Biografia dos Santos

Archive for abril 2010

Vida de São José

Reflexão sobre São José pelo Papa Bento XVI

Queria ainda dirigir uma exortação particular aos pais de família, uma vez que São José é o seu modelo. Este santo revela o mistério da paternidade de Deus sobre Cristo e sobre cada um de nós. São José pode ensinar-lhes o segredo da sua própria paternidade, ele que velou pelo Filho do Homem. Também cada pai recebe de Deus os seus filhos, criados à semelhança e imagem d’Ele. São José foi o esposo de Maria. Também cada pai de família se vê confiar-lhe o mistério da mulher através da própria esposa. Como São José, queridos pais de família, respeitai e amai a vossa esposa, e guiai os vossos filhos, com amor e a vossa vigilante presença, para Deus onde eles devem estar (cf. Lc 2, 49).

Finalmente, a todos os jovens aqui presentes, dirijo uma palavra amiga e encorajadora: diante das dificuldades da vida, não percais a coragem! A vossa existência tem um valor infinito aos olhos de Deus. Deixai-vos agarrar por Cristo, aceitai dar-Lhe o vosso amor e – porque não! – vós mesmos no sacerdócio ou na vida consagrada. É o serviço mais alto. Às crianças que já não têm um pai ou que vivem abandonadas na miséria da estrada, àquelas que foram violentamente separadas dos seus pais, maltratadas e abusadas, e incorporadas à força em grupos militares que imperam em alguns países, quero dizer: Deus ama-vos, não vos esquece e São José vos protege. Invocai-o com confiança.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2009/documents/hf_ben-xvi_hom_20090319_instrlabor-africa_po.html

Reflexão do Papa João Paulo II sobre São José


EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
REDEMPTORIS CUSTOS
DO SUMO PONTÍFICE
JOÃO PAULO II
SOBRE A FIGURA E A MISSÃO
DE SÃO JOSÉ
NA VIDA DE CRISTO E DA IGREJA

Aos Bispos,
aos Sacerdotes e Diáconos,
aos Religiosos e Religiosas e
a todos os fiéis da Igreja católica

INTRODUÇÃO

1. Chamado a proteger o Redentor, «José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa» (Mt 1, 24).

Inspirando-se no Evangelho, os Padres da Igreja, desde os primeiros séculos, puseram em relevo que São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, (1) assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo.

No centenário da publicação da Carta Encíclica Quamquam pluries do Papa Leão XIII (2) e na esteira da plurissecular veneração para com São José, desejo apresentar à vossa consideração, amados Irmãos e Irmãs, algumas reflexões sobre aquele a quem Deus «confiou a guarda dos seus tesouros mais preciosos». (3) É para mim uma alegria cumprir este dever pastoral, no intuito de que cresça em todos a devoção ao Patrono da Igreja universal e o amor ao Redentor, que ele serviu de maneira exemplar.

Desta forma, todo o povo cristão não só recorrerá a São José com maior fervor e invocará confiadamente o seu patrocínio, mas também terá sempre diante dos olhos o seu modo humilde e amadurecido de servir e de «participar» na economia da salvação. (4) Tenho para mim, efectivamente, que o facto de se considerar novamente a participação do Esposo de Maria no mistério divino permitirá à Igreja, na sua caminhada para o futuro juntamente com toda a humanidade, reencontrar continuamente a própria identidade, no âmbito deste desígnio redentor, que tem o seu fundamento no mistério da Incarnação.

Foi precisamente neste mistério que José de Nazaré «participou» como nenhuma outra pessoa humana, à excepção de Maria, a Mãe do Verbo Incarnado. Ele participou em tal mistério simultaneamente com Maria, envolvido na realidade do mesmo evento salvífico, e foi depositário do mesmo amor, em virtude do qual o eterno Pai «nos predestinou a sermos adoptados como filhos, por intermédio de Jesus Cristo» (Ef 1, 5).

I- O CONTEXTO EVANGÉLICO

O matrimónio com Maria

2. «José, filho de David, não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados» (Mt 1, 20-21).

Nestas palavras está contido o núcleo central da verdade bíblica sobre São José; é o momento da sua existência ao qual se referem em particular os Padres da Igreja.

O evangelista São Mateus explica o significado deste momento, esboçando também a maneira como José o viveu. Todavia, para se compreender plenamente o seu conteúdo e o seu contexto, é importante ter presente a passagem paralela do Evangelho de São Lucas. Com efeito, a origem da gravidez de Maria, por «obra do Espírito Santo» – posta em relação com o versículo que diz «ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de habitarem juntos, achou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo» (Mt 1, 18) encontra uma descrição mais ampla e mais explícita naquilo que lemos em São Lucas sobre a anunciação do nascimento de Jesus: «O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade de Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David. E o nome da virgem era Maria » (Lc 1, 26-27). As palavras do anjo: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo» (Lc 1, 28) provocaram em Maria uma perturbação íntima e simultaneamente estimularam-na a reflectir. Então, o mensageiro tranquilizou a Virgem e, ao mesmo tempo, revelou-lhe o desígnio especial de Deus a seu respeito: «Não tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus dar-lhe-á o trono de seu pai David» (Lc 1, 30-32).

O Evangelista tinha afirmado, pouco antes, que, no momento da Anunciação, Maria estava desposada com um homem chamado José, da casa de David. A natureza destes esponsais é explicitada, indirectamente, quando Maria, depois de ter ouvido aquilo que o mensageiro dissera do nascimento do filho, pergunta: «Como se realizará isso, pois eu não conheço homem?» (Lc 1, 34). E então é-lhe dada esta resposta: «O Espírito Santo descerá sobre ti e a potência do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso mesmo, aquele que vai nascer será santo e há-de chamar-se Filho de Deus» (Lc 1, 35). Maria, embora fosse já «desposada» com José, permanecerá virgem, pois o menino, nela concebido desde o momento da Anunciação, era concebido por obra do Espírito Santo.

Neste ponto o texto de São Lucas coincide com o texto de São Mateus (1, 18) e serve-nos para explicar o que lemos neste último. Se, depois do desponsório com José, se verificou que Maria «tinha concebido por obra do Espírito Santo», este facto corresponde a todo o conteúdo da Anunciação e, em particular, às últimas palavras pronunciadas por Maria: «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Correspondendo ao desígnio claro de Deus, Maria, com o passar dos dias e das semanas , manifesta-se, diante das pessoas que contactava e diante de José, como estando «grávida», como mulher que deve dar à luz e que traz em si o mistério da maternidade.

3. Nestas circunstâncias, «José, seu esposo, sendo justo e não a querendo expor à infâmia, resolveu desvincular-se dela secretamente» (Mt 1, 19). Ele não sabia como comportar-se perante a «surpreendente» maternidade de Maria. Buscava, certamente, uma resposta para essa interrogação inquietante; mas procurava, sobretudo, uma maneira airosa de sair daquela situação difícil para ele. Enquanto andava «a pensar nisto, apareceu-lhe, em sonho, um anjo do Senhor, que lhe disse: “José, filho de David, não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”» (Mt 1, 20-21).

Existe uma estreita analogia entre a «Anunciação» do texto de São Mateus e a do texto de São Lucas. O mensageiro divino introduz José no mistério da maternidade de Maria. Aquela que, segundo a lei, é a sua «esposa», permanecendo virgem, tornou-se mãe pela virtude do Espírito Santo. E quando o Filho que Maria traz no seio vier ao mundo há-de receber o nome de Jesus. Este nome era bem conhecido entre os Israelitas; e, por vezes, era por eles posto aos filhos. Neste caso, porém, trata-se de um Filho que – segundo a promessa divina – realizará plenamente o que este nome significa: Jesus – Yehosua, que quer dizer «Deus salva».

O mensageiro dirige-se a José como «esposo de Maria»; dirige-se a quem, a seu tempo, deverá pôr tal nome ao Filho que vai nascer da Virgem de Nazaré, desposada com ele. Dirige-se a José, portanto, confiando-lhe os encargos de um pai terreno em relação ao Filho de Maria.

«Despertando do sono, José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa» (Mt 1, 24). Ele recebeu-a com todo o mistério da sua maternidade ; recebeu-a com o Filho que havia de vir ao mundo, por obra do Espírito Santo: demonstrou deste modo uma disponibilidade de vontade, semelhante à disponibilidade de Maria, em ordem àquilo que Deus lhe pedia por meio do seu mensageiro.

II-O DEPOSITÁRIO DO MISTÉRIO DE DEUS

4. Quando Maria, pouco tempo depois da Anunciação, se dirigiu a casa de Zacarias para visitar Isabel sua parente, ouviu, precisamente quando a saudava, as palavras pronunciadas pela mesma Isabel, «cheia do Espírito Santo» (cf. Lc 1, 41). Para além das palavras que se relacionavam com a saudação do anjo na Anunciação, Isabel disse: «Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que Ihe foram ditas da parte do Senhor» (Lc 1, 45). Estas palavras constituíram o pensamento-guia da Encíclica Redemptoris Mater, com a qual tive a intenção de aprofundar o ensinamento do Concílio Vaticano II, quando afirma: «A Bem-aventurada Virgem Maria avançou no caminho da fé e conservou fielmente a união com seu Filho até à Cruz», (5) «indo adiante» (6) de todos aqueles que, pela via da fé, seguem Cristo.

Ora ao iniciar-se esta peregrinação, a fé de Maria encontra-se com a fé de José. Se Isabel disse da Mãe do Redentor: «Feliz daquela que acreditou», esta bem-aventurança pode, em certo sentido, ser referida também a José, porque, de modo análogo, ele respondeu afirmativamente à Palavra de Deus, quando esta lhe foi transmitida naquele momento decisivo. A bem da verdade, José não respondeu ao «anúncio» do anjo como Maria; mas «fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa». Isto que ele fez é puríssima «obediência da fé» (cf. Rom 1, 5; 16, 26; 2 Cor 10, 5-6).

Pode dizer-se que aquilo que José fez o uniu, de uma maneira absolutamente especial, à fé de Maria: ele aceitou como verdade proveniente de Deus o que ela já tinha aceitado na Anunciação. O Concílio ensina: «A Deus que revela é devida a “obediência da fé” (…); pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus, prestando-lhe “o obséquio pleno da inteligência e da vontade” e dando voluntário assentimento à sua revelação». (7) A frase acabada de citar, que diz respeito à própria essência da fé, aplica-se perfeitamente a José de Nazaré.

5. Ele tornou-se, portanto, um depositário singular do mistério «escondido desde todos os séculos em Deus» (cf. Ef 3, 9), como se tornara Maria, naquele momento decisivo que é chamado pelo Apóstolo «plenitude dos tempos», quando «Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher… para resgatar os que se encontravam sob o jugo da lei e para que recebêssemos a adopção de filhos» (Gál 4, 4-5). «Aprouve a Deus — ensina o Concílio — na sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1, 9), pelo qual os homens, através de Cristo, Verbo Incarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2, 18; 2 Pdr 1, 4)». (8)

Deste mistério divino, juntamente com Maria, José é o primeiro depositário. Simultaneamente com Maria – e também em relação com Maria – ele participa nesta fase culminante da auto-revelação de Deus em Cristo; e nela participa desde o primeiro momento. Tendo diante dos olhos os textos de ambos os Evangelistas, São Mateus e São Lucas, pode também dizer-se que José foi o primeiro a participar na mesma fé da Mãe de Deus e que, procedendo deste modo, ele dá apoio à sua esposa na fé na Anunciação divina. Ele é igualmente quem primeiro foi posto por Deus no caminho daquela «peregrinação da fé», na qual Maria, sobretudo na altura do Calvário e do Pentecostes, irá adiante, de maneira perfeita. (9)

6. A caminhada própria de José, a sua peregrinação da fé terminaria antes; ou seja, antes que Maria esteja de pé junto à Cruz no Gólgota e antes que Ela – tendo Cristo voltado para o seio do Pai se encontre no Cenáculo do Pentecostes, no dia da manifestação ao mundo da Igreja, nascida pelo poder do Espírito da verdade. E contudo, a caminhada da fé de José seguiu a mesma direcção, permaneceu totalmente determinada pelo mesmo mistério, de que ele, juntamente com Maria, se tinha tornado o primeiro depositário. A Incarnação e a Redenção constituem uma unidade orgânica e indissolúvel, na qual a «economia da Revelação se realiza por meio de acções e palavras, intimamente relacionadas entre si». (10) Precisamente por causa desta unidade, o Papa João XXIII, que tinha uma grande devoção para com São José, estabeleceu que no Cânone romano da Missa, memorial perpétuo da Redenção, fosse inserido o nome dele, ao lado do nome de Maria e antes do dos Apóstolos, dos Sumos Pontífices e dos Mártires. (11)

O serviço da paternidade

7. Como se deduz dos textos evangélicos, o matrimónio com Maria é o fundamento jurídico da paternidade de José. Foi para garantir a protecção paterna a Jesus que Deus escolheu José como esposo de Maria. Por conseguinte, a paternidade de José — uma relação que o coloca o mais perto possível de Cristo, termo de toda e qualquer eleição e predestinação (cf. Rom 8, 28-29) — passa através do matrimónio com Maria, ou seja, através da família.

Os Evangelistas, embora afirmem claramente que Jesus foi concebido por obra do Espírito Santo e que naquele matrimónio a virgindade foi preservada (cf. Mt 1, 18-25; Lc 1, 26-38), chamam a José esposo de Maria e a Maria esposa de José (cf. Mt 1, 16. 18-20; Lc 1, 27; 2, 5).

E também para a Igreja, se por um lado é importante professar a concepção virginal de Jesus, por outro, não é menos importante defender o matrimónio de Maria com José, porque é deste matrimónio que depende, juridicamente, a paternidade de José. Daqui se compreende a razão por que as gerações são enumeradas segundo a genealogia de José: «E porque não o deviam ser – pergunta-se Santo Agostinho – através de José? Não era porventura José o marido de Maria? (…). A Escritura afirma, por meio da autoridade angélica, que ele era o marido. Não temas, diz, receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. E é-lhe mandado que imponha o nome ao menino, se bem que não seja nascido do seu sémen. Aí se diz, ainda: Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. A Escritura sabe que Jesus não nasceu do sémen de José; e porque ele mostra preocupação quanto à origem da gravidez dela (Maria), é dito: provém do Espírito Santo. E todavia não lhe é tirada a autoridade paterna, uma vez que lhe é ordenado que seja ele a dar o nome ao menino. Por fim, também a própria Virgem Maria, bem consciente de não ter concebido Cristo da união conjugal com ele, chama-o apesar disso pai de Cristo». (12)

O filho de Maria é também filho de José, em virtude do vínculo matrimonial que os une: «Por motivo daquele matrimónio fiel, ambos mereceram ser chamados pais de Cristo, não apenas a Mãe, mas também aquele que era seu pai, do mesmo modo que era cônjuge da Mãe, uma e outra coisa por meio da mente e não da carne». (13) Neste matrimónio não faltou nenhum dos requisitos que o constituem: «Naqueles pais de Cristo realizaram-se todos os bens das núpcias: a prole, a fidelidade e o sacramento. Conhecemos a prole, que é o próprio Senhor Jesus; a fidelidade, porque não houve nenhum adultério; e o sacramento, porque não se deu nenhum divórcio». (14)

Analisando a natureza do matrimónio, quer Santo Agostinho, quer Santo Tomás de Aquino situam-na constantemente na «união indivisível dos ânimos», na «união dos corações» e no «consenso»; (15) elementos estes, que, naquele matrimónio, se verificaram de maneira exemplar. No momento culminante da história da salvação, quando Deus manifestou o seu amor pela humanidade, mediante o dom do Verbo, deu-se exactamente o matrimónio de Maria e José, em que se realizou com plena «liberdade» o «dom esponsal de si» acolhendo e exprimindo um tal amor. (16) «Nesta grandiosa empresa da renovação de todas as coisas em Cristo , o matrimónio, também ele renovado e purificado, torna-se uma realidade nova, um sacramento da Nova Aliança. E eis que no limiar do Novo Testamento, como já sucedera no princípio do Antigo, há um casal. Mas, enquanto o casal formado por Adão e Eva tinha sido a fonte do mal que inundou o mundo, o casal formado por José e Maria constitui o vértice, do qual se expande por toda a terra a santidade. O Salvador deu início à obra da salvação com esta união virginal e santa, na qual se manifesta a sua vontade omnipotente de purificar e santificar a família, que é santuário do amor humano e berço da vida». (17)

Quantos ensinamentos promanam disto, ainda hoje, para a família! Uma vez que «a essência e as funções da família se definem, em última análise, pelo amor» e que à família «é confiada a missão de guardar, revelar e comunicar o amor, qual reflexo vivo e participação do amor de Deus pela humanidade e do amor de Cristo pela Igreja sua Esposa», (18) é na Sagrada Família, nesta originária «Igreja doméstica», (19) que todas as famílias devem espelhar-se. Nela, efectivamente, «por um misterioso desígnio divino, viveu escondido durante longos anos o Filho de Deus: ela constitui, portanto, o protótipo e o exemplo de todas as famílias cristãs». (20)

8. São José foi chamado por Deus para servir directamente a Pessoa e a missão de Jesus, mediante o exercício da sua paternidade: desse modo, precisamente, ele «coopera no grande mistério da Redenção, quando chega a plenitude dos tempos», (21) e é verdadeiramente «ministro da salvação». A sua paternidade expressou-se concretamente «em ter feito da sua vida um serviço, um sacrifício, ao mistério da Incarnação e à missão redentora com o mesmo inseparavelmente ligada; em ter usado da autoridade legal, que lhe competia em relação à Sagrada Família, para lhe fazer o dom total de si mesmo, da sua vida e do seu trabalho; e em ter convertido a sua vocação humana para o amor famíliar na sobre-humana oblação de si, do seu coração e de todas as capacidades, no amor que empregou ao serviço do Messias germinado na sua casa». (22)

A Liturgia, ao recordar que foram confiados «à solícita guarda de São José, na aurora dos novos tempos, os mistérios da salvação», (23) esclarece também que ele «foi constituído por Deus chefe da sua Família, para que, servo fiel e prudente, guardasse com paterna solicitude o seu Filho unigénito». (24) O Papa Leão XIII realça a sublimidade desta missão: «Ele entre todos, impõe-se pela sua sublime dignidade, dado que, por disposição divina, foi guardião e, na opinião dos homens, pai do Filho de Deus. Daí se seguia, portanto, que o Verbo de Deus fosse submisso a José, lhe obedecesse e lhe prestasse aquela honra e aquela reverência, que os filhos devem aos próprios pais». (25)

E uma vez que não se pode conceber que a uma tarefa tão sublime não correspondessem as qualidades requeridas para a desempenhar adequadamente, importa reconhecer que José teve em relação a Jesus, «por especial dom do Céu, todo aquele amor natural e toda aquela solicitude afectuosa que o coração de um pai possa experimentar». (26)

Com a autoridade paterna sobre Jesus, Deus terá comunicado também a José o amor correspondente, aquele amor que tem a sua fonte no Pai «do qual toda a paternidade, nos céus e na terra, toma o nome» (Ef 3, 15).

Nos Evangelhos acha-se claramente exposto o múnus paterno de José para com Jesus. Com efeito, a salvação, que passa através da humanidade de Jesus, realiza-se nos gestos que fazem parte do quotidiano da vida familiar, respeitando aquela «condescendência» que é inerente à economia da Incarnação. Os Evangelistas estiveram muito atentos ao facto de que na vida de Jesus nada foi deixado ao acaso; mas nela tudo se desenrolou em conformidade com um plano divinamente preestabelecido. A fórmula muitas vezes repetida: «Aconteceu assim, para que se cumprissem …», acompanhada de uma referência do acontecimento descrito a um texto do Antigo Testamento, tem o intuito de acentuar a unidade e a continuidade do projecto, que tem o seu «cumprimento» em Cristo.

Com a Incarnação, as «promessas» e as «figuras» do Antigo Testamento tornam-se «realidade»: lugares, pessoas, acontecimentos e ritos entrelaçam-se de acordo com ordens divinas bem precisas, transmitidas mediante o ministério dos anjos e recebidas por criaturas particularmente sensíveis à voz de Deus. Maria é a humilde serva do Senhor, preparada desde toda a eternidade para a missão de ser Mãe de Deus; e José é aquele que Deus escolheu para ser o «coordenador do nascimento do Senhor», (27) aquele que tem o encargo de prover ao inserimento «ordenado» do Filho de Deus no mundo, mantendo o respeito pelas disposições divinas e pelas leis humanas. Toda a chamada vida «privada» ou «oculta» de Jesus foi confiada à sua guarda.

O recenseamento

9. Quando José foi de longada até Belém, para o recenseamento, em observância das disposições da autoridade legítima, ele desempenhou em relação ao menino a tarefa importante e significativa de inserir oficialmente o nome de «Jesus, filho de José de Nazaré» (cf. Jo 1, 45), no registo do império. Essa inscrição manifesta de modo bem claro o facto de Jesus pertencer ao género humano, homem entre os homens, cidadão deste mundo, sujeito às leis e instituições civis, mas também «Salvador do mundo». Orígenes descreveu bem o significado teológico inerente a este facto histórico, que não é nada marginal: «Dado que o primeiro recenseamento de toda a terra se verificou no tempo de César Augusto, e que entre todos os demais também José se foi registrar, juntamente com Maria sua esposa, que se encontava grávida; e dado que Jesus veio ao mundo antes de o censo ter sido feito, para quem considerar a coisa com diligente atenção parecerá que se expressa uma espécie de mistério no facto de que, na declaração de toda a terra, devesse ser recenseado também Cristo. Dessa maneira, registado juntamente com os demais, a todos podia santificar; inscrito com toda a terra no recenseamento, à terra oferecia a comunhão consigo; e, depois desta declaração, recenseava consigo todos os homens da terra no livro dos vivos, para que quantos viessem a acreditar nele, fossem depois inscritos no céu, com os Santos d’Aquele a quem pertencem a glória e o império pelos séculos dos séculos. Amén». (28)

O nascimento de Belém

10. Como depositário do mistério «escondido desde todos os séculos em Deus» e que começa a realizar-se diante dos seus olhos na «plenitude dos tempos», José encontra-se juntamente com Maria na noite de Belém, qual testemunha privilegiada da vinda do Filho de Deus ao mundo. São Lucas exprime-se assim: «Enquanto eles ali (em Belém) se encontravam, completaram-se para ela os dias da gestação. E deu à luz o seu filho primogénito, que envolveu em faixas e recostou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria» (Lc 2, 6-7).

José foi testemunha ocular deste nascimento, que se verificou em condições humanamente humilhantes, primeiro anúncio daquele «despojamento», no qual Cristo consentiu livremente, para a remissão dos pecados. Na mesma ocasião, José foi testemunha da adoração dos pastores, que acorreram ao lugar onde Jesus nascera, depois de um anjo lhes ter levado esta grande e jubilosa notícia (cf. Lc 2, 15-16); mais tarde, foi testemunha também da homenagem dos Magos, vindos do Oriente (cf. Mt 2, 11).

A circuncisão

11. Sendo a circuncisão de um filho o primeiro dever religioso do pai, José, com esta cerimónia (cf. Lc 2, 21), exercitou um seu direito e dever em relação a Jesus.

O princípio segundo o qual todos os ritos do Antigo Testamento são como que a sombra da realidade (cf. Hebr 9, 9 s.; 10, 1), explica o motivo por que Jesus os aceita. Como sucedeu com os outros ritos, também o da circuncisão teve em Jesus o seu «cumprimento». A Aliança de Deus com Abraão, de que a circuncisão era sinal (cf. Gén 17, 13), obteve em Jesus o seu pleno efeito e a sua cabal realização, sendo Jesus o «sim» de todas as antigas promessas (cf. 2 Cor 1, 20).

A imposição do nome

12. José deu ao menino, na ocasião em que o levaram a circuncidar, o nome de Jesus. Este nome é o único em que há salvação (cf. Act 4, 12); e a José tinha sido revelado o seu significado, no momento da sua «anunciação»: E tu «por-lhe-ás o nome de Jesus; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados» (Mt 1, 21). Quando lhe deu o nome, José declarou a própria paternidade legal em relação a Jesus; e, pronunciando esse nome, proclamou a missão deste menino, de ser o Salvador.

A apresentação de Jesus no templo

13. Esta cerimónia, referida por São Lucas (2, 22 ss.), incluía o resgate do primogénito e projecta luz sobre o episódio posterior da permanência de Jesus no templo aos doze anos.

O resgate do primogénito é um outro dever do pai, que é cumprido por José. No primogénito estava representado o povo da Aliança, resgatado da escravidão para passar a pertencer a Deus. Também a propósito disto, Jesus, que é o verdadeiro «preço» do resgate (cf. 1 Cor 6, 20; 7, 23; 1 Pdr 1, 19), não somente «cumpre» o rito do Antigo Testamento, mas ao mesmo tempo supera-o, não sendo ele um simples homem sujeito a ser resgatado, mas o próprio autor do resgate.

O Evangelista põe em relevo que «o pai e a mãe de Jesus estavam admirados com as coisas que se diziam dele» (Lc 2, 33); e, em particular, com aquilo que Simeão disse, no seu cântico dirigido ao Senhor, indicando Jesus como «a salvação preparada por Deus em favor de todos os povos» e «luz para iluminar as nações e glória de Israel, seu povo»; e, mais adiante, também como «sinal de contradição» (Lc 2, 30-34).

A fuga para o Egipto

14. A seguir à apresentação no templo, o evangelista São Lucas anotou: «Depois de terem cumprido tudo segundo a lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. Entretanto, o menino crescia e robustecia-se, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com ele» (Lc 2, 39-40).

Mas, segundo o texto de São Mateus, ainda antes deste retorno à Galileia, tem de ser colocado um acontecimento muito importante, para o qual a Providência divina de novo recorre a José. Aí lemos: «Depois de eles (os Magos) partirem, eis que um anjo do Senhor apareceu, em sonho, a José e disse-lhe: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egipto e fica lá até eu te avisar, porque Herodes está a procurar o menino para o matar”» (Mt 2, 13). Na ocasião da vinda dos Magos do Oriente, Herodes tinha sabido do nascimento do «rei dos Judeus» (Mt 2, 2). E quando os Magos partiram, ele mandou «matar todos os meninos que havia em Belém e em todo o seu território, da idade de dois anos para baixo» (Mt 2, 16). Deste modo, matando todas as crianças, queria matar aquele recém-nascido «rei dos Judeus», de quem chegara ao conhecimento durante a visita dos Magos à sua corte. Então José, tendo recebido o aviso em sonho, «de noite, tomou o menino e sua mãe e retirou-se para o Egipto, onde ficou até à morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor tinha anunciado por meio do profeta: “Do Egipto chamei o meu Filho”» (Mt 2, 14-15; cf. Os 11, 1).

Deste modo, o caminho do regresso de Jesus de Belém a Nazaré passou pelo Egipto. Assim como Israel tinha tomado o caminho do êxodo «da condição de escravidão» para iniciar a Antiga Aliança, assim José, depositário e cooperador do mistério providencial de Deus, também no exílio vela por Aquele que vai tornar realidade a Nova Aliança.

A permanência de Jesus no templo

15. Desde o momento da Anunciação, José, juntamente com Maria, encontrou-se, em certo sentido, no íntimo do mistério escondido desde todos os séculos em Deus e que se tinha revestido de carne: «O Verbo fez-se carne e habitou entre nós» (Jo 1, 14). Sim, Ele habitou entre os homens e o âmbito da sua morada foi a Sagrada Família de Nazaré, uma das tantas famílias desta pequena cidade de Galileia, uma das tantas famílias da terra de Israel. Aí, Jesus crescia e «robustecia-se , cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com ele» (Lc 2, 40). Os Evangelhos resumem em poucas palavras o longo período da vida «oculta», durante o qual Jesus se preparou para a sua missão messiânica. Há um só momento que é subtraído a este «escondimento» e é descrito pelo Evangelho de São Lucas: a Páscoa de Jerusalém, quando Jesus tinha doze anos de idade.

Jesus participou nesta festa, como um jovem peregrino, juntamente com Maria e José. E eis o que aconteceu: «Passados aqueles dias (da festa), ao regressarem, o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que os pais se apercebessem disso» (Lc 2, 43). Depois de um dia de viagem deram pela sua falta; e começaram a procurá-lo «entre os parentes e conhecidos … Depois de três dias, encontraram-no no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos os que o ouviam ficavam admirados da sua inteligência e das suas respostas» (Lc 2, 46-47). Maria pergunta: «Filho, por que procedeste assim connosco? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura» (Lc 2, 48). A resposta de Jesus foi de tal sorte que os dois «não entenderam as palavras que lhes disse». Tinha-lhes respondido: «Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo encontrar-me na casa de meu Pai?» (Lc 2, 49-50).

Ouviu estas palavras José, em relação ao qual Maria tinha acabado de dizer «teu pai». Com efeito, era assim que as pessoas diziam e pensavam: Jesus, «como se supunha, era filho de José» (Lc 3, 23). Apesar disso, a resposta do próprio Jesus no templo devia reavivar na consciência do «suposto o pai» aquilo que numa noite, doze anos antes, ele tinha ouvido: «José … não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo». Já desde então ele sabia que era depositário do mistério de Deus; e Jesus, com doze anos de idade, evocou exactamente este mistério: «Devo encontrar-me na casa de meu Pai».

A sustenção e a educação de Jesus em Nazaré

16. O crescimento de Jesus «em sabedoria, em estatura e em graça» (Lc 2, 52), deu-se no âmbito da Sagrada Família, sob o olhar de São José, que tinha a alta função de o «criar»; ou seja, de alimentar, vestir e instruir Jesus na Lei e num ofício, em conformidade com os deveres estabelecidos para o pai.

No Sacrifício eucarístico a Igreja venera «a memória da gloriosa sempre Virgem Maria … e também a de São José», (29) porque foi quem «sustentou Aquele que os fiéis deviam comer como Pão de vida eterna». (30)

Por sua parte, Jesus «era-lhes submisso» (Lc 2, 51), correspondendo com o respeito às atenções dos seus «pais». Dessa forma quis santificar os deveres da família e do trabalho, que ele próprio executava ao lado de José.

III-O HOMEM JUSTO – O ESPOSO

17. No decorrer da sua vida, que foi uma peregrinação na fé, José, como Maria, permaneceu fiel até ao fim ao chamamento de Deus. A vida de Maria foi o cumprimento até às últimas consequências daquele primeiro fiat (faça-se) pronunciado no momento da Anunciação; ao passo que José – como já foi dito – não proferiu palavra alguma, aquando da sua «anunciação»: «fez como o anjo do Senhor lhe ordenara» (Mt 1, 24). E este primeiro «fez» tornou-se o princípio da «caminhada de José». Ao longo desta caminhada, os Evangelhos não registram palavra alguma que ele tenha dito. Mas esse silêncio de José tem uma especial eloquência: graças a tal atitude, pode captar-se perfeitamente a verdade contida no juízo que dele nos dá o Evangelho: o «justo» (Mt 1, 19).

é necessário saber ler bem esta verdade, porque nela está contido um dos mais importantes testemunhos acerca do homem e da sua vocação. No decurso das gerações a Igreja lê, de maneira cada vez mais atenta e mais cônscia este testemunho, como que tirando do tesouro desta insígne figura «coisas novas e coisas velhas» (Mt 13, 52).

18. O homem «justo» de Nazaré possui sobretudo as características bem nítidas do esposo. O Evangelista fala de Maria como de «uma virgem desposada com um homem … chamado José» (Lc 1, 27). Antes de começar a realizar-se «o mistério escondido desde todos os séculos em Deus» (Ef 3, 9), os Evangelhos põem diante de nós a imagem do esposo e da esposa. Segundo o costume do povo hebraico, o matrimónio constava de duas fases: primeiro, era celebrado o matrimónio legal (verdadeiro matrimónio); e depois, só passado um certo período, é que o esposo introduzia a esposa na própria casa. Antes de viver junto com Maria, portanto, José já era o seu «esposo»; Maria, porém, conservava no seu íntimo o desejo de fazer o dom total de si mesma exclusivamente a Deus. Poder-se-ia perguntar de que modo este desejo se conciliava com as «núpcias». A resposta vem-nos somente do desenrolar dos acontecimentos salvíficos, isto é, da acção especial do próprio Deus. Desde o momento da Anunciação, Maria sabe que deve realizar-se o seu desejo virginal, de entregar-se a Deus de modo exclusivo e total, precisamente tornando-se mãe do Filho de Deus. A maternidade por obra do Espírito Santo é a forma de doação que o próprio Deus espera da Virgem, «desposada» com José. E Maria pronuncia o seu fiat (faça-se).

O facto de ela ser «desposada» com José está incluído no mesmo desígnio de Deus. Isso é indicado por ambos os Evangelistas citados, mas de maneira particular por São Mateus. São muito significativas as palavras ditas a José: «Não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo» (Mt 1, 20). Elas explicam o mistério da esposa de José: Maria é virgem na sua maternidade. Nela «o Filho do Altíssimo» assume um corpo humano e torna-se «o Filho do homem».

Dirigindo-se a José com as palavras do anjo, Deus dirige-se a ele como sendo esposo da Virgem de Nazaré. Aquilo que nela se realizou por obra do Espírito Santo exprime ao mesmo tempo uma confirmação especial do vínculo esponsal, que já existia antes entre José e Maria. O mensageiro diz claramente a José: «Não temas receber contigo, Maria, tua esposa». Por conseguinte, aquilo que tinha acontecido anteriormente — os seus esponsais com Maria — tinha acontecido por vontade de Deus e, portanto, devia ser conservado. Na sua maternidade divina, Maria deve continuar a viver como «uma virgem, esposa de um esposo» (cf. Lc 1, 27).

19. Nas palavras da «anunciação» nocturna, José escuta não apenas a verdade divina acerca da inefável vocação da sua esposa, mas ouve novamente também a verdade acerca da própria vocação. Este homem «justo», que, segundo o espírito das mais nobres tradições do povo eleito, amava a Virgem de Nazaré e a ela se encontrava ligado por amor esponsal, é novamente chamado por Deus para este amor.

«José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu consigo a sua esposa»; o que se gerou nela «é obra do Espírito Santo». Ora, de tais expressões, não se imporá porventura deduzir que também o seu amor de homem tinha sido regenerado pelo Espírito Santo? Não se imporá porventura pensar que o amor de Deus, que foi derramado no coração humano pelo Espírito Santo (cf. Rom 5, 5), forma do modo mais perfeito todo o amor humano? Ele forma também — e de maneira absolutamente singular — o amor esponsal dos cônjuges, nele dando profundidade a tudo aquilo que seja humanamente digno e belo e tenha as marcas da exclusiva entrega, da aliança das pessoas e da comunhão autêntica, a exemplo de Mistério trinitário.

«José … recebeu consigo a sua esposa, a qual, sem que ele a conhecesse, deu à luz um filho» (Mt 1, 24-25). Estas palavras indicam ainda outra proximidade esponsal. A profundeza desta proximidade, a intensidade espiritual da união e do contacto entre pessoas — do homem e da mulher — provêm em última análise do Espírito que dá a vida (cf. Jo 6, 63). José, obediente ao Espírito, encontra precisamente nele a fonte do amor, do seu amor esponsal de homem; e este amor foi maior do que aquele «homem justo» poderia esperar, segundo a medida do próprio coração humano.

20. Na Liturgia, Maria é celebrada como tendo estado «unida a José, homem justo, por um vínculo de amor esponsal e virginal». (31) Trata-se, de facto , de dois amores que , conjuntamente, representam o mistério da Igreja, virgem e esposa, a qual tem no matrimónio de Maria e José o seu símbolo. «A virgindade e o celibato por amor do Reino de Deus não só não se contrapõem à dignidade do matrimónio, mas pressupõem-na e confirmam-na. O matrimónio e a virgindade são os dois modos de exprimir e de viver o único Mistério da Aliança de Deus com o seu povo», (32) que é comunhão de amor entre Deus e os homens.

Mediante o sacrifício total de si próprio, José exprime o seu amor generoso para com a Mãe de Deus, fazendo-lhe «dom esponsal de si». Muito embora decidido a afastar-se, para não ser obstáculo ao plano de Deus que nela estava a realizar-se, por ordem expressa do anjo ele manteve-a consigo e respeitou a sua condição de pertencer exclusivamente a Deus.

Por outro lado, foi do matrimónio com Maria que advieram para José a sua dignidade singular e os seus direitos em relação a Jesus. «é certo que a dignidade da Mãe de Deus assenta tão alto, que nada pode haver de mais sublime; mas, por isso mesmo que entre a Santíssima Virgem a José foi estreitado o vínculo conjugal, não há dúvida de que ele se aproximou como ninguém dessa altíssima dignidade, em virtude da qual a Mãe de Deus ocupa lugar eminente, a grande distância de todas as criaturas. Uma vez que o casamento é a comunidade e a amizade máxima a que, por sua natureza, anda ligada a comunhão de bens, segue-se que, se Deus quis dar José como esposo à Virgem, deu-lo não apenas como companheiro na vida, testemunha da sua virgindade e garante da sua honestidade, mas também para que ele participasse, mediante o pacto conjugal, na sua excelsa grandeza. (33)

21. Um tal vínculo de caridade constituiu a vida da Sagrada Família; primeiro, na pobreza de Belém, depois, durante o exílio no Egipto e, em seguida, quando ela morava em Nazaré. A Igreja rodeia de profunda veneração esta Família, apresentando-a como modelo para todas as famílias. A Família de Nazaré, directamente inserida no mistério da Incarnação, constitui ela própria um mistério particular. E ao mesmo tempo — como na Incarnação — é a este mistério que pertence a verdadeira paternidade: a forma humana da família do Filho de Deus, verdadeira família humana, formada pelo mistério divino. Nela, José é o pai: a sua paternidade, porém, não é só «aparente», ou apenas «substitutiva»; mas está dotada plenamente da autenticidade da paternidade humana, da autenticidade da missão paterna na família. Nisto está contida uma consequência da união hipostática: humanidade assumida na unidade da Pessoa divina do Verbo-Filho, Jesus Cristo. Juntamente com a assunção da humanidade, em Cristo foi também «assumido» tudo aquilo que é humano e, em particular, a família, primeira dimensão da sua existência na terra. Neste contexto foi «assumida» também a paternidade humana de José.

Com base neste princípio, adquirem o seu significado profundo as palavras dirigidas por Maria a Jesus, no templo, quando ele tinha doze anos: «Teu pai e eu … andávamos à tua procura». Não se trata de uma frase convencional: as palavras da Mãe de Jesus indicam toda a realidade da Incarnação, que pertence ao mistério da Família de Nazaré. José, que desde o princípio aceitou, mediante «a obediência da fé», a sua paternidade humana em relação a Jesus, seguindo a luz do Espírito Santo que por meio da fé se doa ao homem, por certo ia descobrindo cada vez mais amplamente o dom inefável desta sua paternidade.

IV-O TRABALHO EXPRESSÃO DO AMOR

22. A expressão quotidiana deste amor na vida da Família de Nazaré é o trabalho. O texto evangélico especifica o tipo de trabalho, mediante o qual José procurava garantir a sustentação da Família: o trabalho de carpinteiro. Esta simples palavra envolve toda a extensão da vida de José. Para Jesus este período abrange os anos da vida oculta, de que fala o Evangelista, a seguir ao episódio que sucedeu no templo: «Depois, desceu com eles para Nazaré e era-lhes submisso» (Lc 2, 51). Esta «submissão, ou seja, a obediência de Jesus na casa de Nazaré é entendida também como participação no trabalho de José. Aquele que era designado como o «filho do carpinteiro», tinha aprendido o ofício de seu «pai» putativo. Se a Família de Nazaré, na ordem da salvação e da santidade, é exemplo e modelo para as famílias humanas, é-o analogamente também o trabalho de Jesus ao lado de José carpinteiro. Na nossa época, a Igreja pôs em realce isto mesmo, também com a memória litúrgica de São José Operário, fixada no primeiro de maio. O trabalho humano, em particular o trabalho manual, tem no Evangelho uma acentuação especial. Juntamente com a humanidade do Filho de Deus ele foi acolhido no mistério da Incarnação, como também foi redimido de maneira particular. Graças ao seu banco de trabalho, junto do qual exercitava o próprio ofício juntamente com Jesus, José aproximou o trabalho humano do mistério da Redenção.

23. No crescimento humano de Jesus «em sabedoria, em estatura e em graça» teve uma parte notável a virtude da laboriosidade, dado que «o trabalho é um bem do homem», que «transforma a natureza» e torna o homem, «em certo sentido, mais homem». (34)

A importância do trabalho na vida do homem exige que se conheçam e assimilem todos os seus conteúdos, «para ajudar os demais homens a aproximarem-se através dele de Deus, Criador e Redentor, e a participarem nos seus desígnios salvíficos quanto ao homem e quanto ao mundo; e ainda, a aprofundarem na sua vida e amizade com Cristo, tendo, mediante a fé vivida, uma participação no seu tríplice múnus: de Sacerdote, de Profeta e de Rei». (35)

24. Trata-se, em última análise, da santificação da vida quotidiana, no que cada pessoa deve empenhar-se, segundo o próprio estado, e que pode ser proposta apontando para um modelo accessível a todos: São José é o modelo dos humildes, que o Cristianismo enaltece para grandes destinos; … é a prova de que para ser bons e autênticos seguidores de Cristo não se necessitam «grandes coisas», mas requerem-se somente virtudes comuns, humanas, simples e autênticas». (36)

V-O PRIMADO DA VIDA INTERIOR

25. Também quanto ao trabalho de carpinteiro na casa de Nazaré se estende o mesmo clima de silêncio, que acompanha tudo aquilo que se refere à figura de José. Trata-se, contudo, de um silêncio que desvenda de maneira especial o perfil interior desta figura. Os Evangelhos falam exclusivamente daquilo que José «fez»; no entanto, permitem-nos auscultar nas suas «acções», envolvidas pelo silêncio, um clima de profunda contemplação. José estava quotidianamente em contacto com o mistério «escondido desde todos os séculos», que «estabeleceu a sua morada» sob o tecto da sua casa. Isto explica, por exemplo, a razão por que Santa Teresa de Jesus, a grande reformadora do Carmelo contemplativo, se tornou promotora da renovação do culto de São José na cristiandade ocidental.

26. O sacrifício total, que José fez da sua existência inteira, às exigências da vinda do Messias à sua própria casa, encontra a motivação adequada na «sua insondável vida interior, da qual lhe provêm ordens e consolações singularíssimas; dela lhe decorrem também a lógica e a força, própria das almas simples e límpidas, das grandes decisões, como foi a de colocar imediatamente à disposição dos desígnios divinos a própria liberdade, a sua legítima vocação humana e a felicidade conjugal, aceitando a condição, a responsabilidade e o peso da família e renunciando, por um incomparável amor virgíneo, ao natural amor conjugal que constitui e alimenta a mesma família». (37)

Esta submissão a Deus, que é prontidão de vontade para se dedicar às coisas que dizem respeito ao seu serviço, não é mais do que o exercício da devoção, que constitui uma das expressões da virtude da religião. (38)

27. A comunhão de vida entre José e Jesus leva-nos a considerar ainda o mistério da Incarnação precisamente sob o aspecto da humanidade de Cristo, instrumento eficaz da divindade para a santificação dos homens: «Por força da divindade, as acções humanas de Cristo foram salutares para nós, produzindo em nós a graça, quer em razão do mérito, quer por uma certa eficácia». (39)

Entre estas acções os Evangelistas privilegiam aquelas que dizem respeito ao mistério pascal; mas não deixam de frisar bem a importância do contacto físico com Jesus em ordem às curas de enfermidades (cf., por exemplo, Mc 1, 41) e a influência por ele exercida sobre João Baptista, quando ambos estavam ainda no seio materno (cf. Lc 1, 41-44).

O testemunho apostólico não transcurou — como já se viu — a narração do nascimento de Jesus, da circuncisão, da apresentação no templo, da fuga para o Egipto e da vida oculta em Nazaré, por motivo do «mistério» de graça contido em tais «gestos», todos eles salvíficos, porque todos participavam da mesma fonte de amor: a divindade de Cristo. Se este amor se irradiava, através da sua humanidade, sobre todos os homens, certamente eram por ele beneficiados, em primeiro lugar, aqueles que a vontade divina tinha posto na sua maior intimidade: Maria, sua Mãe, e José, seu pai putativo . (40)

Uma vez que o amor «paterno» de José não podia deixar de influir sobre o amor «filial» de Jesus e, vice-versa, o amor «filial» de Jesus não podia deixar de influir sobre o amor «paterno» de José, como chegar a conhecer as profundezas desta singularíssima relação? Justamente, pois, as almas mais sensíveis aos impulsos do amor divino vêem em José um exemplo luminoso de vida interior.

Mais ainda, a aparente tensão entre a vida activa e a vida contemplativa tem em José uma superação ideal, possível para quem possui a perfeição da caridade. Atendo-nos à conhecida distinção entre o amor da verdade (caritas veritatis) e as exigências do amor (necessitat caritatis), podemos dizer que José fez a experiência quer do amor da verdade, ou seja, do puro amor de contemplação da Verdade divina que irradiava da humanidade de Cristo, quer das exigências do amor, ou seja, do amor igualmente puro do serviço, requerido pela protecção e pelo desenvolvimento dessa mesma humanidade. (41)

VI-PATRONO DA IGREJA DO NOSSO TEMPO

28. Em tempos difíceis para a Igreja, Pio IX, desejando confiá-la à especial protecção do Santo Patriarca José, declarou-o «Patrono da Igreja católica». (42) Esse Sumo Pontífice sabia que não estava a levar a efeito um gesto peregrino, porque, em virtude da excelsa dignidade concedida por Deus a este seu servo fidelíssimo, «a Igreja, depois da Virgem Santíssima, esposa dele, teve sempre em grande honra e cumulou de louvores o Bem-aventurado José e, no meio das angústias, de preferência foi a ele que recorreu». (43)

Quais são os motivos de tão grande confiança? O Papa Leão XIII expõe-nos assim: «As razões pelas quais o Bem-aventurado José deve ser considerado especial Patrono da Igreja, e a Igreja, por sua vez, deve esperar muitíssimo da sua protecção e do seu patrocínio, provêm principalmente do facto de ele ser esposo de Maria e pai putativo de Jesus (…). José foi a seu tempo legítimo e natural guardião, chefe e defensor da divina Família (…). É algo conveniente e sumamente digno para o Bem-aventurado José, portanto, que, de modo análogo àquele com que outrora costumava socorrer santamente, em todo e qualquer acontecimento, a Família de Nazaré, também agora cubra e defenda com o seu celeste patrocínio a Igreja de Cristo». (44)

29. Este patrocínio deve ser invocado e continua sempre a ser necessário à Igreja, não apenas para a defender dos perigos, que continuamente se levantam, mas também e sobretudo para a confortar no seu renovado empenho de evangelização do mundo e de levar por diante a nova evangelização dos países e nações «onde — como eu escrevia na Exortação Apostólica Christifideles laici — a religião e a vida cristã foram em tempos tão prósperas», mas «se encontram hoje submetidas a dura provação». (45) Para levar o primeiro anúncio de Cristo ou para voltar a apresentá-lo onde ele foi transcurado ou esquecido, a Igreja precisa de uma particular «força do Alto» (cf. Lc 24, 49), que é dom do Espírito do Senhor, certamente, mas não anda disjunta da intercessão e do exemplo dos seus Santos.

30. Além da confiança na protecção segura de José, a Igreja tem confiança no seu exemplo insigne, um exemplo que transcende cada um dos estados de vida e se propõe a toda a comunidade cristã, sejam quais forem a condição e as tarefas de cada um dos fiéis.

Como se diz na constituição do Concílio Vaticano II sobre a Divina Revelação, a atitude fundamental de toda a Igreja deve ser de «religiosa escuta da palavra de Deus»; (46) ou seja, de absoluta disponibilidade para se pôr fielmente ao serviço da vontade salvífica de Deus, revelada em Jesus. Logo no princípio da Redenção humana, nós encontramos o modelo da obediência encarnado, depois de Maria, precisamente em José, aquele que, se distingue pela execução fiel das ordens de Deus.

O Papa Paulo VI exortava a invocar o seu patrocínio, «como a Igreja, nestes últimos tempos, tem o costume de fazer, para si mesma, antes de mais nada, para uma espontânea reflexão teológica sobre o conúbio da acção divina com a acção humana na grande economia da Redenção, no qual, a primeira, a acção divina, é só por si totalmente suficiente, mas a segunda, a acção humana, a nossa, embora não seja capaz de fazer coisa alguma sozinha (cf. Jo 15, 5), nunca está dispensada de uma humilde, mas condicional e nobilitante colaboração. Além disso, a Igreja invoca-o como protector, por um desejo profundo e actualíssimo de rejuvenescer a sua existência secular, com autênticas virtudes evangélicas, como as que refulgem em São José». (47)

31. A Igreja transforma estas exigências em oração. Recordando que Deus confiou os inícios da nossa Redenção à guarda desvelada de São José, suplica-lhe: que lhe conceda colaborar fielmente na obra da salvação; e que lhe dê a mesma fidelidade e pureza de coração que animaram José no serviço do Verbo Incarnado; e, ainda, a graça de caminhar diante do mesmo Deus pelas vias da santidade e da justiça, amparados pelo exemplo e pela intercessão de São José. (48)

Há cem anos, exactamente, o Papa Leão XIII exortava o mundo católico a rezar para obter a protecção de São José, Patrono de toda a Igreja. A Carta Encíclica Quamquam pluries fazia apelo para aquele «amor paterno» que José «dedicava ao Menino Jesus» e recomendava-lhe, a ele «próvido guarda da divina Família, a preciosa herança que Jesus Cristo adquiriu com o próprio sangue». Desde então, a Igreja — como foi recordado mais acima — implora a protecção de São José, «em virtude daquele vínculo de caridade que o uniu à imaculada Virgem Mãe de Deus», e recomenda-lhe todas as suas solicitudes, também pelo que se refere às ameaças que incumbem sobre a família humana.

Nos dias de hoje, temos ainda numerosos motivos para rezar da mesma maneira: «Afastai de nós, ó pai amantíssimo, esta peste de erros e de vícios…, assisti-nos propício, do céu, nesta luta contra o poder das trevas …; e assim como outrora livrastes da morte a vida ameaçada do Menino Jesus, assim hoje defendei a santa Igreja de Deus das ciladas do inimigo e de todas as adversidades». (49) Hoje ainda temos motivos que perduram para recomendar todos e cada um dos homens a São José.

32. Desejo vivamente que esta evocação da figura de São José renove também em nós o ritmo da oração que, há um século atrás, o meu Predecessor estabeleceu que lhe fosse elevada. É fora de dúvida, efectivamente, que esta oração e a própria figura de São José se revestem de actualidade renovada para a Igreja do nosso tempo, em relação com o novo Milénio cristão.

O Concílio Vaticano II procurou sensibilizar-nos novamente a todos para «as grandes coisas de Deus» e para aquela «economia da salvação» de que São José foi particularmente ministro. Recomendando-nos, pois, à protecção daquele a quem o próprio Deus «confiou a guarda dos seus tesouros mais preciosos e maiores», (50) aprendamos com ele, ao mesmo tempo, a servir a «economia da salvação». Que São José se torne para todos um mestre singular no serviço da missão salvífica de Cristo, que, na Igreja, compete a cada um e a todos: aos esposos e aos pais, àqueles que vivem do trabalho das próprias mãos e de todo e qualquer outro trabalho, às pessoas chamadas para a vida contemplativa e às que são chamadas ao apostolado.

O homem justo, que trazia em si o património da Antiga Aliança, foi também introduzido no «princípio» da nova e eterna Aliança em Jesus Cristo. Que ele nos indique os caminhos desta Aliança salvífica no limiar do próximo Milénio, durante o qual deve perdurar e desenvolver-se ulteriormente a «plenitude dos tempos» própria do mistério inefável da Incarnação do Verbo.

Que São José obtenha para a Igreja e para o mundo, assim como para um de nós, a bênção do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Dado em Roma, junto de São Pedro, a 15 de Agosto – solenidade da Assunção de Nossa Senhora – no ano de 1989, undécimo ano de Pontificado.

Reflexão de outros Papas sobre São José

4. Entre os diversos postulata que os Padres do Concílio Vaticano I reunidos em Roma (1869-1870), apresentaram a Pio IX, os dois primeiros eram concernentes a S. José. Antes de tudo, pedia-se que seu culto tivesse lugar mais elevado na sagrada liturgia; trazia a assinatura de 153 bispos. O outro, assinado por 43 superiores gerais de ordens religiosas, suplicava a solene proclamação de S. José como Padroeiro da Igreja Universal.(1)

Pio IX

5. Pio IX acolheu um e outro com alegria. Desde o início de seu pontificado(2) havia fixado a festa e a liturgia para o patrocínio de s. José no III domingo depois da páscoa. Já em 1854, em vibrante e fervorosa alocucão, indicara s. José como a esperança mais segura da Igreja depois da Virgem santíssima; e no dia 8 de dezembro de 1870, suspenso o concílio Vaticano pelos acontecimentos políticos, escolheu a feliz coincidência da festa da Imaculada Conceição para a proclamação mais solene e oficial de s. José como padroeiro da Igreja universal e para a elevação da festa de 19 de março à celebração de rito duplo de 1ª classe. (3)

6. Foi – o daquele 8 de dezembro de 1870 – um breve, mas precioso e admirável Decreto “Urbi et Orbi”, verdadeiramente digno do “Ad perpetuam rei memorium”, que abriu um veio de riquíssimas e preciosas inspirações aos sucessores de Pio IX.

Leão XIII

7. Com efeito, eis que o imortal Leão XIII apresenta para a festa da Assunção de 1889, com a carta Quamquam pluries,(4) o documento mais amplo e copioso até então publicado por um papa, em honra do pai putativo de Jesus, elevado em sua luz característica de modelo dos pais de família e dos operários. Provém daí a bela oração: “A vós, ó Bem-aventurado s. José”, que encheu de tanta doçura nossa infância.

S. Pio X

8. O santo pontífice Pio X acrescentou as expressões do Papa Leão XIII numerosas outras de devoção e de amor para com s. José, acolhendo de bom grado a dedicatória que lhe foi feita de um tratado que ilustra seu culto,(5) e multiplicando o tesouro das indulgências para a recitação das ladainhas, tão caras e tão doces de dizer. Como estão bem expressos os termos dessa concessão! “O santíssimo senhor nosso Pio X engrandece o ínclito patriarca s. José pai putativo, esposo puríssimo da Virgem mãe e poderoso patrono da Igreja católica junto de Deus” – e vede que delicadeza de sentimentos pessoais – “cujo glorioso nome é aprendido desde o nascimento, e é envolvido de piedade e religião constante”.(6) E os termos com que anunciou os motivos dos novos favores concedidos: “para cultuar s. José, padroeiro da Igreja universal”.(7)

Bento XV

9. Ao desencadear-se a primeira grande guerra européia, quando os olhos de s. Pio X se fechavam à vida terrestre, eis que aparecia providencialmente o Papa Bento XV, que atravessou qual um astro benéfico de consolação universal os anos dolorosos de 1914 a 1918. Também ele quis logo promover o culto do santo patriarca. Com efeito, é a ele que se deve a introdução de dois novos prefácios ao cânone da santa missa: precisamente o de s. José e o da missa dos defuntos, associa com felicidade um e outro em dois decretos do mesmo dia, 9 de abril de 1919,(8) como a lembrar uma concomitância e fusão de dor e de conforto entre as duas famílias: a família celeste de Nazaré, da qual s. José era o chefe legal, e a imensa família humana afligida por uma consternação universal pelas inúmeras vítimas da guerra devastadora. Que triste, mas também suave e feliz aproximação: Duma parte, s. José e de outra “o signifer sanctus Michael“: ambos apresentando as almas dos defuntos ao Senhor “na luz santa”.

10. No ano seguinte – 25 de julho de 1920 – o papa Bento XV voltava a este assunto no cinqüentenário, que então se preparava, da proclamação – já feita por Pio IX – de s. José como Padroeiro da Igreja universal; e voltava numa luz de doutrina teológica com o Motu próprio Bonum Sane, (9) todo impregnado de ternura e singular confiança. Oh! que belo iluminar-se da suave e benévola figura do santo, que ele faz o povo cristão invocar para proteger a igreja militante, no momento mesmo em que reflorescem suas melhores energias para a reconstrução espiritual e material, depois de tantas calamidades; e para reconforto de tantos milhões de vítimas humanas que jaziam às portas da morte e para as quais o Papa Bento XV queria pedir aos bispos e as numerosas associações piedosas espalhadas pelo mundo, a intervenção suplicante de suas orações a s. José, padroeiro dos agonizantes.

Pio XI e Pio XII

11. Seguindo a mesma linha de conselho da devoção fervorosa ao santo patriarca, os dois últimos pontífices Pio XI e Pio XII – ambos sempre de cara e venerável memória – se sucederam numa viva e edificante fidelidade de ensino, de exortação, de fervor.

12. Pelo menos quatro vezes, Pio XI, em solenes alocuções relativas à glorificação de novos santos e, freqüentemente, na ocorrência de 19 de março – por exemplo em 1928,(10) depois em 1935 e ainda em 1937 – aproveitou a ocasião para exaltar as diferentes luzes que ornam a fisionomia espiritual do guardião de Jesus, do castíssimo esposo de Maria, do piedoso e modesto operário de Nazaré, e do padroeiro da Igreja universal, poderoso escudo de defesa contra os esforços do ateísmo mundial que visa a desagregação das nações cristãs.

13. Também Pio XII tomou de seu predecessor a nota fundamental no mesmo tom, em numerosas alocuções, todas tão belas, vibrantes e felizes. Como a 10 de abril de 1940(11) quando convidava os jovens esposos a se colocarem sob o seguro e suave manto do Esposo de Maria; e em 1945(12) quando convidava os membros da associação cristã dos operários a honrá-lo como elevado exemplo e defensor invencível de suas falanges; e dez anos depois, em 1955(13) quando anunciava a instituição da festa anual de s. José operário. Na realidade, esta festa de instituição recentíssima, fixada a 1° de maio, veio suprimir a da 4ª feira da segunda semana de páscoa, enquanto a festa tradicional de 19 de março marcará de agora em diante a data mais solene e definitiva do patrocínio de s. José sobre a Igreja universal.

14. O mesmo Santo Padre Pio XII quis ornar como que de preciosíssima coroa o peito de s. José com uma fervorosa oração proposta à devoção dos sacerdotes e fiéis de todo o mundo, e cuja recitação enriqueceu de numerosas indulgências. Oração de caráter eminentemente profissional e social, como convém àqueles que estão sujeitos à lei do trabalho, que é para todos “lei de honra, de vida pacífica e santa, prelúdio da felicidade imortal”. Diz ela, entre outras coisas: “Permanecei conosco, ó s. José, nos nossos momentos de prosperidade, quando tudo nos convida a gozar honestamente dos frutos de nossas fadigas; mas, sobretudo, permanecei conosco e sustentai-nos nas horas de tristeza quando parece que o céu quer fechar-se sobre nós e até os instrumentos de nosso trabalho vão escapar de nossas mãos”.(14)

15. Veneráveis Irmãos e caros filhos: pareceu-nos também oportuno propor estas notas de história e de piedade religiosa a devota atenção de vossas almas, educadas na delicadeza do sentir e do viver cristão e católico, precisamente nesta data de 19 de março, quando a festa de s. José coincide com o início do tempo da Paixão e nos prepara para intenso contato com os mistérios mais emocionantes e salutares da sagrada liturgia. As disposições que prescrevem o véu sobre as imagens do cruciilxo, de Maria e dos santos durante as duas semanas de preparação da páscoa, são convite a um recolhimento íntimo e sagrado, concernente as comunicações com o Senhor, por meio da oração que deve ser meditação e súplica assídua e ardente. O Senhor, a Virgem Santíssima e os Santos estão a espera de nossas confidências; e é bem natural que estas se regam ao que corresponde melhor às solicitudes da Igreja católica universal.

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/john_xxiii/apost_letters/documents/hf_j-xxiii_apl_19610319_s.giuseppe_po.html

São José: Exemplo de Vida

A Virgem Maria foi escolhida para ser a Mãe de Jesus, pois, encontrou graça diante de Deus. Uma das graças que Maria recebeu de Deus, foi ter José como seu castíssimo esposo. O dom da castidade e pureza foi concedido, de forma esplêndida a José. Se Deus, exige pureza de coração para vê-lO (Mateus 5, 8), imagine a pureza concedida a José para ser Pai de Jesus e esposo de Maria. Pureza perfeita! Sublime castidade!

José teve a graça de ter muitas revelações divinas do plano de Deus, através de sonhos. José era tão puro e casto que até quando repousava, comungava com Deus. Os pensamentos de José sempre foram voltados para Deus. Por isso, mesmo quando dormia elevava o pensamento a Deus, e até mesmo seus sonhos estavam repletos da presença de Deus.

Com José, Jesus aprendeu a importância de vigiar e orar, pois, na infância em três ocasiões José acordou a noite para fazer cumprir a vontade de Deus. Foi um servo fiel e protetor da sagrada família. No colo de Maria, Jesus encontrava repouso e nos braços de José, encontrava segurança. São José é exemplo de um pai amável e vigilante, que, sempre protegeu, Maria e Jesus de todo as adversidades. Esta proteção se realizou com o auxílio da Providência Divina.

Fonte: Biografiadossantos.wordprees.com

São José também:

-é descendente de Abraão, da casa de Davi; descendência da qual nasceria o Salvador; (Mateus 1, 1-17)

– é carpinteiro. (Mateus 13, 55)

-foi escolhido para ser esposo da Virgem Maria e pai adotivo de Jesus. (Lucas 1, 26-27)

-é paciente e sábio, por isso, se retira, para refletir como havia se dado a gravidez milagrosa de Maria. Mas, avisado em sonho pelo anjo, é muito dócil em acolher Maria, e assim, todo o plano de salvação. (Mateus 1, 18-25)

-é pratico, tem coração humilde e simples, pois não tendo pousada para ficar, eis que tem a idéia de fazer da manjedoura local apropriado para receber Deus neste mundo.(Lucas 2, 1-7)

-estava presente na primeira adoração; (Mateus 2, 1-12)

-é homem simples que acolhe os pastores, para que louvem o nascimento de Jesus. (Lucas 2, 16-20)

-é obediente, pois cumpre fielmente a ordem dada pelo anjo nos sonhos.(Mateus 2, 13-15).

-era justo, pois, cumpria fielmente a lei, e apresentou Jesus no templo. (Lucas 2, 21-24)

-Permitia que as pessoas louvassem a Jesus; Ficava a escutar admirado pela Bondade do Pai do Céu, que lhe concedeu a honra de cuidar do menino Jesus. Permitiu que Simeão tomasse o menino Jesus nos braços e louvasse ao Pai do Céu, com grande alegria. Também permitiu que Ana se alegrasse com o cumprimento da promessa, a chegada de Jesus ao mundo, o nosso Salvador. (Lucas 2, 25-38)

-Levou Jesus, com parentes e conhecidos, para a festa da Páscoa. Acabado os dias de festa, ficou o menino Jesus em Jerusalém sem que percebesse. Mesmo assim, foi manso e humilde, estando a mais de 1 dia de viagem, teve o amor e compreensão de primeiro ir ver entre os parentes e conhecidos, se encontrava-o. E não acontecendo isso, teve a disponibilidade de fazer a viagem de volta, para buscar Jesus. O coração de José é muito generoso! Mesmo estando aflito, pelo fato da perda de Jesus, ao encontrá-lo entre os doutores da lei, ensinando com sabedoria, esperou o momento certo para falar. Esperou que Jesus terminasse de ensinar os doutores da lei. Também, sabendo das virtudes naturais da Virgem Maria(Imaculada desde o nascimento),  esperou que ela falasse primeiro. José sabia que a Virgem Maria era escolhida entre todas  as mulheres e por isso, esperou que ela tomasse a atitude de interceder a Jesus. José foi sábio para deixar que Maria falasse por ele, neste momento de aflição. Maria intercedeu a Jesus, dizendo: “Meu filho, que nos fizeste?! Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição.” Eis que Jesus responde: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” Mesmo sem compreender, José e Maria tiveram a humildade de acolher os ensinamentos de Jesus. Um lindo gesto de mansidão, docilidade e amor a Jesus. (Lucas 2, 41-52)


Devoção de Santa Teresa D’Ávila à São José

Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José, e muito me encomendei a ele. Claramente vi que desta necessidade, como de outras maiores referentes à honra e à perda da alma, esse pai e senhor meu salvou-me com maior lucro do que eu lhe sabia pedir. Não me recordo de lhe haver, até agora, suplicado graça que tenha deixado de obter. (p.41)

No estado em que me tinham posto os médicos da terra, vendo-me tão tolhida em tão pouca idade, resolvi recorrer aos médicos do céu. Embora sofresse as doenças com muita alegria, desejava curar-me. Imaginava que tendo saúde serviria muito mais a Deus. Por vezes também refletia que, se ficasse curada, mas fosse me condenar, melhor seria continuar como estava. É um dos nossos erros: não nos submetemos inteiramente ao que o Senhor faz. Ele sabe melhor do que nós o que nos convém. (p.41)

E São José mostrou quem era. Fez que me levantasse, andasse e não estivesse mais paralítica. (p.42)

Visão Espiritual com Nossa Senhora

“Por esses mesmos dias eu me encontrava na capela de um mosteiro da ordem do glorioso São Domingos, na festa da Assunção de Nossa Senhora. Considerava os inúmeros pecados, que em tempos idos havia confessado naquela igreja, e várias coisas de minha vida ruim. Sobreveio-me um arroubamento tão grande, que quase perdi de todo os sentidos. Sentei-me e penso que nem vi a elevação nem ouvi a missa, o que me deixou algum escrúpulo. Em tal estado pareceu-me que recobriam de uma veste de brancura e esplendor. A principio não enxergava quem vestia. Depois vi Nossa Senhora a meu lado direito e meu pai São José ao esquerdo, que me adornavam com aquelas vestes. Tive a intuição de que me faziam compreender que estava limpa de meus pecados.” (p.279)

“Depois de assim vestida, sentindo imensa felicidade e glória, logo me pareceu que a Senhora me tomava as mãos nas suas. Disse-me que eu lhe causava muito contentamento com a minha devoção ao glorioso São José. Estivesse certa de que o mosteiro se faria conforme os meus desejos. Nele o Senhora, ela e são José seriam bem servidos. Não receasse relaxação neste ponto. Embora se fundasse sob uma jurisdição, que não era do meu gosto, ela e seu esposo nos guardariam. Seu Filho já nos havia prometido andar conosco.” (p.279)

“Como sinal da verdade de suas promessas deu-me uma jóia. Pareceu-me então que me punha ao pescoço um colar formosíssimo, do qual pendia uma cruz de alto valor. Esse ouro e essas pedras preciosas eram tão diferentes dos que existem no mundo, que não há comparação. Sua formosura é muito superior ao que na terra podemos imaginar. O intelecto seria incapaz de perceber de que matéria era a veste, nem a imaginação pode produzir a alvura que apraz o Senhor representar-nos. Todas as coisas deste mundo se nos afiguram, por assim dizer, mero esboço de carvão.” (p.279)

“A formosura que vi em Nossa Senhora, era grandíssima. Não pude observar nenhum de seus traços em particular, senão em conjunto a beleza do rosto. Estava vestida de branco, cercada de imenso esplendor, mas suave, que não deslumbrava. Não vi tão claramente o glorioso São José, mas percebi que estava ali, como nas visões de que falei, nas quais não se vêem imagens. Nossa Senhora parecia muito jovem. Estiveram comigo algum tempo, e eu sentia regozijo e glória, como jamais talvez tenha sentido, e os quais não quisera ver findar. Em seguida, pareceu-me vê-los subir ao céu, rodeados de inúmeros de inumeráveis anjos. Fiquei com muita saudade, mas tão consolada, enlevada, absorta em oração e enternecida, que tive algum tempo quase fora de mim, sem conseguir falar nem fazer movimento.” (p.279-280)

Um dia, depois da comunhão, Sua majestade me mandou expressamente que trabalhasse nessa empresa com todas as minhas forças. Fez grandes promessas que não se deixaria fundar o mosteiro, no qual ele seria muito bem servido. Disse-me que devia ser dedicado a São José. Este glorioso Santo nos guardaria a uma porta, Nossa Senhora à outra, e Cristo andaria conosco. A nova casa se tornaria uma estrela da qual se irradiaria grande esplendor. Embora as ordens religiosas estivessem relaxadas, eu não devia crer que nelas ele fosse pouco servido. Disse-me ainda que refletisse no que seria no mundo se não houvesse religiosos. Ordenou-me, enfim, referir tudo isso ao meu confessor e suplicar-lhe que não fizesse oposição à projetada obra, nem estorvasse a sua realização. (p.268)

Fonte: Santa Teresa D’Ávila. Livro da Vida. Paulus.

Anúncios

Vida da Beata Madre Teresa de Calcutá

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II
DURANTE O SOLENE RITO DE BEATIFICAÇÃO
DE MADRE TERESA
NO DIA MISSIONÁRIO MUNDIAL

Domingo, 19 de Outubro de 2003

1. “Quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se servo de todos” (Mc 10, 44). Estas palavras de Jesus aos discípulos, que ressoaram há pouco nesta Praça, indicam qual é o caminho que leva à “grandeza” evangélica. É o caminho que o próprio Cristo percorreu até à Cruz; um itinerário de amor e de serviço, que inverte qualquer lógica humana. Ser o servo de todos!

Madre Teresa de Calcutá, Fundadora dos Missionários e das Missionárias da Caridade, que hoje tenho a alegria de inscrever no Álbum dos Beatos, deixou-se guiar por esta lógica. Estou pessoalmente grato a esta mulher corajosa, que senti sempre ao meu lado. Ícone do Bom Samaritano, ela ia a toda a parte para servir Cristo nos mais pobres entre os pobres. Nem conflitos nem guerras conseguiam ser um impedimento para ela.

De vez em quando vinha falar-me das suas experiências ao serviço dos valores evangélicos. Recordo, por exemplo, as suas intervenções a favor da vida e contra o aborto, também quando lhe foi conferido o prémio Nobel pela paz (Oslo, 10 de Dezembro de 1979). Costumava dizer:  “Se ouvirdes que alguma mulher não deseja ter o seu menino e pretende abortar, procurai convencê-la a trazer-mo. Eu amá-lo-ei, vendo nele o sinal do amor de Deus”.

2. Não é significativo que a sua beatificação se realize precisamente no dia em que a Igreja celebra o Dia Missionário Mundial? Com o testemunho da sua vida, Madre Teresa recorda a todos que a missão evangelizadora da Igreja passa através da caridade, alimentada na oração e na escuta da palavra de Deus. É emblemática deste estilo missionário a imagem que mostra a nova Beata que, com uma mão, segura uma criança e, com a outra, desfia o Rosário.

Contemplação e acção, evangelização e promoção humana:  Madre Teresa proclama o Evangelho com a sua vida inteiramente doada aos pobres mas, ao mesmo tempo, envolvida pela oração.

3. “Quem quiser ser grande entre vós faça-se Vosso servo” (Mc 10, 43). É com particular emoção que hoje recordamos Madre Teresa, grande serva dos pobres, da Igreja e do Mundo inteiro. A sua vida é um testemunho da dignidade e do privilégio do serviço humilde. Ela escolheu ser não apenas a mais pequena, mas a serva dos mais pequeninos. Como mãe autêntica dos pobres, inclinou-se diante dos que sofriam várias formas de pobreza. A sua grandeza reside na sua capacidade de doar sem calcular o custo, de se doar “até doer”. A sua vida foi uma vivência radical e uma proclamação audaciosa do Evangelho.

O brado de Jesus na cruz, “Tenho sede” (Jo 19, 28), que exprime a profundidade do desejo que o homem tem de Deus, penetrou no coração de Madre Teresa e encontrou terreno fértil no seu coração. Satisfazer a sede que Jesus tem de amor e de almas, em união com Maria, Sua Mãe, tinha-se tornado a única finalidade da existência de Madre Teresa, e a força interior que a fazia superar-se a si mesma e “ir depressa” de uma parte a outra do mundo, a fim de se comprometer pela salvação e santificação dos mais pobres.

4. “Sempre que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes” (Mt 25, 40). Este trecho do Evangelho, tão fundamental para compreender o serviço de Madre Teresa aos pobres, estava na base da sua convicção, cheia de fé, que ao tocar os corpos enfraquecidos dos pobres tocava o corpo de Cristo. O seu serviço destinava-se ao próprio Jesus, escondido sob as vestes angustiantes dos mais pobres. Madre Teresa realça o significado mais profundo do serviço:  um gesto de amor feito aos famintos, aos sequiosos, aos estrangeiros, a quem está nu, doente, preso (cf. Mt 25, 34-36), é feito ao próprio Jesus.

Ao reconhecê-l’O servia-O com grande devoção, exprimindo a delicadeza do seu amor esponsal. Assim, no dom total de si a Deus e ao próximo, Madre Teresa encontrou a sua satisfação mais nobre e viveu as qualidades mais elevadas da sua feminilidade. Desejava ser um “sinal do amor de Deus, da presença de Deus, da compaixão de Deus” e, desta forma, recordar a todos o valor e a dignidade de cada filho de Deus “criado para amar e para ser amado”. Era assim que Madre Teresa “levava as almas para Deus e Deus às almas”, aliviando a sede de Cristo, sobretudo das pessoas mais necessitadas, cuja visão de Deus tinha sido ofuscada pelo sofrimento e pela dor.

5. “Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10, 45). Madre Teresa partilhou a paixão do Crucificado, de modo especial durante longos anos de “obscuridade interior”. Aquela foi a prova, por vezes lancinante, acolhida como um singular “dom e privilégio”.

Nos momentos mais difíceis ela recorria com mais tenacidade à oração diante do Santíssimo Sacramento. Esta difícil angústia espiritual levou-a a identificar-se cada vez mais com aqueles que servia todos os dias, experimentando o sofrimento e por vezes até a recusa. Gostava de repetir que a maior pobreza é não sermos desejados, não ter ninguém que se ocupe de nós.
6. “Dai-nos, Senhor, a Vossa graça, em Vós esperamos!”. Quantas vezes, como o Salmista, também Madre Teresa, nos momentos de desolação interior, repetiu ao seu Senhor:  “Em Vós, meu Deus, em Vós espero!”.

Prestemos honra a esta pequena mulher apaixonada por Deus, humilde mensageira  do  Evangelho  e  infatigável benfeitora  da  nossa  época.  Aceitemos a  sua  mensagem  e  sigamos  o  seu exemplo.

Virgem Maria, Rainha de todos os Santos, ajuda-nos a ser mansos e humildes de coração como esta intrépida mensageira do Amor. Ajuda-nos a servir com a alegria e com o sorriso todas as pessoas que encontramos. Ajuda-nos a ser missionários de Cristo, nossa paz e nossa esperança. Amém!

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/2003/documents/hf_jp-ii_hom_20031019_mother-theresa_po.html

JOÃO PAULO II

ANGELUS

Domingo, 19 de Outubro de 2003

Transmito as minhas calorosas saudações aos peregrinos de língua inglesa, especialmente aos que vieram da Índia e dos Estados Unidos da América. Que o exemplo de Madre Teresa aumente em vós o amor pelo Senhor e inspire um serviço cada vez mais profundo aos necessitados.

Saúdo  os  peregrinos  de  língua  macedónia.

Saúdo  os  peregrinos  de  expressão albanesa.

Dirijo a minha saudação aos peregrinos provenientes da Itália, da Europa e do mundo inteiro, em particular as Missionárias e os Missionários da Caridade, e quantos colaboram com eles no serviço aos mais pobres.

Ao dispormo-nos agora para a recitação do Angelus, recordemos que Maria Santíssima foi sempre o modelo para Madre Teresa, tanto na oração como na acção missionária.

Graças à intercessão da nova Beata, a Virgem nos faça progredir no amor a Deus e ao próximo.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/angelus/2003/documents/hf_jp-ii_ang_20031019_po.html

PALAVRAS DO PAPA JOÃO PAULO II
RECORDANDO O 1° ANIVERSÁRIO DA MORTE
DE MADRE TERESA DE CALCUTÁ

Sábado, 5 de Setembro de 1998

Exactamente há um ano, na noite de 5 de Setembro, morria em Calcutá a Madre Teresa. A sua recordação continua viva no coração de cada um de nós, em toda a Igreja e no mundo inteiro. Esta pequena mulher, que veio de uma família humilde, que maravilhosa obra soube realizar com a força da fé em Deus e do amor pelo próximo!

Na realidade, a Madre Teresa foi um dom de Deus aos mais pobres dos pobres; e ao mesmo tempo, precisamente pelo seu extraordinário amor para com os últimos, foi e continua a ser um dom singular para a Igreja e para o mundo. A sua total doação a Deus, todos os dias reconfirmada na oração, traduziu-se numa total doação ao próximo.

No sorriso, nos gestos e nas palavras da Madre Teresa, Jesus caminhou  ainda pelas estradas do mundo como Bom Samaritano, e continua a fazê-lo nas Missionárias e nos Missionários da Caridade, que formam a grande família por ela fundada. Agradecemos às filhas e aos filhos da Madre Teresa a sua radical opção evangélica e oramos por todos eles, para que sejam fiéis ao carisma que o Espírito Santo suscitou na sua Fundadora.

Não esqueçamos o grande exemplo deixado pela Madre Teresa, nem nos limitemos a comemorá-la com as palavras! Tenhamos a coragem de pôr sempre no primeiro lugar o homem e os seus direitos fundamentais. Aos Chefes das Nações, tanto ricas como pobres, digo: Não confieis no poder das armas! Procedei com decisão e lealdade pela via do desarmamento, para destinar os necessários recursos aos verdadeiros e grandes objectivos da civilização, para combater unidos contra a fome e as doenças, para que cada homem possa viver e morrer como homem. Isto quer Deus, que no-lo recordou também através do testemunho da Madre Teresa.

E ela, do Céu, nos assista e acompanhe!

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1998/september/documents/hf_jp-ii_spe_19980905_madre-teresa_po.html

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS PEREGRINOS VINDOS A ROMA PARA
A BEATIFICAÇÃO DE MADRE TERESA DE CALCUTÁ

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2003

Venerados Irmãos no Episcopado
Queridos Missionários
e Missionárias da Caridade
Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. Saúdo-vos cordialmente e uno-me à vossa acção de graças a Deus com alegria pela beatificação de Madre Teresa de Calcutá. Sentia-me ligado a ela por uma grande estima e sincero afecto. Por isto sinto-me particularmente feliz por me encontrar convosco, suas filhas e filhos espirituais. Saúdo de modo especial a Irmã Nírmala, recordando o dia em que Madre Teresa veio a Roma para a apresentar pessoalmente. Faço o meu pensamento extensivo a todas as pessoas que pertencem à grande família espiritual desta nova Beata.

2. “Missionária da Caridade: Madre Teresa foi precisamente isto, de nome e de facto”. Repito hoje comovido estas palavras, que pronunciei no dia seguinte à sua morte (Angelus de 7.9.1997).
Antes de mais, missionária. Não há dúvida de que a nova Beata foi uma das maiores missionárias do século XX. Desta mulher simples, proveniente de uma das áreas mais pobres da Europa, o Senhor fez um instrumento eleito (cf. Act 9, 15) para anunciar o Evangelho a todo o mundo não com a pregação, mas com gestos quotidianos de amor em benefício dos mais pobres. Missionária com a linguagem mais universal:  a linguagem da caridade sem limites nem exclusões, sem preferências, a não ser em relação aos mais abandonados.

Missionária da caridade. Missionária de Deus que é caridade, que prefere os pequeninos e os humildes, que se inclina sobre o homem ferido no corpo e no espírito e derrama nas suas chagas “o óleo do conforto e o vinho da esperança”. Deus realizou isto na Pessoa do seu Filho feito homem, Jesus Cristo, bom Samaritano da humanidade. Ele continua a fazê-lo na Igreja, sobretudo através dos Santos da caridade. Madre Teresa brilha de modo especial no meio desta multidão.

3. Onde foi que Madre Teresa encontrou a força para se dedicar completamente ao serviço do próximo? Encontrou-a na oração e na contemplação silenciosa de Jesus Cristo, do seu Santo Rosto, do seu Sagrado Coração. Ela mesma o disse:  “O fruto do silêncio é a oração; o fruto da oração é a fé; o fruto da fé é o amor; o fruto do amor é o serviço, o fruto do serviço é a paz”. A paz, mesmo ao lado dos moribundos, nas nações em guerra, na presença de ataques e de críticas hostis. Era uma oração que enchia o seu coração com a paz de Cristo e lhe permitia irradiar essa paz aos outros.

4. Missionária da caridade, missionária da paz, missionária da vida. Madre Teresa era tudo isto. Teresa era todas estas coisas. Pronunciava-se sempre em defesa da vida humana, mesmo quando a sua mensagem não agradava. Toda a existência de Madre Teresa foi um hino à vida. Os seus encontros quotidianos com a morte, a lepra, a Sida e todos os géneros de sofrimento humano fizeram com que ela fosse uma testemunha válida do Evangelho da Vida. Até o seu sorriso era um “sim” à vida, um “sim” jubiloso, que surgia da fé e do amor profundos, um “sim” todas as manhãs, em união com Maria, aos pés da Cruz de Cristo. A “sede” de Jesus crucificado tornou-se a própria sede de Madre Teresa e a inspiração do seu caminho de santidade.

5. Teresa de Calcutá foi realmente Mãe. Mãe dos pobres, mãe das crianças. Mãe de tanta juventude que a teve como guia espiritual e partilhou a sua missão. De uma pequena semente, o Senhor fez crescer uma árvore frondosa e rica de frutos (cf. Mt 13, 31-32). E precisamente vós, filhas e filhos de Madre Teresa, sois os sinais mais eloquentes desta fecundidade profética. Mantende o seu carisma inalterado e segui os seus exemplos, e ela do Céu não deixará de vos apoiar no caminho diário.

A mensagem de Madre Teresa, agora mais do que nunca, mostra-se contudo como um convite dirigido a todos. Toda a sua existência nos recorda que ser cristãos significa ser testemunhas da caridade. Eis a recomendação da nova Beata. Fazendo eco às suas palavras, exorto cada um de vós a seguir com generosidade e coragem os passos desta autêntica discípula de Cristo. Madre Teresa caminha ao vosso lado pelas sendas da caridade.

Concedo de coração a vós e aos vossos entes queridos a Bênção apostólica.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/2003/october/documents/hf_jp-ii_spe_20031020_pilgrims-mother-teresa_po.html

CARTA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II
POR OCASIÃO DO 50° ANIVERSÁRIO DE FUNDAÇÃO
DA CONGREGAÇÃO DAS MISSIONÁRIAS DA CARIDADE

À Irmã M. NIRMALA JOSHI, M.C.
Superiora-Geral
das Missionárias da Caridade

Neste ano do grande Jubileu, enquanto a Igreja no mundo inteiro eleva louvores à Santíssima Trindade pelo dom inefável do Verbo encarnado, a Reverenda Irmã e toda a sua família, nascida do carisma de Madre Teresa de Calcutá, sentem também a alegria de celebrar o 50º aniversário de fundação das Missionárias da Caridade.

No dia 7 de Outubro de 1950, em Calcutá, na pequena Capela situada na R. Creek Lane, 14, o Arcebispo Perier estabeleceu que a fundadora e as suas primeiras onze companheiras constituíssem uma Congregação religiosa de direito diocesano. Aquele momento de graça chegou após um longo processo de discernimento da vontade de Deus por parte de Madre Teresa, que escutou “a chamada no interior da vocação” (cf. Carta da Fundadora). Aquele pequeno início tornou-se uma forte corrente de graça no seio da Igreja, uma vez que as Missionárias da Caridade, desde há cinquenta anos, cresceram de modo inimaginável. Uno-me a vós ao dar graças ao nosso Pai celeste por este grande dom e exorto-vos com as palavras da primeira Carta de São Pedro:  “Como bons administradores das graças de Deus, cada um de vós ponha à disposição dos outros o dom que recebeu” (4, 10).

Precisamente quinze anos depois, a 1 de Fevereiro de 1965, o Papa Paulo VI concedeu o Decretum laudis que estabeleceu as Irmãs Missionárias da Caridade como Congregação de direito pontifício. A partir de então a família das Missionárias da Caridade produziu frutos abundantes, pois Deus concedeu Irmãs contemplativas, frades, sacerdotes, missionários e cooperadores de Madre Teresa, activos e contemplativos. Muitíssimas pessoas de todas as religiões, ou arreligiosas, estão comprometidas na obra de amor que se difundiu no mundo inteiro, graças à inspiração e orientação de Madre Teresa:  “Eis a obra do Senhor:  uma maravilha aos nossos olhos” (Sl 117, 23).

Desde o início, Madre Teresa e as Missionárias da Caridade desejavam “aplacar a sede infinita de Jesus Cristo na Cruz por amor das almas… trabalhando pela salvação e santificação dos mais pobres entre os pobres” (Carta da Fundadora). Estas palavras atingem o cerne quer da vossa consagração, da vossa “adesão a Jesus” com amor, da vossa sede d’Ele que tem sede de vós, quer da vossa missão de serviço alegre e sincero a Jesus nos mais pobres entre os pobres, sem esquecer as palavras do Senhor:  “Sempre que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes” (Mt 25, 40). Como disse o Papa Paulo VI, ao conferir a Madre Teresa em 1971 o prémio pela Paz “João XXIII”, “este é o motivo místico e evangélico que transfigura a expressão de uma pessoa pobre e faminta, de uma criança doente, de quem sente repulsa diante de um homem leproso ou enfermo no leito de morte, na misteriosa expressão de Cristo”.

Na Exortação Apostólica Vita consecrata, afirmei que a consagração e a missão devem ser sustentadas pela comunhão fraterna, como terceiro aspecto essencial da vida à qual sois chamadas (cf. n. 13). Ao falar da vida comunitária, Madre Teresa sublinhava sempre a necessidade de viver o “novo mandamento” do Senhor, de nos amarmos uns aos outros (cf. Jo 13, 34). Ela mesma oferecia sempre um exemplo luminoso de “disponibilidade para o serviço sem regatear energias, prontidão no acolhimento do outro tal como é, sem “o julgar” (cf. Mt 7, 1-2), capacidade de perdoar inclusive “setenta vezes sete” (Mt 18, 22)” (n. 42). Diante dos desafios do novo milénio, encorajo-vos a dar constante testemunho de amor evangélico entre vós, aquele amor que se torna “o sinal, diante da Igreja e da sociedade, do vínculo que promana da mesma chamada e da vontade comum de lhe obedecer, para além de qualquer diversidade de raça e de origem, de língua e de cultura” (Vita consecrata, 92).

Este 50º aniversário é, com certeza, uma ocasião para dar graças a Deus misericordioso pelo dom da dedicação unívoca e incondicional de Madre Teresa à chamada do Senhor, e pela abundante colheita espiritual que a Igreja e o mundo obtiveram, graças às Missionárias da Caridade.

Entretanto, rezo a fim de que este seja um momento de graça para cada um de vós, um tempo para examinar com mais atenção a vossa chamada e meditar de maneira mais intensa sobre ela e sobre o carisma da Congregação, a fim de poderdes penetrar mais profundamente no mistério da Cruz salvífica de Jesus Cristo, que a vossa Fundadora pôs no centro da vossa espiritualidade.

Ao recordar com afecto a querida Madre Teresa, confio todos os membros da Família das Missionárias da Caridade à protecção materna do Coração Imaculado de Maria:  que a Mãe do Redentor renove em cada um de vós o desejo de amar e de servir o Senhor nos mais pobres de entre os pobres! Ao invocar sobre vós as abundantes graças do Grande Jubileu do Ano 2000, concedo de coração a minha Bênção Apostólica a todas vós e a quantos vos assistem em “fazer algo de belo por Deus”.

Vaticano, 2 de Outubro de 2000.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/2000/documents/hf_jp-ii_let_20001017_missionaries-charity_po.html

Biografia da Beata Madre Teresa de Calcutá pelo padre Brian Kolodiejchuk

Entrada na congregação das Irmãs de Loreto

“Segure a mão Dele[Jesus], e caminhe sozinha com Ele. Siga em frente porque, se olhar para trás, irá voltar.” Estas palavras de despedida de sua mãe ficaram gravadas no coração da jovem Gonxha Agnes Bojaxhiu, futura Madre Teresa, quando, aos dezoito anos, deixava sua casa em Skopje para dar início à sua vida como missionária. Em 26 de setembro de 1928, partia para a Irlanda, para entrar no Instituto da Bem-Aventurada Virgem Maria(as Irmãs de Loreto), uma congregação não clausurada de religiosas, dedicada essencialmente à educação.(p.25)

Decisão de ser freira

Naquele tempo, tinha apenas doze anos. Foi então que percebi, pela primeira vez, que tinha vocação para os pobres, em 1922. Queria ser missionária, queria sair e dar a vida de Cristo às pessoas que viviam nos países com missões. No início, entre os doze e os dezoito anos, não queria ser freira.  Éramos uma família muito feliz. Mas, os dezoito anos, decidi deixar a minha casa e me tornar freira, e desde então, ao longo desses quarenta anos, nunca duvidei por um segundo que havia feito a coisa certa; era vontade de Deus. A escolha foi dele.(p.26).

Primeira Comunhão

Uma graça excepcional que tinha recebido no dia de sua Primeira Comunhão alimentara o desejo de dar esse ousado passo rumo ao desconhecido: “Desde os cinco anos e meio – quando O recebi[a Jesus] pela primeira vez – que o amor pelas almas tem estado dentro de mim – Foi crescendo com os anos – até eu vir para a índia – com a esperança de salvar muitas almas.”(p.27)

Chegada a Calcutá

Em 6 de janeiro, de manhã, navegamos do mar para o rio Ganges, também chamado o ‘Rio Sagrado’. Viajando por esta rota, tivemos oportunidade de dar uma boa olhada na nossa nova terra, Bengala. A natureza é maravilhosa…Quando o navio atracou, cantamos em nossas almas o “Te Deum”. Nossas irmãs indianas nos esperavam lá, e foi com elas que, com indescritível felicidade, pisamos pela primeira vez no solo de Bengala. Na capela do convento, começamos agradecendo ao nosso querido Salvador a enorme graça de nos ter conduzido sãs e salvas ao objetivo pelo qual tínhamos ansiado…Após a profissão dos votos, a Irmã Teresa foi enviada para a comunidade de Loreto de Calcutá e nomeada professora da St. Mary’s Bengali Medium School, uma escola para meninas.(p.30)

Primeira Impressão de Madre Teresa na Índia

O calor da índia é simplesmente abrasador. Quando ando pelas ruas tenho a sensação de que há fogo debaixo dos meus pés e de que todo o meu corpo arde. Quando as coisas se tornam mais difíceis, consola-me a idéia de que dessa maneira as almas são salvas e de que meu querido Jesus sofreu muito mais por elas. […] A vida de uma missionária não é um mar de rosas, na realidade é mais um mar de espinhos; mas com tudo isso, é uma vida cheia de felicidade e de alegria, quando ela compreende que está fazendo o mesmo trabalho que Jesus fez quando estava na Terra, e que está cumprindo o mandamento de Jesus: ‘Vão e façam discípulos de todas as nações.’(p.31).

Votos perpétuos

Após nove anos em Loreto, a Irmã Teresa aproximava-se de um momento muito importante de sua vida – preparava-se para fazer a profissão dos votos perpétuos. Ela raramente mencionava os sofrimentos pelos quais passava, enquanto a alegria que irradiava à sua volta encobria, eficazmente, todas as provações(p.32).

Leva alegria aos pobres

Todos os domingos, visito os pobres das favelas de Calcutá. Não posso ajudá-los, porque nada tenho, mas vou levar-lhes alegria. Da última vez, vinte pequeninos estavam ansiosamente à espera da sua ‘Ma’. Quando me viram correram ao meu encontram, até pulando com uma perna só.(p.39).

Madre Teresa faz um voto a Deus

Abril de 1942: “Fiz um voto a Deus, que me compromete sob[pema de] pecado mortal, a dar a Deus qualquer coisa que Ele possa pedir, ‘Não lhe recusarei coisa alguma’.(p.41).

A alegria

A alegria é sinal de uma pessoa generosa e mortificada que, se esquecendo de todas as coisas, incluindo de si própria, tenta agradar seu Deus em tudo o que ela faz pelas almas. A alegria é muitas vezes uma capa que esconde uma vida de sacrifício, de contínua união com Deus, de fervor e de generosidade. Uma pessoa que tem este dom da alegria, com grande freqüência atinge um elevado grau de perfeição. Porque Deus ama aquele que dá com alegria e aproxima do Seu coração a religiosa a quem ama.(p.46).

Ser fiel nas pequenas coisas

Sim, minhas queridas filhas, sejam fiéis nas pequenas práticas de amor, de pequenos sacrifícios…- de pequenas fidelidades à Regra, que construirão em vocês a vida de santidade – as tornarão semelhantes a Cristo.(p.47).

Coragem

Em agosto de 1946, explodiu em Calcutá o conflito hindu-muculmano, desencadeando uma violência em massa…Todas as atividades da cidade, incluindo a provisão de alimentos, foram suspensas. Compelida pelas necessidades de suas alunas, a Madre Teresa decidiu deixar a segurança dos muros do convento para ir à procura de comida. “Saí de St. Mary’s em Entally. Tinha trezentas garotas no internato e nada para comer. Não deveríamos sair da rua, mas eu saí. Aí eu vi os corpos nas ruas, esfaqueados, espancados…Algumas pessoas tinham saltado o muro para dentro do convento, os ajudamos a fugir com segurança. Só quando eu saí nas ruas é que vi a morte que os perseguia. Um caminhão cheio de soldados me parou e me disseram que eunão devia estar na rua.  “Ninguém devia sair’, disseram eles. Eu lhes disse que precisava sair, correr esse risco, porque tinha trezentas estudantes que não tinham nada pra comer. Os soldados tinham arroz, me levaram no caminhão para a escola e descarregaram os sacos de arroz.(p.50).

Chamado para servir aos pobres

Durante a viagem de trem, na terça-feira, 10 de setembro de 1946, teve um decisivo encontro místico com Cristo….”Era uma vocação para abandonar até mesmo Loreto, onde fui muito feliz, e ir para a sruas servir aos mais pobres dos pobres.(p.54).

Sede de amor

“ ‘Tenho sede’, disse Jesus na Cruz, quando estava privado de toda consolação, morrendo em absoluta pobreza, abandonado, desprezado, quebrado em corpo e alma. Ele falou de Sua sede – não de água – mas, de amor, de sacrifício.(p.55).

Jesus sente saudades de nós

Jesus …não só os ama, mais ainda – Ele anseia por vocês. Sente saudades quando vocês não vã para perto Dele. Ele tem sede de vocês. Ele os ama sempre, mesmo quando vocês não se sentem merecedores.(p.56).

A Boa Samaritana

“A nossa missão específica é labutar para a salvação e a santificação dos mais pobres dos pobres, não apenas nas favelas, mas também em todo o mundo, onde quer que eles se encontrem. Os pobres e aqueles que mais sofrem foram o objeto particular de amor de Madre Teresa. Ela sabia que só o amor, um amor que tem Deus como origem e como fim, daria sentido e felicidade à vida deles. Como  Bom Samaritano, através de seu serviço imediato e eficaz, ela estava determinada a tornar o amor de Deus concreto para os pobres.(p.57).

Voz interior

Nesse mesmo 10 de setembro, Madre Teresa começou a receber uma série de locuções interiores, que prosseguiram até meados do ano seguinte. Ela estava realmente ouvindo a voz de Jesus e conversando intimamente com Ele.(p.57).

…Um dia, ao receber a Sagrada Comunhão, ouvi a mesma voz com grande clareza – “Quero freiras indianas, vítimas do Meu amor, que sejam Maria e Marta. Que estejam tão unidas a mim que irradiem Meu amor por sobre as almas. Quero freiras livres, cobertas com Minha pobreza da Cruz.(p.62).

Mudança

Pouco antes de escrever a sua primeira carta ao Arcebispo Périe, a provincial de Madre Teresa a notificou de que ela seria, muito em breve, transferida de Calcutá para a comunidade de Loreto em Asansol, uma cidade situada cerca de 200 quilômetros a noroeste de Calcutá.Algumas Irmãs de sua comunidade tinham notado as conversas, longas e freqüentes, que Madre Teresa tinha quando ia se confessar com o Padre Van Exem nos meses que se seguiam ao retiro de Darjeeling. A partir desse simples fato, surgiram suspeitas quanto à natureza do relacionamento entre eles. Obviamente, as Irmãs não faziam a menor idéia dos motivos que Madre Teresa tinha para esses prolongados encontros…baseadas nessas…tomaram a decisão de transferir Madre Teresa para a comunidade de Asansol…Antes de partir de Calcutá, Madre Teresa foi informada pelo Padre Van Exem da reação inicial do Arcebispo Périer…que…se mostrou cauteloso, dizendo que precisava de tempo para rezar, refletir e fazer consultas…. (p.67)“Se uma única família – se uma única criancinha infeliz passar a ser feliz com o amor de Jesus, me diga, não valerá a pena todas nós darmos tudo por isso – e o senhor ter toda esta preocupação?(p.74).

“Dia após dia, hora após hora, Ele me faz a mesma pergunta: “Vai recusar a fazer isto por mim?”…(p.78).

Carta ao Bispo para que aprove as Irmãs da Caridade

“…Não demore, Excelência, não o adie. Há almas que estão sendo perdidas por carências de cuidados, por carência de amor….perdoe-me ser tão cansativa com o meu apelo contínuo, mas tenho de agir desta maneira. Levemos alegria ao Coração de Jesus, e tiremos do Seu Coração estes sofrimentos terríveis.(p.80).

Resposta do Bispo

“Se eu visse, após fervorosa oração e reflexão madura, que a vontade de Deus era avançar na direção para onde você deseja que eu avance imediatamente, não hesitaria…Durante a minha ausência, trabalhe no seu plano sob a orientação do Espírito Santo. O que queremos saber é, em poucas palavras, o objetivo, os meios, as regras, a forma de recrutamento, as possibilidades de sucesso.(p.83).

Resposta de Madre Teresa

(p.85-91)

…Nosso Senhor quer Freiras Indianas, vítimas do Seu Amor que estejam unidas a Ele que irradiem o Seu Amor às almas….Seu fogo de amor entre os pobres, doentes, os moribundos, os mendigos e as criancinhas de rua….Se o número de Irmãs permitir, teremos também uma casa para os aleijados, os cegos, os marginalizados da sociedade humana.

…Que tipos de pessoas recrutaria para esta obra?

Jovens dos 16 anos em diante…Devem ser capazes de fazer qualquer tipo de trabalho por mais repugnante que seja à natureza humana….Como Nosso Senhor mesmo diz: “Há muitas freiras para cuidar dos ricos e das pessoas abastadas – mas para os Meus muito pobres não há absolutamente ninguém. Eu anseio por eles – amo-os”….Deverão ser capazes de obter da horta a maior parte do seu alimento – venderão uma parte disso para poderem comprar as coutras coisas. Quanto às roupas – farão brinquedos e quadros e outros trabalhos de artesanatos – que serão vendidos – e com esse dinheiro comprarão o que for necessário….Uma coisa lhe peço, Excelência, que nos dê toda a ajuda espiritual que precisamos – Se temos Nosso Senhor no meio de nós – com a Missa diária e a Sagrada Comunhão, nada temo pelas Irmãs nem por mim.

Madre Teresa enviou esta longa carta juntamente com o primeiro conjunto de Regras escritas um dia antes, ao Padre Van Exem, para revisão e aprovação…Em 14 de junho, o Padre Van Exem deu-lhe uma resposta totalmente inesperada: ordenou-lhe que esquecesse isso[todo o empreendimento] por toda eternidade’ se nem ele e o Bispo voltassem a tocar no assunto…Essa não era a resposta que Madre Teresa antecipava…Tinha esperado pelo “Sim” do Arcebispo. Agora, se confrontava com mais uma severa prova vinda de ninguém menos do que seu diretor espiritual, em quem tanto confiava. Contudo, fiel ao seu compromisso de não recusar coisa alguma ao Senhor, optou por obedecer.

Regresso à Calcutá

Em 1947, Madre Teresa regressou à comunidade de Entally, em Calcutá. Essa alteração ocorreu através da intervenção da superiora da ordem, que acreditava que “a Madre Provincial cometeu um erro…na apreciação que fez de Madre M. Teresa. (p.93)…Ao tomar conhecimento do seu esforço heróico, o Padre Van Exem reconheceu ao Arcebispo: “Sei agora que  ela tentou realmente obedecer e que obedeceu mesmo.”(p.94).

Insistência para que o Bispo aprove as Irmãs da Caridade

Excelência, o senhor está aqui no lugar do Santo Padre. Conhece os desejos do Papa; sabe o quanto este trabalho estaria de acordo com o coração dele…Lembre-se de seu amor pelos pobres sofredores…por favor, confie todo assunto ao Imaculado Coração de Maria. – Ela está fazendo maravilhas em outras terras. – Ela fará isso pela Arquidiocese do senhor. – Ela tomará especial cuidado das Missionárias da Caridade de Vossa Excelência, pois, ao servir aos pobres, o nosso objetivo é levá-los a Jesus através de Maria, utilizando o Terço em família como arma principal. Que desejo ela expressou em Fátima sobre a conversão dos pecadores.(p.105).

Visões com Jesus

Na primeira visão, encontrou-se no meio de uma multidão de pessoas muito pobres e também havia crianças ali. Desta vez, a voz não era a de seu amado Jesus, pedimdo-lhe ‘Venha- venha-Me leve aos buracos onde vivem os pobres – Venha, seja Minha luz. Era, agora, a voz suplicante da ‘grande multidão’ chamando: ‘Venha, venha salve-nos – leve-nos a Jesus. Essse duplo convite, de Jesus e da multidão – “Venha” – continuaria ecoando no seu coração até o final de sua vida.Na segunda visão…não estava sozinha; estava na companhia de Nossa Senhora. Era agora a vez de Maria lhe pedir: “Traga-os a Jesus – Leve Jesus a eles.” Maria estava lhe encorajando a responder os pobres a rezar o Terço em família e a garantia de que Nossa Senhora estaria presente.(p.112)….Na terceira visão, o sofrimento da grande multidão intensifica-se: estão ‘cobertos pela escuridão’. Madre Teresa podia vê-los, mas também podia ver Jesus na Cruz. O papel de Maria também se intensifica: Ela é a Mãe atrás de sua ‘criança pequena’, apoiando-a enquanto ambas contemplam Jesus na Cruz. A voz era a de Jesus, recordando à Madre Teresa. “Eu lhe pedi. Eles lhe pediram, e ela, a Minha Mãe, lhe pediu. E volta a perguntar: “Vai recusar a fazer isto por Mim?(p.112).

O sim

O arcebispo tinha percebido a força do caráter e a grandeza do coração que estavam por trás da persistência de Madre Teresa…Ao regressar à Índia, pedira conselho a mais dois padres familiarizados com a situação local….segundo o conselho deles, o Arcebispo poderia ‘dar a sua autorização sem cometer uma grave imprudência… ‘Pode avançar’ foram as suas – muito esperadas – palavras…era 6 de janeiro de 1948.(p.113)

Madre Teresa espera resposta da superiora para formar as Irmãs da Caridade

Madre Teresa esperava, ansiosamente, a resposta da Madre Gertrude; e como nada tinha chegado em menos de três semanas, começou a ficar preocupada. …Tendo conversado com a Madre Provincial sobre sua inspiração, em antecipação à decisão que deveria chegar, insistiu com o Arcebispo para que acelerasse o processo(p.120)…O Arcebispo, embora apoiando, achou Madre Teresa apressada demais e encorajou-a a ser instrumento dócil e a esperar pelo tempo de Deus.(p.122).

Resposta positiva da Madre

Apenas três dias após Madre Teresa escrever para o Arcebispo, ele recebeu a resposta de Dublin…Além de dar autorização a Madre Teresa, Madre Gertrude ainda louvava o objetivo pelo qual a ordem de Loreto iria perder membro tão valioso.(p.124);

Resposta positiva do Papa

Em 8 de agosto de 1948, Madre Teresa finalmente recebeu notícias de Roma…o Papa Pio XIII tinha lhe dado autorização para deixar Loreto e dar início à sua nova missão.(p.130)…Em 17 de agosto de 1948, usando um sári branco com uma borda azul, Madre Teresa – uma freira européia, sozinha na Índia, que acabara de se tornar independente – partiu para dar início à vida de missionária da Caridade.(p.131).

Constância

Hoje aprendi uma boa lição…Quando andava por ali à procura de uma casa – caminhei e caminhei até doerem minhas pernas e meus braços…então a tentação tornou-se mais forte – os palacetes de Loreto vieram impetuosamente à minha mente – todas as coisas belas e os confortos – ‘Basta dizer uma palavra e tudo aquilo será seu novamente’ – ficou dizendo o tentador. De minha livre escolha Meu Deus e por amor a Ti – desejo permanecer e fazer o que for a Tua Santa Vontade a meu respeito – Não deixei que caísse uma só lágrima – mesmo que sofra o que agora sofro… – Esta é a noite escura do nascimento da Congregação.(p.144).

Oficial

Com a autorização da Santa Sé, em 7 de outubro de 1950 – festa de Nossa Senhora do Rosário – o Arcebispo Périer instituiu oficialmente a Congregação das Missionárias da Caridade na arquidiocese de Calcutá.(p.147).

Morrer para si mesmo

Jesus disse: “Em verdade vos digo, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, permanece sozinho. Mas se morrer dará muito fruto. A missionária deve morrer diariamente, se quiser levar almas a Deus. Deve estar disposta a pagar o preço que Ele pagou pelas almas, andar pelo caminho que ele andu em busca de almas.(p.149).

Importância de ser amável

Neste ano tenho sido com freqüência, impaciente a algumas vezes até mesmo ríspida nas minhas observações – e notei a cada vez que fazia menos bem às Irmãs – consigo sempre mais delas quando sou amável.(p.170).

Deus é Maravilhoso

Deus tem sido muito maravilhoso usando os pobres instrumentos pára a obra Dele. Posso dizer com todo o meu coração – que nada, absolutame3nte nada reivindico como meu em tudo isso, apenas digo que as Irmãs e eu permitimos que Deus usasse por completo.(p.171).

Propósitos de Madre Teresa

1º É seguir a Jesus de perto nas humilhações. Com as Irmãs – amável – muito amável – mas firme na obediência; Com os pobres – gentil e atenciosa; Com os doentes – extremamente amável.(p.175-176).

Aridez espiritual

Em relação ao sentimento de solidão, de abandono, de não ser querida, de escuridão na alma…é um estado desejado por Deus a fim de nos apegarmos somente a Ele, um antídoto contra as nossas atividades exteriores, e também, como qualquer tentação, uma forma de mantermos humildes em meio a aplausos, aos elogios, aos louvores, etc. e do sucesso.Sentir que nada somos, que nada podemos fazer, é perceber um fato…como escreveu a pequena Bernadette(Santa Bernadette Soubirous) no final do seu último retiro: ‘Só Deus, Deus em toda a parte, Deus em todos e em todas as coisas, Deus sempre.(p.177)

Os pobres

“Quando atravesso as favelas ou entro nos buracos escuros onde vivem os pobres – Lá Nosso Senhor está sempre verdadeiramente presente. Os buracos escuros onde vivem os pobres tinham se tornado o local privilegiado de encontro com Ele.”(p.177).

“O meu… propósito é o de tornar-me uma apóstola da alegria – consolar o Sagrado Coração de Jesus através da alegria.(p.180).”

O magnânimo desejo de ocultar a sua dor, até mesmo de Jesus, era uma expressão do seu enorme e dedicado amor. Madre Teresa fazia todo o possível para não sobrecarregar os outros com os seus sofrimentos e desejava menos ainda que seus sofrimentos fossem um fardo para seu esposo Jesus.(p.180).

Sorriso

O sorriso é uma grande capa que cobre uma multidão de dores(p.185).

Noite escura

O senhor gostará de saber que no dia em que Vossa Excelência ofereceu a sua Santa Missa pela alma do Santo Padre na Catedral – eu pedi a ele que me mandasse uma prova de que Deus está satisfeito com a Congregação. Naquele preciso momento desapareceu a prolongada escuridão, a dor da perda – da solidão – aquele estranho sofrimento de dez anos. Hoje, a minha alma está cheia de amor e de uma alegria indescritível.(p.186).

Mas esta consolação durou pouco tempo, como ela mesma conta ao Arcebispo:

Nosso Senhor achou melhor que eu me mantivesse no túnel – e aí voltou a desaparecer- deixando-me sozinha. Sinto-me muito grata pelo mês de amor que me deu.(p.196).

Temperança

De acordo com uma de suas seguidoras, “a Madre era uma pessoa muito equilibrada e ficava alegre quando as coisas corriam bem; mas, mesmo quando as coisas corriam mal, não dava mostras de depressão nem de mau-humor. A qualquer tempo era alegre.(p.196).

Ser amável

“Sejam amáveis umas com as outras. – Prefiro que cometam erros com amabilidade – do que façam milagres com indelicadeza.(p.204).

Amor

“Os sacrifícios são apenas uma forma de provar seu amor.”(p.208).

“O amor se prova com obras; quanto mais nos custam, maior é a prova do nosso amor.”(p.209);

Jejum

Insista[quando instruindo as irmãs] que na nossa Congregação Nosso Senhor não quer que usemos a nossa energia em fazer penitência – em jejuar etc. pelos nossos pecados – MS, em vez disso, em nos consumirmos dando Cristo aos Pobres e para isso precisamos de Irmãs fortes de corpo e de mente…É melhor comermos bem e termos muita energia para sorrirmos bem aos pobres e trabalharmos por eles.(p.213).

Missa e Comunhão

A Madre recebia diariamente a Sagrada Comunhão com enorme devoção. E se acontecesse de uma segunda Missa ser celebrada na Casa Mãe em determinado dia, tentava sempre assistir mesmo que tivesse muito ocupada.(p.220).

Explicações de Padre Neuner sobre a aridez de Madre Teresa

O sinal oculto da presença de Deus nessa escuridão é a sede de Deus, o anseio de um raio que seja da Sua luz. Uma pessoa não pode ansiar por Deus a não ser que Deus esteja presente em seu coração.(p.221).

Lia sobre São João da Cruz

Hoje chegou o livro sobre S;João da Cruz. Estou lendo as suas obras. Como ele escreve sobre Deus maravilhosamente.

O sofrimento é que faz o trabalho com os pobres ser virtuoso

Minhas queridas filhas – sem o nosso sofrimento, o nosso trabalho seria apenas um trabalho social, muito bom e muito útil, mas não seria a obra de Jesus Cristo, nem parte da redenção. (p.227).

Dor na garganta

A minha garganta me deu e continua me dando problemas.- Ainda bem que não dói quando falo – só quando bebo – por isso continuo dando todas as instruções.(p.248).

Aprovação pontifícia

Em 1º de fevereiro de 1965, as Missionárias da Caridade receberam a tão esperada aprovação pontifícia(Decreto de Louvor), por via da qual a congregação passava a estar sujeita à autoridade papal em vez de estar sujeita ao Bispo diocesano.(p.257).

Coração de Jesus

Desde a infância que o coração de Jesus é o meu primeiro amor.

Pequeninos

As palavras de Jesus no Evangelho de São Mateus – “o que fizestes ao mais pequenino[…] a Mim o fizestes’ – eram a rocha sobre a qual assentavam as suas convicções.(p.269).

Fidelidade na oração

A fidelidade incondicional de Madre Teresa à oração era uma virtude que as suas irmãs de Loreto já tinham observado nela e que impressionou, também, as suas primeiras seguidoras.(p.276).

Sabedoria

“Só quando percebemos o nosso nada, o nosso vazio, é que Deus pode nos encher com Ele mesmo. Quando nos tornamos cheias de Deus então podemos dar Deus aos outros, porque da plenitude do coração fala a boca.”(p.279)

Devemos nos esvaziar dos vícios e do mundo para nos enchermos de Deus

“Deus não pode encher o que está cheio”.(p.281).

Mantenha a luz da fé em Jesus acesa

Mantenha a luz, acesa em você com o óleo de sua vida. As dores que você tem nas costas – a pobreza que sente são gotas de óleo que mantêm a luz, Jesus, acesa e afastam a escuridão do pecado….Aceite com um grande sorriso o pouco que Ele lhe dá com grande amor.(p.282).

Amar sempre

Permitam que os pobres e as pessoas as devores[…] Permitam que os pobres ‘mordam’ o seu sorriso, o seu tempo. Vocês, às vezes, podem preferir nem sequer olhar para uma pessoa com quem tiveram algum desentendimento. Então, não apenas olhem, dêem um sorriso.(p.290).

Rosário

“A fidelidade ao Rosário trará muitas almas à Deus.”(p.292).

Alegria

A Madre sempre nos disse: “Deus ama aquele que dá com alegria. Se não vamos às pessoas com uma cara alegre, apenas aumentamos sua escuridão e suas misérias e aflições.”(p.294).

Deus é amor

Esse é realmente o sentido pleno da pobreza de Jesus. Ele que era rico se fez pobre. Renunciou à riqueza da companhia de Seu Pai ao tornar-se homem como nós em todas as coisas exceto no pecado.(p.295).

O amor é a verdadeira cura dos corações

A tuberculose e o câncer não são as grandes doenças. Penso que uma doença muito maior é não ser querido, não ser amado. A dor que essas pessoas sofrem é muito difícil de se compreender.(p.301).

Oração

O fruto do silêncio é a oração

O fruto da oração é a fé

O fruto da fé é o amor

O fruto do amor é o serviço

O fruto do serviço é a paz.

Aceitava todos os sofrimentos

Madre Teresa aceitava todos os sofrimentos interiores e exteriores.(p.328).

Enfermidade

Na sua última enfermidade[em 1996], ficou com freqüência no hospital. Estava literalmente pregada à cama, pregada à cruz.(p.330).

O verdadeiro amor é abandono

O verdadeiro amor é abandono. Quanto mais amamos, mais nos abandonamos. Se amamos realmente as almas, temos que estar prontas para tomar o seu lugar, a tomar sobre nós os seus pecados.(p.334).

Fonte: Madre Teresa – Venha, seja minha luz. Brian Kolodiejchuk. Editora. Tomas Nelson Brasil.

Vida de Santa Gema

Início

Nossa querida Gema nasceu no dia 12 de março de 1878. O papa Pio IX faleceu no dia 7 de fevereiro, e o novo papa, Leão XIII, foi coroado no dia 3 de março.O tempo de vida de Gema Galgani coincide quase fielmente com o pontificado do papa Leão XIII.(p.9).

Maurício, na qualidade de padrinho, é o responsável pela escolha do nome completo da menina: GEMA( porque era como uma pedra preciosa), MARIA(em honra da Virgem Maria), HUMBERTA(em homenagem ao novo rei da Itália, Humberto I), PIA(em honra do papa Pio IX, recém-falecido). GALGANI é o sobrenome.(p.11-12).

A mãe adoece na sua infância

“Recordo-me que minha mãe, sendo eu menina de menos de sete anos, me segurava nos braços e, entra lágrimas e soluços, me dizia: – Pedi muito a Jesus que me desse mais uma menina. Embora tarde, ele satisfez o meu pedido. Estou muito doente e morrerei em breve…Se te pudesse levar comigo, tu virias?

-E para onde iríamos?

-Para o paraíso, com Jesus…

Recordo-me perfeitamente de que essas conversas com minha mãe me prendiam a ela tão fortemente que jamais desejaria separar-me dela, nem sequer ausentar-me do seu quarto.”(p.13-14).

Saúde da mãe piora

A saúde de d.Aurélia piora dia a dia. Gema não percebe o que lhe está acontecendo, mas ‘alguém’ começa já a pedir-lhe sacrifícios. No dia 26 de maio de 1885, ela recebe o sacramento da confirmação.

“Após a cerimônia da confirmação, a pessoa que me acompanhava quis ficar para a missa. Entretanto, eu receava que minha mãe morresse sem me levar com ela. Durante a missa, rezei por minha mãe…De repente, uma voz como que me segredou ao íntimo do coração:

-Gema, dá-me tua mãe?

-Sim, se me levares com ela – respondi.

-Por enquanto terás de ficar com o teu pai. Tua mãe, vou levá-la para o céu. Dá-me de boa vontade?

Não tinha alternativa. Aceitei. Terminada a missa, regressei apressadamente a casa. Meu Deus! Cada vez que olhava para minha mãe, saltavam-me as lágrimas incontidamente.(p.14).”

D. Aurélia continua a definhar lentamente. Em um rasgo ardente de fé, pouco antes de falecer, desabafa sua dor com estas palavras: “Ofereço minha vida ao Senhor para que conceda a graça de um dia abraçar todos os meus filhos no paraíso”. No dia 17 de setembro de 1886, entra na paz dos santos.(p.15).

Religiosas de Santa Zita

Com o objetivo de proporcionar o melhor para a filha, Henrique Galgani matricula-a na escola das irmãs oblatas do Espírito Santo ou religiosas de santa Zita, mais conhecidas como zitas.(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas. p.17)

“Principiei a andar com as zitas. Sentia-me feliz. Pedi-lhes para fazer a primeira comunhão, mas perante minha maldade e ignorância retraíram-se um pouco. Davam-me bons conselhos…As irmãs, verificando que meu desejo era, apesar de tudo, sincero e puro, decidiram satisfazer-me a vontade…Pedi licença a meu pai para passar uns dias no convento, o que ele me negou. Mas eu tinha uma habilidade infalível para conseguir de meu pai tudo o que pretendia: pus-me a chorar diante dele como uma Madalena e, na noite desse mesmo dia consegui a licença pretendida.(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas. p.17-18).

Primeira Comunhão

Dia 17 de junho de 1887, sexta-feira, é a Festa do Sagrado Coração de Jesus. Gema levanta-se muito cedo e corre a receber Jesus eucaristia pela primeira vez.

“O que se passou entre mim e Jesus ainda hoje não sei explicá-lo. Jesus fez-se sentir à minha alma de uma maneira muito forte. E tive o ardente desejo de que aquela união se mantivesse para sempre. Cada vez me sentia mais cansada do mundo e mais amante do recolhimento. Naquela manhã, Jesus fez-me sentir o desejo de me consagrar totalmente a ele na vida religiosa.”

“Compreendi, naquele momento, que as delícias do Céu não são como a da Terra”.

Acrescenta os propósitos formulados em idade tão tenra:

1°-Confessar-me-ei e comungarei, cada vez, como se fosse a última;

2º-Visitarei, amiudamente, Jesus Sacramentado, especialmente quando estiver aflita;

3º-Preparar-me-ei, antes das festas de Nossa Senhora, com alguma mortificação, e toda noite pedirei a ela a benção celeste;

4º-Quero estar sempre na presença de Deus;

5º.-Cada vez que soar o relógio, repetirei três vezes: “Meu Jesus, misericórdia!”

(Pe. Mauro Odoríssio. A Gema de Jesus. Palavra e Prece. p.42)

Aos 9 anos sofre dificuldades no comportamento

Comungava duas ou três vezes por semana. Jesus fazia-me sentir cada vez mais a sua presença. Houve dias em que experimentei o dom de indizíveis confortos interiores. Mas rapidamente o abandonei:tornei-me soberba e era pedra de escândalo para todas as minhas colegas. Raro era o dia em que, na escola, não recebesse um castigo. Não sabia as lições e pouco faltou para ser expulsa. Em casa não deixava ninguém sossegado. Queria sair a passeio todos os dias e estrear belos vestidos. Deixei quase completamente as minhas orações, embora nunca tenha deixado de rezar, todos os dias, três ave-marias com as mãos debaixo dos joelhos, para que Jesus me livrasse dos pecados contra a santa pureza.(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas. p.19).

Sempre ajudou aos pobres

Quando saía de casa, levava dinheiro comigo e, se meu pai não me desse, pegava em farinha, pão ou outras coisas para dar aos pobres. Deus permitia que eu encontrasse sempre três ou quatro a quem podia socorrer. Aos que vinham bater à nossa porta, dava-lhes roupas e tudo o que me viesse parar às mãos; Quando o confessor me proibiu de dar coisas sem o conhecimento de meu pai, nunca mais o fiz…como meu pai não me dava dinheiro e eu também não dispunha de meios próprios, já não podendo socorrer os pobres que a mim acorriam suplicantes…acabei por detestar vestidos e bagatelas, desprezando-me assim, das coisas mundanas. Essa mudança não agradou a meu pai nem aos meus irmãos. De um deles tive de suportar violentos insultos, pela simples razão de me levantar cedo para ir à missa. Jesus, nessa ocasião, foi minha força para sair vitoriosa daquelas situações.(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas. p.20).

Sensatez

…Não gosta de adulações nem sabe fazer rir…não tinha o menor jeito para fazer uma simples piada ou contar uma anedota.(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas. p.24)

Perseguição

Quando a jovem mostra o desejo de entrar para o convento, uma religiosa dá a seu respeito informações tão negativas, que não é aceita. Alguns anos mais tarde, quando a referida religiosa é informada da beatificação de Gema, desabafa do seguinte modo: “Fui eu que fiz um juízo tão negativo acerca de Gema! Foram aquelas palavras que impediram que entrasse para nosso convento uma alma tão bela. Gema, perdoa-me e pede a Jesus por mim!” (Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.25).

Aparição de São Gabriel de Nossa Senhora das Dores

Pouco antes da realização das missões, ela recebera emprestado o livro sobre a vida de São Gabriel, jovem teólogo passionista, que ainda não havia sido canonizado. Apaixonou-se pela leitura e tendo que restituir o livro à proprietária, ficou com a sensação de que com ele ia embora a sua felicidade. “Naquela noite…o Santo apareceu-lhe Santo apareceu-lhe dando a beijar o distintivo passionista que trazia no peito, dizendo que ela, como ele e como o seu coirmão Padre Germano, pertenceria àquela Família Religiosa. Os diálogos com Gabriel passariam, então, a ser freqüentes.

(Pe. Mauro Odoríssio. A Gema de Jesus. Palavra e Prece. p.57-58).

Anjo da Guarda

Um dia, teria Gema 15 ou 16 anos, acompanhei-a a uma visita às irmãs dorotéias. Uma delas perguntou-lhe:

-Gema, não te sentes sozinha em tua casa?

-Não, vivo com minha irmã Julieta e ‘com outra pessoa’.

-E quem é essa outra pessoa, pode-se saber?

-É meu anjo da guarda!

(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.29).

O pai Henrique trata a filha com severidade

Atacado por um terrível câncer que pode levá-lo à morte, Henrique Galgani faz este desabafo de mau humor: “Vês, minha filha, esta minha irritação é por causa das tuas saídas para a comunhão diária!” Ela logo lhe responde: “O que me prejudica não é comungar, mas estar longe de Jesus”. O pai não tolera que a filha lhe responda e repreende-a duramente. Ela, por sua vez, retira-se para seu quarto chorando. “Desabafei as minhas penas com Jesus, dizendo-lhe: ‘Jesus, quero seguir-te custe o que custar!’ E pedi-lhe que me concedesse sofrer e sofrer muito”….Consciente de suas fraquezas, recorre com freqüência aos sacramentos da reconciliação e da eucaristia, para recuperar as forças e renovar a sua vida espiritual. Reza com muita fé e pratica sacrifícios corporais para se manter vigilante e poder corresponder ao amor de Jesus.(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.30).

Dificuldade financeira

A crise da família Galgani beira os limites…Henrique Galgani vende e hipoteca seus bens. Para ganhar algum dinheiro, Gema arruma um emprego na escola de costura e bordado…Seu pai cai definitivamente doente. Os credores reclamam seus direitos e o tribunal de Luca bloqueia os poucos bens que ainda restam à família…O pai parte para o céu no dia 11 de novembro de 1897…  “Em um instante, vimo-nos privados de tudo! Sua tia Elisa dá o seguinte testemunho: “O tribunal e os credores se apoderaram de tudo. Vimo-nos obrigados a viver da caridade de algumas pessoas…O tribunal, impiedoso, sela os quartos da casa da família Galgani, e os pobres órfãos vêem-se obrigados a dormir no chão! As tias gastaram todos os bens com a doença de Henrique Galgani e agora partilham da extrema penúria de seus sobrinhos.(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.31-32).

Doença

Chegada a Luca estive doente durante algum tempo, não permitindo que os médicos me visitassem, por não queria que ninguém me tocasse. Uma tarde, trouxeram-me um médico que me examinou à força. Encontrou em mim um abscesso que, pensou, me afetava os rins. Havia tempos eu sentia dores naquele lugar, mas não queria ver o que era nem sequer permitia que se tocasse ali. Que sofrimento para mim quando tinha de me descobrir! Chorava ao ouvir chegar o médico! O mal ia aumentando…Os médicos decidiram operar-me. A dor da operação foi nula. O que mais me custou foi ter de ficar quase despida diante dos médicos. Teria preferido morrer…

Os médicos, entretanto, diagnosticaram uma ‘anomalia nas vértebras lombares com conseqüente abscesso nos inguinais”. Além disso, fica paralisada de ambas as pernas. No dia 28 de janeiro de 1899, aparece-lhe ainda uma insuportável dor de cabeça, fruto de ‘uma otite média purulenta com participação mastóiede.’

“Os médicos, vendo que todos os remédios eram inúteis, desenganaram-me totalmente.”

Gema não consegue reter no estômago nenhum alimento.

“Certa tarde, extremamente desanimada, disse a Jesus que não rezaria mais se não me curasse. Perguntei-lhe o que queria de mim, mantendo-me naquele estado. Respondeu-me o anjo: ‘Se Jesus te mortifica no corpo é para purificar-te cada vez mais no espírito.”

(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.35-36).

Aparição de São Gabriel das dores

Peguei no livro e coloquei-o debaixo da almofada…Certo dia, estava sozinha em meu quarto. Passava um pouco do meio-dia. Comecei a ficar tão aborrecida, que até o estar de cama me incomodava. Senti que o demônio me tentava, dizendo-me que, se lhe desse ouvidos me curaria quando eu quisesse. Estive a ponto de ceder…De repente, recorri ao jovem Gabriel e disse-lhe:

Em primeiro lugar está a alma, e só depois o corpo.

O demônio voltou à carga com nova tentação; recorri novamente ao jovem Gabriel, levando-o de vencida. Voltei a mim, benzi-me e fiquei unida ao Senhor. Naquele mesmo dia, comecei a ler o livro de sua vida, e não me cansava de admirar as virtudes daquele jovem. A senhora que me emprestou o livro veio buscá-lo. Percebendo que eu ainda queria ficar com ele, deixou-o comigo por mais alguns dias. Finalmente, veio buscá-lo e fiquei chorando…Na noite daquele dia apareceu-me Gabriel: primeiro, vestido de branco, mas não o reconheci; depois, apareceu-me vestido de passionista. Reconheci-o, então, perfeitamente. E ele disse-me:

-Percebes como foi agradável ao Senhor o teu sacrifício? Eu mesmo vim te visitar. Continua a ser boa e voltarei…

Dois meses mais tarde, eu gozava de uma paz completa. Adormeci tranqüila. Ao acordar, vi a meus pés Gabriel, que me dizia:

-Gema, faz voto de te tornares religiosa.

-Por que?- perguntei-lhe eu.

Esboçou um sorriso, olhou-me fixamente, colocou-me ao peito o emblema passionista, disse ‘minha irmã!’ e desapareceu.

(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.36-37).

Aparição da Santa Margarida Maria Alacoque e a cura da doença

A irmã Julia Sestine…que faça uma novena à beata Margarida Maria Alacoque.

“Faltavam alguns minutos para a meia-noite. Ouço como que as contas do rosário roçando uma nas outras. Uma mão veio pousar em minha fronte. Ouvi alguém rezando nove pai-nossos, ave-marias e glórias-ao-pai. Eu, prostada pela doença, mal podia responder. A voz que orientava a reza perguntou-me:

-Queres curar-te?

-É me indiferente –respondi.

-Sim, curar-te-ás. Reza fervorosamente ao Sagrado Coração de Jesus…

-E à beata Margarida? – perguntei.

-Reza três vezes o glória ao pai em sua honra.

…No penúltimo dia da novena, que terminava na sexta-feira, dia 1° de Março, comunguei ainda muito cedo. Passei, depois, alguns momentos de indizível felicidade com Jesus eucaristia! Ele ia me perguntando:

-Queres curar-te?

A emoção era tão grande que nem ousava responder-lhe. Como Jesus é bom! A graça fora-me concedida. Estava curada!

(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.37-38).

Amor à Filiação Divina

“-Minha filha – dizia-me Jesus – , dou-me todo a ti! E tu não quererás ser toda minha?

Jesus levava-me os pais, e eu sentia-me por vezes, meio desesperada. Queixei-me disso a Jesus…e ele, cada vez mais afetuoso, como que me respondia:

-Eu estarei sempre contigo. Serei teu pai; e tua mãe será aquela – apontando-me Nossa Senhora das Dores. – Não te sentes feliz por seres filha de Jesus e Maria?

Tais palavras tomaram conta de mim e eu não tinha palavras para responder!”

(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.38).

A menina do milagre

As tias de Gema, Elisa e Helena, choram de contentamento por ver a sobrinha curada. Não escondem sua alegria e divulgam-na entre conhecidos e amigos, os quais,por sua vez, passam a tratá-la como “a menina do milagre”. A convalescença vai seguindo seu lento percurso: ‘Minha debilidade era tanta que mal me tinha em pé. Na segunda sexta-feira de março, fui à igreja receber a sagrada comunhão.

(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.39).

Quinta-feira Santa

Jesus concedeu-me uma grande dor dos meus pecados: na tarde da Quinta-feira Santa comecei a fazer a ‘hora santa’. Era a primeira vez que fazia esse sagrado exercício após a doença. Já cansada de estar de joelhos, sentei-me por um momento. Sentia que as forças iam-me faltando pouco a pouco. Mal tive tempo de chegar em casa e fechar a porta. Apenas chegada, encontrei-me como que diante de Jesus, que derramava sangue por todos os lados. Baixei os olhos, porque aquela visão me perturbava…Não ousei erguê-los uma só vez.

-Minha filha – dizia Jesus -, estas chagas foste tu que as abriste com teus pecados, mas agora as fechaste com tua dor…Ama-me como eu sempre te amei. Ama-me!-repetia-me muitas vezes. As chagas de Jesus ficaram de tal maneira gravadas em mim que nunca mais se apagaram. Na Sexta-feira Santa, Jesus dirigiu-se a mim de um modo sensível:

-Estou prestes a unir-me a ti. Apressa-te, vem todas as manhãs. Mas toma consciência de que eu sou um pai e um esposo zeloso. Não quererás tu também ser uma esposa fiel?

(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.39-40).

O sofrer ensina a amar

Um dia, ao fazer minha oração da tarde, vi pela segunda vez Jesus Crucificado, que me disse:

-Vê, Filha, e aprende como se ama”, e me mostrou Suas cinco chagas abertas. “Vês esta Cruz, estes Espinhos, este Sangue? São obras de Amor, e de amor infinito. Queres me amar de verdade? Antes aprenda a sofrer. O sofrer ensina a amar’.

(Pe. Mauro Odoríssio. A Gema de Jesus. Palavra e Prece. p.98).

Santa Gema sente profundamente o amor de Deus

“Vejo Jesus, não com os olhos do corpo, mas O reconheço distintamente porque me leva a um doce abandono, e nesse abandono eu O reconheço; faz-me sentir tão fortemente a Sua voz que muitas vezes eu disse que a voz de Jesus me fere mais que uma espada de muitos fios, de tanto que penetra em minha alma. As suas palavras são palavras de vida eterna. Quando vejo Jesus e O ouço, não me parece ver nem beleza de corpo, nem figura, nem um som doce, nem um canto suave, mas quando vejo e ouço Jesus, vejo(jamais com os olhos) uma luz, um bem imenso; uma luz infinita que não pode ser vista por nenhum olho mortal; uma voz que ninguém pode ouvi-la. Não é voz articulada, mas é mais forte, e se faz mais ouvir ao meu esppirito, que se ouvisse palavras pronunciadas.

(Pe. Mauro Odoríssio. A Gema de Jesus. Palavra e Prece. p.87).

“Sinto-me como que fora de mim mesma; não sei onde me encontro, se estou fora dos sentidos, ou…numa paz , numa tranqüilidade que jamais provei. Sinto-me atraída por uma força, mas sem coação. Ao contrário, é suave. Encontrando-me, então, na plenitude da doçura, sinto possuir Jesus, esqueço, então, se sou do mundo: a mente fica saciada e nada mais deseja.O coração nada mais procura, pois tem em si um bem imenso, um bem infinito a nada comparável, um bem sem medida, sem defeito. É Jesus quem o plenifica. Nem antes, nem depois, me vem o desejo de procurar ou desejar alguma coisa, pois é imensa a doçura que Jesus, na Sua infinita bondade e caridade, me faz saborear. Nem sempre, porém, é amor de doçura; às vezes sou fustigada por forte dor dos meus pecado e me parece que vou morrer. (Pe. Mauro Odoríssio. A Gema de Jesus. Palavra e Prece. p.94).

Santa Gema é rejeitada no Convento

As irmãs da visitação prometem admiti-la em junho, pela Festa do Sagrado Coração de Jesus. Mas, quando chega ao convento, a madre superiora havia mudado de idéia e nem sequer desce para cumprimentá-la.

“Começaram a dizer-me que se eu não apresentasse pelo menos quatro atestados médicos, não me aceitariam no convento. Tentei arranjá-los, mas os médicos não queriam responsabilizar-se, e as irmãs disseram-me que, assim, minhas pretensões não seriam atendidas.

Essa decisão perturbou-me profundamente, mas Jesus não cessava de cumular-me de graças.”

(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.41-42).

Gema é acolhida na casa dos Giannini

A sra. Cecília, nascida em 1847, tem 52 anos quando Gema é acolhida em casa de seu irmão Mateus Gianinni…Algumas vezes, chega mesmo a enervar-se, como confessa em uma carta ao pe. Germano, o grande diretor espiritual de Gema:

“Estava frio. Gema não vestiu o casaco. Pode imaginar como fiquei furiosa. Chamei-lhe de descarada, desobediente e má, e disse-lhe:

-Se queres morrer, atira-te a um poço e afoga-te de uma vez par sempre! Jesus não quer essas coisas. És uma impostora. Amanhã vou pôr-te em tu casa para que tuas tias te levem a um médico que te cure… (Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.50).

Gema tornara-se estigmatizada

“Sabeis que Jesus costuma me dar algum presentinho às quintas e sextas-feiras, e aos costumeiros, nesta semana ele acrescentou um outro, muito querido para mim. Fez-me provar, em todo o corpo, alguns golpes de Sua flagelação.” …Gema tornara-se uma estigmatizada: trazia, em seu corpo as marcas dos cravos, da lança, dos açoites.

(Pe. Mauro Odoríssio. A Gema de Jesus. Palavra e Prece. p.106).

…Ao anoitecer de quinta-feira, ela ficava com o corpo coberto de sulcos como se tivesse sido flagelada. Seu sofrimento durava até o dia seguinte, por volta das quinze horas.

(Pe. Mauro Odoríssio. A Gema de Jesus. Palavra e Prece. p.114).

Rejeitada pelos familiares

No mês de setembro, começa a bordar um tapete para seu irmão Guido, que, no dia 26 de outubro de 1898, se casa…a …cerimônia Gema assite, acompanhada de sua tia Elisa. Seu irmão Guido zomba dela, dizendo:

-Que elegante! Até usa luvas! Usa-as para comer?

-Deixe-me em paz, por favor! Estou acostumada assim!

Momentos depois, a cunhada arranca-lhe as luvas, vê as chagas e apressa-se a comentar o fato com tia Elisa:

-Tia, Gema tem chagas como as de Jesus! Ainda não havia percebido isso?

-Não. Como ela sempre usa luvas…

(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.54-55).

Consolo de Jesus

Jesus disse-me:

-Não te recordas, minha filha, de ter-te advertido de que chegaria um dia em que ninguém acreditaria em ti? Pois esse dia é precisamente hoje. Contudo, agradas-me muito mais assim desprezada do que quando todos te julgavam santa.

Suor de Sangue

O pe. Moreschini…passionista…escreve:

“Almocei em casa dos Giannini. Ao acabar o almoço, Gema foi ajudar a fazer a limpeza da cozinha. Em seguida, às 2h:30 da tarde, foi rezar perante um crucifixo da família. Alguns minutos depois, a sra.Cecília fez-me sinal, advertindo-me de que Gema se encontrava em êxtase. Vi com os próprios olhos como a jovem suava sangue vivo pelo rosto, nariz, boca, mãos e unhas…A cor de seu rosto era cadavérica, mostrando que sofria dores horríveis. Meia hora depois, voltou gradualmente  si. Afastei-me, para ela não perceber que eu a estivera observando. Ela regressou à sala. Verifiquei, então, que sua cor já voltara ao normal. Limitei-me a dirigir-lhe com naturalidade algumas palavras.

(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.59).

Suporta insultos com paciência

Um dia, nas ruas de Luca, encontrei-me com um outro religioso e fomos os dois à casa dos Giannini. Gema estava costurando. Aquele religioso lhe dirigiu palavras insultuosas, que Gema ouviu calma e pacientemente. Apenas por duas vezes se limitou a responder:

“-Tem toda a razão! É a mais pura verdade…”

“Estou no mundo, mas me sinto tão cansada dele! Os meus verdadeiros momentos de felicidade acontecem quando me sinto desprezada e humilhada. Para dizer a verdade, momentos desses não me faltam; antes, vão aparecendo cada vez em maior número no meu dia-a-dia.

(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.59-60).

Gema pede a conversão de um pecador

Era quinta-feira. No meio do jantar, Gema, pressentindo o êxtase, levantou-se da mesa e retirou-se tranquilamente para seu quarto. Pouco depois a Sra. Cecília veio chamar-me. Encontrei a jovem em pleno êxtase, cujo motivo era a conversão de um pecador….e dizia:

-Jesus…quero pedir-te por aquele pecador…Salva-o, Jesus!

E disse o nome dele. Tratava-se de um forasteiro a quem já admoestara de viva-voz e por carta, mas a quem pedia para pôr em ordem sua consciência, apesar de ter fama de bom cristão!

-Jesus, por que não te compadeces dele?…Ofereço-me como vítima por todos, mas particularmente por este.Concede-me Jesus, esta graça? Pensa que é uma alma que tanto te custou….Vai buscá-lo e toca-lhe o coração…Submete-o à prova, pelo menos.

Parece que o Senhor lhe deu a entender que aquele pecador já havia extravasado a medida da sua misericórdia. Gema…voltou a insistir:

-Jesus, sei que ele cometeu muitos pecados, porém mais o cometi eu e tivesse compaixão de mim. Atende-me, por caridade! Recorda-te, Jesus, que quero que ele se salve. Atende-me por caridade! Reconheço que não mereço que me ouças, mas apresento-te o mesmo pedido por intercessão de tua Mãe…Atreves-te a dizer ‘não’ à tua Mãe? Agora, diz-me que salvaste aquele pecador!

Improvisadamente, Gema mudou de aspecto e, com ar de indescritível alegria, exclamou:

-Salvou-se!Jesus, venceste! Triunfa sempre assim!…

Terminado o êxtase, que durara uma boa hora e meia, retirei-me aos meus aposentos. (Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.61).

Gema ama as crianças

Gema sente um carinho muito especial pelas crianças. Pega o pequenino Gabriel nos braços e fica extasiada diante de tanta inocência.Mas seu preferido é Carlos Giannini, brincalhão e travesso, que não sabe viver sem ela… (Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.67).

Escolha entre coroa de espinhos e de rosas

No trecho a seguir das Cartas, datado de 9 de janeiro de 1901, ela descreve a premonição do anjo acerca de sua nova maneira de sofrer:

Trazia duas formosas coroas: uma de espinhos e outra de lírios. Perguntou-me qual das duas eu preferia.

-A de Jesus – eu lhe disse.

Colocou-me, então, a coroa de espinhos na cabeça…Comecei logo a sofrer…Mas tratava-se de um doce e suave sofrimento, acompanhado de enorme afeto a Jesus e do desejo de sofrer cada vez mais e de voar para junto dele. (Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.75).

Perseguição familiar

Gema está fisicamente debilitada. O sofrimento físico aliado ao sofriemnto espiritual, acaba por esgotar suas energias. A tudo isso, vêm-se juntar a precária situação familiar e os desgostos provocados pela irmã Angelina. Esta lhe envia uma carta provocatória…a que Gema responde:

Que te dei maus exemplos, que te ensinei coisas más, que te escandalizei? Tudo isso eu sei perfeitamente! Já o confessei e espero que tenhas me perdoado…se Deus quisesse que me confessasse em público, eu não teria medo de fazê-lo…Desejo-te um Natal feliz e boas-festas. Espero que entendas que, se pecar, acontece com os santos, mas obstinar-se no pecado[1] é obra de demônios…

Adeus e procura ser boa. Sou a tua irmã Gema.

(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.76).

Pura e comportada

Eufêmia, por sua vez, recorda-se dos dias passados com Gema na praia: ‘Gema ia conosco, mas não tomava banho de mar, embora gostasse de nos ver nadar…Foi sempre uma pessoa natural, simples e reta em todos os seus atos, sem afetação, séria e reservada, mas educada e bondosa para com todos…’ (Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.86).

Visão de Nossa Senhora

9 de setembro

Estava quase adormecendo, quando me pareceu ver uma linda senhora…Gritei e chamei pela sra. Cecília. Não sei se veio ou não, porque logo entrei em êxtase e o mundo pareceu desaparecer todo à minha volta…A minha Mãe celeste olhava-me e, sorrindo, disse-me:

-Minha filha querida, és para mim como que o perfume de um agradável incenso! Tomou-me em seus braços, e eu quase morri de doçura…

Achou-me ainda um pouco pobre(pouco madura para o céu) e convidou-me a perfeição da humildade e da obediência. Depois pronunciou umas palavras cujo significado não percebi completamente:

-Filha, prepara-te, aperfeiçoa o teu espírito e pronto…

Aquele ‘pronto’ provocou em mim um tal sobressalto que não consegui falar. Abri os olhos e interroguei-a com o olhar. Ela me respondeu:

-Diz ao padre(pe.Germano) que, se ele mão te levar para o convento, eu te levarei em breve para o paraíso…Encontrar-no-emos juntas muito mais depressa do que ele julga.

Nem sei o que me parece o mundo, depois dessas experiências!

Pedi-lhe, contudo, que me concedesse mais um pouco de vida. E ela logo me prometeu:

-Diz a teu padre(pe.Germano) que, se ele não te levar para o convento, eu voltarei e levar-te-ei comigo para o paraíso. De fato, recuperei a saúde naquele mesmo dia…( Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.87).

…No dia 21 de outubro, ela cai novamente doente. Isso foi provocado, em parte, à dor sofrida pela morte do irmão Antônio, que falece nesse mesmo dia. (Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.87).

Estigmas

“Não menos maravilhoso era o modo como esses estigmas desapareciam. Terminado o êxtase de sexta-feira, cessava definitivamente o efluxo de sangue do lado, dos pés e das mãos; a carne viva se enxugava, restringiam-se, pouco a pouco, e se recompunham as malhas dos tecidos lacerados…A pele encobria tudo, naturalmente e em uniformidade com o resto não lesado. Somente restava uma mancha branca indicando que no dia anterior, naqueles lugares, havia chagas vivas, quando Gema faleceu, as referidas manchas persistiam”. (Pe. Mauro Odoríssio. A Gema de Jesus. Palavra e Prece. p.118).

Oferecimento da vida em favor de doentes

Padre Germano descreveu como ela estava pronta a oferecer anos de sua vida em favor de doentes que corriam perigo de vida. Numa de suas cartas, a Santa lhe pede licença para oferecer um, dois, três anos de sua existência em prol de alguém: “Jesus aceitará o oferecimento, sabe, bastando que o Senhor, Padre, consinta.’…Ao final…permiti. (Pe. Mauro Odoríssio. A Gema de Jesus. Palavra e Prece. p.147).

Amor profundo

Não sei que interpretação dar ao que lhe vou contar. Sábado passado, quando me encontrava diante de Jesus Sacramentado em exposição, quis aproximar-me o mais possível do altar, e senti como se algo queimasse minha cabeça e rosto…Não compreendo como tantas pessoas, que estão tão próximas dele, não se abrasem com o fogo divino do seu amor. A mim me parece que, se permanecesse ali um quarto de hora, ficaria reduzida a cinzas.(Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.91).

Jesus! Oh, Jesus! Serei eu fiel para dar-Te todo o meu coração? Eu o dou, mas faze-o maior. Jesus! Se eu tivesse tantos corações, e grandes, eu, com todos eles, amaria somente a ti…Tu me amas tanto! (Pe. Mauro Odoríssio. A Gema de Jesus. Palavra e Prece. p.151).

3 de setembro

Há uns oito dias…’sinto um fogo misterioso do lado do coração e não consigo compreender do que se trata. Nos primeiros dias não me preocupei, pois pouco ou nada me incomodava, mas hoje é o terceiro dia que esse fogo cresceu a ponto de não suportá-lo. Ele me incomoda, dificulta meu sono, meu apetite,etc. É um fogo misterioso, meu pai, que se manifesta também no exterior;na pele há uma espécie de queimadura. É um fogo que não me tormenta, sabe, me deleita, mas me acaba, me consome. (Pe. Mauro Odoríssio. A Gema de Jesus. Palavra e Prece. p.164).

Noite escura

Jesus… a teria orientado:

“Não te aflijas se faço que te abandono. Não creias que seja um castigo; é minha invenção para afastar-te de todas criaturas unindo-te a mim. Parecerá que Me aparto de ti; mas na verdade estou estreitando mais fortemente; parecendo-te que estou longe, é quando estarei perto. Coragem! Depois da batalha vem a paz. Minha filha: fidelidade e amor te são necessários. Tem paciência se te deixo só; sofre, resigna-te, consola-te. Não faze como certas almas que se apegam às consolações e às satisfações espirituais e nada querem com a Cruz. Encontrando-se na aridez espiritual vão deixando a oração porque não encontram mais as consolações que provaram. Tu, ao contrário, faze assim: une os teus sofrimentos aos Meus, recebe como um grande benefício o que tirei de ti, abraçando alegremente a Cruz… (Pe. Mauro Odoríssio. A Gema de Jesus. Palavra e Prece. p.172).

O anjo levava as suas cartas

Segundo a Santa, várias das cartas que escrevera teriam sido entregues ao anjo para que as levasse ao destinatário. (Pe. Mauro Odoríssio. A Gema de Jesus. Palavra e Prece. p.225).

Fim da vida de Santa Gema

Nos primeiros dias de março de 1902, as amigas Eufêmia e Anita fazem seu retiro espiritual com as irmãs passionistas de Corneto…No mês de maio, adoece novamente. A sra. Cecília informa ao pe. Germano: ‘Gema está em pele e osso’.( Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.85)

…O demônio procura levá-la ao auge da tentação, assaltando-a com o terrível pensamento de ‘desesperar da própria salvação’. Ela se vê obrigada a chamar o côn.Antônio Estêvão, com quem faz uma confissão geral, recuperando a paz interior. (Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.93)

Na Quinta-feira Santa, Gema fica em jejum para poder comungar. Ao chegar a Sexta-feira Santa, tem início o desenlace final. Ela pede à sra. Cecília: ‘Não me abandone até eu ficar cravada na cruz, porque Jesus sempre me disse que todos seus bons filhos devem morrer crucificados…” Depois estende os braços e fica imóvel. No dia 11 de abril, Sábado Santo, às 8 horas, o pe. Andreucetti, ároco de Luca, ministra-lhe novamente o santo viático…Em certo momento, Gema pega no crucifixo e pronuncia as palavras: ‘Jesus, não posso mais. Se for a tua vontade, leva-me para junto de ti”. Eleva, em seguida, o olhar para um quadro da Virgem Maria e, com um sopro de voz duplica: “Minha Mãe querida, entrego-te a minha alma. Diz a Jesus que tenha misericórdia de mim.”

Ás 13h45, Gema inclina a cabeça sobre o ombro da Sra. Justina….em seguida parte docemente para a Casa do Pai. (Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.95)

Pouco tempo depois, procede-se à exumação do corpo, sendo-lhe extraído o coração, o qual, para admiração de todos os médicos presentes, mostra-se ‘flexível, fresco, rubicundo e cheio de sangue, como se estivesse em um corpo ainda vivo’. O coração de Gema Galgani conservou-se durante muito tempo em um lindo relicário, na Casa Geral dos Missionários Passionistas, em Roma. Hoje está localizado no famoso e concorrido Santuário de Santa Gema, em Madri, aos cuidados dos missionários passionistas, sendo objeto de grande devoção por parte de milhares de fiéis. (Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani.Ed.Paulinas.p.99)

O processo regular visando à glorificação de Gemma começou na Arquidiocese de Lucca quatro anos depois de sua morte. Seus escritos foram sendo analisados, investigada a heroicidade de suas virtudes…Terminado o processo arquidiocesano, aos 28 de abril de 1920…foi introduzido o processo de beatificação….mesmo conservando a sua cautela, a sua austeridade, a Santa Sé, no dia 5 de fevereiro de 1933, reconheceu como autênticos os milagres exigidos para beatificação de Gemma, depois de passados pelos exames dos teólogos, dos cientistas, e da comissão. No mesmo ano, quando se celebra o XIX centenário da redenção, aos 14 de maio, o Papa Pio XI a proclamou Beata. Já podia ser cultuada publica e oficialmente. A partir daquela datam, seus restos mortais passaram a ser venerados na igreja do Mosteiro das Monjas Passionistas, em Luca. Meses depois, a saber, no dia 26 de julho, o Santo Padre autorizou a abertura do processo, agora em vista a canonização. As sessões se sucederam e dois dos milagres exigidos foram reconhecidos como tais, por Pio XII, aos 26 de março de 1939. No ano seguinte, na festa da Ascensão, em 2 de maio de 1940, a Beata Gemma Galgani, para exultação de tantos devotos, e da Igreja, foi proclamada Santa. (Pe. Mauro Odoríssio. A Gema de Jesus. Palavra e Prece. p.311-312).


[1] Obstinar-se no pecado é no sentido de Ficar Remoendo os pecados já perdoados na confissão. Tem que confiar na misericórdia de Deus.

———————-

Fonte:

Odoríssio. Pe.Mauro. Santa Gemma Galgani. A Gema de Jesus.2009.

Pe. Fernando Piélagos. Santa Gema Galgani. Exemplo de sublime amor. 2004. Paulinas.

“Ser misericordioso com os que caíram é melhor meio para não cairmos nós mesmos!”São Felipe Néri

Biografia de São Felipe Néri, Apóstolo de Roma, por Plinio Maria Solimeo

Este santo compreendeu bem sua época e procurou remediar seus males. A extraordinária bondade de seu coração e constante sorriso foram sua maior arma de apostolado.


A vida de São Felipe Néri abarca quase todo o século XVI, um dos mais turbulentos da Idade Moderna, época do Renascimento e da pseudo-reforma protestante. Nasceu em Florença no dia 21 de julho de 1515, numa família profundamente cristã. Seus membros haviam exercido cargos na magistratura da “cidade das flores”, por muitas gerações, o que lhes permitiu ocupar um lugar na nobreza toscana. Mas isso não dispensava o pai, Francisco Néri, de trabalhar arduamente como tabelião para sustentar a família.

Felipe perdeu a mãe muito cedo, mas encontrou na madrasta uma digna sucessora que o amou como filho. O menino era tão amável, jovial e terno, que logo tornou-se conhecido como Pippo Buono, “o bom Felipinho”. Essa bondade de coração e amabilidade contagiantes, permeadas pela graça divina, seriam o grande segredo de suas conquistas no apostolado.

De sua infância resta-nos apenas um episódio: quando Pippo tinha por volta de oito anos, viu perto de sua casa uma mula carregada de frutas, que o proprietário trouxera para vender. Saltou para cima da montaria que, assustada, desequilibrou-se. Mula, carga e menino rolaram para o chão, indo para dentro de um paiol. Quando os pais e vizinhos acorreram, temendo o pior, encontraram Pippo ileso e sorrindo com a aventura.

Tendo estudado humanidades com os melhores professores da cidade, por volta dos 16 anos seu pai o enviou para São Germano, aos pés de Monte Cassino, para aprender a arte do comércio com seu tio Rômulo. Apesar de Felipe se dedicar com empenho ao negócio, suas cogitações estavam muito acima das mercadorias com que tratava. Logo se viu que ele não tinha senso comercial, mas divino. Apenas terminado o trabalho do dia, retirava-se para alguma igreja ou um dos oratórios abundantes na Itália. Servia-se também do emprego para fazer apostolado, perguntando aos fregueses se sabiam o Pai-Nosso ou se haviam feito a Páscoa. O tio comentava: “Felipe nunca será um bom comerciante. Eu deixaria a ele toda minha herança, se não fosse essa mania de rezar”. Para Felipe isso não era uma “mania”, mas necessidade. “Nada ajuda mais o homem do que a oração”, dirá mais tarde.

Por isso, quando fez 20 anos, deixou a casa do tio e, levado por um instinto sobrenatural, foi para Roma.

Santa alegria dos filhos de Deus

 

Na cidade eterna, estudou filosofia na universidade La Sapienza, e teologia na de Santo Agostinho, mantendo-se com aulas particulares.Os que tratavam com ele ficavam admirados de sua sabedoria, profundidade de pensamento e vida santa. Nessa época ele já vivia a pão e água uma vez só por dia, dormia apenas algumas horas no chão duro, e passava parte da noite em oração. À noite costumava visitar as sete principais igrejas de Roma, retirando-se depois para a catacumba de São Sebastião. Seu exemplo atraiu muitos companheiros, que se juntaram a ele nesses santos exercícios.

A virtude resplandecia nele. Alguns diziam ver sua cabeça envolta em luz sobrenatural, quando rezava. Apesar de sempre sorridente e amável, sua modéstia e virginal pudor faziam-no ser respeitado até pelos mais dissolutos. Via-se sempre a alegria transparecer em seu rosto, e a doçura estava de tal modo em seus lábios, que era uma grande satisfação estar com ele.

O que é mais curioso é que São Felipe, nessa época, não pensava em fazer-se sacerdote. Julgava acertadamente que se pode servir a Deus e ao próximo muito bem, permanecendo leigo. Entrou para a Companhia do Divino Amor, irmandade cujo objetivo era atender espiritual e materialmente os pobres, os doentes, os órfãos e os encarcerados. No Hospital dos Incuráveis, cuidou dos enfermos até o fim de sua vida, e para lá enviaria os seus seguidores. Entre estes encontrava-se um que é considerado o maior compositor do século XVI, Giovanni Pierluigi da Palestrina, cujas músicas passaram a fazer parte do repertório dos seguidores de São Felipe. Pois a música desempenhava papel importante em seu apostolado.

Não contente com a visita a hospitais, São Felipe punha-se também a percorrer ruas e praças, falando às pessoas sobre a Religião e as coisas de Deus, da maneira mais comovedora e cativante. A um perguntava: “Então, meu irmão, quando é que começaremos a amar a Deus?”. A outro: “É hoje que nos decidimos a comportar-nos bem?”. Ele era sobretudo um apóstolo e um semeador da santa alegria dos filhos de Deus.

Chamado ao apostolado com a juventude

São Felipe Néri se sentia chamado especialmente para cuidar da juventude. Para colocar os jovens em guarda contra as seduções da idade e conservar todo frescor da virtude, ele lhes dizia para se lembrarem sempre das palavras do profeta: “Bem-aventurado o homem que leva o jugo do Senhor desde sua adolescência”. Havia em sua voz e em suas maneiras tanto atrativo, que muitos, cedendo ao ascendente que Felipe tinha sobre eles, renunciavam às frivolidades do mundo e se entregavam inteiramente a Deus. Assim ele enviou a Santo Inácio, para sua recém-fundada Companhia de Jesus, muitos novos recrutas.

Os santos se atraem. São Felipe teve relações com todos os santos que viviam então na Cidade Eterna: São Carlos Borromeu, São Camilo de Lelis, Santo Inácio de Loyola e São Félix de Cantalício.

“São Carlos Borromeu tinha tanta estima e veneração por ele que, todas as vezes que o encontrava, prosternava-se diante dele e suplicava que o deixasse beijar suas mãos. Santo Inácio de Loyola não fazia menos caso de sua santidade, e via-se freqüentemente esses dois ilustres fundadores olharem-se sem nada dizer, na admiração mútua que tinham pela virtude que reconheciam um no outro”.(1)

A grande graça de Pentecostes

No dia de Pentecostes de 1545, quando suplicava ardentemente ao Divino Espírito Santo que lhe enviasse seus dons, viu de repente uma bola de fogo que lhe entrou boca adentro, descendo até o coração. Tal foi a veemência de amor de Deus que sentiu, que julgou que iria morrer. Caiu no chão, gritando: “Basta, Senhor, basta! Não resisto mais!”

O mais notável é que seu peito dilatou-se, mesmo fisicamente, na altura do coração. Isto foi constatado depois da morte pelo médico Andréa Cesalpino, que fez a autópsia: “Percebi que as costelas estavam rompidas naquele ponto, isto é, estavam separadas da cartilagem. Só dessa maneira era possível que o coração tivesse espaço suficiente para levantar-se e abaixar-se. Cheguei à conclusão de que se tratava de algo sobrenatural, de uma providência de Deus para que o coração, batendo tão fortemente como batia, não se machucasse contra as duras costelas”.(2)

“Durante seus últimos dias como leigo, o apostolado de Felipe cresceu rapidamente. Em 1548, junto com seu confessor Persiano Rosa, fundou a Confraternidade da Santíssima Trindade para cuidar de peregrinos e convalescentes. Seus membros se reuniam para a Comunhão, oração e outros exercícios espirituais na igreja de São Salvador, e o próprio santo introduziu a exposição do Santíssimo Sacramento uma vez por mês. Embora ele ainda fosse leigo, fazia a pregação, e sabemos que numa só ocasião ele converteu trinta jovens dissolutos”.(3)

Sacerdote do Altíssimo, dedicado ao confessionário

 

Quando Felipe tinha 36 anos, seu confessor Pe. Persiano ordenou-lhe, em nome de Deus, que se fizesse sacerdote. Depois de mais alguns estudos, ordenou-se, celebrando sua primeira missa no dia 23 de maio de 1551. Felipe entrou então para a comunidade de Presbíteros de São Jerônimo, que gozava merecida fama pelas virtudes de seus componentes. Estes, embora vivessem em comunidade e tivessem mesa em comum, não se obrigavam a nenhum voto. Este será o berço do Oratório de São Felipe Néri.

Ouvindo contar as maravilhas operadas por São Francisco Xavier na Índia, São Felipe pensou muito em ir também para o Oriente. Dirigiu-se então ao santo religioso Agostinho Ghattino, muito favorecido por Deus, pedindo-lhe que consultasse o Senhor sobre esse seu projeto. A resposta divina foi: “Felipe não deve buscar as Índias, mas Roma, onde o destina Deus, assim como a seus filhos, para salvar almas”.(4)

Como sacerdote, São Felipe dedicou-se especialmente ao confessionário, onde passava grande parte do dia.

Muitos de seus penitentes, levados pelo desejo de recolher a doutrina desse pai espiritual, passaram a ir diariamente visitá-lo. “Pouco a pouco os discípulos se tornaram tão numerosos, que foi preciso ter a reunião numa igreja; e por fim a concorrência cresceu tanto, que foi necessário distribuí-la em grupos, à frente dos quais o mestre punha um de seus discípulos mais capazes. Assim nasceu o instituto do Oratório, sem mais regras que os cânones, sem mais votos que os compromissos do batismo e da ordenação, sem mais vínculos que a caridade”.(5)

Outra nota marcante na vida de São Felipe Néri foi seu amor pela Eucaristia. Era tão grande o fervor de sua caridade que, em vez de se recolher para celebrar a Missa, tinha que procurar deliberadamente uma distração, para ser capaz de prestar atenção depois no rito externo do Santo Sacrifício.

Como todos os santos, teve que enfrentar muitas calúnias. O próprio cardeal vigário de Roma, levado por um certo parti-pris e pelos rumores de que o santo mantinha assembléias perigosas e semeava novidades entre o povo, chegou a repreendê-lo severamente, retirando-lhe a licença para atender confissões durante quinze dias. Mas, tendo o purpurado falecido repentinamente, o papa Paulo IV, chamado a julgar o caso, não só absolveu São Felipe como recomendou-se às suas orações.

Um dos principais discípulos de São Felipe foi o Venerável Cesare Barônio, depois cardeal, autor dos Annales Ecclesiastici, trabalho que marcou época na historiografia e mereceu para seu autor o título de “Pai da História Eclesiástica”.

São Felipe Néri entregou sua alma a Deus no dia 26 de maio de 1595, sendo canonizado apenas 27 anos depois, juntamente com Santo Isidro Lavrador, Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier e Santa Teresa D’Ávila.

E-mail do autor: pmsolimeo@catolicismo.com.br

 

1. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo VI, p. 217.

2. Apud Guilherme Sanches Ximenes, Felipe Néri – O sorriso de Deus, Editora Quadrante, São Paulo, 1998, p. 17.

3. C. Sebastian Richie, Philip Néri, The Catholic Encyclopedia, online edition.

4. Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis vives, S.A., Saragoça, 1947, vol. III, p. 266.

5. Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, vol. II, p. 457.

DISCURSO DO SANTO PADRE
AOS PARTICIPANTES NO CONGRESSO GERAL DA
CONFEDERAÇÃO DO ORATÓRIO DE SÃO FILIPE NÉRI
– ORATORIANOS

5 de outubro de 2000

Caríssimos
Sacerdotes e Leigos Oratorianos

1. É-me grato apresentar as minhas cordiais boas-vindas a cada um de vós, participantes no Congresso Geral da Confederação do Oratório de São Filipe Néri, que com esta visita quisestes confirmar a sincera devoção ao Vigário de Cristo e a plena adesão ao Seu Magistério, no espírito do vosso Fundador, que amou a Igreja com todo o seu ser e vos deixou como herança a sua incondicional fidelidade à Sé de Pedro.

Ao saudar com afecto o Padre António Rios Chávez, Delegado da Sé Apostólica, dirijo um cordial pensamento a cada uma das Congregações representadas no vosso Congresso Geral, exprimo-lhes viva gratidão pelo bem que realizam e alegro-me com o crescimento que o Oratório está a conhecer em diversas partes do mundo.

2. A vossa Confederação, instituída pela Sé Apostólica para unir no vínculo da caridade e da ajuda recíproca cada uma das Congregações do Oratório, nos recentes Congressos Gerais empenhou-se em rever os textos constitucionais na linha indicada pela Igreja por ocasião do Concílio Ecuménico Vaticano II. No alvorecer do terceiro milénio cristão, a vossa Assembleia propõe-se ir de novo, sob o aspecto predominantemente pastoral, às fontes do movimento espiritual que tem origem na missão de conduzir sempre o homem ao encontro com Jesus Cristo, “Caminho, Verdade e Vida”, realmente presente na Igreja e “contemporâneo” de cada homem.

Esse encontro, vivido e proposto por São Filipe Néri de modo original e envolvente, leva a tornar-se homem novo no mistério da Graça, suscitando na alma aquela “alegria cristã” que constitui o “cêntuplo”, dado por Cristo a quem O acolhe na própria existência. Favorecer um encontro pessoal com Cristo representa também o fundamental “método missionário” do Oratório.

Ele consiste em “falar ao coração” dos homens para os levar a fazer uma experiência do Mestre divino, capaz de transformar a vida. Obtém-se isto sobretudo testemunhando a beleza de um semelhante encontro, do qual o viver recebe sentido pleno. É necessário propor aos “que estão afastados” não um anúncio teórico, mas a possibilidade de uma existência realmente renovada e por isso repleta de alegria.

Eis a grande herança recebida do vosso Padre Filipe! Eis uma via pastoral sempre válida, porque está inscrita na perene experiência cristã! Faço votos por que o retorno às fontes da espiritualidade e da obra de São Filipe, efectuado pelo vosso Congresso, suscite em cada Congregação uma renovada consciência da validade e da actualidade do “método missionário” do vosso Fundador e proporcione uma significativa contribuição para o compromisso na “nova evangelização”.

3. O Oratório nasceu da fé e do génio de São Filipe Néri, que soube compor em síntese harmoniosa a dimensão carismática e a plena comunhão com os Pastores da Igreja e, na Roma do seu tempo, com grande sabedoria foi ao encontro das necessidades espirituais e materiais da juventude, testemunhando a tal ponto a dimensão jubilosa da fé, que foi considerado “o profeta da alegria cristã”. O Oratório caracteriza desde o início a vossa Congregação que dele toma o nome, como recorda a Bula “Copiosus in misericordia”, com a qual Gregório XIII a instituiu no Ano Santo de 1575. Nascida com a participação de sacerdotes seculares, provenientes da primeira experiência do Oratório, e posta ao seu serviço, a vossa Congregação deve continuar a conservar no centro dos próprios interesses essa benemérita instituição, com os seus propósitos originários, o seu método e estilo, sempre adaptável às necessidades dos tempos.

Como recorda o “Itinerário Espiritual”, aprovado no Congresso Geral de 1994:  “O fim específico e a missão da Congregação do Oratório é o nascimento e o crescimento de autênticas comunidades cristãs, luz e sal da terra”. Nas vossas Constituições elas são apresentadas, desde os primeiros artigos, como uma união fraterna de fiéis que, seguindo as pegadas de São Filipe Néri, estabelecem para si aquilo que ele ensinou e fez, tornando-se assim “um só coração e uma só alma” (Act 4, 3). O modelo no qual se inspiram são os encontros de oração simples e familiares e os colóquios espirituais do vosso Padre Filipe com penitentes e amigos. Nessa perspectiva, o Oratório reconhece a sua identidade em “praticar em comum a maneira de abordar a Palavra de Deus com familiaridade, além da oração mental e oral, a fim de promover nos fiéis, como numa escola, o espírito contemplativo e o amor pelas coisas divinas”.

Formulo votos para que o Oratório, ao pôr-se ao serviço dos homens com simplicidade de espírito e alegria, saiba manifestar e difundir esse método espiritual, de maneira sempre mais atraente e eficaz. Assim poderá oferecer um testemunho coerente e incisivo, vivendo em plenitude o fervor das origens e propondo aos homens de hoje uma experiência de vida fraterna, fundada principalmente sobre a realidade, acolhida e vivida, da comunhão sobrenatural em Cristo.

“Quem quiser outra coisa que não seja Cristo, não sabe aquilo que quer; quem pede outra coisa que não seja Cristo, não sabe aquilo que faz”. Estas palavras do vosso santo Fundador indicam o critério sempre válido de toda a renovação da comunidade cristã, que consiste em retornar a Jesus Cristo:  à sua palavra, à sua presença, à acção salvífica que Ele actua nos Sacramentos da Igreja.

Esse empenho levará os Sacerdotes a privilegiar, como é próprio da vossa tradição, o ministério das Confissões e o acompanhamento espiritual dos fiéis, para responder plenamente ao vosso carisma e às expectativas da Igreja. Deste modo, eles ajudarão os leigos pertencentes aos Oratórios seculares a compreenderem o valor essencial de ser “christifideles”, à luz da experiência de São Filipe que, a respeito do laicado, antecipou ideias e métodos que se revelariam fecundos na vida da Igreja.

4. As vossas Congregações, fiéis à autonomia querida pelo santo Fundador, vivem particularmente ligadas à realidade das Igrejas particulares e às situações locais. Mas não se pode esquecer a importância que também reveste, na vida das Comunidades e dos seus membros, o vínculo fraterno com as outras Congregações que constituem a Confederação. É mediante esse vínculo que a característica autonomia de cada Casa se abre ao dom da caridade efectiva e as Comunidades confederadas encontram uma ajuda válida para crescerem na fidelidade ao carisma oratoriano.

Cada Congregação dedique um cuidado particular à formação inicial e permanente dos indivíduos e das Comunidades, para assimilar o ideal transmitido por São Filipe e reproposto pelos textos constitucionais, em vista de uma crescente vitalidade espiritual e de uma eficaz presença apostólica.
Em particular, exorto-vos a deixar-vos guiar por estes valores, sobretudo ao aproximardes-vos do mundo juvenil, que é repleto de promessas, não obstante as dificuldades, sentindo-vos enviados de maneira especial a quantos estão “afastados”, mas tão próximos do Coração do Salvador. Nesse contexto, ser-vos-á de grande apoio a tradicional sensibilidade dos Oratorianos pela arte e a cultura, vias particularmente idóneas para uma significativa presença evangelizadora.

A Virgem Maria, “Mãe e fundadora do Oratório”, seja para cada um de vós o modelo em que vos inspirar constantemente, ao acolher com plena disponibilidade o dom do Espírito e anunciar a alegria de Cristo aos irmãos.

Com estes bons votos, enquanto vos confio à celeste intercessão de São Filipe Néri, concedo uma especial Bênção Apostólica a cada um e a toda a Congregação do Oratório.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/2000/oct-dec/documents/hf_jp-ii_spe_20001005_san-filippo-neri_po.html

Fonte: http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?idmat=52FC7D9D-3048-313C-2E935C8F254A0EC4&mes=Maio1992

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?idmat=F96BD5AF-3048-313C-2E2EA8CE1BCFDB20&mes=Maio2009

Poucos  são os santos  da  Igreja  privilegiados como São Filipe Néri.  Filho de pai nobres e piedosos, Filipe nasceu em 1515, na cidade de Florença. De boa índole, de modos afáveis e  inclinação à oração mereceram ao menino de  5 anos o apelido de “o bom Filipe”. Um incêndio destruiu grande parte da fortuna dos pais, e Filipe passou a morar com um primo que era negociante riquíssimo em São Germano. Este primo prometeu-lhe estabelecê-lo como herdeiro de  todos os seus bens, se quisesse tomar-lhe a gerência dos negócios. O bom Filipe, porém, pouca inclinação sentia para ser negociante;  o que queria, era ser santo, e  apesar das repetidas insistências do primo, resolveu dedicar-se  ao serviço de Deus. Fez os estudos de Filosofia e Teologia em Roma, e começou desde logo a  observar a regra de  vida austeríssima, que o acompanhou até o fim da vida. Alimentava-se de pão,  água e legumes; para o sono reservava poucas horas, para a adoração, porém, muitas.

No grande desejo de  dedicar-se  à vida contemplativa, vendeu a biblioteca, deu os bens  aos pobres e  aprofundou o espírito na meditação da Sagrada Paixão e Morte de  Jesus  Cristo. Todo  o tempo disponível passava-o nas igrejas ou de preferência catacumbas. A graça de Deus tocou-lhe  o coração com tanta violência que, prostrado  por terra, exclamou muitas  vezes: “Basta, Senhor, basta! Suspendei a  torrente de vossas  consolações,  porque não tenho forças para receber  tantas delícias. Ó meu Deus tão amável, por que não  me destes um coração capaz de amar-Vos  condignamente?”  Foi nas catacumbas de  São Sebastião, no ano de 1545, que recebeu o Espírito Santo, em forma  de bola de fogo. Naquela  ocasião sentia em si um ardor tão forte do amor de Deus que, devido às palpitações fortíssimas  do coração, foram  deslocadas  a  segunda e a quarta costelas.

Com o  amor de Deus, grande era-lhe também  o amor do próximo.  Filipe, possuía o dom de atrair todos a  si, circunstância para a  qual concorriam muito sua afabilidade, cortesia  e  modéstia. Recorria  a mil estratagemas, para ganhar os jovens  das  ruas e  nas oficinas de Roma. Era amigo de todos e, uma vez adquirida a confiança preparava-os para a recepção dos Sacramentos e  encaminhava-os para o bem. As noites passava-as nos hospitais, tratando os doentes como uma  mãe. O monumento mais belo de sua caridade  é a Irmandade  da  Santíssima Trindade, cujo fim principal era receber os romeiros  e  tratar dos doentes. No início de cada mês convidava o povo  para adoração ao SS. Sacramento e, nesta ocasiões, embora leigo, fazia admiráveis  alocuções aos fiéis.  A piedosa  idéia achou eco entre  o povo  que, abundantes esmolas deitavam para a nova instituição. Cardeais, bispos, reis, ministros, generais e princesas, viam grande honra em  poderem pertencer a  esta irmandade.

Seguindo o conselho do seu confessor, Filipe   recebeu o santo Sacramento da  Ordem , tendo a  idade de 36 anos. Tinha a vontade de  trabalhar nas índias  e  de morrer mártir pela  religião de  Cristo. Pela  vontade  de Deus,  porém,  sua Índia  havia de ser Roma, e lá ficou.

Deixando-se guiar pela Providência  Divina, tornou-se Apóstolo da capital da cristandade, sendo sua obra principal  a  fundação da Congregação da  Oração para a qual  chamou homens igualmente distintos  pelo  saber e piedade.  As conferências espirituais  tinham  grande concorrência  entre  cardeais, bispos, sacerdotes e leigos, os quais confiavam-se  à  direção de São Filipe, a quem veneravam como  um pai.

Grande Parte do dia  passava  no confessionário, e só Deus sabe o número  das almas  que a seus pés acharam a paz,o perdão e a salvação.  Todos nele  depositavam  uma confiança ilimitada. Ilimitada  também era a inveja e  o ódio de satanás e seus  sequazes.  Os confrades tiveram  que saborear muitas  vezes o escárnio,  a  calúnia e  perseguição. O ódio dos inimigos chegou a tal ponto, que levaram uma acusação falsa à autoridade eclesiástica, de que resultou para Filipe a  suspensão de ordens. Privado da celebração da Santa Missa, da pregação e  da administração do SS. Sacramento, o  Santo não perdeu a  calma e só dizia: “Como  Deus é  bom,  que  me humilha!” A suspensão foi retirada, e o inimigo principal do Santo, caindo em si, fez reparação pública e tornou-se-lhe discípulo. 

Pelo fim da vida já não lhe era possível dizer a santa Missa em público, tanta era a comoção que lhe sobrevinha, na celebração dos santos mistérios. Estando no púlpito, as lágrimas lhe embargavam a voz quando falava  do amor de  Deus e da Paixão de Cristo. Quando celebrava  a  Missa, chegando à santa Comunhão,  pelo espaço de duas a  três horas ficava  arrebatado em êxtase enquanto o corpo se  lhe elevava à altura de dois  palmos. Não é  para admirar que o Papa o consultasse nos negócios mais importantes e  quisesse  beijar-lhe  as  mãos e a batina.

À sua prudência  e  clarividência deve a França a  felicidade  de  ter permanecido país católico. Henrique IV, calvinista, tinha abjurado a  heresia  e entrado na Religião Católica. No ardor das guerras civis, tornou a voltar ao calvinismo, para   depois  outra vez se  agregar à Igreja.  O Papa Clemente VIII com o  apoio dos  cardeais, negou ao rei  a absolvição e opôs-se-lhe à reconciliação. Filipe, prevendo a  apostasia  da  França, no caso de o Papa persistir nesta resolução, fez jejuns  e orações extraordinárias e  pediu a Barônio, que era confessor do Papa, que o acompanhasse  nestes exercícios, para alcançar a luz do Divino Espírito Santo.  Posteriormente, Henrique IV obteve a absolvição do Papa e  foi solenemente recebido no seio da Igreja.

Fatigado e exausto de  trabalhos e  alquebrado pela idade,  Filipe foi acometido de  grave doença, tendo os médicos o examinado e,  saindo do quarto desanimados, ouviram  o doente exclamar: “Ó minha Senhora, ó dulcíssima e  bendita Virgem!”.    Voltaram para ver o que tinha acontecido e encontraram o Santo elevado sobre o leito e, em êxtase, exclamou: “Não sou digno, não sou digno de  vós, ó dulcíssima Senhora, que venhais visitar-me!”.    Os médicos, respeitosos, indagaram ao doente o que sentia. Este, voltando a si e  tomando a posição costumeira no leito, perguntou: “Não a vistes, a Santíssima Virgem, que me livrou das  dores? ”  De fato se levantou completamente curado, e viveu mais um ano. Tendo predito a  hora da morte, Filipe fechou os olhos para este mundo no dia 02 de maio de 1595. O túmulo tornou-se glorioso e  poucos anos depois da  morte, Filipe foi beatificado  pelo Papa  Paulo V, em 1622, e canonizado por Gregório XV.

Reflexões:

São Filipe  deu o seguinte conselho a  uma pessoa que  se queixava da sua cruz:    “Meu filho,  a  grandeza  do amor que se tem a Deus, é medida pela grandeza do desejo de sofrer  muito por amor de Deus; quem se impacienta com a cruz, achará uma outra mais pesada”;   convém fazer da necessidade  uma virtude. Os sofrimentos  deste mundo são a melhor  escola do desprezo do mundo; quem não se matricular nesta escola, merece dó, porque é um infeliz.

Referência bibliográfica: Na luz Perpétua,  5ª.  ed., Pe. João Batista Lehmann, Editora Lar Católico – Juiz de Fora – Minas  Gerais,  1959.

Fonte: http://www.paginaoriente.com/santos/felipeneri2605.htm

Biografia de São Felipe Néri por Guilherme Sanches Ximenes

– Livro: Felipe Néri – O sorriso de Deus.Editora Quadrante.

Início

Era madrugada do dia 21 de julho de 1515 – ano em que também nascia Teresa de Ávila – quando se ouviu o primeiro choro daquele que viria a ser chamado “o sorriso de Deus entre os homens”. Filipe Rômulo Néri…Junto com as suas duas irmãs mais velhas – Caterina e Elisabetta – foi educado num ambiente familiar de classe média modesta, com poucos meios, mas impregnado de sincera piedade cristã…cursou o equivalente ao nosso primeiro e segundo graus com os dominicanos do convento de São Marcos, e lá recebeu também a primeira formação cristã.(p.3-p.5).

 Aprendizado

Certa vez, um rapaz veio procurá-lo para conversar. Contou-lhe que estava estudando e pretendia concluir os estudos o mais rápido possível. – “E depois?”, perguntou-lhe Filipe. Depois certamente me tornarei um advogado. – E depois? “Depois ganharei muito dinheiro e farei meu nome”. E depois? Depois casar-me-ei e terei uma família. – E depois? Bem depois…”As respostas saíam cada vez mais lentamente e de maneira mais difícil, porque “depois”…se chega ao fim. Filipe então abraçou-o fortemente e perguntou-lhe d emodo quase inaudível: “E depois?”.(p.8). 

Vida difícil

Chegando a Roma, Filipe foi morar na casa de um conterrâneo seu, chamado Galeotto del Caccia. Como meio de sustento e sobrevivência, assumiu a tarefa de preceptor dos dois filhos pequenos do seu hospedeiro. Podia assim usufruir de um modesto quarto e recebia uma certa porção de trigo, que levava ao padeiro para que o moesse e transformasse em pão. Durante muito tempo, a sua alimentação cotidiana não passaria desse pedaço de pão e de algumas azeitonas.(p.11). 

Testemunho

Além das obras de misericórdia, Filipe sentia ainda a necessidade de “falar sempre de Cristo, e em voz alta.(p.14).

Calor no coração

Numa das ocasiões em que fazia oração nas catacumbas de São Sebastião, no ano de 1544, ocorreu um episódio que ficou conhecido como o “Pentecostes de Filipe”. Como contraria a Pietro Consolini, seu confidente no final da vida, viu naquela noite já longínqua uma bola de fogo que lhe entrava pela boca e lhe dilatava o peito com tanta intensidade que lhe pareceu que iria morrer. Caindo ao chão – tamanha era a sensação de dor, de fogo interior e estranheza diante daquele acontecimento sobrenatural – , gritou:”Basta, Senhor, basta!Não resito mais!

Desse acontecimento dicaram-lhe algumas consequências externas que os médicos nunca conseguiram explicar. Uma delas, por exemplo, era uma palpitação e um tremor praticamente incontroláveis por todo o corpo sempre que entrava em contacto íntimo com Deus: ao rezar, ao celebrar uma missa, ao pregar…Era um tremor tão forte – como contam os que conviveram com ele – que se transmitia à cadeira ou ao banco em que estava ajoelhado. Outra consequência foi que passou a sentir um calor interior tão intenso que, mesmo nos dias mais rigorosos do inverno romano, dormia sempre com a janela aberta e saía em plena noite para rezar ao ar livre. Além disso, ficou também com uma dilatação peitoral mais ou menos do tamanho de um punho à altura do coração. O médico Andrea Cesalpino, que fez a autópsia do seu corpo, relata: “Uma vez aberto o toráx, percebi que as costelas estavam rompidas naquele ponto, isto é, estavam separadas da cartilagem. Só dessa maneira era possível que o coração tivesse espaço suficiente paa levantar-se e abaixar-se. Cheguei à conlusão de que se tratava de algo sobenatural(…), de uma providência de Deus para que o coração, batendo tão fortemente como batia, não se machucasse contra as duras costelas.”(p.16-17)

Vocação

“gostaria de servir a Deus como leigo e não queria ser sacerdote nem confessor. No entanto, obrigou-se a seguir a opinião daquele que conhecia sua alma e obedeceu… Celebrava sua primeira missa no dia 23 de maio de 1551.(p.18).

Confessor

Filipe via os pecados das pessoas antes memso de se acusarem deles. E usava esse dom não para recriminá-las, mas para facilitar-lhes a acusação das suas faltas.(p.22). 

Direção espiritual

Dirigia as almas com profundo sentido sobrenatural e extremo bom senso – além de senso de humor, muitas vezes. A um homem rico que, depois da confissão, se propunha fazer grandes penitências, indicou-lhe que, em vez disso, desse muitas esmolas; a uma moça que se mostrava deprimida, mandou-a procurar um bom marido; a uma senhora de saltos altos que lhe pedia conselho, só recomendou que tomasse cuidado pra não cair… e a outra ainda, que se acusou repetidas vezes de maledicência, deu-lhe como penitência que fosse depenando uma galinha pela estrada e que depois voltasse recolhendo as penas, para que lhe entrasse pelos olhos que é isso o que aconece quando se calunia alguém: a falsiade espalha-se e é difícil devolver a boa fama.(p.23).

Cura da depressão

Em certa ocasião, uma freira comentou-lhe que se sentia deprimida e pensava que não haveria salvação para ela. – Não respondeu-lhe Filipe – , digo-lhe que você está destinada ao Paraíso, e lhe demonstro. Diga-me, por quem foi que Cristo morreu? – Pelos pecadores. Exatamente. E você, o que é? – Uma pecdora. E Filipe tirou a conclusão: “Portanto, o Paraíso é para você, desde que se arrependa dos seus pecados.” E assim a freira libertou-se definitivamente da sua depressão.(p.24).

“Ser misericordioso com os que caíram é melhor meio para não cairmos nós mesmos!”(p.24)

“Esse santo sacerdote tinha uma graça particular de Deus, pela qual conseguia atrair para si o coração das pessoas.(p.24).

“Na guerra pela pureza só vencem os covardes, isto é, aqueles que fogem!(p.26).

 

Biografia de Santa Teresa dos Andes


TERESA DE JESUS DOS ANDES  (1900-1920)

Virgem
Carmelitana Descalça


A jovem que hoje a Igreja glorifica com o titulo de Santa é um profeta de Deus para os homens e mulheres do nosso tempo. Teresa de Jesus dos Andes  põe-nos diante dos olhos o testemunho vivo do Evangelho, encarnado até às últimas exigências na sua própria vida. Ela é, para a humanidade, prova indiscutível de que a chamada de Cristo à santidade é actual, possível e verdadeira. Ela ergue-se diante de nós para demonstrar que a radicalidade do seguimento de Cristo é o único que vale a pena e o único capaz de fazer-nos felizes. Teresa dos Andes, com a eloquência duma vida intensamente vivida, confirma-nos que Deus existe, que Deus é amor e alegria, que é a nossa plenitude.

Nasceu em Santiago do Chile a 13 de Julho de 1900. No Baptismo foi-lhe dado o nome de Joana Henriqueta Josefina dos Sagrados Corações Fernández Solar. Familiarmente era conhecida, e é-o ainda hoje, pelo nome de Juanita.Viveu uma infância normal no seio da família: os pais, Miguel Fernández e Lucia Solar; três irmãos e duas irmãs; o avô materno, tios, tias e primos.A família gozava de boa posição económica e guardava fielmente a fé cristã que vivia com sinceridade e constância.

Joana recebeu a sua formação escolar no colégio das Irmãs francesas do Sagrado Coração. Uma curta e intensa história passada entre a família e o colégio. Aos catorze anos, movida por Deus, já ela se decidiu a consagrar-se a Ele como religiosa, em concreto, como carmelita descalça.Este seu desejo veio a realizar-se a 7 de Maio de 1919, quando entrou no pequeno mosteiro do Espírito Santo na povoação de Los Andes, a cerca de 90 kms de Santiago.

Vestiu o hábito de carmelita no dia 14 de Outubro desse mesmo ano, iniciando assim o noviciado com o nome de Teresa de Jesus.Tinha intuído, havia muito, que morreria jovem. Melhor, o Senhor tinha-lho revelado, como comunicou ao confessor um mês antes da sua partida para Ele.Assumiu este anúncio com alegria, serenidade e confiança, certa de que na eternidade continuaria a sua missão de fazer conhecer e amar a Deus.

Após muitas tribulações interiores e indizíveis padecimentos fisicos, causados por um violento ataque de tifo que lhe consumiu a vida, passou deste mundo para o Pai no entardecer do dia 12 de Abril de 1920. Tinha recebido com sumo fervor os santos sacramentos da Igreja e no dia 7 de Abril fez a profissão religiosa em artigo de morte. Faltavam-lhe ainda três meses para completar os 20 anos de idade e 6 para terminar o noviciado canónico e poder emitir juridicamente os votos religiosos. Morreu, portanto, sendo noviça carmelita descalça.

Esta é a trajectória externa desta jovem chilena de Santiago. Desconcerta e desperta em nós uma grande interrogação: Mas, que fez ela de importante? Para tal pergunta, uma resposta igualmente desconcertante: viver, crer, amar.Quando os discípulos perguntaram a Jesus sobre o que deviam fazer para cumprir as obras de Deus, Ele respondeu: ” A obra de Deus é que acrediteis n’Aquele que Ele enviou ” (Jo. 6, 28-29). Portanto, para aperceber-nos do valor da vida de “Juanita”, é necessário assomar-nos ao seu interior, ali onde o Reino de Deus está.

Ela abriu-se à vida da graça desde mui tenra idade. E ela mesma que nos assegura que aos 6 anos, movida pelo Senhor, conseguiu centrar n’Ele toda a riqueza da sua afectividade. “Quando se deu o terramoto de 1906, pouco depois, Jesus começou a apoderar-se do meu coração” (Diario, n. 3, p. 26). Juanita aliava uma enorme capacidade de amar e de ser amada a uma extraordinária inteligência. Deus fê-la experimentar a sua presença, cativou-a dando-se-lhe a conhecer e fê-la totalmente d’Ele, unindo-a ao sacrifício da cruz. Conhecendo-O, amou-O; e amando-O, entregou-se radicalmente a Ele.

Tinha compreendido, já desde pequena, que o amor se mostra mais com obras que com palavras. Por isso traduziu-o em todos os actos da própria vida, desde a sua motivação mais profunda. Olhou-se a si mesma de frente com olhos sinceros e sábios e compreendeu que, para ser de Deus, era necessário morrer para si mesma e para tudo o que não fosse Ele. Por natureza era totalmente adversa às exigências do Evangelho: orgulhosa, egoísta, teimosa, com todos os defeitos que isto supõe. Como nos acontece a todos. Mas o que ela fez de diferente foi não esmorecer nunca na luta encarniçada contra todo o impulso não nascido do amor.

Aos 10 anos era uma nova pessoa. Motivava-a o sacramento da Eucaristia que ia receber. Compreendeu que era Deus que ia morar dentro dela; e isso fê-la empenhar todo o esforço em ornar-se das virtudes que a fizessem menos indigna desta graça e conseguiu, em pouquíssimo tempo, transformar por completo o seu carácter.Na celebração deste Sacramento recebeu de Deus graças místicas de falas interiores que persistiram ao longo de toda a vida. Desde então, a inclinação natural para Deus transformou-se nela em amizade, em vida de oração.

Quatro anos mais tarde recebeu interiormente a revelação que iria orientar definitivamente toda a sua vida: Jesus Cristo disse-lhe que a queria carmelita e que a sua meta tinha de ser a santidade.Com abundante graça de Deus e a generosidade duma jovem apaixonada, entregou-se à oração, à aquisição das virtudes e à prática da vida segundo o Evangelho, de tal modo que em breves anos foi elevada a alto grau de união com Deus.

Cristo foi o seu ideal, o seu único ideal. Enamorou-se d’Ele e foi consequente até crucificar-se em cada momento por Ele. Invadiu-a O amor esponsal e, por isso, o desejo de unir-se plenamente a Quem a havia cativado. Assim, aos 15 anos fez voto de virgindade por nove dias, que renovou depois continuamente. A santidade da sua vida resplandeceu nos actos ordinários de cada dia em qualquer ambiente onde viveu: a família, o colégio, as amigas, os vizinhos com quem passava parte das suas férias e a quem, com zelo apostólico, catequizou e ajudou. Sendo jovem igual a todas as suas amigas, estas reconheciam-na diferente. Tomaram-na por modelo, apoio e conselheira. Juanita sofreu e gozou intensamente em Deus as penas e alegrias comuns a todas as pessoas.

Jovial, alegre, simpática, atraente, desportista, comunicativa. Adolescente ainda, alcançou perfeito equilíbrio psicológico e espiritual, como fruto de ascese e oração. A serenidade do seu rosto era o reflexo do Deus que nela vivia. A sua vida no convento, de 7 de Maio de 1919 até à morte, foi o último degrau da sua ascensão ao cume da santidade. Nada mais que onze meses bastaram para consumar uma vida totalmente cristificada.

Bem depressa a Comunidade descobriu nela a passagem de Deus na sua própria história. No estilo de vida carmelitano-teresiano, a jovem encontrou plenamente o espaço por onde derramar, com a maior eficácia, a torrente de vida que ela queria oferecer à Igreja de Cristo. Era o mesmo estilo de vida que, a seu modo, vivera na família e a que se sentia chamada. A Ordem da Virgem Maria do Monte Carmelo culminou os desejos de Juanita ao comprovar que a Mãe de Deus, a quem amou desde pequena, a tinha atraído para pertencer-lhe.

Foi beatificada em Santiago do Chile por Sua Santidade o Papa João Paulo II, no dia 3 de Abril de 1987. Os seus restos são venerados no Santuário de Auco-Rinconada dos Andes por milhares de peregrinos que buscam e encontram nela a consolação, a luz, e o caminho recto para Deus.

Santa Teresa de Jesus nos Andres é a primeira Santa chilena, a primeira Santa carmelita descalça de além fronteiras da Europa e a quarta Santa Teresa do Carmelo, depois das Santas Teresas de Avila, de Florença e de Lisieux.

Fonte: http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_19930321_teresa-de-jesus_po.html

Introdução

Emociona o carinho e a ternura que transparecem nas cartas a seu pai, obrigado por negócios a viver muito tempo longe da família. É uma surpresa agradável ouvi-la ponderar a felicidade contagiante que desfruta. (p.11)

Já antes de entrar no convento deseja que toda a sua existência seja uma oração ininterrupta. Em todos os lugares, mesmo nos passeios e festas, ela está com Deus.  (p.13)

A família

“Nasci em 1900, no dia 13 de julho. Mamãe se chama Lucia Solar de Fernández: papai Miguel Fernandez Jara…”(p.34)

“Jesus não quis que nascesse como Ele, pobre. E nasci em meio às riquezas, mimada por todos. Eu era a quarta. A primeira se chamava Lucía, que tinha 7 anos; Miguel, o segundo, 6, e Lucho, o terceiro, tinha 3 anos…Pouco depois nasceu Rebeca, com um ano e oito meses, de diferença comigo. “(p.34)

“Desde pequena me diziam que eu era a mais bonita de méis irmãos, e eu não dava conta disso..Só Deus sabe o que me custou afastar esse orgulho…porém tinha um caráter sumamente suave: jamais me zangava com alguém.” (p.34-35)

Aos 7 anos de idade

“Lembro que minha mãe e minha tia Juanita nos levavam à missa e sempre explicavam tudo; …Lembro que mamãe e minha tia Juanita me sentavam na mesa e me perguntavam sobre a Eucaristia…Aos 7 anos me confessei. Nos preparam as Monjas. (p.35)

Desde essa época Nosso Senhor me mostrou o sofrimento. Papai perdeu uma parte da fortuna. Assim, tivemos de viver mais modestamente. (p.38)

A verdade é que Miguel Fernandez,…não soube administrar seus bens, e a família…o olhava com imensa compaixão…Miguel, para evitar… problemas, passava grandes temporadas longe da família, nas terras, próprias ou arrendadas, que cultivava. (p.88)

A Primeira Comunhão

O coração de Juanita sente uma terna devoção à Santíssima Virgem. Promete-lhe rezar todos os dias o santo rosário. Cumprirá fielmente esta promessa durante toda a vida. Começa a assistir com sua mãe, à missa todos os dias e, não podendo comungar como deseja e solicita, começa a preparar-se para a primeira comunhão, conseguindo modificar seu caráter… 11 de Setembro: recebe das mãos de Mons. Angel Jara sua primeira comunhão na capela do colégio. “Dia sem nuvens”, que a marcou definitivamente. (p.24)

“O dia de minha Primeira Comunhão foi um dia sem nuvens para mim. Fiz confissão geral. Lembro-me: depois que saí colocaram-me um véu branco. Ah! Lembro-me da impressão de meu paizinho. Fui pedir-lhe perdão e me beijou. Então me ajoelhei e, chorando, lhe disse que me perdoasse todas as penas que lhe havia dado com minha conduta. E meu paizinho verteu lágrimas, levantou-me e me beijava, dizendo que não tinha por que pedir perdão, porque nunca o havia desgostado, e que estava muito contente vendo-me tão boa. Ah! Sim, paizinho, porque vós éreis demasiado indulgente e bondoso para comigo. Pedi perdão a mamãe, que chorava. A todos meus irmãos e, por último, a minha mãezinha e aos outros empregados. Todos me respondiam comovidos.”(p.39)

“…Chegou por fim o momento. Fizemos nossa entrada na capela de dois em dois…Não é possível descrever o que passou por minha alma com Jesus. Pedi-lhe mil vezes que me levasse, e sentia sua voz querida pela primeira vez. “Ah, Jesus, eu te amo; eu te adoro!” Pedia-lhe por todos. E sentia a Virgem perto de mim. Oh, quanto se abre o coração! E pela primeira vez senti uma paz deliciosa. Depois da ação de graças, fomos ao pátio repartir coisas com os pobres e abraçar cada uma a sua família…Todos os dias comungava e falava com Jesus longos momentos. Porém, minha devoção especial era a Virgem. Contava-lhe tudo. Desde esse dia a terra para mim não tinha atrativo. Eu queria morrer e pedia a Jesus que em 8 de dezembro me levasse.”(p.40)

Enfermidade no dia 8 de dezembro

8 de dezembro: de 1911 a 1914, sempre no dia da Imaculada, esteve às portas da morte por diversas enfermidades. (p.24)

“Todos os anos, eu estava doente em 8 de dezembro; tanto que acreditavam que morreria. Aos 12 anos, tive difteria. Em 8 de dezembro estive à morte. Minha mãe acreditou que morreria, porque uma tia minha morreu disso e eu a tinha pior que ela….Em 1913, tive uma febre espantosa. Neste tempo, Nosso Senhor me chamava para Si, porém eu não fazia caso de sua voz. E então, no ano passado, me enviou apendicite, o que me fez ouvir sua voz querida que me chamava para fazer-me esposa mais tarde no Carmelo. (p.40-41)

Minha devoção à Virgem era muito grande. Um dia, eu que sofria muito por uma coisa, contei-a à Virgem e roguei pela conversão de um pecador. Então ela me respondeu. Desde então, a Virgem, quando a chamo, me fala. (p.41)

Um dia estava só em meu quarto, e com a doença me havia tornado tão mimada que não podia estar só…Meus olhos cheios de lágrimas se fixaram em um quadro do Sagrado Coração e senti uma voz muito doce que me dizia: “Como! Juanita, eu sozinho no altar, por teu amor, e tu não agüentas um momento?” Desde então Jesusinho me fala. E eu passava horas inteiras conversando com Ele. Assim me agradava estar só. Foi me ensinando como devia sofrer e não me queixar…Então disse que me queria para Ele. Que queria que fosse carmelita…Ah! Madre, não se pode imaginar o que Jesus fazia em minha alma. Eu, nesse tempo, não vivia em mim. Era Jesus que vivia em mim. (p.41-42)

Minhas dores e a doença iam ficando cada dia piores. Em 8 de dezembro eu me senti morrer. Desde esse dia caí de cama de vez, para levantar-me operada. Mamãe começou uma novena de Terezinha do Menino Jesus (carmelita) porque sou muito devota dela…Ao meio-dia tive um mal estar, e pensaram que ia morrer; porém, Nosso Senhor quis conservar-me. Oh, quem bom é Deus comigo! (p.42)

Resolveram operar-me. Levaram-me ao pensionato de São Vicente segunda-feira, dia 28. Só Deus sabe o que sofri…Ignacito entrava em meu quarto com os olhinhos cheios de lágrimas, porém apenas me via secava as lágrimas e se punha a brincar. Não o vi chorar nem um instante, coisa admirável em um menino que acabava de completar 4 anos.(p.42)

Comunguei às cinco da manhã. Que Comunhão! Acreditava que a última. Pedi a Nosso Senhor com toda a minha alma que me desse coragem e serenidade. Que teria sido de mim sem o auxílio de Jesus? Oh, Jesus dulcíssimo, eu te amo! (p.43)

Não posso dizer quão boas eram as madres comigo. Ia acompanhar-me sempre que podia. Punha-me flores no quarto para que ficasse alegre. (p.42)

Eu tomei minha Virgem, abracei-me com meu crucifixo, os beijei e lhes disse: “Logo contemplarei face a face. Adeus”…Quando cheguei ao centro alguns serventes levaram-me degraus acima. Então Lucía e Rebeca me disseram adeus…Esse adeus foi para mim como um dardo que despedaçou meu coração e vieram-me as lágrimas. Mas eu não havia prometido a Jesus não chorar? Então, fazendo um esforço sequei as lágrimas e lhes disse adeus. (p.43)

Chegaram os médicos…Antes que me pusessem o clorofórmio beijei minha  medalha e me meti no Coração de Jesus dizendo adeus ao mundo. Meu pai e minha tia Juanita deviam assistir; porém, meu pai não teve coragem. Quando despertei, tinha a cabeça zonza…a dor era terrível, e o clorofórmio me causou terríveis efeitos, mas assim lembrava de oferecê-los a Nosso Senhor…Um médico, o do pensionato, mandou-me orquídeas, que é uma flor sumamente cara. Era a primeira vez que me mandavam flores, e eu as mandei para Jesus. Custou-me muito este sacrifício, porém o fiz. (p.44)

Aos 15 anos de idade

13 de julho. Hoje completo 15 anos…Porém eu penso: quinze anos, por quinze anos Deus tem me conservado a vida…15 anos para uma menina é a idade mais perigosa, é a entrada no mar tempestuoso do mundo. Mas eu, que tenho quinze anos, Jesus tomou o comando de minha barquinha e a retirou do encontro de outras barcas.  Manteve-me solitária com Ele…Sempre sinto essa voz querida, que é a de meu Amado, a voz de Jesus no fundo de minha alma; em minhas aflições, em minhas tentações, Ele é meu Consolador, Ele é meu Capitão. Conduz-me sempre, Jesus meu, pelo caminho da Cruz. E levantará vôo minha alma, até onde se encontra o ar que vivifica e a quietude. (p.46)

Quinta- feira, 2 de setembro de 1915. Hoje faz um mês e dois dias que nos disseram que seríamos internas. Creio que jamais me acostumarei a viver longe de minha família: meu pai, minha mãe, esses seres que quero tanto…Ah, se soubessem como sofro, se compadeceriam! Sem dúvida, devo consolar-me. Acaso viverei toda vida sem separar-me deles? Porém, a voz de Deus manda mais e eu devo seguir Jesus ao fim do mundo se Ele o quer. N´Ele encontro tudo. Só Ele ocupa meu pensamento. E tudo o mais, fora d´Ele, é sombra, aflição e vaidade. Por Ele deixarei tudo para ir me ocultar atrás das grades do Carmelo, se é Sua Vontade e, viver só para Ele. Que felicidade…É o Céu na terra. (p.47-48)

A vocação carmelita

..Onde será o lugar em que celebraremos nossos esponsais e o lugar onde viveremos unidos? Falou-me: o Carmelo. Porém,…sem esperança me retiro triste e desolada. Vejo que meu corpo não resistirá e todos os que estão a par me repetem: é muito austera essa Ordem, e tu és muito delicada. Porém, tu, Jesus, és meu Amigo e, como tal, me proporcionas consolo. Quando saí de casa durante o dia, me encontrei com a Madre Superiora do Carmelo; sem conhecer-me, havia me enviado um retrato de Teresinha do Menino Jesus, por mamãe, o que me proporcionou muito prazer. Encomendar-me-ei a Teresinha para que me sare e possa ser carmelita. Porém, só quero que se cumpra a vontade de Deus. Ele sabe melhor o que me convém. Oh, Jesus, te amo; te adoro com toda a minha alma! (p.48)

Domingo estarei sozinha com Madre Ríos. …penso contar-lhe toda a mudança que se operou em mim desde a cirurgia; minha vocação para carmelita, enfim, tudo. Não sei como farei isso, pois me custa muito expressar tudo o que me passa. (p.49)

Domingo…tenho muito que contar, e sobretudo dar muitas graças a Jesus porque me concedeu ver Madre Ríos e dizer-lhe quase tudo…Disse-me que, mesmo não sendo pecado, eu me assegurasse de que quem me elegia era o Rei dos céus e da terra. Perguntou quem era eu para brincar assim. Não era acaso uma vil e miserável criatura? …Que me assegurasse de que não era por um dia, nem por toda a vida, mas para toda a eternidade. Que o amor humano extingue, porém o Divino abraça tudo…Madre Ríos me disse que rezaria muito por mim e minha saúde, e que só pensasse que ia ser a esposa de Jesus. Recomendou-me ler a vida de Santa Teresa e de Teresinha do Menino Jesus. Eu lhe disse que a havia lido várias vezes e tido muito proveito, pois sua alma tem alguns pontos parecidos com a minha. (p.50-51)

Carta a irmã Rebeca

Vou ser carmelita, que te parece? Não quisera ter em minha alma nenhuma dobra escondida para ti. Porém, tu sabes que não posso dizer-te tudo o que sinto e por isso resolvi fazê-lo por escrito. Entreguei-me a Ele. Em 8 de dezembro me comprometi. Tudo o que quero me é impossível dizê-lo. Meu pensamento não se ocupa senão d´Ele. É meu ideal infinito. Suspiro pelo dia de ir ao Carmelo para não me ocupar-me senão d´Ele, para confundir-me n´Ele e para não viver senão a vida d´Ele: amar e sofrer para salvar as almas. Sim, estou sedenta delas porque sei que é o que mais quer meu Jesus. Oh, o amo tanto!  Quisera inflamar nesse amor. Que felicidade a minha se pudesse dar-te a Ele! Oh, nunca tenho necessidade de nada, porque em Jesus encontro tudo que busco! Ele jamais me abandona. Jamais diminui seu amor. É tão puro! É tão belo! É a própria bondade. Pede-lhe por mim, Rebequita. Necessito de orações. Vejo que minha vocação é muito grande: salvar almas, dar operários à Vinha de Cristo. Todos os sacrifícios que façamos são poucos em comparação com o valor de uma alma. Deus entregou sua vida por elas, e nós quanto descuidamos de sua salvação!…E qual o meio de ganhar almas? A oração, a mortificação e o sofrimento. (p.55-56)

Sofrer com alegria

A ti, Jesus meu, ofereço este sofrimento; pois quero sofrer para parecer-me contigo, Jesus, amor meu…Hoje, desde que levantei estou muito triste. Parece que de repente me parte o coração. Jesus disse-me que queria que sofresse com alegria. Isso custa tanto, porém basta que Ele o peça para que eu procure fazê-lo. Agrada-me o sofrimento por duas razões:

1.Porque Jesus sempre preferiu o sofrimento, desde o seu nascimento até morrer na Cruz. Logo, há de ser algo muito grande para que o Todo-Poderoso busque em tudo o sofrimento.

2.Agrada-me porque no crisol da dor se lavram as almas. E porque Jesus, para as almas que mais quer, envia este presente que tanto agradou a Ele.

Disse-me que Ele havia subido ao Calvário e deitado na Cruz com alegria pela salvação dos homens. “Acaso não és tu que me buscas e que queres parecer comigo? Então vem comigo e toma a Cruz com amor e alegria”. (p.52-53)

A amizade com Nossa Senhora

Meu espelho há de ser Maria. Como sou sua filha, devo parecer-me com Ela e assim serei semelhante a Jesus…(p.53)

Mãe querida,…escrevo-Te para desafogar meu coração despedaçado pela dor. Não quero que juntes seus pedaços, Mãe de minha alma, mas que dele escorra, que destile um pouco de sangue. A dor afoga-me, minha Mãe. Sofro porém estou feliz sofrendo. Tirei da Cruz meu Jesus. Ele descansa. Que maior felicidade para mim?…Mãe minha, mostra que é minha Mãe. Ouve o grito de minha alma pecadora arrependida, que sofre e leva até o fim o cálice da dor; mas não importa. Aflige-me, porém só quero a Jesus. Quero que Ele seja o dono de meu coração. Diz-lhe que o amor e que o adoro. Diz-lhe que quero sofrer, que quero morrer de amor e sofrimento. Que não importa o mundo, mas somente Ele. Sim, Mãe. Estou só. Uno-me a tua solidão. Consola-me, alenta-me, aconselha-me, acompanha-me e abençoa-me. (p.53)

Quanto amo minha Mãe! Quanto ela me ama! Hoje é o dia de seu Coração Imaculado. Falaram ternamente d`Ela no sermão. Cheguei a chorar depois, de tanto que a amava. (p.80)

“Minha Mãe, sê tu minha mãe. Lembra-te de que me dei a Ti. Guarda-me pura, virgem, em teu Coração Imaculado. Que ele seja meu refúgio…Ponho-me eu teus braços maternais para que Tu me coloques nos braços de Jesus. Abandono-me a Ele. Que se faça sua santa vontade.” (p.93)

“Nosso Senhor me disse que meditasse sobre a pureza da Virgem. Ela, sem dizer-me nada, começou a falar. Eu não conheci sua voz e perguntei se era Jesus. Ela me respondeu que Nosso Senhor estava dentro de minha alma, porém que Ela me falava. Disse-me que escrevesse o que me dizia acerca da pureza.

1º Ser pura no pensamento: quer dizer, que rechaçasse todo pensamento que não fosse de Deus, para que assim vivesse constantemente em sua presença. Para isso devia procurar não ter afeto a nenhuma criatura.

2º Ser pura em meu desejos, de tal modo que só desejasse ser a cada dia mais de Deus; desejasse sua glória, ser santa e fazer minhas obras com perfeição. Para isto, não desejar nem honra nem louvores, mas desprezo, humilhação, pois assim agradava a Deus. Não desejar nem comer nem dormir senão para servir melhor a Deus.

3º Ser pura em minhas obras. Abster-me de tudo o que possa manchar-me, do que não seja admitido por Deus, que quer minha santificação; fazê-las por Deus o melhor que possa, não para que me vissem as criaturas. Evitar toda palavra que não seja dita por Deus, por sua glória. Que em minhas conversas sempre colocasse Deus. Que não olhasse nada sem necessidade, mas para contemplar a Deus em suas obras. Que imaginasse que Deus me olhava sempre…Que mortificasse o tato não tocando sem necessidade em mim mesma, nem em outra pessoa qualquer…(p.114)

O voto de castidade

Meu confessor me deu permissão para fazer voto de castidade por nove dias e depois ele indicará as datas. Sou feliz. Tenho minha fórmula escrita: “Hoje, 8 de dezembro de 1915, na idade de 15 anos, faço o voto diante da Santíssima Trindade e em presença da Virgem Maria e de todos os santos do Céu de não admitir outro Esposo senão a meu Senhor Jesus Cristo, a quem amo de todo coração e a quem quero servir até o último momento de minha vida. Feito na novena da Imaculada para ser renovado com a permissão de meu confessor”. (p.54)

Resoluções de vida aos 16 anos

1ª Aceitar os sacrifícios sem murmurar interiormente nem abater-me.

2ª Hei de eclipsar-me.

3ª Esmerar-me-ei m construir a felicidade dos demais.

4ª Procurarei fazer a virtude amável aos outros.

5ª Hei de esquecer-me de mim mesma:

1.unindo me a Jesus;

2.sendo caridosa com o próximo;

3.não dando minha opinião se não a pedem;

4.sofrendo com gozo as humilhações, sendo amável com as pessoas que as proporcionam;

5.vivendo com Jesus no fundo de minha alma, que há de ser a casinha onde Ele possa descansar. Ali o adorarei e lhe oferecerei as mortificações, sofrimentos e humilhações. (p.63-64)

Devo contemplar em minha alma a Jesus crucificado. Eu o imitarei e receberei ao pé da Cruz o sangue de meu Jesus, que guardarei em minha alma e que hei de comunicar às almas de meus próximos, para que, por meio de sangue de Cristo, sejam lavadas. (p.64)

Oferenda pelos pecadores

Meu Jesus, tu conheces a oferenda que te fiz de mim mesma pela conversão das pessoas cujo nome te dei. Desde hoje, não só te ofereço minha vida, mas também minha morte como te aprouver dá-la a mim. Eu a receberei com gosto, seja no abandono do Calvário, seja no Paraíso de Nazaré. Ademais, se queres, dá-me sofrimentos, cruz, humilhações. Que seja pisoteada para castigar meu orgulho e o deles. Como tu queiras, Jesus meu. Sou tua, faze de mim segundo tua santa vontade. A ti, oh, Maria, que jamais deixaste de escutar-me os rogos que te dirigi, como uma filha pede a sua mãe, também ponho em tuas mãos maternais essas almas. Ouve-me. Toda minha vida não deixei de pedir-te, minha Mãe. Escuta-me, rogo-te por Jesus e por teu Esposo São José a quem rogo interceda por esta pobre pecadora. (p.64)

Santa Teresa dos Andes busca de ter um coração paciente e humilde

Não tenho, ainda, bastante virtude. Abato-me rapidamente. Sem dúvida, sou mais humilde ou me humilho mais e tenho mais fé. Sem dúvida, outro dia as meninas portaram-se mal à mesa e eu me impacientei. Eu disse que não se importavam. Tive muita raiva, e ao ver as meninas chamei-as de antipáticas. Jesus teria agido assim?…É certo que me venci, mas depois contei minha raiva e no outro dia pedi perdão às meninas, para me humilhar. Essas quedas servem pra reconhecer que sou ainda muito imperfeita…

15 de junho de 1917. Fui confessar-me ontem. O Padre disse-me três coisas necessárias para não se impacientar:

1º Não manifestar a raiva exteriormente;

2º Ser amável com a pessoa que a proporciona;

3º Calar, abater a própria cólera em meu coração. (p.66)

19 de Junho de 1917. Hoje venci-me muito para não ter raiva. Meu Deus, Tu me ajudaste. Te dou graças. Nos arranjos e recreios fui perfeita por eles. Porém, não tanto nas aulas. (p.66)

Mortificação no ouvir

Estava estudando no horto e chegou Rebeca pra me dar um recado de Madre Ríos para ela e para mim. Eu, ainda que tivesse vontade, venci-me e lhe disse que não queria ouvir nada, que se fosse. Todo o dia a curiosidade me atiçou, até que na ceia nos contou. Ofereci este ato, que me custou muito, por eles. (p.67)

Mortificação no falar

Fixei-me em não dizer meu nome, em não falar de mim. É bastante custoso, porém o farei por Jesus, para consolá-lO. (p.68)

Só o amor de Deus permanece

Os corações dos homens amam um dia e no outro são indiferentes. Só Deus não muda. (p.668)

A caridade de Santa Teresa dos Andes

“Juntei trinta pesos durante o dia. Vou comprar sapatos para Juanito (1) e o resto darei a minha mãe para que tenha o que dar aos pobres. É tão enriquecedor dar-lhes! Dei meus sapatos à mãezinha de Juanito.”(p.70)

(1)Juanito era um menino muito pobre que ela sempre ajudou, inclusive com o dinheiro da “mesada”. Para obter fundos para isso, chegou a rifar seu relógio. Ao ingressar no Carmelo deixou-o recomendado aos seus e, do convento, em várias cartas, mostra preocupação por ele. (p.70)

Aniversário de Santa Teresa dos Andes (17 anos)

“Julho, 13. Hoje completei 17 anos; um ano a menos de vida. Um ano a menos distante da morte, da união eterna com Deus. Um ano somente para chegar ao porto do Carmelo…(p.72)

A alegria de conhecer a vida de Isabel de Trindade

Estou lendo Isabel da Santíssima Trindade. Ela me encanta. Sua alma é parecida com a minha. Se ela foi uma santa, eu a imitarei e serei santa. Quero viver com Jesus no íntimo de minha alma.

A virtude da humildade

“Sem a humildade as demais virtudes são hipocrisia… A humildade nos proporciona a semelhança com Cristo, a paz da alma, a santidade e a união íntima com Deus.” (p.74)

“Agora quero ser pobre, pois as riquezas, a prata, os vestidos, as comodidades, as boas comidas, de que me servirão em meu leito de morte? De perturbação nada mais. De que serve grande nome, os aplausos, as honras, a adulação e a estima das criaturas? Na hora da morte, tudo desaparece com esse corpo…(p.75)

“Quero, a partir de hoje, ser sempre a última em tudo, ocupar o último lugar, servir os demais, sacrificar-me sempre e em tudo para unir-me mais Àquele que se fez servo sendo Deus, porque nos amava.” (p.77)

“Creio que no amor está a santidade. Quero ser santa. Logo, entregar-me-ei ao amor, já que este purifica, serve para expiar. Aquele que ama não tem outra vontade senão a do amado; logo, quero fazer a vontade de Jesus. Aquele que ama se sacrifica. Eu quero sacrificar-me em tudo.” (p.77-78)

“Que adquiriria a humildade humilhando-me, considerando-me pecadora e a última de todos. Que quando visse um defeito nas pessoas pensasse em suas qualidades…” (p.112)

Secura Espiritual

“Sinto-me cada dia pior. Não tenho ânimo para nada; porém, enfim, é a vontade de Deus. Que se faça como Ele quer. Minha Mãe, tudo”. (p.80)

O sonho de ser carmelita

“Apresenta-se tão triste o futuro que não quero olhá-lo. Disseram-me hoje que iam tirar-me do colégio…E ver, por outro Lado, que não poderei ser carmelita por causa de minha saúde. Tudo isso me faz exclamar: meu Jesus, se é possível, afasta de mim este cálice; porém não se faça minha vontade, mas a tua!” (p.81)

“Hoje fui confessar-me. Falei longamente com o Padre acerca de minha vocação. Disse-me que ele via que, por enquanto, tinha verdadeira vocação carmelita…E também podia ser carmelita espiritualmente, quer dizer, com o espírito carmelitano podia em minha casa seguir uma regra de vida como as carmelitas, levantando-me a tal hora, e tendo uma hora de meditação, e depois indo à missa, comungar, e vir a minha casa e pôr-me a trabalhar, estando todo o dia na presença de Deus e tendo à tarde outra hora de meditação e deitar-me a uma hora fixa, e sair o menos possível.” (p.83)

“Penso, em minha casa, levar uma vida de oração: levantar-me às cinco e meia e fazer, das seis às sete, meditação. Às onze e meia, exame. Na metade do dia, leitura espiritual e, à tarde, uma hora de oração.” (p.97)

“Disse-me que, quando estivesse muito desconsolada e me sentisse sem ânimo, primeiro buscasse consolo em Deus e, se Ele não me desse, o buscasse um pouco em uma pessoa digna de confiança que me levasse a Deus. Que vivesse crucificada, pois Jesus queria que fosse seu Cirineu. Que Ele me dava uma lasquinha de sua cruz, que a recebesse com prazer e que tratasse de não me abater.  Que vivesse mais do que nunca na presença de Deus.” (p.83)

“Quero que minhas ações, meus desejos, meus pensamentos levem este selo: “Sou de Jesus”. (p.84)

A luta para alcançar a santidade

“Hoje precisei vencer-me muito. Tive raiva, desejo de desobedecer e fazer minha vontade. Me aborreci e pensei que não tinha vocação; que era uma ilusão, uma pura idéia; que me desesperaria depois; enfim, tantas coisas…Mas rezei com devoção à Santíssima Virgem e ouvi do fundo de meu coração a voz de meu Jesus: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de Coração”. E assim terminou a minha irritação.” (p.86)

O amor à vocação carmelita

“Falei bastante com Jesus. Fez-me ver a necessidade que a carmelita tem de viver sempre ao pé da cruz, para aprender ali a amar e sofrer. Sofrer de três maneiras: 1º A carmelita há de mortificar sua carne, a exemplo de Jesus agonizante. 2º Mortificar sua vontade, negando-se todas as satisfações e submetendo sua vontade a Deus e ao próximo. 3º O sofrimento do espírito, do abandono de nosso Jesus na oração, nas lutas da alma etc. Como Jesus, que disse na cruz: “Meu Deus, por que me abandonaste?” A vida de carmelita não é outra coisa: amar, chegar à união mais perfeita com Deus, e imolar-se e sacrificar-se em tudo, já que o sacrifício é a oblação do amor.” (p.88)

“Minha alma é o céu, pois nela está Jesus”. (p.89)

Oração à noite

“À noite, uma hora com Jesus. Falamos intimamente. Censurou-me que não pedia ajuda como antes, em minhas dúvidas e aflições, a seu Coração. Que Ele me queria virgem, sem que nenhuma criatura me tocasse, pois devia ser toda para Ele. Apóio-me em seu Coração. Depois falou-me da pobreza…Que tudo passa, é vaidade. Depois me falou da humildade de pensamento, de ação, da ciência vã. Enfim, abriu-me seu Coração e me mostrou que por minhas orações tinha escrito o nome de papai. Disse-me que me resignasse a não ver seu fruto, mas que alcançaria tudo. Depois revelou-me seu amor, mas de tal maneira que chorei…Disse-me que seria carmelita; que não desconfiasse; que não dissesse a ninguém pois tratariam de persuadir-me a não ser. Enfim, que não fosse senão d`Ele: virgem, intacta, pura.” (p.90)

Oração pelos sacerdotes

“Meu Deus, faça-se tua vontade e não a minha. Ofereço-te meus sofrimentos por meus pecados, pelos pecadores, pela santificação dos sacerdotes”. (p.91)

Consolava as amigas do internato

“Hoje exerci meu apostolado. Haviam repreendido muito uma menininha e estava até para tirar-lhe a faixa. Ela estava tão desesperada que ia dizer a Madre Izquierdo que lhe tirassem a faixa. Eu rezei a Santíssima Virgem um “Lembrai-vos”, e lhe disse tudo o que Ela me inspirou, para animá-la e consolá-la. E falei-lhe da Virgem; que contasse a Ela suas aflições; que lhe pedisse sua proteção; que, sofresse com paciência, teria um grande prêmio no céu. (p.91)

Amizade com Jesus

“Jesus me disse que cumprisse sua vontade sempre com alegria, apesar de sentir abatimento. Que não olhasse o futuro, para manter-me em paz. Quero sempre ter diante de mim esta máxima. Hoje começo a obra por mim…” (p.94)

“Esta manhã Jesus me pediu que não chore por causa de minha saída da escola, pois essa é sua vontade. Eu lhe disse que então as monjas acreditariam que sou mal-agradecida; porém, Ele me fez ver como estava apegada ao que as criaturas diziam. Que rezando por elas seria agradecida. Vou oferecer o sacrifício por meu pai e meus irmãos.” (p.96)

“Estou muito triste porque só falta uma semana para sair da escola, porém quero fazer o sacrifício heroicamente, sem derramar lágrimas…Só em Jesus encontro esse amor constante, amor sem limite, amor infinito.” (p.97)

“Estou saindo da escola. Não é possível descrever tudo o que sofro. Oh, meu Deus, como tudo passa e acaba!…Adeus, madres que me ensinastes o caminho da virtude, que me mostrastes o caminho da felicidade mais completa aqui na terra e o caminho do céu. Adeus, morada do Coração de Jesus, onde durante três anos vivi contigo. Adeus, companheiras tão queridas, adeus…Não chorarei. Quero oferecer com generosidade o sacrifício a Deus. Tudo por Ti, Jesus, até a morte.”(p.101)

“Que sensações tão diversas tive! De pesar, por deixar minha querida escola, minhas Madres e companheiras, a que estou tão grata. Como são boas para mim, que carinho me demonstraram, sendo eu tão indigna dele! Cumpri meu sacrifício sem chorar. Verdadeiramente sentia em mim uma força superior às minhas: era Jesus quem me fazia ter coragem nesse instante…Por outro lado, sentia o atrativo do lar, da vida familiar que abandonei quando era tão menina;” (p.102)

“Hoje que já me encontro no mundo e vejo qual é minha vida, acho que a vida em Deus pode continuar mais ainda do que no colégio. Quantos sacrifícios que são desconhecidos para todos! Além disso, minha vida é de mais oração. Passo minha vida muitas vezes sozinha em meu quarto somente com Deus. O estudo ocupava mais o pensamento. Agora só devo pensar n`Ele.” (p.102)

“Nosso Senhor me disse que queria que vivesse com Ele em comunhão perpétua, porque me amava muito. Eu lhe disse que se Ele quisesse poderia, pois era Todo-poderoso. Depois me disse que a Santíssima Trindade estava em minha alma; que a adorasse. Imediatamente fiquei muito recolhida, a contemplava e me parecia que estava cheia de luz.” (p.113)

22 de maio de 1919. Nosso Senhor, na oração,…me mostrou como, apesar de sua agonia no altar, as criaturas não o amavam, não reparavam n`Ele. Isso me deixou muito aflita o dia todo. É uma espécie de martírio, pois me sinto sem forças para amá-lo como devia; sinto-me miserável e incapaz de oferecer-lhe consolo. (p.120)

26 de maio de 1919. Faz três dias que estou mergulhada na agonia de Nosso Senhor. A todo instante, ele se apresenta a mim…(p.121)

Faz três ou quatro dias que, estando em oração, senti…um ímpeto de amor tão grande, que creio que pouco mais não poderia resistir, pois nesse instante minha alma tende a sair do corpo. Meu coração bate com tanta violência que é horrível, e sinto que todo meu seu está como que suspenso e unido a Deus. Uma vez tocaram a hora e não percebi. Vi que minhas Irmãzinhas noviças saíam e pretendi segui-las; porém, não pude me mover. Estava como que cravada no chão. Até que quase chorando pedi a Nosso Senhor que pudesse sair, pois todas iam notar. Então pude; porém, minha alma estava como que em outra parte. (p.122-123)

“Sou de Deus, já que Ele me criou. Devo viver só para Deus e em Deus.” (p.124)

Quem ama sofre por Jesus

“Nosso Senhor pediu que me oferecesse como vítima para expiar os abandonos e ingratidões que Ele sofre no Sacrário. Disse que me faria sofrer desprezos, ingratidões, humilhações, securas; enfim, queria que sofresse. É só esse o meu desejo: quero sofrer, e mesmo quando sofro tenho ânsias de sofrer mais para unir-me a Nosso Senhor.” (p.105)

Duvida vocacional: ser do Sagrado Coração ou carmelita?

“Tenho muitas dúvidas a respeito de minha vocação. Não sei se devo ser do Sagrado Coração ou carmelita.”

Congregação do Sagrado Coração

“Falei com Madre Vicaria. Explicou-me com detalhes a vida do Sagrado Coração. Resume-se nisto: é uma vida mista de oração e ação; muita vida interior, pois têm de ter a Deus em si mesmas, dá-lo às almas, porém ficar sempre com Ele. Fazem cinco horas de oração, contando os exames e o ofício. Sua vida é uma prece contínua, pois, para que dê fruto sua obra nas almas, devem recorrer a Deus, e isso a cada instante. Seu objetivo principal é glorificar o Sagrado Coração, e, para consegui-lo, salvar muitas almas. Salvam-nas pela contínua abnegação. Sacrificam-se por elas de manhã até a noite. Dedicam-se a educar meninas ricas e pobres…Têm de tratar com o mundo, porém mostrar-se diante a d`Ele como religiosas, como crucificadas para Ele. Vivem vendo as comodidades sem possuí-las. Não tem convento próprio. Sua pátria é o mundo. Podem mandá-las a outros países sem que a saibam nem conheçam ninguém.” (p.106)

O Carmelo

“A Santíssima Virgem, minha Mãe, foi uma perfeita carmelita. Viveu sempre contemplando seu Jesus, sofrendo e amando-o. Nosso Senhor viveu trinta anos de sua vida no silêncio e na oração e só nos três últimos anos dedicou-se a evangelizar. A vida de carmelita consiste em amar, contemplar e sofrer. Vive só com seu Deus. Entre ela e Ele não há criaturas, não há mundos, não há nada, pois sua alma alcança a plenitude do amor, …alcança a perfeição pela contemplação e pelo sofrimento. Contempla só a Deus e, como os anjos no céu, entoa os louvores do Ser por excelência. A solidão, o isolamento de tudo da terra, a pobreza em que vive são poderosos elementos que a favorecem a contemplação de Deus amor. Por fim, o sofrimento a purifica intensamente. A carmelita sofre em silêncio…(p.107)

A carmelita é pobre. Não possui nada. Tem de trabalhar para viver. Seu leito é um enxergão. Sua túnica é áspera; Não tem uma cadeira em que sentar. Seu alimento é grosseiro e escasso. Mas ama, e o amor a enriquece, lhe dá a seu Deus…Minha alma deseja a cruz porque nela está Jesus.” (p.108)

Visita ao Carmelo de Los Andes

“Quando chegamos lá me encontrei com uma casa pobre e velha. Esse ia ser meu convento. Sua pobreza me falou ao coração. Senti-me atraída a ele. Depois veio abrir a porta uma menina que nos disse que Madre Angélica nos espera depois de almoçar. Às onze e meia voltamos. Entrei no locutório e Teresita Montes apareceu. Falamos com ela. Eu não sabia o que se passava comigo. Foi chamar Madre Angélica. Ouvi, pela primeira vez, sua voz, Sentia-me feliz. Fiquei a sós com ela. Pusemo-nos a falar da vida da carmelita. Explicou-a inteira. Falou-me do ofício divino: como a religiosas substitui aos anjos cantando os louvores de Deus….Depois fui ao locutório. Sentia-me numa paz e felicidade tão grandes que me é impossível explicar. Via claramente que Deus me queria ali e me sentia com força para vencer todos os obstáculos para poder ser carmelita e encerrar-me ali para sempre. Falamos do amor de Deus. Madre Angélica o fazia com uma eloqüência que parecia lhe sair do íntimo da alma. Fez-me ver a grande bondade de Deus ao chamar-me e como tudo o que tinha era de Deus. Depois me falou da humildade: como era tão necessária essa virtude, que sempre me considerasse a última; que me humilhasse o mais possível; que quando me repreendessem dissesse interiormente: “Mereço isso e muito mais”.  Falo-me de minhas Irmãzinhas, de como eram boas. Falei com ela até as 4 e meia, sozinha. Então, mandou minha mãe comer. Teresita Montes veio perguntar se queria fazer a “visita de vistas”. Madre Angélica deu permissão  então Teresita foi buscar todas. Então tirou a cortina das grades e começaram todas a entrar e aproximar-se da grade. Eu estava ajoelhada. Considerava-me indigna de estar de pé diante de tantas santas. Todas, com o véu levantado, vieram saudar-me com tanto carinho que eu me sentia confusa. No princípio minha emoção era tanta que mal podia falar, porém depois conversamos com toda confiança.Elas demonstravam uma alegria e, ao mesmo tempo, uma familiaridade entre elas que me encantavam. Perguntaram-me quando iria. Eu lhes disse que até maio…Depois de algum tempo, todas foram se despedindo e fiquei com Madre Angélica, que me mandou comer. Obedeci mesmo sem vontade, pois me sentia cheia…Depois me chamou para dar-me alguns livros e outras coisas que lhe pedi. Despedi-me com pesar, ao mesmo tempo que levava minha alma cheia de felicidade. Como Deus havia trocado a tempestade em bonança; a perturbação em santa paz!” (p.108-110)

Oração Contemplativa

“Senti um grande impulso para ir à oração. Comecei por minha comunhão espiritual; porém, ao dar a ação de graças, minha alma estava dominada pelo amor. As perfeições de Deus se me apresentaram uma a uma: a Bondade, a Sabedoria, a Imensidão, a Misericórdia, a Santidade, a Justiça. Houve um instante em que não soube nada. Sentia-me em Deus. Quando contemplei a justiça de Deus, estremeci. Gostaria de ter fugido ou me entregar a sua justiça. Vi o inferno, cujo fogo a cólera de Deus acende, e humilhando-me pedi misericórdia e me senti cheia dela. Vi como é horrível o pecado. Quero morrer antes de cometê-lo. Prometi ver a Deus em suas criaturas e viver muito recolhida. Disse-me que tratasse de ser muito perfeita e me explicou cada perfeição para que entre Ele e mim houvesse unidade, pois não haveria se eu fizesse algo imperfeito.” (p.111)

“Como meu Deus é bom!…Tudo o que faço é por seu amor. Vivo em uma contínua presença de Deus”. (p.112)

“há favores que Deus faz às almas escolhidas que não devem ser conhecidos, e que só a alma deve recordar”. (p.116)

Consentimento do Pai para entrar no Carmelo

“Nosso Senhor é demasiado bom. Meu pai, à tarde, escreveu a minha mãe e está cheio de ternura para comigo e disse que crê estar obrigado a dar-me seu consentimento, mas o que estará pensando. Poderei ter palavras para meu Jesus? Não. Ele lê o que minha alma experimenta diante das finezas de seu amor. Ponho-me indiferente a sua divina vontade. Para mim tanto faz que me dê permissão para ir-me em maio ou que não o consinta; que me deixe ser carmelita ou não. É verdade, sofrerei. Porém, como só busco a Ele, tendo-o contente, que me pode importar o resto? Se Ele o permite, eu me submeto a seu querer, já que fiz o que Ele me ordenou.” (p.117)

Amor ao Sagrado Coração de Jesus

“17 de maio de 1919. Senti muito o amor divino. Na oração senti o Sagrado Coração se unia a mim. E seu amor era tanto que sentia todo meu corpo abrasado nesse amor e estava sem sentir meu corpo. Tocaram-me para que me sentasse, e isso me produziu uma sensação tão desagradável que me pus a tiritar. O amor de Deus se manifestou de tal maneira que não sabia o que se passava comigo.” (p.119)

Santa Teresa dos Andes era atenciosa com todas as pessoas

“Que com todas as minhas irmãs fosse igualmente amável. E não ser mais atenta com aquela que me olhe mais ou que me dirija mais a palavra.” (p.120)

A vida de carmelita

“No céu se contempla a Deus, se Lhe adora, se Lhe ama. Mas, para chegar ao céu, é preciso desligar-se da terra. E o que é a vida da carmelita, senão contemplar, adorar e amar a Deus incessantemente? E ela, ansiosa por esse céu, se afasta do mundo e trata de desligar-se, no possível, de todo o terreno. (p.126)

“respeito às mortificações, não tratar de matar o corpo, mas incomodá-lo” (p.120)

“Esquecer os nossos pecados quando o inimigo se serve deles para fazer-nos desconfiar da misericórdia de Deus-Amor”. (p.125)

A carmelita sobe ao Tabor do Carmelo e se cobre com as vestes da penitencia que a assemelham mais a Jesus. E, como Ele, ela quer transformar-se, transfigurar-se para ser convertida em Deus.

Reflexões no Carmelo

Viver só para Deus, quer dizer, como o pensamento fixo n`Ele,..não falando nada de mim mesma, não dando minha opinião em nada se não a pedem; não chamar a atenção em nada, nem no modo de falar nem no modo de rir, nem nas expressões…

Ser fiel em tudo o que Jesus me pede. Ser fiel nos detalhes…

Durante o dia guardar silencio rigoroso…

Viver o momento presente com fé…

Jamais manifestar que sofro, a não ser que nossa madre o pergunte a mim. (p.127)

Não buscar consolo em ninguém…

aceitar alegre as humilhações, …sem abater-me. (p.126-127)

Fonte: Santa Teresa dos Andes.Diários e Cartas.  Org.Frei Patrício Sciadini.Edições loyola.2000.

Biografia de São Domingos Savio pelo Vaticano

Seu único interesse era Deus e o modo como fazer com que os outros concentrassem as suas energias para servi-Lo melhor. Aquilo que lhe faltava a nível de força física, ele recuperava em excelência moral, em fortaleza de coração e em aceitação da vontade de Deus, qualquer que esta fosse.

A primeira biografía da vida de Domingos foi escrita pelo seu mestre, São João Bosco, e destas páginas nasceram muitas vocações, inclusive a do futuro Papa Bento XVI que, com tanta ternura, admirava a Obra da Infância Missionária.

Domingos faleceu com apenas quinze anos de idade, no dia 9 de março de 1857. Sua Santidade o Papa Pio XII canonizou-o no ano de 1954. Exatamente há 50 anos.


«Como São Domingos Sávio, que todos sejam missionários do bom exemplo, da boa palavra, da boa ação em família, com os vizinhos e com os colegas de trabalho! Com efeito, em todas as idades pode-se e deve-se dar o testemunho de Cristo! O compromisso do testemunho cristão é permanente e quotidiano!»

(S. S. João Paulo II, Homilia de 7 de dezembro de 1997)

Fonte: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cevang/p_missionary_works/infantia/documents/rc_ic_infantia_doc_20090324_boletin12p11_po.html

Biografia de Terésio Bosco – São Domingos Sávio

Domingos sempre ótimo filho

Tristeza estampada no rosto, Carlos Sávio ia ruminando tais idéias, ao retornar a casa no fim da jornada. De repente, porém, seu rosto se abre num sorriso: sabe que, na curva do caminho, aguarda-o o filho Domingos. Ei-lo. Soltando um grito agudo, precipita-se ao seu encontro, segura-lhe a mão, tenta agarrar a enxada, e acaba carregado ao colo. Pai e filho vão ao encontro de mamãe Brígida, que já deixou a mesa preparada e os espera à porta de casa.(p.5).

O pai não sabia ler nem escrever, mas trabalhava bem como ferrador, e complementava as parcas entradas trabalhando como camponês. Mamãe Brígida era costureira e dona de casa. Mulher simples, mas trabalhadora e educada, ensinava os filhos a trabalhar e rezar.(p.5).

Esperava no frio a missa começar

P.João chegava à igreja para rezar a primeira Missa. Com o frio que fazia, duvidava que houvesse gente para a Missa naquela hora. Ainda longe avistou Domingos Sávio…O bom padre ficou pasmado: – Que está fazendo aqui, Domingos? O menino estremeceu. Estava transido de frio. – Estou esperando a Missa começar. – Entre, entre, está fazendo muito frio. Vamos preparar o altar.(p.6).

Sempre dócil com aqueles que o ofendiam

Era obrigado a tratar com jovens malcomportados e levianos, mas nunca pude surprendê-lo a brigar. Se surgia alguma discussão, suportava com paciência os insultos dos colegas e afastava-se logo. Não me recordo de tê-lo visto tomar parte em divertimentos perigosos, ou de algum modo perturbar a aula. Muitos colegas convidavam-no a acompanhá-los nas peças que pregavam a pessoas de idade avançada, a atirar pedras, a roubar frutas ou danificar plantações; com muito jeito desaprovava-lhes o procedimento e recusava-se a participar de suas traquinagens.(p.8).

Era sensível com o sofrimento alheio

Um dia, dois alunos haviam armado um das suas, e o P.João, na presença dos outros meninos, empunhou a varinha flexível e bateu de verdade. Ao ver os dois coitadinhos chorar de dor, Domingos prorrompeu em pranto. E ao colega que lhe perguntou porque, respondeu: ‘Preferia que o professor batesse em mim’.(p.9)

Comunhão com apenas 7 anos

1849…eram tempos em que a Primeira Comunhão se fazia aos doze anos ou, no máximo, aos onze…Assim o P.João pôde anunciar a Domingos: “Dia 8 de abril, festa da Páscoa, vou dar-lhe a Primeira Comunhão. Ao saber disso, os conterrâneos resmungaram: “A Primeira Comunhão? Mas ele só tem sete anos!…”. Mas Domingos, aos que pensavam que o P. João estivesse cometendo um disparate, provou que mesmo aos sete anos pode-se estar preparado para receber Jesus dignamente.(p.10).

Lembranças de minha Primeira comunhão:

1-Confessar-me-ei com muita freqüência e farei a Comunhão todas as vezes que o confessor permitir

2- Quero santificar os dias santos

3- Meus amigos serão Jesus e Maria

4 – A morte, mas não o pecado

Sua escola era longe, mesmo assim, ia a pé

Chegou-se por fim a uma decisão: iria de manhã e de tarde a Castelnuovo. Sapatos às costas e pés no chão, começou sua peregrinação à escola municipal. Cinco quilômetros de ida pela manhã e cinco de volta à tarde. Contava dez anos!(p.15).

Anjo da Guarda

Uma vez, um camponês que também ia a Castelnuovo, ao mercado, perguntou-lhe:

-Você não tem medo de andar sozinho por estes caminhos?…

-Nunca estou só, respondeu Domingos. – O anjo da Guarda sempre me acompanha.

Recusa à maus conselhos

Os coleguinhas voltaram à carga:

-Vem conosco para uma nadadinha?

-Não, obrigado. Acho perigoso.

-Perigoso, nada! Nós lhe ensinamos a nadar. Venha!

-Quem lhe disse isso? Não vê que todos vão?

-Isso não quer dizer nada. De todo o jeito, vou primeiro pedir licença à mamãe, e se ela deixar…

-Está louco? Falar com sua mãe? Se nossos pais souberem a gente apanha.

-Se nossos pais não gostam, quer dizer que a coisa não é boa, e por isso não vou. Vocês me enganaram uma vez, por que querem enganar-me de novo? Acho que seria melhor vocês não irem também.(p.18).

Calou-se mesmo quando acusado injustamente

Dois moleques, depois de cochichar alguns instantes, esgueiram-se pela porta. Pouco depois, tornaram a entrar com dois blocos de neve, e sem que ninguém percebesse, meteram-nos na estufa. Produziu-se uma grande fumaça, e a neve derretida começou a escorrer como um riacho que se espraiou pela sala. Uma brincadeira de muito mau gosto. Foi quando chegou o P. Cugliero. Ao ver a água escorrer da estufa, aproxima-se com a cara fechada e tira a tampa…Depois, encolerizado, volta-se para os alunos.

-Quer dizer que vamos estar bem aquecidos não é? Quem foi? – A voz é bem severa…Com cara dura um deles se levanta, aponta o dedo acusador para Domingos Sávio: “Foi ele!”. O outro confirma sem titubear: “Sim, foi ele!”. O P.Cugliero caiu das nuvens:

-Domingos!Logo você! Nunca poderia imaginar!

Na hora, Domingos nem entendeu de que o acusavam…Levanta-se prontamente…ninguém o defende..No entanto todos tinham visto…

O professor continua: Ainda bem que é sua primeira falta. Não fosse assim, eu o teria expulsado da escola!

Todavia, no fim da aula, um dos que haviam visto os moleques armarem aquela peça já não agüenta mais…Dirige-se ao P.Cugliero e conta tudo. O bom professor mais uma vez cai  das nuvens:

-Mas por que, então…Esse bendito rapaz bem que poderia ter falado….

No dia seguinte, humilhado por ter castigado um inocente, diz a Domingos:

-Por que você não disse que não foi você?

Domingos sorriu:

-Não faz mal. Pensei que os dois seriam expulsos, e eu não queria. Quanto a mim, esperava ser perdoado. E depois…pensei em Jesus…Ele também foi injustamente acusado.(p.22).

São Domingos Sávio e Dom Bosco

O P.Cugliero era conterrâneo e amigo de Dom Bosco, e pensou que a seu lado Domingos Sávio poderia receber excelente formação…2 de outubro de 1854. O patiozinho na frente da casa do irmão de Dom Bosco foi o lugar do primeiro encontro.(p.23-24).

Daí-me almas e ficai com o resto

Perguntou o significado das palavras penduradas à parede. Dom Bosco ajudou-o  a traduzir: “Daí-me almas, Senhor, e ficai com o resto”. Era o lema que Dom Bosco escolhera para o seu apostolado.(p.28)

Bom exemplo

Aplicou-se com ardor ao estudo. Estudava e procurava compreender bem o catecismo. Mantinha-se afastado dos companheiros levianos, negligentes, desleixados. Procurava amigos entre os melhores, os mais estudiosos e exemplares.(p.31).

Guerra contra o pecado

Dia 28 de novembro, antes que a novena começasse, Domingos Sávio subira ao quarto de Dom Bosco:

-Domingos, você vai fazer alguma coisa par Nossa Senhora durante esta novena?

-Antes de mais nada, queria confessar-me para preparar bem minha alma. Depois, quero cumprir exatamente as ‘flores’ que o senhor aconselhar todos os dias da novena. Depois, quero comportar-me bem, para poder fazer a Comunhão todas as manhãs.

-Mais nada?

-Mais uma coisa. Quero declarar guerra impiedosa ao pecado mortal.

-E quero pedir muito, muito a Nossa Senhora e a Jesus…que me façam antes morrer que deixar-me cair num pecado venial contra a modéstia.(p.32-33).

Devoção à Maria

Domingos Sávio dirigiu-se ao altar de Nossa Senhora, tirou do bolso um papel em que havia escrito algumas linhas longamente meditadas, e consagrou-se  Maria…

“Maria, eu vos dou meu coração; fazei que seja sempre vosso. Jesus e Maria, sede sempre meus amigos! Mas, por piedade, fazei-me morrer antes que me aconteça a desgraça de cometer um só pecado”.(p.34).

Simplicidade

Eis o que escreve seu professor:

“Não me lembro de ter tido aluno mais atento, dócil e respeitoso que Domingos Sávio. Mostrava-se modelo em todas as coisas.

Não tinha afetação alguma na roupa e no cabelo; mas na modéstia das roupas e em sua humildade…mostrava-se bem-educado, cortês…(p.36).

Com o Crucifixo, Domingos, evita uma briga de dois meninos

Muniram-se ambos de cinco pedras…deslocaram-se para o canto de um prado, mediram vinte passos de distância…Domingos saiu correndo, abriu caminho, meteu-se no espaço livre entre os dois briguentos.

-Saia daí – gritou um deles, já empunhando a primeira pedra. –Tenho de ajustar contas com aquele covarde, e é inútil você querer fazer seu sermão.

Domingos encarou-o tristonho. Que fazer?…Pegou o pequeno Crucifixo que trazia ao pescoço e correu ao encontro do que se achava mais perto:

-Olhe o Crucifixo! – ordenou- e se tiver coragem, repita: “Jesus morreu perdoando os seus algozes. Eu, ao contrário, não quero perdoar, quero vingar-me até o fim!” O rapaz olhou para ele e resmungou:

-Que é que tem que ver isso?

Domingos percorreu os vinte passos que o separavam do outro e repetiu-lhe também a ele em tom de quem manda:

-Olhe o Crucifixo! E se tiver coragem repita: “Jesus morreu perdoando os seus algozes. Eu, ao contrário, quero vingar-me.

Este último era um bom rapaz, e ficou impressionado. Então Domingos segurou-o pela mão e arrastou-o para perto do outro:

-Mas por que é que se querem machucar? Por que querem causar desgosto aos pais e a Deus? Jesus perdoou a quem o matava, e vocês não são capazes de perdoar uma ofensa, feita num momento de raiva?

Domingos calou-se, mas continuou a encarar com tristeza os dois inimigos, sempre apertando na mão o pequeno Crucifixo. As pedras caíram no solo.(p.42-43).

Desejo de ser santo

Naquele domingo, Dom Bosco falou da santidade, e dividiu o argumento em três pontos:

  1. É vontade de Deus que todos nos tornemos santos.
  2. É muito fácil conseguí-lo
  3. Há um grande prêmio preparado no céu para quem se faz santo.

Desde então, Domingos começou a sonhar, e seu sonho foi a santidade: “Deus me quer santo, quero, pois, tornar-me santo.”(p.44).

Fórmula de Dom Bosco para a santidade:

-Vou dar-lhe a fórmula da santidade. Preste bem atenção. Primeiro:alegria. O que inquieta e tira a paz não vem de Deus. Segundo: deveres de estudo e de piedade. Atenção na aula, aplicação ao estudo, empenho de rezar bem. Tudo isso não por ambição, para receber elogios, mas por amor de Deus e para tornar-se um verdadeiro homem. Terceiro: fazer bem aos outros. Ajude os colegas sempre, mesmo à custa de sacrifício. A santidade está toda aí.(p.47).

Louvava a Deus quando alguém murmurava

Um colega de Domingos viu-o em dado momento tirar o chapéu e murmurar algumas palavras. Perguntou-lhe:

Que está dizendo?

E Domingos:

-Você não ouviu? Aquele carroceiro tomou o nome de Deus em vão. Pudesse ir ter com ele, dir-lhe-ia que não o fizesse mais, mas tenho medo de que faça pior. Contento-me então em dizer: Louvado seja Jesus Cristo, para reparar a ofensa ao Senhor.

Prestativo

Jovens…abandonados…postos de lado…esses eram os amigos prediletos de Domingos Sávio…quem tinha algum aborrecimento ia desabafar com ele. Se havia algum doente na enfermaria, o enfermeiro mais procurado, mais benquisto era sempre Domingos…”

Mamãe Margarida, disse um dia a seu filho: “Padre João, tens aqui no Oratório muitos jovens bons, mas podes acreditar em mim, bons como Domingos Sávio não há nenhum”.(p.60).

Mostrava-se sempre disponível. Houvesse um doente precisando de assistência, um colega de um repasse, um quarto para ser arrumado, estava sempre pronto. Chegou a emprestar suas luvas de lã a um pequerrucho que tremia de frio.(p.70).

Se podia prestar pequenos serviços aos companheiros, fazia-o de boa vontade. Limpava os sapatos, escovava a roupa, fazia a cama dos doentes, e dizia:

…-Cada um faz o que pode. Eu não sou capaz de fazer grandes coisas. Sei penas fazer essas coisinhas. Espero que Deus as acolha em sua bondade.(p.87).

Os grandes santos eram um exemplo no caminho da penitência: Santa Catarina de Sena tratava os ulcerosos com as próprias mãos; São Carlos e São Luís morreram entre os empestados, São Francisco abraçava os leprosos.(p.88).

Férias

Domingos pensava: “Minhas férias não serão a vindima do diabo, mas a messe de Nosso Senhor”…Aos pequenos ensinava o catecismo, levava-os à igreja, contava-lhes a vida de Jesus.(p.63).

Domingos Sávio ajuda a cuidar dos enfermos

Dom Bosco reúne seus quinhentos jovens:

-O prefeito lançou apelo aos corajosos. Se algum de vocês está disposto a sair comigo para ajudar os colerosos, garanto em nome da Virgem Maria que nenhum de nós será atingido pela doença. Contanto que conserve a graça de Deus e traga consigo uma medalha de Nossa Senhora. Naquela mesma noite, quarenta e quatro, dentre os maiores, ofereceram-se como voluntários. Entre eles, Domingos Sávio. (p.67).

A obra-prima de Domingos

A assembléia encarregou três membros de escrever um primeiro regulamento da Companhia, o qual deveria ser aprovado e praticado por tosos. Foram encarregados: Domingos Sávio, de 15 anos; Jose Bongioanni, de 18; e Miguel Rua, auxiliar de Dom Bosco e professor dos colegas. (p.71)

Exortação ao colega

Aconteceu um dia que um menino recebeu, não se sabe de quem, um jornal ilustrado que trazia algumas figuras não muito decentes. Dois ou três amigos começaram a folheá-lo, e depois juntaram-se outros mais. Olhavam e riam. Domingos que andava por aí, aproximou-se. Abriu caminho, tomou o jornal das mãos do dono e fê-lo em pedaços; Houve quem quisesse protestar. Domingos, sem lhes dar tempo, protestou primeiro.

-Desse jeito não vai. Coisas inconvenientes não devem entrar em nossa casa!

-Mas era só para rir.

-Você quer ir rindo para o inferno?

Ninguém mais se atreveu a protestar. Voltaram aos brinquedos.(p.78).

Dom Bosco proíbe à São Domingos Sávio as penitências

Proíbo-lhe absolutamente qualquer penitência. Antes tem que me pedir licença. Entendidos?…a penitência que Deus quer de você é a obediência. Obedeça, e isso basta para você.

-E não poderia permitir-me qualquer outra penitência?

-Sim – respondeu Dom Bosco. – Permito-lhe suportar com paciência as ofensas; tolerar com resignação o calor, o frio, o cansaço e todos os incômodos de saúde que Deus permitir.(p.84).

Mortificação dos sentidos

Olhava somente o que queria olhar. O resto era como se não existisse para ele. De início esse controle custou-lhe bastante: sofreu até uma violenta dor de cabeça. Mas conseguiu.

-Quero servir-me deles – respondeu com simplicidade – para contemplar o rosto de nossa Mãe do Céu, Nossa Senhora, quando for vê-la no paraíso.

…Também ao falar, Domingos sabia mortificar-se. O silêncio no estudo, na aula, na igreja…Ofendido, em vez de retrucar, sabia perdoar e sorrir…Escreve Dom Bosco: “Jamais seus lábios proferiram uma palavra de queixa.(p.86).

Lia o livro imitação de Cristo

Além de Kempis eu li o ‘Tesouro Oculto da Santa Missa’ do beato Leonardo. Se achar bom faça o mesmo.’(p.97).

Boa-morte

Domingos também fazia o seu Exercício da Boa Morte todos os meses….”um Pai-Nosso e uma Ave-Maria pelo primeiro que morrer dentro nós.”

Não se deve dizer ‘pelo primeiro que morrer dentro nós’ – insistia – mas, ‘por Domingos Sávio, que morrerá por primeiro. (p.109).

Morte de Domingos Sávio

O dr. Cafasso examinou-o e declarou:

-Trata-se de uma inflamação. Assim se chamava então a pneumonia.

Era o dia 9 de março de 1857. Chegou o pároco para uma última visita…

Meu querido pai, está na hora…Tome o meu livro de orações..e leia-me as orações da boa Morte.

…Era noite de 9 de março de 1857. Domingos nascia uma segunda vez. Para o céu.

Visão de Domingos Sávio no céu

Trinta dias eram passados da morte de seu filho, e o pobre pai, crutindo a dor ainda viva e profunda daquela perda, não podia dormir.  Eis senão quando parece-lhe abrir-se o teto do quarto, e grande luz espancar a escuridão. Em meio à intensa claridade delineia-se a imagem de seu Domingos, rosto sorridente e alegre, aparência majestosa e bela. Carlos Sávio ficou fora de si pela admiração. Depois balbuciou:

-Oh, Domingos, Domingos! Como vai? Onde está? Já está no céu?

-Sim, papai – respondeu – Estou de fato no céu.

-Oh, Domingos..Se Nosso Senhor lhe concedeu tão grande graça, peça-lhe por seus irmãos e irmãs, para que um dia possam juntar-se a você…E peça-lhe também por mim e por mamãe, para que todos nos possamos salvar e reunir-nos no céu.

Domingos sorriu seu sereno sorriso e respondeu:

-Sim, papai, sim. Rezarei.

A luz desapareceu, e o quarto voltou à escuridão.(p.126-127).

Santo

Pio XI declara Domingos Sávio ‘ Venerável’. Pio XII declara Domingos Sávio Beato.

Pio XII declarou Santo Domingos Sávio em 12 de junho de 1954.(p.137-138).

Fonte: São Domingos Sávio. Terésio Bosco. 2007. Editora Salesiana.

Biografia de São João Crisóstomo


CARTA DO PAPA BENTO XVI
POR OCASIÃO DO XVI CENTENÁRIO DA MORTE
DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO

Venerados Irmãos
no episcopado e no sacerdócio
Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo!

1. Introdução

Celebra-se este ano o XVI centenário da morte de São João Crisóstomo, grande Padre da Igreja para o qual olham com veneração os cristãos de todos os tempos. Na Igreja antiga João Crisóstomo distingue-se por ter promovido aquele “frutuoso encontro entre a mensagem cristã e a cultura helénica” que “teve um impacto duradouro nas Igrejas do Oriente e do Ocidente” [1]. Quer a vida quer o magistério doutrinal do Santo Bispo e Doutor ressoam em todos os séculos e ainda hoje suscitam a admiração universal. Os Pontífices Romanos reconheceram sempre nele uma fonte viva de sabedoria para a Igreja e a sua atenção pelo seu magistério aumentou ainda mais durante o último século. Há cem anos São Pio X comemorou o XV centenário da morte de São João convidando a Igreja a imitar as suas virtudes [2]. O Papa Pio XII ressaltou o grande valor da contribuição que São João ofereceu para a história da interpretação das Sagradas Escrituras com a teoria da “condescendência”, ou seja, da “synkatábasis”. Através dela Crisóstomo reconheceu que “as palavras de Deus, expressas através dos homens, se tornaram semelhantes à linguagem humana” [3]. O Concílio Vaticano II incorporou esta observação na Constituição dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina [4]. O Beato João XXIII ressaltou a compreensão profunda que Crisóstomo tinha do vínculo íntimo entre a liturgia eucarística e a solicitude pela Igreja universal [5]. O Servo de Deus Paulo VI frisou o modo como ele “tratou, com tanta nobreza de linguagem e sagacidade de piedade, o Mistério Eucarístico” [6]. Desejo recordar o gesto solene com o qual o meu amadíssimo Predecessor, o Servo de Deus João Paulo II, em Novembro de 2004 entregou importantes relíquias dos Santos João Crisóstomo e Gregório Nazianzeno ao Patriarcado ecuménico de Constantinopla. O Pontífice ressaltou como aquele gesto era verdadeiramente para a Igreja Católica e para as Igrejas Ortodoxas “uma ocasião abençoada para purificar as nossas memórias feridas, para fortalecer o nosso caminho de reconciliação [7]. Eu mesmo, durante a viagem apostólica à Turquia, precisamente na Catedral do Patriarcado de Constantinopla, tive a oportunidade de recordar “os insignes santos e pastores que vigiaram sobre a Sé de Constantinopla, entre os quais São Gregório de Nazianzo e São João Crisóstomo, que também o Ocidente venera como Doutores da Igreja… Na realidade, eles são dignos intercessores por nós diante do Senhor” [8]. Portanto sinto-me feliz porque a circunstância do XVI centenário da morte de São João me oferece a oportunidade de reevocar a sua luminosa figura e propô-la à Igreja universal para a comum edificação.

2. A vida e o ministério de São João

São João Crisóstomo nasceu em Antioquia da Síria nos meados do século IV. Foi instruído nas artes liberais segundo a prática tradicional do seu tempo e revelou-se particularmente dotado na arte do discurso público. Durante os seus estudos, quando ainda era jovem, pediu o baptismo e aceitou o convite do seu Bispo, Melésio, para prestar serviço de leitor na Igreja local [9]. Naquele período os fiéis estavam perturbados com a dificuldade de encontrar um modo adequado para expressar a divindade de Cristo. João tinha-se alinhado com aqueles fiéis ortodoxos que, em sintonia com o Concílio ecuménico de Niceia, confessavam a plena divindade de Cristo, mas mesmo procedendo assim, tanto ele como os outros fiéis não encontravam em Antioquia o favor do governo imperial [10]. Depois do seu baptismo João abraçou a vida ascética. Por influência do seu mestre Teodoro de Tarso, decidiu permanecer celibatário por toda a vida e dedicou-se à oração, ao jejum rigoroso e ao estudo da Sagrada Escritura [11]. Afastando-se de Antioquia, por seis anos conduziu uma vida ascética no deserto da Síria e começou a escrever tratados sobre a vida espiritual [12]. Em seguida, regressou a Antioquia onde, mais uma vez, serviu a Igreja como leitor e, mais tarde, durante cinco anos, como diácono. Em 386, chamado ao presbiterado por Flaviano, Bispo de Antioquia, acrescentou também o ministério da pregação da Palavra de Deus ao da oração e da actividade literária [13].

Durante os doze anos de ministério presbiteral na Igreja antioquena, João distinguiu-se muito pela sua capacidade de interpretar as Sagradas Escrituras de modo compreensível aos fiéis. Na sua pregação ele empenhava-se com fervor para reforçar a unidade da Igreja fortalecendo nos seus ouvintes a identidade cristã, num momento histórico no qual estava ameaçada quer do interior quer do exterior. Justamente, ele intuiu que a unidade entre os cristãos dependia sobretudo de uma verdadeira compreensão do mistério central da fé da Igreja, o da Santíssima Trindade e da Encarnação do Verbo Divino. Todavia, consciente das dificuldades destes mistérios, João dedicava grande empenho em fazer com que o ensinamento da Igreja fosse acessível às pessoas simples da sua assembleia, tanto em Antioquia como, mais tarde, em Constantinopla [14]. E não deixava de se dirigir também aos discordantes, preferindo usar com eles a paciência e não a agressividade, porque acreditava que para superar um erro teológico “nada é mais eficaz do que a moderação e a gentileza” [15].

A fé sólida de João e a sua habilidade na pregação deram-lhe a possibilidade de pacificar os Antioquenos quando, no início do seu presbiterado, o Imperador aumentou a pressão fiscal sobre a cidade causando uma revolta durante a qual alguns monumentos públicos foram destruídos. Depois da revolta o povo, receando a cólera do Imperador, tinha-se reunido na igreja, desejosa de ouvir de João palavras de esperança cristã e de conforto: “Se nós não vos confortamos, onde podereis encontrar conforto?”, disse-lhes [16]. Nos seus sermões durante a quaresma daquele ano, João expôs todos os acontecimentos relacionados com a revolta e recordou aos seus ouvintes as atitudes que devem caracterizar o compromisso cívico dos cristãos [17], sobretudo a rejeição de meios violentos na promoção de mudanças políticas e sociais [18]. Nesta perspectiva, exortava os fiéis ricos a praticar a caridade para com os pobres, a fim de construir uma cidade mais justa e, ao mesmo tempo, recomendava que os mais instruídos aceitassem ser mestres e que todos os cristãos se reunissem nas igrejas para aprender a carregar os pesos uns dos outros [19]. Se era necessário, também sabia consolar os seus ouvintes fortalecendo a sua esperança e encorajando-os a ter confiança em Deus, tanto para a salvação temporal como para a eterna [20], dado que “a tribulação produz a paciência, a paciência, a virtude provada e a virtude provada, a esperança” (Rm 5, 3-4) [21].

Depois de ter servido a Igreja antioquena como presbítero e pregador por doze anos, João foi consagrado Bispo de Constantinopla em 398, e ali permaneceu durante cinco anos e meio. Naquela função, ele ocupou-se da reforma do clero, estimulando os presbíteros, quer com as palavras quer com o exemplo, a viver em conformidade com o Evangelho [22]. Apoiou os monges que viviam na cidade e ocupou-se das suas necessidades materiais, mas procurou reformar a sua vida, ressaltando que eles se tinham proposto dedicar-se exclusivamente à oração e a uma vida retirada [23]. Atento a evitar qualquer ostentação de luxo e a adoptar, mesmo sendo Bispo de uma capital do império, um estilo de vida modesto, foi generosíssimo na distribuição das esmolas aos pobres. João dedicava-se à pregação todos os domingos e nas festas principais. Estava muito atento a fazer com que os aplausos, com frequência recebidos pela sua pregação, não o induzissem a perder o interesse pelo Evangelho que pregava. Por isso, por vezes lamentava-se porque com frequência a mesma assembleia que aplaudia as suas homilias ignorava as exortações a viver autenticamente a vida cristã [24]. Denunciou incansavelmente o contraste que existia na cidade entre o desperdício extravagante dos ricos e a indigência dos pobres e, ao mesmo tempo, em sugerir aos ricos que acolhessem os desabrigados nas suas casas [25]. Via Cristo no pobre; por isso, convidava os seus ouvintes a fazer o mesmo e a agir por consequência [26]. Foram tão persistentes a defesa do pobre e a reprovação de quem era muito rico, que suscitou a contrariedade e também a hostilidade contra ele por parte de alguns ricos e de quantos detinham o poder político [27].

Entre os Bispos do seu tempo João foi extraordinário pelo zelo missionário; enviou missionários para difundir o Evangelho entre os que ainda não o conheciam [28]. Construiu hospitais para a cura dos doentes [29]. Pregando em Constantinopla sobre a Carta aos Hebreus, afirmou que a assistência material da Igreja se deve alargar a cada necessitado, sem ter em conta o credo religioso: “o necessitado pertence a Deus, mesmo se é pagão ou judeu. Mesmo se não crê, é digno de ajuda” [30].

O papel de Bispo na capital do Império do Oriente impunha que João mediasse as delicadas relações entre a Igreja e a corte imperial. Ele encontrou-se com frequência a ser objecto de hostilidades da parte de muitos oficiais imperiais, às vezes devido à sua firmeza em criticar o luxo excessivo com que se circundavam. Ao mesmo tempo a sua posição de Arcebispo metropolitano de Constantinopla colocava-o na difícil e delicada situação de ter que negociar uma série de questões eclesiais que envolviam outros Bispos e outras sedes. Como consequência das intrigas arquitectadas contra ele por adversários poderosos, tanto eclesiásticos como imperiais, foi condenado duas vezes pelo imperador ao exílio. Faleceu a 14 de Setembro de há 1600 anos, em Comana do Ponto durante a viagem rumo à meta final do seu segundo exílio, distante do seu amado rebanho de Constantinopla.

3. O magistério de São João

A partir do século V, Crisóstomo foi venerado pela inteira Igreja cristã, oriental e ocidental, pelo seu testemunho corajoso em defesa da fé eclesial e pela sua dedicação generosa ao ministério pastoral. O seu magistério doutrinal e a sua pregação, como também a sua solicitude pela Sagrada Liturgia mereceram-lhe depressa o reconhecimento de Padre e Doutor da Igreja. Também a sua fama de pregador era consagrada, já a partir do século VI, com a atribuição do título “Boca de ouro”, em grego “Crisóstomo”. Dele escreve Santo Agostinho: “Observa, Juliano, em qual assembleia te introduzi. Aqui está Ambrósio de Milão… aqui João de Constantinopla… aqui Basílio… aqui os outros, e o seu admirável consentimento deveria fazer-te reflectir… Eles resplandeceram na Igreja católica pelo estudo da doutrina. Revestidos e protegidos pelas armas espirituais guiaram vigorosas guerras contra os hereges e, depois de terem levado fielmente ao termo as obras que lhes foram confiadas por Deus, dormem no seio da paz… Eis o lugar no qual te introduzi, a assembleia destes santos não é a multidão do povo: eles não são só filhos, mas também Padres da Igreja” [31].

Digno de especial menção é depois o extraordinário esforço realizado por São João Crisóstomo para promover a reconciliação e a plena comunhão entre os cristãos do Oriente e do Ocidente. Em particular, foi decisiva a sua contribuição para pôr fim ao cisma que separava a sede de Antioquia da de Roma e das outras Igrejas ocidentais. Na época da sua consagração como Bispo de Constantinopla João enviou uma delegação ao Papa Sirício, a Roma. Em apoio desta missão, em vista do seu projecto de pôr fim ao cisma, ele obteve a colaboração do Bispo de Alexandria do Egipto. O Papa Sirício respondeu favoravelmente à iniciativa diplomática de João; o cisma foi assim resolvido pacificamente e restabelecida a plena comunhão entre as Igrejas.

Sucessivamente, nos finais da sua vida, tendo regressado a Constantinopla do primeiro exílio, João escreveu ao Papa Inocêncio e também aos Bispos Venério de Milão e Cromácio de Aquileia, para pedir ajuda no esforço de restabelecer a ordem na Igreja de Constantinopla, dividida por causa das injustiças cometidas contra ele. João solicitava do Papa Inocêncio e dos outros Bispos ocidentais uma intervenção que “conceda como ele escreveu benevolência não só a nós, mas a toda a Igreja” [32]. De facto, no pensamento de Crisóstomo, quando uma parte da Igreja sofre por uma ferida, toda a Igreja sofre pela mesma ferida. O Papa Inocêncio defendeu João com algumas cartas dirigidas aos Bispos do Oriente [33]. O Papa afirmava a sua plena comunhão com ele, ignorando a sua deposição que considerava ilegítima [34]. Escreveu depois a João para o confortar [35], e escreveu também ao clero e aos fiéis de Constantinopla para manifestar o pleno apoio ao seu Bispo legítimo: “João, o vosso Bispo, sofreu injustamente”, reconhecia ele [36]. Além disso, o Papa reuniu um Sínodo de Bispos italianos e orientais com a finalidade de obter justiça para o Bispo perseguido [37]. Com o apoio do imperador do Ocidente, o Papa enviou uma delegação de Bispos ocidentais e orientais a Constantinopla, junto do imperador do Oriente, para defender João e pedir que um Sínodo ecuménico de Bispos lhe fizesse justiça [38]. Quando, pouco antes da sua morte no exílio, estes projectos falharam, João escreveu ao Papa Inocêncio para lhe agradecer o “grande conforto” que tinha sentido pelo generoso apoio que lhe fora concedido [39]. Na sua carta João afirmava que, apesar de estar separado pela grande distância do exílio, ele estava “dia após dia em comunhão” com ele, e dizia: “Tu superaste até o pai mais afectuoso na tua benevolência e no teu zelo para connosco”.

Contudo suplicava-lhe que perseverasse no compromisso de procurar justiça para ele e para a Igreja de Constantinopla, porque “agora a batalha que tens diante de ti deve ser combatida em favor de quase todo o mundo, da Igreja humilhada ao máximo, do povo disperso, do clero agredido, dos Bispos mandados para o exílio, das antigas leis violadas”. João escreveu também aos outros Bispos ocidentais para lhes agradecer o seu apoio [40]: entre eles, na Itália, Cromácio de Aquileia [41], Venério de Milão [42] e Gaudêncio de Bréscia [43].

Tanto em Antioquia como em Constantinopla João falou apaixonadamente da unidade da Igreja espalhada pelo mundo. A este propósito escreveu: “Os fiéis, em Roma, consideram os que estão na Índia como membros do seu próprio corpo” [44] e ressaltava que na Igreja não há espaço para as divisões. “A Igreja exclamava existe não para que quantos se reuniram se dividam, mas para que quantos estão divididos se possam unir” [45]. E encontrava nas Sagradas Escrituras a confirmação divina desta unidade. Pregando sobre a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, recordava aos seus ouvintes que “Paulo se refere à Igreja como “Igreja de Deus” [46] mostrando que deve estar unida, porque se é de Deus está unida, e não só em Corinto, mas também no mundo: de facto, o nome da Igreja não é um nome de separação, mas de unidade e concórdia” [47].

Para João a unidade da Igreja está fundada em Cristo, o Verbo Divino que com a sua Encarnação se uniu à Igreja como a cabeça ao seu corpo [48]: “Onde está a cabeça, lá está também o corpo”, e portanto “não há separação entre a cabeça e o corpo” [49]. Ele tinha compreendido que na Encarnação o Verbo Divino não só se fez homem, mas também se uniu a nós fazendo-se seu corpo [50]: “Dado que para ele não era suficiente fazer-se homem, ser açoitado e morto, ele une-se a nós não só pela fé, mas também de facto nos torna seu corpo”. Comentando o trecho da Carta de São Paulo aos Efésios: “Tudo de facto submeteu aos seus pés e constituiu-o sobre todas as coisas cabeça da Igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que se realiza totalmente em todas as coisas” [51], João explica que “é como se a cabeça fosse completada pelo corpo, porque o corpo é composto e formado pelas suas várias partes. Portanto, o seu corpo é composto por todos. A cabeça é completa e o corpo tornado perfeito quando todos nós estamos juntos e unidos” [52]. João conclui então que Cristo une todos os membros da sua Igreja a si e entre eles. A nossa fé em Cristo exige que nos comprometamos por uma efectiva e sacramental união entre os membros da Igreja, pondo fim a todas as divisões.

Para Crisóstomo, a unidade eclesial que se realiza em Cristo é testemunhada de modo totalmente peculiar na Eucaristia. Denominado “doutor eucarístico” pela vastidão e profundidade da sua doutrina sobre o Santíssimo Sacramento” [53], ele ensina que a unidade sacramental da Eucaristia constitui a base da unidade eclesial em e por Cristo. “Certamente há muitas coisas para nos manter unidos. Uma mesa está posta diante de todos… a todos foi oferecida a mesma bebida ou, aliás, não só a mesma bebida mas também o mesmo cálice. O nosso Pai, querendo conduzir-nos a um terno afecto, dispôs também isto, que bebamos de um só cálice, o que se destina a um amor intenso” [54]. Reflectindo sobre as palavras da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, “O pão que partimos não é porventura comunhão com o corpo de Cristo?” [55], João comenta: para o Apóstolo portanto, “assim como aquele corpo está unido a Cristo, assim também nós estamos unidos a Ele por meio deste pão” [56]. E ainda mais claramente, à luz das seguintes palavras do Apóstolo: “Pois nós, mesmo sendo muitos, somos um só pão, um só corpo” [57], João argumenta: “O que é o pão? O Corpo de Cristo. E o que se tornam eles quando o comemos? O corpo de Cristo; não muitos corpos, mas um só corpo. Assim como o pão, mesmo se feito de muitos grãos, se torna um… assim também nós estamos unidos quer uns aos outros quer a Cristo… Mas, se somos alimentados por um mesmo pão e todos nos tornamos a mesma coisa, por que não mostramos também o mesmo amor, de modo a tornarmo-nos também sob este aspecto uma só coisa?” [58].

A fé de Crisóstomo no mistério de amor que une os crentes a Cristo e entre eles conduziu-o a exprimir uma profunda veneração pela Eucaristia, uma veneração que alimentou particularmente na celebração da Divina Liturgia. Uma das mais ricas expressões da Liturgia oriental leva precisamente ao seu nome: “A Divina Liturgia de São João Crisóstomo”. João compreendeu que a Divina Liturgia coloca espiritualmente o crente entre a vida terrena e as realidades celestes que lhe foram prometidas pelo Senhor. Ele expressava a Basílio Magno o seu temor reverencial ao celebrar os sagrados mistérios com estas palavras: “Quando tu vês o Senhor imolado que jaz sobre o altar e o sacerdote que, estando de pé, reza sobre a vítima… ainda podes pensar que estás entre os homens, que estás na terra? Não és, ao contrário, imediatamente transportado para o céu?”. Os ritos sagrados, diz João, “não são só maravilhosos para ver, mas extraordinários pelo temor reverencial que suscitam. Ali está em pé o sacerdote… que faz descer o Espírito Santo, e reza prolongadamente para que a graça que desce sobre o sacrifício possa iluminar naquele lugar as mentes de todos e torná-las mais maravilhosas que a prata purificada no fogo. Quem pode desprezar este venerando mistério?” [59].

Com grande profundidade Crisóstomo desenvolve a reflexão sobre os efeitos da comunhão sacramental nos crentes: “O sangue de Cristo renova em nós a imagem do nosso Rei, produz uma beleza indizível e não permite que seja destruída a nobreza das nossas almas, mas continuamente a irriga e alimenta” [60]. Por isso João exorta com frequência e insistência os fiéis a aproximar-se dignamente do altar do Senhor, “não com leviandade… não por hábito e formalidade”, mas com “sinceridade e pureza de espírito” [61]. Ele repete incansavelmente que a preparação para a Sagrada Comunhão deve incluir o arrependimento dos pecados e a gratidão pelo sacrifício realizado por Cristo para a nossa salvação. Portanto ele exorta os fiéis a participar plena e devotamente nos ritos da Divina Liturgia e a receber com as mesmas disposições a Sagrada Comunhão: “Não deixeis, suplicamos-vos, que sejamos mortos pela vossa irreverência, mas aproximai-vos d’Ele com devoção e pureza, e quando o virdes diante de vós, dizei a vós mesmos: “Em virtude deste corpo eu já não sou terra e cinza, já não sou prisioneiro, mas livre; em virtude disto espero no paraíso, e receber os seus bens, a herança dos anjos, e conversar com Cristo”” [62].

Naturalmente, da contemplação do Mistério ele tira depois também as consequências morais nas quais envolve os seus ouvintes: ele recorda-lhes que a comunhão com o Corpo e o Sangue de Cristo os obriga a oferecer assistência material aos pobres e aos famintos que vivem entre eles [63]. A mesa do Senhor é o lugar onde os crentes se reconhecem e acolhem o pobre e o necessitado que talvez antes tenham ignorado[64]. Ele exorta os fiéis de todos os tempos a olhar além do altar sobre o qual é oferecido o sacrifício eucarístico e a ver Cristo na pessoa dos pobres, recordando que graças à ajuda prestada podem oferecer no altar de Cristo um sacrifício agradável a Deus [65].

4. Conclusão

Todas as vezes que encontramos estes nossos Padres escreveu o Papa João Paulo II em relação a outro grande Padre e Doutor, São Basílio, “somos por eles confirmados na fé e encorajados na esperança” [66]. O XVI centenário da morte de São João Crisóstomo oferece uma ocasião bastante propícia para incrementar os estudos sobre ele, recuperar os seus ensinamentos e difundir a devoção a ele. Estou espiritualmente presente com ânimo grato e faço bons votos às várias iniciativas e celebrações que são organizadas por ocasião deste XVI centenário. Gostaria de expressar também o meu desejo fervoroso de que os Padres da Igreja “em cuja voz ressoa a constante Tradição cristã” [67] se tornem cada vez mais um ponto firme de referência para todos os teólogos da Igreja. Regressar a eles significa remontar às fontes da experiência cristã, para saborear o seu vigor e genuidade. Portanto, que melhores votos poderia desejar aos teólogos do que os de um renovado compromisso por recuperar o património sapiencial dos santos Padres? Certamente obtêm um enriquecimento precioso para a sua reflexão também sobre os problemas deste nosso tempo.

Apraz-me terminar esta carta com uma última palavra do grande Doutor, na qual ele convida os seus fiéis e também nós, naturalmente a reflectir sobre os valores eternos: “Ainda por quanto tempo estaremos apegados à realidade presente? Quanto tempo será ainda necessário antes de despertarmos? Ainda por quanto tempo descuidaremos a nossa salvação? Deixai-nos recordar aquilo de que Cristo nos considerou dignos, deixai que lhe agradeçamos, glorifiquemos, não só com a nossa fé, mas também com as nossas obras efectivas, que possamos obter os bens futuros pela graça e amorosa ternura de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual e com o qual sejam glorificados o Pai e o Espírito Santo, agora e por todos os séculos. Amém” [68].

A todos a minha Bênção!

Castel Gandolfo, 10 de Agosto de 2007, terceiro ano de Pontificado.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/letters/2007/documents/hf_ben-xvi_let_20070810_giovanni-crisostomo_po.html


PAPA BENTO XVI

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

São João Crisóstomo (2)

Queridos irmãos e irmãs!

Continuamos hoje a nossa reflexão sobre São João Crisóstomo. Depois do período passado em Antioquia, em 397 ele foi nomeado Bispo de Constantinopla, a capital do Império romano do Oriente. Desde o início, João projectou a reforma da sua Igreja:  a austeridade do palácio episcopal devia servir de exemplo para todos clero, viúvas, monges, palacianos e ricos.

Infelizmente, muitos destes, atingidos pelos seus juízos, afastaram-se dele. Solícito pelos pobres, João foi chamado também “Esmoler”. De facto, como administrador atento ele conseguiu criar instituições caritativas muito apreciadas. O seu arrojo nos vários âmbitos fez com que ele se tornasse para alguns um rival perigoso. Ele, contudo, como verdadeiro Pastor, tratava todos de modo cordial e paterno. Sobretudo, destinava considerações sempre ternas às mulheres e cuidados especiais ao matrimónio e à família. Convidava os fiéis a participar na vida litúrgica, por ele tornada esplendorosa e atraente com genial criatividade.

Não obstante o coração generoso, não teve uma vida tranquila. Pastor da capital do Império, viu-se com frequência envolvido em questões e intrigas políticas, devido aos seus contínuos relacionamentos com as autoridades e as instituições civis. Depois, a nível eclesiástico foi acusado de ter superado os confins da própria jurisdição, e tornou-se assim alvo de fáceis acusações. Outro pretexto contra ele foi a presença de alguns monges egípcios, excomungados pelo patriarca Teófilo de Alexandria que se refugiaram em Constantinopla. Uma acesa polémica foi depois originada pelas críticas feitas por Crisóstomo à imperatriz Eudóxia e às suas palacianas, que reagiram desacreditando-o e insultando-o. Chegou-se assim à sua deposição, no sínodo organizado pelo mesmo patriarca Teófilo em 403, com a consequente condenação ao primeiro breve exílio. Depois do seu regresso, a hostilidade suscitada contra ele desde o protesto contra as festas em honra da imperatriz que o Bispo considerava como festas pagãs, sumptuosas e a expulsão dos presbíteros encarregados dos Baptismos na Vigília pascal de 404 marcaram o início da perseguição de Crisóstomo e dos seus seguidores, os chamados “Joanitas”.

Então João denunciou através de carta os factos ao Bispo de Roma, Inocêncio I. Mas já era demasiado tarde. No ano de 406 teve de novo que se refugiar no exílio, desta vez em Cucusa, na Arménia. O Papa estava convencido da sua inocência, mas não tinha o poder de o ajudar. Um Concílio, querido por Roma para uma pacificação entre as duas partes do Império e entre as suas Igrejas, não pôde ser realizado. O deslocamento extenuante de Cucusa para Pytius, meta nunca alcançada, devia impedir as visitas dos fiéis e interromper a resistência do exiliado extenuado:  a condenação ao exílio foi uma verdadeira condenação à morte! São comovedoras as numerosas cartas do exílio, nas quais João manifesta as suas preocupações pastorais com tonalidades de participação e de sofrimento pelas perseguições contra os seus. A marcha rumo à morte terminou em Comano no Ponto. Aqui, João moribundo, foi levado para a capela do mártir São Basilisco, onde rendeu a alma a Deus e foi sepultado, mártir ao lado do mártir (Palladio, Vita 119). Era o dia 14 de Setembro de 407, festa da Exaltação da Santa Cruz. A reabilitação teve lugar em 438 com Teodósio II. As relíquias do santo Bispo, colocadas na igreja dos Apóstolos em Constantinopla, foram depois trasladadas em 1204 para Roma, para a primitiva Basílica constantiniana, e agora jazem na capela do Coro dos Cónegos da Basílica de São Pedro. A 24 de Agosto de 2004 uma considerável parte delas foi doada pelo Papa João Paulo II ao Patriarca Bartolomeu I de Constantinopla. A memória litúrgica do santo celebra-se a 13 de Setembro. O beato João XXIII proclamou-o padroeiro do Concílio Vaticano II.

Foi dito acerca de João Crisóstomo que, quando foi colocado no trono da Nova Roma, isto é, Constantinopla, Deus mostrou nele um segundo Paulo, um doutor do Universo. Na realidade, em Crisóstomo há uma unidade substancial de pensamento e de acção tanto em Antioquia como em Constantinopla. Mudam só o papel e as situações. Meditando sobre as oito obras realizadas por Deus no suceder-se dos seis dias no comentário do Génesis, Crisóstomo deseja reconduzir os fiéis da criação ao criador:  “É um grande bem”, diz, “conhecer o que é a criatura e o que é o Criador”.

Mostra-nos a beleza da criação e a transparência de Deus na sua criação, a qual se torna assim quase que uma “escada” para subir a Deus, para o conhecer. Mas a este primeiro passo acrescenta-se um segundo:  este Deus criador é também o Deus da condescendência (synkatabasis). Nós somos débeis na “subida”, os nossos olhos são débeis. E assim Deus torna-se o Deus da condescendência, que envia ao homem pecador e estrangeiro uma carta, a Sagrada Escritura, de modo que criação e Sagrada Escritura completam-se. À luz da Escritura, da carta que Deus nos deu, podemos decifrar a criação. Deus é chamado “pai terno” (philostorgios) (ibid.), médico das almas (Homilia 40, 3 sobre o Génesis), mãe (ibid.) e amigo afectuoso (Sobre a providência 8, 11-12). Mas a este segundo passo primeiro a criação como “escada” para Deus e depois a condescendência de Deus através duma carta que nos deu, a Sagrada Escritura acrescenta-se um terceiro passo. Deus não só nos transmite uma carta:  em definitiva, desce Ele mesmo, encarna-se, torna-se realmente “Deus connosco”, nosso irmão até à morte na Cruz. E a estes três passos Deus é visível na criação, Deus dá-nos uma sua carta, Deus desce e torna-se um de nós acrescenta-se no final um quarto passo. No arco da vida e da acção do cristão, o princípio vital e dinâmico é o Espírito Santo (Pneuma), que transforma as realidades do mundo. Deus entra na nossa existência através do Espírito Santo e transforma-nos do interior do nosso coração.

Nesta panorâmica, precisamente em Constantinopla João, no comentário continuativo dos Actos dos Apóstolos, propõe o modelo da Igreja primitiva (Act 4, 32-37) como modelo para a sociedade, desenvolvendo uma “utopia” social (quase uma “cidade ideal”). De facto, tratava-se de dar uma alma e um rosto cristão à cidade. Por outras palavras, Crisóstomo compreendeu que não é suficiente dar esmola, ajudar os pobres sempre que precisem, mas é necessário criar uma nova estrutura, um novo modelo de sociedade; um modelo baseado na perspectiva do Novo Testamento. É a nova sociedade que se revela na Igreja nascente. Portanto João Crisóstomo torna-se assim realmente um dos grandes Padres da Doutrina Social da Igreja:  a velha ideia da “polis” grega é substituída por uma nova ideia de cidade inspirada na fé cristã. Crisóstomo defendia com Paulo (cf. 1 Cor 8, 11) a primazia de cada cristão, da pessoa como tal, também do escravo e do pobre. O seu projecto corrige assim a tradicional visão grega da “polis”, da cidade, na qual amplas camadas de população eram excluídas dos direitos de cidadania, enquanto na cidade cristã todos são irmãos e irmãs com iguais direitos. A primazia da pessoa é também a consequência do facto que realmente partindo dela se constrói a cidade, enquanto que na “polis” grega a pátria era superior ao indivíduo, o qual estava totalmente subordinado à cidade no seu conjunto. Assim com Crisóstomo tem início a visão de uma sociedade construída pela consciência cristã. E ele diz-nos que a nossa “polis” é outra, “a nossa pátria está no céu” (Fl 3, 20) e esta nossa pátria também nesta terra nos torna iguais, irmãos e irmãs, e obriga-nos à solidariedade.

No final da sua vida, do exílio nos confins da Arménia, “o lugar mais remoto do mundo”, João, voltando à sua primeira pregação de 386, retomou o tema que lhe era tão querido do plano que Deus prossegue em relação à humanidade:  é um plano “indizível e incompreensível”, mas certamente guiado por Ele com amor (cf. Sobre a providência 2, 6). É esta a nossa certeza.

Mesmo se não podemos decifrar os pormenores da história pessoal e colectiva, sabemos que o plano de Deus se inspira sempre no seu amor. Assim, apesar dos sofrimentos, Crisóstomo reafirmava a descoberta de que Deus ama cada um de nós com um amor infinito, e por isso deseja que todos se salvem. Por seu lado, o santo Bispo cooperou nesta salvação generosamente, sem se poupar, ao longo de toda a sua vida. De facto ele considerava o fim último da sua existência a glória de Deus, que já agonizante deixou como extremo testamento:  “Glória a Deus por tudo!” (Palladio, Vita 11).

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070926_po.html

A Sabedoria

O pastor ausente e as ovelhas em perfeita ordem! Grande feito do pastor: o rebanho, não apenas em sua presença, mas até durante a ausência, demonstra ardente zelo! (p.17)

O desejo do bem-estar não vos atormenta mais e não tendes dificuldade em superá-lo. Com efeito, de uma vez o eliminastes e tornastes a carne inacessível a este desejo, e acostumastes o estômago a se contentar, quanto à comida e à bebida, com o suficiente para não morrer nem merecer castigo…Pois, comida excessiva alimenta o sono. (p.224)

Nossa meta é a seguinte: não apenas expelir a tristeza, mas também encher-vos de grande e permanente alegria. (p.251)

De fato, a tristeza também produz doença. Quando o corpo está fatigado e totalmente fraco, surge enorme e progressivo perigo. (p.301)

Quanto mais intensa a tribulação, mais aumentam as coroas quanto mais o ouro é provado pelo fogo, mais se purifica;…(p.305)

A Caridade

Onde falta a caridade, as outras virtudes de nada nos servem, porque ela constitui a marca dos discípulos do Senhor, a característica dos servos de Deus, o distintivo dos apóstolos. Com efeito, está escrito: “Nisso reconhecerão todos que sois meus discípulos, (se vos amardes uns aos outros.)” João 13, 35. (p.18)

Por esta razão, conforme Cristo disse, não se revelam seus discípulos por intermédio de milagres, e sim pela caridade. (p.18)

Dialoguemos com moderação. Nada mais forte que a moderação e a doçura. Por essa razão também Paulo recomendou que adotemos cuidadosamente tal atitude, nesses termos: “Ora, um servo de Deus não deve brigar; deve ser manso para com todos”. (II Timóteo 2, 24)

Não convém a um servo do Senhor altercar; bem ao contrário, seja ele condescendente com todos, capaz de ensinar, paciente em suportar os males.

Serão capazes de reter a língua no momento em que ela se exalta além da medida e da conveniência, de acalmar o espírito agitado e moderá-lo constantemente, e de estabelecer em nós permanentemente a paz perfeita. (p.31)

Persistência e coragem na Evangelização

Mesmo, caríssimo irmão, se te injuriarem, te derem pontapés e te cuspirem, se fizerem seja o que for, não desistas dos curativos. De fato, os que cuidam de um homem louco devem suportar muitas coisas desta espécie e não podem abandoná-lo apesar de tudo, mas devem apiedar-se e lastimá-lo tanto mais por se tratar de manifestação da doença. (p.49)

Não são efetivamente apenas as feridas corporais, mas também as dores da alma que alcançam coroas inefáveis, e as aflições da alma, se acolhidas como ação de graças, mais do que a do corpo. (p.240)

Fugir das más companhias

Os mais fracos, ao contrário, fujam da companhia deles e evitem o diálogo, não suceda que o pretexto de amizade se transforme em oportunidade de irreligião. (p.49)

Se a amizade deles te é prejudicial e te arrasta a participar da impiedade, até mesmo se forem os próprios pais, foge deles! Se teu olho te prejudica, arranca-o! Com efeito, foi dito: “Se teu olho direito te escandalizar, arranca-o”. (p.29)

Quando o médico visita um doente, com freqüência resultam benefícios para ambos, mas se alguém um tanto fraco vai para junto dos doentes, simultaneamente causa dano a eles e a si mesmo, porque em nada lhes será útil, e a doença lhe acarretará grande mal. Os que ficam olhando pacientes atingidos de oftalmia contraem a moléstia; assim também os que se unem aos blasfemadores, se são mais fracos, arriscam-se a participar de sua impiedade. A fim, portanto, de evitar tão graves perigos, fujamos da companhia deles e contentemo-nos com rezar e implorar a Deus que ama os homens, quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade…(p.50)

Pois, aquele que pratica o mal na terra e, em vez de expiar seu pecado, goza de consideração da parte dos homens, partirá levando tal estima qual penhor mais seguro de castigo. Este o motivo por que o rico ardia horrivelmente, e sofria punição não apenas por causa da crueldade para com Lázaro, mas porque a prosperidade de que gozava continuamente, com tamanha crueldade, não o tornara melhor. (Cf. Lucas 16, 19-31) (p.203)

Então ninguém estará ao nosso lado nem nos livrará do castigo. Nem pai, nem filho, nem filha, nem mãe, nem outro parente qualquer, nem vizinho, nem amigo, nem advogado, nem donativo em dinheiro, nem superabundante fortuna, nem poder imenso: tudo isso será sacudido como pó. O réu, em vista da sentença que o absolve ou condena, conta apenas com seus atos. Ninguém é então julgado por ações alheias, e sim de acordo com o que ele mesmo praticou. (p.221)

A oração

Eu posso, dizem eles, rezar também em casa, enquanto é impossível ouvir em casa homilia ou instrução. Enganas-te a ti mesmo, ó homem. Se, de fato, podes rezar em casa, não pode rezar do mesmo modo que na Igreja…Efetivamente, os sacerdotes presidem a fim de que as orações do povo, mais fracas, unidas às deles, mais fortes, simultaneamente se elevem para o céu. (p.63)

A verdadeira humildade

Considerar-se pecador quem verdadeiramente o é, não constitui, contudo, humildade. A humildade pertence a quem, apesar de consciente de ter praticado muitas boas ações, não tem de si mesmo alta estima…(p.99)

O fariseu atrelava juntos a justiça e o orgulho, a ponto de dizer: “Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, ávidos, nem como este publicano”.(Lucas 18, 11) …E que fez então este último? Não repeliu as injurias, não se irritou com a acusação: acolheu tais palavras com prudência. A seta do inimigo transformou-se-lhe em remédio e cura, a injuria, em elogio, a censura, em coroa. A humildade é tão bela, que não sente as mordeduras dos agravos de outrem e não se enfurece pelo ultrajes do próximo. É até possível tirar desses ataques grande e excelente fruto, como aconteceu no caso do publicano. Na verdade, ao aceitar as injúrias, ele depôs o fardo de seus pecados e, ao dizer: “Tem piedade de mim, que sou pecador!”; voltou para casa justificado, mais do que o outro. (Lucas 18, 13). (p.100-101)

Sucede nos negócios o mesmo que acontece com as riquezas e que sobreveio àquela viúva. Ela, de fato, por ter dado dois óbolos, superou os que tinham dado mais porque se despojara de tudo o que tinha (Marcos 12, 42); igualmente, os que se dão com todas as forças e fazem o possível para solucionar uma questão, mesmo se nada obtiverem, obtêm a recompensa ligada a sua ação. (p.250)

Misericórdia de Deus

Ora, muitas vezes os homens suportam mal, apartam e repelem quem procura se queixar e chorar junto deles; Deus, porém, não age deste modo. Ao contrário, faz com que te aproximes e a si te atrai, e mesmo se passares o dia inteiro a expor-lhe tuas tribulações ficará ainda mais inclinado a amar-te e a atender as tuas súplicas. Justamente isso queria Cristo mostrar-nos aos proclamar: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso de vosso fardo e eu vos darei descanso”. (Mateus 11, 28)(p.103)

Providência de Deus

De fato, a providência de Deus é mais manifesta que o sol com seus raios e, em cada tempo e lugar, no deserto, nos países habitados e inóspitos, na terra e no mar, em qualquer lugar a que vás, perceberás a memória clara e suficiente, antiga e nova, desta providência…(p.122)

Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? E, se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem.(Mateus 7, 9-11) Com isso revela que, na medida em que a maldade difere da bondade, tanto a bondade de Deus supera a solicitude dos pais. (p.124)

A criação: Obra do Amor de Deus

1.Embelezou o céu não somente com astros; ornou-o ainda com o sol e a lua, ocasionando-te, conforme a oportunidade, ora grande prazer, ora enorme utilidade…Assim como o sol regula as horas do dia, a lua estabelece as da noite; (p.129-130)

2.E tudo isso por ti, ó homem! Com efeito, os ventos também foram criados por tua causa…eles refrescam os nossos corpos fatigados…Além disso, os ventos de outra forma são profícuos às águas, pois não permitem que se corrompam estagnadas, mas as agitam constantemente e ventilam; fazem-nas renovadas…(p.134)

3.Se queres examinar a própria noite, verás, nela também, a grande providência do criador. De fato, ela repousa teu corpo cansado, relaxa e distende os membros tensos pelos esforços diurnos, produz uma alteração e restitui-lhes, pelo repouso, vigor pleno. (p.134-135)

A cruz de Jesus é sinal de salvação

Foi pregado numa alta cruz, cuspiam-lhe, batiam-lhe com bastões, era esbofeteado, escarnecido, foi sepultado por caridade, e teve o túmulo selado. E tudo isso ele o suportou por ti com solícita bondade, a fim de:

1.Suprimir a tirania do pecado, destruir a cidadela do diabo, quebrar os laços da morte;

2. Abrir-nos as portas do céu,

3. Fazer desaparecer a maldição, apagar a primeira culpa;

4. Ensinar-te a paciência, treinar-te à resistência de modo que nenhum dos acontecimentos da vida presente te aflija, nem a morte, nem os insultos, nem as injurias, nem as zombarias, nem os açoites, nem as ciladas dos inimigos, nem as calúnias, nem os ataques, as denúncias, as suspeitas etc.

Viveu, também ele, no meio de tudo isso e o partilhou contigo, dominou-o de modo extraordinário, demonstrando e ensinando-te a não temeres nenhuma dessas provas. (p.140)

Apesar de ter visto o Cristo crucificado, flagelado, injuriado, sorvendo fel, coberto de escarros, escarnecido por todo esse povo, condenado por um tribunal, arrastado à morte, nada o escandalizou. Viu a cruz, os cravos fincados e a multidão corrupta a zombar dele; seguiu, contudo, o caminho reto, dizendo: “Lembra-te de mim em teu reino”. (Lucas 23, 42)…Os judeus, ao contrário, que o haviam visto operar milagres, que haviam aproveitado do ensino ministrado em palavras e atos, não somente não tiraram proveito, como foram arrastados ao mais profundo abismo para sua perda, tendo erguido a própria cruz. (p.170-171)

A Perseverança

Quanto mais forte a tempestade, maiores os prêmios, se for suportada com perseverança, ações de graças e a conveniente coragem como, na realidade, a suportais. (p.200)

O coração agradecido

Glória a Deus em tudo. Não cessarei de repeti-lo sempre em tudo o que me acontecer. (p.201)

Fonte: São João Crisóstomo. Coleção Patrística. Ed. Paulus.2007.

Sensibilidade para com os órfãos

Nada de mais doloroso para as crianças do que ficarem órfãos muito cedo, porque devido à idade nada podem por si mesmas, não tem verdadeiramente quem as proteja, e são muitos os que as atacam e lhes armam ciladas, quais ovelhas no meio de lobos que, vindos de todos os lados, as dilaceram e estraçalham. (p.238)

A paciência

Nada se iguala à paciência, mas que ela é, sobretudo, a rainha das virtudes, o fundamento das ações retas, o porto sem ondas, a paz no meio das guerras, o mar liso na tempestade, a segurança no meio das emboscadas;… (p.294)


Arquivos

Ano Sacerdotal

Campanha da Fraternidade 2010

Anúncios