus

Por que disse o Senhor antes de ditar os Mandamentos: Eu sou o Senhor teu Deus?(p.106-110)

Antes de promulgar os seus Mandamentos, Deus disse: Eu sou o Senhor teu Deus, para que saibamos que Deus, sendo o nosso Criador e Senhor, pode mandar o que quiser, e nós, criaturas suas, somos obrigados a obedecer-Lhe.
Que nos ordena Deus com as palavras do primeiro Mandamento: amar a Deus
sobre todas as coisas?
Com as palavras do primeiro Mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas, Deus nos ordena que o reconheçamos, adoremos, amemos e sirvamos a Ele só, como nosso Soberano Senhor.

Como se cumpre o primeiro Mandamento?

Cumpre-se o primeiro Mandamento com o exercício do culto interno e externo.

Que é o culto interno?

O culto interno é a honra que se presta a Deus só com as faculdades da alma isto é, com a inteligência e com a vontade.

Que é o culto externo?

O culto externo é a homenagem que se presta a Deus por meio de atos exteriores e de objetos sensíveis.

Não basta adorar a Deus interiormente, só com o coração?

Não basta adorar a Deus interiormente, só com o coração, mas é necessário adorá-Lo também exteriormente, com a alma e com o corpo juntamente, porque Ele é Criador e Senhor absoluto de uma e de outro.

Poderá haver culto externo sem o interno?

Não pode de forma alguma haver culto externo sem o interno, porque aquele,
desacompanhado deste, fica privado de vida, de merecimento e de eficácia, como corpo sem alma.

Que nos proíbe o primeiro Mandamento?

O primeiro Mandamento proíbe-nos a idolatria, a superstição, o sacrilégio, a heresia, e todo e qualquer outro pecado contra a religião.
Que é a idolatria?

Chama-se idolatria o prestar a alguma criatura, por exemplo a uma estátua, a uma imagem, a um homem, o culto supremo de adoração, devido só a Deus.

Como está expressa na Sagrada Escritura esta proibição?

Na Sagrada Escritura está expressa esta proibição com as palavras: Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma de tudo o que há em cima, no céu, e do que há embaixo, na terra. E não adorarás tais coisas, nem lhes darás culto.

Proíbem estas palavras toda a espécie de imagens?

Não, por certo. Mas só as das falsas divindades, feitas com intuito de adoração, como faziam os idólatras. E tanto isto é verdade, que o próprio Deus deu ordem a Moisés para fazer algumas, como as duas estátuas de querubins que estavam sobre a arca, e a serpente de bronze no deserto.

Que é a superstição?

Chama-se superstição toda e qualquer devoção contrária à doutrina e ao uso da Igreja, bem como o atribuir a urna ação ou alguma coisa uma virtude sobrenatural que ela não tem.

Que é o sacrilégio?

O sacrilégio é a profanação de um lugar, de uma pessoa ou de uma coisa consagrada a Deus ou destinada ao seu culto.

Que é a heresia?

A heresia é um erro culpável de inteligência, pelo qual se nega com pertinácia alguma verdade de fé.

Que mais coisas proíbe o primeiro Mandamento?

O primeiro Mandamento proíbe também todo o comércio ou trato com o demônio, e o filiar-se às seitas anticristãs.

Quem recorresse ao demônio e o invocasse, cometeria pecado grave?

Quem recorresse ao demônio e o invocasse, cometeria um pecado enorme, porque o demônio é o mais perverso inimigo de Deus e do homem.

É lícito interrogar as mesas chamadas falantes ou escreventes, ou consultar de algum modo as almas dos mortos, por meio de espiritismo?

Todas as práticas do espiritismo são proibidas, porque são supersticiosas, e muitas vezes não estão isentas de intervenção diabólica, e por isso foram justamente interditas pela Igreja.

O primeiro Mandamento proíbe acaso honrar e invocar os Anjos e os Santos?

Não. Não é proibido honrar e invocar os Anjos e os Santos, e até o devemos fazer, porque é coisa boa e útil, e altamente recomendada pela Igreja, já que eles são amigos de Deus e nossos intercessores junto dEle.

Sendo Jesus Cristo o nosso único mediador junto de Deus, por que recorremos também à intercessão da Santíssima Virgem e dos Santos?

Jesus Cristo é o nosso mediador junto de Deus, enquanto, sendo verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, só Ele, em virtude dos próprios merecimentos, nos reconciliou com Deus e dEle nos obtém todas as graças. Mas, a Santíssima Virgem e os Santos, em virtude dos merecimentos de Jesus Cristo, e pela caridade que os une a Deus e a nós, auxiliam-nos com a sua intercessão a alcançar as graças que pedimos. E este é um dos grandes bens da comunhão dos Santos.

Podemos honrar também as sagradas imagens de Jesus Cristo e dos Santos?

Sim, porque a honra que se tributa às sagradas imagens de Jesus Cristo e dos Santos, refere-se às suas mesmas pessoas.

E as relíquias dos Santos, podem honrar-se?

Sim, também as relíquias dos Santos podem e devem honrar-se porque os seus corpos foram membros vivos de Jesus Cristo e templos do Espírito Santo, e devem ressurgir gloriosos para a vida eterna.

Que diferença há entre o culto que prestamos a Deus, e o culto que prestamos aos Santos?

Entre o culto que prestamos a Deus e o culto que prestamos aos Santos há esta diferença: que a Deus adoramo-Lo pela sua infinita excelência, ao passo que aos Santos não os adoramos, mas só os honramos e veneramos como amigos de Deus e nossos intercessores junto dEle. O culto que prestamos a Deus chama-se latria, isto é, de adoração, e o culto que prestamos aos Santos chama-se dulia, isto é, de veneração aos servos de Deus; enfim o culto especial que prestamos a Maria Santíssima chama-se hiperdulia, isto é, de essencialíssima veneração, como Mãe de Deus.(p.106-110).

(…)

Que é a blasfêmia?(p.111)

A blasfêmia é um pecado horrível que consiste em palavras ou atos de desprezo ou maldição contra Deus, contra a Virgem, contra os Santos, ou contra as coisas santas.
Há diferença entre a blasfêmia e a imprecação ou praga?

Há diferença, porque com a blasfêmia se amaldiçoa ou se deseja mal a Deus, a Nossa Senhora, aos Santos; ao passo que, com a imprecação ou praga, se amaldiçoa ou se deseja mal a si mesmo ou ao próximo.

(…)

Em que consiste o jejum eucarístico?

O jejum eucarístico consiste em abster-se de qualquer espécie de comida ou bebida, exceto a água natural, que, na atual disciplina eucarística, não quebra o jejum.(p.159).

Quem não está em jejum, pode comungar alguma vez?

Comungar sem estar em jejum é permitido aos doentes que estão em perigo de morte, e aos que sofrem com enfermidades prolongadas. A comunhão feita pelos doentes em perigo de morte chama-se Viático, porque os sustenta na viagem que eles fazem desta vida à eternidade.(p.160).

Em que consiste a preparação antes da Comunhão?

A preparação antes da Comunhão consiste em nos entretermos algum tempo a
considerar quem é Aquele que vamos receber e quem somos nós; e em fazer atos de fé, de esperança, de caridade, de contrição, de adoração, de humildade e de desejo de receber a Jesus Cristo.

Em que consiste a ação de graças depois da Comunhão?

A ação de graças depois da Comunhão consiste em nos conservarmos recolhidos a honrar a presença do Senhor dentro de nós mesmos, renovando os atos de fé, de esperança, de caridade, de adoração, de agradecimento, de oferecimento e de súplica, pedindo sobretudo aquelas graças que são mais necessárias para nós e para aqueles por quem somos obrigados a orar. Sobretudo licença especial em razão de moléstia.

Que se deve fazer no dia da Comunhão?

No dia da Comunhão deve-se manter, o mais possível, o recolhimento, ocupar-se em obras de piedade, bem como cumprir com grande esmero os deveres de estado.

Depois da sagrada Comunhão, quanto tempo permanece Jesus Cristo em nós?

Depois da sagrada Comunhão, Jesus Cristo permanece em nós com a sua graça enquanto se não peca mortalmente; e com a sua presença real permanece em nós enquanto se não consomem as espécies sacramentais.(p.160-161)

(…)

Que é a indulgência?(p.191-193).

A indulgência é a remissão da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa, remissão que a Igreja concede fora do Sacramento da Penitência.

De quem recebeu a Igreja o poder de conceder indulgências?

Foi de Jesus Cristo que a Igreja recebeu o poder de conceder indulgências.

De que maneira nos perdoa a Igreja a pena temporal por meio das indulgências?

A Igreja perdoa a pena temporal por meio das indulgências, aplicando-nos as satisfações superabundantes de Jesus Cristo, da Santíssima Virgem e dos Santos, as quais formam o que se chama o tesouro da Igreja.

Quem tem o poder de conceder indulgências?

O poder de conceder indulgências pertence ao Papa em toda a Igreja, e ao Bispo, na sua diocese, na medida em que lhe é concedido pelo Papa.

Quantas espécies há de indulgências?

Há duas espécies de indulgências: a indulgência plenária e a indulgência parcial.

Que é a indulgência plenária?

A indulgência plenária é a que perdoa toda a pena temporal devida pelos nossos pecados. Por isso, se alguém morresse depois de ter recebido esta indulgência, iria logo para o céu, inteiramente isento das penas do Purgatório.

Que é a indulgência parcial?

A indulgência parcial é a que perdoa só uma parte da pena temporal, devida pelos nossos pecados.

Qual é a intenção da Igreja ao conceder as indulgências?

A intenção da Igreja ao conceder as indulgências é auxiliar a nossa incapacidade de expiar neste mundo toda a pena temporal, fazendo-nos conseguir por meio de obras de piedade e de caridade cristã aquilo que nos primeiros séculos Ela obtinha com o rigor dos cânones penitenciais.

Em que apreço devemos ter as indulgências?

Devemos ter as indulgências em muito grande apreço, porque com elas se satisfaz a justiça de Deus e mais depressa e mais facilmente se alcança a posse do céu.

Quais são as condições requeridas para se ganharem as indulgências?

As condições para se ganharem as indulgências são:

1º o estado de graça, pelo menos ao cumprir a última obra, e o desapego mesmo das culpas veniais cuja a pena se quer apagar;

2º o cumprimento das obras que a Igreja prescreve para se ganhar a indulgência;

3º a intenção de ganhá-las.

Podem as indulgências aplicar-se também às almas do Purgatório?

Sim, as indulgências podem aplicar-se também às almas do Purgatório quando quem as concede declara que se lhes podem aplicar.

Que é o Jubileu?

O Jubileu, que ordinariamente se concede todos os vinte e cinco anos, é uma
indulgência plenária, à qual estão anexos muitos privilégios e concessões particulares, como o poder de obter-se a absolvição de alguns pecados reservados e de censuras, e a comutação de alguns votos.

(…)

Será pecado desprezar os Sacerdotes?(p.196)

É pecado gravíssimo, porque o desprezo e as injúrias que se dirigem contra os
Sacerdotes recaem sobre o próprio Jesus Cristo, que disse aos seus Apóstolos: Quem a vós despreza, a Mim despreza.

§ 2º – Da Fé

Que é a Fé?

A Fé e uma virtude sobrenatural, infundida por Deus em nossa alma, pela qual nós, apoiados na autoridade do mesmo Deus, acreditamos que é verdade tudo o que Ele revelou e por meio da Santa Igreja nos propõe para crer.(p.207)

Como conhecemos as verdades reveladas por Deus?

Conhecemos as verdades reveladas por Deus, por meio da Santa Igreja que é infalível, isto é, por meio do Papa, sucessor de São Pedro, e por meio dos Bispos que, em união com o Papa, são sucessores dos Apóstolos, os quais foram instruídos pelo próprio Jesus Cristo.

Temos nós a certeza de que são verdadeiras as doutrinas que a Santa Igreja nos ensina?

Sim, temos a certeza absoluta de que são verdadeiras as doutrinas que a Santa Igreja nos ensina, porque Jesus Cristo empenhou a sua palavra, que a Igreja nunca se enganaria.

Com que pecado se perde a Fé?

A Fé perde-se negando ou duvidando voluntariamente, ainda que seja de um só artigo que nos é proposto para crer.

Como recuperamos a Fé?

Recuperamos a Fé perdida, arrependendo-nos do pecado cometido e crendo de novo tudo o que crê a Santa Igreja(p.207).
Por que proíbe a Igreja as Bíblias protestantes?

A Igreja proíbe as Bíblias protestantes, porque ou estão alteradas e contêm erros, ou então, faltando-lhes a sua aprovação e as notas explicativas das passagens obscuras, podem causar dano à Fé. Por isso a Igreja proíbe também as traduções da Sagrada Escritura já aprovadas por Ela, mas reimpressas sem as explicações que a mesma Igreja aprovou.(p.210-211).

§ 6º – Da Esperança

Que é a Esperança?(p.211-215)

A Esperança é uma virtude sobrenatural, infundida por Deus na nossa alma, pela qual desejamos e esperamos a vida eterna que Deus prometeu aos seus servos, e os auxílios necessários para alcançá-la.

Por que motivo devemos esperar de Deus o Paraíso e os auxílios necessários para alcançá-lo?

Devemos esperar de Deus o Paraíso e os auxílios necessários para alcançá-lo, porque Deus misericordiosíssimo, pelos merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, o prometeu a quem o serve de todo o coração; e, sendo fidelíssimo e onipotente, cumpre sempre a sua promessa.

Quais são as condições necessárias para alcançar o Paraíso?

As condições necessárias para alcançar o Paraíso são: a graça de Deus, a prática das boas obras e a perseverança no seu santo amor até à morte.

Como se perde a Esperança?

Perde-se a Esperança todas as vezes que se perde a Fé; perde-se também pelo pecado de desespero ou de presunção.

Como recuperamos a Esperança?

Recuperamos a Esperança perdida, arrependendo-nos do pecado cometido, e excitando-nos de novo à confiança na bondade divina.

§ 7° – Da Caridade

Que é a Caridade?

A Caridade é uma virtude sobrenatural, infundida por Deus em nossa alma, pela qual amamos a Deus por Si mesmo sobre todas as coisas, e amamos o próximo como a nós mesmos, por amor de Deus.

Por que motivos devemos amar a Deus?

Devemos amar a Deus, porque Ele é o sumo Bem, infinitamente bom e perfeito, e além disso por que Ele o manda, e pelos inumeráveis benefícios que dEle recebemos.

Como se deve amar a Deus?

Devemos amar a Deus sobre todas as coisas, com todo o nosso coração, com toda a nossa mente, com toda a nossa alma, e com todas as nossas forças.

Que quer dizer: amar a Deus sobre todas as coisas?

Amar a Deus sobre todas as coisas quer dizer: preferi-Lo a todas as criaturas mais caras e mais perfeitas, e estar disposto a perder tudo antes que ofendê-Lo ou deixar de amá-Lo.

Que quer dizer: amar a Deus com todo o nosso coração?

Amar a Deus com todo o nosso coração quer dizer: consagrar-Lhe todos os nossos afetos.

Que quer dizer: amar a Deus com toda a nossa mente?

Amar a Deus com toda a nossa mente quer dizer: dirigir para Ele todos os nossos pensamentos.

Que quer dizer: amar a Deus com toda a nossa alma?

Amar a Deus com toda a nossa alma quer dizer: consagrar-Lhe o uso de todas as potências da nossa alma.

Que quer dizer: amar a Deus com todas as nossas forças?

Amar a Deus com todas as nossas forças quer dizer: esforçar-se por crescer cada vez mais no amor dEle, e proceder de maneira que todas as nossas ações tenham por motivo e por fim o seu amor e o desejo de Lhe agradar.

Por que devemos amar o próximo?

Devemos amar o próximo por amor de Deus porque Ele o manda, e porque todo o homem é imagem de Deus.

Somos obrigados a amar também os inimigos?

Sim, somos obrigados a amar também os inimigos, porque também eles são nossos próximos, e porque Jesus Cristo o mandou expressamente.

Que quer dizer: amar o próximo como a nos mesmos?

Amar o próximo como a nós mesmos quer dizer: desejar-lhe e fazer-lhe, tanto quanto pudermos, todo o bem que devemos desejar para nós mesmos, e não lhe desejar nem fazer mal algum.

Quando amamos a nós mesmos retamente?

Amamos retamente a nós mesmos quando procuramos servir a Deus e pôr nEle toda a nossa felicidade.

Como se perde a Caridade?

Perde-se a Caridade com qualquer pecado mortal.

Como recuperamos a Caridade?

Recuperamos a Caridade, fazendo atos de amor de Deus, arrependendo-nos e
confessando-nos bem.

§ 8º – Das virtudes cardeais

Quais são as virtudes cardeais?

As virtudes cardeais são: a Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança.

Por que se chamam virtudes cardeais a Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança?

Chamam-se virtudes cardeais a Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança, porque são a base e o fundamento das virtudes morais.

(*) O nome de cardeais vêm-lhes da palavra latina cardo, que significa a dobradiça, os gonzos da porta, e mostra como todas as virtudes giram em torno destas (N. do T.)

Que é a Prudência?

A Prudência é a virtude que dirige toda ação ao devido fim, e por isso procura os meios convenientes para que a ação seja em tudo bem feita, e portanto aceita ao Senhor.

Que é a Justiça?

A Justiça é a virtude pela qual damos a cada um o que lhe pertence.

Que é a Fortaleza?

A Fortaleza é a virtude que nos dá coragem parti não temer perigo algum, nem a própria morte, no serviço de Deus.

Que é a Temperança?

A Temperança é a virtude pela qual refreamos os desejos desordenados de prazeres sensuais, e usamos com moderação dos bens temporais.

CAPÍTULO II
Dos dons do Espírito Santo

Quantos e quais são os dons do Espírito Santo?

Os dons do Espírito Santo são sete:

1º Sabedoria;
2º Entendimento;
3º Conselho;
4º Fortaleza:
5º Ciência;
6º Piedade;
7º Temor de Deus.

Para que servem os dons do Espírito Santo?

Os dons do Espírito Santo servem para nos confirmar na Fé, na Esperança e na Caridade, e para nos tornar solícitos para os atos das virtudes necessárias para conseguir a perfeição da vida cristã.

Que é a Sabedoria?

A Sabedoria é um dom pelo qual nós, elevando o espírito acima das coisas terrenas e frágeis, contemplamos as eternas, isto é, a Verdade, que é Deus, no qual pomos nossa complacência, amando-O como nosso Sumo bem.

Que é o Entendimento?

O Entendimento é um dom pelo qual nos é facilitada, quanto é possível a um homem mortal, a inteligência das verdades da Fé e dos divinos mistérios, os quais não podemos conhecer com as luzes naturais da nossa razão.

Que é o Conselho?

O Conselho é um dom pelo qual, nas dúvidas e incertezas da vida humana, conhecemos o que mais convém à glória de Deus, à nossa salvação e à do próximo.

Que é a Fortaleza?

A Fortaleza é um dom que nos incute energia e coragem para observar fielmente a santa Lei de Deus e da Igreja, vencendo todos os obstáculos, e os assaltos dos nossos inimigos.
Que é a Ciência?

A Ciência é um dom pelo qual julgamos retamente das coisas criadas, e conhecemos o modo de bem usar delas e de as dirigir ao último fim, que é Deus.

Que é a Piedade?

Á Piedade é um dom pelo qual veneramos e amamos a Deus e aos Santos, e
conservamos ânimo bondoso e benévolo para com o próximo, por amor de Deus.

Que é o Temor de Deus?

O Temor de Deus é um dom que nos faz reverenciar a Deus, e ter receio de ofender a sua Divina Majestade, e que nos afasta do mal, incitando-nos ao bem. (p.211-215)

(…)

Por que Jesus Cristo nos propôs as Bem-aventuranças?(p.218-224).

Jesus Cristo propôs-nos as Bem-aventuranças para os fazer detestar as máximas do mundo, e para nos convidar a amar e praticar as máximas do seu Evangelho.

Quem são aqueles que o mundo chama bem-aventurados?

O mundo chama bem-aventurados aqueles que desfrutam abundância de riquezas e de honras, que vivem em delícias e que não têm nada que os faça sofrer.

Quem são os pobres de espírito, que Jesus Cristo chama bem-aventurados?

Os pobres de espírito, segundo o Evangelho, são aqueles que têm o coração desapegado das riquezas; fazem bom uso delas, se as possuem; não as procuram com solicitude, se não as têm; e sofrem com resignação a perda delas se lhes são tiradas.

Quem são os mansos?

Os mansos são aqueles que tratam o próximo com brandura, e lhe sofrem com paciência os defeitos e as ofensas que dele recebem, sem alteração, ressentimentos ou vingança.

Quem são os que choram, e todavia são chamados bem-aventurados?

Os que choram, e todavia são chamados bem-aventurados, são aqueles que sofrem com resignação as tribulações, e que se afligem pelos pecados cometidos, pelos males e pelos escândalos que se vêem no mundo, pela ausência do céu, e pelo perigo de o perder.

Quem são os que têm fome e sede de justiça?

Os que têm fome e sede de justiça são aqueles, que desejam ardentemente crescer cada vez mais na graça de Deus e na prática das obras boas e virtuosas.

Quem são os que usam de misericórdia?

Os que usam de misericórdia são aqueles que amam, em Deus e por amor de Deus, o seu próximo, se compadecem das suas misérias, assim corporais como espirituais, e procuram socorrê-lo conforme as suas forças e o seu estado.

Quem são os puros de coração?

Os puros de coração são aqueles que não têm nenhum afeto ao pecado, sempre se afastam dele, e evitam sobretudo toda a espécie de impureza.

Quem são os pacíficos?

Os pacíficos são aqueles que vivem ein paz com o próximo e consigo mesmos, e procuram estabelecer a paz entre aqueles que estão em discórdia.

Quem são os que sofrem perseguição por amor da justiça?

Os que sofrem perseguição por amor da justiça são aqueles que suportam com paciência os escárnios, as censuras, as perseguições por causa da Fé e da Lei de Jesus Cristo.

Que significam os diversos prêmios prometidos por Jesus Cristo nas Bemaventuranças?

Os diversos prêmios prometidos por Jesus Cristo nas Bem-aventuranças significam todos, sob diversos nomes, a glória eterna do Céu.

Alcançam-nos as Bem-aventuranças só a glória eterna do Paraíso?

As Bem-aventuranças não nos alcançam só a glória eterna do Paraíso; são também meios de tornar nossa vida feliz, tanto quanto é possivel, neste mundo.

Recebem já alguma recompensa nesta vida os que seguem as Bem-aventuranças?

Sim, certamente, os que seguem as Bem-aventuranças recebem já alguma recompensa nesta vida, porque já gozam de uma paz e de um contentamento íntimos que são princípio, embora imperfeito, da felicidade eterna.

Poderão dizer-se felizes os que seguem as máximas do mundo?

Não. Os que seguem as máximas do mundo não são felizes, porque não têm a
verdadeira paz da alma e estão em risco de se condenar.

CAPÍTULO IV
Das obras de misericórdia

Quais são as boas obras de que se nos pedirá conta particular no dia do Juízo?

As boas obras de que se tios pedirá conta particular no dia do Juízo são as obras de misericórdia.

Que se entende por obra de misericórdia?

Obra de misericórdia é aquela com que se socorre o nosso próximo nas suas
necessidades corporais ou espirituais.

Quantas são as obras de misericórdia?

As obras de misericórdia são catorze: sete corporais e sete espirituais, conforme são corporais ou espirituais as necessidades que se socorrem,

Quais são as obras de misericórdia corporais?

As obras de misericórdia corporais são:
1ª Dar de comer a quem tem fome;
2ª Dar de beber a quem tem sede;
3ª Vestir os nus;
4ª Dar pousada aos peregrinos;
5ª Assistir aos enfermos;
6ª Visitar os presos;
7ª Enterrar os mortos.
Quais são as obras de misericórdia espirituais?

As obras de misericórdia espirituais são:
1ª Dar bom conselho;
2º Ensinar os ignorantes;
3ª Corrigir os que erram;
4ª Consolar os aflitos;
5ª Perdoar as injúrias;
6ª Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo;
7ª Rogar a Deus por vivos e defuntos.

CAPÍTULO V
Dos pecados e das suas espécies principais

Quantas espécies há de pecado?

Há duas espécies de pecado: o pecado original e o pecado atual.

Que é o pecado original?

O pecado original é aquele com o qual todos nascemos, exceto a Santíssima Virgem Maria, e que contraímos pela desobediência do nosso primeiro pai Adão.

Que males nos causa o pecado de Adão?

Os males causados pelo pecado de Adão são: a privação da graça, a perda do Paraíso, a ignorância, a inclinação para o mal, a morte e todas as demais misérias.

Como se apaga o pecado original?

O pecado original apaga-se com o santo Batismo.

Que é o pecado atual?

O pecado atual é aquele que o homem, chegado ao uso da razão, comete por sua livre vontade.

Quantas espécies há de pecado atual?

Há duas espécies de pecado atual: o mortal e o venial.

Que é o pecado mortal?

O pecado mortal é uma transgressão da lei divina, pela qual se falta gravemente aos deveres para com Deus, para com o próximo, ou para com nós mesmos.

Por que se chama mortal?

Chama-se mortal porque dá a morte à alma, fazendo-a perder a graça santificante, que é a vida da alma como a alma é a vida do corpo.

Que males causa à alma o pecado mortal?

O pecado mortal:
1º priva a alma da graça e da amizade de Deus;
2º fá-la perder o Céu;
3º priva-a dos merecimentos adquiridos e torna-a incapaz de adquirir novos;
4º torna a alma escrava do demônio;
5º fá-la merecer o Inferno e também os castigos desta vida.

Além da gravidade da matéria, que mais se requer para haver um pecado mortal?

Além da gravidade da matéria, para haver um pecado mortal requer-se a plena
advertência desta gravidade, e a vontade deliberada de cometer o pecado.

Que é o pecado venial?

O pecado venial é uma leve transgressão da lei divina, pela qual se falta levemente a algum dever para com Deus, para com o próximo, ou para com nós mesmos.

Por que se chama venial?

Porque é leve em comparação com o pecado mortal; porque não nos faz perder a graça divina; e porque Deus facilmente o perdoa.

Então não se deve fazer grande caso do pecado venial?

Isto seria um erro enorme, porque o pecado venial contém sempre uma ofensa a Deus, e causa prejuízos não pequenos à alma.

Que prejuízos causa o pecado venial?

O pecado venial:
1º enfraquece e esfria em nós a caridade;
2º dispõe-nos para o pecado mortal;
3º faz-nos merecedores de grandes penas temporais, neste mundo ou no outro.

CAPÍTULO VI
Dos pecados ou vícios capitais e de outros pecados mais graves

Que é o vício?

O vício é uma disposição má da alma que leva-a a fugir do bem e a fazer o mal, causada pela freqüente repetição dos atos maus.

Que diferença há entre pecado e vício?

Entre pecado e vício há esta diferença: que o pecado é um ato que passa, enquanto o vício é o mau hábito contraído de cair em algum pecado.

Quais são os vícios que se chamam capitais?

Os vícios que se chamam capitais são sete:
1º soberba;
2º avareza;
3º luxúria;
4º ira;
5º gula;
6º inveja;
7º preguiça.

Como se vencem os vícios ou pecados capitais?

Os vícios ou pecados capitais vencem-se com a prática das virtudes opostas. Assim, a soberba vence-se com a humildade; a avareza, com a liberalidade; a luxúria, com a castidade; a ira, com a paciência; a gula, com a temperança; a inveja, com a caridade; a preguiça, com a diligência e fervor no serviço de Deus.

Por que se chamam capitais estes vícios?

Chamam-se capitais estes vícios, porque são a fonte e a causa de muitos outros vícios e pecados.

Quantos são os pecados contra o Espírito Santo?

Os pecados contra o Espírito Santo são seis:
1º desesperar da salvação;
2º Presunção de se salvar sem merecimentos;
3º combater a verdade conhecida;
4º ter inveja das graças que Deus dá a outrem;
5º obstinar-se no pecado;
6º morrer na impenitência final.

Por que se chamam estes pecados particularmente pecados contra o Espírito Santo?

Chamam-se estes pecados particularmente pecados contra o Espírito Santo, porque se cometem por pura malícia, o que é contrário à bondade que se atribui ao Espírito Santo.

Quais são os pecados que bradam ao Céu e pedem vingança a Deus?

Os pecados que bradam ao Céu e pedem vingança a Deus são quatro:
1º homicídio voluntário;
2º pecado impuro contra a natureza;
3º opressão dos pobres, principalmente órfãos e viúvas;
4º não pagar o salário a quem trabalha.

Por que se diz que estes pecados pedem vingança a Deus?

Diz-se que estes pecados pedem vingança a Deus, porque o diz o Espírito Santo, e porque a sua malícia é tão grave e manifesta, que provoca o mesmo Deus a puni-los com os mais severos castigos. (p.218-224).

O jovenzinho Tarcísio tinha-se oferecido generosa e corajosamente para levar às escondidas a Eucaristia aos cristãos presos por causa da fé, durante as perseguições. Informa-nos o Papa Dâmaso I: “Tarcísio levava os Mistérios de Cristo (termo que na Antiguidade indicava as Hóstias consagradas), quando uma mão criminosa tentou profaná-Los; Tarcísio, porém, preferiu deixar-se massacrar em vez de entregar o Corpo do Senhor àqueles malvados”.

Com efeito, foi espancado até a morte com paus e pedras e, quando os assassinos viraram o seu corpo, deram-se conta que as Hóstias tinham desaparecido prodigiosamente das suas mãos.

Fonte: Pequeno Catecismo Eucarístico.2002. Ed. Brasileira preparada por Prof. Edson José Reis.pag.81.


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