Biografia dos Santos

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Biografia de São João Crisóstomo


CARTA DO PAPA BENTO XVI
POR OCASIÃO DO XVI CENTENÁRIO DA MORTE
DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO

Venerados Irmãos
no episcopado e no sacerdócio
Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo!

1. Introdução

Celebra-se este ano o XVI centenário da morte de São João Crisóstomo, grande Padre da Igreja para o qual olham com veneração os cristãos de todos os tempos. Na Igreja antiga João Crisóstomo distingue-se por ter promovido aquele “frutuoso encontro entre a mensagem cristã e a cultura helénica” que “teve um impacto duradouro nas Igrejas do Oriente e do Ocidente” [1]. Quer a vida quer o magistério doutrinal do Santo Bispo e Doutor ressoam em todos os séculos e ainda hoje suscitam a admiração universal. Os Pontífices Romanos reconheceram sempre nele uma fonte viva de sabedoria para a Igreja e a sua atenção pelo seu magistério aumentou ainda mais durante o último século. Há cem anos São Pio X comemorou o XV centenário da morte de São João convidando a Igreja a imitar as suas virtudes [2]. O Papa Pio XII ressaltou o grande valor da contribuição que São João ofereceu para a história da interpretação das Sagradas Escrituras com a teoria da “condescendência”, ou seja, da “synkatábasis”. Através dela Crisóstomo reconheceu que “as palavras de Deus, expressas através dos homens, se tornaram semelhantes à linguagem humana” [3]. O Concílio Vaticano II incorporou esta observação na Constituição dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina [4]. O Beato João XXIII ressaltou a compreensão profunda que Crisóstomo tinha do vínculo íntimo entre a liturgia eucarística e a solicitude pela Igreja universal [5]. O Servo de Deus Paulo VI frisou o modo como ele “tratou, com tanta nobreza de linguagem e sagacidade de piedade, o Mistério Eucarístico” [6]. Desejo recordar o gesto solene com o qual o meu amadíssimo Predecessor, o Servo de Deus João Paulo II, em Novembro de 2004 entregou importantes relíquias dos Santos João Crisóstomo e Gregório Nazianzeno ao Patriarcado ecuménico de Constantinopla. O Pontífice ressaltou como aquele gesto era verdadeiramente para a Igreja Católica e para as Igrejas Ortodoxas “uma ocasião abençoada para purificar as nossas memórias feridas, para fortalecer o nosso caminho de reconciliação [7]. Eu mesmo, durante a viagem apostólica à Turquia, precisamente na Catedral do Patriarcado de Constantinopla, tive a oportunidade de recordar “os insignes santos e pastores que vigiaram sobre a Sé de Constantinopla, entre os quais São Gregório de Nazianzo e São João Crisóstomo, que também o Ocidente venera como Doutores da Igreja… Na realidade, eles são dignos intercessores por nós diante do Senhor” [8]. Portanto sinto-me feliz porque a circunstância do XVI centenário da morte de São João me oferece a oportunidade de reevocar a sua luminosa figura e propô-la à Igreja universal para a comum edificação.

2. A vida e o ministério de São João

São João Crisóstomo nasceu em Antioquia da Síria nos meados do século IV. Foi instruído nas artes liberais segundo a prática tradicional do seu tempo e revelou-se particularmente dotado na arte do discurso público. Durante os seus estudos, quando ainda era jovem, pediu o baptismo e aceitou o convite do seu Bispo, Melésio, para prestar serviço de leitor na Igreja local [9]. Naquele período os fiéis estavam perturbados com a dificuldade de encontrar um modo adequado para expressar a divindade de Cristo. João tinha-se alinhado com aqueles fiéis ortodoxos que, em sintonia com o Concílio ecuménico de Niceia, confessavam a plena divindade de Cristo, mas mesmo procedendo assim, tanto ele como os outros fiéis não encontravam em Antioquia o favor do governo imperial [10]. Depois do seu baptismo João abraçou a vida ascética. Por influência do seu mestre Teodoro de Tarso, decidiu permanecer celibatário por toda a vida e dedicou-se à oração, ao jejum rigoroso e ao estudo da Sagrada Escritura [11]. Afastando-se de Antioquia, por seis anos conduziu uma vida ascética no deserto da Síria e começou a escrever tratados sobre a vida espiritual [12]. Em seguida, regressou a Antioquia onde, mais uma vez, serviu a Igreja como leitor e, mais tarde, durante cinco anos, como diácono. Em 386, chamado ao presbiterado por Flaviano, Bispo de Antioquia, acrescentou também o ministério da pregação da Palavra de Deus ao da oração e da actividade literária [13].

Durante os doze anos de ministério presbiteral na Igreja antioquena, João distinguiu-se muito pela sua capacidade de interpretar as Sagradas Escrituras de modo compreensível aos fiéis. Na sua pregação ele empenhava-se com fervor para reforçar a unidade da Igreja fortalecendo nos seus ouvintes a identidade cristã, num momento histórico no qual estava ameaçada quer do interior quer do exterior. Justamente, ele intuiu que a unidade entre os cristãos dependia sobretudo de uma verdadeira compreensão do mistério central da fé da Igreja, o da Santíssima Trindade e da Encarnação do Verbo Divino. Todavia, consciente das dificuldades destes mistérios, João dedicava grande empenho em fazer com que o ensinamento da Igreja fosse acessível às pessoas simples da sua assembleia, tanto em Antioquia como, mais tarde, em Constantinopla [14]. E não deixava de se dirigir também aos discordantes, preferindo usar com eles a paciência e não a agressividade, porque acreditava que para superar um erro teológico “nada é mais eficaz do que a moderação e a gentileza” [15].

A fé sólida de João e a sua habilidade na pregação deram-lhe a possibilidade de pacificar os Antioquenos quando, no início do seu presbiterado, o Imperador aumentou a pressão fiscal sobre a cidade causando uma revolta durante a qual alguns monumentos públicos foram destruídos. Depois da revolta o povo, receando a cólera do Imperador, tinha-se reunido na igreja, desejosa de ouvir de João palavras de esperança cristã e de conforto: “Se nós não vos confortamos, onde podereis encontrar conforto?”, disse-lhes [16]. Nos seus sermões durante a quaresma daquele ano, João expôs todos os acontecimentos relacionados com a revolta e recordou aos seus ouvintes as atitudes que devem caracterizar o compromisso cívico dos cristãos [17], sobretudo a rejeição de meios violentos na promoção de mudanças políticas e sociais [18]. Nesta perspectiva, exortava os fiéis ricos a praticar a caridade para com os pobres, a fim de construir uma cidade mais justa e, ao mesmo tempo, recomendava que os mais instruídos aceitassem ser mestres e que todos os cristãos se reunissem nas igrejas para aprender a carregar os pesos uns dos outros [19]. Se era necessário, também sabia consolar os seus ouvintes fortalecendo a sua esperança e encorajando-os a ter confiança em Deus, tanto para a salvação temporal como para a eterna [20], dado que “a tribulação produz a paciência, a paciência, a virtude provada e a virtude provada, a esperança” (Rm 5, 3-4) [21].

Depois de ter servido a Igreja antioquena como presbítero e pregador por doze anos, João foi consagrado Bispo de Constantinopla em 398, e ali permaneceu durante cinco anos e meio. Naquela função, ele ocupou-se da reforma do clero, estimulando os presbíteros, quer com as palavras quer com o exemplo, a viver em conformidade com o Evangelho [22]. Apoiou os monges que viviam na cidade e ocupou-se das suas necessidades materiais, mas procurou reformar a sua vida, ressaltando que eles se tinham proposto dedicar-se exclusivamente à oração e a uma vida retirada [23]. Atento a evitar qualquer ostentação de luxo e a adoptar, mesmo sendo Bispo de uma capital do império, um estilo de vida modesto, foi generosíssimo na distribuição das esmolas aos pobres. João dedicava-se à pregação todos os domingos e nas festas principais. Estava muito atento a fazer com que os aplausos, com frequência recebidos pela sua pregação, não o induzissem a perder o interesse pelo Evangelho que pregava. Por isso, por vezes lamentava-se porque com frequência a mesma assembleia que aplaudia as suas homilias ignorava as exortações a viver autenticamente a vida cristã [24]. Denunciou incansavelmente o contraste que existia na cidade entre o desperdício extravagante dos ricos e a indigência dos pobres e, ao mesmo tempo, em sugerir aos ricos que acolhessem os desabrigados nas suas casas [25]. Via Cristo no pobre; por isso, convidava os seus ouvintes a fazer o mesmo e a agir por consequência [26]. Foram tão persistentes a defesa do pobre e a reprovação de quem era muito rico, que suscitou a contrariedade e também a hostilidade contra ele por parte de alguns ricos e de quantos detinham o poder político [27].

Entre os Bispos do seu tempo João foi extraordinário pelo zelo missionário; enviou missionários para difundir o Evangelho entre os que ainda não o conheciam [28]. Construiu hospitais para a cura dos doentes [29]. Pregando em Constantinopla sobre a Carta aos Hebreus, afirmou que a assistência material da Igreja se deve alargar a cada necessitado, sem ter em conta o credo religioso: “o necessitado pertence a Deus, mesmo se é pagão ou judeu. Mesmo se não crê, é digno de ajuda” [30].

O papel de Bispo na capital do Império do Oriente impunha que João mediasse as delicadas relações entre a Igreja e a corte imperial. Ele encontrou-se com frequência a ser objecto de hostilidades da parte de muitos oficiais imperiais, às vezes devido à sua firmeza em criticar o luxo excessivo com que se circundavam. Ao mesmo tempo a sua posição de Arcebispo metropolitano de Constantinopla colocava-o na difícil e delicada situação de ter que negociar uma série de questões eclesiais que envolviam outros Bispos e outras sedes. Como consequência das intrigas arquitectadas contra ele por adversários poderosos, tanto eclesiásticos como imperiais, foi condenado duas vezes pelo imperador ao exílio. Faleceu a 14 de Setembro de há 1600 anos, em Comana do Ponto durante a viagem rumo à meta final do seu segundo exílio, distante do seu amado rebanho de Constantinopla.

3. O magistério de São João

A partir do século V, Crisóstomo foi venerado pela inteira Igreja cristã, oriental e ocidental, pelo seu testemunho corajoso em defesa da fé eclesial e pela sua dedicação generosa ao ministério pastoral. O seu magistério doutrinal e a sua pregação, como também a sua solicitude pela Sagrada Liturgia mereceram-lhe depressa o reconhecimento de Padre e Doutor da Igreja. Também a sua fama de pregador era consagrada, já a partir do século VI, com a atribuição do título “Boca de ouro”, em grego “Crisóstomo”. Dele escreve Santo Agostinho: “Observa, Juliano, em qual assembleia te introduzi. Aqui está Ambrósio de Milão… aqui João de Constantinopla… aqui Basílio… aqui os outros, e o seu admirável consentimento deveria fazer-te reflectir… Eles resplandeceram na Igreja católica pelo estudo da doutrina. Revestidos e protegidos pelas armas espirituais guiaram vigorosas guerras contra os hereges e, depois de terem levado fielmente ao termo as obras que lhes foram confiadas por Deus, dormem no seio da paz… Eis o lugar no qual te introduzi, a assembleia destes santos não é a multidão do povo: eles não são só filhos, mas também Padres da Igreja” [31].

Digno de especial menção é depois o extraordinário esforço realizado por São João Crisóstomo para promover a reconciliação e a plena comunhão entre os cristãos do Oriente e do Ocidente. Em particular, foi decisiva a sua contribuição para pôr fim ao cisma que separava a sede de Antioquia da de Roma e das outras Igrejas ocidentais. Na época da sua consagração como Bispo de Constantinopla João enviou uma delegação ao Papa Sirício, a Roma. Em apoio desta missão, em vista do seu projecto de pôr fim ao cisma, ele obteve a colaboração do Bispo de Alexandria do Egipto. O Papa Sirício respondeu favoravelmente à iniciativa diplomática de João; o cisma foi assim resolvido pacificamente e restabelecida a plena comunhão entre as Igrejas.

Sucessivamente, nos finais da sua vida, tendo regressado a Constantinopla do primeiro exílio, João escreveu ao Papa Inocêncio e também aos Bispos Venério de Milão e Cromácio de Aquileia, para pedir ajuda no esforço de restabelecer a ordem na Igreja de Constantinopla, dividida por causa das injustiças cometidas contra ele. João solicitava do Papa Inocêncio e dos outros Bispos ocidentais uma intervenção que “conceda como ele escreveu benevolência não só a nós, mas a toda a Igreja” [32]. De facto, no pensamento de Crisóstomo, quando uma parte da Igreja sofre por uma ferida, toda a Igreja sofre pela mesma ferida. O Papa Inocêncio defendeu João com algumas cartas dirigidas aos Bispos do Oriente [33]. O Papa afirmava a sua plena comunhão com ele, ignorando a sua deposição que considerava ilegítima [34]. Escreveu depois a João para o confortar [35], e escreveu também ao clero e aos fiéis de Constantinopla para manifestar o pleno apoio ao seu Bispo legítimo: “João, o vosso Bispo, sofreu injustamente”, reconhecia ele [36]. Além disso, o Papa reuniu um Sínodo de Bispos italianos e orientais com a finalidade de obter justiça para o Bispo perseguido [37]. Com o apoio do imperador do Ocidente, o Papa enviou uma delegação de Bispos ocidentais e orientais a Constantinopla, junto do imperador do Oriente, para defender João e pedir que um Sínodo ecuménico de Bispos lhe fizesse justiça [38]. Quando, pouco antes da sua morte no exílio, estes projectos falharam, João escreveu ao Papa Inocêncio para lhe agradecer o “grande conforto” que tinha sentido pelo generoso apoio que lhe fora concedido [39]. Na sua carta João afirmava que, apesar de estar separado pela grande distância do exílio, ele estava “dia após dia em comunhão” com ele, e dizia: “Tu superaste até o pai mais afectuoso na tua benevolência e no teu zelo para connosco”.

Contudo suplicava-lhe que perseverasse no compromisso de procurar justiça para ele e para a Igreja de Constantinopla, porque “agora a batalha que tens diante de ti deve ser combatida em favor de quase todo o mundo, da Igreja humilhada ao máximo, do povo disperso, do clero agredido, dos Bispos mandados para o exílio, das antigas leis violadas”. João escreveu também aos outros Bispos ocidentais para lhes agradecer o seu apoio [40]: entre eles, na Itália, Cromácio de Aquileia [41], Venério de Milão [42] e Gaudêncio de Bréscia [43].

Tanto em Antioquia como em Constantinopla João falou apaixonadamente da unidade da Igreja espalhada pelo mundo. A este propósito escreveu: “Os fiéis, em Roma, consideram os que estão na Índia como membros do seu próprio corpo” [44] e ressaltava que na Igreja não há espaço para as divisões. “A Igreja exclamava existe não para que quantos se reuniram se dividam, mas para que quantos estão divididos se possam unir” [45]. E encontrava nas Sagradas Escrituras a confirmação divina desta unidade. Pregando sobre a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, recordava aos seus ouvintes que “Paulo se refere à Igreja como “Igreja de Deus” [46] mostrando que deve estar unida, porque se é de Deus está unida, e não só em Corinto, mas também no mundo: de facto, o nome da Igreja não é um nome de separação, mas de unidade e concórdia” [47].

Para João a unidade da Igreja está fundada em Cristo, o Verbo Divino que com a sua Encarnação se uniu à Igreja como a cabeça ao seu corpo [48]: “Onde está a cabeça, lá está também o corpo”, e portanto “não há separação entre a cabeça e o corpo” [49]. Ele tinha compreendido que na Encarnação o Verbo Divino não só se fez homem, mas também se uniu a nós fazendo-se seu corpo [50]: “Dado que para ele não era suficiente fazer-se homem, ser açoitado e morto, ele une-se a nós não só pela fé, mas também de facto nos torna seu corpo”. Comentando o trecho da Carta de São Paulo aos Efésios: “Tudo de facto submeteu aos seus pés e constituiu-o sobre todas as coisas cabeça da Igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que se realiza totalmente em todas as coisas” [51], João explica que “é como se a cabeça fosse completada pelo corpo, porque o corpo é composto e formado pelas suas várias partes. Portanto, o seu corpo é composto por todos. A cabeça é completa e o corpo tornado perfeito quando todos nós estamos juntos e unidos” [52]. João conclui então que Cristo une todos os membros da sua Igreja a si e entre eles. A nossa fé em Cristo exige que nos comprometamos por uma efectiva e sacramental união entre os membros da Igreja, pondo fim a todas as divisões.

Para Crisóstomo, a unidade eclesial que se realiza em Cristo é testemunhada de modo totalmente peculiar na Eucaristia. Denominado “doutor eucarístico” pela vastidão e profundidade da sua doutrina sobre o Santíssimo Sacramento” [53], ele ensina que a unidade sacramental da Eucaristia constitui a base da unidade eclesial em e por Cristo. “Certamente há muitas coisas para nos manter unidos. Uma mesa está posta diante de todos… a todos foi oferecida a mesma bebida ou, aliás, não só a mesma bebida mas também o mesmo cálice. O nosso Pai, querendo conduzir-nos a um terno afecto, dispôs também isto, que bebamos de um só cálice, o que se destina a um amor intenso” [54]. Reflectindo sobre as palavras da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, “O pão que partimos não é porventura comunhão com o corpo de Cristo?” [55], João comenta: para o Apóstolo portanto, “assim como aquele corpo está unido a Cristo, assim também nós estamos unidos a Ele por meio deste pão” [56]. E ainda mais claramente, à luz das seguintes palavras do Apóstolo: “Pois nós, mesmo sendo muitos, somos um só pão, um só corpo” [57], João argumenta: “O que é o pão? O Corpo de Cristo. E o que se tornam eles quando o comemos? O corpo de Cristo; não muitos corpos, mas um só corpo. Assim como o pão, mesmo se feito de muitos grãos, se torna um… assim também nós estamos unidos quer uns aos outros quer a Cristo… Mas, se somos alimentados por um mesmo pão e todos nos tornamos a mesma coisa, por que não mostramos também o mesmo amor, de modo a tornarmo-nos também sob este aspecto uma só coisa?” [58].

A fé de Crisóstomo no mistério de amor que une os crentes a Cristo e entre eles conduziu-o a exprimir uma profunda veneração pela Eucaristia, uma veneração que alimentou particularmente na celebração da Divina Liturgia. Uma das mais ricas expressões da Liturgia oriental leva precisamente ao seu nome: “A Divina Liturgia de São João Crisóstomo”. João compreendeu que a Divina Liturgia coloca espiritualmente o crente entre a vida terrena e as realidades celestes que lhe foram prometidas pelo Senhor. Ele expressava a Basílio Magno o seu temor reverencial ao celebrar os sagrados mistérios com estas palavras: “Quando tu vês o Senhor imolado que jaz sobre o altar e o sacerdote que, estando de pé, reza sobre a vítima… ainda podes pensar que estás entre os homens, que estás na terra? Não és, ao contrário, imediatamente transportado para o céu?”. Os ritos sagrados, diz João, “não são só maravilhosos para ver, mas extraordinários pelo temor reverencial que suscitam. Ali está em pé o sacerdote… que faz descer o Espírito Santo, e reza prolongadamente para que a graça que desce sobre o sacrifício possa iluminar naquele lugar as mentes de todos e torná-las mais maravilhosas que a prata purificada no fogo. Quem pode desprezar este venerando mistério?” [59].

Com grande profundidade Crisóstomo desenvolve a reflexão sobre os efeitos da comunhão sacramental nos crentes: “O sangue de Cristo renova em nós a imagem do nosso Rei, produz uma beleza indizível e não permite que seja destruída a nobreza das nossas almas, mas continuamente a irriga e alimenta” [60]. Por isso João exorta com frequência e insistência os fiéis a aproximar-se dignamente do altar do Senhor, “não com leviandade… não por hábito e formalidade”, mas com “sinceridade e pureza de espírito” [61]. Ele repete incansavelmente que a preparação para a Sagrada Comunhão deve incluir o arrependimento dos pecados e a gratidão pelo sacrifício realizado por Cristo para a nossa salvação. Portanto ele exorta os fiéis a participar plena e devotamente nos ritos da Divina Liturgia e a receber com as mesmas disposições a Sagrada Comunhão: “Não deixeis, suplicamos-vos, que sejamos mortos pela vossa irreverência, mas aproximai-vos d’Ele com devoção e pureza, e quando o virdes diante de vós, dizei a vós mesmos: “Em virtude deste corpo eu já não sou terra e cinza, já não sou prisioneiro, mas livre; em virtude disto espero no paraíso, e receber os seus bens, a herança dos anjos, e conversar com Cristo”” [62].

Naturalmente, da contemplação do Mistério ele tira depois também as consequências morais nas quais envolve os seus ouvintes: ele recorda-lhes que a comunhão com o Corpo e o Sangue de Cristo os obriga a oferecer assistência material aos pobres e aos famintos que vivem entre eles [63]. A mesa do Senhor é o lugar onde os crentes se reconhecem e acolhem o pobre e o necessitado que talvez antes tenham ignorado[64]. Ele exorta os fiéis de todos os tempos a olhar além do altar sobre o qual é oferecido o sacrifício eucarístico e a ver Cristo na pessoa dos pobres, recordando que graças à ajuda prestada podem oferecer no altar de Cristo um sacrifício agradável a Deus [65].

4. Conclusão

Todas as vezes que encontramos estes nossos Padres escreveu o Papa João Paulo II em relação a outro grande Padre e Doutor, São Basílio, “somos por eles confirmados na fé e encorajados na esperança” [66]. O XVI centenário da morte de São João Crisóstomo oferece uma ocasião bastante propícia para incrementar os estudos sobre ele, recuperar os seus ensinamentos e difundir a devoção a ele. Estou espiritualmente presente com ânimo grato e faço bons votos às várias iniciativas e celebrações que são organizadas por ocasião deste XVI centenário. Gostaria de expressar também o meu desejo fervoroso de que os Padres da Igreja “em cuja voz ressoa a constante Tradição cristã” [67] se tornem cada vez mais um ponto firme de referência para todos os teólogos da Igreja. Regressar a eles significa remontar às fontes da experiência cristã, para saborear o seu vigor e genuidade. Portanto, que melhores votos poderia desejar aos teólogos do que os de um renovado compromisso por recuperar o património sapiencial dos santos Padres? Certamente obtêm um enriquecimento precioso para a sua reflexão também sobre os problemas deste nosso tempo.

Apraz-me terminar esta carta com uma última palavra do grande Doutor, na qual ele convida os seus fiéis e também nós, naturalmente a reflectir sobre os valores eternos: “Ainda por quanto tempo estaremos apegados à realidade presente? Quanto tempo será ainda necessário antes de despertarmos? Ainda por quanto tempo descuidaremos a nossa salvação? Deixai-nos recordar aquilo de que Cristo nos considerou dignos, deixai que lhe agradeçamos, glorifiquemos, não só com a nossa fé, mas também com as nossas obras efectivas, que possamos obter os bens futuros pela graça e amorosa ternura de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual e com o qual sejam glorificados o Pai e o Espírito Santo, agora e por todos os séculos. Amém” [68].

A todos a minha Bênção!

Castel Gandolfo, 10 de Agosto de 2007, terceiro ano de Pontificado.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/letters/2007/documents/hf_ben-xvi_let_20070810_giovanni-crisostomo_po.html


PAPA BENTO XVI

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

São João Crisóstomo (2)

Queridos irmãos e irmãs!

Continuamos hoje a nossa reflexão sobre São João Crisóstomo. Depois do período passado em Antioquia, em 397 ele foi nomeado Bispo de Constantinopla, a capital do Império romano do Oriente. Desde o início, João projectou a reforma da sua Igreja:  a austeridade do palácio episcopal devia servir de exemplo para todos clero, viúvas, monges, palacianos e ricos.

Infelizmente, muitos destes, atingidos pelos seus juízos, afastaram-se dele. Solícito pelos pobres, João foi chamado também “Esmoler”. De facto, como administrador atento ele conseguiu criar instituições caritativas muito apreciadas. O seu arrojo nos vários âmbitos fez com que ele se tornasse para alguns um rival perigoso. Ele, contudo, como verdadeiro Pastor, tratava todos de modo cordial e paterno. Sobretudo, destinava considerações sempre ternas às mulheres e cuidados especiais ao matrimónio e à família. Convidava os fiéis a participar na vida litúrgica, por ele tornada esplendorosa e atraente com genial criatividade.

Não obstante o coração generoso, não teve uma vida tranquila. Pastor da capital do Império, viu-se com frequência envolvido em questões e intrigas políticas, devido aos seus contínuos relacionamentos com as autoridades e as instituições civis. Depois, a nível eclesiástico foi acusado de ter superado os confins da própria jurisdição, e tornou-se assim alvo de fáceis acusações. Outro pretexto contra ele foi a presença de alguns monges egípcios, excomungados pelo patriarca Teófilo de Alexandria que se refugiaram em Constantinopla. Uma acesa polémica foi depois originada pelas críticas feitas por Crisóstomo à imperatriz Eudóxia e às suas palacianas, que reagiram desacreditando-o e insultando-o. Chegou-se assim à sua deposição, no sínodo organizado pelo mesmo patriarca Teófilo em 403, com a consequente condenação ao primeiro breve exílio. Depois do seu regresso, a hostilidade suscitada contra ele desde o protesto contra as festas em honra da imperatriz que o Bispo considerava como festas pagãs, sumptuosas e a expulsão dos presbíteros encarregados dos Baptismos na Vigília pascal de 404 marcaram o início da perseguição de Crisóstomo e dos seus seguidores, os chamados “Joanitas”.

Então João denunciou através de carta os factos ao Bispo de Roma, Inocêncio I. Mas já era demasiado tarde. No ano de 406 teve de novo que se refugiar no exílio, desta vez em Cucusa, na Arménia. O Papa estava convencido da sua inocência, mas não tinha o poder de o ajudar. Um Concílio, querido por Roma para uma pacificação entre as duas partes do Império e entre as suas Igrejas, não pôde ser realizado. O deslocamento extenuante de Cucusa para Pytius, meta nunca alcançada, devia impedir as visitas dos fiéis e interromper a resistência do exiliado extenuado:  a condenação ao exílio foi uma verdadeira condenação à morte! São comovedoras as numerosas cartas do exílio, nas quais João manifesta as suas preocupações pastorais com tonalidades de participação e de sofrimento pelas perseguições contra os seus. A marcha rumo à morte terminou em Comano no Ponto. Aqui, João moribundo, foi levado para a capela do mártir São Basilisco, onde rendeu a alma a Deus e foi sepultado, mártir ao lado do mártir (Palladio, Vita 119). Era o dia 14 de Setembro de 407, festa da Exaltação da Santa Cruz. A reabilitação teve lugar em 438 com Teodósio II. As relíquias do santo Bispo, colocadas na igreja dos Apóstolos em Constantinopla, foram depois trasladadas em 1204 para Roma, para a primitiva Basílica constantiniana, e agora jazem na capela do Coro dos Cónegos da Basílica de São Pedro. A 24 de Agosto de 2004 uma considerável parte delas foi doada pelo Papa João Paulo II ao Patriarca Bartolomeu I de Constantinopla. A memória litúrgica do santo celebra-se a 13 de Setembro. O beato João XXIII proclamou-o padroeiro do Concílio Vaticano II.

Foi dito acerca de João Crisóstomo que, quando foi colocado no trono da Nova Roma, isto é, Constantinopla, Deus mostrou nele um segundo Paulo, um doutor do Universo. Na realidade, em Crisóstomo há uma unidade substancial de pensamento e de acção tanto em Antioquia como em Constantinopla. Mudam só o papel e as situações. Meditando sobre as oito obras realizadas por Deus no suceder-se dos seis dias no comentário do Génesis, Crisóstomo deseja reconduzir os fiéis da criação ao criador:  “É um grande bem”, diz, “conhecer o que é a criatura e o que é o Criador”.

Mostra-nos a beleza da criação e a transparência de Deus na sua criação, a qual se torna assim quase que uma “escada” para subir a Deus, para o conhecer. Mas a este primeiro passo acrescenta-se um segundo:  este Deus criador é também o Deus da condescendência (synkatabasis). Nós somos débeis na “subida”, os nossos olhos são débeis. E assim Deus torna-se o Deus da condescendência, que envia ao homem pecador e estrangeiro uma carta, a Sagrada Escritura, de modo que criação e Sagrada Escritura completam-se. À luz da Escritura, da carta que Deus nos deu, podemos decifrar a criação. Deus é chamado “pai terno” (philostorgios) (ibid.), médico das almas (Homilia 40, 3 sobre o Génesis), mãe (ibid.) e amigo afectuoso (Sobre a providência 8, 11-12). Mas a este segundo passo primeiro a criação como “escada” para Deus e depois a condescendência de Deus através duma carta que nos deu, a Sagrada Escritura acrescenta-se um terceiro passo. Deus não só nos transmite uma carta:  em definitiva, desce Ele mesmo, encarna-se, torna-se realmente “Deus connosco”, nosso irmão até à morte na Cruz. E a estes três passos Deus é visível na criação, Deus dá-nos uma sua carta, Deus desce e torna-se um de nós acrescenta-se no final um quarto passo. No arco da vida e da acção do cristão, o princípio vital e dinâmico é o Espírito Santo (Pneuma), que transforma as realidades do mundo. Deus entra na nossa existência através do Espírito Santo e transforma-nos do interior do nosso coração.

Nesta panorâmica, precisamente em Constantinopla João, no comentário continuativo dos Actos dos Apóstolos, propõe o modelo da Igreja primitiva (Act 4, 32-37) como modelo para a sociedade, desenvolvendo uma “utopia” social (quase uma “cidade ideal”). De facto, tratava-se de dar uma alma e um rosto cristão à cidade. Por outras palavras, Crisóstomo compreendeu que não é suficiente dar esmola, ajudar os pobres sempre que precisem, mas é necessário criar uma nova estrutura, um novo modelo de sociedade; um modelo baseado na perspectiva do Novo Testamento. É a nova sociedade que se revela na Igreja nascente. Portanto João Crisóstomo torna-se assim realmente um dos grandes Padres da Doutrina Social da Igreja:  a velha ideia da “polis” grega é substituída por uma nova ideia de cidade inspirada na fé cristã. Crisóstomo defendia com Paulo (cf. 1 Cor 8, 11) a primazia de cada cristão, da pessoa como tal, também do escravo e do pobre. O seu projecto corrige assim a tradicional visão grega da “polis”, da cidade, na qual amplas camadas de população eram excluídas dos direitos de cidadania, enquanto na cidade cristã todos são irmãos e irmãs com iguais direitos. A primazia da pessoa é também a consequência do facto que realmente partindo dela se constrói a cidade, enquanto que na “polis” grega a pátria era superior ao indivíduo, o qual estava totalmente subordinado à cidade no seu conjunto. Assim com Crisóstomo tem início a visão de uma sociedade construída pela consciência cristã. E ele diz-nos que a nossa “polis” é outra, “a nossa pátria está no céu” (Fl 3, 20) e esta nossa pátria também nesta terra nos torna iguais, irmãos e irmãs, e obriga-nos à solidariedade.

No final da sua vida, do exílio nos confins da Arménia, “o lugar mais remoto do mundo”, João, voltando à sua primeira pregação de 386, retomou o tema que lhe era tão querido do plano que Deus prossegue em relação à humanidade:  é um plano “indizível e incompreensível”, mas certamente guiado por Ele com amor (cf. Sobre a providência 2, 6). É esta a nossa certeza.

Mesmo se não podemos decifrar os pormenores da história pessoal e colectiva, sabemos que o plano de Deus se inspira sempre no seu amor. Assim, apesar dos sofrimentos, Crisóstomo reafirmava a descoberta de que Deus ama cada um de nós com um amor infinito, e por isso deseja que todos se salvem. Por seu lado, o santo Bispo cooperou nesta salvação generosamente, sem se poupar, ao longo de toda a sua vida. De facto ele considerava o fim último da sua existência a glória de Deus, que já agonizante deixou como extremo testamento:  “Glória a Deus por tudo!” (Palladio, Vita 11).

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070926_po.html

A Sabedoria

O pastor ausente e as ovelhas em perfeita ordem! Grande feito do pastor: o rebanho, não apenas em sua presença, mas até durante a ausência, demonstra ardente zelo! (p.17)

O desejo do bem-estar não vos atormenta mais e não tendes dificuldade em superá-lo. Com efeito, de uma vez o eliminastes e tornastes a carne inacessível a este desejo, e acostumastes o estômago a se contentar, quanto à comida e à bebida, com o suficiente para não morrer nem merecer castigo…Pois, comida excessiva alimenta o sono. (p.224)

Nossa meta é a seguinte: não apenas expelir a tristeza, mas também encher-vos de grande e permanente alegria. (p.251)

De fato, a tristeza também produz doença. Quando o corpo está fatigado e totalmente fraco, surge enorme e progressivo perigo. (p.301)

Quanto mais intensa a tribulação, mais aumentam as coroas quanto mais o ouro é provado pelo fogo, mais se purifica;…(p.305)

A Caridade

Onde falta a caridade, as outras virtudes de nada nos servem, porque ela constitui a marca dos discípulos do Senhor, a característica dos servos de Deus, o distintivo dos apóstolos. Com efeito, está escrito: “Nisso reconhecerão todos que sois meus discípulos, (se vos amardes uns aos outros.)” João 13, 35. (p.18)

Por esta razão, conforme Cristo disse, não se revelam seus discípulos por intermédio de milagres, e sim pela caridade. (p.18)

Dialoguemos com moderação. Nada mais forte que a moderação e a doçura. Por essa razão também Paulo recomendou que adotemos cuidadosamente tal atitude, nesses termos: “Ora, um servo de Deus não deve brigar; deve ser manso para com todos”. (II Timóteo 2, 24)

Não convém a um servo do Senhor altercar; bem ao contrário, seja ele condescendente com todos, capaz de ensinar, paciente em suportar os males.

Serão capazes de reter a língua no momento em que ela se exalta além da medida e da conveniência, de acalmar o espírito agitado e moderá-lo constantemente, e de estabelecer em nós permanentemente a paz perfeita. (p.31)

Persistência e coragem na Evangelização

Mesmo, caríssimo irmão, se te injuriarem, te derem pontapés e te cuspirem, se fizerem seja o que for, não desistas dos curativos. De fato, os que cuidam de um homem louco devem suportar muitas coisas desta espécie e não podem abandoná-lo apesar de tudo, mas devem apiedar-se e lastimá-lo tanto mais por se tratar de manifestação da doença. (p.49)

Não são efetivamente apenas as feridas corporais, mas também as dores da alma que alcançam coroas inefáveis, e as aflições da alma, se acolhidas como ação de graças, mais do que a do corpo. (p.240)

Fugir das más companhias

Os mais fracos, ao contrário, fujam da companhia deles e evitem o diálogo, não suceda que o pretexto de amizade se transforme em oportunidade de irreligião. (p.49)

Se a amizade deles te é prejudicial e te arrasta a participar da impiedade, até mesmo se forem os próprios pais, foge deles! Se teu olho te prejudica, arranca-o! Com efeito, foi dito: “Se teu olho direito te escandalizar, arranca-o”. (p.29)

Quando o médico visita um doente, com freqüência resultam benefícios para ambos, mas se alguém um tanto fraco vai para junto dos doentes, simultaneamente causa dano a eles e a si mesmo, porque em nada lhes será útil, e a doença lhe acarretará grande mal. Os que ficam olhando pacientes atingidos de oftalmia contraem a moléstia; assim também os que se unem aos blasfemadores, se são mais fracos, arriscam-se a participar de sua impiedade. A fim, portanto, de evitar tão graves perigos, fujamos da companhia deles e contentemo-nos com rezar e implorar a Deus que ama os homens, quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade…(p.50)

Pois, aquele que pratica o mal na terra e, em vez de expiar seu pecado, goza de consideração da parte dos homens, partirá levando tal estima qual penhor mais seguro de castigo. Este o motivo por que o rico ardia horrivelmente, e sofria punição não apenas por causa da crueldade para com Lázaro, mas porque a prosperidade de que gozava continuamente, com tamanha crueldade, não o tornara melhor. (Cf. Lucas 16, 19-31) (p.203)

Então ninguém estará ao nosso lado nem nos livrará do castigo. Nem pai, nem filho, nem filha, nem mãe, nem outro parente qualquer, nem vizinho, nem amigo, nem advogado, nem donativo em dinheiro, nem superabundante fortuna, nem poder imenso: tudo isso será sacudido como pó. O réu, em vista da sentença que o absolve ou condena, conta apenas com seus atos. Ninguém é então julgado por ações alheias, e sim de acordo com o que ele mesmo praticou. (p.221)

A oração

Eu posso, dizem eles, rezar também em casa, enquanto é impossível ouvir em casa homilia ou instrução. Enganas-te a ti mesmo, ó homem. Se, de fato, podes rezar em casa, não pode rezar do mesmo modo que na Igreja…Efetivamente, os sacerdotes presidem a fim de que as orações do povo, mais fracas, unidas às deles, mais fortes, simultaneamente se elevem para o céu. (p.63)

A verdadeira humildade

Considerar-se pecador quem verdadeiramente o é, não constitui, contudo, humildade. A humildade pertence a quem, apesar de consciente de ter praticado muitas boas ações, não tem de si mesmo alta estima…(p.99)

O fariseu atrelava juntos a justiça e o orgulho, a ponto de dizer: “Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, ávidos, nem como este publicano”.(Lucas 18, 11) …E que fez então este último? Não repeliu as injurias, não se irritou com a acusação: acolheu tais palavras com prudência. A seta do inimigo transformou-se-lhe em remédio e cura, a injuria, em elogio, a censura, em coroa. A humildade é tão bela, que não sente as mordeduras dos agravos de outrem e não se enfurece pelo ultrajes do próximo. É até possível tirar desses ataques grande e excelente fruto, como aconteceu no caso do publicano. Na verdade, ao aceitar as injúrias, ele depôs o fardo de seus pecados e, ao dizer: “Tem piedade de mim, que sou pecador!”; voltou para casa justificado, mais do que o outro. (Lucas 18, 13). (p.100-101)

Sucede nos negócios o mesmo que acontece com as riquezas e que sobreveio àquela viúva. Ela, de fato, por ter dado dois óbolos, superou os que tinham dado mais porque se despojara de tudo o que tinha (Marcos 12, 42); igualmente, os que se dão com todas as forças e fazem o possível para solucionar uma questão, mesmo se nada obtiverem, obtêm a recompensa ligada a sua ação. (p.250)

Misericórdia de Deus

Ora, muitas vezes os homens suportam mal, apartam e repelem quem procura se queixar e chorar junto deles; Deus, porém, não age deste modo. Ao contrário, faz com que te aproximes e a si te atrai, e mesmo se passares o dia inteiro a expor-lhe tuas tribulações ficará ainda mais inclinado a amar-te e a atender as tuas súplicas. Justamente isso queria Cristo mostrar-nos aos proclamar: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso de vosso fardo e eu vos darei descanso”. (Mateus 11, 28)(p.103)

Providência de Deus

De fato, a providência de Deus é mais manifesta que o sol com seus raios e, em cada tempo e lugar, no deserto, nos países habitados e inóspitos, na terra e no mar, em qualquer lugar a que vás, perceberás a memória clara e suficiente, antiga e nova, desta providência…(p.122)

Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? E, se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem.(Mateus 7, 9-11) Com isso revela que, na medida em que a maldade difere da bondade, tanto a bondade de Deus supera a solicitude dos pais. (p.124)

A criação: Obra do Amor de Deus

1.Embelezou o céu não somente com astros; ornou-o ainda com o sol e a lua, ocasionando-te, conforme a oportunidade, ora grande prazer, ora enorme utilidade…Assim como o sol regula as horas do dia, a lua estabelece as da noite; (p.129-130)

2.E tudo isso por ti, ó homem! Com efeito, os ventos também foram criados por tua causa…eles refrescam os nossos corpos fatigados…Além disso, os ventos de outra forma são profícuos às águas, pois não permitem que se corrompam estagnadas, mas as agitam constantemente e ventilam; fazem-nas renovadas…(p.134)

3.Se queres examinar a própria noite, verás, nela também, a grande providência do criador. De fato, ela repousa teu corpo cansado, relaxa e distende os membros tensos pelos esforços diurnos, produz uma alteração e restitui-lhes, pelo repouso, vigor pleno. (p.134-135)

A cruz de Jesus é sinal de salvação

Foi pregado numa alta cruz, cuspiam-lhe, batiam-lhe com bastões, era esbofeteado, escarnecido, foi sepultado por caridade, e teve o túmulo selado. E tudo isso ele o suportou por ti com solícita bondade, a fim de:

1.Suprimir a tirania do pecado, destruir a cidadela do diabo, quebrar os laços da morte;

2. Abrir-nos as portas do céu,

3. Fazer desaparecer a maldição, apagar a primeira culpa;

4. Ensinar-te a paciência, treinar-te à resistência de modo que nenhum dos acontecimentos da vida presente te aflija, nem a morte, nem os insultos, nem as injurias, nem as zombarias, nem os açoites, nem as ciladas dos inimigos, nem as calúnias, nem os ataques, as denúncias, as suspeitas etc.

Viveu, também ele, no meio de tudo isso e o partilhou contigo, dominou-o de modo extraordinário, demonstrando e ensinando-te a não temeres nenhuma dessas provas. (p.140)

Apesar de ter visto o Cristo crucificado, flagelado, injuriado, sorvendo fel, coberto de escarros, escarnecido por todo esse povo, condenado por um tribunal, arrastado à morte, nada o escandalizou. Viu a cruz, os cravos fincados e a multidão corrupta a zombar dele; seguiu, contudo, o caminho reto, dizendo: “Lembra-te de mim em teu reino”. (Lucas 23, 42)…Os judeus, ao contrário, que o haviam visto operar milagres, que haviam aproveitado do ensino ministrado em palavras e atos, não somente não tiraram proveito, como foram arrastados ao mais profundo abismo para sua perda, tendo erguido a própria cruz. (p.170-171)

A Perseverança

Quanto mais forte a tempestade, maiores os prêmios, se for suportada com perseverança, ações de graças e a conveniente coragem como, na realidade, a suportais. (p.200)

O coração agradecido

Glória a Deus em tudo. Não cessarei de repeti-lo sempre em tudo o que me acontecer. (p.201)

Fonte: São João Crisóstomo. Coleção Patrística. Ed. Paulus.2007.

Sensibilidade para com os órfãos

Nada de mais doloroso para as crianças do que ficarem órfãos muito cedo, porque devido à idade nada podem por si mesmas, não tem verdadeiramente quem as proteja, e são muitos os que as atacam e lhes armam ciladas, quais ovelhas no meio de lobos que, vindos de todos os lados, as dilaceram e estraçalham. (p.238)

A paciência

Nada se iguala à paciência, mas que ela é, sobretudo, a rainha das virtudes, o fundamento das ações retas, o porto sem ondas, a paz no meio das guerras, o mar liso na tempestade, a segurança no meio das emboscadas;… (p.294)

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