Biografia dos Santos

Santo Estanislau – Bispo e Mártir

Posted on: junho 5, 2010

Biografia de Santo Estanislau por Felipe Aquino

 O rei Boleslau II da Polônia (1058-1079) é lembrado nas páginas da história pelos empreendimentos militares vitoriosos que consolidaram o jovem Estado, alargando-lhe os limites à custa da Rússia, pela valorização das terras, por ele promovida com uma nova organização fundiária e pelas reformas políticas e econômicas. Deste rei, porém, o primeiro historiador polonês, Vicente Kadlubeck, lembra também as graves injustiças e o comportamento imoral na vida particular. Mas em seu caminho, Boleslau encontra um severo repreensor. Qual João Batista em relação a Herodes, o destemido bispo de Cracóvia, Estanislau, levantou sua voz, admoestando o onipotente soberano sobre seu dever de respeitar os direitos alheios.

Estanislau nasceu em 1030 na diocese de Cracóvia, em Szczepanowa, filho de pais pobres. Concluindo os primeiros estudos com os beneditinos de Cracóvia, aperfeiçoou-os na Bélgica, na célebre escola de Liège. Voltando a sua pátria, distingui-se pelo zelo pastoral e pelas benéficas iniciativas realizadas com caridade e inteligência. Morto o bispo de Cracóvia, o papa Alexandre II nomeou-o para o alto cargo. A sua designação foi, além do povo e do clero, acalentada pelo próprio Boleslau II, que nos primeiros anos, consentiu na obra de evangelização em toda a região e na formação do clero local, secular, que devia ocupar progressivamente o lugar dos monges beneditinos na administração da Igreja polonesa.

A boa harmonia entre o bispo e o soberano durou até que o corajoso Estanislau teve de antepor seus deveres pastorais à tolerância para com as faltas do amigo, pois a reprovável conduta do soberano corria o risco de alimentar os maus costumes dos súditos. As crônicas do tempo contam de fato que o rei, apaixonado por uma bela matrona, Cristina, esposa de Miecislau, sem demora mandou raptá-la, com grave escândalo para todo o país.

Ameaçada e depois efetivada a excomunhão do soberano, este não mais conteve o seu furor, fazendo trucidar Estanislau em Cracóvia, na Igreja de são Miguel, durante a celebração da missa. O ignóbil assassinato na catedral parece ter sido perpetuado pelas mãos do próprio soberano depois que os guardas tiveram de se retirar, porque eram impedidos por força misteriosa. Venerado pelos poloneses desde o dia do seu martírio, santo Estanislau foi canonizado a 17 de agosto de 1253 na basílica de são Francisco de Assis e desde então o seu culto é muito difundido na Europa e na América.

 

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Estanislau nasceu em Sézépanow, pequena cidade da Polônia perto de Cracóvia, no dia 26 de julho de 1030. Seu pai, Wielislas, era dos principais senhores do país; e sua mãe, Bogna, pertencia também a ilustre família. Ambos eram muito piedosos e esmoleres, o que influenciou muito beneficamente o caráter do filho, já de si propenso à virtude.

Bem dotado para os estudos, Estanislau cursou primeiro a universidade de Gnesen, então a mais famosa, e depois a mundialmente célebre universidade de Paris, onde estudou direito canônico e teologia.

Empreende a verdadeira reforma da Igreja

Quando voltou à sua pátria, tornara-se herdeiro de boa fortuna pela morte dos pais. Vendeu tudo, revertendo o dinheiro em favor dos pobres, e foi ordenado sacerdote pelo bispo de Cracóvia, Lamberto Zula, que o fez cônego da sua catedral.

Como pregador, logo adquiriu fama, sendo também muito procurado como diretor de consciência. Sua reputação tornou-se tão grande, que muitos eclesiásticos e leigos vinham de todas as partes da Polônia para consultá-lo sobre problemas de consciência ou canônicos. Com fé profunda, esmerada prudência e sólida erudição, tornou-se muito conhecido. Não é de admirar que, quando D. Lamberto faleceu, todos – rei, nobres, clero e povo – o escolhessem para sucedê-lo. Recusou-se peremptoriamente a aceitar o cargo, sendo necessária uma ordem formal do Papa Alexandre II para que cedesse. Foi sagrado no ano de 1072, aos 42 anos de idade.

A partir de então dedicou-se com energia à reforma da Igreja, tão desejada pelo Sumo Pontífice, exigindo que seu clero tivesse vida edificante e agradável a Deus, não só para servir de modelo, mas sobretudo para oferecer, com mãos puras, o santo sacrifício da Missa. Ele começava por dar o exemplo da piedade mais profunda e abnegação mais completa.

Todos os anos visitava as diversas partes de sua diocese, corrigindo abusos, promovendo o santo sacramento do crisma, reconciliando inimigos e casais separados. Elaborou uma lista dos pobres e viúvas de sua diocese, para melhor poder socorrê-los.

Sem virtude, mas valente, o rei torna-se déspota

No ano de 1058, tinha subido Boleslau II ao trono ducal da Polônia, cuja capital era então Cracóvia. Era um príncipe ambicioso e valente. Dizem os historiadores que ninguém era mais atrevido no combate, mais ágil e destro no manejo da lança e da espada, mais sofrido no campo de batalha. Por isso foi vitorioso tanto nas planícies da Hungria quanto nas estepes russas e pântanos da Pomerânia. Tornou-se tão forte, que separou-se do Sacro Império Romano Alemão. E no Natal de 1076, colocou a coroa real em sua cabeça.

O país tornou-se então refúgio seguro para outros príncipes caídos em desgraça, como Bela da Hungria, Jaromir da Boêmia e Isaslao da Rússia, que aí encontraram amparo e apoio.

Sem virtude sólida, o sucesso subiu à cabeça de Boleslau, fazendo-o tão soberbo e libidinoso quanto os legendários reis orientais da história antiga. Seu palácio transformou-se num harém. Como um vício atrai outro, tornou-se déspota, perseguindo não só a nobreza, mas também o povo. Num paroxismo de sensualidade, chegou ao vício infame da sodomia.

Tornou-se tão temível, que ninguém tinha coragem de levantar a voz contra ele. Ou quase ninguém, pois Estanislau, bispo da capital do reino, não conhecia temores. Numa assembléia plenária do clero e nobres, na presença do rei, começou a pregar as verdades da moral católica e a defender os direitos da justiça e da virtude. Falou dos juízos de Deus, da perda das almas, dos castigos eternos, da continência, da santidade do matrimônio e dos direitos de súditos e vassalos em qualquer reino. Isso atingia diretamente o rei, que respondeu irado, com uma série de injúrias e insultos, chamando o prelado de hipócrita e soberbo. Foi o início de uma batalha sem quartel entre o bispo e o rei, que só terminaria com o assassinato do bispo.

“Não te é lícito, ó rei, teres a mulher de outro”

Um fato foi além de todas as medidas despóticas de Boleslau. Um de seus vassalos, Miécislas, era casado com uma mulher notável por sua virtude e beleza. Passava mesmo como sendo a mulher mais bela do reino. Boleslau a mandou seqüestrar e levar para seu palácio.

Esse ato escandaloso e imoral revoltou toda a nobreza, que se dirigiu ao arcebispo de Gnesen, então primaz, e aos outros bispos do reino, pedindo-lhes que fossem falar ao déspota e mostrar-lhe a iniqüidade de sua ação. Mas os prelados temeram irritar o monarca, e se mostraram muito lenientes. A nobreza se vingou deles, publicando por toda parte que eram mercenários, e que tinham muito menos em conta a causa de Deus do que sua própria fortuna e ambição.

Não foi desse número Santo Estanislau. Com voz respeitosa, mas firme, ele disse a Boleslau o que outrora São João Batista dissera ao rei Herodes: “Não te é permitido tomá-la por mulher!” (Mt 14,4). Censurou também o soberano por suas desordens, e alertou-o de que, se não se corrigisse, expunha-se às censuras da Igreja. Arrogante, Boleslau insultou novamente o bispo, dizendo com grosseria: “Quando se fala assim de maneira tão pouco conveniente a um rei, dever-se-ia ser guardador de porcos”.

A guerra entre os dois chegava ao auge. Não encontrando na vida privada do prelado nada que o desabonasse, Boleslau recorreu à calúnia, chamando-o de usurpador do bem alheio. Era uma alusão ao seguinte fato: o bispo tinha comprado um terreno em Piotrawin, de um certo Pedro, e havia pago o preço em presença de testemunhas, confiando na boa-fé das mesmas. Como naquele tempo a palavra dada, tinha força de lei, ele não se importou em ter um recibo de quitação. Acontece que Pedro faleceu. Boleslau procurou então os sobrinhos e herdeiros, pedindo-lhes que reclamassem novamente o pagamento, pois ele, rei, faria calar as testemunhas.

Santo Estanislau teve de comparecer a um julgamento presidido pelo rei, com vários juízes, diante das testemunhas intimidadas que não quiseram declarar-se em seu favor. Vendo que não podia contar com os homens, pediu a Deus que fosse sua testemunha. Inspirado pelo Céu, pediu aos juízes um prazo de três dias, findo o qual traria como testemunha o próprio vendedor, Pedro. Ora, este havia falecido três anos antes. Por isso, como zombaria, os juízes aceitaram.

Nos dois dias seguintes o santo jejuou e celebrou a santa Missa, pedindo a Nosso Senhor que defendesse sua causa. No terceiro, depois de celebrar, foi ao cemitério revestido com os trajes episcopais, escoltado por seus clérigos e muitos fiéis. Pediu que abrissem o túmulo de Pedro, e tocou seus restos mortais com o báculo. Imediatamente o corpo do falecido se recompôs, e Santo Estanislau pôde ir com o ressuscitado ao tribunal, e diante dos presentes aterrorizados, comprovou a inocência do santo.

Martirizado aos pés do altar onde celebrava

Como o monarca prosseguisse com suas iniqüidades, Santo Estanislau excomungou-o publicamente e interditou-lhe a entrada na catedral. Mas Boleslau continuou a assistir ao divino sacrifício, sem se importar com a excomunhão. O bispo então ordenou ao clero que interrompesse a missa tão logo o rei entrasse no recinto sagrado. O rei jurou vingança.

No dia 8 de maio de 1079, Santo Estanislau celebrava a santa Missa na igreja de São Miguel, nos arredores da cidade, quando ouviu o tropel de gente de guerra, mas não interrompeu o santo sacrifício. Era Boleslau, que vinha acompanhado de seus soldados para vingar-se. Mandou que alguns deles entrassem na igreja e matassem o celebrante, mas os soldados não ousaram levantar a mão contra seu pastor. Então o próprio rei entrou no santuário e desferiu violento golpe na cabeça de Estanislau, em seguida trespassou-lhe o coração, cortou-lhe o nariz e desfigurou o rosto. Mandou cortar depois o corpo em quatro partes e espalhar pela cidade. Alguns fiéis, desobedecendo à ordem do rei, reuniram os restos mutilados do mártir e os enterraram em frente da igreja de São Miguel. Mais tarde seus restos mortais foram transferidos para a catedral.

O grande pontífice São Gregório VII, ao saber do horrendo crime, pôs em interdito o reino da Polônia, excomungou e depôs o rei, que acabou abdicando.

O santo mártir foi canonizado em 1253 pelo papa Inocêncio IV. É ele um dos padroeiros da Polônia, venerado sobretudo em Cracóvia, sua cidade episcopal.

E-mail do autor: pmsolimeo@catolicismo.com.br

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Obras consultadas:
•    Les Petits Bollandistes, Saint Stanislas, évêque de Cracovie, Martyr, in Vies

des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo V, pp. 385 e ss.

•    Frei Justo Perez de Urbel, O.S.B., San Estanislao de Cracóvia, in Año

Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo II, pp. 304 e ss.

•    Pe. José Leite, S.J., Santo Estanislau, Mártir, in Santos de Cada Dia,

Edições A.O., Braga, 1993, tomo I, pp. 457-458.

•    Francis Mershman, Saint Stanilaus of Cracow, in The Catholic

Encyclopedia, Online Edition Copyright © 2003 by Kevin Knight,

•    Juan Bautista Weiss, História Universal, Tipografia La Educación,

Barcelona, 1927, vol. V, pp. 544-545.

 

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II À POLÓNIA

MISSA PONTIFICAL DO SANTO PADRE

EM HONRA DE SANTO ESTANISLAU

Cracóvia, 10 de Junho de 1979

 

Louvado seja Jesus Cristo!

1. Todos nós hoje aqui reunidos nos encontramos diante de um grande mistério da história do homem. Cristo, depois da sua Ressurreição, encontra-se com os apóstolos na Galileia e dirige-lhes as palavras que há pouco ouvimos dos lábios do diácono que proclamou o Evangelho: Foi-Me dado todo o poder no céu e na terra: Ide, pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos tenho mandado. E Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo (Mt. 28, 18-29).

Nestas palavras está encerrado o grande mistério da história da humanidade e da história do homem.

Cada homem, de facto, caminha. Caminha em direcção ao futuro. Também as nações caminham. E toda a humanidade. Caminhar significa não só sofrer as exigências do tempo, deixando continuamente atrás de si o passado: o dia de ontem, os anos, os séculos… Caminhar significa estar consciente também do fim.

Será que o homem e a humanidade no seu caminho através desta terra passam apenas ou desaparecem? Para o homem tudo consistirá no que ele, sobre esta terra, constrói, conquista e usufrui? Independentemente de todas as conquistas, de todo o conjunto da vida (cultura, civilização e técnica) não o esperará nada mais? «Passa a figura deste mundo»! E o homem? Passa totalmente junto com ela?…

As palavras pronunciadas por Cristo no momento da despedida dos Apóstolos exprimem o mistério da história do homem, de todos e cada um, o mistério da história da humanidade.

O baptismo no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo é uma imersão no Deus vivo, «n’Aquele que É», como diz o livro do Génesis, n’Aquele que é, que era e que vem, como diz o Apocalipse (Apoc. 1, 4). O baptismo é o início do encontro, da unidade, da comunhão, pelo que toda a vida terrena é apenas um prólogo e uma introdução; o cumprimento e a plenitude pertencem à eternidade. «Passa a figura deste mundo». Devemos, por conseguinte, encontrar-nos «no mundo de Deus», para alcançar o fim, para chegar à plenitude da vida e da vocação do homem.

Cristo mostrou-nos este caminho e, despedindo-se dos Apóstolos, reconfirmou-o mais uma vez, recomendou-lhes que eles e toda a Igreja ensinassem a observar tudo o que Ele lhes tinha dito: Eu estarei sempre convosco até ao fim do mundo.

2. Escutamos sempre com a maior comoção estas palavras com que o Redentor ressuscitado delineia a história da humanidade e juntamente a história de cada homem. Quando diz «ensinai todas as nações» aparece diante dos olhos da nossa alma o momento em que o Evangelho chegou à nossa Nação, nos inícios mesmos da sua história, e quando os primeiros Polacos receberam o baptismo no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. O perfil espiritual da história da Pátria foi traçado pelas próprias palavras de Cristo, ditas aos Apóstolos. O perfil da história espiritual de cada um de nós foi traçado mais ou menos da mesma maneira.

O homem, de facto, é um ser racional e responsável. Pode e deve, com o esforço pessoal do pensamento, chegar à verdade. Pode e deve decidir. O baptismo, recebido nos inícios da história da Polónia, tornou-nos ainda mais conscientes da autêntica grandeza do homem; «a imersão na água» é sinal do chamamento a participar na vida da Santíssima Trindade, e é ao mesmo tempo uma verificação insubstituível da dignidade de cada homem. Já o mesmo chamamento testemunha em seu favor: o homem deve ter uma dignidade extraordinária, se foi chamado para tal participação, para a participação na vida do próprio Deus.

Do mesmo modo, todo o processo histórico da consciência e das opções do homem está intimamente ligado à viva tradição da própria nação, na qual, através de todas as gerações, ressoam com vivo eco as palavras de Cristo, o testemunho do Evangelho, a cultura cristã, os costumes nascidos da fé, da esperança e da caridade. O homem escolhe conscientemente, com liberdade interior. Aqui a tradição não é limitação: é tesouro, é riqueza espiritual, é um grande bem comum, que se confirma com toda a opção, com todo o acto nobre, com toda a vida autenticamente vivida como cristão.

Pode-se renegar tudo isto? Pode-se dizer não? Pode-se recusar a Cristo e a tudo aquilo que Ele trouxe para a história do homem?

Pode-se certamente. O homem é livre. O homem pode dizer a Deus: não. O homem pode dizer a Cristo: não. Mas permanece a pergunta fundamental: é lícito fazê-lo? E em nome de quê é lícito? Que argumento racional, que valor da vontade e do coração podes apresentar diante de ti mesmo, do próximo, dos compatriotas e da nação para recusar, para dizer «não» àquilo de que todos vivemos durante mil anos? Aquilo que criou e sempre constituiu as bases da nossa identidade?

Uma vez Cristo perguntou aos Apóstolos (isto aconteceu depois da promessa da instituição da Eucaristia, e muitos afastaram-se d’Ele): também vós quereis retirar-vos? (Jo. 6, 67). Permiti que o sucessor de Pedro, perante vós todos aqui reunidos, perante toda a nossa história e a sociedade contemporânea, repita hoje as palavras de Pedro, que foram então a sua resposta à pergunta de Cristo: Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna (Jo. 6, 68).

3. Santo Estanislau foi Bispo de Cracóvia durante sete anos, como é confirmado pelas fontes históricas. Este bispo-compatriota, oriundo da não distante Szczepanow, assumiu a sede de Cracóvia em 1072, para a deixar em 1079, sofrendo a morte pelas mãos do rei Boleslau, o Ousado. O dia da morte, segundo as mesmas fontes, era o 11 de Abril e é neste dia que o calendário litúrgico da Igreja universal comemora Santo Estanislau. Na Polónia, porém, a solenidade do bispo mártir é desde há séculos celebrada a 8 de Maio e continua a sê-lo também hoje.

Quando, como metropolita de Cracóvia, iniciei convosco os preparativos para o nono centenário da morte de Santo Estanislau, que é comemorado este ano, todos estávamos ainda sob a impressão do milénio do Baptismo da Polónia, celebrado no ano do Senhor de 1966. Na perspectiva deste acontecimento e em confronto com a figura de Santo Adalberto, também ele bispo e mártir, cuja vida esteve ligada na nossa história à época do baptismo, a figura de Santo Estanislau parece indicar (por analogia) outro sacramento, que faz parte da iniciação do cristão na fé e na vida da Igreja. Este sacramento, como é sabido, é o sacramento do Crisma, ou seja da Confirmação. Toda a releitura «jubilar» da missão de Santo Estanislau na história do nosso milénio cristão, e ainda toda a preparação espiritual para as celebrações deste ano se referiam precisamente a este sacramento do Crisma, isto é, da confirmação.

A analogia tem muitos aspectos. Sobretudo, porém, procurámo-la no de s envolvimento normal da vida cristã . Tal com o um homem baptizado se torna cristão maduro mediante o sacramento do Crisma, assim também a Providência Divina deu à nossa Nação, na altura própria, depois do Baptismo, o momento histórico do Crisma. Santo Estanislau, que da época do baptismo está separado por quase um século inteiro, de modo particular simboliza este momento pelo facto de ter dado testemunho a Cristo derramando o próprio sangue. O sacramento do Crisma na vida de cada cristão, habitualmente jovem, porque é a juventude que recebe este sacramento — também naquele tempo a Polónia era nação e país jovem — deve fazer com que também ele se torne «testemunha de Cristo» na medida da própria vida e da própria vocação. É este um sacramento que de modo particular nos associa à missão dos Apóstolos, enquanto introduz cada neófito no apostolado da Igreja (especialmente no chamado apostolado dos leigos).

É o sacramento que deve fazer nascer em nós um agudo sentido de responsabilidade pela Igreja, pelo Evangelho, pela causa de Cristo nas almas humanas, pela salvação do mundo.

O sacramento do Crisma recebemo-lo só uma vez na vida (como acontece com o baptismo), e toda a vida que se abre na perspectiva deste sacramento adquire o aspecto de uma prova grande e fundamental: prova de fé e de carácter. Santo Estalisnau tornou-se, na história espiritual dos Polacos, padroeiro daquela grande e fundamental prova de fé e de carácter. Veneramo-lo também como padroeiro da ordem moral cristã. Em definitivo, de facto, a ordem moral constitui-se através dos homens. Esta ordem, por conseguinte, é composta de um grande número de provas, cada uma das quais é prova de fé e de carácter. È de cada prova vitoriosa que deriva a ordem moral. ao passo que toda a prova falida traz desordem.

Sabemos ainda muito bem, por toda a nossa história, que não podemos absolutamente, de modo algum, permitir-nos esta desordem, que já muitas vezes pagámos amargamente.

E portanto a nossa meditação de sete anos sobre a figura de Santo Estanislau, a nossa referência ao seu ministério pastoral na sede de Cracóvia, o novo exame das suas relíquias, ou seja do crânio do Santo, que tem gravados os vestígios dos golpes mortais — tudo isto nos leva hoje a uma grande e ardente oração pela vitória da ordem moral nesta difícil época da nossa história.

É esta a conclusão essencial de todo o perseverante trabalho destes sete anos, a condição principal e juntamente a finalidade da renovação conciliar, para a qual trabalhou tão pacientemente o Sínodo da arquidiocese de Cracóvia; e também o principal motor da pastoral e de toda a actividade da Igreja, de todos os trabalhos, de todas as tarefas e programas que são e serão empreendidos na terra polaca.

Que este ano de Santo Estanislau seja o ano de uma particular maturidade histórica da Nação e da Igreja na Polónia, o ano de uma nova, consciente responsabilidade pelo futuro da Nação e da Igreja na Polónia: eis o voto que hoje aqui convosco, veneráveis ou dilectos Irmãos e Irmãs, desejo, como primeiro Papa de estirpe polaca, oferecer ao imortal Rei dos séculos, ao eterno Pastor das nossas almas e da nossa história, ao Bom Pastor!

4. Permiti agora que, para fazer uma síntese, abrace espiritualmente toda a minha peregrinação na Polónia que, inicia da na véspera do Pentecostes em Varsóvia, está para concluir-se hoje em Cracóvia, na solenidade da Santíssima Trindade. Desejo agradecer-vos, caríssimos compatriotas, por tudo! Porque me acompanhastes ao longo do percurso inteiro da peregrinação, deste Varsóvia e através da Gniezno dos Primazes e de Jasna Gora. Agradeço mais uma vez às Autoridades do Estado o seu gentil convite e acolhimento. Agradeço também às Autoridades de todas as voivodias, e especialmente às Autoridades da cidade de Varsóvia e — nesta última etapa — às Autoridades municipais da antiga cidade real de Cracóvia. Agradeço à Igreja da minha Pátria: ao Espiscopado, dirigido pelo Cardeal Primaz, ao Metropolita de Cracóvia e aos meus Irmãos Bispos: Julião, João, Estanislau e Albino, com os quais me foi dado colaborar por muitos anos, aqui em Cracóvia, na preparação do Jubileu de Santo Estanislau. Agradeço também aos Bispos de todas as Dioceses sufragâneas de Cracóvia, Czstochowa, Katoowice Kielce e Tarnow. Tarnow é, através de Szczepanow, a primeira pátria de Santo Estanislau. Agradeço a todo o Clero. Agradeço às Ordens religiosas masculinas e femininas. Agradeço a todos e a cada um em particular. E verdadeiramente coisa boa e justa, nosso dever e fonte de salvação, agradecer.

Também eu, agora neste último dia da minha peregrinação através da Polónia, desejo abrir largamente o meu coração e dizer em voz alta, dando graças nesta magnífica forma de «prefácio». Como desejo que este meu agradecimento chegue à Divina Majestade, ao coração da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo!

Meus Compatriotas! Com quanto calor agradeço mais uma vez, juntamente convosco, o dom de termos sido — há mais de mil anos — baptizados no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; e termos sido imersos na água que, mediante a graça, aperfeiçoa em nós a imagem do Deus vivo — na água que é uma onda de eternidade: nascente de água a jorrar para a vida eterna (Jo. 4, 14). Agradeço porque nós homens, nós Polacos, cada um dos quais nasce como homem da carne e do sangue (Cfr. Jo. 3, 6) dos seus pais, fomos concebidos e nascemos também do Espírito (Cfr. Jo. 3, 5). Do Espírito Santo.

Desejo pois hoje, estando aqui — nestes vastos prados de Cracóvia — e voltando o olhar para Wawel e Skalka onde, há novecentos anos «sofreu a morte o célebre Bispo Estanislau» realizar mais uma vez o que se actua no sacramento do Crisma ou seja no sacramento da Confirmação, de que Ele é símbolo na nossa história. Desejo que aquilo que foi concebido e nasceu do Espírito Santo, seja novamente confirmado mediante a Cruz e a Ressurreição de Cristo, na qual participou de modo particular o nosso compatriota Estanislau de Szczepanow.

Permiti, por conseguinte, que, como o bispo durante o Crisma, assim também eu repita aquele gesto apostólico da imposição das mãos sobre todos aqueles que estão aqui presentes, sobre todos os meus compatriotas. Nesta imposição das mãos exprime-se, de facto, a aceitação e a transmissão do Espírito Santo, que os Apóstolos receberam do próprio Cristo, quando, depois da Ressurreição, foi até junto deles estando fechadas as portas (Jo. 20, 19) e disse recebei o Espirito Santo (Jo. 20, 22).

Este Espírito, Espírito de salvação, de redenção, de conversão e de santidade, Espírito de verdade, Espírito de amor e Espírito de Fortaleza — herdado dos Apóstolos como força viva — era transmitido muitas vezes pela s mãos dos bispos a gerações inteiras na terra polaca. Este Espírito — tal como o bispo oriundo de Szczepanow o transmitia aos seus contemporâneos — desejo hoje transmiti-to eu a vós. Desejo hoje transmitir-vos este Espírito Santo abraçando cordialmente com profunda humildade, aquele grande «Crisma da história» que vos viveis.

Repito pois, seguindo o próprio Cristo: / Recebei o Espírito Santo (Id. ibid.) /Repito seguindo o Apóstolo: Não extingais o Espírito! (1 Tess. 5, 19). / Repito seguindo o Apóstolo: Não entristeçais o Espírito Santo! (Ef. 4, 30).

Deveis ser fortes, Caríssimos Irmãos e Irmãs! Deveis ser fortes daquela força que brota da fé! Deveis ser fortes da força da fé! Deveis ser fiéis! Hoje, mais do que em qualquer outra época, tendes necessidade desta força. Deveis ser fortes da força da esperança que traz a perfeita alegria de viver e não permite entristecer o Espírito Santo!

Deveis ser fortes do amor, que é mais forte que a morte, como revelaram Santo Estanislau e o Beato Maximiliano Maria Kolbe. Deveis ser fortes daquele amor que é paciente e benigno…; não é invejoso…; não se ufana, não se ensoberbece, não é inconveniente, não procura o seu interesse, não se irrita, não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo crê, tudo espera, tudo suporta, aquele amor que nunca acabará (1 Cor. 13, 4-8).

Deveis ser fortes da força da fé, da esperança e da caridade, consciente, madura, responsável, que nos ajuda a estabelecer aquele grande diálogo com o homem e com o mundo nesta etapa da nossa história: diálogo com o homem e com o mundo, radicado no diálogo com o próprio Deus — com o Pai por meio do Filho no Espírito Santo — diálogo da salvação.

Quereria que este diálogo fosse retomado em conjunto com todos os nossos irmãos cristãos, embora hoje ainda separados, mas unidos por uma única fé em Cristo. Falo sobre isto, aqui, deste lugar, para exprimir palavras de gratidão pela carta que recebi dos representantes do Conselho Ecuménico polaco. E embora não se tenha chegado, por causa do programa tão denso, a um encontro em Varsóvia, recordai-vos, queridos irmãos em Cristo, que trago este encontro no coração como um vivo desejo e como expressão da confiança para o futuro.

Aquele diálogo não deixa de ser vocação através de todos «os sinais dos tempos». João XXIII e igualmente Paulo VI, no Concílio Vaticano II. acolheram este convite ao diálogo. João Paulo II. desde o primeiro dia confirma a mesma disponibilidade. Sim ! É necessário trabalhar pela paz e a reconciliação entre os homens e as nações de todo o mundo. É necessário procurarmos aproximarmo-nos reciprocamente. É necessário abrir as fronteiras. Quando somos fortes do Espírito de Deus, somos também fortes da fé no homem — fortes da fé, da esperança e da caridade que são indissolúveis — e estamos prontos a dar testemunho à causa do homem perante aquele que tem verdadeiramente a peito esta causa. Para quem esta causa é sagrada. Aquele que deseja servi-la segundo a melhor vontade. Não se deve, pois, ter medo! É preciso abrir as fronteiras! Recordai-vos que não existe o imperialismo da Igreja, mas só o serviço. Há só a morte de Cristo no Calvário. Há a acção do Espírito Santo, fruto desta morte, Espírito Santo que permanece com todos nós, como a humanidade inteira, até ao fim do mundo (Mt. 28, 20).

Com particular alegria saúdo aqui os grupos dos nossos irmãos chegados do sul, de além dos Cárpatos. Deus vos recompense pela vossa presença. Como desejaria que aqui pudessem estar presentes também os outros! Deus vos recompense, irmãos Lusazianos. Como desejaria que pudessem estar presentes durante esta peregrinação do Papa Eslavo, também outros nossos irmãos na língua e nos acontecimentos da história. E se não estão, se não estão presentes neste parque, recordem que por isso estão ainda mais presentes no nosso coração. Recordem que estão mais presentes no nosso coração e na nossa prece.

5. Existe ainda, lá em Varsóvia, na Praça da Vitória, o túmulo ao Soldado Desconhecido, junto do qual iniciei o meu ministério de peregrino em terra polaca; e aqui, em Cracóvia no Vístula — entre Waevel e Skalka — o túmulo «ao Bispo Desconhecido» do qual ficou uma admirável «relíquia» no tesouro da nossa história.

E por isso, permiti que, antes de vos deixar, dirija ainda o meu olhar para Cracóvia, esta Cracóvia em que cada pedra e cada tijolo me são queridos. E que veja ainda daqui a Polónia…

E por conseguinte, antes de me ir embora daqui, peço-vos que aceiteis, mais uma vez todo o património espiritual cujo nome é «Polónia», com a fé, a esperança e a caridade enxertada por Cristo em nós no santo Baptismo.

Peço-vos

— que não percais nunca a confiança, que não vos abatais, que não vos desencorajeis;

— que não corteis por vós as raízes de que tivemos origem.

Peço-vos

— que tenhais confiança, apesar de toda a vossa fraqueza, que procureis sempre a força espiritual n’Aquele junto de quem tantas gerações dos nossos pais e das nossas mães a encontravam.

— Não vos separeis nunca d’Ele.

Não percais nunca a liberdade de espírito, com a qual Ele «torna livre» o homem.

 Não desdenheis nunca a Caridade, a coisa «maior», que se manifestou através da cruz, e sem a qual a vida humana não tem nem raízes nem sentido.

Tudo isto vos peço

— em memória e pela poderosa intercessão da Mãe de Deus de Jasna Gora e de todos os santuários da terra polaca;

— em memória de Santo Wojciech, que sofreu a morte por Cristo perto do mar Báltico;

— em memória de Santo Estanislau, caído sob a espada real de Skalka.

Peço-vos tudo isto. Amen.

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1979/documents/hf_jp-ii_hom_19790610_polonia-cracovia-blonia-k_po.html

 

 

 

 

 

CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II

À ARQUIDIOCESE DE CRACÓVIA

E À IGREJA NA POLÓNIA NO 750° ANIVERSÁRIO

DE CANONIZAÇÃO DE SANTO ESTANISLAU

  “Beatum Stanislaum episcopum digne Sanctorum Catalogo duximus ascribendum”.

“Considerámos coisa digna inscrever no Álbum dos Santos o beato bispo Estanislau” com estas palavras, em 17 de Setembro de 1253, o meu venerado predecessor, o Papa Inocêncio IV, confirmou o acto de canonização do Mártir de Cracóvia, ordenando ao mesmo tempo, que a sua memória fosse celebrada todos os anos em 18 de Maio. A Igreja na Polónia, com uma alegria inextinguível e com muita devoção cumpria aquela ordem, venerando o Santo Padroeiro de toda a Nação. Faz isso de modo particularmente solene este ano, em que se celebra o 750º aniversário de canonização. Portanto, desejo de coração unir-me às celebrações deste jubileu e exprimir a minha união com o clero e com os fiéis da Igreja em Cracóvia e em toda a Polónia, que se reúnem junto do túmulo de Santo Estanislau, para louvar a Deus por todas as graças, recebidas pela Nação polaca pela sua intercessão, ao longo dos séculos.

A recordação do ministério de Santo Estanislau na sede de Cracóvia, que só durou sete anos, e especialmente a recordação da sua morte, acompanhou incessantemente, no decorrer dos séculos, a história da Nação e da Igreja na Polónia. E nesta memória colectiva o santo Bispo de Cracóvia permaneceu como padroeiro da ordem moral e da ordem social na nossa Pátria.

Como Bispo e Pastor anunciou aos nossos antepassados a fé em Deus, infundiu neles, mediante o santo Baptismo, a Confirmação, a Penitência e a Eucaristia, o poder salvífico da Paixão e da Ressurreição de Jesus Cristo. Ensinou a ordem moral na família fundada sobre o matrimónio sacramental. Ensinou a ordem moral no âmbito do Estado, recordando até ao rei, que nas suas acções deve ter em conta a imutável Lei de Deus. Defendeu a liberdade, que é o direito fundamental de cada homem e da qual nenhum poder pode privar alguém, sem violar a ordem estabelecida pelo próprio Deus. No alvorecer da nossa história, Deus, Pai dos povos e das nações, manifestou-nos, por meio deste santo Padroeiro, que a ordem moral, o respeito da Lei de Deus e dos justos direitos de cada homem, é a condição fundamental da existência e do desenvolvimento de cada sociedade.

A história fez de Santo Estanislau padroeiro também da unidade nacional. Quando, em 1253 os Polacos tiveram a canonização do primeiro filho da sua terra, a Polónia estava a experimentar a dolorosa divisão em ducados regionais. E foi precisamente aquela canonização que despertou nos princípios da dinastia dos Piast, que estava no poder, a necessidade de se reunir em Cracóvia, para partilhar, junto do túmulo de Santo Estanislau e no lugar do seu martírio a alegria comum pela elevação de um seu Concidadão à glória dos altares na Igreja universal. Todos viram nele o padroeiro e o intercessor diante de Deus. Uniram a ele as esperanças num futuro melhor da Pátria.

Da tradição piedosa que narra que o corpo de Estanislau, assassinado e cortado em bocados, se reuniu de novo, surgiu a esperança de que a Polónia dos Piast teria superado a divisão da dinastia e se teria tornado um Estado de unidade duradoura. Na perspectiva daquela esperança, desde a canonização, o santo Bispo de Cracóvia foi eleito como principal Padroeiro da Polónia e Pai da Pátria.

As suas relíquias, depostas na catedral de Wawel recebiam a veneração religiosa da parte de toda a Nação. Esta veneração adquiriu um novo significado durante as divisões, quando, de além das barreiras, sobretudo da Silésia, chegavam ali polacos para se aproximarem destas relíquias que recordavam o passado cristão da Polónia independente. O seu martírio tornou-se o testemunho da maturidade espiritual dos nossos antepassados e adquiriu uma eloquência particular na história da Nação. A sua figura era símbolo da unidade que se construía não com base no território de um estado independente, mas com base naqueles valores perenes e na tradição espiritual que constituíam o fundamento da identidade nacional.

Santo Estanislau foi também padroeiro das lutas pela sobrevivência da Pátria durante a segunda guerra mundial, cujo fim na nossa terra se une à sua festa no mês de Maio. Do alto do céu ele participou nas provas da Nação, nos seus sofrimentos e esperanças. Nos tempos difíceis da reconstrução pós-bélica do País e da opressão por parte das ideologias inimigas, a Nação, amparada pela sua intercessão alcançava vitórias e empreendia os esforços orientados para uma renovação social, cultural e política. Santo Estanislau é considerado há muitos séculos defensor da verdadeira liberdade e mestre de uma união criativa entre a lealdade para com a Pátria terrena e a fidelidade a Deus e à Sua Lei aquela síntese que se realiza na alma de cada crente.

Pio XII, na carta por ocasião do 700º aniversário da canonização, escreveu a seu respeito:  “Ao vosso povo foi dado um Pastor que ofereceu a vida pelas ovelhas, defendendo a fé e a moral, e com o seu sangue tornou ainda mais férteis as sementes do Evangelho lançadas à terra desta forma. Ele distinguiu-se pelo facto de que, confiando na Divina Providência, mostrou um exemplo luminoso da força cristã. Santo Estanislau, que se distinguiu por uma profunda piedade para com Deus e pelo amor ao proximo, nada teve de mais suave do que a solicitude pela grei a ele confiada e até ao fim da sua vida nada mais desejou senão reproduzir do modo mais perfeito em si a imagem do Divino Pastor”. Cito estas palavras, para indicar aos Pastores de hoje Bispos e Sacerdotes o modelo a ser imitado. De facto, também hoje, há necessidade de coragem na transmissão e na defesa do santo depósito da fé, e ao mesmo tempo daquele amor de Deus que se manifesta numa incessante solicitude pelo homem, por cada filho de Deus exposto às adversidades que parecem apagar a luz da esperança na vitória da verdade, do bem e da beleza, num futuro melhor na realidade temporal e na eterna felicidade no reino de Deus. O exemplo do amor generoso de Santo Estanislau ilumine sempre os Pastores da Igreja na Polónia.

Estanislau de Szczepanów tornou-se o inspirador de numerosos santos e beatos na nossa terra polaca. Existe um profundo vínculo espiritual entre a figura deste grande Padroeiro da Polónia e numeroos santos e beatos, que deram um grande contributo de bem e de santidade à história da nossa Pátria. Um sinal deste vínculo é o costume de levar em procissão à Igreja de Skalka as relíquias dos santos polacos. No Bispo de Cracóvia, os Santos encontram um exemplo do heroísmo da fé, da esperança e da caridade, que é realizado todos os dias e que assume a forma do heroísmo quotidiano. Esta cadeia de santidade, cujo primeiro elo na terra polaca é Santo Estanislau, não pode ser interrompida. É necessário que todos nós, filhos da terra polaca, nos sintamos responsáveis pelo seu prolongamento e o transmitamos às gerações futuras como o tesouro mais precioso. Eis o desafio que Santo Estanislau apresenta hoje a todos os fiéis:  crescei na Santidade! Construí o edifício da vossa vida, apoiando-vos na rocha da graça divina, sem poupar esforços, para que a sua solidez seja fundada na fidelidade a Deus e aos seus mandamentos!

Santo Estanislau testemunha com eloquência que em Jesus Cristo o homem é chamado à vitória. Oxalá esta vitória do bem sobre o mal, do amor sobre o ódio, da unidade sobre as divisões, se torne parte de cada Polaco. Rezo para que o clero e os leigos na Polónia se tornem cada vez mais santos e que transmitam o património da santidade às novas gerações no terceiro milénio.
A Igreja na Polónia deseja viver todo este ano como o ano de Santo Estanislau. Por isso, decidi também unir o jubileu do 750º aniversário da sua canonização com a possibilidade de obter a graça da indulgência plenária com as habituais condições, durante a visita ao seu túmulo na catedral de Wawel e ao lugar da sua morte, em Skalka.

A quantos desejarem usufruir deste dom e a todos os devotos de Santo Estanislau,  na  Polónia  e  no  mundo, concedo de coração a minha Bênção apostólica.

Vaticano, 8 de Maio de 2003.

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/2003/documents/hf_jp-ii_let_20030508_arcivescovo-cracovia_po.html

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1979/documents/hf_jp-ii_hom_19790610_polonia-cracovia-blonia-k_po.html

 

CONCELEBRAÇÃO EM HONRA DE SANTO ESTANISLAU

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

20 de Maio de 1979

 

1. A alegria do período pascal inspira à Igreja, na liturgia de hoje, palavras de viva gratidão. Estas: Nisto se manifestou o amor de Deus para connosco (1 Jo. 4, 9); manifestou-se em Deus ter mandado o Seu unigénito Filho ao mundo (Id., ibid.); mandou-O para nós termos a vida por meio d’Ele (Id., ibid.); mandou-O como vítima de expiação pelos nossos pecados (1 Jo. 4, 10).

Este sacrifício oferecido no Calvário na Sexta-feira Santa foi aceite. E eis que o Domingo de Páscoa nos trouxe a certeza da Vida. Aquele que rompeu os selos do sepulcro, manifestou a vitória sobre a morte, e com isto revelou a Vida que temos por meio d’Ele (1 Jo. 4, 9).

A esta Vida são chamados todos os homens: Deus não faz acepção de pessoas (Act. 10, 34; cfr. Gál. 4, 9). E o Espírito Santo, como o testemunha na liturgia de hoje São Pedro, desceu sobre quantos ouviam a palavra (Act. 10, 44).

A obra de salvação levada a termo por Cristo não tem qualquer limite no espaço e no tempo. Abraça cada um e todos. Cristo morreu na Cruz por todos e a todos ganhou esta Vida Divina, cuja potência se manifestou na Sua Ressurreição.

A esta grande e universal alegria pascal da Igreja desejo associar hoje, de modo especial, a alegria dos meus compatriotas, a alegria da Igreja na Polónia, expressa pela presença de tantos peregrinos do mundo inteiro com o ilustre e amadíssimo Primaz da Polónia, Estevão Cardeal Wyszynski, com os Arcebispos e Metropolitas de Cracóvia e de Wroclaw, e com muitos representantes do resto do Episcopado Polaco. Celebrando este Santíssimo Sacrifício, queremos exprimir a Deus, que é «Amor», a nossa gratidão pelo milénio tanto da fé como da permanência na união com a Igreja de Cristo. E pelo milénio da presença da Polónia, sempre fiel, junto deste centro espiritual da catolicidade e da universalidade, que é o túmulo de São Pedro em Roma, como também esta esplêndida Basílica sobre ele construída.

2. O motivo da nossa especial alegria é, este ano, o jubileu de Santo Estanislau, Bispo de Cracóvia e Mártir. Na verdade, passaram 900 anos desde que este Bispo sofreu o martírio às mãos do rei Boleslau. Expôs-se à morte, admoestando o rei e pedindo-lhe mudasse de atitude. A espada real não poupou contudo o Bispo; atingiu-o durante a celebração do Santíssimo Sacrifício, e de repente tirou-lhe a vida. Testemunha deste momento ficou a preciosíssima relíquia do crânio do Bispo, no qual se encontram ainda hoje sinais visíveis dos golpes mortais. Esta relíquia, guardada num precioso relicário, é levada, todos os anos há muitos séculos, da catedral Wawel à igreja de São Miguel em Skalka (Rupella) no mês de Maio, quando na Polónia são celebradas as solenidades de Santo Estanislau. Nesta procissão tomavam parte, no decurso dos séculos, os reis polacos, sucessores daquele Boleslau, que dera a morte ao Bispo e, segundo a tradição, terminou a vida como penitente convertido.

O hino litúrgico em honra de Santo Estanislau era executado como canto solene da Nação, que aceitou o mártir como próprio padroeiro. Eis as primeiras palavras deste hino:

«Gaude mater Polonia / Prole fecunda nobili / Summi Regis magnalia / Laude frequenta vigili».

3. Hoje eu, primeiro Papa na história da Igreja da estirpe dos Polacos e dos Povos eslavos, celebro com gratidão a memória de Santo Estanislau, porque até há alguns meses era eu o seu sucessor na sé episcopal em Cracóvia. E juntamente com os meus compatriotas aqui reunidos, exprimo a viva gratidão a todos os que participam aqui nesta solenidade. Dentro de duas semanas, terei a felicidade de dirigir-me em peregrinação à Polónia, para lá agradecer a Deus o milénio da fé e da Igreja, que se funda em Santo Estanislau, como sua pedra angular. E embora este acontecimento seja principalmente o jubileu da Igreja na Polónia, exprimimo-lo também na dimensão da Igreja universal, porque a Igreja e uma grande família de Povos e Nações, de que no momento justo todos contribuíram para fazer uma comunidade mediante o próprio testemunho e o próprio dom, e colocaram assim em relevo a sua participação na unidade universal. Tal dom foi, há 900 anos, o sacrifício de Santo Estanislau.

4. Podemos recordar, decorridos 900 anos, o grande mistério de Santo Estanislau unindo-o ao próprio mistério pascal de Cristo. Assim o fez o Episcopado polaco na sua Carta Pastoral a todos os polacos de dentro e de fora das fronteiras da pátria, a fim de os preparar para o jubileu deste ano.

É este o parágrafo da Carta:

«Meditando na oração sobre este martírio, perdura ainda em nós a recordação da paixão do nosso Salvador Jesus Cristo. Chamou os Seus discípulos a participarem nesta paixão: ‘quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz … e siga-me!’ Se a partir da sua morte e ressurreição os discípulos do Senhor deram o próprio sangue durante séculos em testemunho de fé e de amor, isto sempre se realizou com Ele e n’Ele. Cristo atrai-os para o Seu Coração trespassado e ficam unidos a Ele. Todo o martírio religioso, só na morte de Cristo encontra o seu sentido e valor, e chega a ser plenamente compreendido e frutífero. A cruz da vida e o martírio de Santo Estanislau estavam na sua essência muito próximos da cruz e morte de Jesus Cristo no Calvário. Tinham o mesmo significado. Cristo defendia a verdade do Seu Pai, Deus eterno; defendia a verdade de Si mesmo, Filho de Deus; defendia também a verdade do homem, da sua vocação e destino, da sua dignidade de Filho de Deus. Defendia o homem que na verdade vive debaixo do poder terreno, mas de modo mais incomparável vive debaixo do poder divino. Seja o fruto deste santo jubileu a fidelidade ao sangue que derramou Cristo no Calvário para salvar o homem, para salvar a cada um de nós; a fidelidade à Mãe Dolorosa de Cristo; a fidelidade ao martírio e sacrifício de Santo Estanislau».

Com quanto regozijo leio estas palavras: Permitem-nos compreender melhor o que proclama a liturgia sobre Santo Estanislau: vivit victor sub gladio. Na verdade, sobre a cabeça do Bispo de Cracóvia, Estanislau de Szczepanow, caiu no ano de 1079 a espada que lhe tirou a vida; e sob essa espada ficou vencido o Bispo. Boleslau eliminou do seu caminho o próprio adversário. O grande drama encerrou-se nas fronteiras limitadas do tempo. Apesar de tudo, se a força da espada conseguiu terminar o drama no momento do sacrifício e da morte, no mesmo instante a força do Espírito, que é Vida e Amor, começou a revelar-se e a crescer. Irradiou das suas relíquias e atingiu os povos das terras dos Piastas e uniu-as. A força material da espada pode matar e destruir; em compensação, reavivar e unir de modo estável só o podem conseguir o amor e a força espiritual. O amor manifesta-se na morte quando alguém dá a vida pelos seus amigos (Jo. 15, 13) .

Alegremo-nos, uma vez que podemos louvar a Deus hoje pela revelação do seu amor na morte de Santo Estanislau, servo da Eucaristia e servo do Povo de Deus na sé de Cracóvia.

A Igreja na Polónia está agradecida à Sé de Pedro, pois acolheu mediante o Baptismo, em 966, a Nação na grande comunidade da família dos Povos.

A Igreja na Polónia está agradecida à sé de São Pedro, porque o Bispo e Mártir Santo Estanislau de Szczepanow foi elevado aos altares e proclamado Padroeiro dos Polacos.

A Igreja na Polónia, graças à memória do seu Padroeiro, confessa a força do Espírito Santo, a Força do Amor, que é mais forte que a morte.

E com esta confissão deseja servir os homens do nosso tempo. Deseja servir a Igreja na sua universal missão no mundo contemporâneo. Deseja contribuir para o reforço da fé, da esperança e da caridade, não só no seu povo mas também nas outras Nações e Povos da Europa e do mundo inteiro.

Junto do túmulo de São Pedro pedimos, com a mais profunda humildade, que tal testemunho e tal prontidão de servir sejam bem recebidos pela Igreja de Deus, que está «em toda a terra». Peçamos com humildade, com amor e com a mais profunda veneração, que sejam aceites por Deus omnipotente, Perscrutador dos nossos corações e Pai do século futuro.

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1979/documents/hf_jp-ii_hom_19790520_vescovi-polacchi_po.html

 

 

CARTA APOSTÓLICA

RUTILANS AGMEN

DO SUMO PONTÍFICE

JOÃO PAULO II

POR OCASIÃO DO IX CENTENÁRIO

DA MORTE DE SANTO ESTANISLAU

 

Aos Veneráveis Irmãos Stefan Wyszynski

Cardeal da Santa Igreja Romana

Arcebispo Metropolita de Gniezno e Varsóvia

e Franciszek Macharski


Arcebispo Metropolita de Cracóvia

aos outros Bispos e a toda a Igreja da Polónia

ao completar-se o nono século da morte

de Santo Estanislau

 

Bispo e Mártir

I. O brilhante exército, daqueles que foram atormentados e corajosamente arrostaram a morte pela fé e pelas virtudes cristãs, infunde na Igreja, desde os seus inícios pelo decurso dos séculos, estimulante vigor e energia. Diz com razão Santo Agostinho: “Como de semente de sangue encheu-se de mártires a terra, e dessa semente brotou a seara da Igreja. Mais eloquentemente afirmaram Cristo os mortos do que os vivos. Hoje afirmam, hoje pregam: cala-se a língua, soam os factos” (Santo Agostinho, Serm. 284, 4; PL 38, 1298). Estas frases dir-se-ia que se podem aplicar agora especialmente à Igreja Polaca, tendo-se também ela desenvolvido com o sangue dos mártires; entre estes ocupa o primeiro lugar Santo Estanislau, cuja vida e morte gloriosa parecem falar com insistência.

 

Exactamente no ano em que a Igreja lá estabelecida celebra nove séculos desde que o mesmo Santo Estanislau, Bispo de Cracóvia, foi coroado do martírio, não pode faltar a voz do Bispo de Roma e sucessor de São Pedro. Este jubileu é da maior importância e está intimamente unido com a história da Igreja e da Nação Polaca; este povo, durante mais de mil anos, manteve e celebrou intima relação entre a sua história e a mesma Igreja. Essa voz, repetimos, não pode faltar, tanto mais que foi elevado, por misterioso desígnio de Deus, à Cátedra de Pedro, como Sumo Pastor da Igreja, quem pouco antes sucedera a Santo Estanislau na sé episcopal de Cracóvia.

 

É bem admirável que se Nos ofereça a oportunidade de escrever esta carta no nono centenário da morte de Santo Estanislau, carta que Nós próprio solicitámos ao célebre Predecessor Nosso Paulo VI e depois ao próximo sucessor do mesmo, João Paulo I, que teve um ministério pontifício de apenas 33 dias. Hoje, pois, não só levamos a efeito aquilo que pedimos a ambos os Predecessores Nossos na Cátedra de Pedro, quando éramos Arcebispo de Cracóvia, mas satisfazemos também um especial desejo e ambição. Quem podia pensar que, aproximando-se já as solenidades estabelecidas para comemorar este jubileu de Santo Estanislau, Nós deixaríamos a sé episcopal de Cracóvia, ocupada outrora por aquele Santo, e passaríamos à Sé romana por voto dos Cardeais reunidos em conclave? Quem poderia imaginar que Nós celebraríamos os dias solenes do mesmo jubileu, não como “pai de família” dirigindo as cerimónias, mas voltando como hóspede à região dos Nossos maiores, na qualidade de primeiro Pontífice Romano vindo do povo da Polónia, e de primeiro Papa na história da Igreja que visita a mesma terra?

 

II. Segundo o calendário litúrgico da Igreja na Polónia, a festa de Santo Estanislau celebra-se há séculos no dia 8 do mês de Maio. Todavia a solenidade externa em Cracóvia transfere-se para o domingo que segue imediatamente o dia 8. Então sai da catedral, que se encontra na colina Wawel, uma procissão que se dirige para a igreja de São Miguel em Rupella, onde, segundo a tradição, o Bispo Estanislau, natural da aldeia de Szczepanów, foi martirizado quando celebrava a Missa por Boleslau o Temerário.

 

Estabeleceu-se porém que este ano as principais solenidades em honra de Santo Estanislau, que tomam simultaneamente a forma de jubileu, sejam diferidas, do primeiro domingo que segue o dia 8 de Maio, para o período entre o domingo do Pentecostes e o domingo da Santíssima Trindade. Enorme é a importância desse dia do Pentecostes, em que a Igreja comemora o seu nascimento no Cenáculo de Jerusalém. De lá, onde tinham estado os Apóstolos reunidos em oração com Maria Mãe de Jesus (Cfr. Act 1, 14), saíram estes, cheios daquele vigor que lhes fora infundido na alma como dom especial do Espírito Santo. De lá saíram eles e foram pelo mundo para cumprir o mandato de Cristo: Ide, pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado (Mt 28, 19-20).

 

Foi portanto do Cenáculo do Pentecostes que partiram os Apóstolos. Dele igualmente, na sucessão das idades, vão procedendo os sucessores deles. Depois, a seu tempo, dai procedeu também Santo Estanislau, natural da aldeia de Szczepanów, levando no peito o mesmo dom da fortaleza para testemunhar a verdade do Evangelho até ao derramamento do próprio sangue. Aquela geração, de nós afastada por nove séculos, foi a geração dos nossos maiores, que, do mesmo modo que Santo Estanislau, deles Bispo na sé de Cracóvia, são ossos dos nossos ossos e sangue do nosso sangue. A duração do seu ministério pastoral foi breve: de 1072 a 1079, isto é, sete anos, mas o fruto desse ministério ainda hoje se mantém. Com efeito, a ele se aplicam as palavras que dirigiu Cristo aos Apóstolos: escolhi-vos para irdes e dardes fruto, e o vosso fruto permanecer (Jo 15, 16).

 

III. As solenidades estabelecidas em honra de Santo Estanislau, pelas quais, completados nove séculos a partir da sua morte, dalgum modo nos referimos ao Cenáculo do Pentecostes, revestem-se de altíssimo significado. Na verdade, do Cenáculo saíram todos quantos, segundo as palavras de Cristo, foram pelo mundo inteiro, ensinando todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Cfr. Mt 28, 19). A Nação Polaca foi purificada em nome da Santíssima Trindade pela água do baptismo no ano de 966. Assim, não foi há muito que se completaram mil anos a partir dessa data, que marcou ao mesmo tempo o inicio da história da Igreja na Polónia e da existência da Nação.

 

Deve sem dúvida exaltar-se a força inerente ao baptismo, isto é, ao sacramento pelo qual somos sepultados na morte de Cristo (Cfr. Col 2, 12) para nos tornarmos participantes da sua ressurreição, daquela vida que o Filho de Deus feito homem quis ficasse constituindo a vida das nossas almas. O início de tal vida está no baptismo que, administrado em nome da Santíssima Trindade, dá aos filhos do homem o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1, 12) no Espírito Santo.

 

O milénio porém daquele baptismo, que foi solenizado na Polónia em 1966 como ano consagrado a glorificar a Santíssima Trindade, compreende também este jubileu de Santo Estanislau. Na verdade, deste sacramento, pelo qual de maneira particular cada homem se consagra a Deus (Cfr. Conc. Vat. II, Const. dogm. Lumen Gentium, 44), devem ser considerados frutos copiosíssimos os Santos, que pela sua vida e morte foram tornados “oferenda permanente” para Deus (Cfr. Prece eucarística III).

 

Quando pois, na solenidade da Santíssima Trindade neste ano do Senhor de 1979, fizermos memória com rito festivo do martírio de Santo Estanislau, recordaremos também o baptismo conferido em nome da Santíssima Trindade, donde proveio aquele quase primeiro e maduro fruto de santidade. Este tanto o esperou a Nação inteira, e neste Santo do seu mesmo povo reconheceu agradecida este fruto daquela vida nova de que ele se tornara participante, desde que a Polónia se purificou no banho salutar dos Cristãos.

 

Estes factos levam a que, o nono século completado desde o martírio de Santo Estanislau, por assim dizer o inscrevamos com singular veneração no Milénio do baptismo recebido pelos nossos maiores em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

E para darmos maior importância a esta veneração, estabelecemos, segundo os desejos dos Bispos da Polónia, que a memória de Santo Estanislau seja elevada, no calendário 1itúrgico da Igreja universal, ao grau de memória obrigatória.

 

IV. O culto, prestado por nove séculos a Santo Estanislau, lançou raízes profundas na região da Polónia. Para aumentar essa veneração contribuiu notavelmente a canonização pela qual o Nosso Predecessor Inocêncio IV, em Assis, junto do sepulcro de São Francisco, no dia 8 de Setembro de 1253, decretou as honras dos Santos ao mesmo egrégio varão. Profundas raízes tem este culto. E penetram em toda a história da Igreja na Polónia, manifestam-se na vida da Nação e unem-se à sua mesma sorte. Não são apenas celebrações anuais que testemunham o culto de Santo Estanislau; são também muitas dioceses, igrejas e paróquias a ele dedicadas naquela região e fora dos limites dela. Aonde quer que chegavam filhos da terra da Polónia, para aí levavam o culto do seu grande Padroeiro. Durante muitos séculos Santo Estanislau fora o Padroeiro principal da Polónia, quando por concessão de João XXIII, Nosso Predecessor, ele — juntamente com a bem-aventurada Virgem Maria, Rainha da Polónia, e Santo Wojtecho Adalberto — ficou a protegê-la com o seu celestial patrocínio. Deste modo, no corrente ano em que é celebrado o nono centenário do martírio de Santo Estanislau, essas solenidades são promovidas pela sé de Cracóvia mas também por Gniezno e Monte Claro. Na verdade, quase pelo espaço de mil anos, junto de Santo Estanislau, Prelado de Cracóvia, estava colocado Santo Wojtecho Adalberto, cujo ‘corpo martirizado recebeu sepultura em Gniezno, durante o reinado de Boleslau Magno, chamado Chrobry. Ambos os Santos, portanto, Estanislau e Wojtecho Adalberto, juntamente com a bem-aventurada Virgem Maria, Rainha da Polónia, defendem a nossa pátria.

 

Os lugares relacionados com a vida e a morte de Estanislau são venerados religiosamente: é este Santo honrado sobretudo na igreja catedral de Cracóvia, situada na colina Wawel, catedral onde se conserva o seu túmulo; mas também no templo da aldeia Rupella e na sua terra natal Szczepanów, que agora está na diocese de Tarnova. Veneram-se as suas relíquias, sobretudo a cabeça, que ainda agora mostra abundantes vestígios das feridas mortais que datam de nove séculos. A esta relíquia da cabeça acorrem todos os anos habitantes da cidade real e peregrinos de toda a Polónia, para a acompanharem em solene procissão pelas ruas da cidade de Cracóvia Nesta procissão, em séculos passados, tomavam parte os reis da Polónia, sucessores de Boleslau o Temerário, que no ano de 1079, segundo se diz, matou Santo Estanislau e, conforme se narra, morreu fora dos limites da pátria, reconciliado com Deus.

 

Não é verdade que estas circunstâncias encerram especial significado? Não indicam ter sido Santo Estanislau no decorrer dos séculos fautor de reconciliação, graças a qual os cidadãos se reconciliaram com Deus, quer fossem soberanos quer súbditos? Não insinuam aquela especial união de espíritos, de que todos — graças ao martírio — participaram e constantemente participam? Esta é com certeza a força da morte, que por meio do mistério baptismal foi completamente inserida na Ressurreição de Cristo, na Sua verdade e no Seu amor: Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13).

V. Santo Estanislau, Padroeiro dos Polacos! Com que emoção pronuncia estas palavras o Romano Pontífice que durante tantos anos da própria vida e ministério episcopal esteve unido a este Padroeiro e a toda a tradição deste Santo! Interessou-se também por todos ,os estudos, que neste século e no imediatamente anterior pessoas competentes não deixaram de consagrar aos acontecimentos e às circunstâncias; que levaram a que se cometesse há 900 anos tal crime. Esses estudos iluminam o facto, certificado pela história e mostram que este varão nobilíssimo continua até hoje a sugerir acções, experiências e verdades que sempre se conservam pujantes e sempre têm importância na vida do homem, da Nação e da Igreja.

 

De tal modo, apoiados nesta vitalidade de Santo Estanislau, Padroeiro dos Polacos — ao cabo já de nove séculos após o seu testemunho, dado com vida e morte — convém mostrarmos a Deus uno na Trindade, por meio da Mãe de Cristo e da Igreja, tudo o que operou e sem descanso opera a riquíssima herança que a história da salvação uniu na região da Polónia como ano de 1079. É herança de fé, esperança e caridade, que dá plena e própria razão da vida do homem e da sociedade. É herança de firmeza e fortaleza em confessar a verdade, que denota a elevação da alma humana. É herança de solicitude pela saúde e bem espiritual e temporal do próximo, isto é, pelos habitantes da mesma Nação e por todos os que devemos servir com firme perseverança. É também herança de liberdade, que se mostra nesse serviço e na doação feita por amor. E, por .último, admirável tradição de estreitamento e unidade, para cujo aperfeiçoamento na história da Polónia — como provam os factos — Santo Estanislau, a sua morte, o seu culto e sobretudo a sua canonização concorreram mais que tudo.

 

A Igreja na Polónia recorda esta herança todos os anos. Todos os anos se volta para esta nobilíssima tradição de Santo Estanislau, a qual se tornou património singular da alma polaca. Neste ano do Senhor de 1979, a Igreja na Polónia, encontrando-se em circunstâncias especiais, deseja recorrer à mesma herança; deseja-a examinar mais profundamente e daí tirar consequências para a vida quotidiana; deseja encontrar nela auxílio para a luta contra as fraquezas, os vícios e os pecados, aqueles sobretudo que se opõem ao bem dos Polacos e da Polónia; deseja com nova defesa robustecer a fé e a esperança da vida futura, com a qual desempenhe a sua missão, e robustecer a fé e a esperança do serviço, que prestará à salvação de todos e cada um.

 

A estes anseios, a estes pedidos ardentes dos corações, que Nos chegam da pátria, Nós, João Paulo II, natural da Polónia, unimo-Nos de todo o coração; e, impressionado pela grande importância deste jubileu, concedemos, com efusão de caridade, a Bênção Apostólica a vós; Veneráveis Irmãos, aos restantes Bispos da Polónia, aos sacerdotes, aos religiosos e aos fiéis.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 8 do mês de Maio do ano de 1979, primeiro do Nosso Pontificado

JOÃO PAULO PP. II

 

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_letters/1979/documents/hf_jp-ii_apl_08051979_rutilans-agmen_po.html

 MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II

AOS POLACOS POR OCASIÃO

DA FESTA DE SANTO ESTANISLAU

Domingo, 10 de Maio de 1981

 “Santo Estanislau, Padroeiro nosso, protector de toda a Pátria, rogai por nós!”.

Encontro nos meus lábios, mas ainda mais no meu coração, estas palavras nunca esquecidas que vós cantais no caminho de Wawel para Skauka, atravessando as ruas de Cracóvia. Encontro-me a mim mesmo entre vós! Tal como, durante tantos anos, me foi concedido participar nesta festa em honra de Santo Estanislau, que é festa não só de Cracóvia mas de toda a Polónia; participar nesta procissão, na qual, de século em século, caminhava para o futuro toda a nossa história.

 Hoje, de Roma, do sólio de São Pedro e São Paulo, saúdo-vos, caros irmãos e irmãs, reunidos — todos juntos — na solenidade do Padroeiro da Polónia, convidados pelo Metropolita de Cracóvia: cardeais, bispos, sacerdotes, famílias religiosas masculinas e femininas, habitantes de Cracóvia, peregrinos de toda a Polónia e do estrangeiro. Estou convosco! Vivo juntamente convosco aquilo que durante tantos anos me foi dado viver convosco!

Neste ano do Senhor de 1981 faço votos por que esta tradição, a secular tradição de Santo Estanislau, demonstre o que é a tradição verdadeira e cristã. Tradição radicada no mistério pascal da Cruz, da Morte e da Ressurreição de Cristo.

 Desejo-vos que esta tradição de Santo Estanislau se demonstre não só esplêndida recordação do passado, mas também força animadora e renovadora — sempre de novo — dos corações dos homens, de toda a Igreja e do povo. Isto vos desejo, caros compatriotas, irmãos e irmãs, neste dia solene; por isso rezo convosco, repetindo com os lábios e o coração, repetindo com toda a minha vida as palavras: “Santo Estanislau, Padroeiro nosso, protector de toda a Pátria, rogai por nós!”.

 Estas palavras assumem, no ano do Senhor de 1981, particular eloquência. São especialmente fecundas neste ano tão difícil e, ao mesmo tempo, precursor de um importante renovamento.

 Não vos faltem as forças!

 Oxalá, amados compatriotas, conserveis a unidade do espírito e a paz dos corações!

Tudo isto que é necessário para a nossa amada Pátria, tudo isto torno-o objecto da comum oração convosco a Santo Estanislau, Padroeiro da Polónia. E daqui, da Sé Apostólica, transmito-vos a bênção que vem do coração: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Louvado seja Jesus Cristo!

 http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/messages/pont_messages/1981/documents/hf_jp-ii_mes_19810510_san-stanislao_po.html

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