Biografia dos Santos

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Biografia de Santa Isabel da Hungria pelo Vaticano

CARTA DO PAPA BENTO XVI

AO CARDEAL PÉTER ERDO,

PRIMAZ DA HUNGRIA,

PELO VIII CENTENÁRIO DO NASCIMENTO

DE SANTA ISABEL

Ao Venerado Irmão Card. PÉTER ERDO
Arcebispo de Esztergom-Budapeste
Primaz da Hungria
Presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa

Com grande satisfação tomei conhecimento de que estão em preparação festas especiais para o VIII centenário de Santa Isabel da Turíngia ou da Hungria, que se celebra este ano. Nesta feliz circunstância peço-lhe que se torne intérprete junto dos fiéis da Hungria e de toda a Europa da minha espiritual participação nas celebrações previstas: elas serão ocasião oportuna para propor ao inteiro Povo de Deus e, especialmente, à Europa o esplêndido testemunho desta Santa, cuja fama atravessou os confins da própria Pátria, envolvendo muitíssimas pessoas também não cristas em todo o Continente.

Santa “europeia”, Isabel tinha nascido num contexto social de recente evangelização. André e Gertrudes, pais dessa autêntica jóia da nova Hungria cristã, preocuparam-se em formá-la na consciência da própria dignidade de filha adoptiva de Deus. Isabel fez seu o programa de Jesus Cristo, Filho de Deus, que ao fazer-se homem, “despojou-se de si mesmo tomando a condição de servo” (Fl 2, 7). Graças à ajuda de óptimos mestres, pôs-se nas pegadas de São Francisco de Assis, propondo-se como pessoal e último objectivo conformar a sua existência à de Cristo, único Redentor do homem.

Chamada a ser esposa do Landgrave da Turíngia, não cessou de se dedicar aos cuidados dos pobres, nos quais reconhecia os traços do Mestre Divino. Soube unir os dotes de esposa e de mãe exemplar ao exercício das virtudes evangélicas, aprendidas na escola do santo de Assis. Revelou-se verdadeira filha da Igreja, oferecendo um testemunho concreto, visível e significativo da caridade de Cristo. Inúmeras pessoas, ao longo dos séculos, seguiram o seu exemplo, olhando para ela como um modelo de virtudes cristãs, vividas de modo radical no matrimónio, na família e também na viuvez. Nela inspiraram-se também personalidades políticas, haurindo dela o entusiasmo para trabalhar pela reconciliação dos povos.

O ano internacional elisabetano, iniciado em Roma no passado dia 17 de Novembro, está a trazer novos estímulos para compreender melhor a espiritualidade desta filha da Panónia, que demonstra ainda hoje aos seus concidadãos e aos habitantes do Continente europeu a importância dos valores imorredouros do Evangelho.

Senhor Cardeal, formulo fervorosos votos a fim de que o conhecimento aprofundado da personalidade e da obra de Isabel da Turíngia possa ajudar a redescobrir com consciência cada vez mais viva as raízes cristãs da Hungria e da própria Europa, impelindo os responsáveis a desenvolver de modo harmonioso o respeitoso diálogo entre a Igreja e as sociedades civis, para construir um mundo realmente livre e solidário. Possa o ano internacional elisabetano constituir para os Húngaros, os Alemães e todos os Europeus, ocasião muito propícia para evidenciar a herança cristã recebida dos pais, de modo a continuar a haurir daquelas raízes a linfa necessária para uma abundante frutificação do novo milénio há pouco iniciado.

Enquanto invoco sobre todos a constante protecção de Maria, Magna Domina Hungarorum, de Santo Estevão e de Santa Isabel, concedo a Vossa Em., Senhor Cardeal, ao Episcopado, ao clero, aos religiosos e a todos os fiéis uma especial Bênção Apostólica, penhor de abundantes favores celestes.

Vaticano, 27 de Maio de 2007.

BENEDICTUS PP. XVI

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/letters/2007/documents/hf_ben-xvi_let_20070527_primate-ungheria_po.html

Biografia de Santa Isabel da Hungria elaborada pelos Capuchinhos

Era filha de André II, rei da Hungria, e nasceu no ano 1207. Ainda muito jovem foi dada em matrimónio a Luís IV, landgrave da Turíngia, e teve três filhos. Dedicou-se a uma vida de intensa meditação das realidades celestes e de caridade para com o próximo. Depois da morte de seu marido, renunciou aos seus títulos e bens e construiu um hospital onde ela mesma servia os enfermos. Morreu em Marburgo no ano 1231.

Da Carta do Conrado de Marburgo, director espiritual de Santa Isabel

(Ao Sumo Pontífice, no ano 1232; A. Wyss, Hessisches Urkundenbuch I, Leipzig 1879, 31-35)

Isabel começou muito cedo a distinguir se na virtude. Em toda a sua vida foi consoladora dos pobres; a dada altura dedicou-se inteiramente aos famintos e, junto de um castelo seu, mandou construir um hospital onde recolhia muitos enfermos e estropiados. Distribuía largamente os dons da sua beneficência, não só a quantos ali acorriam a pedir esmola, mas em todos os territórios da jurisdição de seu marido, chegando ao ponto de gastar nessas obras de assistência todas as rendas provenientes dos quatro principados e vendendo por fim, para utilidade dos pobres, todos os objectos de valor e vestes preciosas. Costumava visitar duas vezes por dia, de manhã e à tarde, todos os seus doentes, ocupando se pessoalmente dos que apresentavam aspecto mais repugnante. Dava de comer a uns, deitava outros na cama, transportava outros aos ombros e dedicava se a todo o género de serviço humanitário. Em todas estas coisas nunca ela encontrou má vontade em seu marido de grata memória.

Finalmente, depois da morte deste, no desejo da suma perfeição, pediu-me com lágrimas que a autorizasse a pedir esmola de porta em porta. Precisamente no dia de Sexta-Feira Santa, estando desnudados os altares, numa capela da sua cidade, onde acolhera os Frades Menores, na presença de testemunhas e postas as mãos sobre o altar, renunciou à sua própria vontade, a todas as pompas do mundo e ao que o Salvador no Evangelho aconselha a deixar. Feito isto e vendo que poderia ser absorvida pelo tumulto do século e pela glória mundana naquela terra, em que no tempo do marido vivera com tanta grandeza, veio para Marburgo contra minha vontade. Nesta cidade construiu um hospital para receber doentes e aleijados dos quais sentou à sua mesa os mais miseráveis e desprezados.

Além destas actividades caritativas, diante de Deus o afirmo, raras vezes encontrei mulher mais dada à contemplação. Algumas religiosas e religiosos viram muitas vezes que, quando voltava do recolhimento da oração, o seu rosto resplandecia maravilhosamente e os seus olhos brilhavam como raios de sol. Antes de morrer ouvi-a de confissão. Perguntando-lhe o que se devia fazer dos seus haveres e mobiliário, respondeu-me que tudo quanto parecia possuir era já dos pobres desde há muito tempo e pediu me que distribuísse tudo por eles, excepto a pobre túnica com que estava vestida e com a qual desejava ser sepultada. Depois recebeu o Corpo do Senhor e, seguidamente, até à hora de Vésperas, falou muitas vezes do que mais a tinha impressionado na pregação. Por fim, encomendou devotamente a Deus os que lhe assistiam e expirou como quem adormece suavemente.

Fonte:http://www.capuchinhos.org/index.php?option=com_content&view=article&id=1241:santa-isabel-da-hungria&catid=125:ordem-franciscana-secular&Itemid=499

Biografia de Santa Isabel da Hungria elaborada pelos Arautos do Evangelho – Parte 1

Santa Igreja, Mãe e Mestra dos homens, sempre primou pelo perfeito equilíbrio no tocante ao atendimento de seus filhos. A uns, procura levar à santidade pela justa utilização de seus muitos dons espirituais e materiais. A outros, chama aos mais elevados graus de virtude pela perfeita aceitação resignada de suas carências, muitas vezes dolorosíssimas.

Santa Isabel da Hungria (1207-1231) passou voluntariamente de um estado a outro e foi incontestavelmente uma “mulher forte” de que nos fala a Sagrada Escritura (Pr 31,10-29). Filha de André II, rei da Hungria, casou-se com o duque da Turíngia. Viúva aos vinte anos, renunciou a vantajosas segundas núpcias, querendo servir a Deus praticando a pobreza. Não satisfeita com os sacrifícios que se impôs nesta vida, resolveu galgar um grau a mais na escola da perfeição e passou a tratar dos leprosos.

Naqueles tempos de fé universal, a religião podia lutar de frente contra todos os males da sociedade, da qual ela era a soberana absoluta; e àquela triste miséria suprema ela opunha todas as mitigações que a fé e a piedade sabem gerar nas almas cristãs. Não podendo extinguir os deploráveis resultados materiais do mal, ela sabia pelo menos acabar com a reprovação moral que podia prender-se àquelas infelizes vítimas; ela as revestia de uma espécie de sagração piedosa e as constituía como as representantes e pontífices do peso das dores humanas que Jesus Cristo viera carregar, e que os filhos de sua Igreja têm como primeiro dever abrandar em seus irmãos. A lepra tinha, pois, naquela época, qualquer coisa de sagrado aos olhos da Igreja e dos fiéis: era um dom de Deus, uma distinção especial, uma expressão, por assim dizer, da atenção divina.

“Morra para o mundo e renasça para Deus!”

Os anais da Normandia (França) contam que um cavaleiro de muito ilustre linhagem, Raoultz Fitz-Giroie, um dos valentes do tempo de Guilherme o Conquistador, tendo-se tornado monge, pediu humildemente a Deus, como uma graça particular, ser atingido por uma lepra incurável, a fim de resgatar assim seus pecados. E foi atendido. A mão de Deus, do Deus sempre justo e misericordioso, havia tocado um cristão, o havia atingido de uma maneira misteriosa e inacessível para a ciência humana; desde então havia alguma coisa de venerável em seu mal. A soledade, a reflexão, o retiro junto apenas de Deus, tornavam- se uma necessidade para o leproso; mas o amor e as preces de seus irmãos o seguiam em seu isolamento.

A Igreja soube conciliar a mais terna solicitude para com esses rebentos desafortunados de seu seio com as medidas exigidas pela saúde de todos para impedir a extensão do contágio. Quiçá não haja em sua Liturgia nada de mais tocante, e ao mesmo tempo de mais solene, do que o cerimonial denominado separatio leprosorum (separação dos leprosos), com o qual procedia-se ao afastamento daquele que Deus havia atingido, nos povoados onde não havia hospital especialmente consagrado aos leprosos. Celebrava- se na sua presença a Missa de defuntos, após terem sido benzidos todos os utensílios que lhe deveriam servir na sua solidão; e depois que cada assistente lhe tivesse dado sua esmola, o Clero, precedido pela cruz e acompanhado por todos os fiéis, conduzia- o a uma cabana isolada que lhe era designada por moradia. Sobre o telhado dessa choupana o padre colocava terra do cemitério, dizendo:

– Sis mortuus mundo, vivens iterum Deo! – Morra para o mundo, e renasça para Deus!

O padre lhe dirigia a seguir um sermão consolador, no qual lhe fazia entrever as alegrias do Paraíso e sua comunhão espiritual com a Igreja, de cujas preces ele se beneficiava em sua solidão mais ainda do que anteriormente. Depois ele plantava uma cruz de madeira diante da porta da cabana, aí colocava uma caixa para receber a esmola dos transeuntes, e todos se afastavam. Apenas na Páscoa, os leprosos podiam sair de seus “túmulos”, como o próprio Cristo, e entrar por alguns dias nas cidades e aldeias para participar das alegrias universais da Cristandade. Quando morriam assim isolados, se celebravam por eles os funerais com o ofício dos Confessores não pontífices.

“É o ósculo dos leprosos que cura minha alma”

O pensamento da Igreja tinha sido compreendido por todos os seus filhos. Os leprosos recebiam do povo os nomes mais doces e mais consoladores: os “doentes de Deus”, os “queridos pobres de Deus”, os “bons”. Gostava-se de lembrar que o próprio Jesus Cristo tinha sido designado pelo Espírito Santo como um leproso: “E nós O reputávamos como um leproso” (Is 53,4); Ele tinha um leproso como anfitrião quando Maria

Em seu livro História de Santa Isabel da Hungria, Charles de Montalembert, célebre escritor francês do século XIX, traçou um quadro pungente da postura sumamente materna e compassiva da Igreja Católica face à doença mais temida e repugnante, que foi a lepra.

Reproduzimos abaixo, para edificação dos leitores, a sua descrição entremeada de realismo e compaixão cristã.

* * *

Os leprosos eram continuamente objeto da predileção de Santa Isabel da Hungria, e de algum modo até de sua inveja, pois a lepra era, entre todas as misérias humanas, aquela que melhor podia desapegar da vida suas vítimas. Frei Gerardo, Provincial dos franciscanos da Alemanha, veio um dia visitá-la. E ela pôs-se a falar longamente sobre a santa pobreza, e pelo fim da conversa exclamou: “Ah! meu Pai, o que eu quereria antes de tudo, e do fundo do meu coração, seria ser tratada em todas as coisas como uma leprosa qualquer. Quisera que se fizesse para mim, como se faz para essa pobre gente, uma pequena choupana de palha e feno, e que se pendurasse diante da porta um pano, para prevenir os transeuntes, e uma caixa, para que nela se pudesse colocar alguma esmola”.

Representantes do peso das dores humanas

Seja-nos permitido, para explicar essas prodigiosas palavras da santa, introduzir aqui em nossa narração alguns detalhes sobre o modo pelo qual a lepra, e os desafortunados por ela atingidos, foram considerados durante os séculos católicos.

santa Isabel da Hungria.JPG
Santa Isabel da Hungria (Catedral de Lisieux
França

Madalena veio Lhe ungir os pés; Ele com freqüência tomara essa forma para aparecer a seus santos sobre a terra. Acresce que foi principalmente depois das peregrinações na Terra Santa e das Cruzadas que a lepra se tinha espalhado pela Europa; e essa origem aumentava seu caráter sagrado. Uma ordem de cavalaria, a de São Lázaro, fora fundada em Jerusalém para se consagrar exclusivamente ao cuidado dos leprosos, e tinha um leproso como grãomestre; e uma ordem feminina devotara- se ao mesmo fim na mesma cidade, no hospital Saint-Jean l’Aumônier.

Certa vez em que o Bispo Hugo de Lincoln – monge cartuxo – celebrava a Missa, admitiu os leprosos ao ósculo da paz; e como seu chanceler lhe lembrasse que São Martinho curava os leprosos beijando- os, o bispo respondeu: “Sim, o ósculo de São Martinho curava a carne dos leprosos; mas a mim é o ósculo dos leprosos que cura minha alma”. Entre os reis e os grandes da terra, Santa Isabel não foi a única a honrar Cristo nos sucessores de Lázaro. Príncipes ilustres e poderosos consideravam esse dever como uma das prerrogativas de suas coroas. Roberto, rei da França, visitava sem cessar seus hospitais. São Luís tratava-os com uma amizade toda fraterna, visitando-os no Hôpital des Quatre-Temps, e osculava suas chagas. Henrique III, rei da Inglaterra, fazia o mesmo.

Empenhavam-se em prestar aos leprosos os mais humildes serviços

A condessa Sibila de Flandres, tendo acompanhado seu marido Teodorico a Jerusalém, em 1156, passava no hospital de Saint-Jean l’Aumônier, para aí cuidar dos leprosos, o tempo que o conde empregava em combater os infiéis. Um dia em que ela lavava as chagas desses infortunados, sentiu, como Santa Isabel, seu coração sublevar-se contra tão repugnante ocupação; mas, logo em seguida, para se castigar, tomou na boca a água da qual acabava de se servir e a engoliu, dizendo a seu coração: “É preciso que aprendas a servir a Deus nesses pobres; eis teu ofício, mesmo que arrebentes”.

Mas, sobretudo, foram os santos da Idade Média que testemunharam aos leprosos um devotamento sublime. Santa Catarina de Siena teve suas mãos atingidas pela lepra ao cuidar de uma velha leprosa que ela própria quis amortalhar e enterrar; mas, depois de ter assim perseverado até o fim no sacrifício, viu suas mãos tornaremse brancas e puras como as de um recém-nascido, e uma suave luz sair das partes que tinham sido mais atacadas. São Francisco de Assis e Santa Clara, sua nobre seguidora, Santa Odília da Alsácia, Santa Judith da Polônia, Santo Edmundo de Canterbury, e mais tarde São Francisco Xavier e Santa Joana de Chantal compraziam-se em proporcionar aos leprosos os mais humildes serviços. Freqüentemente suas preces obtinham para eles uma cura instantânea.

É no seio dessa gloriosa companhia que Santa Isabel ocupava já lugar pelos anseios invencíveis de seu coração para o Deus que ela sempre via na pessoa dos pobres.

* * *

Aqui termina o trecho do literato historiador. Como faz bem ouvir um testemunho tão cogente e sublime do modo como, em todos os tempos, a Igreja viu e tratou seus filhos mais desafortunados!

Ela é Mãe mesmo!

(Revista Arautos do Evangelho, Nov/2005, n. 47, p. 36 à 38)

Biografia de Santa Isabel da Hungria elaborada pelos Arautos do Evangelho – Parte 2

Em Santa Isabel, parece que a santidade lhe veio do berço. Nasceu em 1207, na Hungria. Aos 4 anos, entrava na capela do castelo, abria o grande livro dos Salmos, e ainda sem saber ler, olhava-o longamente e passava muitas horas recolhida em oração. Ao brincar com outras meninas, procurava algum jeito de encaminhá-las para a capela. Quando esta estava fechada, beijava-lhe a porta, a fechadura, as paredes, pois, dizia ela, “Deus lá dentro repousa”.

Antes de completar dez anos, perdeu a mãe, a Rainha Gertrudes. Na mesma época, faleceu também seu protetor, o Duque Herman, o qual era pai de seu futuro esposo e a tratava como filha, amando-a justamente por sua piedade inocente e graciosa.

Aos 13 anos de idade, realizou-se seu casamento com o poderoso e não menos piedoso Duque Luiz da Turíngia, ao qual havia sido prometida desde tenra infância. Em sua curta existência – faleceu aos 24 anos – ela conquistou o mais glorioso dos títulos: o de Santa.

Caridade em grau heróico

Santa Isabel fazia bom uso da imensa riqueza de seu esposo, distribuindo aos pobres generosas esmolas. Isto causava profunda irritação a muitas pessoas da corte, sobretudo aos seus dois cunhados, Henrique e Conrado. Acusando-a de estar “dilapidando o patrimônio familiar”, estes não perdiam oportunidade de tentar fazer-lhe mal.

E ela, por sua vez, não se contentava em simplesmente dar moedas ou alimentos. Seu amor a Deus a impelia a ações muito mais generosas.

Certa vez, um leproso pedia esmola na porta do castelo.

Guiada por uma inspiração divina, a jovem e formosa Duquesa desceu até lá, tomou o morfético pela mão, levou- o até seu quarto e o fez deitar-se na cama do casal. Após tratar de suas chagas, deixou-o repousando, coberto com um lençol.

“Um escândalo!” – bramiram os intrigantes, que se apressaram em chamar às pressas o Duque Luiz.

Ao chegar, este encontrou Isabel radiante de felicidade. Confiante em que seu digno esposo aprovaria esse heróico ato de caridade, ela narrou-lhe o fato e disse: Ide ao quarto ver.

Maravilhosa surpresa esperava o valente Duque: levantando o lençol, ele viu, não um leproso, mas Nosso Senhor Jesus Cristo! Este deixou-se contemplar por um instante apenas, o suficiente para confirmar naquelas duas almas de escol a certeza de estarem no bom caminho.

Socorro dos infelizes

No ano de 1226, estando seu esposo na Itália com o Imperador Frederico II, uma terrível fome assolou toda a Alemanha, sobretudo a Turíngia. Pelas matas e campos, andavam multidões de infelizes à procura de raízes e frutas para se alimentarem. Bois, cavalos e outros animais que morriam eram logo devorados pelos homens famintos. Em breve a morte começou sua ceifa. Pelos campos e estradas, amontoavam- se os cadáveres.

Nessa terrível situação, a única ocupação de Isabel, dia e noite, era socorrer os infelizes. Transformou seu castelo na “morada da caridade sem limites”, como escreve um de seus biógrafos. Distribuiu aos indigentes todo o dinheiro do tesouro Ducal. Vencendo a oposição de alguns administradores egoístas, mandou abrir os celeiros do castelo, e ela mesma dirigiu a distribuição de tudo, sem nada reservar para seus próprios familiares. Com equilíbrio e bom senso, fazia dar a cada necessitado uma ração diária. Aqueles que, por fraqueza ou doença, não conseguiam subir até o castelo, eram objeto de uma solicitude especial de parte da Santa: ela descia para ir pessoalmente socorrê-los no sopé da montanha.

Fundou três hospitais para auxiliar os doentes: um para mulheres pobres, outro só para crianças, e um terceiro para todos em geral.

Onde havia um agonizante, lá estava ela, a fim de ajudá-lo a morrer bem. Depois passava longo tempo em oração pelas almas dos falecidos, muitos dos quais enterrou com suas próprias mãos, envoltos em toalhas tecidas por ela mesma.

Passado esse terrível período de desolação, ela reuniu os homens e mulheres em condições de trabalhar, providenciou sapatos, roupas e ferramentas para os que não tinham, e ordenou que fossem para o campo cultivar. Em breve voltaram os bons tempos de fartura e ela pôde ver com alegria o trigo encher os celeiros e o sorriso voltar aos lábios de toda aquela gente.

Começam as grandes provações

Para glória de sua Igreja e edificação dos fiéis, Deus faz brilhar de modo especial na alma do Santo uma ou outra virtude. Por exemplo, em São Francisco de Assis, a pobreza; em Santa Bernadete, a humildade; em São Luís de Gonzaga, a castidade. E assim por diante.

Isto não significa, porém, que uma virtude exista isolada na alma do Santo, como uma torre em meio de imensa planície. Não. As virtudes são todas irmãs. É impossível progredir ou decair numa sem avançar ou regredir nas demais.

Em Santa Isabel, reluz muito a solicitude para com os necessitados. Mas ela era exímia na prática de todas as virtudes.

Poucas pessoas levaram tão longe quanto ela o desapego aos bens desta terra e a conformação amorosa com a vontade de Deus.

Esposa exemplar, unida em matrimônio com um marido modelar, a ele dedicava todo o afeto natural e legítimo de seu nobre coração. E era retribuída na mesma proporção. Muito mais do que isso, porém, unia-os o amor a Deus, o desejo de perfeição.

Nesta perspectiva, compreendesse com facilidade a dor da separação, quando o Duque da Turíngia partiu para a Cruzada, em 1227. Sofrimento incomparavelmente maior quando, pouco tempo depois, recebeu a notícia de que ele havia falecido antes mesmo de chegar à Terra Santa.

Do castelo para um abrigo de porcos

Esse era, porém, apenas o início de uma cascata de sofrimentos. Agora ela não tinha mais a proteção de seu virtuoso esposo. Disso se aproveitaram seus dois cunhados para deixarem expandir o ódio que lhe tinham. No mesmo dia a expulsaram do castelo, sob um frio muito rigoroso, com os quatro filhos pequenos, sem lhe permitir levar qualquer dinheiro, agasalho ou alimento. E num requinte de crueldade, proibiram, sob severas penalidades, que qualquer habitante da cidade lhe desse abrigo.

Após bater sem resultado em inúmeras portas, um taberneiro – condoído, porém, temeroso de represálias – acolheu-a, mas oferecendo-lhe como albergue uma espécie de cavalariça que servia também de chiqueiro! Deste modo, a Duquesa e filha de Rei viuse reduzida a passar a noite, com os filhos, na companhia dos porcos, agasalhando- se nos utensílios de montaria para não morrer de frio.

No dia seguinte, pessoas caridosas e de caráter levaram-lhe alimentos. Uma noite e um dia passou ela nesta “pousada dos porcos”, onde foi altamente recompensada por uma aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Um velho sacerdote das redondezas ofereceu-lhe alojamento, não dispondo senão de um miserável casebre. Certo dia, a santa Duquesa visitou o convento dos Frades Menores para pedir… Auxílio? Não. Pediu-lhes para cantarem um Te Deum, na intenção de agradecer ao Senhor a graça de participar nos seus sofrimentos!

Por ordem de seus cunhados, alguns esbirros arrancaram-na daquele miserável abrigo, para mantê-la aprisionada em péssimas condições nas dependências de um velho castelo.

Recusa o mais vantajoso casamento da época

Após alguns meses de indescritíveis sofrimentos, sua tia Matilde, abadessa de Kitzing, tomou conhecimento desses fatos e enviou mensageiros com duas viaturas para levá-la com os filhos para o seu convento.

Passado pouco tempo, seu tio Egbert, Bispo-Príncipe de Bamberg, lhe comunicou uma proposta de casamento com o Imperador Frederico II, o mais poderoso soberano da época. Mas Isabel tinha ambições muito maiores! Seu coração estava todo voltado para o Infinito, nada nesta terra podia satisfazê-lo.

Passados poucos dias, regressaram à Turíngia os cavaleiros que tinham acompanhado o Duque Luiz à Cruzada. Apresentando-se a Conrado e Henrique, censuraram-lhes corajosamente a dureza e crueldade com que haviam tratado a viúva e os filhos de seu próprio irmão. Os dois culpados não resistiram à franqueza altiva dos seus vassalos. E, chorando, pediram perdão a Isabel, restituindo-lhe todos os bens de que a haviam despojado.

A serviço dos enfermos

A Santa mandou construir ao lado do convento dos Frades Menores uma casa modestíssima – apelidada de “palácio de abjeção” pelos parentes de seu falecido marido – na qual se instalou, com os filhos e os serviçais que lhe permaneceram fiéis.

Na Sexta-Feira Santa de 1229, fez votos na Ordem de São Francisco, e tomou o hábito das Clarissas. Tendo edificado para si apenas uma pobre morada, empregou seus recursos em construir igrejas para Deus e hospitais para os doentes pobres, dos quais ela mesma passou a cuidar dia e noite, com mais carinho e solicitude do que antes.

Deus concedeu-lhe a graça de servir aos desvalidos, não somente o pão para o corpo, mas também o esplendor da sua própria luz, através dos milagres que realizava por seu intermédio.

Curas milagrosas

Certo dia, encontrou um menino estropiado e disforme, estendido na soleira da porta de um hospital. Além de surdo-mudo, ele não conseguia andar senão de quatro, como um animal. A mãe deixara-o ali, na esperança de que a boa Duquesa dele se apiedasse e o acolhesse.

Logo que o viu, Isabel abaixou-se para acariciar-lhe os cabelos sujos e revoltos. E perguntou-lhe:

– Onde estão teus pais? Quem te deixou aqui?

Não recebendo resposta, repetiu as perguntas. Mas o pobre ente apenas a fitava com olhos arregalados. Desconfiando de alguma possessão diabólica, ela disse em alta e clara voz:

– Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, eu te ordeno, a ti ou a quem em ti estiver, que me respondas de onde vens!

No mesmo instante, o menino ergueu- se e – ele que não havia aprendido a falar! – explicou-lhe com desembaraço sua triste vida. Depois, caindo de joelhos, pôs-se a chorar de alegria e louvar a Deus todo-poderoso.

– Eu não conhecia Deus, nem sabia de sua existência. Todo o meu ser era morto. Não sabia nada. Bendita sejas tu, senhora, que obtiveste de Deus a graça de não morrer como até o presente vivi.

A estas palavras, Isabel pôs-se também de joelhos para agradecer ao Senhor, junto com o menino, e, por fim, recomendou-lhe:

– Agora volta para teus pais e não digas nada do que te aconteceu. Diz apenas que Deus te socorreu. Guardate sempre do pecado para não acontecer de voltares a ser o que eras.

A notícia desse milagre correu como um rastilho de pólvora, espalhando por toda a Turíngia a fama de santidade de Isabel. Em conseqüência, aumentou o número dos que a ela recorriam.

E Deus dignava-Se de, por sua intercessão, atender a todos.

Deixou pender a cabeça, como se dormisse

No dia 16 de novembro de 1231, a Santa adoeceu. Após receber a unção dos enfermos e o viático, Nosso Senhor lhe apareceu e revelou-lhe que dentro de três dias viria levá-la para o Céu. Depois desta visão, seu rosto ficou tão resplandecente que era quase impossível fixar-lhe os olhos.

Ao primeiro canto do galo do dia 19, ela disse: “Eis a hora em que Jesus nasceu de Maria Virgem. Que galo imponente e lindo seria aquele, o primeiro a cantar naquela noite maravilhosa! Ó Jesus, que resgatastes o mundo, que resgatastes a mim!” Depois acrescentou: “Ó Maria, ó Mãe, vinde em meu socorro!”

Em seguida, disse baixinho: “Silêncio… Silêncio!…” E deixou pender a cabeça, como se dormisse. Sua alma acabava de entrar na glória celeste.

Para satisfazer a devoção do povo que afluía de toda parte, seu santo corpo permaneceu exposto na igreja durante quatro dias. Muitíssimos milagres atestaram a sua santidade. Foi solenemente canonizada em 1235 pelo Papa Gregório IX.

Família de alta nobreza e grandes Santos

A Hungria deu à Igreja numerosos Santos, oriundos de todas as camadas sociais. É o único país que tem a glória de venerar sobre os altares três de seus Reis: Santo Estevão, Santo Américo e São Ladislau. Mas Santa Isabel é, sem dúvida, a mais venerada pelo povo húngaro.

Ela não foi uma figura isolada em seu tempo, em plena Idade Média, a Doce Primavera da Fé. Era sobrinha de Santa Edwiges, Duquesa da Polônia, e tia da suave Santa Isabel, Rainha de Portugal.

Com as graças que alcançou do Céu, e o exemplo de sua vida, obteve a conversão dos dois cunhados.

A de Conrado foi mais radical: acompanhado por seus companheiros de armas, dirigiu-se a Roma – todos a pé e descalços – a fim de pedir perdão ao Papa por seus desmandos. Depois de cumprir a penitência imposta pelo Pontífice, entrou para a Ordem de Santa Maria dos Cavaleiros Teutônicos.

Em 1143, adoeceu ele mortalmente. No leito de dor era tal a pureza de sua alma que a presença de qualquer pessoa em estado de pecado mortal lhe causava dores fortíssimas. Morreu pouco depois, inebriado já da glória celestial.

(Revista Arautos do Evangelho, Nov/2004, n. 35, p. 22 à 25)

Fonte:http://www.arautos.org/view/show/11994-santa-isabel-da-hungria-filha-de-rei-e-mae-dos-pobres

http://www.arautos.org/view/show/7730-santa-isabel-da-hungria-o-sublime-equilibrio-da-igreja-ante-a-miseria-da-lepra

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Vida da Beata Madre Teresa de Calcutá

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II
DURANTE O SOLENE RITO DE BEATIFICAÇÃO
DE MADRE TERESA
NO DIA MISSIONÁRIO MUNDIAL

Domingo, 19 de Outubro de 2003

1. “Quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se servo de todos” (Mc 10, 44). Estas palavras de Jesus aos discípulos, que ressoaram há pouco nesta Praça, indicam qual é o caminho que leva à “grandeza” evangélica. É o caminho que o próprio Cristo percorreu até à Cruz; um itinerário de amor e de serviço, que inverte qualquer lógica humana. Ser o servo de todos!

Madre Teresa de Calcutá, Fundadora dos Missionários e das Missionárias da Caridade, que hoje tenho a alegria de inscrever no Álbum dos Beatos, deixou-se guiar por esta lógica. Estou pessoalmente grato a esta mulher corajosa, que senti sempre ao meu lado. Ícone do Bom Samaritano, ela ia a toda a parte para servir Cristo nos mais pobres entre os pobres. Nem conflitos nem guerras conseguiam ser um impedimento para ela.

De vez em quando vinha falar-me das suas experiências ao serviço dos valores evangélicos. Recordo, por exemplo, as suas intervenções a favor da vida e contra o aborto, também quando lhe foi conferido o prémio Nobel pela paz (Oslo, 10 de Dezembro de 1979). Costumava dizer:  “Se ouvirdes que alguma mulher não deseja ter o seu menino e pretende abortar, procurai convencê-la a trazer-mo. Eu amá-lo-ei, vendo nele o sinal do amor de Deus”.

2. Não é significativo que a sua beatificação se realize precisamente no dia em que a Igreja celebra o Dia Missionário Mundial? Com o testemunho da sua vida, Madre Teresa recorda a todos que a missão evangelizadora da Igreja passa através da caridade, alimentada na oração e na escuta da palavra de Deus. É emblemática deste estilo missionário a imagem que mostra a nova Beata que, com uma mão, segura uma criança e, com a outra, desfia o Rosário.

Contemplação e acção, evangelização e promoção humana:  Madre Teresa proclama o Evangelho com a sua vida inteiramente doada aos pobres mas, ao mesmo tempo, envolvida pela oração.

3. “Quem quiser ser grande entre vós faça-se Vosso servo” (Mc 10, 43). É com particular emoção que hoje recordamos Madre Teresa, grande serva dos pobres, da Igreja e do Mundo inteiro. A sua vida é um testemunho da dignidade e do privilégio do serviço humilde. Ela escolheu ser não apenas a mais pequena, mas a serva dos mais pequeninos. Como mãe autêntica dos pobres, inclinou-se diante dos que sofriam várias formas de pobreza. A sua grandeza reside na sua capacidade de doar sem calcular o custo, de se doar “até doer”. A sua vida foi uma vivência radical e uma proclamação audaciosa do Evangelho.

O brado de Jesus na cruz, “Tenho sede” (Jo 19, 28), que exprime a profundidade do desejo que o homem tem de Deus, penetrou no coração de Madre Teresa e encontrou terreno fértil no seu coração. Satisfazer a sede que Jesus tem de amor e de almas, em união com Maria, Sua Mãe, tinha-se tornado a única finalidade da existência de Madre Teresa, e a força interior que a fazia superar-se a si mesma e “ir depressa” de uma parte a outra do mundo, a fim de se comprometer pela salvação e santificação dos mais pobres.

4. “Sempre que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes” (Mt 25, 40). Este trecho do Evangelho, tão fundamental para compreender o serviço de Madre Teresa aos pobres, estava na base da sua convicção, cheia de fé, que ao tocar os corpos enfraquecidos dos pobres tocava o corpo de Cristo. O seu serviço destinava-se ao próprio Jesus, escondido sob as vestes angustiantes dos mais pobres. Madre Teresa realça o significado mais profundo do serviço:  um gesto de amor feito aos famintos, aos sequiosos, aos estrangeiros, a quem está nu, doente, preso (cf. Mt 25, 34-36), é feito ao próprio Jesus.

Ao reconhecê-l’O servia-O com grande devoção, exprimindo a delicadeza do seu amor esponsal. Assim, no dom total de si a Deus e ao próximo, Madre Teresa encontrou a sua satisfação mais nobre e viveu as qualidades mais elevadas da sua feminilidade. Desejava ser um “sinal do amor de Deus, da presença de Deus, da compaixão de Deus” e, desta forma, recordar a todos o valor e a dignidade de cada filho de Deus “criado para amar e para ser amado”. Era assim que Madre Teresa “levava as almas para Deus e Deus às almas”, aliviando a sede de Cristo, sobretudo das pessoas mais necessitadas, cuja visão de Deus tinha sido ofuscada pelo sofrimento e pela dor.

5. “Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10, 45). Madre Teresa partilhou a paixão do Crucificado, de modo especial durante longos anos de “obscuridade interior”. Aquela foi a prova, por vezes lancinante, acolhida como um singular “dom e privilégio”.

Nos momentos mais difíceis ela recorria com mais tenacidade à oração diante do Santíssimo Sacramento. Esta difícil angústia espiritual levou-a a identificar-se cada vez mais com aqueles que servia todos os dias, experimentando o sofrimento e por vezes até a recusa. Gostava de repetir que a maior pobreza é não sermos desejados, não ter ninguém que se ocupe de nós.
6. “Dai-nos, Senhor, a Vossa graça, em Vós esperamos!”. Quantas vezes, como o Salmista, também Madre Teresa, nos momentos de desolação interior, repetiu ao seu Senhor:  “Em Vós, meu Deus, em Vós espero!”.

Prestemos honra a esta pequena mulher apaixonada por Deus, humilde mensageira  do  Evangelho  e  infatigável benfeitora  da  nossa  época.  Aceitemos a  sua  mensagem  e  sigamos  o  seu exemplo.

Virgem Maria, Rainha de todos os Santos, ajuda-nos a ser mansos e humildes de coração como esta intrépida mensageira do Amor. Ajuda-nos a servir com a alegria e com o sorriso todas as pessoas que encontramos. Ajuda-nos a ser missionários de Cristo, nossa paz e nossa esperança. Amém!

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/2003/documents/hf_jp-ii_hom_20031019_mother-theresa_po.html

JOÃO PAULO II

ANGELUS

Domingo, 19 de Outubro de 2003

Transmito as minhas calorosas saudações aos peregrinos de língua inglesa, especialmente aos que vieram da Índia e dos Estados Unidos da América. Que o exemplo de Madre Teresa aumente em vós o amor pelo Senhor e inspire um serviço cada vez mais profundo aos necessitados.

Saúdo  os  peregrinos  de  língua  macedónia.

Saúdo  os  peregrinos  de  expressão albanesa.

Dirijo a minha saudação aos peregrinos provenientes da Itália, da Europa e do mundo inteiro, em particular as Missionárias e os Missionários da Caridade, e quantos colaboram com eles no serviço aos mais pobres.

Ao dispormo-nos agora para a recitação do Angelus, recordemos que Maria Santíssima foi sempre o modelo para Madre Teresa, tanto na oração como na acção missionária.

Graças à intercessão da nova Beata, a Virgem nos faça progredir no amor a Deus e ao próximo.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/angelus/2003/documents/hf_jp-ii_ang_20031019_po.html

PALAVRAS DO PAPA JOÃO PAULO II
RECORDANDO O 1° ANIVERSÁRIO DA MORTE
DE MADRE TERESA DE CALCUTÁ

Sábado, 5 de Setembro de 1998

Exactamente há um ano, na noite de 5 de Setembro, morria em Calcutá a Madre Teresa. A sua recordação continua viva no coração de cada um de nós, em toda a Igreja e no mundo inteiro. Esta pequena mulher, que veio de uma família humilde, que maravilhosa obra soube realizar com a força da fé em Deus e do amor pelo próximo!

Na realidade, a Madre Teresa foi um dom de Deus aos mais pobres dos pobres; e ao mesmo tempo, precisamente pelo seu extraordinário amor para com os últimos, foi e continua a ser um dom singular para a Igreja e para o mundo. A sua total doação a Deus, todos os dias reconfirmada na oração, traduziu-se numa total doação ao próximo.

No sorriso, nos gestos e nas palavras da Madre Teresa, Jesus caminhou  ainda pelas estradas do mundo como Bom Samaritano, e continua a fazê-lo nas Missionárias e nos Missionários da Caridade, que formam a grande família por ela fundada. Agradecemos às filhas e aos filhos da Madre Teresa a sua radical opção evangélica e oramos por todos eles, para que sejam fiéis ao carisma que o Espírito Santo suscitou na sua Fundadora.

Não esqueçamos o grande exemplo deixado pela Madre Teresa, nem nos limitemos a comemorá-la com as palavras! Tenhamos a coragem de pôr sempre no primeiro lugar o homem e os seus direitos fundamentais. Aos Chefes das Nações, tanto ricas como pobres, digo: Não confieis no poder das armas! Procedei com decisão e lealdade pela via do desarmamento, para destinar os necessários recursos aos verdadeiros e grandes objectivos da civilização, para combater unidos contra a fome e as doenças, para que cada homem possa viver e morrer como homem. Isto quer Deus, que no-lo recordou também através do testemunho da Madre Teresa.

E ela, do Céu, nos assista e acompanhe!

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1998/september/documents/hf_jp-ii_spe_19980905_madre-teresa_po.html

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS PEREGRINOS VINDOS A ROMA PARA
A BEATIFICAÇÃO DE MADRE TERESA DE CALCUTÁ

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2003

Venerados Irmãos no Episcopado
Queridos Missionários
e Missionárias da Caridade
Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. Saúdo-vos cordialmente e uno-me à vossa acção de graças a Deus com alegria pela beatificação de Madre Teresa de Calcutá. Sentia-me ligado a ela por uma grande estima e sincero afecto. Por isto sinto-me particularmente feliz por me encontrar convosco, suas filhas e filhos espirituais. Saúdo de modo especial a Irmã Nírmala, recordando o dia em que Madre Teresa veio a Roma para a apresentar pessoalmente. Faço o meu pensamento extensivo a todas as pessoas que pertencem à grande família espiritual desta nova Beata.

2. “Missionária da Caridade: Madre Teresa foi precisamente isto, de nome e de facto”. Repito hoje comovido estas palavras, que pronunciei no dia seguinte à sua morte (Angelus de 7.9.1997).
Antes de mais, missionária. Não há dúvida de que a nova Beata foi uma das maiores missionárias do século XX. Desta mulher simples, proveniente de uma das áreas mais pobres da Europa, o Senhor fez um instrumento eleito (cf. Act 9, 15) para anunciar o Evangelho a todo o mundo não com a pregação, mas com gestos quotidianos de amor em benefício dos mais pobres. Missionária com a linguagem mais universal:  a linguagem da caridade sem limites nem exclusões, sem preferências, a não ser em relação aos mais abandonados.

Missionária da caridade. Missionária de Deus que é caridade, que prefere os pequeninos e os humildes, que se inclina sobre o homem ferido no corpo e no espírito e derrama nas suas chagas “o óleo do conforto e o vinho da esperança”. Deus realizou isto na Pessoa do seu Filho feito homem, Jesus Cristo, bom Samaritano da humanidade. Ele continua a fazê-lo na Igreja, sobretudo através dos Santos da caridade. Madre Teresa brilha de modo especial no meio desta multidão.

3. Onde foi que Madre Teresa encontrou a força para se dedicar completamente ao serviço do próximo? Encontrou-a na oração e na contemplação silenciosa de Jesus Cristo, do seu Santo Rosto, do seu Sagrado Coração. Ela mesma o disse:  “O fruto do silêncio é a oração; o fruto da oração é a fé; o fruto da fé é o amor; o fruto do amor é o serviço, o fruto do serviço é a paz”. A paz, mesmo ao lado dos moribundos, nas nações em guerra, na presença de ataques e de críticas hostis. Era uma oração que enchia o seu coração com a paz de Cristo e lhe permitia irradiar essa paz aos outros.

4. Missionária da caridade, missionária da paz, missionária da vida. Madre Teresa era tudo isto. Teresa era todas estas coisas. Pronunciava-se sempre em defesa da vida humana, mesmo quando a sua mensagem não agradava. Toda a existência de Madre Teresa foi um hino à vida. Os seus encontros quotidianos com a morte, a lepra, a Sida e todos os géneros de sofrimento humano fizeram com que ela fosse uma testemunha válida do Evangelho da Vida. Até o seu sorriso era um “sim” à vida, um “sim” jubiloso, que surgia da fé e do amor profundos, um “sim” todas as manhãs, em união com Maria, aos pés da Cruz de Cristo. A “sede” de Jesus crucificado tornou-se a própria sede de Madre Teresa e a inspiração do seu caminho de santidade.

5. Teresa de Calcutá foi realmente Mãe. Mãe dos pobres, mãe das crianças. Mãe de tanta juventude que a teve como guia espiritual e partilhou a sua missão. De uma pequena semente, o Senhor fez crescer uma árvore frondosa e rica de frutos (cf. Mt 13, 31-32). E precisamente vós, filhas e filhos de Madre Teresa, sois os sinais mais eloquentes desta fecundidade profética. Mantende o seu carisma inalterado e segui os seus exemplos, e ela do Céu não deixará de vos apoiar no caminho diário.

A mensagem de Madre Teresa, agora mais do que nunca, mostra-se contudo como um convite dirigido a todos. Toda a sua existência nos recorda que ser cristãos significa ser testemunhas da caridade. Eis a recomendação da nova Beata. Fazendo eco às suas palavras, exorto cada um de vós a seguir com generosidade e coragem os passos desta autêntica discípula de Cristo. Madre Teresa caminha ao vosso lado pelas sendas da caridade.

Concedo de coração a vós e aos vossos entes queridos a Bênção apostólica.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/2003/october/documents/hf_jp-ii_spe_20031020_pilgrims-mother-teresa_po.html

CARTA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II
POR OCASIÃO DO 50° ANIVERSÁRIO DE FUNDAÇÃO
DA CONGREGAÇÃO DAS MISSIONÁRIAS DA CARIDADE

À Irmã M. NIRMALA JOSHI, M.C.
Superiora-Geral
das Missionárias da Caridade

Neste ano do grande Jubileu, enquanto a Igreja no mundo inteiro eleva louvores à Santíssima Trindade pelo dom inefável do Verbo encarnado, a Reverenda Irmã e toda a sua família, nascida do carisma de Madre Teresa de Calcutá, sentem também a alegria de celebrar o 50º aniversário de fundação das Missionárias da Caridade.

No dia 7 de Outubro de 1950, em Calcutá, na pequena Capela situada na R. Creek Lane, 14, o Arcebispo Perier estabeleceu que a fundadora e as suas primeiras onze companheiras constituíssem uma Congregação religiosa de direito diocesano. Aquele momento de graça chegou após um longo processo de discernimento da vontade de Deus por parte de Madre Teresa, que escutou “a chamada no interior da vocação” (cf. Carta da Fundadora). Aquele pequeno início tornou-se uma forte corrente de graça no seio da Igreja, uma vez que as Missionárias da Caridade, desde há cinquenta anos, cresceram de modo inimaginável. Uno-me a vós ao dar graças ao nosso Pai celeste por este grande dom e exorto-vos com as palavras da primeira Carta de São Pedro:  “Como bons administradores das graças de Deus, cada um de vós ponha à disposição dos outros o dom que recebeu” (4, 10).

Precisamente quinze anos depois, a 1 de Fevereiro de 1965, o Papa Paulo VI concedeu o Decretum laudis que estabeleceu as Irmãs Missionárias da Caridade como Congregação de direito pontifício. A partir de então a família das Missionárias da Caridade produziu frutos abundantes, pois Deus concedeu Irmãs contemplativas, frades, sacerdotes, missionários e cooperadores de Madre Teresa, activos e contemplativos. Muitíssimas pessoas de todas as religiões, ou arreligiosas, estão comprometidas na obra de amor que se difundiu no mundo inteiro, graças à inspiração e orientação de Madre Teresa:  “Eis a obra do Senhor:  uma maravilha aos nossos olhos” (Sl 117, 23).

Desde o início, Madre Teresa e as Missionárias da Caridade desejavam “aplacar a sede infinita de Jesus Cristo na Cruz por amor das almas… trabalhando pela salvação e santificação dos mais pobres entre os pobres” (Carta da Fundadora). Estas palavras atingem o cerne quer da vossa consagração, da vossa “adesão a Jesus” com amor, da vossa sede d’Ele que tem sede de vós, quer da vossa missão de serviço alegre e sincero a Jesus nos mais pobres entre os pobres, sem esquecer as palavras do Senhor:  “Sempre que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes” (Mt 25, 40). Como disse o Papa Paulo VI, ao conferir a Madre Teresa em 1971 o prémio pela Paz “João XXIII”, “este é o motivo místico e evangélico que transfigura a expressão de uma pessoa pobre e faminta, de uma criança doente, de quem sente repulsa diante de um homem leproso ou enfermo no leito de morte, na misteriosa expressão de Cristo”.

Na Exortação Apostólica Vita consecrata, afirmei que a consagração e a missão devem ser sustentadas pela comunhão fraterna, como terceiro aspecto essencial da vida à qual sois chamadas (cf. n. 13). Ao falar da vida comunitária, Madre Teresa sublinhava sempre a necessidade de viver o “novo mandamento” do Senhor, de nos amarmos uns aos outros (cf. Jo 13, 34). Ela mesma oferecia sempre um exemplo luminoso de “disponibilidade para o serviço sem regatear energias, prontidão no acolhimento do outro tal como é, sem “o julgar” (cf. Mt 7, 1-2), capacidade de perdoar inclusive “setenta vezes sete” (Mt 18, 22)” (n. 42). Diante dos desafios do novo milénio, encorajo-vos a dar constante testemunho de amor evangélico entre vós, aquele amor que se torna “o sinal, diante da Igreja e da sociedade, do vínculo que promana da mesma chamada e da vontade comum de lhe obedecer, para além de qualquer diversidade de raça e de origem, de língua e de cultura” (Vita consecrata, 92).

Este 50º aniversário é, com certeza, uma ocasião para dar graças a Deus misericordioso pelo dom da dedicação unívoca e incondicional de Madre Teresa à chamada do Senhor, e pela abundante colheita espiritual que a Igreja e o mundo obtiveram, graças às Missionárias da Caridade.

Entretanto, rezo a fim de que este seja um momento de graça para cada um de vós, um tempo para examinar com mais atenção a vossa chamada e meditar de maneira mais intensa sobre ela e sobre o carisma da Congregação, a fim de poderdes penetrar mais profundamente no mistério da Cruz salvífica de Jesus Cristo, que a vossa Fundadora pôs no centro da vossa espiritualidade.

Ao recordar com afecto a querida Madre Teresa, confio todos os membros da Família das Missionárias da Caridade à protecção materna do Coração Imaculado de Maria:  que a Mãe do Redentor renove em cada um de vós o desejo de amar e de servir o Senhor nos mais pobres de entre os pobres! Ao invocar sobre vós as abundantes graças do Grande Jubileu do Ano 2000, concedo de coração a minha Bênção Apostólica a todas vós e a quantos vos assistem em “fazer algo de belo por Deus”.

Vaticano, 2 de Outubro de 2000.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/2000/documents/hf_jp-ii_let_20001017_missionaries-charity_po.html

Biografia da Beata Madre Teresa de Calcutá pelo padre Brian Kolodiejchuk

Entrada na congregação das Irmãs de Loreto

“Segure a mão Dele[Jesus], e caminhe sozinha com Ele. Siga em frente porque, se olhar para trás, irá voltar.” Estas palavras de despedida de sua mãe ficaram gravadas no coração da jovem Gonxha Agnes Bojaxhiu, futura Madre Teresa, quando, aos dezoito anos, deixava sua casa em Skopje para dar início à sua vida como missionária. Em 26 de setembro de 1928, partia para a Irlanda, para entrar no Instituto da Bem-Aventurada Virgem Maria(as Irmãs de Loreto), uma congregação não clausurada de religiosas, dedicada essencialmente à educação.(p.25)

Decisão de ser freira

Naquele tempo, tinha apenas doze anos. Foi então que percebi, pela primeira vez, que tinha vocação para os pobres, em 1922. Queria ser missionária, queria sair e dar a vida de Cristo às pessoas que viviam nos países com missões. No início, entre os doze e os dezoito anos, não queria ser freira.  Éramos uma família muito feliz. Mas, os dezoito anos, decidi deixar a minha casa e me tornar freira, e desde então, ao longo desses quarenta anos, nunca duvidei por um segundo que havia feito a coisa certa; era vontade de Deus. A escolha foi dele.(p.26).

Primeira Comunhão

Uma graça excepcional que tinha recebido no dia de sua Primeira Comunhão alimentara o desejo de dar esse ousado passo rumo ao desconhecido: “Desde os cinco anos e meio – quando O recebi[a Jesus] pela primeira vez – que o amor pelas almas tem estado dentro de mim – Foi crescendo com os anos – até eu vir para a índia – com a esperança de salvar muitas almas.”(p.27)

Chegada a Calcutá

Em 6 de janeiro, de manhã, navegamos do mar para o rio Ganges, também chamado o ‘Rio Sagrado’. Viajando por esta rota, tivemos oportunidade de dar uma boa olhada na nossa nova terra, Bengala. A natureza é maravilhosa…Quando o navio atracou, cantamos em nossas almas o “Te Deum”. Nossas irmãs indianas nos esperavam lá, e foi com elas que, com indescritível felicidade, pisamos pela primeira vez no solo de Bengala. Na capela do convento, começamos agradecendo ao nosso querido Salvador a enorme graça de nos ter conduzido sãs e salvas ao objetivo pelo qual tínhamos ansiado…Após a profissão dos votos, a Irmã Teresa foi enviada para a comunidade de Loreto de Calcutá e nomeada professora da St. Mary’s Bengali Medium School, uma escola para meninas.(p.30)

Primeira Impressão de Madre Teresa na Índia

O calor da índia é simplesmente abrasador. Quando ando pelas ruas tenho a sensação de que há fogo debaixo dos meus pés e de que todo o meu corpo arde. Quando as coisas se tornam mais difíceis, consola-me a idéia de que dessa maneira as almas são salvas e de que meu querido Jesus sofreu muito mais por elas. […] A vida de uma missionária não é um mar de rosas, na realidade é mais um mar de espinhos; mas com tudo isso, é uma vida cheia de felicidade e de alegria, quando ela compreende que está fazendo o mesmo trabalho que Jesus fez quando estava na Terra, e que está cumprindo o mandamento de Jesus: ‘Vão e façam discípulos de todas as nações.’(p.31).

Votos perpétuos

Após nove anos em Loreto, a Irmã Teresa aproximava-se de um momento muito importante de sua vida – preparava-se para fazer a profissão dos votos perpétuos. Ela raramente mencionava os sofrimentos pelos quais passava, enquanto a alegria que irradiava à sua volta encobria, eficazmente, todas as provações(p.32).

Leva alegria aos pobres

Todos os domingos, visito os pobres das favelas de Calcutá. Não posso ajudá-los, porque nada tenho, mas vou levar-lhes alegria. Da última vez, vinte pequeninos estavam ansiosamente à espera da sua ‘Ma’. Quando me viram correram ao meu encontram, até pulando com uma perna só.(p.39).

Madre Teresa faz um voto a Deus

Abril de 1942: “Fiz um voto a Deus, que me compromete sob[pema de] pecado mortal, a dar a Deus qualquer coisa que Ele possa pedir, ‘Não lhe recusarei coisa alguma’.(p.41).

A alegria

A alegria é sinal de uma pessoa generosa e mortificada que, se esquecendo de todas as coisas, incluindo de si própria, tenta agradar seu Deus em tudo o que ela faz pelas almas. A alegria é muitas vezes uma capa que esconde uma vida de sacrifício, de contínua união com Deus, de fervor e de generosidade. Uma pessoa que tem este dom da alegria, com grande freqüência atinge um elevado grau de perfeição. Porque Deus ama aquele que dá com alegria e aproxima do Seu coração a religiosa a quem ama.(p.46).

Ser fiel nas pequenas coisas

Sim, minhas queridas filhas, sejam fiéis nas pequenas práticas de amor, de pequenos sacrifícios…- de pequenas fidelidades à Regra, que construirão em vocês a vida de santidade – as tornarão semelhantes a Cristo.(p.47).

Coragem

Em agosto de 1946, explodiu em Calcutá o conflito hindu-muculmano, desencadeando uma violência em massa…Todas as atividades da cidade, incluindo a provisão de alimentos, foram suspensas. Compelida pelas necessidades de suas alunas, a Madre Teresa decidiu deixar a segurança dos muros do convento para ir à procura de comida. “Saí de St. Mary’s em Entally. Tinha trezentas garotas no internato e nada para comer. Não deveríamos sair da rua, mas eu saí. Aí eu vi os corpos nas ruas, esfaqueados, espancados…Algumas pessoas tinham saltado o muro para dentro do convento, os ajudamos a fugir com segurança. Só quando eu saí nas ruas é que vi a morte que os perseguia. Um caminhão cheio de soldados me parou e me disseram que eunão devia estar na rua.  “Ninguém devia sair’, disseram eles. Eu lhes disse que precisava sair, correr esse risco, porque tinha trezentas estudantes que não tinham nada pra comer. Os soldados tinham arroz, me levaram no caminhão para a escola e descarregaram os sacos de arroz.(p.50).

Chamado para servir aos pobres

Durante a viagem de trem, na terça-feira, 10 de setembro de 1946, teve um decisivo encontro místico com Cristo….”Era uma vocação para abandonar até mesmo Loreto, onde fui muito feliz, e ir para a sruas servir aos mais pobres dos pobres.(p.54).

Sede de amor

“ ‘Tenho sede’, disse Jesus na Cruz, quando estava privado de toda consolação, morrendo em absoluta pobreza, abandonado, desprezado, quebrado em corpo e alma. Ele falou de Sua sede – não de água – mas, de amor, de sacrifício.(p.55).

Jesus sente saudades de nós

Jesus …não só os ama, mais ainda – Ele anseia por vocês. Sente saudades quando vocês não vã para perto Dele. Ele tem sede de vocês. Ele os ama sempre, mesmo quando vocês não se sentem merecedores.(p.56).

A Boa Samaritana

“A nossa missão específica é labutar para a salvação e a santificação dos mais pobres dos pobres, não apenas nas favelas, mas também em todo o mundo, onde quer que eles se encontrem. Os pobres e aqueles que mais sofrem foram o objeto particular de amor de Madre Teresa. Ela sabia que só o amor, um amor que tem Deus como origem e como fim, daria sentido e felicidade à vida deles. Como  Bom Samaritano, através de seu serviço imediato e eficaz, ela estava determinada a tornar o amor de Deus concreto para os pobres.(p.57).

Voz interior

Nesse mesmo 10 de setembro, Madre Teresa começou a receber uma série de locuções interiores, que prosseguiram até meados do ano seguinte. Ela estava realmente ouvindo a voz de Jesus e conversando intimamente com Ele.(p.57).

…Um dia, ao receber a Sagrada Comunhão, ouvi a mesma voz com grande clareza – “Quero freiras indianas, vítimas do Meu amor, que sejam Maria e Marta. Que estejam tão unidas a mim que irradiem Meu amor por sobre as almas. Quero freiras livres, cobertas com Minha pobreza da Cruz.(p.62).

Mudança

Pouco antes de escrever a sua primeira carta ao Arcebispo Périe, a provincial de Madre Teresa a notificou de que ela seria, muito em breve, transferida de Calcutá para a comunidade de Loreto em Asansol, uma cidade situada cerca de 200 quilômetros a noroeste de Calcutá.Algumas Irmãs de sua comunidade tinham notado as conversas, longas e freqüentes, que Madre Teresa tinha quando ia se confessar com o Padre Van Exem nos meses que se seguiam ao retiro de Darjeeling. A partir desse simples fato, surgiram suspeitas quanto à natureza do relacionamento entre eles. Obviamente, as Irmãs não faziam a menor idéia dos motivos que Madre Teresa tinha para esses prolongados encontros…baseadas nessas…tomaram a decisão de transferir Madre Teresa para a comunidade de Asansol…Antes de partir de Calcutá, Madre Teresa foi informada pelo Padre Van Exem da reação inicial do Arcebispo Périer…que…se mostrou cauteloso, dizendo que precisava de tempo para rezar, refletir e fazer consultas…. (p.67)“Se uma única família – se uma única criancinha infeliz passar a ser feliz com o amor de Jesus, me diga, não valerá a pena todas nós darmos tudo por isso – e o senhor ter toda esta preocupação?(p.74).

“Dia após dia, hora após hora, Ele me faz a mesma pergunta: “Vai recusar a fazer isto por mim?”…(p.78).

Carta ao Bispo para que aprove as Irmãs da Caridade

“…Não demore, Excelência, não o adie. Há almas que estão sendo perdidas por carências de cuidados, por carência de amor….perdoe-me ser tão cansativa com o meu apelo contínuo, mas tenho de agir desta maneira. Levemos alegria ao Coração de Jesus, e tiremos do Seu Coração estes sofrimentos terríveis.(p.80).

Resposta do Bispo

“Se eu visse, após fervorosa oração e reflexão madura, que a vontade de Deus era avançar na direção para onde você deseja que eu avance imediatamente, não hesitaria…Durante a minha ausência, trabalhe no seu plano sob a orientação do Espírito Santo. O que queremos saber é, em poucas palavras, o objetivo, os meios, as regras, a forma de recrutamento, as possibilidades de sucesso.(p.83).

Resposta de Madre Teresa

(p.85-91)

…Nosso Senhor quer Freiras Indianas, vítimas do Seu Amor que estejam unidas a Ele que irradiem o Seu Amor às almas….Seu fogo de amor entre os pobres, doentes, os moribundos, os mendigos e as criancinhas de rua….Se o número de Irmãs permitir, teremos também uma casa para os aleijados, os cegos, os marginalizados da sociedade humana.

…Que tipos de pessoas recrutaria para esta obra?

Jovens dos 16 anos em diante…Devem ser capazes de fazer qualquer tipo de trabalho por mais repugnante que seja à natureza humana….Como Nosso Senhor mesmo diz: “Há muitas freiras para cuidar dos ricos e das pessoas abastadas – mas para os Meus muito pobres não há absolutamente ninguém. Eu anseio por eles – amo-os”….Deverão ser capazes de obter da horta a maior parte do seu alimento – venderão uma parte disso para poderem comprar as coutras coisas. Quanto às roupas – farão brinquedos e quadros e outros trabalhos de artesanatos – que serão vendidos – e com esse dinheiro comprarão o que for necessário….Uma coisa lhe peço, Excelência, que nos dê toda a ajuda espiritual que precisamos – Se temos Nosso Senhor no meio de nós – com a Missa diária e a Sagrada Comunhão, nada temo pelas Irmãs nem por mim.

Madre Teresa enviou esta longa carta juntamente com o primeiro conjunto de Regras escritas um dia antes, ao Padre Van Exem, para revisão e aprovação…Em 14 de junho, o Padre Van Exem deu-lhe uma resposta totalmente inesperada: ordenou-lhe que esquecesse isso[todo o empreendimento] por toda eternidade’ se nem ele e o Bispo voltassem a tocar no assunto…Essa não era a resposta que Madre Teresa antecipava…Tinha esperado pelo “Sim” do Arcebispo. Agora, se confrontava com mais uma severa prova vinda de ninguém menos do que seu diretor espiritual, em quem tanto confiava. Contudo, fiel ao seu compromisso de não recusar coisa alguma ao Senhor, optou por obedecer.

Regresso à Calcutá

Em 1947, Madre Teresa regressou à comunidade de Entally, em Calcutá. Essa alteração ocorreu através da intervenção da superiora da ordem, que acreditava que “a Madre Provincial cometeu um erro…na apreciação que fez de Madre M. Teresa. (p.93)…Ao tomar conhecimento do seu esforço heróico, o Padre Van Exem reconheceu ao Arcebispo: “Sei agora que  ela tentou realmente obedecer e que obedeceu mesmo.”(p.94).

Insistência para que o Bispo aprove as Irmãs da Caridade

Excelência, o senhor está aqui no lugar do Santo Padre. Conhece os desejos do Papa; sabe o quanto este trabalho estaria de acordo com o coração dele…Lembre-se de seu amor pelos pobres sofredores…por favor, confie todo assunto ao Imaculado Coração de Maria. – Ela está fazendo maravilhas em outras terras. – Ela fará isso pela Arquidiocese do senhor. – Ela tomará especial cuidado das Missionárias da Caridade de Vossa Excelência, pois, ao servir aos pobres, o nosso objetivo é levá-los a Jesus através de Maria, utilizando o Terço em família como arma principal. Que desejo ela expressou em Fátima sobre a conversão dos pecadores.(p.105).

Visões com Jesus

Na primeira visão, encontrou-se no meio de uma multidão de pessoas muito pobres e também havia crianças ali. Desta vez, a voz não era a de seu amado Jesus, pedimdo-lhe ‘Venha- venha-Me leve aos buracos onde vivem os pobres – Venha, seja Minha luz. Era, agora, a voz suplicante da ‘grande multidão’ chamando: ‘Venha, venha salve-nos – leve-nos a Jesus. Essse duplo convite, de Jesus e da multidão – “Venha” – continuaria ecoando no seu coração até o final de sua vida.Na segunda visão…não estava sozinha; estava na companhia de Nossa Senhora. Era agora a vez de Maria lhe pedir: “Traga-os a Jesus – Leve Jesus a eles.” Maria estava lhe encorajando a responder os pobres a rezar o Terço em família e a garantia de que Nossa Senhora estaria presente.(p.112)….Na terceira visão, o sofrimento da grande multidão intensifica-se: estão ‘cobertos pela escuridão’. Madre Teresa podia vê-los, mas também podia ver Jesus na Cruz. O papel de Maria também se intensifica: Ela é a Mãe atrás de sua ‘criança pequena’, apoiando-a enquanto ambas contemplam Jesus na Cruz. A voz era a de Jesus, recordando à Madre Teresa. “Eu lhe pedi. Eles lhe pediram, e ela, a Minha Mãe, lhe pediu. E volta a perguntar: “Vai recusar a fazer isto por Mim?(p.112).

O sim

O arcebispo tinha percebido a força do caráter e a grandeza do coração que estavam por trás da persistência de Madre Teresa…Ao regressar à Índia, pedira conselho a mais dois padres familiarizados com a situação local….segundo o conselho deles, o Arcebispo poderia ‘dar a sua autorização sem cometer uma grave imprudência… ‘Pode avançar’ foram as suas – muito esperadas – palavras…era 6 de janeiro de 1948.(p.113)

Madre Teresa espera resposta da superiora para formar as Irmãs da Caridade

Madre Teresa esperava, ansiosamente, a resposta da Madre Gertrude; e como nada tinha chegado em menos de três semanas, começou a ficar preocupada. …Tendo conversado com a Madre Provincial sobre sua inspiração, em antecipação à decisão que deveria chegar, insistiu com o Arcebispo para que acelerasse o processo(p.120)…O Arcebispo, embora apoiando, achou Madre Teresa apressada demais e encorajou-a a ser instrumento dócil e a esperar pelo tempo de Deus.(p.122).

Resposta positiva da Madre

Apenas três dias após Madre Teresa escrever para o Arcebispo, ele recebeu a resposta de Dublin…Além de dar autorização a Madre Teresa, Madre Gertrude ainda louvava o objetivo pelo qual a ordem de Loreto iria perder membro tão valioso.(p.124);

Resposta positiva do Papa

Em 8 de agosto de 1948, Madre Teresa finalmente recebeu notícias de Roma…o Papa Pio XIII tinha lhe dado autorização para deixar Loreto e dar início à sua nova missão.(p.130)…Em 17 de agosto de 1948, usando um sári branco com uma borda azul, Madre Teresa – uma freira européia, sozinha na Índia, que acabara de se tornar independente – partiu para dar início à vida de missionária da Caridade.(p.131).

Constância

Hoje aprendi uma boa lição…Quando andava por ali à procura de uma casa – caminhei e caminhei até doerem minhas pernas e meus braços…então a tentação tornou-se mais forte – os palacetes de Loreto vieram impetuosamente à minha mente – todas as coisas belas e os confortos – ‘Basta dizer uma palavra e tudo aquilo será seu novamente’ – ficou dizendo o tentador. De minha livre escolha Meu Deus e por amor a Ti – desejo permanecer e fazer o que for a Tua Santa Vontade a meu respeito – Não deixei que caísse uma só lágrima – mesmo que sofra o que agora sofro… – Esta é a noite escura do nascimento da Congregação.(p.144).

Oficial

Com a autorização da Santa Sé, em 7 de outubro de 1950 – festa de Nossa Senhora do Rosário – o Arcebispo Périer instituiu oficialmente a Congregação das Missionárias da Caridade na arquidiocese de Calcutá.(p.147).

Morrer para si mesmo

Jesus disse: “Em verdade vos digo, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, permanece sozinho. Mas se morrer dará muito fruto. A missionária deve morrer diariamente, se quiser levar almas a Deus. Deve estar disposta a pagar o preço que Ele pagou pelas almas, andar pelo caminho que ele andu em busca de almas.(p.149).

Importância de ser amável

Neste ano tenho sido com freqüência, impaciente a algumas vezes até mesmo ríspida nas minhas observações – e notei a cada vez que fazia menos bem às Irmãs – consigo sempre mais delas quando sou amável.(p.170).

Deus é Maravilhoso

Deus tem sido muito maravilhoso usando os pobres instrumentos pára a obra Dele. Posso dizer com todo o meu coração – que nada, absolutame3nte nada reivindico como meu em tudo isso, apenas digo que as Irmãs e eu permitimos que Deus usasse por completo.(p.171).

Propósitos de Madre Teresa

1º É seguir a Jesus de perto nas humilhações. Com as Irmãs – amável – muito amável – mas firme na obediência; Com os pobres – gentil e atenciosa; Com os doentes – extremamente amável.(p.175-176).

Aridez espiritual

Em relação ao sentimento de solidão, de abandono, de não ser querida, de escuridão na alma…é um estado desejado por Deus a fim de nos apegarmos somente a Ele, um antídoto contra as nossas atividades exteriores, e também, como qualquer tentação, uma forma de mantermos humildes em meio a aplausos, aos elogios, aos louvores, etc. e do sucesso.Sentir que nada somos, que nada podemos fazer, é perceber um fato…como escreveu a pequena Bernadette(Santa Bernadette Soubirous) no final do seu último retiro: ‘Só Deus, Deus em toda a parte, Deus em todos e em todas as coisas, Deus sempre.(p.177)

Os pobres

“Quando atravesso as favelas ou entro nos buracos escuros onde vivem os pobres – Lá Nosso Senhor está sempre verdadeiramente presente. Os buracos escuros onde vivem os pobres tinham se tornado o local privilegiado de encontro com Ele.”(p.177).

“O meu… propósito é o de tornar-me uma apóstola da alegria – consolar o Sagrado Coração de Jesus através da alegria.(p.180).”

O magnânimo desejo de ocultar a sua dor, até mesmo de Jesus, era uma expressão do seu enorme e dedicado amor. Madre Teresa fazia todo o possível para não sobrecarregar os outros com os seus sofrimentos e desejava menos ainda que seus sofrimentos fossem um fardo para seu esposo Jesus.(p.180).

Sorriso

O sorriso é uma grande capa que cobre uma multidão de dores(p.185).

Noite escura

O senhor gostará de saber que no dia em que Vossa Excelência ofereceu a sua Santa Missa pela alma do Santo Padre na Catedral – eu pedi a ele que me mandasse uma prova de que Deus está satisfeito com a Congregação. Naquele preciso momento desapareceu a prolongada escuridão, a dor da perda – da solidão – aquele estranho sofrimento de dez anos. Hoje, a minha alma está cheia de amor e de uma alegria indescritível.(p.186).

Mas esta consolação durou pouco tempo, como ela mesma conta ao Arcebispo:

Nosso Senhor achou melhor que eu me mantivesse no túnel – e aí voltou a desaparecer- deixando-me sozinha. Sinto-me muito grata pelo mês de amor que me deu.(p.196).

Temperança

De acordo com uma de suas seguidoras, “a Madre era uma pessoa muito equilibrada e ficava alegre quando as coisas corriam bem; mas, mesmo quando as coisas corriam mal, não dava mostras de depressão nem de mau-humor. A qualquer tempo era alegre.(p.196).

Ser amável

“Sejam amáveis umas com as outras. – Prefiro que cometam erros com amabilidade – do que façam milagres com indelicadeza.(p.204).

Amor

“Os sacrifícios são apenas uma forma de provar seu amor.”(p.208).

“O amor se prova com obras; quanto mais nos custam, maior é a prova do nosso amor.”(p.209);

Jejum

Insista[quando instruindo as irmãs] que na nossa Congregação Nosso Senhor não quer que usemos a nossa energia em fazer penitência – em jejuar etc. pelos nossos pecados – MS, em vez disso, em nos consumirmos dando Cristo aos Pobres e para isso precisamos de Irmãs fortes de corpo e de mente…É melhor comermos bem e termos muita energia para sorrirmos bem aos pobres e trabalharmos por eles.(p.213).

Missa e Comunhão

A Madre recebia diariamente a Sagrada Comunhão com enorme devoção. E se acontecesse de uma segunda Missa ser celebrada na Casa Mãe em determinado dia, tentava sempre assistir mesmo que tivesse muito ocupada.(p.220).

Explicações de Padre Neuner sobre a aridez de Madre Teresa

O sinal oculto da presença de Deus nessa escuridão é a sede de Deus, o anseio de um raio que seja da Sua luz. Uma pessoa não pode ansiar por Deus a não ser que Deus esteja presente em seu coração.(p.221).

Lia sobre São João da Cruz

Hoje chegou o livro sobre S;João da Cruz. Estou lendo as suas obras. Como ele escreve sobre Deus maravilhosamente.

O sofrimento é que faz o trabalho com os pobres ser virtuoso

Minhas queridas filhas – sem o nosso sofrimento, o nosso trabalho seria apenas um trabalho social, muito bom e muito útil, mas não seria a obra de Jesus Cristo, nem parte da redenção. (p.227).

Dor na garganta

A minha garganta me deu e continua me dando problemas.- Ainda bem que não dói quando falo – só quando bebo – por isso continuo dando todas as instruções.(p.248).

Aprovação pontifícia

Em 1º de fevereiro de 1965, as Missionárias da Caridade receberam a tão esperada aprovação pontifícia(Decreto de Louvor), por via da qual a congregação passava a estar sujeita à autoridade papal em vez de estar sujeita ao Bispo diocesano.(p.257).

Coração de Jesus

Desde a infância que o coração de Jesus é o meu primeiro amor.

Pequeninos

As palavras de Jesus no Evangelho de São Mateus – “o que fizestes ao mais pequenino[…] a Mim o fizestes’ – eram a rocha sobre a qual assentavam as suas convicções.(p.269).

Fidelidade na oração

A fidelidade incondicional de Madre Teresa à oração era uma virtude que as suas irmãs de Loreto já tinham observado nela e que impressionou, também, as suas primeiras seguidoras.(p.276).

Sabedoria

“Só quando percebemos o nosso nada, o nosso vazio, é que Deus pode nos encher com Ele mesmo. Quando nos tornamos cheias de Deus então podemos dar Deus aos outros, porque da plenitude do coração fala a boca.”(p.279)

Devemos nos esvaziar dos vícios e do mundo para nos enchermos de Deus

“Deus não pode encher o que está cheio”.(p.281).

Mantenha a luz da fé em Jesus acesa

Mantenha a luz, acesa em você com o óleo de sua vida. As dores que você tem nas costas – a pobreza que sente são gotas de óleo que mantêm a luz, Jesus, acesa e afastam a escuridão do pecado….Aceite com um grande sorriso o pouco que Ele lhe dá com grande amor.(p.282).

Amar sempre

Permitam que os pobres e as pessoas as devores[…] Permitam que os pobres ‘mordam’ o seu sorriso, o seu tempo. Vocês, às vezes, podem preferir nem sequer olhar para uma pessoa com quem tiveram algum desentendimento. Então, não apenas olhem, dêem um sorriso.(p.290).

Rosário

“A fidelidade ao Rosário trará muitas almas à Deus.”(p.292).

Alegria

A Madre sempre nos disse: “Deus ama aquele que dá com alegria. Se não vamos às pessoas com uma cara alegre, apenas aumentamos sua escuridão e suas misérias e aflições.”(p.294).

Deus é amor

Esse é realmente o sentido pleno da pobreza de Jesus. Ele que era rico se fez pobre. Renunciou à riqueza da companhia de Seu Pai ao tornar-se homem como nós em todas as coisas exceto no pecado.(p.295).

O amor é a verdadeira cura dos corações

A tuberculose e o câncer não são as grandes doenças. Penso que uma doença muito maior é não ser querido, não ser amado. A dor que essas pessoas sofrem é muito difícil de se compreender.(p.301).

Oração

O fruto do silêncio é a oração

O fruto da oração é a fé

O fruto da fé é o amor

O fruto do amor é o serviço

O fruto do serviço é a paz.

Aceitava todos os sofrimentos

Madre Teresa aceitava todos os sofrimentos interiores e exteriores.(p.328).

Enfermidade

Na sua última enfermidade[em 1996], ficou com freqüência no hospital. Estava literalmente pregada à cama, pregada à cruz.(p.330).

O verdadeiro amor é abandono

O verdadeiro amor é abandono. Quanto mais amamos, mais nos abandonamos. Se amamos realmente as almas, temos que estar prontas para tomar o seu lugar, a tomar sobre nós os seus pecados.(p.334).

Fonte: Madre Teresa – Venha, seja minha luz. Brian Kolodiejchuk. Editora. Tomas Nelson Brasil.

Biografia de Santa Teresa dos Andes


TERESA DE JESUS DOS ANDES  (1900-1920)

Virgem
Carmelitana Descalça


A jovem que hoje a Igreja glorifica com o titulo de Santa é um profeta de Deus para os homens e mulheres do nosso tempo. Teresa de Jesus dos Andes  põe-nos diante dos olhos o testemunho vivo do Evangelho, encarnado até às últimas exigências na sua própria vida. Ela é, para a humanidade, prova indiscutível de que a chamada de Cristo à santidade é actual, possível e verdadeira. Ela ergue-se diante de nós para demonstrar que a radicalidade do seguimento de Cristo é o único que vale a pena e o único capaz de fazer-nos felizes. Teresa dos Andes, com a eloquência duma vida intensamente vivida, confirma-nos que Deus existe, que Deus é amor e alegria, que é a nossa plenitude.

Nasceu em Santiago do Chile a 13 de Julho de 1900. No Baptismo foi-lhe dado o nome de Joana Henriqueta Josefina dos Sagrados Corações Fernández Solar. Familiarmente era conhecida, e é-o ainda hoje, pelo nome de Juanita.Viveu uma infância normal no seio da família: os pais, Miguel Fernández e Lucia Solar; três irmãos e duas irmãs; o avô materno, tios, tias e primos.A família gozava de boa posição económica e guardava fielmente a fé cristã que vivia com sinceridade e constância.

Joana recebeu a sua formação escolar no colégio das Irmãs francesas do Sagrado Coração. Uma curta e intensa história passada entre a família e o colégio. Aos catorze anos, movida por Deus, já ela se decidiu a consagrar-se a Ele como religiosa, em concreto, como carmelita descalça.Este seu desejo veio a realizar-se a 7 de Maio de 1919, quando entrou no pequeno mosteiro do Espírito Santo na povoação de Los Andes, a cerca de 90 kms de Santiago.

Vestiu o hábito de carmelita no dia 14 de Outubro desse mesmo ano, iniciando assim o noviciado com o nome de Teresa de Jesus.Tinha intuído, havia muito, que morreria jovem. Melhor, o Senhor tinha-lho revelado, como comunicou ao confessor um mês antes da sua partida para Ele.Assumiu este anúncio com alegria, serenidade e confiança, certa de que na eternidade continuaria a sua missão de fazer conhecer e amar a Deus.

Após muitas tribulações interiores e indizíveis padecimentos fisicos, causados por um violento ataque de tifo que lhe consumiu a vida, passou deste mundo para o Pai no entardecer do dia 12 de Abril de 1920. Tinha recebido com sumo fervor os santos sacramentos da Igreja e no dia 7 de Abril fez a profissão religiosa em artigo de morte. Faltavam-lhe ainda três meses para completar os 20 anos de idade e 6 para terminar o noviciado canónico e poder emitir juridicamente os votos religiosos. Morreu, portanto, sendo noviça carmelita descalça.

Esta é a trajectória externa desta jovem chilena de Santiago. Desconcerta e desperta em nós uma grande interrogação: Mas, que fez ela de importante? Para tal pergunta, uma resposta igualmente desconcertante: viver, crer, amar.Quando os discípulos perguntaram a Jesus sobre o que deviam fazer para cumprir as obras de Deus, Ele respondeu: ” A obra de Deus é que acrediteis n’Aquele que Ele enviou ” (Jo. 6, 28-29). Portanto, para aperceber-nos do valor da vida de “Juanita”, é necessário assomar-nos ao seu interior, ali onde o Reino de Deus está.

Ela abriu-se à vida da graça desde mui tenra idade. E ela mesma que nos assegura que aos 6 anos, movida pelo Senhor, conseguiu centrar n’Ele toda a riqueza da sua afectividade. “Quando se deu o terramoto de 1906, pouco depois, Jesus começou a apoderar-se do meu coração” (Diario, n. 3, p. 26). Juanita aliava uma enorme capacidade de amar e de ser amada a uma extraordinária inteligência. Deus fê-la experimentar a sua presença, cativou-a dando-se-lhe a conhecer e fê-la totalmente d’Ele, unindo-a ao sacrifício da cruz. Conhecendo-O, amou-O; e amando-O, entregou-se radicalmente a Ele.

Tinha compreendido, já desde pequena, que o amor se mostra mais com obras que com palavras. Por isso traduziu-o em todos os actos da própria vida, desde a sua motivação mais profunda. Olhou-se a si mesma de frente com olhos sinceros e sábios e compreendeu que, para ser de Deus, era necessário morrer para si mesma e para tudo o que não fosse Ele. Por natureza era totalmente adversa às exigências do Evangelho: orgulhosa, egoísta, teimosa, com todos os defeitos que isto supõe. Como nos acontece a todos. Mas o que ela fez de diferente foi não esmorecer nunca na luta encarniçada contra todo o impulso não nascido do amor.

Aos 10 anos era uma nova pessoa. Motivava-a o sacramento da Eucaristia que ia receber. Compreendeu que era Deus que ia morar dentro dela; e isso fê-la empenhar todo o esforço em ornar-se das virtudes que a fizessem menos indigna desta graça e conseguiu, em pouquíssimo tempo, transformar por completo o seu carácter.Na celebração deste Sacramento recebeu de Deus graças místicas de falas interiores que persistiram ao longo de toda a vida. Desde então, a inclinação natural para Deus transformou-se nela em amizade, em vida de oração.

Quatro anos mais tarde recebeu interiormente a revelação que iria orientar definitivamente toda a sua vida: Jesus Cristo disse-lhe que a queria carmelita e que a sua meta tinha de ser a santidade.Com abundante graça de Deus e a generosidade duma jovem apaixonada, entregou-se à oração, à aquisição das virtudes e à prática da vida segundo o Evangelho, de tal modo que em breves anos foi elevada a alto grau de união com Deus.

Cristo foi o seu ideal, o seu único ideal. Enamorou-se d’Ele e foi consequente até crucificar-se em cada momento por Ele. Invadiu-a O amor esponsal e, por isso, o desejo de unir-se plenamente a Quem a havia cativado. Assim, aos 15 anos fez voto de virgindade por nove dias, que renovou depois continuamente. A santidade da sua vida resplandeceu nos actos ordinários de cada dia em qualquer ambiente onde viveu: a família, o colégio, as amigas, os vizinhos com quem passava parte das suas férias e a quem, com zelo apostólico, catequizou e ajudou. Sendo jovem igual a todas as suas amigas, estas reconheciam-na diferente. Tomaram-na por modelo, apoio e conselheira. Juanita sofreu e gozou intensamente em Deus as penas e alegrias comuns a todas as pessoas.

Jovial, alegre, simpática, atraente, desportista, comunicativa. Adolescente ainda, alcançou perfeito equilíbrio psicológico e espiritual, como fruto de ascese e oração. A serenidade do seu rosto era o reflexo do Deus que nela vivia. A sua vida no convento, de 7 de Maio de 1919 até à morte, foi o último degrau da sua ascensão ao cume da santidade. Nada mais que onze meses bastaram para consumar uma vida totalmente cristificada.

Bem depressa a Comunidade descobriu nela a passagem de Deus na sua própria história. No estilo de vida carmelitano-teresiano, a jovem encontrou plenamente o espaço por onde derramar, com a maior eficácia, a torrente de vida que ela queria oferecer à Igreja de Cristo. Era o mesmo estilo de vida que, a seu modo, vivera na família e a que se sentia chamada. A Ordem da Virgem Maria do Monte Carmelo culminou os desejos de Juanita ao comprovar que a Mãe de Deus, a quem amou desde pequena, a tinha atraído para pertencer-lhe.

Foi beatificada em Santiago do Chile por Sua Santidade o Papa João Paulo II, no dia 3 de Abril de 1987. Os seus restos são venerados no Santuário de Auco-Rinconada dos Andes por milhares de peregrinos que buscam e encontram nela a consolação, a luz, e o caminho recto para Deus.

Santa Teresa de Jesus nos Andres é a primeira Santa chilena, a primeira Santa carmelita descalça de além fronteiras da Europa e a quarta Santa Teresa do Carmelo, depois das Santas Teresas de Avila, de Florença e de Lisieux.

Fonte: http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_19930321_teresa-de-jesus_po.html

Introdução

Emociona o carinho e a ternura que transparecem nas cartas a seu pai, obrigado por negócios a viver muito tempo longe da família. É uma surpresa agradável ouvi-la ponderar a felicidade contagiante que desfruta. (p.11)

Já antes de entrar no convento deseja que toda a sua existência seja uma oração ininterrupta. Em todos os lugares, mesmo nos passeios e festas, ela está com Deus.  (p.13)

A família

“Nasci em 1900, no dia 13 de julho. Mamãe se chama Lucia Solar de Fernández: papai Miguel Fernandez Jara…”(p.34)

“Jesus não quis que nascesse como Ele, pobre. E nasci em meio às riquezas, mimada por todos. Eu era a quarta. A primeira se chamava Lucía, que tinha 7 anos; Miguel, o segundo, 6, e Lucho, o terceiro, tinha 3 anos…Pouco depois nasceu Rebeca, com um ano e oito meses, de diferença comigo. “(p.34)

“Desde pequena me diziam que eu era a mais bonita de méis irmãos, e eu não dava conta disso..Só Deus sabe o que me custou afastar esse orgulho…porém tinha um caráter sumamente suave: jamais me zangava com alguém.” (p.34-35)

Aos 7 anos de idade

“Lembro que minha mãe e minha tia Juanita nos levavam à missa e sempre explicavam tudo; …Lembro que mamãe e minha tia Juanita me sentavam na mesa e me perguntavam sobre a Eucaristia…Aos 7 anos me confessei. Nos preparam as Monjas. (p.35)

Desde essa época Nosso Senhor me mostrou o sofrimento. Papai perdeu uma parte da fortuna. Assim, tivemos de viver mais modestamente. (p.38)

A verdade é que Miguel Fernandez,…não soube administrar seus bens, e a família…o olhava com imensa compaixão…Miguel, para evitar… problemas, passava grandes temporadas longe da família, nas terras, próprias ou arrendadas, que cultivava. (p.88)

A Primeira Comunhão

O coração de Juanita sente uma terna devoção à Santíssima Virgem. Promete-lhe rezar todos os dias o santo rosário. Cumprirá fielmente esta promessa durante toda a vida. Começa a assistir com sua mãe, à missa todos os dias e, não podendo comungar como deseja e solicita, começa a preparar-se para a primeira comunhão, conseguindo modificar seu caráter… 11 de Setembro: recebe das mãos de Mons. Angel Jara sua primeira comunhão na capela do colégio. “Dia sem nuvens”, que a marcou definitivamente. (p.24)

“O dia de minha Primeira Comunhão foi um dia sem nuvens para mim. Fiz confissão geral. Lembro-me: depois que saí colocaram-me um véu branco. Ah! Lembro-me da impressão de meu paizinho. Fui pedir-lhe perdão e me beijou. Então me ajoelhei e, chorando, lhe disse que me perdoasse todas as penas que lhe havia dado com minha conduta. E meu paizinho verteu lágrimas, levantou-me e me beijava, dizendo que não tinha por que pedir perdão, porque nunca o havia desgostado, e que estava muito contente vendo-me tão boa. Ah! Sim, paizinho, porque vós éreis demasiado indulgente e bondoso para comigo. Pedi perdão a mamãe, que chorava. A todos meus irmãos e, por último, a minha mãezinha e aos outros empregados. Todos me respondiam comovidos.”(p.39)

“…Chegou por fim o momento. Fizemos nossa entrada na capela de dois em dois…Não é possível descrever o que passou por minha alma com Jesus. Pedi-lhe mil vezes que me levasse, e sentia sua voz querida pela primeira vez. “Ah, Jesus, eu te amo; eu te adoro!” Pedia-lhe por todos. E sentia a Virgem perto de mim. Oh, quanto se abre o coração! E pela primeira vez senti uma paz deliciosa. Depois da ação de graças, fomos ao pátio repartir coisas com os pobres e abraçar cada uma a sua família…Todos os dias comungava e falava com Jesus longos momentos. Porém, minha devoção especial era a Virgem. Contava-lhe tudo. Desde esse dia a terra para mim não tinha atrativo. Eu queria morrer e pedia a Jesus que em 8 de dezembro me levasse.”(p.40)

Enfermidade no dia 8 de dezembro

8 de dezembro: de 1911 a 1914, sempre no dia da Imaculada, esteve às portas da morte por diversas enfermidades. (p.24)

“Todos os anos, eu estava doente em 8 de dezembro; tanto que acreditavam que morreria. Aos 12 anos, tive difteria. Em 8 de dezembro estive à morte. Minha mãe acreditou que morreria, porque uma tia minha morreu disso e eu a tinha pior que ela….Em 1913, tive uma febre espantosa. Neste tempo, Nosso Senhor me chamava para Si, porém eu não fazia caso de sua voz. E então, no ano passado, me enviou apendicite, o que me fez ouvir sua voz querida que me chamava para fazer-me esposa mais tarde no Carmelo. (p.40-41)

Minha devoção à Virgem era muito grande. Um dia, eu que sofria muito por uma coisa, contei-a à Virgem e roguei pela conversão de um pecador. Então ela me respondeu. Desde então, a Virgem, quando a chamo, me fala. (p.41)

Um dia estava só em meu quarto, e com a doença me havia tornado tão mimada que não podia estar só…Meus olhos cheios de lágrimas se fixaram em um quadro do Sagrado Coração e senti uma voz muito doce que me dizia: “Como! Juanita, eu sozinho no altar, por teu amor, e tu não agüentas um momento?” Desde então Jesusinho me fala. E eu passava horas inteiras conversando com Ele. Assim me agradava estar só. Foi me ensinando como devia sofrer e não me queixar…Então disse que me queria para Ele. Que queria que fosse carmelita…Ah! Madre, não se pode imaginar o que Jesus fazia em minha alma. Eu, nesse tempo, não vivia em mim. Era Jesus que vivia em mim. (p.41-42)

Minhas dores e a doença iam ficando cada dia piores. Em 8 de dezembro eu me senti morrer. Desde esse dia caí de cama de vez, para levantar-me operada. Mamãe começou uma novena de Terezinha do Menino Jesus (carmelita) porque sou muito devota dela…Ao meio-dia tive um mal estar, e pensaram que ia morrer; porém, Nosso Senhor quis conservar-me. Oh, quem bom é Deus comigo! (p.42)

Resolveram operar-me. Levaram-me ao pensionato de São Vicente segunda-feira, dia 28. Só Deus sabe o que sofri…Ignacito entrava em meu quarto com os olhinhos cheios de lágrimas, porém apenas me via secava as lágrimas e se punha a brincar. Não o vi chorar nem um instante, coisa admirável em um menino que acabava de completar 4 anos.(p.42)

Comunguei às cinco da manhã. Que Comunhão! Acreditava que a última. Pedi a Nosso Senhor com toda a minha alma que me desse coragem e serenidade. Que teria sido de mim sem o auxílio de Jesus? Oh, Jesus dulcíssimo, eu te amo! (p.43)

Não posso dizer quão boas eram as madres comigo. Ia acompanhar-me sempre que podia. Punha-me flores no quarto para que ficasse alegre. (p.42)

Eu tomei minha Virgem, abracei-me com meu crucifixo, os beijei e lhes disse: “Logo contemplarei face a face. Adeus”…Quando cheguei ao centro alguns serventes levaram-me degraus acima. Então Lucía e Rebeca me disseram adeus…Esse adeus foi para mim como um dardo que despedaçou meu coração e vieram-me as lágrimas. Mas eu não havia prometido a Jesus não chorar? Então, fazendo um esforço sequei as lágrimas e lhes disse adeus. (p.43)

Chegaram os médicos…Antes que me pusessem o clorofórmio beijei minha  medalha e me meti no Coração de Jesus dizendo adeus ao mundo. Meu pai e minha tia Juanita deviam assistir; porém, meu pai não teve coragem. Quando despertei, tinha a cabeça zonza…a dor era terrível, e o clorofórmio me causou terríveis efeitos, mas assim lembrava de oferecê-los a Nosso Senhor…Um médico, o do pensionato, mandou-me orquídeas, que é uma flor sumamente cara. Era a primeira vez que me mandavam flores, e eu as mandei para Jesus. Custou-me muito este sacrifício, porém o fiz. (p.44)

Aos 15 anos de idade

13 de julho. Hoje completo 15 anos…Porém eu penso: quinze anos, por quinze anos Deus tem me conservado a vida…15 anos para uma menina é a idade mais perigosa, é a entrada no mar tempestuoso do mundo. Mas eu, que tenho quinze anos, Jesus tomou o comando de minha barquinha e a retirou do encontro de outras barcas.  Manteve-me solitária com Ele…Sempre sinto essa voz querida, que é a de meu Amado, a voz de Jesus no fundo de minha alma; em minhas aflições, em minhas tentações, Ele é meu Consolador, Ele é meu Capitão. Conduz-me sempre, Jesus meu, pelo caminho da Cruz. E levantará vôo minha alma, até onde se encontra o ar que vivifica e a quietude. (p.46)

Quinta- feira, 2 de setembro de 1915. Hoje faz um mês e dois dias que nos disseram que seríamos internas. Creio que jamais me acostumarei a viver longe de minha família: meu pai, minha mãe, esses seres que quero tanto…Ah, se soubessem como sofro, se compadeceriam! Sem dúvida, devo consolar-me. Acaso viverei toda vida sem separar-me deles? Porém, a voz de Deus manda mais e eu devo seguir Jesus ao fim do mundo se Ele o quer. N´Ele encontro tudo. Só Ele ocupa meu pensamento. E tudo o mais, fora d´Ele, é sombra, aflição e vaidade. Por Ele deixarei tudo para ir me ocultar atrás das grades do Carmelo, se é Sua Vontade e, viver só para Ele. Que felicidade…É o Céu na terra. (p.47-48)

A vocação carmelita

..Onde será o lugar em que celebraremos nossos esponsais e o lugar onde viveremos unidos? Falou-me: o Carmelo. Porém,…sem esperança me retiro triste e desolada. Vejo que meu corpo não resistirá e todos os que estão a par me repetem: é muito austera essa Ordem, e tu és muito delicada. Porém, tu, Jesus, és meu Amigo e, como tal, me proporcionas consolo. Quando saí de casa durante o dia, me encontrei com a Madre Superiora do Carmelo; sem conhecer-me, havia me enviado um retrato de Teresinha do Menino Jesus, por mamãe, o que me proporcionou muito prazer. Encomendar-me-ei a Teresinha para que me sare e possa ser carmelita. Porém, só quero que se cumpra a vontade de Deus. Ele sabe melhor o que me convém. Oh, Jesus, te amo; te adoro com toda a minha alma! (p.48)

Domingo estarei sozinha com Madre Ríos. …penso contar-lhe toda a mudança que se operou em mim desde a cirurgia; minha vocação para carmelita, enfim, tudo. Não sei como farei isso, pois me custa muito expressar tudo o que me passa. (p.49)

Domingo…tenho muito que contar, e sobretudo dar muitas graças a Jesus porque me concedeu ver Madre Ríos e dizer-lhe quase tudo…Disse-me que, mesmo não sendo pecado, eu me assegurasse de que quem me elegia era o Rei dos céus e da terra. Perguntou quem era eu para brincar assim. Não era acaso uma vil e miserável criatura? …Que me assegurasse de que não era por um dia, nem por toda a vida, mas para toda a eternidade. Que o amor humano extingue, porém o Divino abraça tudo…Madre Ríos me disse que rezaria muito por mim e minha saúde, e que só pensasse que ia ser a esposa de Jesus. Recomendou-me ler a vida de Santa Teresa e de Teresinha do Menino Jesus. Eu lhe disse que a havia lido várias vezes e tido muito proveito, pois sua alma tem alguns pontos parecidos com a minha. (p.50-51)

Carta a irmã Rebeca

Vou ser carmelita, que te parece? Não quisera ter em minha alma nenhuma dobra escondida para ti. Porém, tu sabes que não posso dizer-te tudo o que sinto e por isso resolvi fazê-lo por escrito. Entreguei-me a Ele. Em 8 de dezembro me comprometi. Tudo o que quero me é impossível dizê-lo. Meu pensamento não se ocupa senão d´Ele. É meu ideal infinito. Suspiro pelo dia de ir ao Carmelo para não me ocupar-me senão d´Ele, para confundir-me n´Ele e para não viver senão a vida d´Ele: amar e sofrer para salvar as almas. Sim, estou sedenta delas porque sei que é o que mais quer meu Jesus. Oh, o amo tanto!  Quisera inflamar nesse amor. Que felicidade a minha se pudesse dar-te a Ele! Oh, nunca tenho necessidade de nada, porque em Jesus encontro tudo que busco! Ele jamais me abandona. Jamais diminui seu amor. É tão puro! É tão belo! É a própria bondade. Pede-lhe por mim, Rebequita. Necessito de orações. Vejo que minha vocação é muito grande: salvar almas, dar operários à Vinha de Cristo. Todos os sacrifícios que façamos são poucos em comparação com o valor de uma alma. Deus entregou sua vida por elas, e nós quanto descuidamos de sua salvação!…E qual o meio de ganhar almas? A oração, a mortificação e o sofrimento. (p.55-56)

Sofrer com alegria

A ti, Jesus meu, ofereço este sofrimento; pois quero sofrer para parecer-me contigo, Jesus, amor meu…Hoje, desde que levantei estou muito triste. Parece que de repente me parte o coração. Jesus disse-me que queria que sofresse com alegria. Isso custa tanto, porém basta que Ele o peça para que eu procure fazê-lo. Agrada-me o sofrimento por duas razões:

1.Porque Jesus sempre preferiu o sofrimento, desde o seu nascimento até morrer na Cruz. Logo, há de ser algo muito grande para que o Todo-Poderoso busque em tudo o sofrimento.

2.Agrada-me porque no crisol da dor se lavram as almas. E porque Jesus, para as almas que mais quer, envia este presente que tanto agradou a Ele.

Disse-me que Ele havia subido ao Calvário e deitado na Cruz com alegria pela salvação dos homens. “Acaso não és tu que me buscas e que queres parecer comigo? Então vem comigo e toma a Cruz com amor e alegria”. (p.52-53)

A amizade com Nossa Senhora

Meu espelho há de ser Maria. Como sou sua filha, devo parecer-me com Ela e assim serei semelhante a Jesus…(p.53)

Mãe querida,…escrevo-Te para desafogar meu coração despedaçado pela dor. Não quero que juntes seus pedaços, Mãe de minha alma, mas que dele escorra, que destile um pouco de sangue. A dor afoga-me, minha Mãe. Sofro porém estou feliz sofrendo. Tirei da Cruz meu Jesus. Ele descansa. Que maior felicidade para mim?…Mãe minha, mostra que é minha Mãe. Ouve o grito de minha alma pecadora arrependida, que sofre e leva até o fim o cálice da dor; mas não importa. Aflige-me, porém só quero a Jesus. Quero que Ele seja o dono de meu coração. Diz-lhe que o amor e que o adoro. Diz-lhe que quero sofrer, que quero morrer de amor e sofrimento. Que não importa o mundo, mas somente Ele. Sim, Mãe. Estou só. Uno-me a tua solidão. Consola-me, alenta-me, aconselha-me, acompanha-me e abençoa-me. (p.53)

Quanto amo minha Mãe! Quanto ela me ama! Hoje é o dia de seu Coração Imaculado. Falaram ternamente d`Ela no sermão. Cheguei a chorar depois, de tanto que a amava. (p.80)

“Minha Mãe, sê tu minha mãe. Lembra-te de que me dei a Ti. Guarda-me pura, virgem, em teu Coração Imaculado. Que ele seja meu refúgio…Ponho-me eu teus braços maternais para que Tu me coloques nos braços de Jesus. Abandono-me a Ele. Que se faça sua santa vontade.” (p.93)

“Nosso Senhor me disse que meditasse sobre a pureza da Virgem. Ela, sem dizer-me nada, começou a falar. Eu não conheci sua voz e perguntei se era Jesus. Ela me respondeu que Nosso Senhor estava dentro de minha alma, porém que Ela me falava. Disse-me que escrevesse o que me dizia acerca da pureza.

1º Ser pura no pensamento: quer dizer, que rechaçasse todo pensamento que não fosse de Deus, para que assim vivesse constantemente em sua presença. Para isso devia procurar não ter afeto a nenhuma criatura.

2º Ser pura em meu desejos, de tal modo que só desejasse ser a cada dia mais de Deus; desejasse sua glória, ser santa e fazer minhas obras com perfeição. Para isto, não desejar nem honra nem louvores, mas desprezo, humilhação, pois assim agradava a Deus. Não desejar nem comer nem dormir senão para servir melhor a Deus.

3º Ser pura em minhas obras. Abster-me de tudo o que possa manchar-me, do que não seja admitido por Deus, que quer minha santificação; fazê-las por Deus o melhor que possa, não para que me vissem as criaturas. Evitar toda palavra que não seja dita por Deus, por sua glória. Que em minhas conversas sempre colocasse Deus. Que não olhasse nada sem necessidade, mas para contemplar a Deus em suas obras. Que imaginasse que Deus me olhava sempre…Que mortificasse o tato não tocando sem necessidade em mim mesma, nem em outra pessoa qualquer…(p.114)

O voto de castidade

Meu confessor me deu permissão para fazer voto de castidade por nove dias e depois ele indicará as datas. Sou feliz. Tenho minha fórmula escrita: “Hoje, 8 de dezembro de 1915, na idade de 15 anos, faço o voto diante da Santíssima Trindade e em presença da Virgem Maria e de todos os santos do Céu de não admitir outro Esposo senão a meu Senhor Jesus Cristo, a quem amo de todo coração e a quem quero servir até o último momento de minha vida. Feito na novena da Imaculada para ser renovado com a permissão de meu confessor”. (p.54)

Resoluções de vida aos 16 anos

1ª Aceitar os sacrifícios sem murmurar interiormente nem abater-me.

2ª Hei de eclipsar-me.

3ª Esmerar-me-ei m construir a felicidade dos demais.

4ª Procurarei fazer a virtude amável aos outros.

5ª Hei de esquecer-me de mim mesma:

1.unindo me a Jesus;

2.sendo caridosa com o próximo;

3.não dando minha opinião se não a pedem;

4.sofrendo com gozo as humilhações, sendo amável com as pessoas que as proporcionam;

5.vivendo com Jesus no fundo de minha alma, que há de ser a casinha onde Ele possa descansar. Ali o adorarei e lhe oferecerei as mortificações, sofrimentos e humilhações. (p.63-64)

Devo contemplar em minha alma a Jesus crucificado. Eu o imitarei e receberei ao pé da Cruz o sangue de meu Jesus, que guardarei em minha alma e que hei de comunicar às almas de meus próximos, para que, por meio de sangue de Cristo, sejam lavadas. (p.64)

Oferenda pelos pecadores

Meu Jesus, tu conheces a oferenda que te fiz de mim mesma pela conversão das pessoas cujo nome te dei. Desde hoje, não só te ofereço minha vida, mas também minha morte como te aprouver dá-la a mim. Eu a receberei com gosto, seja no abandono do Calvário, seja no Paraíso de Nazaré. Ademais, se queres, dá-me sofrimentos, cruz, humilhações. Que seja pisoteada para castigar meu orgulho e o deles. Como tu queiras, Jesus meu. Sou tua, faze de mim segundo tua santa vontade. A ti, oh, Maria, que jamais deixaste de escutar-me os rogos que te dirigi, como uma filha pede a sua mãe, também ponho em tuas mãos maternais essas almas. Ouve-me. Toda minha vida não deixei de pedir-te, minha Mãe. Escuta-me, rogo-te por Jesus e por teu Esposo São José a quem rogo interceda por esta pobre pecadora. (p.64)

Santa Teresa dos Andes busca de ter um coração paciente e humilde

Não tenho, ainda, bastante virtude. Abato-me rapidamente. Sem dúvida, sou mais humilde ou me humilho mais e tenho mais fé. Sem dúvida, outro dia as meninas portaram-se mal à mesa e eu me impacientei. Eu disse que não se importavam. Tive muita raiva, e ao ver as meninas chamei-as de antipáticas. Jesus teria agido assim?…É certo que me venci, mas depois contei minha raiva e no outro dia pedi perdão às meninas, para me humilhar. Essas quedas servem pra reconhecer que sou ainda muito imperfeita…

15 de junho de 1917. Fui confessar-me ontem. O Padre disse-me três coisas necessárias para não se impacientar:

1º Não manifestar a raiva exteriormente;

2º Ser amável com a pessoa que a proporciona;

3º Calar, abater a própria cólera em meu coração. (p.66)

19 de Junho de 1917. Hoje venci-me muito para não ter raiva. Meu Deus, Tu me ajudaste. Te dou graças. Nos arranjos e recreios fui perfeita por eles. Porém, não tanto nas aulas. (p.66)

Mortificação no ouvir

Estava estudando no horto e chegou Rebeca pra me dar um recado de Madre Ríos para ela e para mim. Eu, ainda que tivesse vontade, venci-me e lhe disse que não queria ouvir nada, que se fosse. Todo o dia a curiosidade me atiçou, até que na ceia nos contou. Ofereci este ato, que me custou muito, por eles. (p.67)

Mortificação no falar

Fixei-me em não dizer meu nome, em não falar de mim. É bastante custoso, porém o farei por Jesus, para consolá-lO. (p.68)

Só o amor de Deus permanece

Os corações dos homens amam um dia e no outro são indiferentes. Só Deus não muda. (p.668)

A caridade de Santa Teresa dos Andes

“Juntei trinta pesos durante o dia. Vou comprar sapatos para Juanito (1) e o resto darei a minha mãe para que tenha o que dar aos pobres. É tão enriquecedor dar-lhes! Dei meus sapatos à mãezinha de Juanito.”(p.70)

(1)Juanito era um menino muito pobre que ela sempre ajudou, inclusive com o dinheiro da “mesada”. Para obter fundos para isso, chegou a rifar seu relógio. Ao ingressar no Carmelo deixou-o recomendado aos seus e, do convento, em várias cartas, mostra preocupação por ele. (p.70)

Aniversário de Santa Teresa dos Andes (17 anos)

“Julho, 13. Hoje completei 17 anos; um ano a menos de vida. Um ano a menos distante da morte, da união eterna com Deus. Um ano somente para chegar ao porto do Carmelo…(p.72)

A alegria de conhecer a vida de Isabel de Trindade

Estou lendo Isabel da Santíssima Trindade. Ela me encanta. Sua alma é parecida com a minha. Se ela foi uma santa, eu a imitarei e serei santa. Quero viver com Jesus no íntimo de minha alma.

A virtude da humildade

“Sem a humildade as demais virtudes são hipocrisia… A humildade nos proporciona a semelhança com Cristo, a paz da alma, a santidade e a união íntima com Deus.” (p.74)

“Agora quero ser pobre, pois as riquezas, a prata, os vestidos, as comodidades, as boas comidas, de que me servirão em meu leito de morte? De perturbação nada mais. De que serve grande nome, os aplausos, as honras, a adulação e a estima das criaturas? Na hora da morte, tudo desaparece com esse corpo…(p.75)

“Quero, a partir de hoje, ser sempre a última em tudo, ocupar o último lugar, servir os demais, sacrificar-me sempre e em tudo para unir-me mais Àquele que se fez servo sendo Deus, porque nos amava.” (p.77)

“Creio que no amor está a santidade. Quero ser santa. Logo, entregar-me-ei ao amor, já que este purifica, serve para expiar. Aquele que ama não tem outra vontade senão a do amado; logo, quero fazer a vontade de Jesus. Aquele que ama se sacrifica. Eu quero sacrificar-me em tudo.” (p.77-78)

“Que adquiriria a humildade humilhando-me, considerando-me pecadora e a última de todos. Que quando visse um defeito nas pessoas pensasse em suas qualidades…” (p.112)

Secura Espiritual

“Sinto-me cada dia pior. Não tenho ânimo para nada; porém, enfim, é a vontade de Deus. Que se faça como Ele quer. Minha Mãe, tudo”. (p.80)

O sonho de ser carmelita

“Apresenta-se tão triste o futuro que não quero olhá-lo. Disseram-me hoje que iam tirar-me do colégio…E ver, por outro Lado, que não poderei ser carmelita por causa de minha saúde. Tudo isso me faz exclamar: meu Jesus, se é possível, afasta de mim este cálice; porém não se faça minha vontade, mas a tua!” (p.81)

“Hoje fui confessar-me. Falei longamente com o Padre acerca de minha vocação. Disse-me que ele via que, por enquanto, tinha verdadeira vocação carmelita…E também podia ser carmelita espiritualmente, quer dizer, com o espírito carmelitano podia em minha casa seguir uma regra de vida como as carmelitas, levantando-me a tal hora, e tendo uma hora de meditação, e depois indo à missa, comungar, e vir a minha casa e pôr-me a trabalhar, estando todo o dia na presença de Deus e tendo à tarde outra hora de meditação e deitar-me a uma hora fixa, e sair o menos possível.” (p.83)

“Penso, em minha casa, levar uma vida de oração: levantar-me às cinco e meia e fazer, das seis às sete, meditação. Às onze e meia, exame. Na metade do dia, leitura espiritual e, à tarde, uma hora de oração.” (p.97)

“Disse-me que, quando estivesse muito desconsolada e me sentisse sem ânimo, primeiro buscasse consolo em Deus e, se Ele não me desse, o buscasse um pouco em uma pessoa digna de confiança que me levasse a Deus. Que vivesse crucificada, pois Jesus queria que fosse seu Cirineu. Que Ele me dava uma lasquinha de sua cruz, que a recebesse com prazer e que tratasse de não me abater.  Que vivesse mais do que nunca na presença de Deus.” (p.83)

“Quero que minhas ações, meus desejos, meus pensamentos levem este selo: “Sou de Jesus”. (p.84)

A luta para alcançar a santidade

“Hoje precisei vencer-me muito. Tive raiva, desejo de desobedecer e fazer minha vontade. Me aborreci e pensei que não tinha vocação; que era uma ilusão, uma pura idéia; que me desesperaria depois; enfim, tantas coisas…Mas rezei com devoção à Santíssima Virgem e ouvi do fundo de meu coração a voz de meu Jesus: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de Coração”. E assim terminou a minha irritação.” (p.86)

O amor à vocação carmelita

“Falei bastante com Jesus. Fez-me ver a necessidade que a carmelita tem de viver sempre ao pé da cruz, para aprender ali a amar e sofrer. Sofrer de três maneiras: 1º A carmelita há de mortificar sua carne, a exemplo de Jesus agonizante. 2º Mortificar sua vontade, negando-se todas as satisfações e submetendo sua vontade a Deus e ao próximo. 3º O sofrimento do espírito, do abandono de nosso Jesus na oração, nas lutas da alma etc. Como Jesus, que disse na cruz: “Meu Deus, por que me abandonaste?” A vida de carmelita não é outra coisa: amar, chegar à união mais perfeita com Deus, e imolar-se e sacrificar-se em tudo, já que o sacrifício é a oblação do amor.” (p.88)

“Minha alma é o céu, pois nela está Jesus”. (p.89)

Oração à noite

“À noite, uma hora com Jesus. Falamos intimamente. Censurou-me que não pedia ajuda como antes, em minhas dúvidas e aflições, a seu Coração. Que Ele me queria virgem, sem que nenhuma criatura me tocasse, pois devia ser toda para Ele. Apóio-me em seu Coração. Depois falou-me da pobreza…Que tudo passa, é vaidade. Depois me falou da humildade de pensamento, de ação, da ciência vã. Enfim, abriu-me seu Coração e me mostrou que por minhas orações tinha escrito o nome de papai. Disse-me que me resignasse a não ver seu fruto, mas que alcançaria tudo. Depois revelou-me seu amor, mas de tal maneira que chorei…Disse-me que seria carmelita; que não desconfiasse; que não dissesse a ninguém pois tratariam de persuadir-me a não ser. Enfim, que não fosse senão d`Ele: virgem, intacta, pura.” (p.90)

Oração pelos sacerdotes

“Meu Deus, faça-se tua vontade e não a minha. Ofereço-te meus sofrimentos por meus pecados, pelos pecadores, pela santificação dos sacerdotes”. (p.91)

Consolava as amigas do internato

“Hoje exerci meu apostolado. Haviam repreendido muito uma menininha e estava até para tirar-lhe a faixa. Ela estava tão desesperada que ia dizer a Madre Izquierdo que lhe tirassem a faixa. Eu rezei a Santíssima Virgem um “Lembrai-vos”, e lhe disse tudo o que Ela me inspirou, para animá-la e consolá-la. E falei-lhe da Virgem; que contasse a Ela suas aflições; que lhe pedisse sua proteção; que, sofresse com paciência, teria um grande prêmio no céu. (p.91)

Amizade com Jesus

“Jesus me disse que cumprisse sua vontade sempre com alegria, apesar de sentir abatimento. Que não olhasse o futuro, para manter-me em paz. Quero sempre ter diante de mim esta máxima. Hoje começo a obra por mim…” (p.94)

“Esta manhã Jesus me pediu que não chore por causa de minha saída da escola, pois essa é sua vontade. Eu lhe disse que então as monjas acreditariam que sou mal-agradecida; porém, Ele me fez ver como estava apegada ao que as criaturas diziam. Que rezando por elas seria agradecida. Vou oferecer o sacrifício por meu pai e meus irmãos.” (p.96)

“Estou muito triste porque só falta uma semana para sair da escola, porém quero fazer o sacrifício heroicamente, sem derramar lágrimas…Só em Jesus encontro esse amor constante, amor sem limite, amor infinito.” (p.97)

“Estou saindo da escola. Não é possível descrever tudo o que sofro. Oh, meu Deus, como tudo passa e acaba!…Adeus, madres que me ensinastes o caminho da virtude, que me mostrastes o caminho da felicidade mais completa aqui na terra e o caminho do céu. Adeus, morada do Coração de Jesus, onde durante três anos vivi contigo. Adeus, companheiras tão queridas, adeus…Não chorarei. Quero oferecer com generosidade o sacrifício a Deus. Tudo por Ti, Jesus, até a morte.”(p.101)

“Que sensações tão diversas tive! De pesar, por deixar minha querida escola, minhas Madres e companheiras, a que estou tão grata. Como são boas para mim, que carinho me demonstraram, sendo eu tão indigna dele! Cumpri meu sacrifício sem chorar. Verdadeiramente sentia em mim uma força superior às minhas: era Jesus quem me fazia ter coragem nesse instante…Por outro lado, sentia o atrativo do lar, da vida familiar que abandonei quando era tão menina;” (p.102)

“Hoje que já me encontro no mundo e vejo qual é minha vida, acho que a vida em Deus pode continuar mais ainda do que no colégio. Quantos sacrifícios que são desconhecidos para todos! Além disso, minha vida é de mais oração. Passo minha vida muitas vezes sozinha em meu quarto somente com Deus. O estudo ocupava mais o pensamento. Agora só devo pensar n`Ele.” (p.102)

“Nosso Senhor me disse que queria que vivesse com Ele em comunhão perpétua, porque me amava muito. Eu lhe disse que se Ele quisesse poderia, pois era Todo-poderoso. Depois me disse que a Santíssima Trindade estava em minha alma; que a adorasse. Imediatamente fiquei muito recolhida, a contemplava e me parecia que estava cheia de luz.” (p.113)

22 de maio de 1919. Nosso Senhor, na oração,…me mostrou como, apesar de sua agonia no altar, as criaturas não o amavam, não reparavam n`Ele. Isso me deixou muito aflita o dia todo. É uma espécie de martírio, pois me sinto sem forças para amá-lo como devia; sinto-me miserável e incapaz de oferecer-lhe consolo. (p.120)

26 de maio de 1919. Faz três dias que estou mergulhada na agonia de Nosso Senhor. A todo instante, ele se apresenta a mim…(p.121)

Faz três ou quatro dias que, estando em oração, senti…um ímpeto de amor tão grande, que creio que pouco mais não poderia resistir, pois nesse instante minha alma tende a sair do corpo. Meu coração bate com tanta violência que é horrível, e sinto que todo meu seu está como que suspenso e unido a Deus. Uma vez tocaram a hora e não percebi. Vi que minhas Irmãzinhas noviças saíam e pretendi segui-las; porém, não pude me mover. Estava como que cravada no chão. Até que quase chorando pedi a Nosso Senhor que pudesse sair, pois todas iam notar. Então pude; porém, minha alma estava como que em outra parte. (p.122-123)

“Sou de Deus, já que Ele me criou. Devo viver só para Deus e em Deus.” (p.124)

Quem ama sofre por Jesus

“Nosso Senhor pediu que me oferecesse como vítima para expiar os abandonos e ingratidões que Ele sofre no Sacrário. Disse que me faria sofrer desprezos, ingratidões, humilhações, securas; enfim, queria que sofresse. É só esse o meu desejo: quero sofrer, e mesmo quando sofro tenho ânsias de sofrer mais para unir-me a Nosso Senhor.” (p.105)

Duvida vocacional: ser do Sagrado Coração ou carmelita?

“Tenho muitas dúvidas a respeito de minha vocação. Não sei se devo ser do Sagrado Coração ou carmelita.”

Congregação do Sagrado Coração

“Falei com Madre Vicaria. Explicou-me com detalhes a vida do Sagrado Coração. Resume-se nisto: é uma vida mista de oração e ação; muita vida interior, pois têm de ter a Deus em si mesmas, dá-lo às almas, porém ficar sempre com Ele. Fazem cinco horas de oração, contando os exames e o ofício. Sua vida é uma prece contínua, pois, para que dê fruto sua obra nas almas, devem recorrer a Deus, e isso a cada instante. Seu objetivo principal é glorificar o Sagrado Coração, e, para consegui-lo, salvar muitas almas. Salvam-nas pela contínua abnegação. Sacrificam-se por elas de manhã até a noite. Dedicam-se a educar meninas ricas e pobres…Têm de tratar com o mundo, porém mostrar-se diante a d`Ele como religiosas, como crucificadas para Ele. Vivem vendo as comodidades sem possuí-las. Não tem convento próprio. Sua pátria é o mundo. Podem mandá-las a outros países sem que a saibam nem conheçam ninguém.” (p.106)

O Carmelo

“A Santíssima Virgem, minha Mãe, foi uma perfeita carmelita. Viveu sempre contemplando seu Jesus, sofrendo e amando-o. Nosso Senhor viveu trinta anos de sua vida no silêncio e na oração e só nos três últimos anos dedicou-se a evangelizar. A vida de carmelita consiste em amar, contemplar e sofrer. Vive só com seu Deus. Entre ela e Ele não há criaturas, não há mundos, não há nada, pois sua alma alcança a plenitude do amor, …alcança a perfeição pela contemplação e pelo sofrimento. Contempla só a Deus e, como os anjos no céu, entoa os louvores do Ser por excelência. A solidão, o isolamento de tudo da terra, a pobreza em que vive são poderosos elementos que a favorecem a contemplação de Deus amor. Por fim, o sofrimento a purifica intensamente. A carmelita sofre em silêncio…(p.107)

A carmelita é pobre. Não possui nada. Tem de trabalhar para viver. Seu leito é um enxergão. Sua túnica é áspera; Não tem uma cadeira em que sentar. Seu alimento é grosseiro e escasso. Mas ama, e o amor a enriquece, lhe dá a seu Deus…Minha alma deseja a cruz porque nela está Jesus.” (p.108)

Visita ao Carmelo de Los Andes

“Quando chegamos lá me encontrei com uma casa pobre e velha. Esse ia ser meu convento. Sua pobreza me falou ao coração. Senti-me atraída a ele. Depois veio abrir a porta uma menina que nos disse que Madre Angélica nos espera depois de almoçar. Às onze e meia voltamos. Entrei no locutório e Teresita Montes apareceu. Falamos com ela. Eu não sabia o que se passava comigo. Foi chamar Madre Angélica. Ouvi, pela primeira vez, sua voz, Sentia-me feliz. Fiquei a sós com ela. Pusemo-nos a falar da vida da carmelita. Explicou-a inteira. Falou-me do ofício divino: como a religiosas substitui aos anjos cantando os louvores de Deus….Depois fui ao locutório. Sentia-me numa paz e felicidade tão grandes que me é impossível explicar. Via claramente que Deus me queria ali e me sentia com força para vencer todos os obstáculos para poder ser carmelita e encerrar-me ali para sempre. Falamos do amor de Deus. Madre Angélica o fazia com uma eloqüência que parecia lhe sair do íntimo da alma. Fez-me ver a grande bondade de Deus ao chamar-me e como tudo o que tinha era de Deus. Depois me falou da humildade: como era tão necessária essa virtude, que sempre me considerasse a última; que me humilhasse o mais possível; que quando me repreendessem dissesse interiormente: “Mereço isso e muito mais”.  Falo-me de minhas Irmãzinhas, de como eram boas. Falei com ela até as 4 e meia, sozinha. Então, mandou minha mãe comer. Teresita Montes veio perguntar se queria fazer a “visita de vistas”. Madre Angélica deu permissão  então Teresita foi buscar todas. Então tirou a cortina das grades e começaram todas a entrar e aproximar-se da grade. Eu estava ajoelhada. Considerava-me indigna de estar de pé diante de tantas santas. Todas, com o véu levantado, vieram saudar-me com tanto carinho que eu me sentia confusa. No princípio minha emoção era tanta que mal podia falar, porém depois conversamos com toda confiança.Elas demonstravam uma alegria e, ao mesmo tempo, uma familiaridade entre elas que me encantavam. Perguntaram-me quando iria. Eu lhes disse que até maio…Depois de algum tempo, todas foram se despedindo e fiquei com Madre Angélica, que me mandou comer. Obedeci mesmo sem vontade, pois me sentia cheia…Depois me chamou para dar-me alguns livros e outras coisas que lhe pedi. Despedi-me com pesar, ao mesmo tempo que levava minha alma cheia de felicidade. Como Deus havia trocado a tempestade em bonança; a perturbação em santa paz!” (p.108-110)

Oração Contemplativa

“Senti um grande impulso para ir à oração. Comecei por minha comunhão espiritual; porém, ao dar a ação de graças, minha alma estava dominada pelo amor. As perfeições de Deus se me apresentaram uma a uma: a Bondade, a Sabedoria, a Imensidão, a Misericórdia, a Santidade, a Justiça. Houve um instante em que não soube nada. Sentia-me em Deus. Quando contemplei a justiça de Deus, estremeci. Gostaria de ter fugido ou me entregar a sua justiça. Vi o inferno, cujo fogo a cólera de Deus acende, e humilhando-me pedi misericórdia e me senti cheia dela. Vi como é horrível o pecado. Quero morrer antes de cometê-lo. Prometi ver a Deus em suas criaturas e viver muito recolhida. Disse-me que tratasse de ser muito perfeita e me explicou cada perfeição para que entre Ele e mim houvesse unidade, pois não haveria se eu fizesse algo imperfeito.” (p.111)

“Como meu Deus é bom!…Tudo o que faço é por seu amor. Vivo em uma contínua presença de Deus”. (p.112)

“há favores que Deus faz às almas escolhidas que não devem ser conhecidos, e que só a alma deve recordar”. (p.116)

Consentimento do Pai para entrar no Carmelo

“Nosso Senhor é demasiado bom. Meu pai, à tarde, escreveu a minha mãe e está cheio de ternura para comigo e disse que crê estar obrigado a dar-me seu consentimento, mas o que estará pensando. Poderei ter palavras para meu Jesus? Não. Ele lê o que minha alma experimenta diante das finezas de seu amor. Ponho-me indiferente a sua divina vontade. Para mim tanto faz que me dê permissão para ir-me em maio ou que não o consinta; que me deixe ser carmelita ou não. É verdade, sofrerei. Porém, como só busco a Ele, tendo-o contente, que me pode importar o resto? Se Ele o permite, eu me submeto a seu querer, já que fiz o que Ele me ordenou.” (p.117)

Amor ao Sagrado Coração de Jesus

“17 de maio de 1919. Senti muito o amor divino. Na oração senti o Sagrado Coração se unia a mim. E seu amor era tanto que sentia todo meu corpo abrasado nesse amor e estava sem sentir meu corpo. Tocaram-me para que me sentasse, e isso me produziu uma sensação tão desagradável que me pus a tiritar. O amor de Deus se manifestou de tal maneira que não sabia o que se passava comigo.” (p.119)

Santa Teresa dos Andes era atenciosa com todas as pessoas

“Que com todas as minhas irmãs fosse igualmente amável. E não ser mais atenta com aquela que me olhe mais ou que me dirija mais a palavra.” (p.120)

A vida de carmelita

“No céu se contempla a Deus, se Lhe adora, se Lhe ama. Mas, para chegar ao céu, é preciso desligar-se da terra. E o que é a vida da carmelita, senão contemplar, adorar e amar a Deus incessantemente? E ela, ansiosa por esse céu, se afasta do mundo e trata de desligar-se, no possível, de todo o terreno. (p.126)

“respeito às mortificações, não tratar de matar o corpo, mas incomodá-lo” (p.120)

“Esquecer os nossos pecados quando o inimigo se serve deles para fazer-nos desconfiar da misericórdia de Deus-Amor”. (p.125)

A carmelita sobe ao Tabor do Carmelo e se cobre com as vestes da penitencia que a assemelham mais a Jesus. E, como Ele, ela quer transformar-se, transfigurar-se para ser convertida em Deus.

Reflexões no Carmelo

Viver só para Deus, quer dizer, como o pensamento fixo n`Ele,..não falando nada de mim mesma, não dando minha opinião em nada se não a pedem; não chamar a atenção em nada, nem no modo de falar nem no modo de rir, nem nas expressões…

Ser fiel em tudo o que Jesus me pede. Ser fiel nos detalhes…

Durante o dia guardar silencio rigoroso…

Viver o momento presente com fé…

Jamais manifestar que sofro, a não ser que nossa madre o pergunte a mim. (p.127)

Não buscar consolo em ninguém…

aceitar alegre as humilhações, …sem abater-me. (p.126-127)

Fonte: Santa Teresa dos Andes.Diários e Cartas.  Org.Frei Patrício Sciadini.Edições loyola.2000.

Vida de Santa Maria Goretti

Introdução

Santa Maria Goretti nasceu em 1890, em Coriolano, Itália. Sua breve existência foi iluminada pela amizade com Jesus e por um terno amor a Nossa Senhora.

Após ter sido ferida mortalmente em uma tentativa de violência sexual, teve uma visão profunda do sentido da vida e da eternidade e perdoou seu agressor: “Eu o perdôo, por amor a Jesus, e o quero no Paraíso”. Isso deixa transparecer uma intensa vida de fé, esperança e amor como resposta à obra do Espírito, que fez dela uma obra-prima.

Faleceu em 1902, aos 11 anos, na cidade de Netuno, Itália. Em 1950, foi declarada santa por Pio XII. Por ter conseguido preservar sua virgindade até a morte, ela é considerada um modelo de pureza e doçura entre os adolescentes e jovens de hoje.

Perda do Pai

Ficou órfã de Pai aos nove anos, vítima de injustiças grandes e pequenas. Muitas vezes era incompreendida pela própria mãe, a qual ela amava do fundo de sua alma. Qual a sua reação? Confiança imensa no Pai: “Sobreviveremos, sobreviveremos…Deus vai nos ajudar”. (p.29)

Bons exemplos de Santa Maria Goretti

Estava sempre muito pronta para servir e amar a todos. Testemunha sua mãe: “Fazia as compras e fazia isso muito bem…Também cozinhava, e cozinhava bem”. (p.26)

Ela sempre ela quem ia para a horta, porque não se recusava. Servia-se sempre por último, após ter dado a porção de cada um. Quando sua mãe observava que ela comia pouco (e, naquele tempo, a fome era grande!), dizia: “Mamãe, come a senhora, pois precisa para trabalhar.”… (p.26)

Não escolhia a quem amar: amava a todos aqueles que Deus lhe havia posto no caminho. Sua mãe permanecia longo tempo em conversa com ela: combinavam o que devia fazer no dia seguinte. Mamãe Assunta muitas vezes ficava nervosa e tensa, e era capaz de recriminá-la e de maltratá-la…E Mariazinha acabava levando uma bronca imerecida. Ela, porém, “não ficava amuada comigo”, relembra a mãe. (p.27)

Mariazinha enfeitava, com flores do campo, o quadro de Nossa Senhora. Todas as noites rezava o terço com a família. Nos últimos tempos, o terço havia se tornado indispensável para ela Trazia-o sempre enrolado em torno do braço. Ia com prazer ao santuário de Nossa Senhora das Graças, em Nettuno, embora tivesse que enfrentar quatro horas de caminhada. E no final de sua vida, já no hospital, faz este pedido afetuoso: “Levem-me para perto do quadro de Nossa Senhora”. (p.31)

Sua mãe confirma: “Todas as noites ela rezava um terço a mais, em sufrágio da alma de seu pai”. (p.32)

Sua mãe conta: “Nos últimos tempos, eu encontrava tudo pronto: ela preparava o almoço, voltava a lavar roupa, sem que ninguém a obrigasse. E fazia mil serviços necessários numa casa com tantas crianças: passava roupa, remendava, esfregava o chão com escovão, arrumava as camas, limpava os quartos, cuidava dos irmãozinhos”. Encontrava sempre mil pequenas ocasiões para servir. (p.50)

A piedosa menina teve a felicidade de receber..cinco vezes, em seu coração, o Deus do amor e da pureza: a primeira, em 6 de junho de 1901; a segunda, um pouco depois, no santuário de Nossa Senhora das Graças, protetora de Nettuno; a terceira, na Páscoa de 1902; a quarta, na igreja de Campomorto, e a quinta, na hora da morte” – como se lê nas Atas do processo informativo, folha 144, relatório de dom Signori, 28 de setembro de 1903. (p.53)

Mariazinha demonstrava uma maturidade humana extraordinária em seus relacionamentos. Foi uma filha respeitosa e confidente. À noite, remendava as velhas roupas da mãe. E esta afirma: “Ela me contava os acontecimentos do dia…Sempre, sempre, Maria me obedeceu. Tinha um caráter aberto, se abria comigo…Era muito afetuosa com o pai e comigo. Era corajosa e procurava inclusive encorajar-me quando me via angustiada”.

Ela também demonstrava ter uma grande capacidade de discernimento. Sabia ler os sinais de Deus na sua história e na de sua família, dispondo-se imediatamente a fazer a vontade de Deus. Assim, soube reagir à morte do pai com estas palavras, que foram as primeiras a serem registradas: “Mamãe, não fique preocupada…eu fico no seu lugar, tomando conta da casa”. De fato, ela “dirigia a casa” e “cuidava dos irmãozinhos”. (p.65)

Sofrimento e morte de Maria Goretti

Um dos seus sofrimentos foi o de não poder comunicar à mãe as tentações de Alexandre: “Querida mamãe, eu tinha vergonha e não sabia como dizer isso. Além disso, Alexandre jurou que me mataria… E acabou me matando do mesmo jeito”. (p.94)

Mamãe Assunta admitiu: “Se minha filha tivesse cedido à tentação e ainda estivesse viva, eu sentiria uma dor muito maior do que tê-la visto morrer a fim de permanecer fiel ao Senhor”. (p.34)

No nome de Jesus, feito obediente até a morte, todo joelho se dobra e todo mal é destruído. “Não faças isso, você vai para o inferno” – gritava para Alexandre. (p.52)

E, nos lábios, a doce invocação: “Jesus, Jesus…Deus, Deus, estou morrendo”. (p.52)

Mamãe Assunta afirma: “Quando vi que minha filha estava já no fim, beijei-a e ela também me beijou. Dei-lhe também para beijar o crucifixo e a medalha de Nossa Senhora, que eu trazia no pescoço”. (p.80)

Prisão e Conversão do agressor

Lá fora, a multidão, …prorrompe uma explosão de incontida indignação…a muito custo a policia consegue impedir o linchamento. Torna-se necessário aguardar a chegada da policia montada…Durante o interrogatório judicial, pergunta o magistrado:

-Alexandre, foi você que matou Maria Goretti?

-Fui eu, sim senhor.

-Por quê?

-Porque ela se recusou a satisfazer meus instintos.

É condenado a trinta anos de prisão. Vai cumprir a pena na cidade de Noto, na Sicília. Nos primeiros anos não muda coisa alguma: sempre o mesmo cinismo, o mesmo desprezo.

Maria Goretti dissera antes de morrer: Quero vê-lo perto de mim no céu. Um dia D. Baldini, bispo do lugar, vai visitá-lo. Alexandre recebe o prelado com ar de menosprezo. O Bispo senta-se ao seu lado:

-Como vai Alexandre?

-Muito mal.

-Sabe, Alexandre, eu vou tratar de tirá-lo daqui. Quero pô-lo em liberdade. O preso desanuvia a fronte:

-Deus o ouça. Sr. Bispo.

-Pois é. Enquanto isso, trago-lhe alguns livros e algumas revistas. Este aqui é a vida de Maria Goretti.

Trêmulo de emoção, abre o livrinho. Quer ver o que diz do assassino. Principia a ler por curiosidade e acaba lendo-o com arrependimento. A virtude daquela menina brilha agora intensamente para o seu coração. Sente quão hediondo fora seu crime. Alexandre chora: miserável que sou. Monstro. Eu sou um monstro!

Uma noite tem um sonho, que ele mesmo descreve: “Parecia-me estar num jardim cheio de lírios. De repente, vi aparecer Marieta; toda vestida de branco, colhia flores. Passava-as para as minhas mãos, dizendo: “Toma”. Eu as recebia e beijava com grande devoção, e elas se transformavam em chamas cintilantes. Pensei: Tenho esperança de salvar-me, pois tenho uma santa no Paraíso que reza por mim.”

Dias depois, Alexandre escreve ao Sr. Bispo: “Detesto e abomino um homicídio tão bárbaro, que hoje amargurado lamento, por saber que tirei a vida a uma pobre inocente, que até o ultimo instante quis conservar a sua honra, preferindo a morrer tão cedo, a render-se aos meus vis desejos, e cuja resistência me levou a dar um passo tão horrível, quão lamentável. Publicamente detesto minha vil ação e peço perdão a Deus, à infeliz e desolada família da vitima, pelo enorme pecado que cometi; e espero que também possa obter o perdão, a paz, e até as bênçãos da nobre extinta…”

Decorrem trinta e cinco anos do crime. Vésperas de natal de 1937. Dia de rigoroso inverno. Em Corinaldo, as famílias dos lavradores encontram-se nos estábulos, aquecendo-os ao calor dos animais.   Lá fora, um homem de 55 anos vai se arrastando vagarosamente. Malvestido. Meio curvo. Chega a casa de D.Assunta. Bate.

-Quem é?

-Alexandre Serenelli.

A velhinha de 70 anos, o cabelo branco, o rosto enrugado aparece.

-D.Assunta, perdoe. Pode perdoar-me?

-Como não perdoar? Perdoou o Senhor. Perdoou-lhe minha filha. Como não hei de perdoar eu?

No dia seguinte, D. Assunta e Alexandre Serenelli, lado a lado, recebem Nosso Senhor na mesa eucarística.

Alexandre recolhe-se ao convento dos Padres Capuchinhos de Ascoli Piceno. É religioso da Ordem Terceira de São Francisco. (Santa Mariga Goretti, Edições Loyola, p.67-69)

VISITA PASTORAL AO SANTUÁRIO

DE NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS

E SANTA MARIA GORETTI

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

Nettuno (Itália), 1 de Setembro de 1979

Caríssimos Irmãos e Irmãs

Num período ainda de relativo repouso e férias, encontramo-nos aqui esta tarde à volta do altar do Senhor, para celebrar a Eucaristia, meditando sobre o fenómeno, hoje tão importante, do Turismo, na nossa vida humana e cristã.

Com a melhor das vontades aceitei o convite de vir ao meio de vós, para ver-vos, ouvir-vos, trazer-vos a minha saudação cordial, manifestar-vos o meu afecto e Para orar convosco e reflectir sobre as verdades supremas, que devem ser sempre luz e ideal da nossa vida.Nesta praça de Nettuno, diante da igreja em que  repousam os restos mortais da jovem mártir santa Maria Goretti, à vista do mar, símbolo das mutáveis e às vezes tumultuosas alternativas humanas, oiçamos o que nos ensina a “palavra de Deus” que nos apresentam as leituras da Liturgia.

1. A “palavra de Deus” primeiro que tudo expõe a identidade e o comportamento do cristão.Quem é o cristão? Como deve comportar-se o cristão? Quais são os seus ideais e as suas preocupações?São perguntas de sempre, mas tornam-se muito mais actuais na nossa sociedade consumística e permissiva, em que sobretudo o cristão pode ser tentado a ceder à mentalidade comum; pondo em segundo lugar a sua requintada e heróica vocação de mensageiro e testemunha da Boa Nova.

— O apóstolo São Tiago, na sua carta, especifica claramente a identidade do cristão: Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, no qual não há mudança nem sombra de variação. Por sua livre vontade é que nos gerou pela palavra da verdade, para que sejamos como que as primícias das suas criaturas (Tg 1, 17-18).

O cristão é portanto uma criatura de Deus totalmente especial, porque mediante a graça, participa mesmo da vida trinitária; o cristão é um dom do Altíssimo ao mundo: desce do alto, do Pai da luz.Não podia ser melhor descrita a admirável dignidade do cristão e também a sua responsabilidade.

— O cristão deve, por conseguinte, empenhar a fundo a sua vontade e viver com coerência a sua vocação. Diz ainda São Tiago: Recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas, almas. Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes, enganando-vos a vós próprios (Tg 1, 21-22).

São afirmações muito sérias e severas: o cristão não deve atraiçoar, não deve iludir-se com palavras vãs, não deve enganar. A sua missão é extremamente delicada, porque deve ser o fermento na sociedade, a luz no mundo e o sal da terra.

— O cristão convence-se, cada dia mais, da dificuldade enorme da sua obrigação: deve ir contra a corrente, deve testemunhar verdades absolutas mas não visíveis, deve perder a sua vida terrena para ganhar a eternidade e deve tornar-se responsável também pelo próximo, para o iluminar, edificar e salvar. Mas sabe que não está só. O que Moisés dizia do povo hebraico, é imensamente mais verdadeiro do povo cristão: Não há nenhum povo tão grande que tenha a divindade tão perto de si, como o Senhor, nosso Deus, sempre pronto a atender-nos quando o invocamos (Dt 4, 7). O cristão sabe que Jesus Cristo, o Verbo de Deus, não só encarnou para revelar a verdade salvífica e remir a humanidade, mas ficou connosco na terra, renovando misticamente o Sacrifício da Cruz mediante a Eucaristia, e tornando-se alimento espiritual da alma e companheiro na estrada da vida.

Nisto se encontra o que vem a ser o cristão: uma primícia das criaturas de Deus, que deve manter pura e sem mancha a sua fé e a sua vida.

2. A “palavra de Deus”, por conseguinte, ilumina também o fenómeno do turismo.De facto, todas as realidades humanas são iluminadas e interpretadas pela revelação de Cristo, que veio salvar todo o homem e todos os homens. Também a realidade do turismo deve ser vista à luz de Cristo.

— Sem dúvida, o turismo é agora fenómeno da época e de massa: tornou-se mentalidade e costume, porque é fenómeno “cultural”, causado pelo acréscimo do conhecimento, do tempo livre e da possibilidade de movimento; e fenómeno “psicológico”, facilmente compreensível, dadas as estruturas da sociedade moderna: industrialização, urbanização e despersonalização, devido às quais sente cada indivíduo a necessidade de distensão, de distracção, de mudança, especialmente no contacto com a natureza; e é também fenómeno “económico”, fonte de bem-estar.

— Todavia, também o turismo, como todas as realidades humanas, é fenómeno ambíguo, quer dizer, útil e positivo, se dirigido e se dominado pela razão e por algum ideal; negativo, caso se transforme em simples fenómeno de consumismo, em frenesi, em atitudes alienantes e amorais, com dolorosas consequências para o indivíduo e para a sociedade.

— É por isso necessária também uma educação, individual e colectiva, para o turismo, a fim de que ele se mantenha sempre ao nível dum valor positivo de formação da pessoa humana, isto é, de justa e merecida distensão, de elevação do espírito, de comunhão com o próximo e com Deus. E pois necessária uma profunda e convicta educação humanística para o acolhimento, para o respeito do próximo, para a gentileza, para a compreensão recíproca e para a bondade; é necessária também uma educação ecológica, para o respeito do ambiente e da natureza. para o gozo são e sóbrio das belezas naturais, tão repousantes e elevantes para a alma sedenta de harmonia e serenidade; e é sobretudo necessária uma educação religiosa, para que o turismo não perturbe nunca as consciências e não abaixe nunca o espírito, antes, pelo contrário, o eleve, o purifique e o arraste até ao diálogo com o Absoluto e à contemplacão do mistério imenso que nos rodeia e atrai.Esta a concepção do turismo à luz de Cristo, fenómeno irreversível e instrumento de concórdia e amizade.

3. Por fim, neste local singular, somos convidados todos a olhar para a figura de Santa Maria Goretti. Não longe daqui, a 6 de Julho de 1902, deu-se a tragédia do seu assassínio, e ao mesmo tempo também a glória da sua subida à santidade mediante o martírio na defesa da sua pureza. Encontramo-nos junto da igreja a ela dedicada, onde repousam os seus restos mortais, e devemos parar um momento em silenciosa meditação. Maria Goretti, adolescente de apenas doze anos, manteve-se pura deste mundo, como escreve São Tiago, a custo mesmo da própria vida; preferiu morrer, antes que ofender a Deus.

“Não — disse ao seu violento assassino — É pecado! Deus não quer! Tu vais para o inferno”.

Infelizmente a sua fé não conseguiu deter o tentador, que depois, graças ao seu perdão e à sua intercessão, se arrependeu e converteu. Ela, caiu mártir da sua pureza. “Fortaleza da virgem — disse Pio XII —, fortaleza da mártir, que a juventude coloca numa luz mais viva e radiosa. Fortaleza que é ao mesmo tempo defesa e fruto da virgindade” (Pio XII, Discorsi e Radiomessaggi, IX, p. 46).

Maria Goretti, luminosa na sua beleza espiritual e na sua já conseguida eterna felicidade, convida-nos precisamente a termos fé firme e segura na “palavra de Deus”, única fonte de verdade, e a sermos fortes contra as insinuantes e envolventes tentações do mundo. Uma cultura voluntariamente antimetafísica produz logicamente uma sociedade agnóstica e neopagã, apesar dos esforços louváveis de pessoas honestas e preocupadas com o destino da humanidade. O cristão está hoje sujeito a uma luta contínua, torna-se, ele também, “sinal de contradição”, pelas opções que tem de realizar. Exorto-vos especialmente a vós, meninas: olhai para Maria Goretti. Não vos deixeis seduzir pela aliciante atmosfera criada pela sociedade permissiva, que afirma tudo ser lícito. Segui Maria Goretti. Amai, vivei e defendei com alegria e coragem a vossa pureza. Não temais transportar a vossa limpidez ao meio da sociedade moderna, como facho de luz e ideal.

Com Pio XII dir-vos-ei: “Corações ao alto! Acima dos pântanos infectos e do lodo do mundo, estende-se um céu imenso de beleza. É o céu que fascinou a pequena Maria; o céu a que ela quis subir pelo caminho único que lá conduz: a religião, o amor a Cristo e a heróica observância dos seus mandamentos. Salve, ó suave e amável Santa! Mártir da terra e anjo do céu, lá da tua glória volve o olhar para este povo que te ama, que te venera, que te glorifica e te exalta!” (Pio XII, Discorsi e Radiomessaggi, XII, p. 122-123).

HOMILIA DO CARDEAL ANGELO SODANO

NAS CELEBRAÇÕES DO PRIMEIRO CENTENÁRIO

DO MARTÍRIO DE SANTA MARIA GORETTI

Sexta-feira, 25 de Abril de 2003

O Símbolo dos Apóstolos resume em doze artigos a realidade  da  nossa  Fé.  Ele  é  o  catecismo  mais antigo que nós conhecemos e que nos leva a confessar a nossa fé em Deus Pai, Criador do céu e da terra, no seu Filho Unigénito Jesus, no Espírito Santo e na Santa Igreja Católica. A este propósito ele faz-nos repetir com fé:  “Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”.Hoje nós, reunidos no glorioso Santuário de Santa Maria  Goretti,  desejamos  em  primeiro  lugar  renovar este acto de fé na Santa Igreja de Cristo, contemplando um seu aspecto característico, que é o da santidade.Do nosso coração eleva-se depois um hino de reconhecimento ao  Senhor  que  sabe  suscitar  na  sua Igreja figuras sempre novas de heroísmo cristão, em todas as categorias sociais e em todas as épocas da história.

  1. Um hino de gratidão

Um grande Padre da Igreja escreveu que “Deus, ao coroar os nossos méritos, coroa os seus dons” (Santo Agostinho). E, na realidade, a fé ensina-nos que tudo é dom de Deus, que com o seu Santo Espírito santifica a sua Igreja, criando em todos os tempos figuras maravilhosas de santidade, diante das quais os homens permanecem extasiados e cantam as glórias da omnipotência divina.Assim também nós queremos fazer hoje, concluindo as celebrações centenárias do martírio da nossa Santa, glória da comunidade de Albano e da Igreja católica de todo o mundo.O clima da alegria pascal, que nos acompanha neste tempo litúrgico, torna fácil elevar a Deus este cântico de reconhecimento. Por isso, no Salmo responsorial também nós exclamámos como o Rei David:  “O Senhor actuou neste dia, cantemos e alegremo-nos n’Ele” (Sl 117, 24).

2. O céu sobre o pântano

Com estes sentimentos de alegria interior e com esta visão de esperança para o futuro, queremos esta tarde concluir as celebrações do primeiro Centenário do martírio da nossa Santa. Na realidade, quanto mais perscrutamos a sua vida tanto mais vemos que ela foi um verdadeiro raio do céu sobre a realidade do pântano humano.

Sem dúvida,  o  mal  existe  no  mundo,  mas  os santos monstram-nos que a graça de Deus é mais forte  do  que  o  mal.  O  Evangelho  de  São  João  refere-nos a triste constatação de Jesus:  “A luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz” (Jo 3, 19).O nosso grande poeta Giacomo Leopardi começou com estas palavras de Cristo o seu bonito cântico à giesta. Durante uma viagem ao Vesúvio, permaneceu admirado diante do manto de cinza e de lava que no passado ali semeou desolação e morte e deteve-se depois ao lado de uma perfumada giesta que procurava sobreviver naquela dura realidade.Também nós muitas vezes podemos contemplar flores perfumadas de santidade que brilham entre as misérias humanas:  são os santos, são, sobretudo, os mártires de todos os tempos.

3. Menina extraordinária

Maria Goretti é uma destas figuras heróicas da santa Igreja de Deus:  12 anos de vida, mas uma vida cheia de tantos ideais nobres, de uma grandeza de alma que ainda hoje nos admira. O mérito é da família cristã da qual provinha. É o fruto da sua resposta à graça de Deus. O nosso estimado Pe. Alberti escreveu na biografia de Marietta (assim a chamava a família) que ela não é a santa “dos cinco minutos” (G. Alberti, Maria Goretti, Roma 2000, pág. 243), porque a santidade não se improvisa, mas é o fruto de um esforço contínuo, de um acolhimento quotidiano dos estímulos do Espírito, que habita no coração dos crentes.

Quando se lê a vida desta jovem maravilhosa, ficamos surpreendidos com a profundidade da sua vida interior. Tem tanta fé na Providência Divina, que pode dizer à mãe Assunta no momento do sofrimento:  “Mãe, não te preocupes, Deus não nos abandona”. Tem amor à família, que a leva a dizer depois da morte do pai:  “Agora penso eu em governar a casa”. Sente o desejo urgente de receber o Senhor:  “Mãe exclamou ela quando poderei receber a Primeira Comunhão?”.

Tem uma visão profunda do sentido da vida e da eternidade, quando diz a Alexandre Serenelli:  “Que fazes, Alexandre. Deus não está contente, vais para o inferno”. Por fim, tem o sentido verdadeiro do amor cristão que também sabe perdoar, quando exclama antes de morrer, falando de quem a tinha agredido:  “Por amor de Jesus perdoo-lhe do coração” (Ibid., pág. 247-248).

Eis a obra-prima da graça, que Deus realizou nesta terra abençoada. Esta é a Santa que Nettuno apresenta à juventude de hoje, recordando-lhe que o ideal cristão é possível e que com a graça de Deus o podemos viver intensamente.

4. Uma epopéia gloriosa: Assim aconteceu na antiga Roma pagã com Inês e Cecília, com Tarcísio e Pancrácio. Assim acontece hoje com Maria Goretti e muitas figuras heróicas da actualidade. Entre elas desejaria recordar uma jovem da minha terra piemontesa, massacrada em 28 de Agosto de 1944, durante a última guerra mundial, por um soldado alemão que queria apoderar-se dela:  falo de Teresa Bracco, mártir da pureza como Maria Goretti, beatificada pelo Papa João Paulo II, durante a sua última viagem apostólica a Turim, em 24 de Maio de 1998.

Também neste caso, ao ler a vida de Teresa interrompida na flor dos seus vinte anos, observa-se que o seu heroísmo foi a consequência lógica de uma profunda formação cristã, no âmbito de uma família cheia de fé e de uma comunidade cristã fervorosa, como era a de Santa Júlia, espalhada entre colinas cobertas de bosques do Alto Monferrato (cf. G. Galliano, Teresa Bracco. Uma flor e uma luz nos horrores da guerra, Asti 1998).É a mesma epopeia de santidade que continua na Igreja de Cristo, por obra do Espírito Santo “que é o Senhor e dá a vida”.

Ao celebrar esta Santa Missa de acção de graças numa igreja dos Padres Passionistas não posso deixar de recordar também o centenário da morte de outra Santa, Santa Gemma Galgani, que também em 1903, com 25 anos, terminou a sua breve existência terrena. Ao ler a sua vida, permanecemos extasiados diante dos dons com que Deus a cumulou. Em Lucca chamavam-na “a menina da Graça”. Pobre, humilde e simples, chegou a ser uma das maiores místicas dos tempos modernos:  são as maravilhas que Deus realiza naqueles que se abrem à Sua graça.Depois, nos mártires, o poder de Deus manifesta-se de modo ainda mais evidente. Com razão cada um deles poderia repetir as palavras do Apóstolo Paulo aos Filipenses:  “Tudo posso n’Aquele que me dá a força” (Fl 4, 13).

5. O triunfo do amor

No caso de Maria Goretti o poder da graça divina manifestou-se não só na sua força de alma, mas também no maravilhoso gesto do perdão concedido ao jovem Alexandre Serenelli. A jovem das “Ferriere” tinha aprendido da sua santa mãe que não se podia separar o amor a Deus do amor ao próximo. Até nos sofrimentos atrozes da agonia, soube rezar pelo seu perseguidor. É a obra-prima daquela ternura cristã, que é a flor mais bonita do amor. É a beleza da nossa pequena grande Santa. Um conhecido escritor russo escreveu que a beleza salvará o mundo (Dostoièwskyi). Talvez se pudesse completar a frase dizendo que é a beleza do amor que salvará o mundo. Sim, porque é o amor que nos salva verdadeiramente!

6. Uma oração à Santa

Irmãos e Irmãs no Senhor, com sentimentos de gratidão a Deus pelas maravilhas que Ele realizou em Santa Maria Goretti, nós hoje concluimos as celebrações do primeiro Centenário do seu martírio. A partir de 24 de Junho de 1950 nós venerámo-la nos nossos altares, isto é, desde que o Papa Pio XII a proclamou santa, numa memorável cerimónia realizada na Praça de São Pedro, diante de uma grande multidão de fiéis.Naquela tarde luminosa, o saudoso Sumo Pontífice inscreveu-a no álbum dos Santos e confiou depois à sua intercessão a juventude de hoje, com palavras que ainda nos comovem, apesar de serem redigidas no estilo próprio do século passado (cf. L’Osservatore Romano, 26 de Junho de 1950).

Por meu lado, gostaria de concluir estas palavras, repetindo aquela premente oração de Pio XII:

“Salvé, ó suave e amável Santa!

Mártir na terra e Anjo no céu,

da tua glória dirige o olhar

sobre este povo que te ama,

que te venera, que te glorifica,

que te exalta.

Na tua fronte tens claro

e resplandecente

o nome vitorioso de Cristo

(Apoc 3, 12);

no teu rosto virginal

está a força do amor,

a constância da fidelidade

ao Esposo Divino;

tu és Esposa de sangue,

para reproduzir em ti a Sua imagem.

A ti,

poderosa junto do Anjo de Deus,

confiamos estes nossos filhos

e filhas aqui presentes

e todos os que estão

espiritualmente unidos a nós.

Eles admiram o teu heroísmo,

mas, muito mais, querem imitar-te

no fervor da fé e na incorruptível

pureza dos costumes.

Pais e mães recorrem a ti

para que os assistas

na sua missão educativa.

Em ti, pelas Nossas mãos,

encontram refúgio

todos os adolescentes e a juventude,

para serem protegidos

de qualquer impureza,

e poderem prosseguir

pelo caminho da vida na serenidade

e na alegria dos puros de coração.

Assim seja!”

Assim seja também para todos nós! Amen.

Fonte:

1.Dino de Carolis. Santa Maria Goretti. Uma santidade no dia-a-dia. Ed. Paulinas.2005.

2.Fidelis dalcin barbosa. Santa Maria Goretti.Edições Loyola.

3.http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1979/documents/hf_jp-ii_hom_19790901_nettuno_po.html

4. http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/2003/documents/rc_seg-st_20030425_sodano-nettuno_po.html

Introdução

Em 9 de outubro de 1815…em Fain-lès-Mouniers, vilarejo da Borgonha de apenas duzentos habitantes, uma menina chora. Ela se chama Catarina Labouré…Não é a única a chorar. É a oitava dos dez filhos que acabam de perder a mãe: Madeleine Gontard, de 46 anos, proprietária de uma fazenda. A morte foi súbita…As duas filhas menores, Catarina e Tonine, irão para a casa de tia Marguerine, irmã do pai, casada com o vinagreiro Antoine Jeanrot, em Sait-Rémy(a 9 quilômetros de Fain). Naquela noite, Catarina e Tonine, de mãos dadas, deixavam a casa paterna por caminhos cujas grandes árvores já começavam a ganhar tons de ouro e púrpura. Ctarina sentia-se duplamente órfã, pois a morte da mãe a a afastava também de seu pai, e essa separação era-lhe dolorosa.

Quanto ao vazio deixado pela perda, Catarina encontrara por si mesma uma solução. Naquela manhã, no quarto da falecida, ela subira no móvel em que havia uma imagem de Nossa Senhora e pedira que ela substituísse a mãe. A criada, a quem nada escapava, a tinha visto, e foi quem mais tarde contou o fato a Tonine. Essas lágrimas foram as primeiras e as últimas. Catarina já se fortalecera. A nova Mãe lhe ensinara não a se lamentar, mas a tomar a vida nas mãos.(p.3-5).

Atenciosa

Havia um odor de vinagre na casa em que Catarina ajudava a tia Jeanrot, sobrecarregada com seu comércio. Assim ela aprendeu a cuidar dos serviços domésticos, o que lhe seria útil.(p.5).

Dois anos depois, o pai, que a contragosto decidira a separação, sentiu falta de Catarina… e a chamou de volta para a fazenda.(p.5). Era uma vida rude, e Catarina, a primeira da casa a se levantar: às 4 horas, no verão. O dia nunca era suficientemente longo para todo o trabalho. Diariamente era preciso recomeçar e vencer o cansaço.(p.8).

A cada ano, Catarina cumpria melhor o ciclo litúrgico, do Advento à Páscoa…(p.10).

Fiel mesmo nas dificuldades

Em carta de 15 de setembro de 1844, escrita para a irmã Maria-Louise:

Grande religião que há por aqui! Uma missa no domingo, e ainda é preciso que o pároco da região vizinha venha rezá-la. As vésperas são cantadas pelo mestre da escola, sem benção, portanto. Para confessar-se, é preciso ir á busca. Veja só como está assegurado o pouco de religião que temos.

Os padres eram então mais raros, e maior o vazio. Para a missa de domingo. , Catarina precisava ir a Moutiers, pois o pároco pouco vinha a Fain..a não ser para a celebração de Finados, em 2 de novembro.(p.10-p11).

“Como eram piedosas as senhoritas de Labouré, Catarina e Tonine!”, observou uma senhora de 88 anos, contemporânea. “Elas não saíam para se divertir como as outras jovens.”

Aos 14 anos, Catarina começou a jejuar às sexta-feiras e aos sábados, ao longo do ano todo. Tonine ficou apreensiva. Temia que a irmã esmorecesse no trabalho. Tentou dissuadi-la, em vão. Ameaçou advertir o pai. Catarina não se deixou impressionar: “Pois conte a papai!”. Tonine aceitou o desafio e, dessa vez, o pai deu razão à caçula, Mas Catarina já tinha tomado sua decisão. Respeitava o pai em tudo aquilo que tinha a ver com a ordem da casa, mas aquele jejum era uma questão entre ela e Deus. Do jejum ela extría forças, e isso não dizia respeito a mais ninguém. E continuou a jejuar, sem rancor algum por Tonine.(p.11).

Vocação e sonho

Eis que certa noite esse apelo tomou a forma de um sonho:Catarina encontrava-se na igreja de Fain, em seu lugar de costume, na capela de Labouré. Rezava. A certa altura, apareceu um velho padre. Ele vestia os paramentos sacerdotais e celebrava a missa no altar branco de moldura dourada. O que a impressionava era seu olhar, quando ele se voltava para dizer o Dominus vobiscum. Quando do Ite missa est, ele lhe fez sinal para que se aproximasse. O medo tomou conta de Catarina. Ela se afastou, mas de costas, fascinada. Não conseguia desprender-se daquele olhar, do qual se lembraria para o resto da vida. Ao sair da igreja, foi visitar uma doente(sempre em sonho); o velho padre a reencontrou e disse: “Minha filha, é bom cuidar dos doentes, Foges de mim agora, mas um dia ficarás feliz em me procurar. Deus tem seus desígnios para ti. Não te esqueças.(p.12).

Em Châtillon, era uma felicidade ter a missa tão perto:numa igreja com o santo sacramento e um padre à disposição:o Abade Gaillac, pároco decano, um octogenário(1743-1828). Era fácil se confessar. Certo dia, Catarina foi ver as religiosas na rua de La Juiverie, e eis que no vestíbulo deparou-se com um retrato. Não seria o padre que ela vira em sonho? Quem seria ele? “Nosso pai, São Vicente de Paulo”, informaram as irmãs.

A decisão

A decisão de Catarina já estava tomada. Mas o que fazer? A entrada no postulado exigiria o consentimento do pai, o que estava fora de questão…

Mas eis que, em 3 de maio de 1827, ela completava 21 anos. E dessa vez declarou ao pai sua firme decisão. Ele a rejeitou com veemência. Não reconhecia a maioridade. Já entregara uma filha a Deus: Marie-Louise. Sempre dissera que não entregaria duas.(p.13)

Na primavera de 1828, o pai mudou de tática de persuasão. Charles, seu quinto filho, havia estabelecido em Paris, na rua l’Échier, um comércio de vinhos e rolhas…Em 21 de fevereiro de 1828, Charles pediu ajuda. Pois bem, Catarina foi ajudá-lo. A capital despertava as moças, e o restaurante a tornaria cortejada. Para ela, foi sofrimento após sofrimento: depois de desaprovada sua vocação, veio a separação do pai, com quem tinha fortes laços. O irmão tentou-lhe arranjar casamento. A certa altura, o irmão encontrou consolo. Iria se casar novamente em 3 de fevereiro de 1829. Duas mulheres na casa seria demais! Assim, Catarina, aproveitou a oportunidade para voltar a Châtillon, para a casa da prima, que se tornara cunhada devido ao casamento com o mais velho dos irmãos Labouré, Hubert.

Catarina escreveu a Marie-Louise a fim de consultá-la, e em resposta recebeu uma carta transbordante de felicidade e ardor:

O que significa ser Filha de Caridade? Significa entregar-se a Deus sem reservas, para, entre os pobres, servir àqueles que sofrem…Se, neste momento, alguém tivesse poder suficiente para me oferecer não um reino, mas todo o universo, eu veria isso como um grão de poeira em meu sapato, e estaria bem convencida de que não encontraria nessa posse a felicidade e o contentamento que sinto em minha vocação.(p.15). Catarina corajosamente retomou seu lugar no internato, cujo ambiente lhe era estranho. Mas Irmã Victoire, com quem se abrira, intercedeu por ela junto à superiora, para que o ingresso da Catarina fosse apressado: “Receba-a,” disse ela à superiora(Irmã Cany),“Ela é toda candura e piedade.é uma boa moça de aldeia, como São Vicente aprecia.(p.16).

No começo de janeiro de 1830, Irmã Cany enviou parecer favorável à casa-mãe, e , em 14 de janeiro, o conselho a aceitou nos seguintes termos:

“Irmã Cany propõe a senhorita Labouré, irmã daquela que é superiora em Castelsarrasin. Ela tem 24 anos e convém à nossa organização:bem devota, de bom caráter, temperamento forte, tem amor pelo trabalho e é bem alegre. Comunga regularmente a cada oito dias. Sua família é íntegra aos costumes e à probidade, mas de pouca fortuna. Instamos que seja acolhida.(p.16).

A resposta de Paris chegou em 22 de janeiro. Catarina despediu-se alegremente das pensionistas.

A ida para o noviciado(21 de Abril de 1830-30 de Janeiro de 1831)

Numa quarta-feira, 21 de abril de 1830..Catarina reencontrava a capital, não mais para o trabalho tenso, a contragosto, do restaurante operário, mas para conhecer a casa de Vicente de Paulo. Os obstáculos haviam sido vencidos.(p.19).

As rodas ressoaram sob o pórtico do número 132 da rua dy Bac e, em seguida, sob um segundo pórtico. Ali Catarina descobriu o Hôtel de Chatilly, construído para o prestígio ostensivo da família de Lavallière. As janelas de uma altura desmedida. A escada dupla de pedra com suntuosa balaustrada de ferro forjado(de onde o Papa João Paulo II falaria um século e meio depois..por causa de Catarina) exibia uma suntuosidade bem estranha ao noviciado…iniciou-se um período de festa para o espírito e o coração, pois ali via Deus em primeiro lugar. “Meus pés não tocavam mais o chão”, escreveu Catarina.(p.19-20).

As relíquias e aparições de São Vicente de Paulo

Eis que uma grande cerimônia parisiense em homenagem a São Vicente veio ao encontro da esperança. Naquele primeiro domingo, as relíquias(escondidas durante a Revolução) seriam solenemente transferidas de Notre-Dame a Saint-Lazare….Não era mais um sonho, mas São Vicente fazia seu coração voar nas asas de um desejo exigente: “Eu lhe pedia todas as graças que me eram necessárias, e também pelas duas famílias, e toda a França. Pareciam-me que precisavam muito disso.(p.21).

“Sempre que eu voltava a Saint-Lazare para visitar o famoso relicário, parecia que eu reencontrava São Vicente, ou pelo menos seu coração. Ele me aparecia todas as vezes que eu retornava a Saint-Lazare[na capela da rua Du Bac] acima do relicário onde estavam expostas as pequenas relíquias de São Vicente….Ele apareceu para mim três vezes distintas, três dias seguidos: branco cor de carne, anunciando a paz, a calma, a inocência e a união. Depois, eu o vi em vermelho cor de fogo: que deve iluminar a caridade nos corações. Parecia-me que toda a comunidade devia se renovar e se expandir até os extremos do mundo. Depois o vi em vermelho escuro: o que trouxe tristeza a meu coração. Isso vinha das tristezas que eu achava difícil superar; eu não sabia como nem por que essa tristeza tinha a ver com a mudança de governo.(p.21-22)

Milagre Eucarístico – Santa Catarina Labouré

De repente na missa, a hóstia tornou-se transparente como um véu. Além da aparência do pão, Catarina viu Nosso Senhor. A visão aconteceu antes que ela tivesse tido tempo para resistir…e o fenômeno repetia-se com freqüência: “Eu via[…]Nosso Senhor no santíssimo sacramento[…] o tempo todo do meu noviciado, afora as vezes em que duvidei: isto é, na vez seguinte não via nada, porque queria aprofundar[…]Eu duvidava desse mistério e julgava me enganar.(p.25)….Em 6 de junho de 1830, dia da trindade…nova revelação…“Nosso Senhor me apareceu como um rei, com a cruz no peito[sempre], no santíssimo sacramento. Foi durante a santa missa e no momento do evangelho.”(p.25).

Primeira aparição de Nossa Senhora(p.26-33)

Na noite de 18 de julho…era a véspera da festa de São Vicente. Catarina tinha visto São Vicente, tinha visto Nosso Senhor…Não tinha visto a Virgem Santa. E ei-la transportada por um novo ela: “Eu me deitei com a idéia de que nessa mesma noite eu veria minha boa Mãe. Havia muito desejava vê-la. E foi o que aconteceu.

Finalmente, às onze e meia da noite, ouvi um chamado:

-Irmã, irmã!

Despertei e olhei para o lado  de onde vinha a voz, do lado do corredor. Abri a cortina. Vi então uma criança vestida de branco, de uns 4 ou 5 anos de idade, que me dizia:

-Levanta-se depressa e vá à capela, a Virgem Santa a espera! De imediato, veio-me à mente:

-Mas ela vai me esperar?

A criança me respondeu (mentalmente):

-Fique tranqüila, são onze e meia, todos estão dormindo. Venha, estou esperando.

Vesti-me rapidamente e fiquei do lado da criança, que permanecera em pé, sem se afastar da cabeceira de meu leito. Ela me seguiu, ou melhor, eu a segui, sempre à minha esquerda, e a criança lançava raios de luz por onde passava. As luzes se acendiam em todos os lugares por onde passávamos, o que me espantava muito. Mas fiquei bem mais surpresa quando entrei na capela…a porta se abriu mal a criança a tocou com a ponta do dedo. Mas a minha surpresa foi ainda maior quando vi todos os círios e archotes acesos, o que me lembrava a missa da meia-noite. No entanto, eu não via a Virgem Santa. A criança me conduziu para dentro do santuário, ao lado da poltrona do Senhor Diretor. Lá me pus de joelhos, e a criança permaneceu em pé o tempo todo. Como julgasse haver demora, olhei para verificar se as vigilantes não passavam pela tribuna. Por fim, chegava a hora, preveniu-me a criança, dizendo:

-Eis a Virgem Santa! Ei-la….Não tinha certeza que fosse a Virgem Santa. No entanto, a criança que lá estava me disse:

-Eis a Virgem Santa!

Não me seria possível dizer o que senti nesse momento, o que se passou dentro de mim. Parecia-me não ver a Virgem Santa.

…A criança repetiu: “Eis a Virgem Santa!”Mas Catarina parecia não ouvir.

“Foi então que essa criança me falou, não mais como criança, mas como um homem: mais robusto e com as palavras mais fortes. Então, olhando para a Virgem Santa, saltei para perto dela, ajoelhando-me nos degraus do altar, com as mãos apoiadas nos joelhos da Virgem Santa. Passou-me um momento, o mais doce da minha vida. Impossível contar o que senti. Ela me disse como eu deveria me conduzir em relação a meu diretor…o modo de conduzir meus sofrimentos…

“Minha filha, o bom Deus quer nos encarregar de uma missão. Você terá muitas dificuldades, mas as superará pensando que cumpre essa missão para a glória do Bom Deus. Será atormentada por isso, a ponto de contar àquele que é encarregado de a dirigir. Será contestada, mas conhecerá a graça. Não tema. Fale com confiança e simplicidade…Os tempos serão difíceis. Infortúnios se abaterão sobre a França. O trono será derrubado O mundo todo será acometido de infortúnios de todo tipo(a Virgem Santa parecia muito aflita ao dizer isso).Mas venha ao pé deste altar. Aqui, as graças serão concedidas a todos, grandes e pequenos, que as pedirem com confiança e fervor.  As graças serão concedidas principalmente àqueles que as pedirem….Vão acontecer grandes infortúnios. O perigo será grande. No entanto, nada tema, diga que nada temam!  Proteção de Deus estará sempre presente de um modo especial, e São Vicente protegerá a comunidade(a Virgem Santa continuava triste). Mas eu mesma estarei ao seu lado. Sempre velei por você. Eu lhe concederei muitas graças. Haverá um momento m que o perigo será grande. Hão de crer que tudo foi perdido. Nesse momento eu estarei com você!”

Ali fiquei não sei quanto tempo. Tudo o que sei é que  quando ela partiu percebi que algo se apagava, algo mais que uma sombra que se dirigia para o lado tribuna, mesmo caminho por onde ela tinha chegado. Eu me pus em pé nos degraus do altar e percebi a presença da criança ali onde eu a havia deixado. A criança me disse:

-Ela partiu.

Retomamos o mesmo caminho, sempre todo iluminado, com a criança sempre à minha esquerda. Creio que essa criança fosse meu anjo da guarda, que se tornara visível para me fazer ver a virgem Maria, pois eu tinha rezado muito para que ele me concedesse esse favor. Ele estava vestido de branco e trazia consigo uma luz milagrosa, isto é, ele era resplandecente de luz: tinha uns quatro ou cinco anos de idade.

Segunda aparição de Nossa Senhora(p.34-36)

Com efeito, em 27 de dezembro Catarina foi novamente tomada de “um grande desejo de ver a Virgem Santa”: ‘Desejo tão forte que tive a convicção de que a veria em seu mais belo esplendor. Avistei a Virgem Santa na altura do quadro de São José…Em pé, vestida de branco, altura mediana, figura tão bela que me seria impossível falar de sua beleza. Estava com um traje de seda branco-aurora.’

A noviça viu na hora da oração um quadro que representa a Virgem Santa tal como é comumente representada sob o título de Imaculada Conceição, em pé, e de braços estendidos. Vestida com um traje branco e manto azul prateado, tinha ela um véu de aurora, e de suas mãos saíam, como em feixes, raios de um brilho fulgurante. A irmã ouviu no mesmo instante uma voz que dizia: “Esses raios são o símbolo das graças que Maria concede aos homens”.(p.35). Ao redor do quadro , ela leu, em letras douradas, a seguinte invocação: Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”.

Sobre esse ponto só sei expressar aquilo que senti e percebi; a beleza e o brilho, os raios…Estendo essas graças às pessoas que as pedem a mim (ouviu Catarina). Ela me fez compreender o quanto era agradável rogar à Virgem Santa e o quanto ela era generosa com quem lhe rogava. Quantas graças ela concedia a quem as pedia, quantas alegrias sentia ela em concedê-las…Alguns momentos depois, esse quadro se vira e, no reverso ela distingue letra M acima da qual havia uma pequena cruz e, abaixo, os sagrados Corações de Jesus e de Maria. Depois de ela ter observado atentamente tudo isso, disse-lhe a voz: “É preciso mandar cunhar uma medalha conforme esse modelo, e as pessoas que a usarem indulgenciada e disserem com piedade essa curta prece, terão a proteção especial de Deus.

Terceira aparição(dezembro de 1830).

Mas eis que em dezembro Catarina reviu o ‘quadro’…Dessa vez, a Virgem veio por detrás do altar, e a medalha se apresentou no centro, um pouco atrás do tabernáculo. A Virgem vestia o mesmo traje fechado, cor de aurora, e o mesmo manto azul…Os raios que saíam das mãos “preenchiam toda a parte de baixo de modo a encobrir os pés da Virgem Santa.  E de novo uma voz se fez ouvir ao fundo do coro: “Esses raios são o símbolo das graças que a Virgem Santa concede a quem as pede”… ‘Não me verás mais, mas ouvirás minha voz durante tuas orações.’

Foi o fim das visões. Todas aconteceram na capela da rua Du Bac. Em 30 de janeiro de 1831, Catarina tomava o hábito e, no dia seguinte, deixava o noviciado.

Primeiras graças

Mal começara a propagação, houve conversões espetaculares e curas. Em Paris, na escola do Louvre, a pequena Caroline Nenain, de 8 anos, a única de sua classe que não usava a medalha, foi também a única atingida pela cólera. As irmãs então lhe deram uma medalha. Ela logo se curou e, no dia seguinte, já voltava para a classe…A partir de agosto de 1833, a medalha se espalhou pela Espanha, onde a invocação de ‘Maria concebida sem pecado’ realizou também maravilhas. Chamaram-na ‘milagrosa’; o título permanecia.(p.43).

Votos

Em 3 de maio de 1835, domingo do Bom Pastor, pronunciou enfim seus votos na modesta capela de Enghien.

Acolhida

Era, portanto, responsável pela acolhida aos pobres que batiam à porta – problema constante ao qual não se esquivava e tentava resolver de todo o coração. “Ninguém nunca se queixou de sua acolhida”, testemunhou Irmã Combres no processo(CLM 2, p.314).(p.51).

Embora inocente, não se justificava

Apesar de tudo, confidencialmente informada da vidência de Catarina, Irmã Dufès a tratava com severidade: “Umas cinco ou seis vezes, relata Irmã Cosnard, ‘vi Catarina de joelhos diante de Irmã Dufès, que a censurava por erros que ela não tinha [cometido] e pelos quais não era responsável. As advertências eram incisivas, muito incisivas. Irmã Catarina, embora inocente, não se justificava. Parecia-me, no entanto, que em sua alma se travava uma luta..a luta terminou com o triunfo da humildade.(p.58-59).

Amorosa

Quando a jovem Cécile Laporte, de 20 anos, que cuidava da roupa branca, caiu doente ao chegar, em 1868, era Catarina quem ia visitá-la, em meio ao rigoroso inverno. Ela lhe levava um edredom… Certo dia, Cécile recorda, “quando eu entregava ferros para que as irmãs passassem roupa, ela viu que eu estava com calor e me deu um copo de leite.”(p.59).

A virgem com o globo

Desde 1839, Catarina sentia-se pressionada a erigir um altar e uma imagem comemorativa no local da aparição de 27 de novembro(à direita de quem olha para o altar), e essa imagem teria um globo nas mãos, aspecto até então esquecido. Aladel ficou contrariado com a nova exigência, mas, na obscuridade do confessionário, Catarina insistiu. O padre se exaltou. Seu descontentamento foi maior que a habitual discrição: “Criatura astuciosa”!..O confessionário tremia, julgou poder comentar uma testemunha.(p.62).

“Quando ela apareceu a uma de nossas irmãs, a Virgem Santíssima tinha nas mãos o globo do mundo. Ela o oferecia…Nenhuma gravura das aparições a representa assim. No entanto ela quer que o façam assim, ela quer um altar no local em que apareceu.”(p.106).

Deixava o melhor para os doentes e feridos

“Eu me lembro de nossa alegria infantil, escreveu Marthe, ao receber dela um pão branco e uma porção de ervilhas com toucinho. Minha irmã, com uma ingenuidade de criança, suplicava: ‘mais ervilha”. Catarina reserva sua generosidade aos doentes e feridos. Ela própria e as irmãs precisam ater-se à porção de subsistência. Irmã Dufès preocupa-se ao vê-las ‘ certos dias a devorar um pedaço  de pão preto e mais nada, depois de um trabalho exaustivo”.(p.69).

Morte em 31 de dezembro de 1876

Uma irmã chegou com medalhas. Catarina tinha retomado a preparação de pequenos pacotes para a comunidade. Não tendo um número suficiente delas, pedira mais. – Irmã Catarina, aqui estão as medalhas.

Dessa vez, ela não respondeu. Irmã Tranchemer colocou em suas mãos as medalhas, que se espalharam pelo lençol. Eram seis e meia. Dessa vez ela partia. …Ela não respondeu, ‘silenciosa na hora da morte assim como o fora durante a vida”. As irmãs passaram a dizer as preces agonizantes já recitadas no dia anterior. E a invocação da medalha: Ó Maria concebida sem pecado”. Docemente, Catarina expirou, apagou sem agonia….Ela tinha partido. Fecharam-lhe os olhos. Eram sete horas. Essa morte, Catarina.(p.120-122).

Fonte: Santa Catarina Labouré – Mensageira de Nossa Senhora das Graças e da Medalha Milagrosa. René Laurentin.Ed. Paulinas. 2009.

Introdução

O centenário da morte da Beata Elisabete da Trindade(9 de novembro de 1906-9 de novembro de 2006)nos proporciona a oportunidade de nos aproximarmos desta carmelita descalça que viveu o estrito arco de vinte e seis anos, dos quais vinte e cinco e meio no Carmelo de Dijon, e conhecer melhor a sua espiritualidade.(Introdução, p.6).

Sobre a doutrina de Elisabete da Trindade(…)gostaria de evidenciar quatro pontos da doutrina espiritual desta mística carmelitana:

a)A vivencia batismal: Elisabete da Trindade sente-se antes de tudo cristã e quer viver o seu batismo até as últimas conseqüências..(…)Terá um amor todo particular para os hinos cristológicos das cartas paulinas, onde encontra sua vocação “ser louvor e glória”.

b)Através do Padre Valeé, dominicano, ela vai descobrindo que o Deus Amor Trinitário vive no mais profundo do nosso ser, no santuário interior, onde a comunhão plena faz com que o ser humano se torne, no seu corpo, irradiação do mistério encerrado no coração.

c)O cristocentrismo é muito forte na doutrina de Elisabete da Trindade.Os seus olhos estão fixos na pessoa de Jesus.(…) Diante da sua impotência, Elisabete oferece a sua carne para que nela se realize aquilo que ainda falta à Paixão dói Senhor.(p.9).

d)A mariologia: Elisabete, na linha genuína do Carmelo, sente-se profundamente mariológica. Maria é o pano de fundo sempre presente em todos os escritos da Beata Elisabete.(…)Sãointeressantes os títulos que Elisabete dá a Maria:Porta do Céu, Virgem Fiel, Espelho de Justiça etc. Esta presença de Maria faz de Elisabete uma discípula de Jesus e de Maria. Em muitos pontos precede na mariologia o mesmo Concílio Vaticano II.(p.9).

Esboço biográfico até a entrada no Carmelo

Nascimento

Na manhã de domingo, 18 de julho de 1880, Elisabete Cates nasce no acampamento militar de Avor, onde seu pai, o Capitão José Catez, do oitavo esquadrão do trem das equipagens, está em guarnição. O seu nascimento não esteve isento de dificuldades. Os dois médicos presentes já haviam advertido o Capitão que seria necessário fazer o sacrifício desta primeira criança. A mãe sofreu muito durante trinta e seis horas. Mas, no final da Missa que o Capelão Chaboisseau celebrava nas suas intenções, a pequena Elisabete vem ao mundo. A criança tem boa saúde, “era muito bonita e muito esperta”, se recordará a senhora Catez. A 22 de julho, festa de Santa Maria Madalena(será motivo de alegria para a futura contemplativa), ela é batizada.(p.12).

Morte de Pai

A 24 de janeiro de 1887 morre Raymond Rolland, tão hábil, segundo se diz, “na arte de ser avô”. Oito meses mais tarde, novo luto, bem mais doloroso: na manhã de domingo, 2 de outubro, o senhor Catez, que já sofrera várias crises cardíacas, morre de modo brusco.(p.14).

Formação

Sem ser rica, a senhora Catez goza de uma comodidade suficiente para assegurar a formação de suas filhas.Por volta dos seteanos, Elisabete recebe as primeiras aulas particulares de francês da senhorita Gemaux, sem dúvida para prepará-la para um ofício de professora de piano, sua mãe a inscreve no Conservatório de Dijon aos oito anos de idade.

Eu não tenho fome, Jesus me alimentou

O que se passou no seu coração, no dia 19 deabrilde1891?Durante a Missa e a ação de graças, lágrimas de alegria correm sobre seu rosto…Ao sair da Igreja de São Miguel, ela diz a Maria Luísa hallo: “Eu não tenho fome, Jesus me alimentou…”Pode-se supor a intensidade deste primeiro encontro com o Corpo de Cristo através de uma de suas poesias da juventude escrita para o sétimo aniversário desta comunhão – uma das únicas poesias redigidas unicamente para ela mesma em face de Jesus, e que formam seu diário íntimo. À tarde, co sua bela veste branca, ela vai visitar a Madre Priora do Carmelo. Maria de Jesus explica-lhe o significado de seu nome hebreu: “Elisabete é a casa de Deus”. A menina está e permanecerá profundamente impressionada. Ela experimentou tão bem esta manhã que Deus nela habita!(p.16).

Elisabete era muito Bonita

O livro das Memórias menciona: “…seus encantos exteriores despertavam a respeito dela muitas esperanças”.(p.19)

A mãe consente a entrada no Carmelo aos 21 anos

Em 26 demarçode 1899,durante a grande Missão pregada em Dijon,a Senhora Catez finalmente consente na entrada de sua filha no Carmelo, mas somente aos vinte e um anos.(p.19).

Origem do nome

No seu coração, a jovem sonhava em receber no Carmelo o nome de Elisabete de Jesus. Não sem sacrifício ela aceita o nome de Elisabete da Tridade, que a Priora lhe propõe em memória de uma Carmelita de Beaune.(p.20).

Entrada no Carmelo

O dia 2 de agosto de 1901 traz também para Elisabete a paz profunda de poder, enfim, dizer sim a Jesus que a quer no Carmelo. Nesta manhã ela escreve ao Cônego Angles: “Nós comungaremos na Missa das oito horas e, depois disto, quando Ele estiver no meu coração, mamãe me conduzirá à porta da clausura!” Quando Ele estiver no meu coração…Ela termina: “Eu sinto que sou toda sua, que não reservo nada, lanço-me nos seus braços como uma criancinha”.(p.22).

A 2 de agosto de 1901, data de sua entrada, vinte e quatro Irmãs vivem no interior, e duas Irmãs veleiras na habitação exterior. Elisabete é a sétima jovem do “noviciado”, onde se permanece ainda três anos após a profissão(não havia naquela época os votos temporários).(p.23)

A 11 de janeiro de 1903,na festa da Epifania, após treze meses de noviciado,Irmã Elisabete da Trindade,aceita por unanimidade por sua Comunidade, consagra-se a Deus pela Profissão por toda a eternidade(p.24).

O noviciado

Se os quatro meses de seu postulantado transcorreram na alegria e na luz, o ano de noviciado foi tanto mais duro e penoso. A oração tornou-se árida; pela segunda vez, Elisabete está regularmente agoniada pelos escrúpulos devidos em parte a seu desejo de fazer tudo com perfeição; sua saúde vacila um pouco; sua sensibilidade(o traço dominante de seu caráter,afirma ela durante o seu postulantado)vibra dolorosamente.Mas ninguém conhece este sofrimento afora suas Superioras.(p.24).

O sofrimento

Todo sofrimento será então vivenciado por Elisabete numa perspectiva relacional. Ela carrega a sua Cruz em obediência a Jesus que convida seus discípulos a “segui-lo”(Mt 8, 34). Eu não posso dizer que amo o sofrimento em si mesmo, mas o amo porque ele me faz conforme Àquele que é meu Esposo e meu Amor.(p.27).

Antes do fim de março de 1906, Elisabete entra na enfermaria do Carmelo. O enfraquecimento progressivo dos últimos meses a confina num esgotamento total. Alimenta-se sempre com maior dificuldade.(p.28).

“É assim que Madre Germana classifica os oito meses e meio da terrível enfermidade de Elisabete. É impossível retraçar aqui com detalhes a evolução
desta doença nem toda a riqueza espiritual que a acompanha. (p.29)

Provavelmente à seguida de uma tuberculose, Elisabete foi atingida pela doença de Addison,então incurável, afecção crônica das glândulas supra-renais que não produziram mais as substâncias necessárias para o metabolismo. Donde resulta a astenia característica, perturbação gastrointestinal,náuseas, hipotensão arterial, (quade) impossibilidade de se alimentar, emagrecimento,tudo isto conduz a um esgotamento físico total e à morte. Sobre este estado geral se inserem com Elisabete outras complicações, como ulcerações interiores,fortes dores de cabeça, insônias…À medida que ela se aproxima da morte,todos estes sintomas se manifestam mais violentamente. Há também crises mais agudas,como a do dia 13 de Maio quando pensou que fosse morrer.(p.29).

“Madre Germana fala de seu corpo ‘comparável a um esqueleto’,literalmente calcinado’.Francisco de Sourdon,recordando-se do corpo de sua amiga exposto depois de sua morte, afirma: “Ela estava assustadora. Sentia-se uma criatura destruída, consumida”.(p.30).

A morte

“No dia de todos os Santos, comunga pela última vez.(…)Elisabete sai de sua prostração e pede perdão às suas irmãs em termos emocionantes. Convidada a lhes dizer ainda alguma palavra, ela responde: “Tudo passa!…Na tarde da vida só o amor permanece…É preciso fazer tudo por amor; é preciso se esquecer sem cessar: o bom Deus ama tanto quem se esquece de si…Ah! se eu tivesse feito sempre assim!…A noite de 8 para 9 de novembro é penosíssima. A seus sofrimentos se acrescenta a asfixia…Quase sem que se perceba ela cessa de respirar. Era por volta das seis horas e quinze minutos. (p.32).

A 9 de novembro:Morre aos 26 anos de idade.(p.36)

1984: Em 25 de novembro: Solene beatificação pelo Papa João Paulo II.(p.37).

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Retiro de Elisabete da Trindade: “Como encontrar o céu na terra”(p.46-74)

Primeiro dia

Unidos com Cristo no Ser de Deus – A Trindade, eterno repouso da alma – Permanecei em mim – Encontro com Deus na solidão – O abismo da miséria do homem e da misericórdia de Deus.

Primeira oração

1. Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estou, também eles estejam comigo,para que vejam a glória que me deste, porque me amaste antes da criação do mundo.

Tal é a última vontade do Cristo, sua oração suprema antes de retornar ao Pai. Quer que onde Ele está, estejamos também nós, não só durante a eternidade, mas desde esta vida, que é a eternidade começada e sempre em crescimento. Importa,pois, saber onde devemos viver com ele,para realizar o ideal divino. O lugar onde se oculta o Filho de Deus é o seio do Pai, que é a Essência divina, invisível a qualquer olhar mortal, inacessível a qualquer inteligência humana, o que fazia dizer Isaías: “Vós sois verdadeiramente um Deus escondido”; E,contudo, a sua vontade que estejamos fixos nele,que moremos onde Ele mora, na unidade do amor;que sejamos, por assim dizer,como que a sombra de si próprio.

2. ‘Pelo batismo’, afirma São Paulo, ‘fomos enxertados em Jesus Cristo’. E ainda: ‘E com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, em Cristo Jesus, para mostrar aos séculos vindouros as riquezas da sua graça. E mais adiante: ‘Não sois hóspedes nem estrangeiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus.’ A Trindade, eis a nossa morada, o nosso lar, a casa paterna, donde nunca devemos sair. Assim o manifestou um dia o Divino Mestre: “O escravo não permanece sempre na casa, mas o Filho aí permanece para sempre.”

Segunda oração

3. “Permanecei em mim”

É o próprio verbo de Deus que dá esta ordem, e que exprime esta vontade. “Permanecei em mim”,não só momentaneamente, durante algumas horas passageiras, mas permanecei de um modo estável, habitualmente. “Permanecei em mim”: orai em mim; adorai em mim; amai em mim, sofrei em mim,trabalhai, agi em mim. Permanecei em mim quando vos apresentardes a qualquer pessoa ou fizerdes qualquer coisa. Penetrai cada vez mais intimamente nesta profundidade. Esta é, então, verdadeiramente, ‘a solidão a que Deus atrai a alma para lhe falar”, como cantava o Profeta.

4. Mas para escutar esta palavra tão misteriosa não se pode ficar, por assim dizer, à superfície. É necessário penetrar sempre mais no Ser divino mediante recolhimento interior. “Prossigo a minha caminhada, exclamava São Paulo. Também nós devemos descer todos os dias por esta senda do Abismo que é Deus. Deixemo-nos escorregar por esta vertente, numa confiança plena de amor. “Um abismo clama por outro abismo”. É aí, no mais profundo, que se operará o choque divino,que o abismo do nosso nada, da nossa miséria, se encontrará frente a frente com o Abismo da misericórdia, da imensidade, do tudo de Deus. É aí que, ao perdermos o nosso próprio rastro, seremos, transformados em amor…Bem-aventurados os que morrem no Senhor.

Segundo dia

O Reino de Deus em nós – O centro da alma – Transformados por amor – Imperfeições e exigências divinas.

Primeira oração

5. “O Reino de Deus está dentro de vós

Há pouco, o Senhor nos convidava a permanecer nele, a viver pela alma na sua herança de glória. Agora nos revela que não precisamos sair de nós mesmos para o encontrar: “O Reino de Deus está dentro de nós”. São João da Cruz diz que: é na substância da alma, onde nem o demônio e nem o mundo podem chegar, que Deus se dá em nós. Então todos os seus movimentos se tornam divinos e, sendo embora de Deus, são igualmente dela, porque Nosso Senhor os produz nela e com ela.

6. O mesmo santo afirma ainda que Deus é o centro da alma. Quando ela houver chegado a ele, segundo toda capacidade do seu ser, e a força de sua operação e inclinação,terá atingido seu último e mais profundo centro de Deus;isto se realizará quando a alma com todas as suas forças compreender, amar e gozar plenamente a Deus. Não havendo chegado a tanto, como sucede nesta vida moral em que a alma não pode unir-se a Deus com a totalidade de suas forças,está se dúvida no seu centro que é o mesmo Deus,mediante a graça e comunicação que dele recebe; contudo tem ainda força e movimento para ir mais avante,e não está satisfeita, porque, embora se ache no seu centro, não chegou ainda a maior profundidade, e pode penetrar mais adentro na profundeza de Deus. Como é o amor que une a alma a Deus, quanto mais intenso é este amor, tanto mais profundamente penetra ela em Deus e nele se concentra. Se ela possui um único grau de amor, já está no seu centro, mas quando este amor tiver atingido a sua perfeição, a alma terá penetrado no seu ‘centro mais profundo’. É aí que ela será transformada a ponto de tornar-se muito semelhante a Deus. A esta alma, que vive ‘no interior de si mesma’,podem aplicar-se as palavras do Padre Lacordaire a Santa Madalena: “não pergunteis mais pelo Mestre a ninguém na terra ou no céu, porque ele é vossa alma, e vossa alma é ele.

Segunda oração

7.Desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa.

O Divino Mestre repete constantemente à nossa alma esta palavra que Ele disse um dia a Zaqueu. “Desce depressa”.Mas qual é este descer que Ele exige de nós senão uma imersão mais profunda em nosso abismo interior?Este ato não é uma “separação superficial das coisas externas, mas é uma ’solidão do espírito’,um desprendimento de tudo que não é Deus.

8.”Enquanto nossa vontade tem caprichos estranhos à união com Deus, fantasias contraditórias, nós permaneceremos no estado de infância e não caminhamos a passo de gigante no amo; porque o fogo ainda não consumiu toda a escória. O outro não está puro. Estamos ainda em busca de nós mesmos; Deus não destruiu ainda toda a nossa hostilidade para co Ele. Mas quando a fervura da caldeira purificou totalmente todo o amor vicioso, toda dor viciosa, todo o vicioso temor, então o amor torna-se perfeito, e o anel de ouro de nossa aliança mais largo que o céu e a terra. Eis aí a adega secreta onde o amor introduz seus eleitos. Esse amor nos arrasta por atalhos e veredas que somente ele conhece; e nos arrasta sem apelo, pois já não se pode mais retroceder.

Terceiro dia

Amor eterno de Deus ao homem –Vontade divina e condita humana – Deus prisioneiro da alma por amor – Morte espiritual e plenitude divina – Transformados em Cristo.

Primeira oração

9.”Se alguém me ama, guardará minha Palavra e meu Pai o amará e a ele viremos, e faremos nele a nossa morada”.

Eis o Divino Mestre que nos manifesta mais uma vez o seu desejo de habitar em nós. “Se alguém me ama”! O amor, eis o que atrai, o que arrasta Deus até a sua criatura. Não um amor feito de sensibilidade, mas este “amor forte como a morte…e que águas imensas jamais poderão extinguir.”

10.Porque amo meu Pai, faço sempre o que lhe agrada. Assim falava o Divino Mestre e toda alma que quiser viver em intimidade com ele deve também viver esta máxima. A vontade de Deus deve ser o seu alimento, o seu pão de cada dia e deve deixar-se imolar por todos os desígnios do Pai a exemplo do seu Cristo adorado. Cada incidente, cada acontecimento, cada sofrimento e cada alegria, são um sacramento dado por Deus. Pois já não faz distinção entre estas coisas, mas transcende-as e ultrapassa-as, a fim de repousar, acima de tudo, em seu Divino Mestre. “Então o exalta bem alto na elevação de seu coração, sim, mais alto que os seus dons ou as suas consolações, mais acima das doçuras que procedem dele”. A propriedade do amor em de nunca buscar a si mesmo, de nada reservar para si, mas de tudo dar àquele que ama. Feliz a alma que ama verdadeiramente; o Senhor torna-se cativo de seu amor!

Segunda oração

11.”Vós estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.

Eis como São Paulo nos vem dar uma luz para nos esclarecer sobre a senda do abismo. “Vós estais mortos”. O que significa isto, senão que a alma desejosa de viver em intimidade com Deus,”na fortaleza inexpugnável do santo recolhimento, deve estar separada, despojada,alheada de todas as coisas? Esta alma encontra em si mesma uma vertente simples de amor, que leva a Deus, seja o que for quem façam as criaturas. Ele permanece invencível frente às instabilidades das coisas transitórias, porque vai além de tudo, visando somente Deus.

12. “Quotidie morior”. Morro cada dia, diminuo, renuncio-me cada dia mais, a mim mesma, para que Cristo cresça e seja exaltado em mim. Permaneço humilde no fundo de minha pobreza. “Observo o meu nada, minha miséria, minha impotência. Reconheço-me incapaz de progresso e perseverança. Vejo a multidão de minhas negligências e meus defeitos; contemplo-me em toda a minha indigência. Prosto-me diante de minha miséria e, reconhecendo minha absoluta pobreza, apresento-a diante da misericórdia de meu Divino Mestre. “Quotidie morior”. Ponho a felicidade de minha alma(quanto à vontade e não a sensibilidade) em tudo quanto pode imolar-me, destruir-me, rebaixar-me, porque quero dar lugar ao meu Mestre. “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim. Não desejo mais viver de minha própria vida, mas ser transformada em Jesus Cristo, para que a minha vida seja mais divina que humana e que o Pai, ao contemplar-me, possa reconhecer em mim a imagem do “Filho muito amado, no qual ele pôs todas as suas complacências”.

Quarto dia

O amor transformante de Deus – O eterno silêncio das almas – Imersos no fogo do amor – Vida trinitária da alma – Só amar é meu exercício

Primeira oração

13. “Deus ignis consumens

Nosso Deus, escreve São Paulo, é fogo devorador, isto é, um fogo de amor que consome, que “transforma em si tudo quanto o toca”. As delícias do abraço divino se renovam no fundo de nosso ser mediante uma atividade que nunca se interrompe. O abraço do amor é um estado de mútua e eterna complacência. É uma renovação que acontece a cada momento do vínculo do amor. Algumas almas “escolheram este lugar de repouso para nele descansar eternamente.Este é o silêncio onde elas, de certo modo, se perderam”. “Libertadas de sua prisão, navegam no Oceano da Divindade sem que ninguém as estorve ou impeça.

14.Quão doce e suave é para estas almas a morte mística da qual São Paulo nos falava ontem! Elas pensam muito menos no trabalho de destruição e de despojamento que ainda lhes resta fazer, do que em se lançar na Fornalha de amor que nelas arde. Esse amor é o Espírito Santo. É o mesmo amor que une o Pai co o Verbo no seio da Santíssima Trindade. Essas almas “penetram em Deus pela fé viva, e cheias de simplicidade, de paz. Ele as conduz para além das coisas criadas e dos gostos sensíveis até a ‘treva sagrada’ ficando transformadas em imagem de Deus”. Segundo a expressão de São João, elas vivem “em sociedade”, co as três pessoas adoráveis, em comunhão de vida. Nisto consiste a vida contemplativa. É uma contemplação que conduz à posse. Ora, nesta posse simples é a vida eterna intimamente saboreada. É aí que, acima da razão, nos espera a tranqüilidade profunda da divina imutabilidade.”

Segunda oração

15. “Eu vim para trazer fogo à terra, e como desejaria que já estivesse aceso.

É próprio Mestre que nos vem exprimir o seu desejo de ver arder o fogo do amor. De fato, “todas as nossas obras, todos os nossos trabalhos não são nada diante de Deus. Não podemos dar-lhe nada, nem satisfazer o seu único desejo, que é o de elevar a dignidade da nossa alma”. Nada lhe agrada tanto quanto vê-la crescer. Ora, nada pode elevá-la tanto quanto se tornar de alguma forma igual a Deus.Eis por que ele exige dela o tributo do seu amor, por ser próprio do amor igualar, na medida do possível, aquele que ama ao amado. A alma que ama desta forma se mostra igual a Jesus Cristo, porque a afeição recíproca torna tudo comum entre eles. “Eu vos chamo de amigo,porque tudo o que ouvi do Pai eu vos dei a conhecer”.

16. Porém, para chegar a este amor, é necessário que a alma, antes, “se entregue totalmente”. Sua vontade deve, a pouco e pouco, perder-se na de Deus, de modo que suas “inclinações” e “faculdades” só se movam dentro desse amor e para esse amor. Tudo faço por amor e tudo sofro por amor – tal é o sentido das palavras de Davi; Guardarei em vós a minha força”. Então o amor a enche de tal forma, absorve-a e protege-a tão bem, que ela encontra por toda parte segredo de como crescer no amor. Mesmo em suas relações com o mundo, nos cuidados da vida, ela tem o direito de dizer: “a minha única ocupação é amar”.

Quinto dia

A chegada sempre nova de Deus – O Deus da graça e o Deus da eternidade – A eucaristia, testemunho do amor – Cristo vivendo nas almas – A unidade pelo amor.

Primeira oração

17. “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo.

Ditosos os ouvidos da alma que se encontra suficientemente vigilante e recolhida para ouvir a voa do Verbo de Deus. Ditosos também os olhos desta alma que, à luz da fé viva e profunda, pode assistir à chegada do Mestre em seu santuário interior. Mas, em que consiste esta chegada? “É uma geração incessante, uma ilustração sem defeito. O Cristo vem co seus tesouros; mas tal é o mistério da rapidez divina, que ele chega continuamente, sempre pela primeira vez, como se jamais tivesse vindo; porque sua chegada independe do tempo, consiste num eterno ‘agora’. E um eterno desejo renova eternamente as alegrias da sua chegada. As delícias que ele traz são infinitas, pois elas são Ele mesmo. A capacidade da alma, dilatada pela chegada do Mestre, parece sair de si mesma para ultrapassar os muros e chegar à imensidão daquele que chega. E então acontece o seguinte fenômeno: É Deus que, no íntimo de nós, recebe Deus vindo de nós. E Deus contempla Deus! Deus em quem consiste a beatitude.

Segunda oração

18. “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele.

O primeiro sinal do amor é que Jesus nos deu sua carne para comer e seu sangue para beber. É próprio do amor dar sempre e sempre receber. Ora, o amor de Cristo é generoso. Dá tudo quanto e tudo quanto é. Em troca se apossa de tudo quanto temos e tudo quanto somos. Ele pede mais do que nós mesmos seríamos capazes de dar. Jesus tem uma fome imensa que nos quer devorar totalmente. Ele penetra até a medula de nossos ossos. E quanto mais amorosamente lho permitimos, mais plenamente dele saboreamos. (…)

Quando recebemos Cristo com atitude de íntima abnegação,seu sangue cheio de calor e de glória corre em nossas veias, o fogo invade o nosso íntimo e a semelhança de suas virtudes chega a nós. Então ele vive em nós e nós vivemos nele. Ele nos dá sua alma com a plenitude da graça pela qual a alma persevera na caridade e no amor do Pai! O amor atrai a si seu objeto próprio. Nós atraímos Jesus a nós mesmos. Jesus nos arrasta para si. É então quando arrebatados mais além de nosso ser na interioridade do amor, caminhamos co o olhar posto em Deus a seu encontro, ao encontro do seu Espírito que é seu amor. E este amor nos abrasa, nos consome, nos atrai para a unidade onde nos espera a bem-aventurança. Jesus Cristo pensava nisto quando dizia: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco”.

Sexto dia

Fé sobrenatural e possessão divina – O Deus oculto de nossa fé – Cremos no Amor – A pureza da intenção – Sua força vital e transformante – Contato da alma com Deus.

Primeira oração

19. “Para aproximar-se de Deus é preciso crer

É São Paulo quem assim fala. E diz também: “A fé é a posse antecipada do que se espera, um meio de demonstrar as realidades que não se vêem. Quer dizer que “a fé torna os bens futuros tão certos e presentes que, por ela, eles tomam existência em nossa alma e nela subsistem antes mesmo que possamos deles gozar. São João da Cruz diz que ela serve para irmos a Deus e, ainda, que “é a posse em estado obscuro”. Só ela pode far-nos verdadeiras luzes sobre Aquele que amamos, e nossa alma deve “escolhê-la como meio para chegar à união divina”. “É ela que derrama, com abundância, em todos nós, os bens espirituais. Jesus Cristo, falando à samaritana, designava a fé, ao prometer a todos os que nele cressem ‘uma fonte de água viva que jorraria até a vida eterna. “Assim, pois, a fé nos dá Deus desde esta vida, ainda que velado, mas é Deus mesmo. “Quando chegar o que é perfeito(isto é, a visão clara), o que é imperfeito(em outros termos, o conhecimento pela fé) receberá toda a sua perfeição.

20. Temos reconhecido o amor de Deus por nós e nele cremos”. Aí está o grande ato de nossa fé, o meio de retribuir a Deus amor com amor, é o ‘segredo escondido’ no coração do Pai, de que fala São Paulo, onde conseguiremos afinal penetrar e toda a nossa alma exulta. Quando ela sabe crer no “grande amor” que a envolve, pode-se dizer dela o que se dizia de Moisés: “Era inabalável na fé como se houvera visto o Invisível. Não se detém mais nos gostos, nos sentimentos; pouco lhe importa que lhe mande gozo ou sofrimento:crê em seu amor. Mais a alma é provada, mais aumenta a sua fé, porque transpõe, por assim dizer, todos os obstáculos para ir repousar no seio do amor infinito, cujas obras só podem ser de amor. Por isso a voz do Mestre pode segredar a esta alma, assim desperta na fé, aquela palavra íntima que um dia ele dirigiu a Maria Madalena: “Tua fé te salvou; vai em paz.

Segunda oração

21. “Se teu olho for simples, todo o teu corpo será iluminado”

Qual é o olho simples de que nos fala o Mestre senão aquela simplicidade de intenção que une todas as forças dispersas da alma e une a Deus o próprio espírito?É a simplicidade que presta a Deus honra e louvor. É ela que lhe apresenta e lhe oferece as virtudes. Depois, penetrando em si mesma e ultrapassando seu ser,penetrando e ultrapassando o ser das criaturas, ela encontra Deus em seu íntimo.Ela é o princípio e o fim das virtudes, seu esplendor e sua glória. Eu chamo intenção simples aquela que só visa a Deus, atribuindo tudo a ele. É ela que põe o homem em presença de Deus;que lhe dá luz e coragem; é ela que o torna vazio e livre, agora e no dia do julgamento e o liberta de todo o temor. Ela é o declive interior e o fundamento de toda vida espiritual. Ela esmaga aos pés a natureza viciada, dá a paz, impõe silêncio aos ruídos vãos que se fazem em nós. É ela que faz crescer em nós em cada momento nossa semelhança com Deus. E depois, além dos intermediários, é ela que também nos transportará à profundeza onde Deus habita e nos dará o repouso do abismo. A herança que a eternidade nos preparou é a simplicidade que no-la dará. Toda a vida espiritual e toda virtude interior consistem na semelhança divina, na simplicidade. E seu repouso supremo dá-se na altura e também na simplicidade.Segundo a medida de seu amor, cada espírito tem uma procura de Deus mais ou menos profunda em seu próprio íntimo. A alma simples, elevando-se pela virtude de seu olhar interior, entra em si mesma e contempla no próprio abismo o santuário onde se realiza o toque da Santíssima trindade.Assim, ela penetrou em sua profundeza “até o alicerce que é a porta da vida eterna”.

Sétimo dia

Nosso exemplar divino – Novos horizontes da alma – Portadores da imagem de Deus – Quem é mais santo? – Irradiação divina sobre a alma – união totalcom Deus, nossa imagem.

Primeira oração

22. “Deus nos escolheu nele, antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados em sua presença, no amor.

“A Santíssima Trindade nos criou à sua imagem, de acordo com o exemplar eterno que ela possuía de nós em seu seio, antes da criação do mundo, “naquele princípio sem princípio”de que fala Bossuet com base em São João: “In princípio erat Verbum”, “no princípio existia o Verbo”. E pode-se acrescentar: no começo era o nada, porque Deus em sua eterna solidão já nos trazia em seu pensamento.(…)

23. “Nossa essência criada exige o reencontro com seu princípio. O Verbo, esplendor do Pai, é o tipo eterno no qual são desenhadas as criaturas no dia de sua criação. Eis porque Deus quer que, livre de nós mesmos, elevemos os braços para nosso exemplar e que o possuamos,elevando-nos sobre todas as coisas em direção a nosso modelo.(…)Portanto, é graças ao amor e pelo amor, como diz o Apóstolo, que podemos ser imaculados e santos na presença de Deus e canta com Davi: “Serei sem mancha e me defenderei da profunda iniqüidade que está em mim.

Segunda oração

24.”Sede santos porque eu sou santo”

É o Senhor quem fala assim. “Qualquer que seja o nosso modo de vida ou hábito que levamos,cada um de nós deve ser o santo de Deus. Quem é, pois, o mais santo? É aquele que mais ama,aquele que mais olha pra Deus e aquele que atende mais plenamente às exigências do seu olhar. Como satisfazer as exigências desse olhar de Deus? Permanecendo simples e amorosamente voltado para ele,a fim de que possa espelhar sua própria imagem,com o sol se espelha através de um puro cristal.

25. A mais alta perfeição nesta vida,diz um piedoso autor(Santo Alberto Magno), consiste em ficar de tal modo unido a Deus, que a alma com todas as suas faculdades e suas potências fique recolhida em Deus; que suas afeições unidas nas alegrias do amor não encontrem descanso senão na posse do Criador. (…)E como a glória dos bem-aventurados não é outra coisa senão a perfeita posse desse estado, fica claro que a posse começada destes bens constitui a perfeição nesta vida. Para realizar este ideal é preciso manter-se recolhido dentro de si mesmo, manter-se em silêncio na presença de Deus, enquanto a alma de abisma, se dilata, se inflama e se funde nele com uma plenitude sem limites.”

Oitavo dia

O mistério de nossa predestinação – Participes da natureza divina – Imitando a Cristo – A vontade do Pai – Crucificados por amor.

Primeira oração

26. Os que, de antemão, ele conheceu, esses também predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho…E os que predestinou, também os chamou: e os que chamou, também os justificou e os que justificou, também os glorificou. Depois disto, que nos resta a dizer? Se Deus está conosco, quem estará contra nós? Quem me separará do amor de Cristo?…

27. Sim, nós lhe pertencemos pelo Batismo; é o que São Paulo quer significar com estas palavras: “Ele os chamou”. Sim, fomos chamados a receber o selo da Santíssima Trindade, ao mesmo tempo em que nos tornamos, segundo diz São Pedro: “participantes da natureza divina; recebemos um “inicio de seu ser…” Em seguida, “nos justificou” pelos sacramentos, por toques diretos, no recolhimento profundo de nossa alma; “justificados que fomos também pela fé e segundo a medida da nossa fé na redenção que Jesus Cristo adquiriu para nós. Enfim, ele quer glorificar-nos. Por isso, São Paulo diz: “tornou-nos capazes de participar da herança dos santos na luz”. Mas só seremos glorificados à medida que tivermos sido conformes à imagem de seu divino Filho. Contemplemos, pois, esta imagem adorável, permaneçamos continuamente sob sua irradiação para que ela se imprima em nós. Depois façamos todas as coisas com as atitudes de espírito com as quais faria o nosso Mestre divino; realizaremos, então, a grande vontade pela qual Deus decidiu, “em si mesmo”, “restaurar todas as coisas em Cristo”.

Segunda oração

28. Tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, eu perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo; para conhecê-lo, conhecer o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte. Não que eu já tenha alcançado essa meta ou que já esteja perfeito, mas vou prosseguindo para ver se alcanço, pois que também fui alcançado por Cristo Jesus. Uma coisa faço: esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está adiante, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus(Filipenses 3,8.10.12-14) Isto é, eu não quero mais nada a não ser a identificação com ele. Para mim viver é Cristo!…

A alma ardente de São Paulo está toda nestas linhas. Durante este retiro, cuja finalidade é a de tornar-nos mais conformes a nosso Mestre adorável; mais ainda, é fundir-nos de tal maneira nele que possamos dizer: “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que amou e se entregou a si mesmo por mim. (Gálatas 2, 20) Estudemos este Modelo divino. Diz-nos o Apóstolo que seu conhecimento “é tão transcendente!”.

29. E que disse ele ao entra no mundo? “Tu não quiseste sacrifício e oferenda. Tu, porém, formaste-me um corpo…eu vim, ó Deus, para fazer sua vontade. Durante os seus trinta e três anos de vida terrena, esta vontade lhe foi de tal modo o pão de cotidiano que, no instante de entregar sua alma nas mãos do Pai, pode dizer: Tudo esta consumado! Sim, os vossos desejos foram todos cumpridos e eis porque “eu Vos glorifiquei na terra”. Com efeito, Jesus Cristo, falando a seus apóstolos a respeito deste alimento que eles não conheciam. Dizia-lhes: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou” (João 4,34).Ele também podia afirmar: “Jamais estou sozinho”. Aquele que me enviou está sempre comigo, porque faço sempre aquilo que lhe agrada”. (João 8, 29)

30. Comamos com amor este pão da vontade de Deus. Se, às vezes, os seus desejos são mais cruciantes, podemos, sem dúvida, dizer com o nosso adorável Mestre: “Pai, se é possível, que se afaste de mim esse cálice”. Mas logo acrescentaremos: “Não seja como eu quero, mas como vós quereis”. (Mateus 26, 39)Então subiremos também nós com serenidade e fortaleza em companhia do divino Crucificado o nosso Calvário, cantando no íntimo da alma, e elevando ao Pai um hino de ação de graças, pois os que percorrem este caminho doloroso são “aqueles que ele conheceu e predestinou para serem conformes à imagem de seu divino Filho”(Romanos 8, 29), o Crucificado por amor!

Nono dia

Filhos de Deus por adoção – Nosso modelo de santidade – Adoradores do Pai em espírito e em verdade- ingratidão e malícia do pecado – O pecado como instrumento de salvação e humildade.

31. “Deus nos predestinou para sermos filhos adotivos por Jesus cristo, conforme o beneplácito da sua vontade, para louvor e glória da sua graça,com a qual ele nos agraciou no Amado,na qual temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que ele derramou profusamente sobre nós, infundindo-nos toda sabedoria e prudência.

A alma que se tornou realmente filha de Deus, segundo a palavra do Apóstolo, é movida pelo próprio Espírito Santo.(…)

32.Eis a medida de santidade dos filhos de Deus: “ser santo como Deus é santo, ser santo da própria santidade de Deus, e isto vivendo intimamente com ele, no fundo do abismo sem fundo, ‘dentro de nosso ser’.

33. Cristo, um dia, disse á samaritana que o “Pai estava procurando adoradores em espírito e em verdade. Para alegrar o seu coração, sejamos essas grandes adoradoras. Adoremo-lo ‘em espírito’, isto é, tenhamos o coração e o pensamento fixos nele,com o espírito cheio de seu conhecimento pela luz da fé. Adoremo-lo ‘em verdade’,isto é, por meio das nossas obras,pois nossa veracidade se manifesta através de nossa conduta. Adorá-lo ‘em verdade’ é fazer sempre o que agrada o Pai.

Segunda oração

Deus, que é rico em misericórdia,pelo grande amor com que nos amou,quando estávamos mortos em nossos pecados, nos vivificou junto com Cristo. Todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus; e são justificados gratuitamente por sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus, que Deus estabeleceu como propiciação dos pecados,mostrando que ele é justo e justifica quem tem fé nele.

“O pecado é um mal tão horrível que, para procurar um bem, por pequeno que seja, ou para evitar um mal qualquer nenhum pecado deve ser cometido.(…)

36(…)

37.Quem possui um fundo de humildade não precisa de muitas palavras para instruir-se.Deus lhe revela mais coisas do que outros poderiam lhe ensinar. Os discípulos de Deus estão nesta posição.

Décimo dia

Se conhecesses o dom de Deus – A Virgem fiel – A Virgem da vida interior – Atitudes espirituais de um louvor e de glória – o nome novo do vencedor.

Primeira oração

“Se conhecesses o dom de Deus”, disse Jesus à Samaritana. Mas qual é este dom de Deus,senão ele mesmo? “E diz-nos o discípulo amado, veio aos seus e os seus não o receberam.

39. “Se conhecesses o dom de Deus!” Houve uma criatura que conheceu este dom de Deus…Uma criatura cuja vida foi tão simples,tão absorta em Deus,que quase nada se pode dizer a respeito dela.

“Virgo Fidelis,Virgem Fiel,é aquela que “guardava todas as coisas no coração”. Conservava-se tão pequena e recolhida diante de Deus, no segredo do Templo, que atraiu sobre si as complacências da Santíssima Trindade: “Porque olhou para a humildade de sua serva, doravante as gerações todas me proclamarão bem-aventurada!…

40. Parece-me que a atitude da Virgem, durante os meses que se passaram entre a Anunciação e o natal, é o modelo das almas interiores, desses seres por Deus escolhidos para viver ‘no interior’, no fundo do abismo sem fundo…

41. Nele, predestinados pela decisão daquele que tudo opera segundo o conselho de sua vontade, fomos feitos sua herança,para sermos o louvor de sua glória;…

42.No céu, cada alma é um louvor de glória ao Pai, ao verbo e ao Espírito Santo, pois cada alma está fixada no amor puro, ‘não vivendo mais da sua própria vida, mas da vida de Deus…Em outras palavras: “seu entendimento é o entendimento de Deus, sua vontade a vontade de divina, seu amor o mesmo amor de Deus….

43. Um louvor de glória: é uma alma que permanece em Deus, que o ama com um amor puro e desinteressado, sem buscar-se a si mesmo na doçura desse amor;que o ama acima de todos os seus dons, e amaria ainda que nada tivesse dele recebido,e que deseja o bem ao Objeto assim amado…

Um louvor de glória: é uma alma de silêncio, que permanece como uma lira, sob o toque misterioso do Espírito Santo,que nela produz harmonias divinas. Ela sabe que o sofrimento é uma corda que produz sons mais belos ainda e por isso gosta de vê-la no seu instrumento,para comover,mais ternamente, o coração de seu Deus.

Um louvor de glória: é uma alma que contempla a Deus na fé e na simplicidade; é um reflexo do Ser de Deus.É como um abismo sem fundo, no qual ele pode derramar-se, expandir-se. É também como um cristal, através do qual Deus pode irradiar e contemplar todas as suas perfeições e o seu próprio resplendor….

44. No céu da glória, os bem-aventurados não cessam de repetir “dia e noite: ‘Santo, Santo, Santo,o Senhor todo-poderoso…’, prostrando-se,adoram aquele que vive pelos séculos dos séculos”. No céu de sua alma o louvor de glória começa, desde já,o ofício que há de exercer na eternidade. Seu cântico nunca se interrompe,porque ele age sempre sob o impulso do Espírito Santo que tudo opera nele.

Bibliografia: TRINDADE. Elisabete da. Obras Completas. Editora Vozes.

Introdução

É uma grande perda que Elisabete não tenha continuado a escrever seu diário; seria uma porta maravilhosa para entrarmos no santuário de sua alma. As poucas páginas do que nós chamamos “Diário” são de 1899. Ela tem 19 anos, está já decidida a ser “carmelita descalça”. Trata-se só de esperar cumprir os 21 anos para não contrariar sua mãe.(A leitura do Diário nos permite entrar no castelo interior desta alma privilegiada que já vive a íntima comunhão com a Santíssima Trindade.(p.137).

Obstáculos de sua mãe à sua vida de piedade

“Eu me regozijava com o pensamento de poder comungar também hoje. Assim, durante quatro dias seguidos teria tido a visita do Esposo amado. Era muita felicidade, mas observei que isto contrariava mamãe, ofereci a Jesus este grande sacrifício.(p.141).

Enviai-me sofrimentos mas dai-me almas

“Pedi e recebereis”(Mt 7,7). A oração é infalível. É preciso rezar, Deus o disse formalmente. Não se trata de um conselho, mas é uma ordem. É preciso rezar:

1)Porque sem oração o céu se fecha para nós.
2)Porque com a oração o inferno se fecha sob os nossos passos.

I – A oração, uma verdadeira oração, aquela que vem do coração e não somente dos nossos lábios. Quem não reza todos os dias, forçosamente perecerá. Ela é a força que nos sustenta nas grandes tempestades da vida e impede que fracassemos.

II – O demônio está sempre presente, ele vigia ao nosso redor. Nós, sozinhos, que poderíamos fazer? Nada, certamente. A oração é tão poderosa no coração de Deus…É a chave, a única chave que nos abre o paraíso. Aquele que reza, que sabe rezar bem, Deus o sustentará. No último momento de nossa vida, quando[o demônio] estiver rondando como um leão que ruge, pronto para lançar-se sobre a presa, Jesus estará conosco para nos introduzir na morada do repouso e da bem-aventurança.(p.149).

Penitências obrigatórias

“Há penitências corporais que são obrigatórias: a confissão, o jejum,etc.(p.153).

O firme propósito após a confissão

“O firme propósito é tão necessário quanto a contrição, formam uma só coisa. Sem dúvida, não se pode prometer a Deus que seremos impecáveis. Infelizmente, o nosso natural é tão fraco…Mas deve-se dizer a Deus: “Eu vos prometo, custe o que custar, que farei tudo para não recair nesta falta”, sobretudo quando se trata de uma falta habitual.(p.157).

O sacerdócio e a confissão

O sacerdote é no confessionário o ministro deste Deus tão bom, que deixa as noventa e nove ovelhas fiéis em lugar seguro para correr à procura daquela que se desgarrou; é o pai do filho pródigo, é o ministro de Deus que perdoa Madalena,a grande pecadora, a Santo Agostinho e a tantos outros.(p.162).

Renúncia ao mundo

“Arrependo-me, Senhor, dos meus pecados que tanto te ofenderam.Que é o mundo? Nada mais que vaidade e mentira. Vamos considerá-lo sob dois pontos de vista: (…)

I – Do ponto de vista natural. A pessoa mundana só se ocupa de modas, jóias, visitas, bailes e festas noturnas. Nada de pensamentos elevados, nem de altos ideais, mas unicamente preocupações terrenas.

1)O mundo é vão. Sim, as suas festas, seus prazeres co que se inebria às vezes com alegria, o que resta de tudo isso? O infortúnio, o luto, as desgraças pesa sobre nós. Como somos então esquecidos, desprezados nessas festas das quais éramos o mais velo ornamento…

2)O mundo é mentiroso. Será que ele nos deu tudo o que nos havia prometido?Deu-nos ele a felicidade? Prometeu ajudar-nos, mas, se nos deixarmos arrastar por seus atrativos e sucumbirmos às suas tentações, ele será o primeiro a lançar pedras contra nós.

II – O mundo do ponto de vista sobrenatural.

Deus o amaldiçoou. Jesus disse: “Ai do mundo por causa dos escândalos!”(Mt 18,7). “Não rogo pelo mundo”(Jo 17, 9). Por que estas maldições? Porque Jesus conhecia o espírito do mundo, este espírito em tudo contrário ao evangelho.

A religião apóia-se sobre três fundamentos:

1)Belém ou a pobreza. O mundo não pode suportá-la, porque procura só procura o luxo, o bem-estar.

2)Nazaré ou o trabalho. O homem mundano se julga dispensado da lei do trabalho. Ele não conhece as palavras de Deus: “Com o suor de teu rosto comerás o teu pão”(Gn 3, 19).

3)Calvário. O mundano ignora o que seja a penitência voluntária. E o que acontece quando a desgraça se abate sobre ele? Quantos suicídios para acabar com a vida!…

Meu Deus,eu vos dou graças do mais profundo do meu coração por me haverdes mostrado desde a minha juventude a vaidade das coisas deste mundo. Eu vos agradeço por me haverdes atraído a vós, graças vos sejam dadas sempre!…(p.166).

Esta tarde eu fiz minha confissão geral, a segunda depois da que fiz para a Primeira Comunhão. Estou horrorizada com tantas ofensas. Bom Mestre, se for para eu nelas cair, enviai-me, eu vos suplico a morte! Como depois de tantas ofensas podeis suportar a minha presença? Como continuais a prevenir-me com tantos favores? Agradeço-voa, meu Deus, e vos peço de novo perdão. Desfaleço de dor ao pensar nos sofrimentos que vos causei, a vós que eu amo tanto, vós minha Vida, meu Amado, vós que me tendes por vossa esposa, perdão, Jesus, perdão. Eu vos amo e choro esses pecados que tanto mal vos causaram. Tende piedade de mim e olhai somente o amor que tenho por vós.

A impureza

A impureza. O vício mais vergonhoso.”Maria,minha querida Mãe,velai sempre por mim. É o vício mais vergonhoso, o que mais causa sofrimentos a Jesus.

Maus livros

Os maus livros. A mulher mundana se enfastia. Então o mundo, que tudo prevê,lhe oferece más leituras para cativá-la…

1)Existem livros maus? Por mau livro entendo tudo o que se imprime para combater a religião ou a moral, e disso o mundo está cheio.

2)Podem esses livros causar dano? Certamente que sim. E aqueles que o negam ou não percebem isto, são pessoas pouco instruídas. Quando se toma uma bebida na qual se misturou veneno, sem dúvida não se percebe nada, mas isto não impede que ele seja assimilado em nosso sangue. Esses livros produzem danos tanto maiores quanto mais enganosas são as suas aparências. Para atrair a mulher piedosa o autor lançará mão de todos os recursos possíveis e a infeliz se deixa conquistar.

3)Que males produzem tais livros? Eles destroem pouco a pouco toda a piedade. Levam à ilusão. São quase sempre a causa de maus pensamentos, maus desejos emas ações. (…)É preciso queimar esses livros mesmo que tenham um grande valor,ou estejam no fundo de um armário.(p.169).

Alegria no sofrimento

O sofrimento é a escada que nos leva a Deus, ao céu. (p.170). Ele é:

1)A conversão:

Quantas almas às quais Deus envia o sofrimento a fim de reconduzi-las a si…na alegria, se esquece a Deus, se encontra seu paraíso na terra. É então quando Deus permite a dor. Abençoado sofrimento que nos reaproxima dele!.

2)A expiação

Nada comove tanto o coração de Deus como o sofrimento. Se não temos coragem para desejá-lo e ir ao seu encontro, tenhamos, ao menos, resignação para aceitar as tribulações que Deus nos envia.Porque Deus quanto mais ama uma alma mais a faz sofrer. Para identificar-se com o Coração de Jesus é preciso aceitar também a cruz, a coroa de espinhos. Sem isto, Deus não pode entregar-se a nós.(p.170).
3)O mérito

Por mais bela e consoladora que seja a oração,por mais admirável que seja o trabalho realizado para Deus, nadam entretanto, se iguala ao mérito, à beleza do sofrimento. Nele não existe amor-próprio. Está Deus, e somente Deus por quem se sofre. Que encanto possui o sofrimento quando se sabe aceitá-lo, desejá-lo. Que abundante fonte de méritos! Não há um caminho mais seguro que o da Cruz. É o caminho que o próprio Deus escolheu.(p.171).

Três qualidades da mulher cristã

1)A fé

A mulher cristã tem um grande apreço por ela e todos os dias agradece a Deus por essa dádiva. Em sua juventude,ensinará às crianças pobres estas sublimes e consoladoras verdades. Quando esposa e mãe, ela as fará conhecer e amar por aqueles que a cercam. Preferirá ver seu filho morrer a vê-lo perder a fé…

2)A castidade

É a mais bela das virtudes, aquela que Jesus prefere. Santo Afonso disse que no inferno, entre cem almas condenadas, noventa e nove ali se acham por ter perdido esta virtude. Invertendo a frase,pode-se afirmar que, possuindo a mais bela das virtudes, existe noventa e nove por cento de probabilidades de irem para o céu, porque Jesus não pode condenar a viver eternamente longe de si a alma pura que sempre manteve a vigilância sobre si mesma. Aqueles por quem Jesus demonstrou predileção eram puros:sua mãe é uma virgem; também São João é virgem;

3)A dedicação

O privilégio da mulher é ter um coração compassivo. Deus infundiu nela tanta capacidade de dedicação…Ele a colocou sobre a terra para enxugar as lágrimas..para mitigar todas as dores e permanecer imóvel aos pés da Cruz. (p.175).
A oração

A oração deve ser feita:

1)Com atenção. É natural. É preciso pensar naquilo que pedimos a Deus.

2)Com humildade.

3)Com confiança(p.176)

Meditação

A alma que medita tem a salvação assegurada. Um grandíssimo mal do nosso tempo é a superficialidade; A meditação consiste em refletir na presença de Deus. O demônio faz todos os esforços para desviar as almas da meditação. Ele sabe como é um meio eficaz para progredir na virtude…

A meditação desperta:

1)A fé. Quase todos os nosso pecados resultam de uma falta de fé.
2)O amor a Deus.
3)Faz-nos progredir na virtude. O cristão que medita sabe rezar muito melhor que os outros.(p.179).

Confiança em Maria

Confiança em Maria.A onipotência de Deus- A misericórdia de Jesus Cristo.A ternura de Maria. “A Virgem tudo pode”. Tememos a Deus. Sua onipotência nos infunde horror. Então ele nos envia seu Filho Bem-Amado. Ele, descendo do Céu, se faz homem sofre mil dores, enfrenta todos os tormentos para ganhar nosso amor e nossa confiança. Isto não basta. Então ele pensa que não há nada melhor que uma mãe. Uma mãe, mas ela inspira tanta ternura…Uma mãe,mas ela abranda,ela comove os corações mais frios,os mais endurecidos…E Deus nos dá uma Mãe, a mais terna, a mais compassiva que se possa sonhar.E ela está lá(…)aos pés da cruz. E lá, diante do seu Filho (…), ela nos conduzirá ao porto feliz e seguro. Para que uma pessoa inspire e mereça confiança ela deve ser poderosa e boa.

I – Poderosa. E não o é a Rainha dos céus? Jesus deu no céu todo poder àquela a quem ele obedeceu na terra. Sim, ela pode tudo sobre o Coração de Jesus. Recorramos a ela!

II – Boa. Quem mais terna, mais misericordiosa que Maria? Ela sofreu tanto por nós! Podia demonstrar-nos de modo melhor o seu amor? Vejo-a contemplando o seu Jesus morto que repousa em seus braços.Quanto sofre esse coração de mãe! Seria eu capaz de recusar-lhe o meu consolo?… (p.182-183).

Humildade

Eis as palavra de Jesus. A porta dos céus é estreita, tão baixa, tão pequena, só as almas humildes podem passar por ela.

1)A humildade é a fonte das graças. Deus cumula com os seus favores aquele que se julga vil e desprezível.

2)A humildade é uma segurança de ver nossas orações ouvidas. Jesus abre o seu coração à alma que reza humildemente deixando sair todos seus dons, seus favores, suas bênçãos. Pensai na oração do publicano!…

3)Ser humildes é ser muito amado de Jesus. Ele não tolera os orgulhosos.
(…)
Portanto, devemos humilhar-nos em todas as coisas. Humilhar-nos vendo as nossas faltas,e no lugar de amar-nos a nós mesmos, reconhecer nossa fraqueza e nosso nada.(p.186).

O pecado venial

O pecado venial voluntário é uma ofensa terrível feita ao Coração de Jesus. Nenhuma razão justifica que seja cometido deliberadamente. O pecado venial faz com que a alma viva na tibieza, nessa tibieza que Jesus detesta e que entristece o seu coração. Certamente,um pecado venial, sequer mesmo cem pecados veniais não podem fazer um pecado mortal, mas levam a isso. A alma habituada ao pecado venial não percebe mais o limite que a separa do pecado grave.(p.188).

Comunhão

1)As pessoas que comungam a cada oito dias devem estar isentas de pecado mortal.
2)As pessoas que comungam vás vezes na semana devem evitar o pecado venial.
3)Aquelas, enfim, que comungam diariamente devem aspirar a uma vida de santidade,evitar inclusive as imperfeições,mortificar seu corpo, fazê-lo sofrer.(p.189-190)

Perseverança

Para perseverar é preciso:
1)Ter firmes propósitos. Não é conveniente fazer muitos.
2)Não desanimar. É mais difícil superar o desalento que o pecado. Não se inquietar se não constatar progressos no estado de sua alma. Muitas vezes Deus permite isto para evitar um sentimento de orgulho. Ele sabe ver nossos progressos e conta todos os nossos esforços.(p.192).

Vida de santidade

As devoções para com Jesus Cristo(…)são:

1)A devoção à Paixão.
2)A devoção à Santa missa. É preciso imaginar que se assiste à Paixão, oferecer Jesus em holocausto a Deus para conseguir uma determinada graça ou em reparação dos nossos pecados.
3)A visita ao Santíssimo Sacramento. Jesus está sozinho, ninguém para o consolar. Ele está no sacrário por nós…(p.192).

Oração-Elevação à Santíssima Trindade

Ó meu Deus, Trindade que eu adoro. Ó meu Deus, Trindade que adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente de mim mesma para fixar-me em vós,imóvel e pacífica,como se minha alma já estivesse na eternidade. Que nada possa perturbar-me a paz nem me fazer sair de vós,ó meu Imutável, mas que em cada minuto eu me adentre mais na profundidade de vosso Mistério. Pacificai minha alma, fazei dela o vosso céu, vossa morada preferida e o lugar de vosso repouso. Que eu jamais vos deixe só,mas que aí esteja toda inteira, totalmente desperta em minha fé, toda em adoração, entregue inteiramente à vossa Ação criadora.(p.41).

Ó meu Cristo amado, crucificado por amor;quisera ser uma esposa para vosso Coração, quisera cobrir-vos de glória,amar-vos…até morrer de amor! Sinto, porém, minha impotência e peço-vos revestir-me de vós mesmo, identificar aminha alma com todos os movimentos da vossa, submergir-me invadir-me, substituir-vos a mim para que minha vida seja uma verdadeira irradiação da vossa. Vinde a mim como Adorador, como Reparador e como Salvador. Ó Verbo eterno, Palavra de meu Deus, quero passar minha vida a escutar-vos, quero ser de uma docilidade absoluta para tudo aprender de vós. Depois, através de todas as noites, de todos os vazios, de todas as impotências,quero ter sempre os olhos fixos em vós e ficar vossa grande luz; ó meu Astro amado, fascinai-me a fim de que não me seja mais possível sair de vossa irradiação.

Ó Fogo devorador.Espírito de amor, ‘vinde a mim’ para que se opere em minha alma como que uma encarnação do Verbo: que eu seja para ele uma humanidade de acréscimo na qual ele renove todo o seu Mistério. E vós, Ó Pai, inclinai-vos sobre vossa pobre e pequena criatura, cobri-a com vossa sombra vendo nela só o Bem-Amado, no qual pusestes todas as vossas complacências. (p.39-43).

Bibliografia: Elisabete da Trindade. Obras Completas. Editora. Vozes.



A Família

“Minha mãe tinha o cuidado de nos fazer rezar e de nos ensinar a ser devotos de Nossa Senhora e de alguns santos. Começou a despertar-me à piedade na idade de seis ou sete anos. Fazia-me bem ver que meus pais estimavam a virtude. Tinham muitas. (p.11)

Meu pai era homem de muita caridade com os pobres, piedade com os enfermos e bondade com os empregados tanto assim que jamais se pôde conseguir dele que tivesse escravos, porque lhes tinha grande compaixão. Certa vez tendo em casa a escrava de um de seus irmãos, tratava-a como filha. Dizia causar-lhe grande dor só de pensar que não era livre. Era homem de grande retidão. Jamais o ouviram jurar ou murmurar. Era honesto em extremo. (p.11-12)

Minha mãe, que também tinha muitas virtudes, era de grande honestidade; passou a vida com freqüentes enfermidades. Era muito formosa, contudo, nunca deu a perceber que fazia caso disso. Morreu aos trinta e três anos, e já se trajava como pessoa idosa. Era de trato muito ameno e bastante inteligente. (p.12)

Éramos três irmãs e nove irmãos. Pela bondade de Deus, todos se assemelhavam a seus pais em virtude, exceto eu. No entanto, fui a mais querida de meu pai e não era isto sem razão alguma. Lastimo quando relembro as boas inclinações que Senhor me tinha dado e quão mal soube aproveitá-las, quando comecei a ofender a Deus. Meus irmãos em nada me impediam de servir a Deus. A todos tinha grande amor e eles a mim. Um deles quase de minha idade era meu predileto. Ficávamos juntos a ler vida de santos. Vendo os martírios que as santas sofriam por amor a Deus, parecia-me que compravam muito barato a sorte de gozarem de Deus. Desejava morrer assim, não tanto por amor, ao que entendo,mas para desfrutar depressa dos imensos bens que os livros diziam haver no céu. (p.12)

Dava esmolas como podia, mas era pouca a possibilidade. Procurava solidão para rezar minhas devoções, que eram bastantes, especialmente o rosário, do qual minha mãe era muito devota, e nos incutia a mesma devoção. ” (p.13)

A Vida Velha

Chegando ao uso da razão e apesar de ter mãe tão virtuosa, pouco ou quase nada aproveitei de suas boas qualidades. Comecei a vestir-me com elegância, a querer agradar e parecer bonita. Cuidava muito das mãos, dos cabelos, de perfumes e de todas as vaidades, que não eram poucas, por ser eu muito exigente nos meus gostos. Não tinha má intenção, pois não quisera que alguém ofendesse a Deus por minha causa. Durou-me muitos anos essa preocupação de demasiado alinho, juntamente com outras coisas que não me pareciam pecado. Agora vejo quão mau devia ser. (p. 15-16)

Alguns primos-irmãos freqüentavam a nossa casa. Eram quase de minha idade, pouco mais velhos. Andávamos sempre juntos. Tinham-me grande amor. Conversávamos sobre toas as coisas que lhes davam prazer, e eu ouvia as aventuras de suas afeições e leviandades, nada boas. Na idade em que se deve começar a cultivar as virtudes, vejo agora o perigo que há em tratar com pessoas que não reconhecem a vaidade do mundo e, pelo contrário, a ela nos arrastam. Pior ainda, minha alma começava a se acostumar àquilo que era causa de todo o seu mal. (p. 16)

Se me coubesse dar conselhos, diria aos pais que, tenham muito cuidado em escolher as pessoas que convivem com seus filhos nessa idade. O perigo é grande, porque as nossas inclinações naturais pendem mais para o mal do que para o bem. Assim aconteceu comigo. (p.16)

Aprendi todo o mal de uma parenta que muito freqüentava a nossa casa. Era de modos tão levianos, que minha mãe fizera tudo para afastá-la da nossa convivência. Parecia adivinhar o mal que me causaria. Mas havia tantas ocasiões de estar conosco, que não conseguiu impedir. Afeiçoei-me ao seu trato. Com ela conversava continuamente e me entretinha, porque me ajudava em todos os passatempos de meu agrado e ainda que atraía a eles, tomando-me também por confidente das suas conversas e vaidades. (p.16)

Certo é que essa amizade de tal maneira me mudou que, da natural inclinação à virtude que minha alma tinha, quase nada ficou. Ela e outra, que possuía o mesmo gênero de passatempos, pareciam imprimir em mim seus defeitos.
(p.17)

Por aqui entendo o grande proveito que faz a boa companhia. Tenho por certo que, se naquela idade tivesse mantido relações com pessoas virtuosas, não me teria desviado da virtude. Se desde o princípio tivesse tido quem me ensinasse a temer a Deus, minha alma teria adquirido forças para não cair. Aos poucos, perdendo esse santo temor de Deus, só me ficou o de manchar a honra. Era o que atormentava em todas as circunstancias. Atrevia-me a fazer muitas coisas bem contrárias à minha honra e à de Deus, julgando que ninguém descobriria coisa alguma. (p.17)

A Vida Nova

Eu andava nessas vaidades não havia 3 meses, quando me levaram a um mosteiro existente no lugar,onde se educavam meninas de minha condição, embora não tão ruins quanto eu. Nos primeiros oito dias senti muito. Foi mais pelo receio de se haver divulgado minha leviandade, do que por estar no convento. (p.18)

Vivia em desassossego, de modo que no fim de oito dias, e creio que ainda antes, estava muito mais contente que na casa de meu pai. Todas gostavam de mim, pois o Senhor me deu esta graça, de agradar a todos, onde quer que estivesse, e assim era muito querida. Eu sentia então grande aversão à idéia de me fazer monja. Contudo gostava de ver tão boas religiosas como eram daquela casa, observantes, recolhidas e de grande honestidade. Minha alma começou a voltar aos bons costumes de minha meninice, e vi a grande graça que Deus faz a quem se põe em companhia de almas boas. (p.19)

Certa monja dormia em nosso dormitório de educandas, e por meio dela o Senhor quis, ao que parece, começar a me dar a luz, como agora direi. Comecei a gostar da boa e santa conversação dessa monja. Agradava-me ouvi-la falar tão bem de Deus. Era muito discreta e santa. Em nenhum tempo, a meu ver, perdi o gosto de ouvir estas coisas. Contou-me que tinha resolvido ser monja só por ter lido as palavras do Evangelho: “Muitos são os chamados e poucos os escolhidos”. Falava-me do premio que o Senhor dá aos que deixam tudo por ele. Este bom relacionamento começou a dissipar os costumes que a má companhia havia deixado, elevava meu pensamento aos desejos das coisas eternas e diminuía um tanto a grande aversão que eu tinha de ser monja, pois era imensa. (p.19-20)

Estive nesse mosteiro um ano e meio, corrigindo-me bastante. Comecei a rezar muitas orações vocais e a pedir a todos que me encomendassem a Deus, para que encontrasse o caminho em que melhor o havia de servir. Desejava, no entanto, que não fosse o de monja, pois Deus não me dava este desejo, contudo, temia o casamento. No fim do tempo que ali passei, já estava mais afeiçoada a ser religiosa, embora não naquela casa. Havia ali certas práticas de virtude que a mim pareciam exageradas. (p.21)

Deixava-me levar mais pelo que agradava à minha sensibilidade e vaidade do que pelo bem e interesse de minha alma. Vinham-me algumas vezes esses bons pensamentos de consagrar-me a Deus, mas logo passavam e eu não conseguia persuadir-me nem decidir-me. Nesse tempo, apesar de andar descuidada de minha salvação, o Senhor andava mais zeloso, dispondo-me para a vocação que melhor me convinha. Deu-me uma grande enfermidade que me obrigou a voltar para a companhia de meu pai. Quando me restabeleci, levaram-me para casa de minha irmã, que residia numa aldeia, a fim de visitá-la. Era extremo o amor que me tinha, e por sua vontade eu nunca sairia de junto dela. Seu marido também gostava muito de mim, ao menos demonstrava grande afeição. Ter sido benquista, por toda parte onde andei, é uma das grandes graças que devo ao Senhor, e eu lhe correspondia sendo o que sou. (p.21)

No trajeto situava-se a casa de um irmão de meu pai. Era ele muito experiente, de grandes virtudes, viúvo, e o Senhor também andava preparando-o para si. Em idade avançada veio a deixar tudo que tinha, faz-se religioso e morreu tão santamente. (p.21)

Foram poucos dias que passei em casa desse meu tio. Com a força que as palavras de Deus, tanto lidas como ouvidas, faziam em meu coração boa companhia, fui entendendo as verdades que compreendera em menina; o nada de tudo que é transitório, a vaidade do mundo, a brevidade com que tudo acaba. Pus-me a pensar e a temer que iria talvez para o inferno se tivesse morrido. (p.22)

Conquanto minha vontade ainda não se inclinasse de todo a ser monja, vi que este era o melhor e mais seguro. Assim pouco a pouco, determinei-me a abraçá-lo, muito embora fazendo-me violência. Nesta luta estive três meses, combatendo contra mim mesma. (p.22)

Em toda esta deliberação sobre a escolha de estado, creio que mais me movia o temor servil que o amor. O demônio sugeria-me que eu não agüentaria os trabalhos da vida religiosa, sendo tão amiga das comodidades. A isto acudia eu com a lembrança dos sofrimentos padecidos por Cristo. Não seria muito que eu padecesse alguns por seu amor. (p.22)

Fui acometida nesse tempo por constantes desfalecimentos acompanhados por febre. Sempre tive bem pouca saúde. Ter ficado amiga de bons livros deu-me vida. Li as Cartas de São Jerônimo. Animaram-me de tal sorte, que decidi falar a meu pai. Era quase como tomar o hábito religioso, porque sendo tão briosa, não voltaria atrás por motivo algum, uma vez que o houvesse declarado. Meu pai me queria tanto que de modo algum consegui sua licença. Os rogos de algumas pessoas, às quais pedi que lhe falassem, tiveram o mesmo resultado. O que se pôde arrancar dele foi que, depois de sua morte, eu faria como bem entendesse. (p.22-23)

Lembro-me perfeitamente, e penso ser bem verdade, que ao deixar a casa de meu pai, foi tal o meu sofrimento, que creio, não será maior a dor da morte. Parecia-me que os ossos se apartavam uns dos outros. O amor de Deus não superava o amor a meu pai e à minha família. Foi necessário fazer-me em tudo tanta violência, que se o Senhor não me sustentasse, minhas convicções não bastariam para prosseguir. Chegado o momento, o Senhor deu-me ânimo para lutar contra mim mesma, de modo que realizei o meu propósito. (p.24)

Ao tomar o hábito, Sua Majestade fez-me logo compreender quanto favorece aos que no seu serviço se fazem violência. A que precisei fazer ninguém observou em mim, percebiam somente minha boa vontade. Na mesma hora, deu-me tal alegria de ter abraçado aquele estado, que jamais me faltou até hoje, e Deus transformou a aridez de minha alma em ternura. Deleitavam-me as observâncias da vida religiosa. Na verdade, algumas vezes, estando a varrer em horas que antes costumava a ocupar com meus divertimentos e vaidades, sentia uma estranha felicidade sem saber de onde me vinha, ao lembrar que estava liberta de tudo aquilo. (p.24-25)

A mudança de vida e de alimentação prejudicou-me a saúde. Ainda que a alegria fosse grande não agüentei. Aumentaram os desmaios, com uma dor tão intensa no coração, que espantava os que me viam, além de muitos outros males. (p.26)

Período de doença

Assim passei o primeiro ano, bem mal de saúde. Não penso em ter ofendido muito a Deus. A doença era tão grave, que eu vivia ameaçada de perder os sentidos, e as vezes chegava a perde-los. Meu pai procurava algum remédio com muita diligencia. (p.26)

Tive de ir para casa de minha irmã na aldeia onde ela residia, aguardando o tempo marcado para o tratamento. Fui levada com extremo cuidado por minha irmã, por meu pai e pela monja, minha amiga, que comigo viera e me queria muitíssimo. Residia no lugarejo onde fui curar-me, um sacerdote que, além de ser pessoa de certa nobreza e inteligência, tinha alguma instrução, não muita. Comecei a confessar-me com ele. Sempre fui amiga de gente culta. (p.32)

Comecei, pois, a confessar-me com o sacerdote de quem falei. Estando no principio de minha vida religiosa, eu tinha então poucas faltas a confessar, em comparação do que tive depois…Tanto fervor numa pessoa ainda jovem causava confusão àquele sacerdote. (p.33)

Estive naquele lugar três meses, com muitos sofrimentos. O tratamento foi mais enérgico do que a minha compleição. No fim de dois meses, à força de remédios, minha vida se acabava. As dores no coração, das quais me tinha ido curar, cresceram tanto, que me parecia às vezes tê-lo rasgado por dentes agudos. Temeram que fosse raiva. As forças me faltavam, nada comia, apenas bebia um pouco; tudo me causava náuseas e a febre era contínua, o organismo estava gasto em conseqüência de purgativos diários durante quase um mês. Estava tão ressequida, que meus nervos começaram a se encolher com dores insuportáveis. Nem de dia nem de noite tinha algum descanso. Sentia profunda tristeza. Eis o que havia lucrado meu pai me trouxe de volta. Fui novamente examinada por vários médicos. Todos me desenganaram, declarando que além de outros males estava tuberculosa. Pouco se dava. O que me afligia eram as dores contínuas, dos pés a cabeça. No dizer dos próprios médicos são intoleráveis essas dores espasmódicas. Eu sofria duro tormento. Aprouve a Deus, não ter perdido, por minha culpa tantos méritos! Neste sofrimento mais agudo estive cerca de três meses. Parecia impossível alguém suportar tantos males juntos. (p.35)

Veio à festa de Nossa Senhora da Glória em agosto. Até então, desde abril, havia durado o tormento, conquanto maior nos últimos três meses. Logo tratei de me confessar. Sempre fui amiga de o fazer frequentemente. Pensaram que o pedia por medo de morrer, e, para não me alarmar, meu pai não consentiu. O amor carnal e demasiado, ainda de pai tão católico e esclarecido, pois era o bastante, e não agiu por ignorância. Poderia fazer-me grande mal! Naquela mesma noite fui acometida de uma crise tão forte, que fiquei sem sentidos aproximadamente quatro dias. Neste estado deram-me o sacramento da unção dos enfermos. Pensavam que eu poderia morrer de uma hora para outra. Não faziam senão repetir o Credo, como se eu entendesse alguma coisa. Por vezes me julgavam já morta. Até cera achei depois nos olhos. (p.36)

Grande foi o pesar de meu pai, por não me ter permitido a confissão. Não se cansava de orar e clamar a Deus. Bendito seja aquele que se dignou ouvi-lo! Havia um dia e meio estava aberta a sepultura do meu mosteiro à espera do corpo. Já tinham sido feitas exéquias num convento de nossos frades fora da cidade, quando o Senhor permitiu que eu recuperasse os sentidos. Quis logo confessar-me. Comunguei com muitas lágrimas. A meu parecer não eram lágrimas de contrição de ter ofendido a Deus. Isto bastaria para me salvar. Não me serve de desculpa o engano, em que me fizeram cair alguns confessores, afirmando-me não haver pecado mortal onde certamente havia. (p.36)

As dores que me ficaram eram intoleráveis, de modo que não estava inteiramente em meus sentidos. Contudo, fiz a confissão inteira de tudo em que tinha consciência de ter ofendido a Deus. Esta graça me fez Sua Majestade entre outras: depois que comecei a comungar, jamais deixei de confessar coisa alguma em que julgasse haver pecado, mesmo venial. (p.36)

Chegada a este ponto minha vida, vendo como, de certo modo, o Senhor me ressuscitara, na verdade sinto tão grande espanto que chego a tremer. Parece-me que foi bom para ti, ó minha alma, ponderar de que perigo te livrara o Senhor. Já que por amor não deixavas de ofendê-lo, ao menos por temor dos castigos deixaste de ofendê-lo. (p.37)

Passados os quatro dias em que parecia morta, fiquei em tal estado, que só o Senhor sabe os indizíveis tormentos que sentia. A língua estaca dilacerada, de tão mordida. Nada tomei naqueles dias; sentia-me muito fraca, quase sem respirar, a garganta seca a ponto de nem poder engolia água. Parecia-me estar desconjuntada, com a cabeça atordoada ao extremo. Após alguns dias de espasmo fiquei encolhida, como que enovelada. Parecia morta, incapaz de mover braços, pés, mãos e cabeça, se outros não me moviam. Ao que me lembro só movia um dedo da mão direita. Não sabiam como tocar em mim. Sentia tantas dores, que não podia suportar. Serviam-se de um lençol, que das pessoas seguravam, cada uma de seu lado, para me mudarem de posição. (p.38)

Durou até Páscoa florida. Sentia-me aliviada somente quando não se aproximavam de mim. As dores então muitas vezes cessavam. Só com esse pequeno alivio já tinha a impressão de estar melhor. Receava que me viesse a faltar a paciência. Tive grande contentamento quando me senti sem tão agudas e contínuas dores. Eram insuportáveis quando me vinham os calafrios intensos das violentas febres intermitentes que fiquei padecendo. Todo alimento me causava repugnância. (p.38-39)

Minha pressa de voltar ao meu mosteiro era tão grande, que mesmo nesse estado fui transportada para lá. A que esperavam morta, receberam viva, mas o corpo em condições piores que da morte. Fazia pena vê-lo. Era impossível descrever minha extrema fraqueza. Só tinha ossos. Assim fiquei mais de oito meses. Embora tivesse melhoras, fiquei paralitica por quase três anos. Louvei a Deus quando comecei a andar…(p.39)

Estava muito conformada com a vontade de Deus, ainda mesmo que me deixasse sempre naquele estado. Se desejava sarar, era unicamente para ter solidão, como antes, e fazer oração. Na enfermaria não era possível. Confessava-me frequentemente e falava sempre de Deus, de modo que todas se edificavam, admirando-se da paciência que o Senhor me dava. Somente pelas mãos de Sua Majestade seria possível sofrer tanto mal com tanta alegria. (p.39)

Via a grande graça que o Senhor me fazia em me dar juntamente tão grande arrependimento. Procurava logo confessar-me e de minha parte fazia tudo para recuperar a graça. Todo o mal vinha de não cortar pela raiz as ocasiões e de ter confessores que pouco me ajudavam. Se estes me dissessem que eu andava em perigo e era obrigada a não manter mais aquelas relações mundanas, sem dúvida tudo se remediaria. De modo algum seria capaz de passar um só dia em pecado mortal, se disto tivesse consciência. Todos estes sinais de temor de Deus vieram-me com a oração. Melhor que tudo, o temor dói envolvido pelo amor, sem lembrança de castigo. Durante o tempo que passei tão mal de saúde, tive a consciência muito alertada de pecados mortais. (p.40)

No estado em que me tinham posto os médicos da terra, vendo-me tão tolhida em tão pouca idade, resolvi recorrer aos médicos do céu. Embora sofresse as doenças com muita alegria, desejava curar-me. Imaginava que tendo saúde serviria muito mais a Deus. Por vezes também refletia que, se ficasse curada, mas fosse me condenar, melhor seria continuar como estava. É um dos nossos erros: não nos submetemos inteiramente ao que o Senhor faz. Ele sabe melhor do que nós o que nos convém. (p.41)

Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José, e muito me encomendei a ele. Claramente vi que desta necessidade, como de outras maiores referentes à honra e à perda da alma, esse pai e senhor meu salvou-me com maior lucro do que eu lhe sabia pedir. Não me recordo de lhe haver, até agora, suplicado graça que tenha deixado de obter. (p.41)

E São José mostrou quem era. Fez que me levantasse, andasse e não estivesse mais paralítica. (p.42)

Quase nunca estou – penso não exagerar – sem muitas dores, e algumas vezes bem graves, especialmente no coração. Este mal antigamente contínuo, agora é muito pouco espaçado. Da paralisia aguda e das febres que tinha com freqüência, estou boa a oito anos. Tão pouco se me dá de todos estes males que muitas vezes chego a alegrar-me, parecendo-me que com isso sirvo ao Senhor de algum modo. Meu pai acreditou nas minhas palavras, porque ele era incapaz de faltar à verdade. Eu, de acordo com o que lhe falava, também não o queria enganar. Para o convencer mais, acrescentei que já fazia muito em rezar o ofício no coro. (p.50)

Morte do pai

Neste tempo meu pai foi acometido pela enfermidade de que morreu, e que durou algum tempo. Fui tratar dele, estando mais enferma na alma que ele no corpo, e metida em muitas frivolidades. (p.51)

Tive muitos sofrimentos na enfermidade de meu pai. Creio que lhe paguei alguma coisa do que ele tinha passado nas minhas. Apesar de me sentir muito mal, esforçava-me para servi-lo. (p.51)

Parecia-me, entretanto, que me arrancavam a alma ao ver que sua vida se acabava pouco a pouco, porque o amava muito. (p.51)

É para louvar a Deus a morte que teve, e como desejava morrer. Aconselhou-nos depois de receber a extrema unção, confiou-nos o cuidado de encomendá-lo a Deus e de pedir misericórdia para ele. Recomendou-nos servir sempre ao Senhor, tendo presente que nesta vida tudo se acaba. Dizia-nos com lágrimas o grande pesar que sentia de não ter servido como devera. Quisera ser – ter sido- frade e da mais estreita observância. (p.52)

Passou três dias sem sentidos. No dia em que morreu, o Senhor lhe restituiu o conhecimento, de modo tão perfeito, que nos deixou admirados. Assim ficou até que no meio do Credo expirou, dizendo-o ele mesmo. Ficou parecendo um anjo, e bem convencida estou de que o fosse realmente, pois sua alma era tão boa e tais as suas disposições. (p.52)

Os confessores

Seu confessor, um dominicano muito douto, dizia não duvidar de que tivesse ido direto para o céu. Confessando-o havia alguns anos, louvava sua pureza de consciência. Esse dominicano, padre virtuoso e temente a Deus, muito me auxiliou. Confessei-me com ele e tomou para si a tarefa de zelar por minha alma e abrir-me os olhos acerca da perdição que eu vivia. Pouco a pouco, tratando com ele, falei-lhe da minha oração. Disse-me que não a deixasse, pois dela só poderia tirar proveito. Voltei a fazê-la, ainda que sem evitar as ocasiões perigosas e nunca mais a abandonei. (p.52-53)

Depois que comecei a ter oração, quase nunca me cansava de falar ou ouvir falar de Deus. (p.62)

Em especial achava-me à vontade na oração do Horto, onde lhe fazia companhia. Pensava naquele suor e na aflição, que o Senhor havia experimentado. Desejaria, se fosse possível, enxugar aquele suor tão penoso…Durante longos anos, quase todas as noites antes de adormecer, quando me encomendava a Deus para bem dormir, tinha o costume de pensar um pouco neste passo da oração do Horto, mesmo antes de ser monja.(p.65)

Meu confessor, um padre muito santo da Companhia de Jesus, como disse, respondia o mesmo, segundo soube mais tarde. Era muito discreto e extremamente humilde, mas sua grande humildade causou-me bastante sofrimento. Apesar de ser douto e de ter muita oração, não confiava em si. Aliás, o Senhor não o conduzia pelo mesmo caminho. Sofreu muito por minha causa. Diziam-lhe – como vim a saber – que se precavesse a meu respeito, que não se deixasse enganar pelo demônio, fazendo-lhe crer alguma coisa do que ouvia de mim. Apontavam-lhe exemplos de outras pessoas. Tudo isso me fazia sofrer. Cheguei a temer que não houvesse com quem me confessar e que todos fugiriam de mim. Não fazia senão chorar. Foi providencia divina ter ele querido continuar a atender-me. Era virtuoso este servo de Deus, e a tudo se exporia por seu amor. Dizia-me que não ofendesse eu a Deus, não me afastasse de sua direção e não tivesse receio. Por sua vez ele não me faltaria. (p.228)

Por minha causa, em meio a tantas dificuldades, padeceu bastante nos três anos e tanto em que foi meu confessor. Nas grandes perseguições que moveram contra mim e, por permissão do Senhor, em muitas circunstancias, julgaram mal a meu respeito sem ter havido causa para isto. Procuravam-no e lançavam-lhe a culpa de tudo, conquanto estivesse totalmente inocente. Seria impossível poder sofrer tanto se não possuísse tanta santidade e o Senhor não o animasse. (p.228)

Visão Espiritual com Santa Clara

“Quando ia comungar no dia de santa Clara, apareceu-me esta Santa com muita formosura. Disse-me que tivesse coragem e prosseguisse no meu empreendimento, pois não deixaria de ajudar. Adquiri por ela extrema devoção. Em prova do cumprimento de sua promessa, um mosteiro de sua ordem, situado perto do nosso, nos tem ajudado a viver. Ainda mais: pouco a pouco a bem- aventurada Santa elevou os meus anseios a tanta perfeição, que a pobreza por ela instituída em seus mosteiros se observa também neste, e vivemos de esmolas. Não temos rendimentos, e jamais se poderá fazer de outro modo. O Senhor fez ainda mais, talvez, pelos rogos da bendita Santa. Sem que peçamos, provê-nos do necessário com muita fartura. Seja bendito por tudo. Amém.” (p.278)

Visão Espiritual com Nossa Senhora

“Por esses mesmos dias eu me encontrava na capela de um mosteiro da ordem do glorioso São Domingos, na festa da Assunção de Nossa Senhora. Considerava os inúmeros pecados, que em tempos idos havia confessado naquela igreja, e várias coisas de minha vida ruim. Sobreveio-me um arroubamento tão grande, que quase perdi de todo os sentidos. Sentei-me e penso que nem vi a elevação nem ouvi a missa, o que me deixou algum escrúpulo. Em tal estado pareceu-me que recobriam de uma veste de brancura e esplendor. A principio não enxergava quem vestia. Depois vi Nossa Senhora a meu lado direito e meu pai São José ao esquerdo, que me adornavam com aquelas vestes. Tive a intuição de que me faziam compreender que estava limpa de meus pecados.” (p.279)

“Depois de assim vestida, sentindo imensa felicidade e glória, logo me pareceu que a Senhora me tomava as mãos nas suas. Disse-me que eu lhe causava muito contentamento com a minha devoção ao glorioso São José. Estivesse certa de que o mosteiro se faria conforme os meus desejos. Nele o Senhora, ela e são José seriam bem servidos. Não receasse relaxação neste ponto. Embora se fundasse sob uma jurisdição, que não era do meu gosto, ela e seu esposo nos guardariam. Seu Filho já nos havia prometido andar conosco.” (p.279)

“Como sinal da verdade de suas promessas deu-me uma jóia. Pareceu-me então que me punha ao pescoço um colar formosíssimo, do qual pendia uma cruz de alto valor. Esse ouro e essas pedras preciosas eram tão diferentes dos que existem no mundo, que não há comparação. Sua formosura é muito superior ao que na terra podemos imaginar. O intelecto seria incapaz de perceber de que matéria era a veste, nem a imaginação pode produzir a alvura que apraz o Senhor representar-nos. Todas as coisas deste mundo se nos afiguram, por assim dizer, mero esboço de carvão.” (p.279)

“A formosura que vi em Nossa Senhora, era grandíssima. Não pude observar nenhum de seus traços em particular, senão em conjunto a beleza do rosto. Estava vestida de branco, cercada de imenso esplendor, mas suave, que não deslumbrava. Não vi tão claramente o glorioso São José, mas percebi que estava ali, como nas visões de que falei, nas quais não se vêem imagens. Nossa Senhora parecia muito jovem. Estiveram comigo algum tempo, e eu sentia regozijo e glória, como jamais talvez tenha sentido, e os quais não quisera ver findar. Em seguida, pareceu-me vê-los subir ao céu, rodeados de inúmeros de inumeráveis anjos. Fiquei com muita saudade, mas tão consolada, enlevada, absorta em oração e enternecida, que tive algum tempo quase fora de mim, sem conseguir falar nem fazer movimento.” (p.279-280)

Visão Espiritual com sua irmã

“Durante a oração me foi revelado que minha irmã morreria da mesma forma e que eu procurasse convencê-la de estar sempre preparada. Minha irmã vivia numa aldeia. Cheguei sem nada dizer do que me levava a sua casa. Conforme podia, fui, pouco a pouco, esclarecendo-a em todas as coisas. Induzi-a a se confessar frequentemente e que em tudo fosse cuidadosa com sua alma. Como era muito boa, assim fez. No fim de quatro ou cinco anos, continuando sempre neste costume e tendo a consciência muito bem disposta, morreu sem que ninguém a visse, e sem se poder confessar.” (p. 290)

“O que lhe valeu foi que não havia mais de oito dias que se confessara, segundo costumava. Esta circunstancia consolou-me, quando recebi a noticia de sua morte. Esteve muito pouco tempo no purgatório. Menos de oito dias depois, tendo eu acabado de comungar, o Senhor me apareceu e quis que eu visse como a levava à glória.” (p. 290)

Conversão de pecador

Veio ter comigo uma pessoa que havia dois anos e meio vivia num pecado mortal dos mais abomináveis que já ouvi. Durante todo esse tempo não o confessava, nem se emendava, e dizia missa. Na confissão, acusava-se de seus outros pecados. Quanto a este, alegava que não podia confessar algo tão feio. Tinha grande desejo de sair desse estado, contudo, não se podia vencer. Causou-me grande lástima e senti muita pena ao saber que se ofendia a Deus de tal maneira. Prometi rogar ao Senhor por sua conversão, e pedi a outras pessoas, melhores do que eu, que fizessem o mesmo. Escrevi a este sacerdote por um mensageiro ao qual ele me dissera que podia entregar as cartas. O fato é que, logo à primeira carta, ele se confessou. Assim quis Deus usar de misericórdia com essa alma, em atenção às preces de numerosas pessoas muito santas às quais a encomendei. Eu, ainda que miserável, fazia o que estava em minhas mãos. Escreveu-me que tinha melhorado bastante. Havia alguns dias abstinha-se do pecado, mas era tão grande o tormento das tentações, que lhe parecia estar no inferno, pelo muito que sofria. Pedia-me que intercedesse por ele junto a Deus. Tornei a encomendá-lo às minhas irmãs, que levaram muito a sério, e por suas orações obtiveram a graça. Era uma pessoa da qual ninguém podia suspeitar. Implorei a Sua Majestade, que pusesse fim àqueles tormentos e tentações, e que os demônios voltassem contra mim seus assaltos, contanto que eu não ofendesse a Deus. O resultado foi que passei um mês em grandes tribulações. (p.251-252)

Foi o Senhor servido de que ficasse em paz aquela alma. Assim me escreveram, tendo-lhe eu dado conta do que sofrera naquele mês. Cobrou forças espirituais, ficando inteiramente livre. Não se cansava de dar graças ao Senhor e a mim, como se eu houvesse feito alguma coisa. O crédito que já tinha, de que o Senhor me fazia favores, infundira-lhe confiança. Quando se via muito apertado, contou que lia minhas cartas e ficava livre da tentação. Ficou espantado de ver o que eu havia padecido enquanto ele ficava livre. Não foi menor o meu espanto, e sofreria muitos anos para salvar aquela alma. Seja por tudo louvado! (p.252)

Luta Espiritual

Na verdade pode muito a oração dos que o servem, como são, a meu ver, as irmãs desta casa. Os demônios se indignaram ainda mais contra mim,vendo que eu as estimulava. O Senhor, também, por meus pecados, o permitia. Uma noite, pensei que me iam estrangular. Lançamos muita água benta, e vi grande multidão deles fugindo como quem se vai despenhando. São inúmeras as vezes que esses malditos me atormentam, porém, não tenho medo algum, sabendo que nem se podem mover se o Senhor não lhes dá licença. Cansaria a Vossa Mercê e a mim se fosse mencionar todos os detalhes. Seja isto útil para o verdadeiro servo de Deus, que assim desprezará esses espantalhos inventados pelos demônios para nos causar temor. É bom notar que perdem as forças quando são desprezados e a alma se torna muito mais poderosa. Sempre resulta algum proveito considerável, que não comento para não me estender.

Só narrarei o seguinte fato, sucedido numa noite de Finados. Encontrava-me num oratório rezando um noturno. Dizia umas orações muito devotas que temos no fim de nosso breviário, quando, de repente, o demônio se põe sobre o livro para me impedir de acabar a oração. Fiz o sinal da cruz e desapareceu. Recomecei e logo voltou. O mesmo aconteceu por três vezes, se não me engano. Enquanto não joguei água benta, não pude terminar. Mal acabei, vi que saíram do purgatório algumas almas. Certamente faltava pouco para completarem sua expiação. Pensei que o propósito do demônio seria provavelmente retardar a libertação delas. (p.252-253)

Fundação do Mosteiro

Aconteceu uma vez, estar na companhia de várias pessoas. Uma delas perguntou a mim e às outras, porque não seríamos monjas à maneira das descalças? Acrescentou que seria bem possível fundar um mosteiro. (p.267)

Um dia, depois da comunhão, Sua majestade me mandou expressamente que trabalhasse nessa empresa com todas as minhas forças. Fez grandes promessas que não se deixaria fundar o mosteiro, no qual ele seria muito bem servido. Disse-me que devia ser dedicado a São José. Este glorioso Santo nos guardaria a uma porta, Nossa Senhora à outra, e Cristo andaria conosco. A nova casa se tornaria uma estrela da qual se irradiaria grande esplendor. Embora as ordens religiosas estivessem relaxadas, eu não devia crer que nelas ele fosse pouco servido. Disse-me ainda que refletisse no que seria no mundo se não houvesse religiosos. Ordenou-me, enfim, referir tudo isso ao meu confessor e suplicar-lhe que não fizesse oposição à projetada obra, nem estorvasse a sua realização. (p.268)

Mal se começou a saber do projeto do lugar, veio sobre nós tamanha perseguição, que levaria muito tempo para contar. Choveram os ditos e as risadas. Tinham tudo em conta de disparate. A mim diziam que estava bem no meu mosteiro. À minha companheira perseguiram tanto, que a traziam atribulada. Eu não sabia o que fazer. Chegava a pensar que em parte tinham razão. Estando assim muito aflita, encomendando-me a Deus, Sua Majestade, começou a consolar-me e animar-me. Disse-me que por aqui veria o que tinham passado os santos fundadores das ordens religiosas. Restavam-me a passar muito maiores perseguições do que eu podia imaginar. Não tivesse medo…O fato é que, entre as almas de oração e mesmo em toda a cidade, não havia uma pessoa que então não fosse contra nós e não tivesse tudo por imenso disparate. Foram tantos os comentários e tal o alvoroço, mesmo no meu mosteiro, que pareceu impossível ao provincial ter de enfrentar a todos. Mudando de opinião, recusou admitir a futura casa. Alegou que a renda era insuficiente, além de pouco segura, e que eram muitos os que nos contradiziam. Em tudo devia ter razão. O certo é que voltou atrás e retirou a licença. Nós duas sentimos a impressão de serem estes os primeiros golpes. (p.269)

Em toda a cidade não tínhamos quem nos fosse favorável, e por isso diziam que nos guiávamos só por nossas cabeças. (p.270)

Jamais pude deixar de crer que se havia de fazer a fundação.Não via meio, nem sabia como, nem quando, contudo, tinha tudo por certo. O que me fez sofrer muito foi quando certa vez, meu confessor, como se eu tivesse dado algum passo contra sua vontade, escreveu-me ordenando que me convencesse de que tudo não passava de um sonho e não falasse mais em fundação, pois bem via o escândalo que resultara. (p.273)

Conforme ordenara o meu confessor eu devia calar-me por enquanto, até vir a ser oportuno tornar a cuidar da projetada obra. Fiquei tão consolada e contente, que me parecia reduzir-se a toda a perseguição desencadeada contra mim. Aqui o Senhor me ensinou o imenso bem que é padecer por ele sofrimentos e perseguições. Vi em minha alma um tal aumento de amor de Deus e muitas outras coisas, que ficava admirada. Daí vem que não posso deixar de desejar tribulações. (p.274)

Meu confessor tornou-me a dar-me licença para me dedicar à obra com todas as forças. Bem via eu em que tribulações me metia, por estar só e ter pouquíssimos recursos. Ficou então combinado que se faria tudo com o maior segredo. (p.277)

É que, em suma, o convento se havia de manter: o Senhor queria a sua fundação, e pouco podiam todos contra a sua Divina vontade. (p.305)

Logo que se principiou a rezar o ofício, o povo começou a ter muita devoção para com este mosteiro. Recebemos noviças, e o Senhor se pôs a mover, os que mais nos tinham perseguido, para muito nos favorecerem e nos assistirem com esmolas. Já aprovaram o que tanto haviam reprovado. Pouco a pouco desistiram do pleito, declarando-se convencidos de ser esta casa obra de Deus, pois, Sua Majestade tinha querido que fosse adiante apesar de tanta oposição. (p.309)

Atualmente não acho outra razão para viver senão o padecer, e é o que peço a Deus com maior amor. Digo-lhe algumas com todo o ardor da vontade: Senhor, ou morrer ou padecer. Não vos peço outra coisa para mim. Dá-me consolo ouvir o relógio bater, porque me parece estar um pouquinho mais perto de ver a Deus, tendo passado aquela hora de minha vida. (p.355)

Bibliografia: 1.Livro da Vida. 2.Castelo Interior ou Moradas. 3.Caminho da Perfeição. Editora Paulus.

Sabedoria

Fazer sempre o Bem

“Não se deve fazer o menor mal, ainda que seja para conseguir um bem maior que seja” (p.34).

Nunca murmurar

“Não falava mal de pessoa alguma, por pouco que fosse. Em geral evitava toda murmuração, porque trazia diante dos olhos não dever dizer de outrem o que não queria que dissessem de mim” (p.39).

Decidir pela cruz de Jesus

“A vida que eu levava era penosa ao extremo, porque na oração percebia melhor as minhas faltas. Por um lado Deus me chamava, por outro, eu seguia o mundo. Apesar de experimentar grande felicidade nas coisas divinas, sentia-me presa às humanas. Procurava conciliar esses dois contrários tão inimigos um do outro: vida espiritual com seus gostos e suavidades e os passatempos dos sentidos. ” (p.53).

“Quando sofro perseguições, o espírito se torna forte, embora o corpo ressinta, e eu também me aflija”. (p. 254)

“Procuras unir-te a Deus. Pretendes seguir os conselhos de Cristo carregado de injurias e falsos testemunhos, e desejas guardar intactos o crédito e a honra? Não é possível chegar lá. Os caminhos são opostos. O Senhor só se aproxima da alma, quando nos esforçamos e procuramos renunciar ao nosso direito em muitas coisas”. (p.258)

Fugir das más companhias

“Para cair havia muitos que me ajudavam, mas para levantar achava-se tão sozinha que hoje me admiro de não ter caído para sempre. Louvo a misericórdia de Deus. Só ele me dava a mão. Seja bendito para sempre, para sempre. Amém.” (p.56)

“Os mundanos não temem andar entre leões, que ameaçam tirar-lhes um pedaço. É isto que o mundo chama suas delícias e satisfações. Entretanto, no serviço do Senhor, dir-se-ia que o demônio mete medo até de insetozinhos inofensivos. Mil vezes me espanto, e dez mil vezes quisera abundantemente chorar e clamar a todos, publicando minha grande cegueira e maldade, para ajudá-los de algum modo a abrir os olhos. Aquele, que tudo pode, lhes abra por sua bondade e não permitia que me torne a cegar. Amém.”

Reconhecer que toda Bondade vem de Deus

Se pois, disser alguma coisa boa, será que o Senhor assim quis para algum bem. O que houver de mau será meu. (p.75)

Oração

“Deus é poderoso: tudo pode, tudo ordena, tudo governa e tudo enche com seu amor”.(p.226)

“Depois que comecei a ter oração, quase nunca me cansava de falar ou ouvir falar de Deus.” (p.62)

“Para mim, tornou-se uma penosa cruz tratar com alguém que não ama a Deus nem se entrega á oração. É pura verdade, segundo me parece, e sem exceção”. (p. 195)

Humildade

“O que tenho entendido é que todo o alicerce da oração está na humildade e quanto mais a alma se humilha, mais Deus a engrandece” (p.176)

“Se Sua Majestade quiser elevar-nos à categoria de seus camareiros e confidentes dos seus segredos, vamos de boa vontade, senão, sirvamos em ofícios baixos e não tomemos assento no melhor lugar. Deus cuida de tudo, melhor do que nós e sabe o que é bom para cada um”. (p.176)

Amar de verdade Jesus

“Por sinais inequívocos a alma sente quando ama de verdade ao Senhor. Chegado a este grau, o amor não anda dissimulado como no princípio, senão com grandes ímpetos e desejos de ver a Deus, como já disse, ou direi depois: tudo cansa, tudo enfastia, tudo atormenta. Se não é com Deus ou por Deus, não há descanso que não lhe seja cansaço, porque a alma se vê privada de seu verdadeiro repouso.” (p.207)

A Glória dos justos

“Quem mais tiver feito, maior glória terá. Quão rico se achará o que deixou por Cristo todas as riquezas? Quão sábio o que se alegrou de ser tido por louco, pois assim chamaram à mesma Sabedoria.”…Sim, sim, parece que se acabaram os que o mundo tinha por loucos, vendo neles obras heróicas de verdadeiros amantes de Cristo!” (p.217)

“Todavia, depois que o Senhor me fez compreender quão grande é a diferença que há no céu entre as alegrias de uns e as alegrias de outros, vejo que, também neste mundo, não se põe limites em seus dons, quando lhe apraz. Quisera eu, de minha parte, não ter medida em servir a Sua Majestade e gastar por ele toda a minha vida, minhas forças e minha saúde, de modo a não perder por minha culpa um pouquinho de maior felicidade. E assim digo: se me dessem a escolher entre padecer todos os tormentos imagináveis até o fim do mundo e depois subir um grauzinho na glória, ou sem sofrimento algum ir alegrar-me numa gloria um pouco menor, de muito boa vontade tomaria todos os tormentos a troco de fruir um pouquinho mais da compreensão das grandezas de Deus. Vejo que mais o ama e louva quem mais o entende.” (p.316)

“Realmente em poucos meses alguém pode ter alcançado mais que outro em vinte anos. Como disse, o Senhor dá suas graças a quem quer e também a quem melhor se dispõe”. (p.339)

O mundo

“O mundo esta de tal forma perdido, que já não se usam mais as práticas de perfeição. Os grandes favores dos santos estão esquecidos”. (p.217)

Luta Espiritual

“De muitos fatos cobrei experiência de que não há coisa do que mais fujam os demônios do que água benta”. (p.250)

“Se os demônios nos amedrontam é porque nós mesmo queremos apavorar-nos, com apegos às honras, bens e deleites. Juntam-se a nós, porque também somos contrários a nós mesmos. Causam-nos muito dano, porque amamos e queremos o que deveríamos detestar. Neste caso somos nós que lhes pomos nas mãos as armas com que nos havíamos de defender. Na luta, elas se voltam contra nós. Esta é a grande lástima.” (p. 205)

“Se, pelo contrário, tudo desprezamos por Deus, se nos abraçamos com a cruz e se tratamos de o servir verdadeiramente, o demônio foge destas verdades como quem foge da peste.” (p. 206)

Misericórdia de Jesus

“O Senhor concede seus dons como e quando quer, sem que dependam da antiguidade ou dos serviços prestados”. (p.286)

Creia sempre que Jesus realiza milagres

“Não se espante com coisa alguma e nada considere impossível. Tudo é possível ao Senhor. Procure revigorar a fé e humilhar-se, vendo que nesta ciência o Senhor poderá fazer uma velhinha mais sábia do que um homem instruído, com toda sua doutrina”. (p.287)

Sacerdócio

“Deus não deixa de estar na Eucaristia, embora seja mau o sacerdote que pronuncia as palavras de consagração”. (p.331)

“Tive compreensão nítida de como os sacerdotes tem mais obrigação de serem bons do que os outros. Vi que coisa atroz é receber este Santíssimo Sacramento indignamente e a que ponto o demônio é senhora da alma em pecado mortal”. (p.331)

Conselho para uma Vida de Pobreza

“Ao que me parece, o desejo das honras anda sempre acompanhado de algum interesse de ter rendas e fortuna. No mundo raramente se honra a quem é pobre. Pelo contrário, ainda que mereça ser honrado, é tido em pouco.” (p.24)
“E como vos alegrareis se virdes alguém escapar do inferno pela esmola que vos tiver dado! É bem possível, pois estais muito obrigadas a rezar continuamente por aqueles que vos dão de comer. Embora tudo nos venha das mãos de Deus, o próprio Senhor quer que sejamos agradecidas às pessoas por cujo meio ele nos socorre. Nisto não haja descuido.” (p.28)

“Aqui entra a verdadeira humildade. Esta virtude, a meu ver, anda sempre junto com o desapego. São duas irmãs inseparáveis.” (p.66)

“Verdadeiramente é sinal de grande humildade deixar-se condenar injustamente e não se defender, pois é imitação perfeita do Senhor que assumiu todos os nossos pecados. Peço-vos encarecidamente que tenhais neste ponto o máximo cuidado porque é fonte de imensos benefícios. Não há absolutamente nenhuma vantagem em se defender, a não ser em certas circunstancias em que o silencio causaria desgosto ou escândalo.” (p.85)

“O verdadeiro humilde há de desejar sinceramente ser tido em pouco, ver-se perseguido e condenado sem culpa, mesmo em coisas graves. Se quer imitar ao Senhor, que melhor ocasião que esta? Aqui não há necessidade de forças físicas, nem de ajuda de alguém, a não ser de Deus”. (p.86)

Conselho para uma Vida de Oração

“Habituar-se à solidão é grande coisa para a oração e, sendo esta o fundamento desta casa, é necessário por todos os meios afeiçoarmo-nos ao que mais a favorece”. (p.39)

“Estás claro. Deus leva por caminho penoso os que ama. Quanto mais lhes quer, menos os poupa. Não há razão para acreditar que despreze os contemplativos. Com sua própria boca os louva e os considera seus amigos. Ora, crer que Deus admita à sua íntima amizade gente comodista e sem sofrimentos é disparate. Tenho por certíssimo: Deus dá muito maiores cruzes aos contemplativos que aos demais”. (p.101)

“Durante toda a minha vida, afeiçoei-me às palavras do Evangelho. Elas me recolhem mais do que os melhores livros, nem tenho vontade de os ler, especialmente quando os autores não são muito aprovados”. (p.126)

Conselho no trato com as famílias

“Crede-me, o que mais nos apega ao mundo é o afeto aos parentes, e é também o de que mais dificilmente nos desapegamos”. (p.64)

É preciso amar a Jesus

“Somos mais amigos de prazeres que de cruzes. Por isso os fracos não trocariam suas consolações pelos valores dos que se vêem a volta com securas. Prova-nos Senhor, que sabes as verdades, a fim de que nos conheçamos”. (p.59)

“É que o Senhor faz seus benefícios quando quer, como quer e a quem quer”. (p.72)

“O Senhor não dá mais do que se pode sofrer. Dá primeiro a paciência – depois a dor”. (p.137)

“A grandeza de Deus não tem limites. Tampouco têm suas obras. Quem poderá avaliar suas misericórdias e maravilhas?” (p.227)

“Vendo que realizais as obras a vosso alcance, Sua Majestade entenderá que faríeis muito mais se pudésseis. Assim vos dará o prêmio como se lhe tivésseis ganho muitas almas”. (p.259)

“O Senhor não olha tanto a magnificência das obras. Olha mais o amor com que são feitas. Se realizarmos o que está a nosso alcance, o que depender de nós, Sua Majestade fará com que o continuemos realizando cada dia mais e melhor”. (p.260)
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Bibliografia: 1.Livro da Vida. 2. Caminho da perfeição. 3. Castelo interior ou moradas. Editora Paulus


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