Biografia dos Santos

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Biografia de São Estanislau de Jesus Maria

ESTANISLAU DE JESUS E MARIA (JOÃO PAPCZYNSKI)
 (1631-1701)

Aos 18 de maio de 1631 nascia João Papczynski (seu nome de batismo) em Podegrodzie, no sul da República Polonesa, então um dos maiores estados da Europa pela sua área de quase 1 milhão de quilômetros quadrados. Seu pai, Tomás, era camponês e um apreciado ferreiro. Durante alguns anos foi prefeito da aldeia e cuidava da igreja em Podegrodzie. Sua mãe, da família Tacikowski, era uma mulher piedosa e ativa. Não pouparam esforços em proporcionar uma sólida formação ao filho.

João freqüentou colégios dos piaristas e jesuítas com grandes dificuldades, seja por causa de problemas nos seus estudos, seja em razão de guerras e epidemias no país. Tais interrupções eram preenchidas com o trabalho na propriedade do pai. Mais tarde, no seu escrito Secreta conscientiae, renderia graças a Deus por lhe haver preservado “a consciência pura e santa” neste período. Cresceram nele outrossim a generosidade, a têmpera de espírito e o talento de educador da juventude.

Após concluir a retórica e os dois anos do curso de filosofia no colégio jesuíta em Rawa Mazowiecka, João ingressa na Ordem das Escolas Pias (1654), que havia conhecido 5 anos antes. Contrariava o natural desejo de sua família para que se casasse. Anos depois confessaria: “É muito difícil expressar o quanto eu apreciava a minha vocação, que apenas o próprio Deus em mim despertara”. As Escolas Pias combinavam a espiritualidade mariana com a dedicação à juventude, pelo que João se lhe sente atraído. No Noviciado recebe o nome religioso de Estanislau de Jesus e Maria. Devido aos seus progressos na vida religiosa, já no segundo ano é encaminhado para estudar teologia em Varsóvia, professando aí os votos religiosos (1656).

Tendo recebido dias depois as ordens menores e o subdiaconado, Estanislau e seus coirmãos foram obrigados a abandonar o convento, pois nos arredores de Varsóvia se havia desencadeado uma batalha com os exércitos suecos. Eles fugiram então para Rzeszów, mas logo tiveram de se afastar também dali, porquanto se aproximavam os exércitos de Rakoczy, aliado da Suécia que atacou pelo sul da Polônia. Refugiaram-se em Podoliniec, onde no início de 1658 foi confiado ao irmão Estanislau o ensino da retórica no colégio local. Transferido dois anos depois para Rzeszów, recebeu a mesma incumbência no colégio recém-inaugurado. No dia 12 de março de 1661 foi ordenado sacerdote por D. Estanislau Samowski, bispo de Przemysl. Após atuar por três anos como mestre de retórica em Rzeszów, foi transferido para Varsóvia.

Após sua ordenação, padre Estanislau se envolveu com todo o zelo na atividade pastoral, procurando conciliá-la com outras incumbências de sua comunidade religiosa. Assim, por exemplo, para atender às necessidades dos alunos, redigiu e publicou o Prodromus reginae artium, um manual de retórica que teria várias edições. Procurava apresentar à juventude não apenas a forma de “pronunciar belas palavras”, mas também orientações para uma “vida de bondade e nobreza”, a fim de que, “com o passar dos anos, com a conquista da sabedoria e de todo gênero de virtudes, os educandos se tornem um dia um verdadeiro adorno da sua família, um verdadeiro adorno da República”. Dadas as situações da sociedade de seu tempo, Estanislau criticava em seus escritos as desigualdades sociais e a corrupção política. A nobreza se lhe opõe ferozmente, eliminando tais referências do seu livro.

Desde 1663 o padre Papczynski já se havia tornado famoso em Varsóvia não apenas como professor de retórica, mas igualmente como mestre de vida espiritual (pregador e confessor).

Alguns dos seus sermões foram publicados no Orator crucifixus (1670), em forma de meditações sobre as últimas sete palavras de Cristo. Entre os seus penitentes estavam, por exemplo, o núncio apostólico Antonio Pignatelli (futuro Papa Inocêncio XII) e o senador João Sobieski (futuro rei polonês). Foi também um incansável propagador do culto da imaculada conceição de Maria, tendo organizado uma irmandade em sua honra em Varsóvia.

Apesar das inúmeras ocupações, Estanislau era sempre dedicado à vida religiosa do seu instituto. Boa parte dos seus coirmãos reconhecia a sua sincera busca da santidade evangélica, particularmente através da oração e ascese. Exerceu as tarefas de prefeito do colégio, de auxiliar na beatificação de José Calasanz, de representante no capítulo provincial. Ao mesmo tempo, intensificavam-se as controvérsias. Movido pelo espírito do fundador, o padre Estanislau defendia zelosamente a observância religiosa e o direito de eleição dos superiores provinciais. Começa a ser acusado de desordem e revolta. Ele chama este período de “longo martírio”. Busca força e apoio na cruz de Cristo, o que daria origem ao livro Christus patiens, uma série de reflexões sobre a paixão do Senhor. Em vista do bem maior, pediu em 1669 a autorização para deixar a Ordem das Escolas Pias, o que foi confirmado pelo breve apostólico de 11 de dezembro de 1670.

Ao receber o indulto de saída em Kazimierz (arredores de Cracóvia), inesperadamente o padre Estanislau leu diante de todos a sua Oblatio, um ato previamente preparado de total entrega a Deus e à Imaculada, anunciando seu propósito de fundar a “Sociedade dos Padres Marianos da Imaculada Conceição” e expressando sua fé neste mistério através do “voto de sangue”, ou seja a disposição de defendê-lo mesmo com a vida. Mais tarde confessaria que a Oblatio era fruto de uma inspiração divina e que a nova ordem “havia sido moldada em [seu] espírito pelo Espírito Divino”.

Depois de rejeitar convites de outras ordens religiosas e benefícios oferecidos por alguns bispos, fixou residência na diocese de Póznan com o apoio de D. Estêvão Wierzbowski, vestindo o hábito branco em honra da Imaculada Conceição (1671). Neste ínterim preparou a regra da nova comunidade (Norma vitae). A fim de dar início ao seu instituto, dirigiu-se a uma pequena comunidade de eremitas em Puszcza Korabiewska e lhes apresentou a sua nova proposta. Os “eremitas marianos” obtiveram a aprovação eclesiástica no dia 24 de outubro de 1673, através de um decreto do bispo Estanislau Swiecicki.

O padre Estanislau se dedicará com todos os esforços para que a nova comunidade possa crescer e ser reconhecida pela Santa Sé, o que se daria em 1699 Inocêncio XII aprovava a última ordem do clero regular da história da Igreja. Diversas circunstâncias conduzirão o padre Estanislau a incluir como elementos do carisma da nova ordem religiosa o sufrágio pelos fiéis defuntos e o auxílio pastoral à Igreja local além da propagação do culto à Imaculada Conceição, pelo que muitas vezes exclamava: Immaculata Virginis Conceptio sit nobis salus et protectio.

Preocupado com a santificação dos fiéis, escreveu-lhes em 1675 a obra ascético-mística Templum Dei mysticum. Deixaria ainda uma série de meditações para a Santa Missa intituladas Inspectio cordis.

Consciente de haver cumprido a sua missão, falece a 17 de setembro de 1701 no convento de Góra Kalwaria, pronunciando estas palavras: “Em Vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito”, tendo abençoado antes os seus coirmãos, estimulando-os à observância da regra e expressando o ardente desejo da união com Cristo. Várias dificuldades sobrevirão à nova Ordem após a sua morte, o que dificultaria inclusive a abertura do seu processo de beatificação. Finalmente, em 1992 a Congregação para as Causas dos Santos reconhece a heroicidade das virtudes do padre Papczynski e em 2006 um milagre por sua intercessão.

Hoje a Congregação dos Padres Marianos renovada em 1909 pelo bem-aventurado Bispo Jorge Matulaitis conta com mais de 500 membros em 18 países de todos os continentes.

HOMILIA DO CARDEAL TARCISIO BERTONE
NA SOLENE CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA
PARA A BEATIFICAÇÃO
DE ESTANISLAU DE JESUS MARIA (1631-1701)

Domingo, 16 de Setembro de 2007

Senhores Cardeais
Venerados Irmãos
Bispos e Sacerdotes
Ilustres Autoridades civis e militares
Queridos membros da Família religiosa fundada pelo novo Beato
Queridos irmãos e irmãs!

Antes de tudo agradeço ao Senhor porque me ofereceu, pela segunda vez, a feliz oportunidade de visitar, no espaço de poucos meses, a vossa querida Pátria, a Pátria do Beato Estanislau Papczynski e do Servo de Deus João Paulo II, que todos o esperamos possa dentro em breve ser também ele elevado à glória dos altares. Agradeço também ao Senhor porque precisamente neste santuário, onde ontem à noite nos encontrámos para a liturgia das Vésperas, hoje posso presidir à solene celebração eucarística durante a qual, em nome de Sua Santidade Bento XVI, tive a honra de proclamar Beato o Padre Estanislau Papczynski. Significativo e também comovedor é que tudo isto se realize neste famoso santuário de Nossa Senhora de Lichen, onde há muitos anos os Padres e os Irmãos Marianos, filhos espirituais do novo Beato, desempenham o seu ministério pastoral, seguindo fielmente o carisma do seu Fundador.

Com estes sentimentos de profunda gratidão ao Senhor, gostaria de saudar cordialmente os Senhores Cardeais, os Arcebispos e os Bispos presentes, com uma menção particular e reconhecida ao Bispo D. Wieslaw Mering, Pastor desta Diocese, o qual com espírito de verdadeira fraternidade me acolheu a mim e a quantos me acompanharam. Saúdo com deferência as Autoridades civis e militares locais, regionais e do Estado começando pelo Presidente da República da Polónia, o Sr. Lech Kaczynski. Hoje realiza-se o desejo do Sejm [parlamento] da Res Pubblica das duas Nações [Polónia-Lituânia], o qual no ano de 1764 apresentou à Sé Apostólica o pedido para elevar rs honras dos altares “Estanislau Papczynski, um polaco famoso pelos seus milagres” (Volumina Legum, vol. VII, Sampetersburgo 1860, pág. 168, n. 105). Saúdo todos os presbíteros e diáconos, as pessoas consagradas, e entre elas de modo particular os Padres e os Irmãos Marianos com o seu Superior-Geral, Padre Jan Mikolaj Rokosz. Saúdo os peregrinos que vieram aqui de várias partes do mundo, alguns de muito longe. Por fim, dirijo uma saudação aos que, graças às ligações da televisão e da rádio penso sobretudo nos idosos, nos doentes, nos encarcerados podem unir-se espiritualmente a este sugestivo rito litúrgico.

A palavra de Deus, que nos propõe a hodierna liturgia do XXIV Domingo do tempo comum, apresenta-nos o mistério do homem pecador e a atitude divina de extrema e infinita misericórdia.

O Senhor arrependeu-Se das ameaças que proferira contra o Seu povo” (Êx 32, 14). A primeira leitura, há pouco proclamada, mostra-nos Moisés que depois de ter estabelecido a aliança com Deus, sobe ao Monte Sinai para receber as tábuas da Aliança e detém-se em diálogo com Ele por 40 dias. Os Israelitas, cansados de o esperar, voltam as costas a Deus esquecendo os prodígios realizados para os libertar da escravidão egípcia. O cenário que o autor sagrado descreve torna-se comovedor: Moisés, ao qual Javé revela o pecado dos Israelitas e a sua intenção de os punir, faz-se advogado e implora com fervor o perdão para aquele povo ingrato e pecador.

Não invoca a justiça de Deus, mesmo sabendo bem que Israel se manchou com a culpa mais grave caindo na tentação da idolatria, mas apela-se à misericórdia divina e à aliança que por sua iniciativa Deus estabeleceu com Abraão, com Isac e Jacob. E Deus ouve a oração de Moisés: paciente e misericordioso, abandona o propósito de punir o seu povo, que lhe voltou as costas.

Quantos ensinamentos nos oferece esta página do livro do Êxodo! Ajuda-nos a descobrir o verdadeiro rosto de Deus; ajuda-nos a compreender o mistério do seu coração bom e misericordioso. Por muito grande que possa ser a nossa falta, será sempre maior a misericórdia divina, porque Deus é Amor.

Testemunho maravilhoso deste mistério é a experiência humana e espiritual do apóstolo Paulo. Na segunda Leitura, tirada da sua primeira Carta a Timóteo, ele confessa que Cristo, o tocou no mais profundo da alma e, de perseguidor dos cristãos, o fez instrumento da graça divina para a conversão de muitos. Jesus, o verdadeiro bom Pastor, não abandona as suas ovelhas, mas deseja reconduzi-las todas ao redil do Pai. Não é esta, queridos irmãos e irmãs, também a nossa experiência? Quando com o pecado nos afastamos da recta via perdendo a alegria da amizade de Deus, se voltamos para Ele arrependidos sentimos não a dureza do seu juízo e da sua condenação, mas a doçura do seu amor que nos renova interiormente.

“Assim, digo-vos, há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrepende” (Lc 15, 10). Estas palavras de Jesus, que o evangelista Lucas narra na página evangélica agora proclamada, confirmam ulteriormente em nós a certeza do amor misericordioso do Senhor. A Divina Misericórdia é a boa notícia que não devemos cansar-nos de proclamar e testemunhar neste nosso tempo difícil. Só Cristo, que conhece o ser humano no seu íntimo, pode falar ao coração do homem e restituir-lhe a alegria e a dignidade de homem criado à imagem de Deus. E por isto tem necessidade de colaboradores fiéis e de confiança; tem necessidade de santos e nos chama a ser santos, isto é, verdadeiros amigos e arautos do seu Evangelho.

Autêntico amigo de Cristo e seu apóstolo incansável foi o Beato Estanislau de Jesus Maria Papczynski. Nascido em Podegrodzie numa pobre família camponesa, viveu num tempo em que a Polónia, atormentada por numerosas guerras e pestes, estava a afundar cada vez mais no caos e na miséria. Formado nos sadios princípios do Evangelho, o jovem Estanislau desejava doar-se a Deus sem limites e desde a adolescência sentiu-se orientado para a Imaculada Virgem Mae de Deus.

Com o passar do tempo, o Senhor transformou o pequeno pastor, que gostava pouco de estudar e de frágil constituição física, num pregador que atraía as multidões com a sua sabedoria cheia de erudição e de misticismo profundo; num confessor cujo conselho espiritual era procurado até pelos dignitários da Igreja e do Estado; num professor cuidadosamente instruído e autor de diversas obras publicadas em numerosas edições; no fundador do primeiro Instituto masculino polaco, precisamente a Congregação dos Clérigos Marianos da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria.

Quem o orientou durante toda a existência foi precisamente Maria. No mistério da sua Imaculada Conceição o novo Beato admirava o poder da Redenção realizada por Cristo. Na Imaculada vislumbrava a beleza do homem novo, entregue totalmente a Cristo e à Igreja. Deixava-se fascinar a tal ponto por esta verdade de fé, que estava disposto a dar a vida para a defender. Sabia que Maria, obra-prima da criação divina, é a confirmação da dignidade de cada homem, amado por Deus e destinado à vida eterna no céu. Ele queria que o mistério da Imaculada Conceição distinguisse a Comunidade religiosa que tinha fundado, fosse o seu apoio constante e a verdadeira alegria. Quantas vezes, precisamente aqui, neste Santuário de Maria Mãe das Dores onde se recolhem em oração multidões de peregrinos, ressoou e continua a ser repetida esta comovedora invocação do Beato Estanislau: “Maria, tu consolas, confortas, amparas, libertas os oprimidos, os que choram, que são tentados, os deprimidos […]. Ó doce Virgem! Mostra-nos Jesus, fruto bem-aventurado da tua vida!”.

Animado pelo amor de Deus, o Beato Estanislau ardia de uma forte paixão pela salvação das almas e dirigia-se aos seus ouvintes com tons prementes como este: “Volta portanto para o teu Pai! Porque andas errante pelo longínquo país das paixões, privado dos sentimentos de amor do Sumo Bem? Volta para o Pai! Cristo chama-te, vai para Ele” (Inspectio cordis, 1, 25, 2).

Seguindo o exemplo do Bom Samaritano, detinha-se ao lado de quantos estavam feridos na alma, aliviava os seus sofrimentos, confortava-os infundindo neles esperança e serenidade, conduzia-os à “pousada do perdão”, que é o confessionário, ajudando-os assim a recuperar a sua dignidade crista perdida ou recusada.

A caridade divina estimulava o Beato Estanislau a fazer-se evangelizador especialmente dos pobres, do povo simples, socialmente discriminado e descuidado sob o ponto de vista espiritual, de quantos se encontram em perigo de morte. Consciente de como estava difundida na época a chaga do alcoolismo, com a palavra e com a vida ensinava a sobriedade e a liberdade interior como um antídoto eficaz contra qualquer tipo de dependência. Animado depois por um profundo sentimento de amor pátrio pela República das Nações polaca, lituana e rutena, não hesitava em estigmatizar a busca do próprio interesse em quantos geriam o poder, o abuso da liberdade nobiliária e a promulgação de leis injustas. Ainda hoje o novo Beato lança à Polónia, à Europa, que fadigosamente procura os caminhos da unidade, um convite sempre actual: só lançando bases sólidas em Deus pode haver verdadeira justiça social e paz estável.

Queridos irmãos e irmãs, o amor do Beato Estanislau pelo homem alargava-se também aos defuntos. Depois de ter vivido a experiência mística do sofrimento de quantos se encontravam no purgatório, rezava com fervor por eles e exortava todos a fazer o mesmo. Ao lado da difusão do culto da Imaculada Conceição e do anúncio da Palavra de Deus, a oração pelos defuntos torna-se assim uma das finalidades principais da sua Congregação. O pensamento da morte, a perspectiva do paraíso, do purgatório e do inferno ajudam a “empregar” de modo sábio o tempo que transcorremos na terra; encorajam-nos a considerar a morte como etapa necessária do nosso itinerário para Deus; estimulam-nos a acolher e respeitar sempre a vida como dom de Deus, desde a concepção até ao seu fim natural. Que sinal significativo para o mundo dos nossos dias é o milagre da “inesperada continuação da gravidez entre a 7ª e a 8ª semana de gestação” que se verificou por intercessão do Padre Papczynski. O dono da vida humana é Deus!

O segredo da vida é a caridade: o inefável amor de Deus, que ultrapassa a fragilidade humana, leva o coração do homem a amar a vida, a amar o próximo e até os inimigos. Aos seus filhos espirituais o novo Beato confiou desde o início esta recomendação: “Um homem sem caridade, um religioso sem a caridade, é uma sombra sem o sol, um corpo sem a alma, simplesmente é uma nulidade. Aquilo que a alma é no corpo, na Igreja, nas ordens religiosas e nas casas religiosas, é a caridade”. Portanto, não admira verificar que, entre tantas contrariedades e cruzes, diversos discípulos seus se tenham distinguido pela sua perfeição evangélica. É suficiente recordar o venerável Servo de Deus Pe. Kazimierz Wyszynski (1700-1755), fervoroso promotor do culto mariano, o Beato Arcebispo Giorgio Matulaitis-Matulewicz (1871-1927), providencial renovador e reformador da Congregação dos Clérigos Marianos e padroeiro da reconciliação entre a Nação polaca e a lituana; os Beatos mártires de Rosica (Bielo-Rússia), Jerzy Kaszyra (1904-1943) e Antoni Leszczewicz (1890-1943), os quais, durante a segunda guerra mundial entregaram livremente a vida pela fé em Cristo e por amor aos homens. Até nos momentos dramáticos da perseguição, a obra do beato Estanislau não foi cancelada. O Beato Jorge Matulaitis-Matulewicz voltou a dar-lhe impulso, testemunhando, mais uma vez, que o Amor vence tudo.

Queridos Padres e Irmãos Marianos, é-vos hoje confiada a preciosa herança espiritual do vosso Fundador: acolhei-a e sede em toda a parte, como ele, incansáveis anunciadores do amor misericordioso de Deus, mantendo o olhar fixo em Maria Imaculada para que se realize em cada um de vós o projecto divino.

Queridos devotos e peregrinos, a Igreja na Polónia está em festa pela elevação aos altares deste seu filho eleito. O exemplo da sua vida santa e a sua celeste intercessão sirvam de encorajamento a todos para abrir sempre o coração confiante à omnipotência do amor de Deus. Repletos de alegria e de esperança, damos graças a Deus pelo dom do novo Beato e louvemo-lo com as palavras do apóstolo Paulo: “Ao Rei dos séculos, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém” (1 Tm 1, 17).

Fonte:http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20070916_paczynski_po.html http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/card-bertone/2007/documents/rc_seg-st_20070916_beatif-polonia_po.html
 

Para que o vosso fruto permaneça

Materiais da Comissao Geral para a Beatifi cacao

do Servo de Deus Padre Estanislau Papczyński,

Fundador da Congregacao dos Padres Marianos

Pe. Wojciech Skóra MIC,

Postulador Geral

 BIOGRAFIA DO PADRE ESTANISLAU PAPCZYNSKI

Rito de beatificação

Lichen, 16 de setembro de 2007

 O Venerável Servo de Deus Estanislau Papczynski nasceu no dia 18 de maio

de 1631 em Podegrodzie, na Polônia, na então diocese de Cracóvia. Faleceu em Góra Kalwaria, nos arredores de Varsóvia, na antiga diocese de Poznan, no dia 17 de setembro de 1701.

A sua vida constitui um extraordinário testemunho da misericórdia e da sabedoria divinas, as quais – como ele mesmo muitas vezes lembrou – lhe foram proporcionadas durante a sua longa e difícil vida. Ele descobria o amor de Deus, de maneira especial, na face de Cristo sofredor. A si mesmo, muitas vezes chamava de pecador e servo de pouco valor, encontrando unicamente em Cristo a esperança da sua salvação. Escrevia ele: Arrependo-me do fundo do coração e por amor de Deus desejo arrepender-me com a máxima perfeição dos meus pecados, que mergulho todos nas salvíficas chagas do meu Senhor e Redentor Jesus Cristo (Testamento I).

A experiência do amor de Deus despertou no Servo de Deus o desejo de viver

na perfeição evangélica, de maneira que aos 23 anos de idade ingressou na ordem das Escolas Pias. Como religioso e sacerdote – distinguindo-se pelo espírito da oração e da mortificação – ele mesmo atingiu uma profunda união com Deus e conduziu muitas pessoas à perfeição. À vocação universal dos cristãos para a santidade ele dedicou o livro Templo místico de Deus, lembrando essa verdade especialmente aos fiéis leigos.

Educado na devoção a Nossa Senhora, tinha um amor especial ao mistério da Sua Imaculada Conceição, descobrindo nele o cerne do cristianismo, isto é, o dom gratuito do imensurável amor de Deus para com o homem, alcançado por

Jesus Cristo e aceito por Maria como a primeira entre os crentes, com total amor e submissão a Deus. Nesse mistério depositava uma grande esperança de alcançar os bens eternos, muitas vezes exclamando: A Imaculada Conceição da Maria Virgem seja a nossa salvação e defesa. Percebia a forma fundamental do culto210 à Imaculada Conceição na imitação da vida evangélica de Maria, compreendida como cooperação com a graça divina concedida por Cristo.

Da contemplação do mistério da Imaculada Conceição surgiu a obra da vida do pe. Papczynski, a Congregação dos Padres Marianos, que – como ele mesmo muitas vezes repetia – fundou por inspiração do Espírito Santo. Após obter a dispensa legal dos votos simples na ordem das Escolas Pias no dia 10 de dezembro de 1670, iniciou a obra da fundação da comunidade dos marianos. Apesar das muitas dificuldades, graças à sua extraordinária confi ança no poder da Providência Divina, coroou a sua vocação de fundador, tendo obtido em 1699 a aprovação pontifícia para a sua congregação, com base na Regras das Dez Virtudes da SVM.

Três meses antes da sua morte professou os votos solenes na presença do núncio apostólico na Polônia, bem como aceitou esses votos de seus fi lhos espirituais. Antes de morrer confiou a pequenina comunidade dos marianos ao Senhor Jesus Cristo e à seletíssima Virgem Mãe Maria […] como a seus verdadeiros e únicos Fundadores, Guias, Defensores e Padroeiros.

O Fundador dos Marianos passou a ser conhecido como “Pai dos pobres”. Em

meio ao povo simples e espiritualmente abandonado, com grande empenho desenvolveu o seu trabalho apostólico. Dedicou-se também com zelo a outras obras de caridade, relacionadas com corpo e a alma. Através da sua fervorosa oração, para muitos alcançou a saúde e a graça da salvação. Por essas razões, ainda em vida era considerado um santo.

Entre os pobres do seu tempo, tratou com especial amor os agonizantes e os mortos em conseqüência da miséria e de numerosas guerras e epidemias. O ardente amor do pe. Papczynski aos falecidos tinha uma origem divina, moldada durante visões místicas do purgatório. Profundamente convencido de que todo ser humano é destinado à glória, ele mesmo, sem descanso, dedicou-se a essa obra de nobre amor, recomendando-a aos seus irmãos na vocação e estimulando a ela multidões de pessoas leigas. Escrevia ele: Porquanto, qual caridade pode ser maior do que a demonstrada aos falecidos, dos quais não podes esperar nenhuma recompensa, nenhuma gratidão e nenhum elogio? (Templo místico de Deus).

Em seu Testamento espiritual escreveu: A todos os presentes e a cada um dos

meus futuros irmãos e companheiros, para sempre entrego a mais maravilhosa

fundação: a Providência do Deus Bondosíssimo. Aos curiosos, deixo a minha

imagem para contemplar, e a imagem da vida de meu Senhor Jesus Cristo para imitar…

 Estanislau de Jesus Maria nasceu na Polónia em 1631, na aldeia de Podegrodzie. Em 1654 entrou na Ordem das Escolas Pias (Padres Escolápios), na qual fez a profissão religiosa e foi ordenado presbítero. Em 1670 deixou a Congregação dos Escolápios e, três anos depois, fundou a Congregação dos Padres Marianos da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria para promover a honra da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria, auxiliar as almas do Purgatório e ajudar os párocos na pastoral. A autoridade eclesiástica designou-o superior geral vitalício da Congregação por ele fundada. Nos seus escritos sobre retórica e espiritualidade promoveu a vocação universal à santidade quer dos religiosos quer dos leigos. Morreu com fama de santidade no dia 17 de Setembro de 1701.

 Dos escritos do Bem-aventurado Estanislau Papczynski, presbítero (Norma vitae, cap. II: De caritate) Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus De modo perfeito, o Mestre das Nações comparou ao bronze que soa ou ao címbalo que retine o servo de Deus que não possua o verdadeiro amor. Com efeito, a conquista da vida eterna e o valor dos méritos dependem do amor. Por isso, cada um de vós procure conquistar para si da forma mais eficaz, mais que todos os bens, essa pérola preciosíssima, esse tesouro escondido no campo. Porque, embora o amor de Deus seja um dom, ele é recebido e conservado através da oração incessante e da mortificação. Portanto, que, entre vós, tudo se faça com amor.

Os mandamentos de Deus e os conselhos evangélicos, as leis da santa Igreja

Católica Romana, as suas normas, decisões, ritos, costumes e também esta Regra e outras disposições que um dia possam ser promulgadas, sejam observados por amor a Deus. Assim, de facto, esclama o Mestre Celeste: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, o que deve ser entendido não apenas em relação à sua santa doutrina e à Sagrada Escritura, mas também em relação às disposições e aos documentos da sua santa Igreja, que Ele mesmo, através do Espírito Santo, instrui e dirige, e em relação às decisões dos superiores, que dela, isto é, da Igreja, provêm ou por ela são confirmadas.

Além disso, por amor a Deus, deveis cumprir tudo que é bom e evitar todo o mal. Deveis praticar toda a virtude possível, deveis abominar quaisquer transgressões e o pecado. Por amor a Deus, deveis de bom grado e corajosamente suportar as mortificações, as aflições, as repreensões, as injustiças, as calúnias, as dificuldades, os sofrimentos, a penúria, a severidade e outras coisas do gênero.

Por amor a Deus, deveis realizar com a máxima perfeição possível as vossas práticas de piedade, as vossas obrigações e as tarefas que vos forem confiadas, bem como tudo o que se relaciona com o vosso estado e a vossa vocação. Ao amor de Deus deveis dedicar todas as acções e experiências difíceis de toda a vossa vida, especialmente aquelas do dia-a-dia, bem como todos e cada um dos momentos, circunstâncias ou mudanças de todas e de cada uma dessas atividades e experiências. Com submissão, confiança e piedade, deveis oferecê-las, por toda a eternidade, no altar do amor, com coração puro, juntamente com os méritos de Cristo Senhor e de Sua Mãe Imaculada, bem como de todos os Santos e da Igreja universal.

Enfim, a vossa regra comum e o caminho mais seguro para o céu deve ser aquela que em ambos os Testamentos a Sabedoria divina quis reconhecer como a mais digna de recomendação: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente.

No que diz respeito ao amor mútuo, saibei que, entre vós, o mais caro à Divina

Majestade é aquele que mais se distingue no amor aos irmãos. Cada um lembre-se de que a alma do seu Instituto é o amor e de que, na medida em que dele se afastar, na mesma medida também se afastará da vida. Por conseguinte, da mesma forma que diligentemente se empenhar em contribuir para o bem, para a fama, para a pureza e santidade de toda a Congregação, também a cada um dos seus membros demonstrará o mesmo que desejaria para si. Evite, portanto, a peste perniciosa, que mais se opõe ao amor, constituída de: inveja, ódio, obstinação, rivalidade, desconfiança, difamação, antipatia, simpatia, ciúme, delação, injúrias, mexericos, maledicências, perseguição, parcialidade, desprezo dos outros, perturbação, confusão, brigas e disputas. E, como pela paz da própria alma, assim se empenhe pela paz dos outros e da casa, como um zeloso vigia do amor. Enfim, seja de toda a Congregação seja de cada um dos seus membros, procure afastar todo o mal.

Lembrai-vos do amor da Igreja primitiva, a respeito da qual o autor dos Actos dos Apóstolos diz: A multidão dos que haviam abraçado a fé tinham um só coração e uma só alma.

Além disso, em todas ocasiões que se apresentem não negligencieis a demonstração de todas as formas de amor às pessoas que não pertençam à Congregação, e manifestai um amor generoso não apenas em relação àqueles cuja benevolência experimentastes, mas também em relação aos adversários e inimigos (aos quais nosso Senhor justamente nos recomenda que amemos). Lembrai-vos sempre das obras de misericórdia que são feitas ao Chefe Supremo – Cristo – nos seus membros, e que serão as únicas a triunfar no seu severo julgamento.

 Perdão das culpas

A capacidade de perdoar, mencionada pelo Padre Estanislau entre as posturas

apropriadas às comunidades em que reside o amor cristão, foi por ele mais amplamente analisada em Templum Dei Mysticum. No capítulo 21, dedicado à

renovação do Templo Místico que se encaminha à ruína em razão de atos ímpios, o Fundador comenta catorze atos de piedade que o reconstroem e pelas quais tudo se pode alcançar de Deus. Entre os sete relacionados à alma, encontra-se o “perdão aos culpados” (TDM XXI) e o “perdão das culpas” (TDM XXI). Tanto a primeira postura, que diz respeito ao perdão da culpa, quanto a segunda, que se caracteriza pela desistência da vingança e da desforra, são para o Padre Papczynski um caminho de assemelhar-se a Cristo e de imitar a misericórdia do Pai Celestial: “O perdão aos culpados que contra nós praticaram o mal, a reconciliação com os inimigos, direi eu que propriamente isso é uma coisa não apenas cristã, mas simplesmente divina. Porquanto, em que mais expressamos a bondade divina senão no perdão das ofensas e no amor aos inimigos? Com efeito, a bondade de Deus mais para nós resplendeceu porque, quando éramos Seus inimigos, não apenas nos reconciliou consigo pelo Filho, que nos alcançou a graça no lugar dos pecados, mas, para satisfazer a justiça, quis oferecê-Lo por nós em sacrifício (TDM XXI). A prática do perdão na comunidade é um sinal infalível de que o amor que une os irmãos é realmente o amor cristão, que traz em si nitidamente os traços pascais e que haure a sua força do amor do Pai, que amou a nós pecadores e ofereceu Seu Filho para que tivéssemos a vida. O Padre Papczynski tem consciência disso quando afi rma que aquele que persegue o próximo junta-se aos algozes do próprio Cristo, ao passo que aqueles que suportam as perseguições e perdoam a culpa tornam-se semelhantes ao Cristo sofredor (cf. TDM XXI). Mais nitidamente ainda aponta para isso o fato de que, para o nosso Fundador, a falta do perdão apresenta-se em nítida contradição com a recepção da Eucaristia, como escreve a esse respeito, algumas vezes com palavras muito ásperas. Vale a pena citar pelo menos um desses rígidos pronunciamentos: “Ouvi vós, que alimentais ódios eternos e sustentais na alma a contínua obstinação, aguardando apenas uma ocasião para a desforra, e nesse ínterim, na Santíssima Eucaristia, juntamente com Judas beijais o Cristo Senhor: se as vossas culpas fossem perdoadas como vós costumais perdoá-las aos vossos inimigos, a questão da vossa salvação estaria definida: pereceríeis. Por isso amai os vossos inimigos – como o recomenda Jesus Cristo – para que sejais fi lhos do vosso Pai que está nos céus (cf. Mt 5, 44-45)”. (TDM XXI; cf. também IC 46r; IC 68r). A Eucaristia é a celebração do perdão e da reconciliação com Deus. Ao bebermos o Sangue de Cristo, como dizia S. Ambrósio, estamos bebendo o nosso perdão dos pecados e nos tornamos repletos do Espírito Santo. A rigidez do pronunciamento do Padre Estanislau lembra-nos que, ao nos aproximarmos da Mesa do Senhor com o coração repleto do espírito do ódio e da dissensão, não bebemos o perdão, mas sim a nossa sentença. A falta do perdão é para o Padre Papczynski um sinal de loucura, porquanto nos torna diante de Deus mentirosos e nos prepara uma sentença condenatória no juízo final. A esse respeito escreve belas palavras analisando as palavras de Cristo que da cruz perdoa aos Seus algozes: “Ao passo que nós somos levados pela loucura a tal ponto que preferimos cair no inferno a com serenidade de espírito perdoar alguma palavra mordaz, um pequeno desprezo, uma insignificante ofensa a nós infligida, mergulhando isso nas chagas do Salvador, apesar de todos os dias exclamarmos ao Pai celestial: Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós  perdoamos a quem nos tem ofendido (Mt 6, 12). Portanto, ou é preciso perdoar ou, se não perdoamos, é preciso mentir diante de Deus. Mas visando a qual proveito?

Para multiplicar o número das dívidas? Isso é absurdo e [é] prova da maior tolice! É preciso perdoar até àqueles que não o pedem, para que, pedindo, alcancemos o perdão de Deus. É preciso perdoar para que também a nós seja perdoado” (IC6-7). Vale a pena lembrar-se também de que o apelo à vida no perdão não diz respeito apenas ao relacionamento intracomunitário, mas, como claramente ordena o Padre Fundador em sua regra, deve irradiar-se igualmente para fora da comunidade religiosa (cf. NV II 5).

O perdão das culpas na comunidade é um dos sinais fundamentais do Espírito

do Senhor Ressuscitado dentro dela. Apenas Ele dá ao ser humano aquele amor que tem o poder de derrubar o muro da hostilidade que brota do pecado. Apenas o amor que vem do alto não busca o seu proveito e não se lembra do mal.

 

Artigos das constituições: 12, 91-100, 102, 107, 113-114; 12 Procurem distinguir-se, principalmente, pelo espírito de abnegação e sacrifício; pela humildade, piedade, laboriosidade; pela fé viva e firme e pela caridade ardente; pela mútua união fraterna e perfeita obediência aos superiores; pelo espírito apostólico e pelo zelo. [CM 10] 91 Todos estimem e favoreçam grandemente, como mãe nutrícia de todos os bens espirituais, a instituição da vida comum, que seja inflamada do espírito da família de Deus e da caridade fraterna, da santa e verdadeira amizade e de afeto cordial, de mútua solicitude e solidariedade. Sejam um só corpo e um só espírito como foram chamados a uma só esperança da vocação. [Ef 4,4; CM 278]

92 Observem todos, exatamente, a vida comum nas casas da Congregação, quanto à oração em comum, apostolado, mesa e habitação e toda a regra da vida. Por conseguinte ninguém deve ser livrado facilmente de qualquer exercício comum e, muito menos, seja deixado só, por longo tempo fora da comunidade. [CM 279; PC 15]

93. O superior maior, com o consentimento do seu conselho, pode permitir ao membro que permaneça fora da casa religiosa, mas não além de um ano, salvo se por motivo de estudos, de doença ou de apostolado exercido em nome da Congregação. [CM 280; CDC 665/1] Capítulo II

94 Os membros estendam a todos os confrades, com quem estão unidos pela

mesma vocação e regra de vida, a caridade “que foi derramada nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5,5), e pela qual nos unimos com Cristo pelo batismo e pela participação da Eucaristia. Fomentem entre si com a mente, o coração e o trabalho a mútua caridade que é alma da vida comum e de tudo aquilo que se faz na Congregação; antecipem-se em estimar-se reciprocamente, sejam mutuamente condescendentes e perdoem-se uns aos outros; corrijam uns aos outros no Senhor e estimulem-se em fazer o bem. [NV II,4; CM 288, 292; PC 15] 64

95 À maneira da Igreja primitiva na qual “a multidão dos fi éis era um só coração e uma só alma” (At 4,32), os membros vivam não somente com os outros, mas também pelos outros em espírito de serviço fraterno, esquecendo-se de si mesmos. Prestem-se mutuamente ajuda, obséquios, defesa e consolação. Unindo forças e conselhos, esforcem-se por conseguir os fi ns da Congregação em fraterna emulação, harmonia e unanimidade. Cada um alegre-se pelo feliz êxito do trabalho dos outros e ajude-os para que desenvolvam plenamente suas aptidões no serviço de Deus. [CM 288; PC 15]

96 Haja cuidado especial dos membros que estão doentes, idosos, inválidos.

Todos, e principalmente os superiores, usem de caridade e de solicitude para com eles, e procurem criar-lhes tais condições, que possam se sentir sempre úteis. [CM 394]

97 Carregando o peso uns dos outros, os membros suportem com paciência as falhas e as fraquezas dos confrades, inevitáveis na vida humana. Procurem tolerar e compreender, em caridade, as opiniões diferentes das suas e outras dissensões, provenientes da diversidade da índole, da idade ou nacionalidade. Assim seja conservada na Congregação a unidade de espírito no vínculo da paz. [Gal 6,2; Ef 4,3]

98 Em todo o corpo da Congregação, quer entre a casa principal e todas as províncias e casas, quer reciprocamente entre si, reine uma estreitíssima união, concórdia, conformidade e a maior caridade; fomentem-nas mediante freqüentes relacionamentos, através de comunicações e notifi cações daquilo que estão fazendo e é para edificação, e também mediante obras empreendidas comunitariamente. Havendo ocasião de ajudar outras casas ou províncias, os membros não faltem a esse dever de caridade. [CM 295]

99 Demonstrem grande caridade para com os membros provenientes das outras casas; hospedem-nos com carinho, prestem-lhes conselhos e auxílios na realização dos negócios, e, se o necessitarem socorrem-nos. Os hóspedes, por sua vez, procurem mostrar-se agradecidos aos confrades e deixar-lhes na casa, com o exemplo de sua vida, um estímulo para seguir à perfeição. [CM 289]

100 Se acontecer que algum membro estiver em perigo de perder a vocação,

a comunidade está obrigada a prestar-lhe ajuda necessária para vencer este

perigo.

102 Os membros, assumindo conscienciosamente a responsabilidade pelo bem da casa, empreguem uma cuidadosa diligência em observar a ordem diurna estabelecida, em cumprir os seus deveres, em prestar as prescritas contas e fazer relatórios. Os superiores, por sua vez ajudem-nos no fi el cumprimento dos deveres, promovendo e favorecendo a unânime colaboração e procurem que os assuntos de maior importância sejam discutidos em comum; contudo cabe ao superior com seu conselho discernir o que se deve fazer. [CM 321; CDC 26; PC 14] 65

107 Na ordem do dia seja prescrito, cotidianamente, algum tempo livre, a fi m

de restabelecer as forças, para um novo trabalho. O recreio favoreça não somente o corpo, mas também o espírito, nutra e fomente a mútua caridade entre os membros; recomenda-se a todos a paz, o bom humor e a alegria no Senhor.

113 Nas conversas sejam afáveis e simples, mas cautelosos, circunspectos e prudentes; na conversação conservem moderação, discrição e também singeleza e veracidade. Acautelam-se de não falar mal de alguém ou de lesarem sua fama, nem introduzam assuntos que possam desunir os ânimos. Empreguem todos os esforços para estabelecer entre todos o reino e a paz de Cristo, fomentar a concórdia e o senso da fraternidade e promover a salvação de todos. [CM 182, 189-191]

114 A humildade, a mansidão, a modéstia, as boas maneiras, a delicadeza e a

maturidade religiosa, a gravidade unida à afabilidade devem ornar de tal modo os membros que pelo porte exterior e decoro, sirvam de exemplo aos outros, edifiquem aqueles que encontrarem ou deles se aproximarem e tornem seu ministério mais eficaz. [CM 187] Itens do diretório: 58-69, 73, 182, 283.

58. Estimem muito a verdadeira amizade e a fomentem entre si; acautelem-se,

contudo, de não excluir alguns membros da conversa comum e evitem tudo o que tem ressaibo de leviandade e de sensualidade. Reine o amor mútuo, o qual seja espiritual, ativo e universal, isto é, se estenda a todos os irmãos e a todos abrace. (C.95)

59. Assim como é repreensível a demasiada preocupação com aquilo que se refere ao corpo, assim recomenda-se a todos um cuidado moderado e prudente das forças e da saúde do mesmo corpo, como preciosos dons de Deus, a fim de que possam aplicar-se melhor e por mais tempo ao serviço de Deus; procurem observar prudentemente a salubridade e os preceitos higiênicos. Quem perceber que alguma coisa prejudica gravemente a sua saúde, confesse-o com simplicidade e humildade ao superior (C.96)

 

A transposição da clausura relaciona-se com o abandono do “mundo” juntamente com as suas concupiscências e com a busca da perfeição religiosa. Nessa decisão, desde os primórdios da tradição da vida consagrada, inscreve-se o postulado de uma radical mudança de costumes. S. Bento, que lançou os fundamentos do monasticismo ocidental, fez da conversio morum um dos elementos da profissão monástica (cf. Regra de S. Bento, cap. 58). Todo aquele que ingressava na vida religiosa obrigava-se solenemente a uma luta constante com os defeitos e as paixões, a renunciar ao mundo e à sua forma de pensar (cf. Miroslaw Daniluk SCJ, Enciclopédia dos institutos de vida consagrada e associações de vida apostólica, Lublin, 2000, 81; cf. também Dizionario degli istituti di perfezione, 106-110). Essa radical mudança de forma de vida é para o Padre Estanislau uma condição indispensável para ingressar nos caminhos religiosos da imitação de Cristo. Ele escreve a esse respeito de forma sucinta e enfática: “[…] aqueles que seguem os passos de Cristo ou aqueles que querem segui-Lo tem de abandonar tudo: o mundo, as honras, as riquezas, as amizades, os amores, as pessoas próximas, os parentes, os pais e além disso a sua vida (cf. Lc 14, 26), submetendo a sua vontade à vontade de uma outra pessoa. Tal é, em síntese, o caminho daqueles que ingressam nos passos de Cristo” (IC 66r). A radical mudança de costumes deve ser o objeto da nossa incessante solicitude, e a sua negligência é uma hipocrisia que, em vez de frutos da vida, traz a condenação. Ao refletir sobre o evangelho

que narra o encontro de Jesus no templo, o Fundador parece perguntar a cada um de nós: “E agora, como passas os teus anos na casa de Deus? Com quanta tibieza, com quanta indolência, com quanta arrogância! Cuida para que não aconteça que com o traje religioso pareças imitar a Jesus, mas e pelos teus costumes te comportes como um devasso e te apresentes pior que uma pessoa do mundo. O estado religioso não salva ninguém, mas sim a vida religiosa. Talvez tenhas ouvido falar daquele soldado condenado que ingressou num instituto religioso e trocou o uniforme religioso pelo hábito, mas não mudou os seus costumes. Por isso, após a morte apareceu vindo do inferno e devolvendo o traje religioso no rabo do cavalo.

Deus te livre de seres um religioso apenas de nome, e não também na realidade. Se não abandonasses os maus costumes mundanos e se não correspondesses à tua vocação, terias um fim igualmente muito infeliz. Não pôde o castíssimo José, com sua esposa, a Santíssima Virgem, encontrar o Menino Jesus nas conversas, na leitura de curiosidades, no mundo, nas ruas, nas convicções contrárias ao teu gênero de vida e no estilo de vida das pessoas do mundo” (IC 12v-13r)…porquanto – embora vivendo entre os muros do convento – vivemos à maneira deste mundo. Será que algumas vezes não nos assemelhamos um pouco ao aquarista que se admira que os peixinhos por ele criados morreram, mas não percebe que, em vez de deixá-los no aquário, mantinha-os na gaiola dos canários?… Toda vida pode desenvolver-se apenas no ambiente que lhe é adequado.

Com a mudança dos costumes estão estreitamente relacionados os dois outros

postulados. O religioso é chamado para pronunciar um categórico “não” diante

do mal e de forma decidida submeter a sua vontade a Deus. Na vida e nos escritos do Padre Estanislau, tanto esse “fi at” dito a Deus como o “ápage” lançado contra o demônio têm uma natureza radical.

A intransigência na luta contra tudo aquilo que é mau manifesta-se em diversos

traços. Em primeiro lugar, para o Padre Papczynski não existe um pecado tão leve que possa ser menosprezado, não existe um defeito tão pequeno que não

mereça o esforço de ser extirpado com as raízes. Isso é especialmente importante, como observa o nosso Fundador, quando se leva em consideração o fato de que o ataque do diabo contra as pessoas religiosas inicia-se normalmente a partir de coisas aparentemente pequenas e sem importância. “Com a máxima diligência deves evitar as pequenas imperfeições e até os mínimos pecados. Sem dúvida eles não são percebidos quando os semeia o infernal malfeitor. Quando, no entanto, após quedas maiores e após uma grande quantidade de pecados graves os perceberes e sobre eles refletires, compreenderás que essas mínimas imperfeições, que com menosprezo admitiste, deram início àquelas graves. […] Evita as pequenas imperfeições a fim de impedires o acesso aos pecados maiores, ou, caso já se tenham propagado, afasta-os, a fi m de preservares o teu coração puro a muito pura a tua alma, e para fazer que pelo bem da tua salvação não pratiques no futuro transgressões maiores. Porquanto o espírito mau costuma proceder com as pessoas espiritualizadas de tal forma que não lança de imediato contra elas a rede através dos pecados graves, porque os abominam. Ele o faz através de pequenas imperfeições, quanto às quais sabe o que fazer para que as menosprezem, e então as conduz até aos pecados mais graves” (IC 22v). O Padre Papczynski está profundamente convencido de que as pequenas e desprezadas imperfeições do dia-a-dia é que pavimentam o largo caminho que conduz à condenação eterna e de que a sua tênue e delgada rede é inteiramente sufi ciente para o demônio enlear um religioso (cf. IC 88r). O radicalismo dessa intransigente luta com o mal é apresentado pelo Beato Fundador de forma concisa, e com ele certamente concordarão todos aqueles a quem Deus permitiu alcançar a santidade: “[…] Se não estás pronto a antes morrer do que voltar a pecar, fi ca sabendo que o Espírito Santo não reside em ti” (IC 57v).

No entanto o categórico “não” diante do mal não é sufi ciente para chamar aquele que o pronuncia um radical imitador de Cristo. Afi nal Ele mesmo nos adverte que o “terreno inculto” do coração humano, quando limpo e arrumado, é de bom grado novamente ocupado pelos infernais inquilinos (cf. Mt 12, 43-45). Toda conversão verdadeira não é apenas a rejeição do pecado, mas também, e sobretudo, a escolha de Deus. Os caminhos daqueles que buscam o perfeito amor sempre passam pela alternativa infl exivelmente colocada: amar o mundo até a rejeição de Deus ou seguir a Sua vontade até a rejeição do mundo. O nosso Fundador pronuncia o seu “fiat” ao Pai Celestial “com todo o seu coração, com toda a sua alma e com toda a sua força” (cf. Dt. 6, 5). Em suas refl exões escreve: “Tendo ingressado na vida religiosa, agora te entregaste a um Senhor melhor. Deves, portanto, proclamar e declarar a guerra contra o outro. Tem certeza de que, para bem a conduzires, poderás contar com a ajuda celestial, no entanto com a condição de que lutes como se deve lutar. Deus abençoa nas batalhas aqueles a quem convocou para a luta. Ataca, portanto, o que é do mundo, o que faz parte das más concupiscências, tudo aquilo que tens em ti de amor-próprio ou que novamente se insinua no teu coração, já dedicado a um outro Senhor: arranca isso ou decididamente afasta isso de ti. E fica convencido de que deves possuir aqueles anseios que estão de acordo com a tua vocação, que te estimulam ao desprezo de ti mesmo, à propagação da glória divina e ao zelo religioso. A seguir, deves de tal forma extinguir em ti o amor-próprio que não sobre dele uma centelha sequer. Muitas vezes acontece que, depois de apagado o incêndio, o fogo em alguma parte escondido novamente se acende. Da mesma forma, alguma centelha de amor-próprio que tenha sido deixada em algum lugar costuma provocar um incêndio maior que o inicial. […]

Lembra-te de que, quando servias ao mundo, tratavas a Deus com a máxima aversão. Tu na verdade não percebias isso, mas aquele oculto amor ao mundo não era outra coisa senão um ódio declarado à Divina Majestade. Porquanto não podias amar os dois ao mesmo tempo: Deus e o mundo; porque, da mesma forma que o Olimpo não admite a existência de dois sóis, também o coração não pode ter dois amantes. Por isso, amando o mundo, ao qual servias, odiavas a Deus, o que não percebias. E quando agora espontaneamente te tornaste um escravo de Deus, deves entregar-Lhe todo o teu coração e odiar já para sempre o mundo, teu senhor anterior. Procura, portanto, através de ações, provar que amas a Deus” (IC 78v-79r). A ausência da vontade própria e a verdadeira imitação de Cristo e a busca da 167vontade de Deus, através da submissão à obediência, é um dos motivos que mais freqüentemente aparecem nos escritos do Padre Estanislau. Buscai primeiramente o Reino de Deus e o resto vos será acrescentado; não trilheis os caminhos do mundo, que busca sobretudo o “resto”, e nunca a Deus (cf. IC 132r) – exclama Ele dirigindo-se a nós através da sua vida e do que escreveu. Será que realmente imitas a Cristo? – pergunta às mais profundas camadas da nossa consciência. O fato de teres professado os votos e de vestires o hábito não faz necessariamente de ti um discípulo de Cristo, mas pode acontecer que te inscreva apenas no número dos imitadores de Judas. “Disse-lhe: Segue-me. Leva em consideração o fato de que o testemunho da verdadeira conversão é a verdadeira imitação de Cristo. Judas não se converteu, porque, embora tenha seguido os passos de Jesus, acompanhou-O traiçoeiramente e cheio de falsidade O seguiu pensando nos seus interesses materiais.

De outra forma, como podes imaginar, procedeu São Mateus. Ele foi um verdadeiro imitador de Cristo, visto que, levantando-se, seguiu os Seus passos.

Do que se levantou? Do pecado. Aonde seguiu a Cristo? À prática das virtudes.Eis que tens aqui uma boa regra que te é fornecida para a imitação de Cristo: levantar-se e seguir os Seus passos. Se não te levantares, não serás capaz de acompanhá-Lo, ainda que te pareça que estás seguindo os Seus passos. Se nos recônditos do teu amor-próprio escondes os interesses do amor a ti mesmo e outros semelhantes, não segues a Cristo, não imitas verdadeiramente a Cristo, ainda que vistas o traje religioso, ainda que tenhas professado os votos da obediência, castidade e pobreza e disso te vanglories. Por isso levanta-te e segue-O, porque, se não te levantares, jamais O acompanharás” (IC 135v).

Como foi mencionado acima, o radicalismo da imitação de Cristo pode ser encontrado em muitos, senão em todos os aspectos da vida do nosso Fundador.

Os três apresentados nesta conferência, ou seja: a categórica rejeição do mal, por menor que ele seja, a mudança dos costumes e a busca de Deus de todo o coração, vontade e inteligência, não foram escolhidos ao acaso, porquanto são, em sua essência, a realização das promessas do batismo. É o início e o ápice de todo o caminho cristão, a sua própria essência – essa renúncia ao demônio, ao pecado e tudo que a ele conduz, bem como o ingresso no mundo pascal da vontade e do amor de Deus. O dom da vida religiosa nos foi proporcionado para que possamos ser cristãos. Chamando-nos ao caminho dos conselhos evangélicos, Deus mostrou a cada um de nós aquele lugar melhor, onde podemos ser plenamente cristãos.

Santo Inácio de Antioquia, ao seguir ao lugar do seu martírio, numa carta aos cristãos de Roma escreve que deseja ser cristão, e não apenas dizer que o é. Com grande fervor procura convencê-los de que unicamente na experiência radical do cristianismo, que é o martírio, ele pode tornar-se verdadeiramente um homem e discípulo de Cristo. Podemos dizer, mantendo as devidas proporções, que o Padre Papczynski faz um apelo semelhante aos seus irmãos na vocação: não é suficiente falar; é preciso ser. E, para ser, o nosso compromisso deve ser total e definitivo.

 …..Que as palavras do Beato, que bendizem o triunfo de Cristo sobre a morte, infl amem os nossos corações para a continuação da celebração litúrgica e para toda a nossa vida: “A morte morreu no momento em que no lenho morreu a Vida. Quando Jesus, dando o sinal da morte, tendo inclinado a cabeça, entregou o espírito, então voltou a nós o sopro da vida. Quando morreu, Ele nos fortaleceu. Quando superou a morte, preparou para nós a alegria em razão do infi ndável triunfo. Que triunfo foi esse? “Consumida está a morte na vitória” – alegremente exclamou Paulo. Zomba da morte: “Onde está a tua vitória, ó morte? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? […] Mas graças a Deus, que nos deu a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo” (Christus Patiens VII).

No Beato Padre Estanislau Papczynski resplandeceu a vitória do Senhor e a plenitude da Sua vida, decorrente da Páscoa. Que resplandeçam também em nós. Para a vida eterna. Amém!

OBRAS DE MISERICÓRDIA NOS ESCRITOS E NA VIDA

 DO PADRE ESTANISLAU PAPCZYSKI, FUNDADOR DOS

MARIANOS[1]

Pe. Casimiro Krzyzanowski, MIC

Introdução*

Templum Dei Mysticum (TDM), O Templo Místico de Deus, é o escrito latino

que apresenta a mais completa e detalhada exposição da doutrina do Pe. Papczyski sobre as obras de misericórdia. Essa está contida no Capítulo XXI, intitulado:

 “Restauratio Templi Mystici”, “Reparação do Templo Místico”. Aqui, o “templo

místico de Deus” é a alma do cristão. Esta alma, afirma Pe. Estanislau, é destruída pela “opera impia”, isto é, os pecados, e, por isso, são necessárias obras misericordiosas, “opera pia”, para efectuar a “restauratio”, a reparação, isto é, uma renovação da alma, para a restabelecer no estado anterior. Numa palavra, o que foi danificado é preciso repará-lo.

 As obras de misericórdia são chamadas pelo Pe. Papczy􀀇ski “Pietatis actiones”, isto é, acções de piedade, de bondade, de clemência, e afirma que, por meio delas, se pode alcançar tudo de Deus: “quibus effeceris omnia apud Deum”1. O Pe. Estanislau segue a tradicional divisão das obras de misericórdia, que são catorze: apresenta as sete que dizem respeito ao corpo, as obras corporais e as sete que dizem respeito à alma ou ao espírito, as obras espirituais.

 A. Obras de misericórdia corporais

Pe. Papczyski põe em primeiro lugar a obra visitandi infirmos, visitar os enfermos. Esta obra de misericórdia, diz ele, é expressamente louvada por Jesus Cristo, porque é uma das obras pelas quais, como feitas a Ele próprio, no juízo final se receberá o Reino celeste: “estive doente e viestes visitar-me” (Mt 25, 36). “São de louvar, diz Pe. Estanislau, os que visitam os doentes pobres, e, por isso, chegam ao seu leito non vacuis manibus, isto é, não de mãos vazias.

 …Pe. Papczyski dedicava-se frequentemente a esta obra de misericórdia. Como o afirma um dos textos do seu Processo, deslocava-se “septios ad infirmos”, muito frequentemente aos enfermos, e Pe. Leporini informa-nos que visitava frequentemente os hospícios para os pobres, distribuindo por eles copiosas esmolas e provendo-lhes “necessaria”, as coisas para satisfazer as suas necessidades materiais e para cuidar das suas doenças. Além disso, com as suas orações, às vezes obtinha-lhes a cura.

Pe. Papczyski procurava “diligentemente” aliviar “inopias et calamitates”, isto

é, as indigências e os infortúnios dos pobres, e, por isso, mereceu o apelativo de “Pater pauperum”, Pai dos pobres e “Pater agentium et orphanorum”, Pai dos necessitados e dos órfãos.

Pe. Wyszyski menciona o facto de que Pe. Papczyski erigiu um hospício para manter, com meios de subsistência de todo o género, os idosos pobres, em Góra.

Quando a construção deste hospício foi interrompida com a morte do bispo Wierzbowski, para salvar esta obra de misericórdia, Pe. Estanislau dedicou-se a esse trabalho com os seus companheiros religiosos e, “com as próprias mãos”, completou a construção. “Redemptio captivorum, isto é, empenho em libertar os prisioneiros, especialmente das mãos dos infiéis”. “Oh, como é gloriosa! Como é rica em mérito!”, exclama Pe. Papczy􀀅ski, no louvor desta quarta obra de misericórdia corporal. Depois apresenta o exemplo do bispo Paulino de Nola, o qual, “depois de ter prodigalizado para este fim tudo o que pertencia à Igreja e o que ele mesmo possuía, se ofereceu prisioneiro voluntário aos Vândalos, como substituto de um jovem, filho de uma viúva pobre”. Pe. Papczyski dirige-se aos ricos e pergunta-lhes se “o seu ouro, que geme na prisão [isto é, em qualquer esconderijo], não deveria ser usado de um

modo mais conveniente para redimir os prisioneiros que gemem como escravos nas mãos dos Mouros e dos Tártaros!”

 Louva S. Pedro Nolasco e S. Raimundo porque “fundaram uma Congregação de religiosos que se dedicavam à redenção dos prisioneiros, até ao ponto de se oferecerem a eles mesmos em seu lugar para obter a sua libertação. Pena é, diz ele, que tais homens, tão santos e piedosos, os mercedários, não se encontrem na Polónia, pois poderiam prestar auxílio a tropas inteiras de polacos que estão detidos nas mãos dos Tártaros e dos Turcos, expostos como estão ao perigo de perder a sua salvação eterna”, evidentemente, perdendo a fé. Depois, oferece outro exemplo: “no cálculo de Deus, diz ele, ao asceta santíssimo Teódulo foi equiparado um comediante Cornélio, o qual, para remediar à vergonha de uma certa mulher e para obter a liberdade para o seu marido dissipador, encarcerado pelos seus credores, vendeu o vestuário e os móveis da casa, e com quatrocentas moedas de ouro assim adquiridas socorreu a miséria de outrem”. Disto se vê, conclui Pe. Papczyski, que “Deus vos estima muito, a vós que não tendes em nenhuma estima os vossos tesouros, quando os gastais em favor dos pobres”.

A quinta obra de misericórdia espiritual, que consiste em cuidar de “nudos operire, isto é, de vestir os nus, é-nos imposta, segundo o Pe. Papczyski, pela própria lei da natureza. Porque, quem somos nós para poder suportar descoberta a carne proveniente da nossa carne?

“Não o pôde, diz ele, aquela Taumaturga de Sena [isto é, Santa Catarina de Sena], a qual se despojou da sua túnica [aqui chamada: ‘veste interior’] para cobrir um pobre, e, por isso, como dom de Cristo, obteve a impassibilidade ao frio”4.

“Não o pôde suportar, Martinho, ainda catecúmeno, o qual, com a metade do

seu manto, cobriu um homem nu, isto é, Cristo”, observa Pe. Estanislau.

“Não o pôde suportar, João [de facto, era Pedro] Gamrat, Bispo de Cracóvia, o

qual, embora não sendo santo, de um carro com indumentos, que o acompanhava, costumava distribuí-los aos indigentes que encontrava, enquanto passava pelos caminhos. Por isso, mereceu ser avisado, pelo céu, da sua morte, a tempo oportuno, a fim de que pudesse juntar a penitência à misericórdia e se salvasse.

… “Ai de vós, dirige-se Pe. Estanislau àqueles que descuram esta obra de misericórdia, que talvez dais alimento a muitos cães e permitis que os homens morram de fome! A vós que fechais os batentes da porta aos peregrinos e impedis, também, às vossas portas, a entrada aos homens pios e religiosos, Cristo não vos expulsará da porta do Céu?

“Não sabeis, pergunta Pe. Papczyski, que a prostituta [Raab], pela hospitalidade oferecida benevolamente aos dois exploradores, foi recebida nas moradas celestes?” (Cf. Jos 2, 1-22; 6, 22-23.25)5.

Depois, Pe. Papczy􀀃ski cita o provérbio: “Hospes venit, Christus venit”, isto é “Chega um hóspede, chega Cristo”, que nos recorda o provérbio polaco (e português): “Hóspede em casa, Deus em casa”, e explica: “quem recebe um hóspede recebe Cristo; e Cristo, por sua vez, conclui o nosso autor, não receberá aquele que o acolheu nos tabernáculos eternos?”.A resposta a esta pergunta é: sim, recebê-lo-á certamente.

Considerando a sétima obra de misericórdia corporal, Pe. Estanislau exorta os

fiéis a “Sepelire mortuos, isto é, sepultar os mortos gratuitamente, só por caridade; e isto, segundo Pe. Papczy􀀃ski, não é para Deus um serviço de pouco valor. Este acontece raramente, anota ele, especialmente quando são poucos os que nele participam e também poucos os que o fazem. E entre estes, famosíssimo é Tobias, o velho, o qual pelas suas acções de piedade, como a de sepultar os mortos, se torna amigo de Deus”, como o afirma o nosso autor no início do capítulo. Pe. Papczy􀀃ski cita as palavras dirigidas a Tobias pelo Arcanjo Rafael: “Enquanto oravas, tu e a tua nora Sara, eu apresentava as vossas orações diante da glória do Senhor. Da mesma forma, enquanto enterravas os mortos, eu também estava contigo” (Tob 12, 12). E daqui, Pe. Papczyski conclui: “certamente de um modo eficassíssimo reza aquele que, crendo obter a misericórdia de Deus, a exerce para com o homem. Na verdade, pergunta o nosso autor, que misericórdia pode ser mais insigne do que a prestada aos mortos, dos quais não se pode esperar nenhuma recompensa, nenhuma gratidão e nenhum louvor?”6.

5 Trata-se daqueles dois exploradores enviados por Josué a Jericó. Pe. Estanislau chama-os Josué e Caleb, mas verdadeiramente não são conhecidos os seus nomes. Naquilo que diz respeito à recompensa dada a Raab por esta hospitalidade, do livro de Josué, só se sabe que esta com a sua família foi salva do extermínio dos habitantes de Jericó (“não morreu com os incrédulos”); mas, da Carta aos Hebreus e da Carta de Tiago, sabe-se que Raab foi salva pela sua fé ( He 11, 31), justificada por causa das suas obras (Tg 2, 25)

6 Hoje, à luz da doutrina da comunhão dos santos em Cristo, acreditamos que podemos ser ajudados por todos os fiéis defuntos, seja pelos que já são glorificados seja pelos que ainda se purificam depois desta vida ( cf. Catecismo da Igreja Católica, 956, 958, 1475 e 1479). No tempo em que viveu o Pe. Estanislau, acreditava-se que só depois das almas alcançarem o céu é que poderiam “recompensar-nos” da ajuda que lhe prestamos (cf. infra, quando se fala sobre a sexta obra de misericórdia espiritual).

 “E, por isso, afirma Pe. Papczyski, os que fazem tais coisas sem dúvida que

procuram a vida imortal”.

 B. Obras de misericórdia espirituais

São, depois, apresentadas, de um modo mais desenvolvido, as obras espirituais, assim chamadas, explica Pe. Papczyski, porque dizem respeito à “alma e não ao corpo”.

A primeira obra de misericórdia espiritual é: “Consilium dare indigenti”, ou seja, aconselhar quem tem necessidade de conselho. Habitualmente, refere-se aos que têm dúvidas, que têm necessidade de conselho. Pe. Papczy􀀃ski afirma que “mentis optimae est, isto é, é de óptima índole dar conselho sincero e salutar”. E prova-o do seguinte modo: “Deus criou os sábios, a fim de que os não sábios [ isto é, os homens com pouca capacidade de discernimento] sejam ajudados e dirigidos por eles.

Verdadeiramente piedoso é quem o faz sem ambicionar e procurar recompensa. Porque às vezes um recto conselho, afirma Pe. Estanislau, ajuda mais do que não sei quantos subsídios pecuniários. Muitos se precipitariam no Inferno se não encontrassem óptimos conselheiros; não poucos se perderiam se não se salvassem por um conselho de outrem.

Por isso, exorta o nosso autor, dêem os peritos o conselho no foro de consciência, no foro dos assuntos públicos, na cúria, nos campos militares; o conselho que achem mais salutar e útil, e o façam movidos pela caridade e, então, com esta exímia virtude, proverão também muito à própria salvação”.

Pe. Papczy􀀃ski afirma que os que procuram alcançar a perfeição, se se servem de óptimos conselheiros, fazem um máximo progresso nela e ilustram a Igreja inteira com as suas obras. Isto vê-se, segundo ele, na vida de Santa Teresa de Ávila: “Quantas grandes coisas, afirma ele, fez na Igreja a virgem Teresa, a qual se serviu, para além do Espírito Santo, de óptimos conselheiros!” E menciona um deles, S. Pedro de Alcântara, o qual “não só a ela, mas a muitos outros com os seus conselhos promovit ad astra”, isto é, fez avançar até ao Céu, aos cumes da virtude.

Por isso, afirma ele, “devem-se derramar os dons do Espírito Santo. Seria inveja e malícia se alguém recusasse mostrar justas e honestas coisas àquele que deseja sabêlas”. E, por fim, admoesta contra a avareza da qual é movido “quem quer receber mercês pelo seu conselho”.

Pe. Leporini afirma que Pe. Papczyski era conhecido como “Vir Consiliorum”,

isto é, homem famoso pelos seus conselhos, enquanto “os homens de todos os estados, condição e sexo iam a ele como a um oráculo e regressavam satisfeitos, dando graças a Deus”7.

“Dare veniam in nos delinquentibus, isto é, perdoar os ofensores e reatar relações amigáveis com os inimigos”. Realizar isto, afirma Pe. Papczyski, louvando esta segunda obra de misericórdia espiritual, “não é só propriamente cristão, mas é verdadeiramente divino”. E prova-o deste modo: “Em que é que exprimimos mais a bondade de Deus do que em perdoar as ofensas e em amar os inimigos? Já que a máxima bondade de Deus se manifestou em nós no facto de que, quando éramos seus inimigos, ele nos reconciliou consigo por Seu Filho. Deus não só nos concedeu o perdão dos pecados, mas, para satisfazer a justiça, quis que o Filho fosse imolado por nós. É LEPORINI, § 68.

isto que nos ensina o Apóstolo quando diz: «De facto, quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu pelos ímpios. Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa boa talvez alguém se atreva a morrer. Mas é assim que Deus demonstra o Seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós. […].

…Pe. Papczy􀀃ski, no Orator Crucifixus, cita Isidoro Clário, o qual afirma que Deus “permite que aconteçam as ofensas entre os homens, a fim de que todos tenham alguns devedores, aos quais deve ser dado o perdão; para que assim

 Ele possa perdoar-nos máximos débitos, que Lhe tínhamos de pagar”10. “E nós, maravilha-se Pe. Estanislau, que assim imprudentemente deliramos, preferimos antes precipitarmo-nos no Inferno do que suportar com paciência, perdoar, mergulhar nas feridas do Salvador qualquer pequena palavra de sarcasmo, ou um exíguo desprezo, ou uma pequena injúria. Contudo, todos os dias clamamos ao Pai celeste: «perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido». Se, portanto, não perdoamos, aumentamos as nossas ofensas, e isto é um absurdo e a prova de máxima insânia”. E Pe. Papczyski conclui: “O perdão deve ser dado sobretudo também àqueles que não no-lo pedem, para que, pedindo-o, o possamos obter de Deus. Devemos perdoar, a fim de que nos seja perdoado”11.

Quem, porém, quer ter a firme certeza desta clemência divina, deve, segundo Pe.Estanislau, não só perdoar aos seus ofensores, mas também amar os inimigos. De facto, das palavras de Jesus: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34), aprendemos que “devemos amar os nossos inimigos e perdoar-lhes as injúrias, a fim de que consigamos, assim, o certíssimo perdão e a remissão dos nossos delitos”12. Mais ainda, quem ama os inimigos obtém não só a remissão dos pecados mas também a adopção de filho de Deus, como o prometeu Cristo: “Amai os vossos inimigos”, […] a fim de que sejais filhos do vosso Pai, que está nos Céus”(Mt 5, 44-45).

Pe. Estanislau, tendo diante dos olhos tal dúplice efeito, exorta os fiéis ao amor

para com os inimigos, com as palavras de Santo Agostinho: “«exorto-vos ao amor para com os inimigos, porque não conheço nenhuma medicina mais útil para a sanação das feridas dos pecados. Embora exija muito esforço amar os inimigos será grande o prémio no futuro». Oh felicíssimo homem, exclama Pe. Estanislau, que por amor aos inimigos, obtém seja a remissão dos pecados seja a adopção de filho de Deus!”13.

Pe. Papczyski perdoava facilmente as injúrias recebidas. Os seus inimigos, se

caídos em qualquer grave doença, juntamente com o perdão, às vezes, recebiam das suas mãos também a cura; de uma ou de outra maneira eram ajudados por ele. Toda a sua vingança para com os adversários consistia no dirigir-se a eles com as palavras de Santa Hedviges: “Parcat tibi Deus!”, “Deus te perdoe!”14.

Na Norma Vitae, Pe. Papczyski exorta os Marianos a mostrar, sempre e em todas as ocasiões, às pessoas não pertencentes ao Instituto, mesmo às inimigas, “toda a possível caridade”, e quer que os Marianos se recordem sempre das obras de misericórdia, “que são feitas ao supremo Cristo Cabeça nos Seus membros”15.

Passando à terceira obra de misericórdia espiritual, Pe. Papczy􀀇ski afirma que

“Solari afflictos, ou seja, consolar os aflitos, não só com palavras, mas também com obras, não é uma fácil piedade”.

Pe. Papczyski distinguiu-se nesta obra de misericórdia. Segundo a irmã Otólia,

sua contemporânea, “ele consolava e ajudava os necessitados nas suas tribulações, enfermidades e aflições”16. Obtinha várias graças e consolações para aqueles que, nas suas aflições, se recomendavam às suas orações17.

“Tal piedade, anota o nosso autor, foi manifestada, segundo a narração de

Virgílio18, pela [rainha] Dido, a qual disse: «Non ignara mali, miseris succurrere disco – não ignorante dos males, aprendo a socorrer os míseros»19”. E Pe. Papczyski explica:

“deixando para trás a coutada da sua pátria Tiro, Dido, com toda a cidade de Cartago, recebeu o exilado Eneias com suma afabilidade. Embora pagã, mostrou o modo de socorrer os aflitos com os factos”.

E, depois, Pe. Estanislau dá-nos outros exemplos desta piedade: “A Job, os fiéis amigos, às palavras repletas de consolação acrescentaram os dons: «deram-lhe cada um uma cordeira e um brinco de ouro»” (Job 42, 11).

“A Mãe de Deus, a Beatíssima Virgem, angustiada pela crudelíssima morte do

seu dilectíssimo Filho, era confortada por João: a partir daquela hora, em que se fechou o nosso clementíssimo Salvador no túmulo, «tomou-a consigo» (cf. Jo 19, 27)”.

“O próprio Mestre celeste, encorajando os discípulos, dizia: «o vosso coração

não se perturbe nem se entristeça»” (Jo 14, 27).

“Ao contrário, o profeta, chorando sobre Jerusalém, cantava: «Chora sem cessar pela noite dentro; as lágrimas correm-lhe pelas faces. Entre todos os seus amantes, não há um que a console; todos os seus aliados a traíram, tornaram-se seus inimigos» (Lam 1, 2)”.

E Pe. Papczyski pergunta-se: “Que é mais grave do que não ter alguém que se

condoa, participando na sua dor? Que é mais cruel do que acrescentar uma aflição a um aflito?”.

Por isso, Pe. Estanislau admoesta os fiéis: “Estai atentos, Cristãos, alegrai, se

puderdes, também um triste inimigo. Alexandre vitorioso nobremente mostrou

compaixão por Dario vencido. A nós tais coisas não nos convêm. Contudo, o Apóstolo ordena-nos «chorar com quem chora» (Rom 12, 15). E nem Cristo, nosso Rei e Legislador, nos ensinou outra coisa com o seu exemplo, quando, «vendo a cidade», em que pouco depois deveria ser morto e que em breve seria destruída, «chorou sobre ela» (Lc 19, 41)”.

É de notar que Pe. Papczyski já se referiu a este episódio evangélico quando

tratou sobre o perdoar os ofensores. “Facilmente, se condói, também, afirma Pe. Estanislau, com a ruína espiritual dos outros aquele que experimentou a própria fragilidade. Famosíssimo era aquele padre Felipe Néri, o qual, ouvindo que alguém cometeu um pecado mais grave, costumava dizer: «Deus me conceda que eu não faça coisas piores».

“Certamente se uma calamitas – calamidade sofrida pelo próximo, às vezes,  provoca lágrimas em nós, é sobretudo a ruína espiritual que deve provocá-las, afirma Pe. Estanislau. Porque, que é mais infeliz do que o homem feito inimigo de Deus pelo

pecado? Tais homens devem ser, de todos os modos, encorajados, ajudados”.

E, depois, Pe. Estanislau anota que disto depende uma outra obra, a quarta obra

de misericórdia espiritual:

 Prudência e Mansidão

 Depois, Pe. Papczyski volta ao discurso sobre a prudência da repreensão,

porque, diz ele, “é preciso ter em conta a natureza daqueles que são repreendidos e a sua índole; devem ser tidos em consideração a ocasião e o modo de fazê-lo sapientemente. Mais, para os obstinados e os que estão privados da graça, é preciso pedir a Deus com máximo fervor para que realize com a sua luz o que supera a nossa prudência ou autoridade, do mesmo modo que transformou, às vezes, homens de máxima malvadez em homens de máxima santidade. Aqui é mais útil a oração do que uma rígida correcção ou uma severa repreensão. Por isso, disse muito bem o autor da Imitação de Cristo: «O que o homem não pode corrigir em si mesmo ou nos outros deve sofrê-lo com paciência, enquanto Deus não dispuser o contrário […]. Se alguém, depois de admoestado, uma ou duas vezes, não aceder, não alterques com ele; mas entrega tudo a Deus, que sabe tirar o bem do mal, para que a Sua vontade seja feita e o Senhor glorificado em todos os Seus servos»21”.

Porém, Pe. Papczy􀀃ski, citando estas palavras, não quer dissuadir da correcção, porque, diz ele, “unicuique mandatum est de proximo suo – a cada um é-lhe confiado o seu próximo. Contudo, continua o nosso autor, nem permito a indulgência, porque ela lança na ruína inteiras agregações.

“Quero, diz ele, que aqui esteja unida a caridade com a prudência e a paciência.”

 Aceitar ser julgado

 Pe. Estanislau anota que “já São Paulo recomendava bastante esta obra de misericórdia aos Coríntios”; procurava corrigir o seu modo de agir contrário a ela, dirigindo-lhes esta admonição: “«No entanto, um irmão processa o seu irmão, e isto diante dos não crentes! Ora, a existência de questões entre vós é já um sinal de inferioridade. Por que não preferis, antes, sofrer uma injustiça? Por que não preferis ser prejudicados? Mas, pelo contrário, sois vós que cometeis injustiças e causais danos, e isto contra os próprios irmãos! Ou não sabeis que os injustos não herdarão o Reino de Deus?» (1 Cor 6, 6-9)”.

“Desta cláusula do Apóstolo, verdadeiramente grave, afirma Pe. Papczyski, compreendo que é feliz quem sofre as ofensas; e, pelo contrário, é infeliz quem as faz. Quando aquele é exaltado pela recusada vingança tanto mais este é humilhado por Deus

… É bom perdoar, mas é mal irritar, ofender, oprimir. Enquanto eu, perdoando imito Cristo, tu perseguindo-me, rivalizas com os opressores de Cristo.

“Por isso, diz Pe. Papczyski, persuado a que se perdoem as ofensas, mas dissuado para que estas não se inflijam. Porque é útil para mim sofrer inocentemente, mas para ti é muito danoso maltratar-me. Ai! Então tu estás destinado a ir precipitadamente para o inferno, porque com a tua perseguição me fazes avançar para o Céu?” E Pe. Estanislau conclui com as palavras de Tomás de Kempis: “«Tem um grande e salutar purgatório neste mundo o homem paciente que, recebendo injúrias, mais se dói com a maldade dos outros do que com as próprias afrontas»33”.

 Ao perdão das ofensas convida-nos, sobretudo, afirma Pe. Estanislau, o exímio

exemplo que nos é dado por Cristo Crucificado, o qual assim rezava: “Perdoa-lhes, ó Pai, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). É a “primeira palavra” pronunciada por Cristo, da cruz, e Pe. Papczy􀀃ski desenvolve-a de modo a mostrar que, “remittendo remissionem obtineri, isto é, perdoando as ofensas aos outros, nós mesmos obtemos o perdão dos nossos pecados”34.

Portanto, Pe. Estanislau insiste que se perdoem as ofensas; exorta os fiéis para que perdoem aos inimigos, aos caluniadores, aos difamadores, aos perseguidores, aos adversários, aos invejosos, aos opressores: “Perdoa-lhes, e Deus te perdoará; com a tua mansidão provocarás a clemência de Deus: acredita-me, não permitirá ser superado por ti nela”35.

 [1]

 Esta conferência foi proferida em italiano a 5 de Abril de 2002, na V Semana de Espiritualidade sobre a Misericórdia de Deus, realizada no Convento de Balsamão, de 2 a 7 de Abril de 2002. Está publicada in IV E V SEMANA DE ESPIRITUALIDADE SOBRE A MISERICÓRDIA DE DEUS, Obras de Misericórdia, Edições MIC, FÁTIMA 2003, pp. 255-277. A tradução portuguesa, para esta publicação, foi feita pelo Pe. Basileu Pires, MIC, e pelo, ainda noviço, Ir. João Rodrigues, MIC.

Fonte:http://www.stanislauspapczynski.org

Biografia pelo Padre Basileu Pires

 Depois de uma adolescência e juventude marcadas pela aventurada e pela dor, em que abandonou, por cerca de dois anos, a casa dos pais, João faz os seus estudos, primeiro, no Instituto das Escolas Pias, e, depois, no colégio dos Jesuítas, onde fez os estudos humanísticos, e, em 1654, conclui o curso bienal de Filosofia.
Foi, provavelmente, aos 19 anos, durante os seus estudos no Instituto dos Piaristas, que João se sentiu chamado para ser religioso nessa congregação. É a 2 de Julho de 1654, já com 23 anos, que decide entrar para o Instituto das Escolas Pias da Mãe de Deus (Piaristas), recebendo o nome de Estanislau de Jesus Maria.
Naquele tempo a Polónia tinha sido invadida pelas tropas suecas. Certo dia, o noviço Estanislau foi agredido por um soldado sueco, protestante. Quando este puxou da espada para o matar (provavelmente, só porque viu nele, pelo hábito que vestia, um representante da Igreja Católica), Estanislau apresentou-lhe o pescoço para receber o golpe fatal, na esperança de poder dar a própria vida pela verdadeira fé. O soldado deu-lhe três golpes, os quais, porém, não lhe causaram senão uma intensa dor.
Emitiu os votos na Congregação dos Piaristas a 22 de Julho de 1656.
Ainda antes de ser ordenado padre, foi professor de Retórica durante 5 anos nos colégios da sua Congregação. A 12 de Março de 1661 é ordenado sacerdote. Continua como professor de Retórica até 1669. Sobre o assunto escreve um livro intitulado Introdução à Rainha das Artes, que foi publicado, pela primeira vez, em 1663, sendo muito apreciado.

Exerceu primorosamente o ofício de pregador, conquistando depressa o renome de “Orador famoso”.

Por defender que a eleição de todos os superiores da Província polaca da Congregação dos Piaristas fosse feita pelo Capítulo Provincial, de acordo com a legislação da Igreja e por defender a fiel observância da regra nas comunidades da sua Província, entrou em conflito com os superiores, tendo sido considerado um “perturbador da Província”. As constantes e graves perseguições promovidas pelos superiores à sua pessoa, o relaxamento da observância da vida religiosa entre os Piaristas, o desejo de estabelecer a paz e a tranquilidade entre os membros divididos, por causa dele, em duas facções opostas e o impedimento imposto pelos superiores à sua actividade literária foram as principais razões que levaram o Pe. Estanislau a sair da Congregação dos Piaristas, em 1670. Mas, no acto formal da saída, o Pe. Estanislau acrescentou uma solene proclamação (Oblatio) da sua plena adesão à segunda vocação religiosa, ou seja, a de iniciar um novo Instituto religioso, o dos Clérigos Marianos da Imaculada Conceição, e de viver nele segundo o espírito dos conselhos evangélicos, até à morte.

A grande aventura e missão do Beato Estanislau de Jesus Maria Papczyñski foi, sem dúvida, a fundação da Ordem dos Marianos da Imaculada Conceição.
Depois de muitas dificuldades passadas para obter a dispensa dos votos simples e do juramento de perseverança no Instituto dos Piaristas, em Setembro de 1671, veste o hábito branco em honra da Imaculada Conceição, pela qual era um apaixonado.
O P. Estanislau apresentou o seu projecto (expresso na Norma de vida) de fundação do Instituto da Imaculada Conceição a um grupo de eremitas de Korabiew, que aceitou, iniciando assim a primeira comunidade do novo instituto. A 24 de Outubro de 1673, o bispo da Diocese visitou esta comunidade, reconhecendo a Norma de vida do P. Estanislau e acrescentando-lhe uns Estatutos, dados por ele. Esta é reconhecida como a data da fundação da Congregação dos Marianos da Imaculada Conceição.
Em 1690, o Bem-aventurado Estanislau vai a Roma a fim de tratar da aprovação pontifícia do Instituto. Depois de perder a esperança de obter a aprovação com base nas próprias Constituições, decidiu escolher uma Regra já aprovada pela Santa Sé e agregar-se a uma Ordem já existente. Escolheu a Ordem da Imaculada Conceição de Santa Beatriz da Silva (portuguesa) e a Regra da mesma. A sua escolha não foi aceite por se tratar de uma Ordem feminina e por a Regra não ter sido adaptada a institutos masculinos. Regressa à Polónia.

A aprovação pontifícia é dada a 24 de Novembro de 1699, pelo Papa Inocêncio XII, ficando a Congregação dos Marianos da Imaculada Conceição sob a Regra das Dez Virtudes da Bem-aventurada Virgem Maria, com a consequente agregação à Ordem dos Franciscanos, com a tríplice missão de:

– Defender o mistério da Imaculada Conceição (Este dogma ainda não tinha sido definido. Foi esta a primeira Congregação masculina dedicada à Imaculada Conceição);
– Oferecer sufrágios pelas almas do Purgatório (particularmente pelos falecidos na guerra e dizimados pela peste);

– Prestar auxílio aos párocos (particularmente na catequese do povo simples).

Pe. Estanislau foi um intrépido apóstolo da abstinência das bebidas alcoólicas e determinou que essa fosse também uma característica da sua Ordem. Além da sua dedicação às obras de misericórdia espirituais, particularmente a do socorro às almas mais necessitadas do Purgatório, foi conhecido como um homem de “máxima caridade para com os irmãos” e apelidado de “Pai dos pobres”, “Pai dos necessitados e dos órfãos”.
A 14 de Abril do mesmo ano, O Servo de Deus Estanislau e os seus companheiros, convocados em Capítulo, aceitaram a Regra das Dez Virtudes Evangélicas de Maria e declararam-se prontos a emitir os votos solenes sob a mesma Regra.
A 16 de Junho de 1701, o Venerável Estanislau faz a sua profissão perante o Núncio Francisco Pignatelli, em Varsóvia, em que promete observar a Regra das Dez Virtudes, acrescentando a cláusula: “que não contrarie o espírito do nosso Instituto”. De seguida, recebe a profissão dos seus súbitos.

Pe. Estanislau de Jesus Maria Papczyñski pode finalmente exclamar: “Agora, Senhor, podeis deixar partir o vosso servo em paz…”. E assim aconteceu: Frei Estanislau morreu, com fama de santidade, a 17 de Setembro desse mesmo ano, em Góra Kalwaria, onde está sepultado, na capela da Ceia do Senhor.

 A Congregação dos Marianos da Imaculada Conceição, fundada pelo Venerável Servo de Deus Estanislau de Jesus Maria Papczyñski, em 1673, na Polónia, foi renovada pelo Beato Jorge Matulaitis, em 1909. Veio para Portugal em 1754, com o Venerável Servo de Deus Casimiro Wyszynski. Tendo sido expulsa, como todas as outras, em 1834, regressou, como congregação renovada, em 1954. Neste momento conta com duas Casas: uma, no Convento de Balsamão, em Trás-os-Montes, outra, em Fátima. No mundo, está presente em 18 países.

O objectivo da Congregação dos Marianos é viver o Evangelho à luz do mistério da Imaculada Conceição e imprimir o dinamismo deste mistério na acção evangelizadora que desenvolve. É também à luz do mistério da imaculada Conceição, como libertação radical do pecado e plenitude de salvação, que vai em auxílio dos nossos irmãos defuntos, para que, livres das penas devidas aos seus pecados, possam gozar da plenitude da felicidade em Cristo.

Não tendo nenhuma actividade especificamente carismática, mas atentos ao que o Espírito diz à Igreja, os Marianos, em Portugal, dedicam-se aos seguintes campos de apostolado: Apostolado da Misericórdia de Deus, Pastoral Juvenil e vocacional, Pastoral Paroquial, Pastoral do acolhimento, Diálogo entre a cultura e a fé.
Pe. Basileu Pires, MIC

Fonte:http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=47927


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