Biografia dos Santos

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Vida de Santa Clara

Mulher admirável por seu nome, Clara de palavra e virtude, natural de Assis, de família muito preclara, foi concidadã dobem-aventurado Francisco na terra e,depois,foi reinar com ele na glória. O pai era militar, e a família era abastada e as riquezas, para o padrão local, copiosas.

Sua mãe Hortolana, que devia dar à luz a planta frutífera no jardim da Igreja, também era rica em não poucos bons frutos. Embora presa aos laços do matrimônio e aos cuidados familiares, entregava-se como podia ao serviço de Deu se a intensas práticas de piedade.
(…)
Para que vou dizer mais? A árvore se conhece pelo fruto e o fruto é recomendado pela árvore. Já houve abundância de dons divinos na raiz para que houvesse abundância de santidade no ramo pequeno. A mãe, grávida, próxima de dar a luz estava orando ao crucificado diante da cruz, na igreja, para passar saudavelmente aos perigos do parto, quando ouviu uma voz que dizia: “Não temas, mulher,porque, salva, vais dar ao mundo uma luz que vai deixara própria luz mais clara”. Instruída pelo oráculo, quis que a filhinha, ao renascer pelo sagrado batismo, se chamasse Clara, esperando que se cumprisse de algum modo pelo beneplácito da vontade divina, a claridade da luz prometida.(p.32).

Apenas dada à luz, a pequena Clara começou a brilhar com luminosidade muito precoce nas sombras do século e a resplandecer na tenra infância pelos bons costumes. De coração dócil, recebeu primeiro dos lábios da mãe os rudimentos da fé e, inspirando-a e formando-a interiormente o espírito, esse vaso, em verdade puríssimo, revelou-se vaso de graças.

Estendia a mão com prazer para os pobres e, da abundância de sua casa, supria a indigência de muitos. Para que o sacrifício fosse mais grato a Deus, privara seu próprio corpozinho dos alimentos mais delicados e, enviando-os às ocultas por intermediários, reanimava o estomago de seus protegidos. Assim, cresceu a misericórdia com ela desde a infância e tinha um coração compassivo, movido pela miséria dos infelizes.(p.33).

Afinal, querendo os seus que se casasse na nobreza, não concordou absolutamente. Fazia que adiava o matrimônio mortal e confiava sua virgindade ao Senhor.(p.33).

Quando ouviu falar do então famoso Francisco que, como homem novo, renovava com novas virtudes o caminho da perfeição, tão apagado no mundo, quis logo vê-lo e ouví-lo, movida pelo Pai dos espíritos, de quem um e outra, embora de modo diferente, tinham recebido os mesmos impulsos. Ele a visitou, e ela o fez mais vezes ainda, moderando a freqüência dos encontros para evitar que aquela busca divina fosse notada pelas pessoas e mal interpretada pelos boatos. (p.34)

O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora. Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez homem.(p.34).

Então, submeteu-se toda ao conselho de Francisco, tomando-o como condutor de seu caminho, depois de Deus. Por isso, sua alma,ficou pendente de suas santas exortações,e acolhia num coração caloroso tudo que ele lhe ensinava sobre o bom Jesus. Já tinha dificuldade para suportar a elegância dos enfeites mundanos e desprezava como lixo tudo que aplaudem lá fora, para poder ganhar a Cristo.(p.34).

E assim, abandonando o lar, a cidade e os familiares, correu a Santa Maria porciúncula, onde os frades, que diante do altar de Deus faziam uma santa vigília, receberam com tochas a virgem Clara. Nesse lugar, livrou-se logo da sujeira da Babilônia e deu ao mundo o libelo do repúdio: com os cabelos cortados pela mão dos frades, abandonou seus ornatos variados.(p.35).

Depois que a humilde serva recebeu as insígnias da santa penitência junto ao altar da bem-aventurada Maria, como se desposasse Cristo junto ao leito da Virgem, São Francisco levou-a logo para a igreja de São Paulo, para que ficasse lá até que o Altíssimo dispusesse outra coisa. (p.35).

Mal voou a seus familiares a notícia, e eles, com o coração dilacerado, reprovaram a ação e os projetos da moça. Juntaram-se e correram ao lugar para tentar conseguir o impossível. Recorreram à violência impetuosa, ao veneno dos conselhos, ao agrado das promessas, querendo convencê-la a sair da baixeza, indigna de sua linhagem e sem precedentes na região.

Mas ela segurou as toalhas do altar e mostrou a cabeça tonsurada, garantindo que jamais poderiam afastá-la do serviço de Cristo. A coragem cresceu com o combate dos parentes e o amor ferido pelas injúrias lhe deu forças. Seu ânimo não esmoreceu nem seu fervor esfriou, mesmo sofrendo obstáculos por muitos dias no caminho do Senhor e com a oposição dos familiares a seu propósito de santidade. Entre insultos e ódios, temperou sua decisão na esperança, até que os parentes derrotados se acalmaram. (p.36).

Poucos dias depois, foi para a igreja de Santo Ângelo de Panço, mas, não encontrando nesse lugar plena paz, mudou-se finalmente para a igreja de São Damião, a conselho do bem-aventurado Francisco. (p.36).

Pouco depois, já se espalhava a fama de santidade da virgem Clara pelas regiões vizinhas, e ao odor de seus perfumes correram mulheres de toda parte. A seu exemplo, aprestaram-se as virgens a guardar para Cristo o que eram. Casadas, trataram de viver mais castamente. Nobres e ilustres, abandonando vastos palácios, construíram mosteiros apertados e tiveram por grande honra viver, pelo amor de Cristo, em cinza e cilício. Até o entusiasmo dos rapazes foi animado para esses certames de pureza e instigado a desprezar os enganos da carne pelo valoroso exemplo do sexo mais fraco. Muitos, afinal, unidos pelo matrimônio, ligaram-se de comum acordo pela lei da continência, e foram os homens para as ordens e as mulheres para os mosteiros. A mãe convidava a filha para Cristo, a filha a mãe; a irmã atraía as irmãs e a tia as sobrinhas. Todas com fervorosa emulação desejam servir a Cristo. Todas queriam uma parte nessa vida angélica que Clara fez brilhar. (p.37)

Numerosas virgens, movidas pela fama de Clara, já procuravam viver regularmente na casa paterna, mesmo sem regra, enquanto não podiam abraçar a vida do claustro. Eram tais esses frutos de salvação dados à luz pela virgem Clara com seus exemplos, que nela parecia cumprir-se o dito profético: a abandonada tem mais filhos que a casada. (p.37).

Custava-lhe dar uma ordem, mas estava pronta a fazer por si. Preferia fazer ela mesma a mandar as Irmãs. Lavava pessoalmente as cadeiras das doentes e as enxugava com seu espírito nobre, sem fugir à sujeira sem ter medo do mau cheiro.(p.38).

Com freqüência lavava e beijava os pés das serviçais quando voltavam de fora. Uma vez, estava lavando os pés de uma delas e, quando foi beijá-los, a Irmã não suportou tanta humildade, puxou o pé e de repente e bateu com ele no rosto de sua senhora. Esta voltou a tomar o pé da serviçal com ternura e lhe deu um beijo apertado sob a planta.(p.38).

“Clara foi uma mulher extremamente carinhosa. E nunca escondeu isso. Viveu-o como um dom de Deus que ela foi deixando amadurecer. Por isso, soube expressar com naturalidade de seu afeto por Inês de Praga: “Clara…a sua irmã Inês, a mais amável de todos os mortais, (3ª Carta a Inês de Praga)…À outra metade da minha alma, singular sacrário do meu cordial amor…esposa do Cordeiro, Rei eterno, dona Inês, minha caríssima mãe e filha, especial entre todas as outras(4ª Carta a Inês de Praga)…Ó mãe e filha…embora eu não tenha escrito mais, como a minha alma e a sua igualmente desejam e de certa forma até necessitariam, não estranhe nem pense que o fogo do amor está ardendo menos no coração de sua mãe(4ª Carta a Inês de Praga).” (p.9)

Posta nessa contemplação, lembre-se de sua mãe pobrezinha, sabendo que eu gravei sua feliz recordação de maneira indelével no meu coração, porque você, para mim, é a mais querida de todas. Que mais? No amor por você, cale-se a língua de carne. Falou a língua do espírito, deixe-a falar. Filha bendita, como a língua do corpo não pode expressar melhor o afeto que tenho por você, peço que aceite com bondade e devoção isto que ela falou e eu escrevi pela metade, olhando ao menos o carinho materno que me fez arder e de caridade todos os dias por você e suas filhas(4ª Carta a Inês de Praga).” (p.9) Santa Clara.(P.9)

Seu carinho com as pessoas mais próximas tem o justo equivalente em sua maneira de tratar as outras pessoas. As testemunhas do Processo de Canonização(quinze Irmãs e cinco leigos) contam casos numerosos em que ela lava os pés das Irmãs que voltam de viagem, serve a água para que lavem as mãos, cuida da higiene das doentes, cura com o sinal da cruz as irmãs enfermas e também quem aparece na portaria, pensa em atenções especiais para com as jovens demais ou as mais idosas, levanta-se primeiro à meia-noite para acender as luzes, acorda com suavidade as que não ouviram o sinal, cobre com cuidado materno as que sofrem mais com mais frio, é sempre a primeira a fazer os trabalhos. Fia, tece e costura, mesmo quando está doente. Interessa-se até pelo reencontro de um casal separado na cidade. (p.9-10).

Mas tudo isso é comprovado em seus escritos, em que é sempre respeitosa, fina, jamais agressiva em nenhuma situação. E isso fica patente especialmente em situações mais duras que teve que enfrentar, como, por exemplo, quando soube que Inês de Praga tinha sofrido pressões do papa para receber propriedades. Escreveu-lhe:

“Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-la desse propósito, que seja tropeço no caminho, para não cumprir seus votos ao Altíssimo na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou. Nisso, para ir com mais segurança pelo caminho dos mandamentos do Senhor, siga o conselho de nosso venerável pai, o nosso Frei Elias, ministro geral Prefira-os aos conselhos dos outros e tenha-o como o mais precioso dom. Se alguém lhe disser outra coisa, ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o teu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre. (2ª Carta a Inês de Praga).” (p.10) Santa Clara.

Em outra ocasião mostrou essa firmeza delicada quando lhe tiraram os irmãos que ajudavam a sua comunidade:

“Uma vez, o papa Gregório proibiu qualquer frade de ir sem sua licença aos mosteiros das senhoras. A piedosa madre, doendo-se porque ia ser mais raro para as Irmãs o manjar da doutrina sagrada, gemeu: “Tire-nos também os outros frades, já que nos privou dos que davam o alimento de vida”. E devolveu ao ministro na mesma hora todos os irmãos, pois não queria esmoleres para buscar o pão do corpo se já não tinha esmoleres para o pão do espírito. Quando soube disso, o papa Gregório deixou imediatamente a proibição nas mãos do ministro geral”(Legenda de Santa Clara).(p.10)

(…)A mesma coragem e desassombro foram mostrados diante de soldados inimigos, quando a cidade de Assis foi cercada duas vezes pelos exércitos de Frederico II, e em uma vez até o seu mosteiro foi invadido pelos sarracenos. Ela estava doente, mas acalmou as Irmãs assustadas dizendo:

“Irmãs e filhas minhas, não fiquem com medo, porque o Senhor as defenderá. E eu quero ser a sua garantia. Se os inimigos chegarem até o mosteiro, coloquem-me diante deles”(Processo de Canonização.IV, 14).(p.10).

Sua coragem vinha de dentro. Alegre e serena, na sua companhia constante do Cristo pobre, conversa com carinho até com sua própria alma, quando tem que enfrentar a morte: “Vá em paz, porque você vai ter uma boa escolta; pois aquele que a criou, previa a sua santificação. E, depois que a criou, infundiu em você o Espírito Santo. E depois, a guardou como uma mãe cuida de seu filho pequenino.”(Processo de Canonização. XI, 3).(p.11).

Vamos tentar resumir aqui os principais pontos de sua doutrina espiritual, como encontramos em seus escritos: Os esponsais com Cristo, a experiência do crucificado, a pobreza, a contemplação, a idéia muito pessoal do espelho, a penitência equilibrada, o louvor ao Criador. (p.12).

A experiência do Crucificado é tão importante para Clara quanto para Francisco. Ela não ouviu o crucifixo de São Damião nem viveu a experiência do Alverne, mas teve outra própria, em que passou vinte e quatro horas absorta na contemplação da Paixão.(p.13).

A alegria com que se entrega à penitência mostra que ela vê as coisas bem diferente do que nós vemos: ela não faz ‘sacrifícios’; é o seu corpo que quer louvar com alegria ao Senhor por todas as suas graças.(…)Mas já amadurecida, interrogada por Inês de Praga, sabe aconselhar a moderação:

“Entretanto, como não temos carne de bronze nem a robustez de uma rocha, pois até somos frágeis e inclinadas a toda debilidade corporal, rogo e suplico no Senhor, querida, que deixe, com sabedoria e discrição, essa austeridade exagerada e impossível que eu soube que você empreendeu, para que, vivendo, sua vida seja louvor do Senhor e para que preste a seu Senhor um culto racional e seu sacrifício seja sempre temperado com sal(3ª Carta a Inês de Praga).”

Como a de Francisco, a vida de Clara é uma explosão de louvor a Deus. Todos os seus escritos transbordam dessa alegria de quem vive descobrindo a presença do Amor em tudo, mas, para guardar, acho muito interessante recordar um testemunho da Irmã Angelúcia, no Processo de Canonização:

“Também disse que, quando a santíssima mãe ensinava as Irmãs servidoras fora do mosteiro, exortava-as a que, vendo as árvores bonitas, floridas e frondosas, louvassem a Deus; e semelhantemente quando vissem os homens e as outras criaturas, sempre louvassem a Deus por todas e em todas as coisas.”( Processo de Canonização XIII, 9).(p.14).

2ª Carta à Inês de Praga:

“Clara, serva inútil e indigna das pobres damas, saúda dona Inês, filha do Rei dos reis, serva do Senhor dos senhores, esposa digníssima de Jesus Cristo e por isso rainha nobilíssima, augurando que viva sempre na mais alta pobreza. (2ª Carta a Inês de Praga).”(p.15).

Santa Clara ajudou São Francisco quando estava doente. São Francisco é presenteado por Deus.

Mas quando São Francisco foi para São Damião, ficou tão gravemente mal dos olhos que nem podia ver a luz. Por isso, Santa Clara fez para ele uma pequena cela de juncos para São Francisco morar mais reservadamente, e ele aí ficou cinqüenta dias numa dor tão grande dos olhos e atormentado por uma multidão de ratos que o demônio excitou, que não conseguiu descansar nem de dia nem de noite. Reconhecendo o flagelo do Senhor, São Francisco começou a dar graças a Deus e a louvá-lo de todo coração e com a boca, clamando do mais profundo de sua interioridade que era digno daquelas enfermidades e angústias a te de muito maiores. E ao mesmo tempo rogava, dizendo: “Senhor Jesus Cristo, bom pastor, que por nós indignos ofereceste tua digníssima misericórdia em duras angústias, concede a mim, teu cordeirinho, a graça e a virtude, para que não me afaste de ti em nenhuma tribulação, angústia ou dor.”

Estava dizendo isso quando se fez ouvir do céu a voz de Deus que falava: “Francisco, responde-me: se toda a terra fosse de ouro e todos os mares e rios fossem de bálsamo, se todos os montes, colinas e rochas fosse pedras preciosas; e tu encontrastes um outro tesouro tão mais nobre do que isso quanto o ouro é mais nobre do que a terra e o bálsamo do que a água, e as pedras preciosas mais que as montanhas e as rochas, e te fosse dado no lugar desta tua doença esse tesouro tão mais caro, será que não te deverias alegrar muito? São Francisco respondeu: “Senhor, não sou digno desse tesouro tão precioso”. Mas o Senhor lhe disse: “Alegra-te agora, Frei Francisco, porque esse é o tesouro da vida eterna, que eu preparei e de agora em diante te entrego. Essa enfermidade e aflição são a garantia do tesouro bem-aventurado.”.(p.27-28)

Então São Francisco, tendo ficado muito alegre, chamou o companheiro e disse:Vamos para o senhor cardeal”. Primeiro consolou Santa Clara com palavras melífluas e divinas, despediu-se humildemente dela como costumava e partiu para Rieti.”(p.28).
Como Santa Clara marcou os pães milagrosamente com a cruz

Santa Clara, devotíssima discípula da cruz e preciosa plantinha do bem-aventudado Francisco, era de tamanha santidade que, não só bispo e cardeais, mas também o sumo pontífice desejava vê-la e ouví-la afetuosamente e a visitava muitas vezes. Pois uma vez, o papa foi ao mosteiro de Santa Clara, para ouvir dela que era um sacrário do Espírito Santo, os colóquios celestes e divinos. Tendo os dois falado longamente sobre a salvação da alma e o louvor divino, Santa Clara fez que nesse meio tempo preparassem pães para todas as Irmãs nas mesas,pensando em deixá-los para serem benzidos pelo vigário de Cristo.

Então, no fim da conversa santíssima, Santa Clara ajoelhou-se com grande reverência e rogou ao sumo pontífice que se dignasse abençoar os pães colocados nas mesas. Mas o para respondeu:”Irmã Clara fidelíssima, quero que tu abençoes estes pães e faças sobre eles a cruz do Cristo bendito, a quem te ofereceste inteira em um sacrifício do fundo do coração.” Ela disse: “Pai santíssimo, poupe-me, eu mereceria a maior repreensão se, diante do vigário de Cristo, eu, que sou vil mulherzinha, tivesse a presunção de dar essa benção.” Mas o papa respondeu: “Para que tenhas mérito, além de não merecer a repreensão, ordeno pela santa obediência que faça um sinal da cruz sobre estes pães e os abençoe no nome do Senhor.

Ela, como verdadeira filha da obediência, abençoou com toda devoção os pães, fazendo sobre eles o sinal da cruz belíssimo! Muitos deles foram comidos com a maior devoção e muitos guardados para a posteridade por causa do milagre. Além disso, o papa, muito admirado com a cruz virtuosa feita pela esposa de Cristo, primeiro deu graças a Deus e depois abençoou consoladoramente a bem aventurada Clara.

Moravam nesse mosteiro a Irmã Hortolana, mãe de Santa Clara,e a Irmã Inês, sua irmã. Todas cheias do Espírito Santo,com muitas outras religiosas e esposas de Cristo, às quais São Francisco mandava muitos doentes, uma vez para uma, outra vez para outra delas, para fazerem sobre eles o sinal da cruz. Pela virtude da cruz de Cristo, que veneravam de todo coração, alcançavam o remédio da saúde para todos os que assinalavam. Para louvor e glória de nosso Senhor Jesus Cristo, que é bendito pelos séculos. Amém.(p.28).

Como, na noite de Natal Santa Clara foi levada para a igreja de São Francisco

Quando a devotíssima esposa de Cristo, Clara de fato e Clara de nome, morava em São Damião gravemente enferma, não podia irá igreja rezar as horas canônicas com as outras. Chegou a solenidade do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo bendito,em cujas Matinas as Irmãs costumavam comparecer,comungando devotamente na Missa do Natal. Foram todas à solenidade, e Clara ficou sozinha no lugar, oprimida pela enfermidade, mas com não pequena desolação, por não poder tomar parte em tão devota solenidade.

Mas o Senhor Jesus Cristo, não querendo que essa sua esposa fidelíssima ficasse desolada, fez com que ela estivesse presente em espírito na igreja de São Francisco, tanto nas Matinas quanto na missa e em toda solenidade festiva, de modo que ouviu amplamente tanto o canto dos frades quanto o órgão até o fim da missa e, o que é mais, recebeu a sagrada comunhão e ficou muito consolada.

Acabado o Ofício em São Damião quando as Irmãs voltaram a Santa Clara, disseram: “Querida dona Clara, que consolação enorme tivemos neste Natal do Senhor Salvador! Que bom se tivesses podido estar conosco! Ela respondeu: “Dou graças ao meu Senhor Jesus Cristo, bendito, minhas irmãs e filhas caríssimas,porque assisti a todas as solenidades desta noite, maiores e mais devotas do que vós, e fiquei consolada. Porque, por obra de meu Senhor Jesus Cristo e intercessão de meu pai Francisco e ouvi todos os cantos e o órgão com os meus ouvidos corporais e mentais. E ainda recebi lá a sagrada comunhão. (p.28-29)

Tinha corrido quarenta anos no estádio da altíssima pobreza e já chegavam muitas dores, precedendo o prêmio do chamado eterno. O vigor de corpo, castigado nos primeiros anos pela austeridade da penitência, foi vencido ao final por dura enfermidade, para enriquecê-la doente, com o mérito das obras. A virtude aperfeiçoa-se na enfermidade. Vemos a que ponto acrisolou-se na doença sua virtude maravilhosa principalmente porque, em vinte e oito anos de contínua dor, não se ouviu murmuração nem queixa. De seus lábios brotavam sempre santas palavras, uma ação de graças contínua.(p.49).

No dia seguinte a São Lourenço, aquela alma muito santa foi receber o prêmio eterno:dissolveu-se o templo da carne, e o espírito foi feliz para o céu. Bendita saída do vale da miséria, que para ela foi entrada na vida bem-aventurada. Em vez de pouco que comia, já se alegra na mesa dos cidadãos do céu; em vez das pobres cinzas, está feliz no reino celeste, ornada de glória eterna.(p.52).

Poucos dias depois, Inês, chamada às bodas do Cordeiro, seguiu a irmã Clara nas eternas delícias. Lá as duas filhas de Sião, irmãs na natureza, na graça e no reino, rejubilam-se em Deus sem fim.(p.54).

Milagre da multiplicação do pão

Havia no mosteiro um só pão e já apertavam a fome e a hora de comer. A santa chamou a dispenseira e mandou cortar o pão, enviando uma parte para os frades e deixando a outra em casa para as Irmãs.Dessa metade,mandou tirar cinqüenta fatias,de acordo como número de senhoras, para servi-las na mesa da pobreza. A devota filha respondeu que iam ser necessários os antigos milagres de Cristo para que tão pouco pão desse cinqüenta fatias, mas a mãe a contestou dizendo: “Filha, faça com confiança o que falei”. Apressou-se a filha a cumprir o mandato da mãe, que foi dirigir a se Cristo piedosos suspiros em favor das filhas. O pedaço pequeno cresceu por graça de Deus nas mãos da comunidade pôde receber uma bela porção. (p.39)

Oração e perseguição

Chorava, uma vez, na noite profunda quando apareceu o anjo das trevas na figura de um menino negro, dizendo-lhe: “Não chore tanto, que vai ficar cega”. Respondeu na hora: “Quem vai ver Deus não será cego”. Confuso, ele foi embora. Na mesma noite, depois de Matinas, Clara rezava banhada em pranto como de costume,e chegou o conselheiro enganoso: Não chore tanto. O cérebro vai acabar derretendo e saindo pelo nariz, deixando-o torto. Ela respondeu: “Quem serve ao Senhor não sofre nenhum entortamento”.(p.41).

Durante a tormenta que a Igreja sofreu em diversas partes do mundo sob o Imperador Frederico, o vale de Espoleto teve que beber muitas vezes o cálice da ira. Por ordem do Imperador, aí se estabeleceram, como enxames de abelhas, esquadrões de cavalaria e arqueiros sarracenos, despovoando castelos e aniquilando cidades. Quando o furor do inimigo se dirigiu uma vez contra Assis, cidade predileta do Senhor, o exército já estava chegando perto das portas, e os sarracenos, gente péssima, sedenta de sangue cristão e desavergonhadamente capaz de qualquer crime, entraram no terreno de São Damião e chegaram até dentro do próprio claustro das Irmãs. O coração das senhoras derretia-se de terror.

Tremendo para falar, levaram seus prantos à madre. Corajosa, ela mandou que a levassem, doente, para a porta, diante3 dos inimigos, colocando à sua frente uma caixinha de prata revestida de marfim, ode guardavam com suma devoção o Corpo do Santo dos Santos. Toda prostrada em oração ao Senhor, disse a Cristo entre lágrimas: “Meu Senhor, será que quereis entregar inermes nas mãos dos pagãos as vossas servas, que criei no vosso amor? Guardai Senhor, vos rogo, estas vossas servas a quem não posso defender neste transe”. Logo soou em seus ouvidos, do propiciatório da nova graça, uma voz de menininho:”Eu sempre vos defenderei. Ela disse: “Meu Senhor, protegei também, se vos apraz, a cidade que nos sustenta por vosso amor.” E Cristo: “Suportará padecimentos, mas será defendida por minha força.” Então a virgem ergueu o rosto em lágrimas, confortando as que choravam: “Garanto, filhinhas que não vão sofrer mal nenhum. É só confiar em Cristo.” Não demorou. De repente, a audácia daqueles cães se retraiu e assustou. Saíram rápidos pelos muros que tinham pulado, derrotados pela força da oração.(p.42).

Libertação da cidade

Em outra ocasião, Vital de Aversa, homem cobiçoso de glória e intrépido nas batalhas, moveu contra Assis o exército imperial, que comandava. Despiu a terra de suas árvores, assolou todos os arredores e acabou pondo cerco à cidade. Declarou ameaçadoramente que de nenhum modo se retiraria, enquanto não a tivesse tomado. De fato, já havia chegado o ponto em que se temia a queda iminente da cidade. Quando Clara, a serva de Cristo, soube disso, suspirou veementemente, chamou as Irmãs e disse: “Filhas queridas, recebemos todos os dias muitos bens desta cidade. Seria muita ingratidão se, na hora em que precisa, não a socorrêssemos como podemos.” Mandou trazer cinza, disse às Irmãs que descobrissem a cabeça. E, primeiro espalhou muita cinza sobre a cabeça nua. Colocou-a depois também sobre a cabeça delas. Então disse: Vão suplicar a nosso Senhor com todo coração a libertação da cidade.

(…)Na manha seguinte, Deus misericordioso deu a saída para o perigo: o exército debandou e o soberbo, contra os planos, foi embora e nunca mais oprimiu aquelas terras. Pouco depois o comandante guerreiro foi morto a espada.(p.43).

A força da oração de Clara converte sua irmã Inês

De fato, não devemos sepultar no silêncio a eficácia admirável de sua oração que, ainda no começo de sua consagração, converteu uma alma para Deus, e a protegeu. Tinha uma irmã jovem, irmã na carne e na pureza. Desejando sua conversão, nas primeiras preces que oferecia a Deus com todo afeto, insistia nisso: que, assim como no mundo tinha tido com a irmã conformidade de sentimentos, assim agora se unissem, ambas, para os serviço de Deus em uma só vontade.

Pedia insistentemente ao Pai da misericórdia que o mundo perdesse o gosto e que Deus fosse doce para Inês, a irmã deixada em casa, mudando-a da perspectiva de um casamento humano para a união de seu amor, desposando com ela, em virgindade perpétua, o Esposo da glória. Um afeto admirável tomara conta das duas e, embora por diferentes razões, tinha ornado dolorosa para ambas a recente separação. A divina Majestade atendeu depressa a excepcional orante e lhe concedeu imediatamente aquele primeiro dom,pedindo mais que tudo e que mais agradava a Deus regalar.

Assim, dezesseis dias depois da conversão de Clara, Inês, levada pelo Espírito divino, correu para a irmã e, contando seu segredo, disseque queria servir só ao Senhor. Ela a abraçou toda feliz e exclamou: Dou graças a Deu, dulcíssima irmã, porque abriu os ouvidos à minha solicitude por você”.(p.43)

Familiares perseguem e maltratam Inês

Sabendo que Inês tinha ido para junto de Clara, correram no dia seguinte ao lugar doze homens e, dissimulando a malvadeza por fora, apresentaram-separa uma visita de paz. Logo, voltando-se para Inês, pois de Clara já antes tinham perdido a esperança, disseram: “Porque veio a este lugar?Volte quanto antes para casa conosco”. Quando ela respondeu que não queria separar-se de sua irmã Clara, lançou-se sobre ela um cavaleiro enfurecido e, a socos e pontapés, queria arrastá-la pelos cabelos, enquanto os outros a empurravam e levantavam nos braços. Diante disso, a jovem, vendo-se arrancada das mãos do Senhor, como presa de leões, gritou: “Ajuda-me, irmã querida, não deixe que me separem de Cristo Senhor.”

Os violentos atacantes arrastaram a jovem renitente pela ladeira, rasgando a roupa e enchendo o caminho de cabelos arrancados. Clara prostou-se numa oração em lágrimas, pedindo que a irmã mantivesse a constância e suplicando que a força daqueles homens fosse superada pelo poder de Deus.

De repente, o corpo dela, caído por terra, pareceu fincar-se com tanto peso que, mesmo diversos homens, juntando as forças, não conseguiram de modo algum levá-lo para além de um riacho. Acorreram também alguns dos campos e vinhas para ajudá-los, mas não puderam levantar do chão aquele corpo. Tiveram que desistir do esforço e exaltaram o milagre comentando em brincadeira: “passou a noite comendo chumbo, não é de se admirar que esteja pesada”.

O próprio senhor Monaldo, seu tio paterno, que, tomado por tanta raiva, tenteou dar-lhe um soco mortal, sentiu de repente que uma dor atroz invadia a mão levantada e o atormentou angustiosamente por muito tempo. Então, depois da longa batalha, Clara foi até lá, pediu aos parentes que desistissem da luta e deixassem a seus cuidados Inês, que jazia meio morta. Quando eles se retiraram, amargados pelo fracasso da empresa, Inês levantou-se jubilosa e, já gozando da cruz de cristo, por quem travara essa primeira batalha, consagrou-se para sempre ao serviço divino. Então o bem-aventurado Francisco a tonsurou com suas próprias mãos e, junto com sua irmã, instruiu-a nos caminhos do Senhor.(p.43-44).

Outro milagre: expulsão de demônios

Não é de se admirar que a oração de Clara tivesse poder contra a maldade dos homens, se fazia arder até os demônios. Aconteceu que uma devota, da diocese de Pisa, veio uma vez ao lugar para agradecer a Deus e a Santa Clara porque, por seus méritos, fora libertada de cinco demônios. Na hora da expulsão, os demônios confessaram que a oração de Santa Clara os queimava e os desalojava daquele vaso de sua posse.

Devoção admirável ao sacramento do altar

Quão grande foi o devoto amor de Clara pelo Sacramento do altar demonstram-no os fatos. Durante a grave doença que a prendeu à cama, fazia-se erguer e sustentar colocando apoios. Assim, sentada, fiava panos finíssimos, com os quais fez mais de cinqüenta jogos de corporais que, colocados dentro de bolsas de seda ou de púrpura, destinava a diversas igrejas do vale e das montanhas de Assis. Ao receber o Corpo do Senhor, lavava-se antes em lágrimas ardentes e, acercando-se a tremer, não o temia menos escondido no sacramento que regendo céu e terra.(p.45).

Diversos milagres que fazia com o sinal e a virtude da santa Cruz

O Crucifixo amado correspondeu à amante que, acesa em tão grande amor pelo mistério da cruz, foi distinguida com sinais e milagres pelo seu poder. Quando fazia o sinal da cruz vivificante sobre os enfermos, afastava milagrosamente as doenças. Vou contar alguns casos, entre tantos.

São Francisco mandou à dona Clara um frade enlouquecido, chamado Estevão,para que traçasse sobre ele o sinal da cruz santíssima, pois conhecia sua grande perfeição e venerava sua grande virtude. A filha da obediência fez a sobre ele o sinal, por ordem do pai, e deixou-o dormir um pouquinho, no lugar onde ela mesma costumava rezar. E ele, livre do nosso daí a pouco, levantou-se curado e voltou ao pai, liberto da loucura.

Mateusinho, um menino de três anos da cidade de Espoleto, tinha enfiado uma pedrinha na narina. Ninguém conseguia tirá-la do nariz do menino, nem ele podia expeli-la. Em perigo e com enorme angústia, foi levado a dona Clara e, quando foi marcado por ela com o sinal da cruz soltou de repente da pedra e ficou livre. Outro menino, de perusa, tinha o olho velado por uma mancha e foi levado.A santa serva de Deus. Ela tocou o olho da criança,marcou-a com o sinal da cruz e disse: Levem-no a minha mãe para fazer nele outro sinal da cruz. Sua mãe dona Hortolana seguira a plantinha, entrara na Ordem depois da filha e, viúva, servia ao Senhor no jardim fechado com as virgens. Ao receber dela o sinal da cruz, o olho do menino se livrou da a mancha, e ele viu clara e distintamente. Clara disse que o menino tinha sido curado por mérito da sua mãe; a mãe deixou em favor da filha o crédito do louvor,dizendo-se indigna de coisa tão grande.(p.47).

Oração do pai pedindo a intercessão de Santa Clara cura do filho

“Oh, virgem santíssima! Oh, Clara, venerada pelo mundo, eu te ofereço meu pobre filho, e te imploro na maior súplica que o cures”.(p.54)

Santidade de Santa Clara – Testemunho de Irmã Beatriz

“Quando se perguntou em que consistia a santidade de dona Clara, respondeu que era na virgindade, na humildade, na paciência e benignidade, na oportuna correção, nas suaves admoestações às Irmãs, na assiduidade da oração e contemplação, na abstinência e jejuns, na aspereza da cama e das roupas,no desprezo de si mesma, no fervor do amor de Deus, no desejo do martírio. E máxime no amor pelo Privilégio da Pobreza.

Biobliografia: Fontes Clarianas. 3. ed.


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