Biografia dos Santos

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Biografia de Santa Isabel da Hungria pelo Vaticano

CARTA DO PAPA BENTO XVI

AO CARDEAL PÉTER ERDO,

PRIMAZ DA HUNGRIA,

PELO VIII CENTENÁRIO DO NASCIMENTO

DE SANTA ISABEL

Ao Venerado Irmão Card. PÉTER ERDO
Arcebispo de Esztergom-Budapeste
Primaz da Hungria
Presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa

Com grande satisfação tomei conhecimento de que estão em preparação festas especiais para o VIII centenário de Santa Isabel da Turíngia ou da Hungria, que se celebra este ano. Nesta feliz circunstância peço-lhe que se torne intérprete junto dos fiéis da Hungria e de toda a Europa da minha espiritual participação nas celebrações previstas: elas serão ocasião oportuna para propor ao inteiro Povo de Deus e, especialmente, à Europa o esplêndido testemunho desta Santa, cuja fama atravessou os confins da própria Pátria, envolvendo muitíssimas pessoas também não cristas em todo o Continente.

Santa “europeia”, Isabel tinha nascido num contexto social de recente evangelização. André e Gertrudes, pais dessa autêntica jóia da nova Hungria cristã, preocuparam-se em formá-la na consciência da própria dignidade de filha adoptiva de Deus. Isabel fez seu o programa de Jesus Cristo, Filho de Deus, que ao fazer-se homem, “despojou-se de si mesmo tomando a condição de servo” (Fl 2, 7). Graças à ajuda de óptimos mestres, pôs-se nas pegadas de São Francisco de Assis, propondo-se como pessoal e último objectivo conformar a sua existência à de Cristo, único Redentor do homem.

Chamada a ser esposa do Landgrave da Turíngia, não cessou de se dedicar aos cuidados dos pobres, nos quais reconhecia os traços do Mestre Divino. Soube unir os dotes de esposa e de mãe exemplar ao exercício das virtudes evangélicas, aprendidas na escola do santo de Assis. Revelou-se verdadeira filha da Igreja, oferecendo um testemunho concreto, visível e significativo da caridade de Cristo. Inúmeras pessoas, ao longo dos séculos, seguiram o seu exemplo, olhando para ela como um modelo de virtudes cristãs, vividas de modo radical no matrimónio, na família e também na viuvez. Nela inspiraram-se também personalidades políticas, haurindo dela o entusiasmo para trabalhar pela reconciliação dos povos.

O ano internacional elisabetano, iniciado em Roma no passado dia 17 de Novembro, está a trazer novos estímulos para compreender melhor a espiritualidade desta filha da Panónia, que demonstra ainda hoje aos seus concidadãos e aos habitantes do Continente europeu a importância dos valores imorredouros do Evangelho.

Senhor Cardeal, formulo fervorosos votos a fim de que o conhecimento aprofundado da personalidade e da obra de Isabel da Turíngia possa ajudar a redescobrir com consciência cada vez mais viva as raízes cristãs da Hungria e da própria Europa, impelindo os responsáveis a desenvolver de modo harmonioso o respeitoso diálogo entre a Igreja e as sociedades civis, para construir um mundo realmente livre e solidário. Possa o ano internacional elisabetano constituir para os Húngaros, os Alemães e todos os Europeus, ocasião muito propícia para evidenciar a herança cristã recebida dos pais, de modo a continuar a haurir daquelas raízes a linfa necessária para uma abundante frutificação do novo milénio há pouco iniciado.

Enquanto invoco sobre todos a constante protecção de Maria, Magna Domina Hungarorum, de Santo Estevão e de Santa Isabel, concedo a Vossa Em., Senhor Cardeal, ao Episcopado, ao clero, aos religiosos e a todos os fiéis uma especial Bênção Apostólica, penhor de abundantes favores celestes.

Vaticano, 27 de Maio de 2007.

BENEDICTUS PP. XVI

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/letters/2007/documents/hf_ben-xvi_let_20070527_primate-ungheria_po.html

Biografia de Santa Isabel da Hungria elaborada pelos Capuchinhos

Era filha de André II, rei da Hungria, e nasceu no ano 1207. Ainda muito jovem foi dada em matrimónio a Luís IV, landgrave da Turíngia, e teve três filhos. Dedicou-se a uma vida de intensa meditação das realidades celestes e de caridade para com o próximo. Depois da morte de seu marido, renunciou aos seus títulos e bens e construiu um hospital onde ela mesma servia os enfermos. Morreu em Marburgo no ano 1231.

Da Carta do Conrado de Marburgo, director espiritual de Santa Isabel

(Ao Sumo Pontífice, no ano 1232; A. Wyss, Hessisches Urkundenbuch I, Leipzig 1879, 31-35)

Isabel começou muito cedo a distinguir se na virtude. Em toda a sua vida foi consoladora dos pobres; a dada altura dedicou-se inteiramente aos famintos e, junto de um castelo seu, mandou construir um hospital onde recolhia muitos enfermos e estropiados. Distribuía largamente os dons da sua beneficência, não só a quantos ali acorriam a pedir esmola, mas em todos os territórios da jurisdição de seu marido, chegando ao ponto de gastar nessas obras de assistência todas as rendas provenientes dos quatro principados e vendendo por fim, para utilidade dos pobres, todos os objectos de valor e vestes preciosas. Costumava visitar duas vezes por dia, de manhã e à tarde, todos os seus doentes, ocupando se pessoalmente dos que apresentavam aspecto mais repugnante. Dava de comer a uns, deitava outros na cama, transportava outros aos ombros e dedicava se a todo o género de serviço humanitário. Em todas estas coisas nunca ela encontrou má vontade em seu marido de grata memória.

Finalmente, depois da morte deste, no desejo da suma perfeição, pediu-me com lágrimas que a autorizasse a pedir esmola de porta em porta. Precisamente no dia de Sexta-Feira Santa, estando desnudados os altares, numa capela da sua cidade, onde acolhera os Frades Menores, na presença de testemunhas e postas as mãos sobre o altar, renunciou à sua própria vontade, a todas as pompas do mundo e ao que o Salvador no Evangelho aconselha a deixar. Feito isto e vendo que poderia ser absorvida pelo tumulto do século e pela glória mundana naquela terra, em que no tempo do marido vivera com tanta grandeza, veio para Marburgo contra minha vontade. Nesta cidade construiu um hospital para receber doentes e aleijados dos quais sentou à sua mesa os mais miseráveis e desprezados.

Além destas actividades caritativas, diante de Deus o afirmo, raras vezes encontrei mulher mais dada à contemplação. Algumas religiosas e religiosos viram muitas vezes que, quando voltava do recolhimento da oração, o seu rosto resplandecia maravilhosamente e os seus olhos brilhavam como raios de sol. Antes de morrer ouvi-a de confissão. Perguntando-lhe o que se devia fazer dos seus haveres e mobiliário, respondeu-me que tudo quanto parecia possuir era já dos pobres desde há muito tempo e pediu me que distribuísse tudo por eles, excepto a pobre túnica com que estava vestida e com a qual desejava ser sepultada. Depois recebeu o Corpo do Senhor e, seguidamente, até à hora de Vésperas, falou muitas vezes do que mais a tinha impressionado na pregação. Por fim, encomendou devotamente a Deus os que lhe assistiam e expirou como quem adormece suavemente.

Fonte:http://www.capuchinhos.org/index.php?option=com_content&view=article&id=1241:santa-isabel-da-hungria&catid=125:ordem-franciscana-secular&Itemid=499

Biografia de Santa Isabel da Hungria elaborada pelos Arautos do Evangelho – Parte 1

Santa Igreja, Mãe e Mestra dos homens, sempre primou pelo perfeito equilíbrio no tocante ao atendimento de seus filhos. A uns, procura levar à santidade pela justa utilização de seus muitos dons espirituais e materiais. A outros, chama aos mais elevados graus de virtude pela perfeita aceitação resignada de suas carências, muitas vezes dolorosíssimas.

Santa Isabel da Hungria (1207-1231) passou voluntariamente de um estado a outro e foi incontestavelmente uma “mulher forte” de que nos fala a Sagrada Escritura (Pr 31,10-29). Filha de André II, rei da Hungria, casou-se com o duque da Turíngia. Viúva aos vinte anos, renunciou a vantajosas segundas núpcias, querendo servir a Deus praticando a pobreza. Não satisfeita com os sacrifícios que se impôs nesta vida, resolveu galgar um grau a mais na escola da perfeição e passou a tratar dos leprosos.

Naqueles tempos de fé universal, a religião podia lutar de frente contra todos os males da sociedade, da qual ela era a soberana absoluta; e àquela triste miséria suprema ela opunha todas as mitigações que a fé e a piedade sabem gerar nas almas cristãs. Não podendo extinguir os deploráveis resultados materiais do mal, ela sabia pelo menos acabar com a reprovação moral que podia prender-se àquelas infelizes vítimas; ela as revestia de uma espécie de sagração piedosa e as constituía como as representantes e pontífices do peso das dores humanas que Jesus Cristo viera carregar, e que os filhos de sua Igreja têm como primeiro dever abrandar em seus irmãos. A lepra tinha, pois, naquela época, qualquer coisa de sagrado aos olhos da Igreja e dos fiéis: era um dom de Deus, uma distinção especial, uma expressão, por assim dizer, da atenção divina.

“Morra para o mundo e renasça para Deus!”

Os anais da Normandia (França) contam que um cavaleiro de muito ilustre linhagem, Raoultz Fitz-Giroie, um dos valentes do tempo de Guilherme o Conquistador, tendo-se tornado monge, pediu humildemente a Deus, como uma graça particular, ser atingido por uma lepra incurável, a fim de resgatar assim seus pecados. E foi atendido. A mão de Deus, do Deus sempre justo e misericordioso, havia tocado um cristão, o havia atingido de uma maneira misteriosa e inacessível para a ciência humana; desde então havia alguma coisa de venerável em seu mal. A soledade, a reflexão, o retiro junto apenas de Deus, tornavam- se uma necessidade para o leproso; mas o amor e as preces de seus irmãos o seguiam em seu isolamento.

A Igreja soube conciliar a mais terna solicitude para com esses rebentos desafortunados de seu seio com as medidas exigidas pela saúde de todos para impedir a extensão do contágio. Quiçá não haja em sua Liturgia nada de mais tocante, e ao mesmo tempo de mais solene, do que o cerimonial denominado separatio leprosorum (separação dos leprosos), com o qual procedia-se ao afastamento daquele que Deus havia atingido, nos povoados onde não havia hospital especialmente consagrado aos leprosos. Celebrava- se na sua presença a Missa de defuntos, após terem sido benzidos todos os utensílios que lhe deveriam servir na sua solidão; e depois que cada assistente lhe tivesse dado sua esmola, o Clero, precedido pela cruz e acompanhado por todos os fiéis, conduzia- o a uma cabana isolada que lhe era designada por moradia. Sobre o telhado dessa choupana o padre colocava terra do cemitério, dizendo:

– Sis mortuus mundo, vivens iterum Deo! – Morra para o mundo, e renasça para Deus!

O padre lhe dirigia a seguir um sermão consolador, no qual lhe fazia entrever as alegrias do Paraíso e sua comunhão espiritual com a Igreja, de cujas preces ele se beneficiava em sua solidão mais ainda do que anteriormente. Depois ele plantava uma cruz de madeira diante da porta da cabana, aí colocava uma caixa para receber a esmola dos transeuntes, e todos se afastavam. Apenas na Páscoa, os leprosos podiam sair de seus “túmulos”, como o próprio Cristo, e entrar por alguns dias nas cidades e aldeias para participar das alegrias universais da Cristandade. Quando morriam assim isolados, se celebravam por eles os funerais com o ofício dos Confessores não pontífices.

“É o ósculo dos leprosos que cura minha alma”

O pensamento da Igreja tinha sido compreendido por todos os seus filhos. Os leprosos recebiam do povo os nomes mais doces e mais consoladores: os “doentes de Deus”, os “queridos pobres de Deus”, os “bons”. Gostava-se de lembrar que o próprio Jesus Cristo tinha sido designado pelo Espírito Santo como um leproso: “E nós O reputávamos como um leproso” (Is 53,4); Ele tinha um leproso como anfitrião quando Maria

Em seu livro História de Santa Isabel da Hungria, Charles de Montalembert, célebre escritor francês do século XIX, traçou um quadro pungente da postura sumamente materna e compassiva da Igreja Católica face à doença mais temida e repugnante, que foi a lepra.

Reproduzimos abaixo, para edificação dos leitores, a sua descrição entremeada de realismo e compaixão cristã.

* * *

Os leprosos eram continuamente objeto da predileção de Santa Isabel da Hungria, e de algum modo até de sua inveja, pois a lepra era, entre todas as misérias humanas, aquela que melhor podia desapegar da vida suas vítimas. Frei Gerardo, Provincial dos franciscanos da Alemanha, veio um dia visitá-la. E ela pôs-se a falar longamente sobre a santa pobreza, e pelo fim da conversa exclamou: “Ah! meu Pai, o que eu quereria antes de tudo, e do fundo do meu coração, seria ser tratada em todas as coisas como uma leprosa qualquer. Quisera que se fizesse para mim, como se faz para essa pobre gente, uma pequena choupana de palha e feno, e que se pendurasse diante da porta um pano, para prevenir os transeuntes, e uma caixa, para que nela se pudesse colocar alguma esmola”.

Representantes do peso das dores humanas

Seja-nos permitido, para explicar essas prodigiosas palavras da santa, introduzir aqui em nossa narração alguns detalhes sobre o modo pelo qual a lepra, e os desafortunados por ela atingidos, foram considerados durante os séculos católicos.

santa Isabel da Hungria.JPG
Santa Isabel da Hungria (Catedral de Lisieux
França

Madalena veio Lhe ungir os pés; Ele com freqüência tomara essa forma para aparecer a seus santos sobre a terra. Acresce que foi principalmente depois das peregrinações na Terra Santa e das Cruzadas que a lepra se tinha espalhado pela Europa; e essa origem aumentava seu caráter sagrado. Uma ordem de cavalaria, a de São Lázaro, fora fundada em Jerusalém para se consagrar exclusivamente ao cuidado dos leprosos, e tinha um leproso como grãomestre; e uma ordem feminina devotara- se ao mesmo fim na mesma cidade, no hospital Saint-Jean l’Aumônier.

Certa vez em que o Bispo Hugo de Lincoln – monge cartuxo – celebrava a Missa, admitiu os leprosos ao ósculo da paz; e como seu chanceler lhe lembrasse que São Martinho curava os leprosos beijando- os, o bispo respondeu: “Sim, o ósculo de São Martinho curava a carne dos leprosos; mas a mim é o ósculo dos leprosos que cura minha alma”. Entre os reis e os grandes da terra, Santa Isabel não foi a única a honrar Cristo nos sucessores de Lázaro. Príncipes ilustres e poderosos consideravam esse dever como uma das prerrogativas de suas coroas. Roberto, rei da França, visitava sem cessar seus hospitais. São Luís tratava-os com uma amizade toda fraterna, visitando-os no Hôpital des Quatre-Temps, e osculava suas chagas. Henrique III, rei da Inglaterra, fazia o mesmo.

Empenhavam-se em prestar aos leprosos os mais humildes serviços

A condessa Sibila de Flandres, tendo acompanhado seu marido Teodorico a Jerusalém, em 1156, passava no hospital de Saint-Jean l’Aumônier, para aí cuidar dos leprosos, o tempo que o conde empregava em combater os infiéis. Um dia em que ela lavava as chagas desses infortunados, sentiu, como Santa Isabel, seu coração sublevar-se contra tão repugnante ocupação; mas, logo em seguida, para se castigar, tomou na boca a água da qual acabava de se servir e a engoliu, dizendo a seu coração: “É preciso que aprendas a servir a Deus nesses pobres; eis teu ofício, mesmo que arrebentes”.

Mas, sobretudo, foram os santos da Idade Média que testemunharam aos leprosos um devotamento sublime. Santa Catarina de Siena teve suas mãos atingidas pela lepra ao cuidar de uma velha leprosa que ela própria quis amortalhar e enterrar; mas, depois de ter assim perseverado até o fim no sacrifício, viu suas mãos tornaremse brancas e puras como as de um recém-nascido, e uma suave luz sair das partes que tinham sido mais atacadas. São Francisco de Assis e Santa Clara, sua nobre seguidora, Santa Odília da Alsácia, Santa Judith da Polônia, Santo Edmundo de Canterbury, e mais tarde São Francisco Xavier e Santa Joana de Chantal compraziam-se em proporcionar aos leprosos os mais humildes serviços. Freqüentemente suas preces obtinham para eles uma cura instantânea.

É no seio dessa gloriosa companhia que Santa Isabel ocupava já lugar pelos anseios invencíveis de seu coração para o Deus que ela sempre via na pessoa dos pobres.

* * *

Aqui termina o trecho do literato historiador. Como faz bem ouvir um testemunho tão cogente e sublime do modo como, em todos os tempos, a Igreja viu e tratou seus filhos mais desafortunados!

Ela é Mãe mesmo!

(Revista Arautos do Evangelho, Nov/2005, n. 47, p. 36 à 38)

Biografia de Santa Isabel da Hungria elaborada pelos Arautos do Evangelho – Parte 2

Em Santa Isabel, parece que a santidade lhe veio do berço. Nasceu em 1207, na Hungria. Aos 4 anos, entrava na capela do castelo, abria o grande livro dos Salmos, e ainda sem saber ler, olhava-o longamente e passava muitas horas recolhida em oração. Ao brincar com outras meninas, procurava algum jeito de encaminhá-las para a capela. Quando esta estava fechada, beijava-lhe a porta, a fechadura, as paredes, pois, dizia ela, “Deus lá dentro repousa”.

Antes de completar dez anos, perdeu a mãe, a Rainha Gertrudes. Na mesma época, faleceu também seu protetor, o Duque Herman, o qual era pai de seu futuro esposo e a tratava como filha, amando-a justamente por sua piedade inocente e graciosa.

Aos 13 anos de idade, realizou-se seu casamento com o poderoso e não menos piedoso Duque Luiz da Turíngia, ao qual havia sido prometida desde tenra infância. Em sua curta existência – faleceu aos 24 anos – ela conquistou o mais glorioso dos títulos: o de Santa.

Caridade em grau heróico

Santa Isabel fazia bom uso da imensa riqueza de seu esposo, distribuindo aos pobres generosas esmolas. Isto causava profunda irritação a muitas pessoas da corte, sobretudo aos seus dois cunhados, Henrique e Conrado. Acusando-a de estar “dilapidando o patrimônio familiar”, estes não perdiam oportunidade de tentar fazer-lhe mal.

E ela, por sua vez, não se contentava em simplesmente dar moedas ou alimentos. Seu amor a Deus a impelia a ações muito mais generosas.

Certa vez, um leproso pedia esmola na porta do castelo.

Guiada por uma inspiração divina, a jovem e formosa Duquesa desceu até lá, tomou o morfético pela mão, levou- o até seu quarto e o fez deitar-se na cama do casal. Após tratar de suas chagas, deixou-o repousando, coberto com um lençol.

“Um escândalo!” – bramiram os intrigantes, que se apressaram em chamar às pressas o Duque Luiz.

Ao chegar, este encontrou Isabel radiante de felicidade. Confiante em que seu digno esposo aprovaria esse heróico ato de caridade, ela narrou-lhe o fato e disse: Ide ao quarto ver.

Maravilhosa surpresa esperava o valente Duque: levantando o lençol, ele viu, não um leproso, mas Nosso Senhor Jesus Cristo! Este deixou-se contemplar por um instante apenas, o suficiente para confirmar naquelas duas almas de escol a certeza de estarem no bom caminho.

Socorro dos infelizes

No ano de 1226, estando seu esposo na Itália com o Imperador Frederico II, uma terrível fome assolou toda a Alemanha, sobretudo a Turíngia. Pelas matas e campos, andavam multidões de infelizes à procura de raízes e frutas para se alimentarem. Bois, cavalos e outros animais que morriam eram logo devorados pelos homens famintos. Em breve a morte começou sua ceifa. Pelos campos e estradas, amontoavam- se os cadáveres.

Nessa terrível situação, a única ocupação de Isabel, dia e noite, era socorrer os infelizes. Transformou seu castelo na “morada da caridade sem limites”, como escreve um de seus biógrafos. Distribuiu aos indigentes todo o dinheiro do tesouro Ducal. Vencendo a oposição de alguns administradores egoístas, mandou abrir os celeiros do castelo, e ela mesma dirigiu a distribuição de tudo, sem nada reservar para seus próprios familiares. Com equilíbrio e bom senso, fazia dar a cada necessitado uma ração diária. Aqueles que, por fraqueza ou doença, não conseguiam subir até o castelo, eram objeto de uma solicitude especial de parte da Santa: ela descia para ir pessoalmente socorrê-los no sopé da montanha.

Fundou três hospitais para auxiliar os doentes: um para mulheres pobres, outro só para crianças, e um terceiro para todos em geral.

Onde havia um agonizante, lá estava ela, a fim de ajudá-lo a morrer bem. Depois passava longo tempo em oração pelas almas dos falecidos, muitos dos quais enterrou com suas próprias mãos, envoltos em toalhas tecidas por ela mesma.

Passado esse terrível período de desolação, ela reuniu os homens e mulheres em condições de trabalhar, providenciou sapatos, roupas e ferramentas para os que não tinham, e ordenou que fossem para o campo cultivar. Em breve voltaram os bons tempos de fartura e ela pôde ver com alegria o trigo encher os celeiros e o sorriso voltar aos lábios de toda aquela gente.

Começam as grandes provações

Para glória de sua Igreja e edificação dos fiéis, Deus faz brilhar de modo especial na alma do Santo uma ou outra virtude. Por exemplo, em São Francisco de Assis, a pobreza; em Santa Bernadete, a humildade; em São Luís de Gonzaga, a castidade. E assim por diante.

Isto não significa, porém, que uma virtude exista isolada na alma do Santo, como uma torre em meio de imensa planície. Não. As virtudes são todas irmãs. É impossível progredir ou decair numa sem avançar ou regredir nas demais.

Em Santa Isabel, reluz muito a solicitude para com os necessitados. Mas ela era exímia na prática de todas as virtudes.

Poucas pessoas levaram tão longe quanto ela o desapego aos bens desta terra e a conformação amorosa com a vontade de Deus.

Esposa exemplar, unida em matrimônio com um marido modelar, a ele dedicava todo o afeto natural e legítimo de seu nobre coração. E era retribuída na mesma proporção. Muito mais do que isso, porém, unia-os o amor a Deus, o desejo de perfeição.

Nesta perspectiva, compreendesse com facilidade a dor da separação, quando o Duque da Turíngia partiu para a Cruzada, em 1227. Sofrimento incomparavelmente maior quando, pouco tempo depois, recebeu a notícia de que ele havia falecido antes mesmo de chegar à Terra Santa.

Do castelo para um abrigo de porcos

Esse era, porém, apenas o início de uma cascata de sofrimentos. Agora ela não tinha mais a proteção de seu virtuoso esposo. Disso se aproveitaram seus dois cunhados para deixarem expandir o ódio que lhe tinham. No mesmo dia a expulsaram do castelo, sob um frio muito rigoroso, com os quatro filhos pequenos, sem lhe permitir levar qualquer dinheiro, agasalho ou alimento. E num requinte de crueldade, proibiram, sob severas penalidades, que qualquer habitante da cidade lhe desse abrigo.

Após bater sem resultado em inúmeras portas, um taberneiro – condoído, porém, temeroso de represálias – acolheu-a, mas oferecendo-lhe como albergue uma espécie de cavalariça que servia também de chiqueiro! Deste modo, a Duquesa e filha de Rei viuse reduzida a passar a noite, com os filhos, na companhia dos porcos, agasalhando- se nos utensílios de montaria para não morrer de frio.

No dia seguinte, pessoas caridosas e de caráter levaram-lhe alimentos. Uma noite e um dia passou ela nesta “pousada dos porcos”, onde foi altamente recompensada por uma aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Um velho sacerdote das redondezas ofereceu-lhe alojamento, não dispondo senão de um miserável casebre. Certo dia, a santa Duquesa visitou o convento dos Frades Menores para pedir… Auxílio? Não. Pediu-lhes para cantarem um Te Deum, na intenção de agradecer ao Senhor a graça de participar nos seus sofrimentos!

Por ordem de seus cunhados, alguns esbirros arrancaram-na daquele miserável abrigo, para mantê-la aprisionada em péssimas condições nas dependências de um velho castelo.

Recusa o mais vantajoso casamento da época

Após alguns meses de indescritíveis sofrimentos, sua tia Matilde, abadessa de Kitzing, tomou conhecimento desses fatos e enviou mensageiros com duas viaturas para levá-la com os filhos para o seu convento.

Passado pouco tempo, seu tio Egbert, Bispo-Príncipe de Bamberg, lhe comunicou uma proposta de casamento com o Imperador Frederico II, o mais poderoso soberano da época. Mas Isabel tinha ambições muito maiores! Seu coração estava todo voltado para o Infinito, nada nesta terra podia satisfazê-lo.

Passados poucos dias, regressaram à Turíngia os cavaleiros que tinham acompanhado o Duque Luiz à Cruzada. Apresentando-se a Conrado e Henrique, censuraram-lhes corajosamente a dureza e crueldade com que haviam tratado a viúva e os filhos de seu próprio irmão. Os dois culpados não resistiram à franqueza altiva dos seus vassalos. E, chorando, pediram perdão a Isabel, restituindo-lhe todos os bens de que a haviam despojado.

A serviço dos enfermos

A Santa mandou construir ao lado do convento dos Frades Menores uma casa modestíssima – apelidada de “palácio de abjeção” pelos parentes de seu falecido marido – na qual se instalou, com os filhos e os serviçais que lhe permaneceram fiéis.

Na Sexta-Feira Santa de 1229, fez votos na Ordem de São Francisco, e tomou o hábito das Clarissas. Tendo edificado para si apenas uma pobre morada, empregou seus recursos em construir igrejas para Deus e hospitais para os doentes pobres, dos quais ela mesma passou a cuidar dia e noite, com mais carinho e solicitude do que antes.

Deus concedeu-lhe a graça de servir aos desvalidos, não somente o pão para o corpo, mas também o esplendor da sua própria luz, através dos milagres que realizava por seu intermédio.

Curas milagrosas

Certo dia, encontrou um menino estropiado e disforme, estendido na soleira da porta de um hospital. Além de surdo-mudo, ele não conseguia andar senão de quatro, como um animal. A mãe deixara-o ali, na esperança de que a boa Duquesa dele se apiedasse e o acolhesse.

Logo que o viu, Isabel abaixou-se para acariciar-lhe os cabelos sujos e revoltos. E perguntou-lhe:

– Onde estão teus pais? Quem te deixou aqui?

Não recebendo resposta, repetiu as perguntas. Mas o pobre ente apenas a fitava com olhos arregalados. Desconfiando de alguma possessão diabólica, ela disse em alta e clara voz:

– Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, eu te ordeno, a ti ou a quem em ti estiver, que me respondas de onde vens!

No mesmo instante, o menino ergueu- se e – ele que não havia aprendido a falar! – explicou-lhe com desembaraço sua triste vida. Depois, caindo de joelhos, pôs-se a chorar de alegria e louvar a Deus todo-poderoso.

– Eu não conhecia Deus, nem sabia de sua existência. Todo o meu ser era morto. Não sabia nada. Bendita sejas tu, senhora, que obtiveste de Deus a graça de não morrer como até o presente vivi.

A estas palavras, Isabel pôs-se também de joelhos para agradecer ao Senhor, junto com o menino, e, por fim, recomendou-lhe:

– Agora volta para teus pais e não digas nada do que te aconteceu. Diz apenas que Deus te socorreu. Guardate sempre do pecado para não acontecer de voltares a ser o que eras.

A notícia desse milagre correu como um rastilho de pólvora, espalhando por toda a Turíngia a fama de santidade de Isabel. Em conseqüência, aumentou o número dos que a ela recorriam.

E Deus dignava-Se de, por sua intercessão, atender a todos.

Deixou pender a cabeça, como se dormisse

No dia 16 de novembro de 1231, a Santa adoeceu. Após receber a unção dos enfermos e o viático, Nosso Senhor lhe apareceu e revelou-lhe que dentro de três dias viria levá-la para o Céu. Depois desta visão, seu rosto ficou tão resplandecente que era quase impossível fixar-lhe os olhos.

Ao primeiro canto do galo do dia 19, ela disse: “Eis a hora em que Jesus nasceu de Maria Virgem. Que galo imponente e lindo seria aquele, o primeiro a cantar naquela noite maravilhosa! Ó Jesus, que resgatastes o mundo, que resgatastes a mim!” Depois acrescentou: “Ó Maria, ó Mãe, vinde em meu socorro!”

Em seguida, disse baixinho: “Silêncio… Silêncio!…” E deixou pender a cabeça, como se dormisse. Sua alma acabava de entrar na glória celeste.

Para satisfazer a devoção do povo que afluía de toda parte, seu santo corpo permaneceu exposto na igreja durante quatro dias. Muitíssimos milagres atestaram a sua santidade. Foi solenemente canonizada em 1235 pelo Papa Gregório IX.

Família de alta nobreza e grandes Santos

A Hungria deu à Igreja numerosos Santos, oriundos de todas as camadas sociais. É o único país que tem a glória de venerar sobre os altares três de seus Reis: Santo Estevão, Santo Américo e São Ladislau. Mas Santa Isabel é, sem dúvida, a mais venerada pelo povo húngaro.

Ela não foi uma figura isolada em seu tempo, em plena Idade Média, a Doce Primavera da Fé. Era sobrinha de Santa Edwiges, Duquesa da Polônia, e tia da suave Santa Isabel, Rainha de Portugal.

Com as graças que alcançou do Céu, e o exemplo de sua vida, obteve a conversão dos dois cunhados.

A de Conrado foi mais radical: acompanhado por seus companheiros de armas, dirigiu-se a Roma – todos a pé e descalços – a fim de pedir perdão ao Papa por seus desmandos. Depois de cumprir a penitência imposta pelo Pontífice, entrou para a Ordem de Santa Maria dos Cavaleiros Teutônicos.

Em 1143, adoeceu ele mortalmente. No leito de dor era tal a pureza de sua alma que a presença de qualquer pessoa em estado de pecado mortal lhe causava dores fortíssimas. Morreu pouco depois, inebriado já da glória celestial.

(Revista Arautos do Evangelho, Nov/2004, n. 35, p. 22 à 25)

Fonte:http://www.arautos.org/view/show/11994-santa-isabel-da-hungria-filha-de-rei-e-mae-dos-pobres

http://www.arautos.org/view/show/7730-santa-isabel-da-hungria-o-sublime-equilibrio-da-igreja-ante-a-miseria-da-lepra

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