Biografia dos Santos

Archive for junho 2010

      

      

“Nada desejo pessoalmente,

mas se Deus me exigisse expressar meu querer,

escolheria seguir vivendo indefinidamente,

para ajudar a salvar as almas”.    

São João Eudes

Biografia de São João Eudes pelo Vaticano

PAPA BENTO XVI     

 AUDIÊNCIA GERAL

       

Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009 

    

 Queridos irmãos e irmãs       

Celebra-se hoje a memória litúrgica de São João Eudes, apóstolo incansável da devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, que viveu na França no século XVII, um século caracterizado por fenómenos religiosos contrapostos e também por graves problemas políticos. É o tempo da guerra dos trinta anos, que devastou não apenas uma grande parte da Europa central, mas arrasou também as almas. Enquanto se ia difundindo o desprezo pela fé cristã por parte de algumas correntes de pensamento então predominantes, o Espírito Santo suscitava uma fervorosa renovação espiritual, com personalidades de elevado relevo, como Bérulle, São Vicente de Paulo, São Luís Maria Grignion de Montfort e São João Eudes. Esta grande “escola francesa” de santidade teve entre os seus frutos também São João Maria Vianney. Por um misterioso desígnio da Providência, no dia 31 de Maio de 1925, o meu venerado predecessor Pio XI proclamou santos João Eudes juntamente com o Cura d’Ars, oferecendo à Igreja e ao mundo inteiro dois extraordinários exemplos de santidade sacerdotal.      

No contexto do Ano sacerdotal, é-me grato deter-me para ressaltar o zelo apostólico de São João Eudes, particularmente voltado para a formação do clero diocesano. Os santos são a verdadeira interpretação da Sagrada Escritura. Na experiência da vida, os santos verificaram a verdade do Evangelho; assim, eles introduzem-nos no conhecimento e na compreensão do Evangelho. O Concílio de Trento, em 1563, tinha emanado normas para a erecção dos seminários diocesanos e para a formação dos presbíteros, enquanto o Concílio estava consciente de que toda a crise da reforma fora também condicionada por uma insuficiente formação dos sacerdotes, que não estavam preparados para o sacerdócio de modo justo, intelectual e espiritualmente, no coração e na alma. Isto em 1563; no entanto, dado que a aplicação e a realização das normas tardavam tanto na Alemanha como na França, São João Eudes viu as consequências desta falta. Impelido pela consciência lúcida da grave necessidade de ajuda espiritual, em que se encontravam as almas inclusive por causa da inadequação de uma boa parte do clero, o santo que era um pároco instituiu uma Congregação dedicada de maneira específica à formação dos sacerdotes. Na cidade universitária de Caen, fundou o seu primeiro seminário, experiência mais apreciada do que nunca, que depressa se difundiu a outras dioceses. O caminho de santidade, por ele percorrido e proposto aos seus discípulos, tinha como fundamento uma sólida confiança no amor que Deus revelou à humanidade no Coração sacerdotal de Cristo e no Coração materno de Maria. Naquela época de crueldade, de perda de interioridade, ele dirigiu-se ao coração, para dizer ao coração uma palavra dos Salmos, muito bem interpretada por Santo Agostinho. Queria chamar as pessoas, os homens e sobretudo os futuros sacerdotes ao coração, mostrando o Coração sacerdotal de Cristo e o Coração materno de Maria. Deste amor do Coração de Cristo e de Maria, cada presbítero tem o dever de ser testemunha e apóstolo. E aqui, chegamos à nossa época.      

Também hoje se sente a necessidade que os presbíteros dêem testemunho da misericórdia infinita de Deus com uma vida inteiramente “conquistada” por Cristo, e aprendam isto nos anos da sua preparação nos seminários. Depois do Sínodo de 1990, o Papa João Paulo II emanou a Exortação Apostólica Pastores dabo vobis, na qual retoma e actualiza as normas do Concílio de Trento e ressalta sobretudo a necessária continuidade entre o momento inicial e o permanente da formação; isto para ele, para nós, é um verdadeiro ponto de partida para uma autêntica reforma da vida e do apostolado dos sacerdotes, e é também o ponto fulcral a fim de que a “nova evangelização” não seja simplesmente apenas um slogan atraente, mas se traduza em realidade. Os fundamentos postos na formação seminarística constituem aquele insubstituível “húmus espiritual” onde “aprender Cristo”, deixando-se progressivamente configurar com Ele, único Sumo Sacerdote e Bom Pastor. Por conseguinte, o tempo do Seminário deve ser visto como a actualização do momento em que o Senhor Jesus, depois de ter chamado os Apóstolos e antes de os enviar para pregar, lhes pede para permanecerem com Ele (cf. Mc 3, 14). Quando São Marcos narra a vocação dos doze Apóstolos, diz-nos que Jesus tinha uma finalidade dupla: a primeira era que permanecessem com Ele; a segunda, que fossem enviados para pregar. Mas permanecendo sempre com Ele, realmente anunciam Cristo e levam a realidade do Evangelho ao mundo.      

Estimados irmãos e irmãs, durante este Ano sacerdotal convido-vos a rezar pelos presbíteros e por quantos se preparam para receber o dom extraordinário do Sacerdócio ministerial. Dirijo a todos, e assim concluo, a exortação de São João Eudes, que diz aos sacerdotes: “Entregai-vos a Cristo, para entrardes na imensidade do seu grande Coração, que contém o Coração da sua Santa Mãe e de todos os Santos, e para vos perderdes neste abismo de amor, caridade, misericórdia, humildade, pureza, paciência, submissão e santidade” (Coeur admirable, III, 2).      

Neste sentido, agora cantemos juntos o Pai-Nosso em latim.      

 Biografia de São João Eudes pelos Eudistas

Um Homem que arriscou na misericórdia.      

João Eudes nasceu em Ri (França), a 14 de novembro de 1601.
Filho de um casal de bons normandos e fervorosos cristãos, recebeu desde criança a formação que um lar com esse grau de excelência podia dar então. Uma infância muito normal, uma etapa de estudos bem completa no colégio dos Jesuítas, e um processo de discernimento espiritual que o levará a optar pelo sacerdócio na recentemente fundada Congregação do Oratório, do Cardeal  de Bérulle. A partir daí se iniciou uma fecunda vida de missionário que o levará por muitos caminhos da França, fazendo-o entrar em contato com a dolorosa realidade de um país cristão em crise de fé e permitindo-lhe se converter em missionário e profeta da misericórdia.
  
    

João Eudes, discípulo tanto de Bérulle como de Francisco de Sales, abebera seu espírito em ambas correntes teológicas, e delas alimentou a coerente espiritualidade que dará sentido a sua vida inteira e nutrirá sua veia de escritor popular. Dessa dupla fonte se alimentou o riacho que começava a notar-se no jovem sacerdote oratoriano, que em breve se converterá em uma poderosa torrente espiritual. Ambas fundarão e estimularão seu espírito missionário.      

Pe. Eudes parte de um princípio unificador: o cuidado e ocupação principal de todo batizado consiste em formar e estabelecer Jesus em nós, e fazer que aí Ele viva e reine. Porque ser cristão e ser santo é uma mesma coisa. Mas coloca sempre, mesmo de modo latente, este “leitmotiv” espiritual sobre a tela de fundo de uma misericórdia comprometida e eficaz. Encontramos aqui uma coerência radical entre vida concreta e doutrina espiritual, uma engrenagem perfeito entre a própria experiência existencial, o apostolado missionário, as fundações, a doutrina da misericórdia e a espiritualidade do Coração de Jesus e Maria.      

Por isso, não é exagero afirmar que o eixo de todo seu projeto espiritual foi o conceito de misericórdia. Mesmo se explicitando de forma relativamente tardia em seus escritos, podemos dizer que ela marcou sua vida toda. Desde os inícios de seu ministério João Eudes sente, recebe e cumpre –afetiva, mas real e comprometidamente- esta misericórdia em sua própria vida e na dos demais. Ela dá unidade a sua ação apostólica, impulsiona-o constantemente para ir além da mera sensibilidade diante da desgraça e o encoraja a promover determinadas ações missionárias e fundações religiosas.      

Evangelizado e evangelizador      

Tinha aprendido a reconhecer em todas as partes a presença de Deus, inclusive na experiência concreta e em todos os acontecimento. Nessa época não se falava de sinais dos tempos, mas João Eudes os entendia e vivia plenamente. Para ele um desses sinais foi sem duvida aquela peste de Súez, em 1627. Então, o jovem sacerdote, que apenas acabava de superar uma longa e dolorosa enfermidade que praticamente o tinha inutilizado, decidiu ir em auxílio de quem mais o necessitava -os empestados, abandonados de todo recurso espiritual- para levar-lhes os sacramentos, sinais da misericórdia de Deus. Foi este seu primeiro encontro com os pobres, os pequenos, os abandonados. Três anos mais tarde, em Caen, repetir-se-á tão difícil experiência. Serão então mais fortes a caridade e o compromisso para com os irmãos sofredores que as razões de quem tentava dissuadi-lo do que parecia uma perigosa doidice.      

Estas primeiras atividades que realizou como sacerdote e como missionário eram gestos que falavam da misericórdia e faziam a misericórdia. Gestos significativos que já eram missão, uma pregação silenciosa daquelas que louvava Paulo VI na EN8. Gestos que o marcaram e o colocaram para sempre no caminho que desce de Jerusalém a Jericó. Dai em diante sua presença missionária ao lado de qualquer Jesus que sofre irá preenchendo de realismo sua espiritualidade e seu ministério.      

Todos os seus compromissos apostólicos terão relação profunda com essa experiência. O abismo de minhas misérias chama o abismo de suas misericórdias, exclama em seu Magnificat pessoal. Tendo experimentado, ele mesmo, a misericórdia de Deus em sua própria vida, quis agradecer por ela dedicando-se a pregá-la e transmiti-la. Os caminhos missionários da França conservam ainda a lembrança de seus passos. Desse fervor evangelizador, dessa paixão pelo Reino, surgiria aquele outro elemento chave de sua espiritualidade que foi a devoção ao Coração de Cristo, unido indissoluvelmente ao Coração de Maria. Como alguém tem escrito, João Eudes foi um homem de coração e um homem do Coração: nisto consiste sua máxima contribuição ao cristocentrismo da escola beruliana.      

O caminho da misericórdia      

Porque a história não fica na anedota. Apresentado-se um momento crítico em própria vida e história, João Eudes saberia arriscar definitivamente no caminho da misericórdia; e ao fazer assim, arriscaria pela santidade verdadeira. Pode ser dito que a misericórdia o fez missionário e o motivou a entregar sua vida inteira a um empenho que constituiu como que a coluna vertebral de seu ministério: desde 1627 a 1680, ano de sua morte, jamais soube o que é descanso. João Eudes seria, antes de tudo e por cima de tudo, um sacerdote missionário, como gostava de assinar suas cartas.      

Esse incansável caminhar missionário -o anúncio da Boa notícia que é a presença da misericórdia na história dos homens-, não era se não uma verbalização daquela experiência íntima, inicial e continuada, da máxima misericórdia divina: evangelizar -reitera a seus eudistas- é anunciar ao homem, especialmente ao mais cheio de misérias -miserável- a boa notícia de que Deus o ama, que o leva em seu coração de Pai e está disposto a jogar tudo para salvá-lo..      

O trato com as pessoas lhe tinha permitido conhecer bem de perto não só os vícios morais que pululavam em todos os recantos da sociedade senão também os profundos males que abatiam o Povo de Deus. Ele sabia bem quais eram as misérias dos miseráveis. Tinha sentido a dolorosa miséria humana e social das multidões, a ignorância religiosa dos que se diziam crentes e seu afastamento do autêntico compromisso cristão; tinha experimentado também a situação do clero, abatido pela ignorância, a pobreza material e sua falta de espírito apostólico. Aguçado por esta realidade, Pe. Eudes foi descobrindo seu próprio caminho “de Jerusalém a Jericó”. A paixão pelo homem – “as almas”, diz ele, com a linguagem de sua época- o devora:      

“Se dependesse de mim, iria a Paris a gritar na Sorbone e demais colégios: “¡fogo, fogo!. Sim, o fogo do inferno está consumindo o universo. Venham senhores doutores, venham senhores bacharéis, venham senhores abades, venham todos os senhores eclesiásticos e ajudem a apagá-lo”.      

Quando o zelo aperta      

A partir desta perspectiva se entende melhor suas numerosas fundações. Porque ao estudar sua vida e sua obra descobrimos, cada vez melhor, como estas fundações constituíram, em quanto evangelização, autênticas obras de misericórdia, ou seja, maneiras concretas de expressar sua opção definitiva pela misericórdia divina.      

Apelando a uma categoria moderna, podemos dizer que João Eudes também se deixou evangelizar “pelos pobres”, vale dizer, pelas prostitutas e os incontáveis homens e mulheres que vegetavam na morte devido a ninguém lhes ter falado da Vida. Foi essa experiência  que ativou seu carisma de fundador. Bastaria recordar aquele episódio citado pelo Pe. Emile Georges, que opera nas raízes da ordem de N.S. da Caridade.      

Pe. Eudes não era um fundador “profissional” mas um homem de Deus que ia respondendo, na medida de seus recursos, aos clamores da misericórdia, às necessidades concretas de sua época, que para ele representavam autênticas mensagens do Espírito. Era um homem que sabia ler a ação de Deus inclusive nos fracassos, que se deixava interpelar seriamente pelos sinais de seu tempo, e cujo maior desejo era fazer eficaz a misericórdia. Não existia em seus projetos nenhuma intenção moralizante: tinha de realizá-los, simplesmente, porque Deus misericordioso assim queria; eram uma conseqüência normal de seu seguimento de Cristo, e de sua atenção à misericórdia do Pai: para ele se tratava só de cristificar o ser humano, sobre tudo aqueles cuja imagem de Deus estava mais deteriorada pelo pecado ou pela miséria.      

É precisamente em 1644, ano em que se consolidava na França o rigorismo jansenista, quando João Eudes funda a Ordem de N.S. da Caridade, coincidindo com uma tomada de consciência cada vez mais viva do que é essa misericórdia divina. Tem feito a descoberta, de uma maneira concreta, que Deus ama e, porque ama, salva  perdoa. Sente-se chamado a ser pessoalmente instrumento desse amor salvador em um dos campos mais dramaticamente esquecidos da pastoral da época: a prostituição.      

Também no nascimento da Congregação de Jesus e Maria (Eudistas) há uma experiência de misericórdia; lhe doía intensamente a Igreja, lhe doíam as pessoas que andavam “como ovelhas sem pastor”; e se deixou interpelar pelo amor de Deus que, em Jesus, vem “salvar o que estava perdido”. Expressão última e acabada da misericórdia do Pai. Se “uma pessoa vale mais que mil mundos”, é necessário que alguém se dedique de tempo completo a formar a quem deve salvá-la. Urgido por tão angustiantes convicções, decide abandonar o Oratório para fundar sua pequena congregação.      

Formar o clero era só uma maneira de colocar-se no caminho da misericórdia que salva e que necessita de canais dignos dessa tarefa. Em uma carta ao Pe. Manoury, primeiro formador dos novos eudistas, Pe. Eudes se expressava:      

“Cuide de formá-los no Espírito de Nosso Senhor, que é espírito de desprendimento e de renúncia a tudo e a si mesmo; espírito de submissão e abandono à divina vontade manifestada pelo evangelho e pelas regras da congregação…, espírito de puro amor a Deus…, espírito de devoção singular a Jesus e Maria…, espírito de amor à cruz de Jesus ou seja ao desprezo, à pobreza e ao sofrimento…, espírito de ódio e horror a todo pecado…, espírito de caridade fraterna e cordial ao próximo, aos da congregação, aos pobres…, espírito de amor, respeito e estima pela Igreja”.      

Mestre da misericórdia       

Porque nosso santo não se contenta com ser, ele mesmo, coerente; seu desejo é que todos os cristãos se deixem preencher por esse espírito da misericórdia divina, seu anseio é que todos os batizados, especialmente os sacerdotes, sejam também “missionários da misericórdia”. A paixão pelo reinado de Jesus nos corações dos homens, realmente o devora. Conhecendo bem a penosa situação, moral e espiritual, do clero e do povo cristão da época, percebe e sente em todo seu ser a urgência da evangelização e da formação de bons operários para levar adiante um serviço eficaz do evangelho. A essa dupla tarefa dedica o melhor de seus esforços.      

Naquele mesmo ano de 1644, quando, por um lado, se consolida o jansenismo e, por outro, ele funda N. S. de a Caridade, Pe. Eudes conclui seus Conselhos aos confessores; trata-se de um curto escrito que resume aquele delicado sentido de caridade pastoral que o Vaticano II e, mais recentemente, João Paulo II, retomando uma densa herança patrística, tem apresentado como nota constitutiva do verdadeiro pastor segundo o Coração de Cristo. Ali João Eudes nos deixa uma de suas escassas confidências pessoais:      

“Conheço muito bem alguém que tem sido escolhido pela divina misericórdia para trabalhar na conversão dos pecadores; encontrando-se perplexo sobre como devia conduzir-se com eles, se usar de bondade ou de rigor, se misturar os dois…, recorreu na oração à Santíssima Virgem, seu habitual refúgio. Antes que tivesse comunicado a alguém suas inquietações, a Mãe das Misericórdias lhe inspirou através de um mensageiro: quando pregares usa as armas poderosas e terríveis da Palavra de Deus para combater, destruir e esmagar o pecado nas pessoas, mas quando te encontrares com o pecador, fala-lhe com bondade, benignidade, paciência e caridade”.      

Por isso, recomenda aos confessores acolher e tratar o penitente “com um coração verdadeiramente paternal, quer dizer, com uma grande cordialidade, benignidade e compaixão”, e incitá-lo à confiança. E explica:      

“com entranhas de misericórdia e com o coração cheio de amor a quantos se apresentarem para a confissão, sem fazer acepção de pessoas nem agir com preferências, salvo quando se tratar de enfermos ou inválidos, de mulheres grávidas ou que estão criando seus filhos, daqueles que vêm de longe…”. “Se aparecer temeroso e com alguma desconfiança de obter o perdão de seus pecados, deve levantar-lhe o ânimo e fortalecê-lo, fazendo-lhe ver que Deus tem um grande desejo de perdoá-lo; que se alegra muito com a penitência dos grandes pecadores; que quanto maior é nossa miséria, mais glorificada é em nós a misericórdia de Deus; que Nosso Senhor tem orado a seu Pai pelos que o tem crucificado, para ensinar-nos que, mesmo sendo crucificado com nossas próprias mãos, perdoaria-nos muito espontaneamente se lhe pedíssemos”.      

Neste ponto a gente se sente bem longe do rigorismo agostiniano e jansenista. Apelando a um lugar comum podemos afirmar que o “zelo pela salvação das almas” realmente o devorava. Esta expressão -que hoje é pouco aceita pois se entende melhor que o ser humano não é só alma e que Deus salva a pessoa toda- traduz bem a qualidade apostólica de santos como João Eudes. Sem considerar que a importância dada por ele ao compromisso concreto nos permite captar em seu pensamento uma intuição do que na linguagem bíblica significava a “alma”: não a parte espiritual em confronto com o corpo -o material- mas a identidade total do homem, matéria e espírito, tal como tem saído das mãos de Deus.      

Encarnados com o Encarnado       

Está claro que existe uma significativa distância cultural entre o século XVII francês e nossa época, em quanto ao sentido da palavra misericórdia. Convém precisar esta diferença na hora de apresentar a mensagem eudiana se queremos que seja captada a plenitude pelos homens de nosso tempo. Hoje o seu significado se tem empobrecido até tal ponto que parece ser um simples sinônimo de pena ou de piedade para com o culpável.      

Para João Eudes, de modo diferente, misericórdia era mansidão, clemência, paciência e compreensão frente à falha do outro, mas sobretudo amor, piedade, generosidade. A misericórdia era zelo pela causa do homem, um intenso sentimento de piedade, generosidade; não mera comiseração ante o sofrimento do outro, mas expressão plena e comprometida de um amor que trata de levar a todos uma salvação eficaz, concreta, mas ao estilo de Deus. Assim o expressaria em um texto célebre, sobre o qual voltamos reiteradamente:      

“Três coisas se requerem para que haja misericórdia. A primeira é ter compaixão da miséria do outro, pois misericordioso é quem leva em seu coração as misérias dos miseráveis. A segunda consiste em ter uma vontade decidida de socorrê-los em suas misérias. A terceira é passar da vontade à ação”.      

Como veremos em detalhe depois, João Eudes apóia sua doutrina sobre a misericórdia naquele profundo sentido da encarnação de Deus tão caro aos mestres da espiritualidade beruliana. Exclama: “nosso Redentor se encarnou para exercer deste modo sua misericórdia conosco”, quer dizer, para passar da misericórdia do Coração de Deus à misericórdia das ações salvadoras.      

A mensagem resulta evidente: Jesus personifica a misericórdia divina, a misericórdia ativa e viva de um Deus que vem salvar os mal-feridos do caminho a Jericó. Na pessoa de Jesus, Deus se aproxima gratuitamente de quem está em desgraça e é incapaz de libertar-se a si mesmo. Jesus é o Coração humano de Deus – belo achado teológico eudiano – que tem assumido todas as nossas misérias para libertar-nos delas.      

É essa mesma atitude – “levar no coração” – que Deus nos pede diante do próximo. João Eudes reitera, sob diversas formas, ao longo de suas obras: não há outra forma de viver o amor misericordioso de Jesus. Ela traduz e resume uma experiência fundamental que testemunha tudo mais: ser cristão é ser capaz de abrir-se suficientemente, desde o mais profundo, para acolher na própria vida o “outro”: Deus, próximo, e, particularmente, quem experimenta qualquer tipo de miséria. Um coração autenticamente cristão é aquele que, sobretudo, sabe receber e acolher um Deus essencialmente gratuito, mas que, com Deus e como Deus, sabe acolher também as misérias dos demais de tal modo que o impressionem, o habitem no mais profundo de seu ser, e o dinamizem para uma ação comprometida e coerente.      

Nas mãos da Graça      

Por isso, a nível de meios, longe de todo delírio prometeico e de toda pretensão voluntarista, João Eudes entende que nessa tarefa, incômoda e difícil, o primeiro é a graça de Deus, pois tudo depende dele que é quem age em nós:      

“O que somos nós, meus irmãos, para que Deus nos empregue em tão sublimes ministérios? Para se dignar a escolher a nós, miseráveis pecadores como instrumentos de suas divinas misericórdias?”.      

Daí sua insistência na oração constante. Porém, longe de qualquer delírio pietista, sublinha também a necessidade de “pôr sempre toda a carne na grelha”: é necessário entregar-se à tarefa, trabalhando como se tudo dependesse de nós, trabalhando de todo coração, pelo exemplo -testemunho- e pela eficácia da ação. Temos de deixar que, diante dos problemas que abatem o próximo, nosso coração se estremeça de amor até o ponto de não restar outro remédio que passar à ação em busca de alívio. Trata-se de amar até a dor. Porque o dar da verdadeira misericórdia não é assunto de simples quantidade, mas de qualidade, de uma atitude vital com a qual partilha com os demais. O importante não é dar coisas mas dar a si mesmo.      

Para nosso homem esta é a forma privilegiada de glorificar a Deus. Como missionário, como formador de sacerdotes e como fundador de Institutos religiosos, soube sublinhar a união estreita que existe entre a misericórdia de Deus, nosso compromisso cristão e a virtude de religião: o autêntico culto deriva em zelo apostólico e este se expressa com sinais de misericórdia porque -afirma- anunciar o evangelho é simplesmente anunciar a misericórdia de Deus, e este anúncio tem de fazê-lo com palavras claras e obras coerentes. Evangelizar é anunciar aos “miseráveis” a boa notícia de que Deus os ama, que os “leva em seu coração”; para isto o missionário só tem um caminho: levá-los em seu próprio coração. Deste modo o Pai é glorificado. Por isso se atreve a exclamar:      

“Nada desejo pessoalmente, mas se Deus me exigisse expressar meu querer, escolheria seguir vivendo indefinidamente, para ajudar a salvar as almas”.      

A partir desta convicção, João Eudes o místico se faz ativo, o contemplativo se converte em missionário, testemunha e fundador. Porque se trata de “passar da vontade ao fato”. Não bastam os belos sentimentos e as formosas palavras. Deve-se passar do ‘levar as misérias alheias no coração”, aos efeitos concretos da misericórdia. Escutando-o evocamos Tiago: uma fé sem obras é uma fé morta. Ele entendia bem que estamos radicalmente a serviço da misericórdia de Deus, que somos os verdadeiros anjos de Deus: somos as mãos, os pés, o coração do Deus salvador, porque “Deus não tem mais mãos que as nossas”, como falara lindamente Teresa d’Ávila.      

Em resumo, evangelização, zelo e misericórdia, são as três dimensões, fundamentais e inter-relacionadas, de seu pensamento e de sua ação ministerial inteira. Nesta perspectiva orienta o ministério do missionário.      

Espiritualidade da encarnação      

Para tanto, não podemos acusar o pensamento eudiano de espiritualista, como se não lhe importassem senão as coisas espirituais, esquecendo as necessidades materiais do povo. De fato ele estava muito consciente destas misérias humanas e sociais, mas as via como uma expressão, um sintoma e uma conseqüência da miséria mais profunda e radical e a raiz de todas as demais misérias, que é o pecado. Por isso, a “mais divina de todas as coisas divinas é salvação das almas”.      

Como normando sensível, prático e eficiente, ensina que é a través de nós que o Cristo quer realizar sua misericórdia salvadora. Mesmo vivendo em um denso mundo espiritual, entendia que a misericórdia de Deus não é uma noção abstrata, mas a presença real, muito real, de Deus encarnado no mundo dos homens, nos acontecimentos cotidianos.      

André Pioger sublinha como seus contemporâneos se sentiam comovidos por esta atitude testemunhal do pequeno grande santo:      

“Inclusive fora de Caen, João Eudes se interessa vivamente pelos enfermos. Quando realiza a missão nas grandes cidades estabelece casas de refúgio para os pobres e os enfermos; acomoda os idosos e os que estão em má situação… Em Autun, em 1647, faz reparar o hospital Dos Transeuntes e decide aa construção de um novo para os enfermos e para alojar ali os pobres médicos… Onde não cria hospitais visita sempre os que já existiam… Porque não quer só socorrer materialmente mas dedicar-se a cultivar as almas…”.      

Obviamente, João Eudes vive as idéias de sua época. Por isso sua concepção da missão, que obedecia a uma mentalidade de nova cristandade, difere de outras mais modernas, nas que se enfatiza mais o compromisso estrutural que as “obras de misericórdia”. Não podemos pedir a um homem do s. XVII, por mais santo que fosse, que tivesse as idéias de um missionário post-Vaticano II. O importante é ver como ele, ao seu modo, não separava jamais aquelas quatro dimensões da missão, que citava Paulo VI na Evangelii Nuntiandi: o compromisso, o anúncio, o testemunho e a denúncia.      

Não fazia do trabalho pelos pobres um simples compromisso social, porque o dele era servir ao Reinado de Jesus nos homens, também não convertia sua pregação em um desencarnado anúncio de verdades abstratas ou de “eslogans” ideológicos. Por outra parte, aparece clara sua convicção de que não se tratava de mais um trabalho social, que podia favorecer a evangelização, de uma pre-evangelização como se diz às vezes, mas de uma verdadeira evangelização dado que sua finalidade era a conversão a Cristo. E quando tinha que enfrentar os responsáveis de qualquer sofrimento injusto, mesmo que fosse o rei ou a rainha, o fazia com clareza, valentia e misericórdia.      

Sua própria concepção da grandeza do ministério sacerdotal não obedecia a critérios de poder ou grandeza humana -esses que hoje tanto chocam à teologia moderna- mas à convicção de que o sacerdote, enquanto tal, tem, como tarefa quase exclusiva, ser missionário e tesoureiro do Pai das misericórdias. Por isso sentia a urgência de contagiar os irmãos sacerdotes com ardor inflamado de sua própria experiência missionária. Escreve, por exemplo, durante a missão de Vatesville:      

“São maravilhosos os frutos que recolhem os confessores. Mas o que nos aflige é que nem a quarta parte se poderá confessar. Estamos abrumados. (…) O que estão fazendo em Paris tantos doutores e bacharéis, enquanto as almas perecem por milhares, porque ninguém lhes estende uma mão para retirá-las da perdição?”.      

A dramática experiência de sua própria vida, somada à constatação dos ingentes problemas que viviam o mundo e a Igreja, alimentaram sem dúvida seu pessimismo diante das reais possibilidades do homem. Mesmo assim, soube propor e manter uma proposta de vida cristã sempre equilibrada e sã, ainda que exigente. Por isso, a João Eudes se pode aplicar o que ele mesmo escrevera de Maria: contemplou, amou e levou em seu coração o Coração de Cristo, até fazer-se  um só coração com ele.      

Também ele se deixou habitar e dinamizar pelo Coração de Deus, que é Cristo. Foi este Coração que o conduziu até seus irmãos e irmãs necessitados; foi este Coração que o lançou, sem descanso, pelos caminhos da missão; e foi este mesmo coração que lhe permitiu posicionar seu carisma e sua missão entre a miséria do homem e a misericórdia do Deus-Amor que quer que todo homem se salve.      

O preço era a cruz      

Parecia inevitável que por essa opção devesse pagar um alto preço em lutas dolorosas, dentro daquele contexto histórico tão complexo; e o pagou com inteireza, galhardia e equanimidade:      

“Se temos de suportar alguma moléstia ou fadiga não é para desanimar-nos ou queixar-nos por tão pouca coisa. Inclusive se tivéssemos de enfrentar a morte, não deveríamos acaso considerar-nos imensamente afortunados?”.      

Seu abandono do Oratório lhe trouxe a censura de muitos de seus antigos irmãos, e sua luta contra o rigor desmedido do jansenismo lhe acarretou tormentas e horas muito difíceis. Mas ele não recusa a cruz, demonstrando assim até que ponto seu arriscar-se pela misericórdia era autêntico e comprometido:      

“A divina misericórdia me tem feito passar por numerosas tribulações, este tem sido um dos mais insignes favores que dela tenho recebido, porque me têm sido extremamente úteis, e Deus me tem livrado sempre delas”.      

Ainda mais, para ele essas perseguições não eram simples cruz mas o posicionavam no caminho da misericórdia divina:      

“Depois de uma desolação de seis anos, o Pai das misericórdias e Deus de todo consolo se tem dignado enxugar minhas lágrimas e mudar minha amargura em regozijo incrível. Seja por isso louvado e bendito eternamente”.      

Estava consciente, assim escreveria mais tarde, de que não há redenção sem sangue; por isso via no martírio “o ápice, a perfeição e culminância da vida cristã… o milagre mais insigne que Deus realiza nos cristãos…, o favor mais destacável que Cristo faz aos que ama… Nos mártires resplandece com preferência o poder admirável de seu divino amor…”.      

Coerentemente, pediria com insistência essa graça; testemunho disso é o formoso “Voto de Martírio” que nos legou. Não lhe foi concedida tal graça, mas recebeu outra talvez maior: tornar-se missionário e profeta da misericórdia de Deus. Por isso, no entardecer de sua vida pôde exclamar:      

“Mesmo estando já velho (74 anos), prego quase todos os dias, confesso, e atendo infinidade de assuntos. Todas estas fadigas nada custam quando se tem o consolo de ver como os povos correspondem ao que se faz por sua salvação”.      

Dessa maneira, João Eudes se revela como um autêntico profeta da misericórdia, em uma época em que se impunham tantas correntes rigoristas. A partir dessa paixão que o devorava delineou um caminho de santidade baseado na mística do amor comprometido. Nele, a missão e o ministério aparecem como as duas faces da existência cristã, um laço concreto e visível entre o amor de Deus e a miséria humana. Isso sintetiza todo seu projeto espiritual e missionário.      

Isso seria assim até aquela tarde do 19 de agosto de 1680, quando expirava repetindo uma  outra vez: “¡Jesus é meu todo!”      

 Fonte:http://www.eudistes.org/brasil/site%20eudista/Biografia_de_Sao_Joao_EUDES.htm      

Santo do Dia – Paulinas

    

19 de agosto    


São João Eudes
    

 

, no norte da França. Era o primogênito de Isaac e Marta, que tiveram sete filhos. Cresceu num clima familiar profundamente religioso.Argentan nasceu, em 14 de novembro de 1601, na pequena vila de Ri, próxima de EudesJoão  

    

 

, dos padres jesuítas. Nos intervalos das aulas, costumava ir à capela rezar, deixando as brincadeiras para o segundo plano. Na adolescência, por sua grande devoção a Maria, secretamente consagrou-se a ela. Depois, sentindo sua vocação religiosa, foi aconselhado a terminar os estudos antes de ordenar-se sacerdote. CaenInicialmente, estudou no Colégio Real de “Dumont”, em 

   

de França, Bolonha, Bretanha e da sua própria região de origem, a Normandia.  Ile. Dois anos depois, recebeu sua ordenação, dedicando-se integralmente à pregação entre o povo. Pleno do carisma dos oratorianos, centrados no amor a Cristo, e de sua especial devoção a Maria, passou ao ministério de pregação entre o povo. Visitou vilas e cidades de BérulleEm 1623, com o consentimento dos pais, foi para Paris, onde ingressou na Congregação do Oratório, sendo recebido pelo próprio fundador, o cardeal Pedro de

  

Nessa última, quando, em 1627, ocorreu a epidemia da peste, João percorreu quase todas, principalmente as vilas mais distantes e esquecidas. Como sensível pregador, levou a Palavra de Cristo, dando assistência aos doentes e suas famílias. Nunca temeu o contágio. Costumava dizer, em tom de brincadeira, que de sua pele até a peste tinha medo. Mas temia pela integridade daqueles que viviam à sua volta, que, ao seu contato, poderiam ser contagiados.   

Por isso não entrava em casa e à noite dormia dentro de um velho barril abandonado ao lado do paiol. Inconformado com o contexto social que evoluía perigosamente, no qual as elites dos intelectuais valorizavam a razão e desprezavam a fé, João Eudes, sabendo interpretar esses sinais dos tempos, fundou, em 1643, a Congregação de Jesus e Maria com um grupo de sacerdotes de Caen que se uniram a ele. A missão dos eudianos é a formação espiritual e doutrinal dos padres e seminaristas e a pregação evangélica inserida nas necessidades espirituais e materiais do povo. Além de difundir, por meio dessas missões, a devoção aos sagrados corações de Jesus e Maria.   

Seguindo esse pensamento, também fundou a Congregação Nossa Senhora da Caridade do Refúgio, para atender às jovens que de desviavam pelos caminhos da vida e às crianças abandonadas. A Ordem deu origem, no século XIX, à Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, conhecida como as Irmãs do Bom Pastor.     


Com os seus missionários, João dedicou-se à pregação de missões populares, num ritmo de trabalho simplesmente espantoso. As regiões atingidas pelo esforço dos seus missionários foram aquelas que mais resistiram ao vendaval anti-religioso da Revolução Francesa.
    


Coube a João Eudes a glória de ter sido o precursor do culto da devoção dos sagrados corações de Jesus e de Maria. Para isso, ele próprio compôs missas e ofícios, festejando, pela primeira vez, com um culto litúrgico do Coração de Maria em 1648, e do Coração de Jesus em 1672. Hoje, essas venerações fazem parte do calendário da Igreja.
    


Morreu em Caen, norte da França, no dia 19 de agosto de 1680, deixando uma obra escrita de grande valor teológico pela clareza e profundidade. Foi canonizado pelo papa Pio XII em 1925. A festa de são João Eudes comemora-se no dia de sua morte.
    

Fonte: http://www.paulinas.org.br/diafeliz/santo.aspx?Dia=19&Mes=8   

Anúncios

 

 

Vida de São Frei Galvão pelo Vaticano

Antônio de Sant’Anna Galvão
(1739-1822)
 

 Hoje, com quinhentos anos de história, o Brasil pode finalmente apresentar ao mundo o seu primeiro Beato, Frei Antônio de Sant’Anna Galvão, nascido em Guaratinguetá, no Estado de São Paulo, cidade não distante do Santuário nacional de Nossa Senhora Aparecida. Frei Galvão nasceu em 1739 de uma família profundamente piedosa e conhecida pela sua grande caridade para com os pobres. Baptizado com o nome de Antônio Galvão de França, depois de ter estudado com os Padres da Companhia de Jesus, na Bahia, entrou na Ordem dos Frades Menores em 1760. 

Foi ordenado Sacerdote em 1762 e passou a completar os estudos teológicos no Convento de São Francisco, em São Paulo, onde viveu durante 60 anos, até à sua morte ocorrida a 23 de Dezembro de 1822. 

A vida de Frei Galvão foi marcada pela fidelidade à sua consagração como sacerdote e religioso franciscano, e por uma devoção particular e uma dedicação total à Imaculada Conceição, como «filho e escravo perpétuo». Além dos cargos que ocupou dentro da sua Ordem e na Ordem Terceira Franciscana, ele é conhecido sobretudo como fundador e guia do Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição, mais conhecido como «Mosteiro da Luz», do qual tiveram origem outros nove mosteiros. Além de Fundador, Frei Galvão foi também o projectista e construtor do Mosteiro que as Nações Unidas declararam  Património cultural da humanidade. 

Enquanto ele ainda vivia, em 1798 o Senado de São Paulo definiu-o «homem da paz e da caridade», porque era conhecido e procurado por todos como conselheiro e confessor, além de o franciscano que aliviava e curava os doentes e os pobres, no silêncio da noite. 

Frei Galvão convida-nos a crescer em santidade e na devoção a Nossa Senhora da Conceição e deixa a todos nós brasileiros a grata mensagem de sermos pessoas da paz e da caridade, sobretudo para com os pobres e os marginalizados. 

Com muita fé dizemos: «Frei Galvão, intercede pelo teu e nosso Brasil!». 

Fonte: http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_19981025_antonio-galvao_po.html 

Biografia de São Frei Galvão

Santo Antônio de Sant’Ana Galvão, OFM, mais conhecido como Frei Galvão (Guaratinguetá, 1739 — São Paulo, 23 de dezembro de 1822) foi um frade católico e primeiro santo nascido no Brasil. Foi canonizado pelo papa Bento XVI durante sua visita ao Brasil (São Paulo) em 11 de maio de 2007. 

Biografia
O pai, Antônio Galvão de França, nascido em Portugal, era o capitão-mor da vila. Sua mãe, Isabel Leite de Barros, era filha de fazendeiros, bisneta do famoso bandeirante Fernão Dias Pais, o “caçador de esmeraldas”.
Antônio viveu com seus irmãos numa casa grande e rica, pois seus pais gozavam de prestígio social e influência política. O pai, querendo dar uma formação humana e cultural segundo suas possibilidades econômicas, mandou o filho com a idade de treze anos para o Colégio de Belém, dos padres jesuítas, na Bahia, onde já se encontrava seu irmão José.
Lá fez grandes progressos nos estudos e na prática cristã, de 1752 a 1756. Queria tornar-se jesuíta, mas por causa da perseguição movida contra a Ordem pelo Marquês de Pombal, seu pai o aconselhou a entrar para os franciscanos, que tinham um convento em Taubaté, não muito longe de Guaratinguetá. Assim, renunciou a um futuro promissor e influente na sociedade de então, e aos 16 anos, entrou para o noviciado na Vila de Macacu, no Rio de Janeiro.
Estátua do frade em sua cidade natal, GuaratinguetáA 16 de abril de 1761 fez seus votos solenes. Um ano após foi admitido à ordenação sacerdotal, pois julgaram seus estudos suficientes.
Foi então mandado para o Convento de São Francisco em São Paulo a fim de aperfeiçoar os seus estudos de filosofia e teologia, e exercitar-se no apostolado. Data dessa época a sua “entrega a Maria”, como seu “filho e escravo perpétuo”, consagração mariana assinada com seu próprio sangue a 9 de março de 1766.
Terminados os estudos foi nomeado Pregador, Confessor dos Leigos e Porteiro do Convento, cargo este considerado de muita importância, pela comunicação com as pessoas e o grande apostolado resultante. Em 1769-70 foi designado confessor de um Recolhimento de piedosas mulheres, as “Recolhidas de Santa Teresa”, em São Paulo.
Fundação de Novo Recolhimento
Neste Recolhimento encontrou Irmã Helena Maria do Espírito Santo, religiosa que afirmava ter visões pelas quais Jesus lhe pedia para fundar um novo Recolhimento. Frei Galvão, ouvindo também o parecer de outras pessoas, considerou válidas essas visões. No dia 2 de fevereiro de 1774 foi oficialmente fundado o novo Recolhimento e Frei Galvão era o seu fundador.
Em 23 de fevereiro de 1775, um ano após a fundação, Madre Helena morreu repentinamente. Frei Galvão tornou-se o único sustentáculo das Recolhidas. Enquanto isso, o novo capitão-general da capitania de São Paulo retirou a permissão e ordenou o fechamento do Recolhimento. Fazia isso para opor-se ao seu predecessor, que havia promovido a fundação. Frei Galvão foi obrigado a aceitar e também as recolhidas obedeceram, mas não deixaram a casa e resistiram. Depois de um mês, graças a pressão do povo e do Bispo, o recolhimento foi aberto.
Devido ao grande número de vocações, viu-se obrigado a aumentar o recolhimento. Durante catorze anos cuidou dessa nova construção (1774-1788) e outros catorze para a construção da igreja (1788-1802), inaugurada aos 15 de agosto de 1802. Frei Galvão foi arquiteto, mestre de obras e até mesmo pedreiro. A obra, hoje o Mosteiro da Luz, foi declarada “Patrimônio Cultural da Humanidade” pela UNESCO.
Frei Galvão, além da construção e dos encargos especiais dentro e fora da Ordem Franciscana, deu toda a atenção e o melhor de suas forças à formação das Recolhidas. Era para elas verdadeiro pai e mestre. Para elas escreveu um estatuto, excelente guia de disciplina religiosa. Esse é o principal escrito de Frei Galvão, e que melhor manifesta a sua personalidade.
Em várias ocasiões as exigências da sua Ordem Religiosa pediam que se mudasse para outro lugar para realizar outras funções, mas tanto o povo e as Recolhidas, como o bispo, e mesmo a Câmara Municipal de São Paulo intervieram para que ele não saísse da cidade. Diz uma carta do “Senado da Câmara de São Paulo” ao Provincial (superior) de Frei Galvão: “Este homem tão necessário às religiosas da Luz, é preciosíssimo a toda esta Cidade e Vilas da Capitania de São Paulo, é homem religiosíssimo e de prudente conselho; todos acorrem a pedir-lho; é homem da paz e da caridade”.
Frei Galvão viajava constantemente pela capitania de São Paulo, pregando e atendendo as pessoas. Fazia todos esses trajetos sempre a pé, não usava cavalos nem a liteira levada por escravos. Vilas distantes sessenta quilômetros ou mais, municípios do litoral, ou mesmo viajando para o Rio de Janeiro, enfim, não havia obstáculos para o seu zelo apostólico. Por onde passava as multidões acorriam. Ele era alto e forte, de trato muito amável, recebendo a todos com grande caridade. 

Fonte:http://www.saofreigalvao.com/w3c_hist.asp 

Vida de São Frei Galvão por Frei Carmelo Surian

Ele nasceu às margens do magnífico rio Paraíba, na simpática Guaratinguetá, em território paulista, a meio caminho entre São Paulo e Rio de Janeiro, vizinha à cidade de Aparecida. Guaratinguetá, no tempo do pequeno Antônio, devia ostentar bem mais a sua condição de “cidade das garças brancas”.(p.25). 

Outro aspecto a ser considerado: o jovem Antônio estudou em Seminário Jesuíta, ingressou e professou na Ordem dos Frades Menores e foi ordenado sacerdote na cidade do Rio de Janeiro.(p.27). 

 

 Testemunho sobre o pai de frei galvão 

Sobre a inexcedível caridade do pai de Frei Galvão, declara Dona Balduína Galvão de Castro Mafra, uma descendente da família: …Todos os dias ia assistir à Santa Missa, e , quando doente, fazia-se levar para a igreja em sua cadeirinha. Certa manhã, demorou a chegar. Uma velhinha, sentada nos degraus da escada, que dava para a igreja, adormeceu e em sonho viu a alma de seu grande benfeitor, e juntamente os anjos e demônios lutando por sua posse. Mas no mesmo instante, uma grande multidão de pobres acorreu de todos os lados em auxílio dos anjos e assim os demônios foram vencidos.  A grande caridade que em sua vida sempre praticara com os pobres, lhe granjeara a salvação.(p.28). 

 Ordenação

 Na sua caminhada para a ordenação sacerdotal, Frei Galvão colheu com júbilo os frutos da formação que recebera dos jesuítas, em Belém. Em vez de três anos de preparação, bastou-lhe apenas um!…Dessa forma, foi ordenado sacerdote no Rio de Janeiro pelo Bispo beneditino Dom Frei Antônio do Desterro, em junho de 1762, com apenas 23 ou 24 primaveras.(p.41).

 Consagração à Maria

 Em 1766, ele assina, com seu próprio sangue, uma cédula de consagração irrevogável à Virgem Santíssima: “…vos peço pela paixão, morte e Chagas do Vosso Filho, pela Vossa pureza e Conceição Imaculada”…(Ms-42).(p.48).

 Obediência

 Assim foi com Frei Antônio de Sant’Anna Galvão. Simplesmente obedeceu durante toda a sua prolongada vida religiosa, abraçado à Regra Franciscana: por obediência exerceu com carinho e competência seus cargos de porteiro, pregador e confessor; por obediência se encontrou com a Irmã Helena por obediência heróica fechou o Conventinho recém-nascido, por obediência tornou a abri-lo; (p.70).

 Renuncia a si mesmo

 Com a naturalidade e a segurança de quem rewconhece que todos os bens são por raiz, do Pai Criador, renunciou sua herança e sua própria família…passou a vestir-se e calçar-se como frade menor, morando, dormindo e comendo com extrema modéstia. Quando comia no Mosteiro que estava construindo queria o resto das refeições das Irmãs…de preferência caminhava a pé, mesmo em viagens como São Paulo-Rio e vice-versa, e tudo para seguir a pobreza do Senhor Jesus…

 Partilha

 O santo franciscano, na medida do possível, escondidamente pagava as contas, e dava ciência disso aos beneficiados, por terceiros, revelando fidalguia, respeito.(p.72).

 Reconciliação

 Itu vivia sob a tensão de duas famílias que se odiavam mortalmente. Frei Antônio para lá se dirigiu, no intuito de tentar reconciliá-las. No entanto, por mais que argumentasse, em seu sermão público, para levá-los a cumprir o difícil dever cristão de caridade, nada conseguia. Então mudando de táticas, declarou que seus pecados eram a causa da ineficiência das suas palavras, e passou a flagelar-se publicamente…Assim arrancou a graça do alto:operou-se a paz, a reconciliação.(p.94).

 Não julgava o próximo

 A mansidão extrema de nosso Santo Frade muito se devia a sua disciplina de jamais julgar o próximo. (p.76)

 Que nunca se julgue a criatura alguma, porque o julgar é reservado só a Deus; e se vier alguma coisa que não pareça boa que tudo bote à parte, nunca julgando mal de ninguém; se a ação não parecer boa, que não a façamos, mas, nunca julgando mal, porque só Deus é o verdadeiro juiz e só a Ele toca julgar o próximo. É virtude esta muito recomendada por Sr. Padre, que nunca, nunca julguemos ninguém.(MS-133).(p.95)

 Bilocação

 Quando seus devotos não podiam vir a ele, Frei Galvão, na sua imensa misericórdia, é que dava um jeito de achegar-se a eles. (p.87).

  Reconhecimento de um autêntico Cristão

 “Se forem de Deus, deixam grande conhecimento da própria vileza, deixam amor às virtudes, desprezo do mundo e de si próprio, desejos de perfeição, paz, segurança, tranqüilidade, tudo na alma.”(p.96).

 Fonte: Frei Carmelo Surian – Vida de Frei Galvão. Editora Santuário. 1997.

 

 Como todo e qualquer outro religioso que ‘apareça’, Frei Antônio sofreu a perseguição da maledicência dos mundanos: aqui era um ‘bajulador de ricos’; lá um galanteador dos fiéis…; acolá os ‘motins’ do clero contra o projeto da Irmã Helena…(p.98).

 

 Certo dia, Frei Galvão foi procurado por um senhor muito aflito, porque sua mulher estava em trabalho de parto e em perigo de perder a vida.
      Frei Galvão escreveu em três papelinhos o versículo do Ofício da Santíssima Virgem: Pos partum Virgo, Inviolata permansisti: Dei Genitrix intercede pro nobis (Depois do parto, ó Virgem, permaneceste intacta: Mãe de Deus, intercedei por nós).

      Deu-os ao homem, que por sua vez levou-os à esposa. A mulher ingeriu os papelinhos, que Frei Galvão enrolara como uma pílula, e a criança nasceu normalmente.
      Caso idêntico deu-se com um jovem que se estorcia com dores provocadas por cálculos visicais.

      Frei Galvão fez outras pílulas semelhantes e deu-as ao moço. Após ingerir os papelinhos, o jovem expeliu os cálculos e ficou curado.

      Esta foi a origem dos milagrosos papelinhos, que, desde então, foram muito procurados pelos devotos de Frei Galvão, e até hoje o Mosteiro fornece para pessoas que têm fé na intercessão de Servo de Deus.

http://www.saofreigalvao.com/w3c_novena.asp

SÃO FREI GALVÃO, ROGAI POR NÓS!

Vida de São Paulo da Cruz

NASCIMENTO DE PAULO

A bela e fecunda Itália, berço de tantos santos, foi a pátria de são Paulo da Cruz.Nasceu em Ovada, república de Gênova, aos 3 de janeiro de 1694. O pai, Lucas Dánei, natural de Castellazzo, diocese de Alexandria, era de família tradicionalmente ilustre, mas decaída do antigo esplendor. A mãe, Ana Maria Massari, descendia igualmente de nobre linhagem. Sua terra natal foi Rivarolo, na república de Gênova, mas desde a infância vivia com a família em Ovada. Aqui também se estabelecera Lucas, ainda jovem, em casa de um tio sacerdote, pe. João André Dánei. Realizou-se o enlace matrimonial do virtuoso par a 6 de janeiro de1692.

 Modelo perfeito de união conjugal, mais cobiçosos dos bens imorredouros do Céu que das efêmeras riquezas da terra, buscavam em honrado comércio o necessário para o sustento da numerosa prole.

 Homem virtuoso e pio, Lucas encontrava suas delicias na prece, na leitura de livros edificantes, nomeadamente nas biografias dos santos.

 Oh! se todos os pais lhe seguissem o exemplo! Nessas fontes hauria virtudes tão sólidas, que por Deus houvera sacrificado, os mais caros interesses, as mais puras afeições, a própria vida, enfim. Apesar dos compromissos de esposo e pai, aspirava ao martírio.

 Para com o próximo era justo, bom e indulgente; no leito de morte coroa sua vida com um ato da caridade mais heróica. Igual fisionomia espiritual, realçada com os suaves atrativos de esposa e mãe, se nos depara na incomparável figura de Ana Maria. Humilde, recatada e piedosa, vivia para o lar e para a igreja, repartindo seu tempo entre Deus e a família. Dedicava-se às lides domésticas e à educação dos filhos como a dever sagrado.

 De paciência inalterável, reprimia qualquer sentimento de revolta e, ao invés de irromper em palavras de censura, seus lábios tão meigos só sabiam proferir esta expressão de bênção:“ Que Deus vos torne santos! ”

 Doçura tão constante granjeou-lhe o afeto de quantos dela se acercavam. Foi a mulher forte, de que falam as Letras Sagradas. Ao falecer-lhe o esposo, em agosto de 1727, suportou sozinha e sem queixa, apesar das contínuas enfermidades, o peso da numerosa família.

 Modelo de perfeição, entregou a alma ao Criador em idade avançada, indo receber o prêmio de suas virtudes, em setembro de 1746. Estas as plantas eleitas donde desabrochou flor tão pura, cujo aroma de santidade vamos aspirar.

 Dezesseis filhos, preciosas dádivas do Céu, vieram alegrar os corações daqueles santos pais. E’ de ordinário entre famílias numerosas que Deus sói escolher os privilegiados de sua graça. Paulo foi o primogênito, se não levarmos em conta uma irmãzinha que o precedeu mas viveu apenas três dias. Neste amado filho pressentiam os pais desígnios extraordinários.

 Todo o tempo que o trouxe em suas entranhas, jamais sentiu a mãe os sofrimentos que soem preceder a maternidade. Seu nascimento foi assinalado de circunstâncias extraordinárias. Sendo noite, luz maravilhosa inundou o quarto com resplendor tão vivo, que as lâmpadas pareciam apagadas. Paulo será a luz radiante que há de espancar as trevas em que jaz o século XVIII.

 Veio ao mundo no dia da oitava da festa de são João Evangelista; como este, há de permanecer em espirito ao pé da Cruz. Foi batizado no dia da Epifania, que quer dizer MANIFESTAÇÃO DE JESUS. E ele manifestará ao mundo, pela pregação, os mistérios do Redentor. Recebeu o nome de Paulo Francisco. Como o Apóstolo das gentes, será o missionário de Jesus Crucificado e, a exemplo do seráfico patriarca, fundará uma Congregação alicerçada na mais rigorosa pobreza.

 Mulher prudente e cristã, quis Ana Maria alimentar com o próprio leite o filho pequenino, e este, com o leite, recebeu a piedade materna. Bem cedo deu claríssimas provas do que viria a ser um dia. Como se já possuíra o uso da razão, alimentava-se apenas de quatro em quatro horas, indicio da grande abstinência que guardaria mais tarde.

 SUA INFÂNCIA

(…)Ana Maria, penetrando a extensão da imensa responsabilidade, pôs todas as suas virtudes a serviço desse altíssimo dever: elevação de inteligência, delicadeza de sentimento; bondade e energia, unção e piedade, mas, sobretudo, grande fé em Deus. Com que solicitude zelou pelo tesouro que o Pai celeste lhe confiara!

 Com que cuidado não lhe depositou no coração pequenino a semente de todas as virtudes! Tinha-o sempre ante os olhos se esmerava por afastar dele tudo o que pudesse empanar-lhe a candura. E Paulo levará ao túmulo a inocência batismal!

 Ensinava-o a conhecer, amar e servir o Pai celeste, narrando-lhe a vida dos santos anacoretas. E como estava Intimamente unida a Deus, sabia dar às palavras tais acentos e tal expressão, que o menino a ouvia com o maior interesse. Foi assim que nasceu nele esse amor à solidão, que se tornou a característica de sua vida.

 Falava-lhe da Paixão e Morte de Nosso Senhor, e nos olhos puros do pequeno borbulhavam lágrimas. Se, ao penteá-lo, Paulo se punha a chorar, como fazem geralmente as crianças, narrava-lhe algum fato da vida dos santos, e era de ver o pequeno passar do pranto à mais viva atenção, ainda conservando nos olhos as últimas lágrimas. Colocava-lhe outras vezes nas mãos o crucifixo, dizendo:

“ Vê, meu filho, quanto Jesus sofreu por nosso amor! ”

 

E ele, fitando a devota imagem, como por encanto deixava de chorar. A santa mãe consagrara-o à Rainha das Virgens. Dizia lhe também repetidas vezes da obediência e docilidade do Menino Jesus e da ternura de Maria Santíssima, o que lhe despertava singularíssima devoção para com Eles.

 E Paulo, de joelhos, mãozinhas postas ante suas imagens, comprazia-se em dirigir-lhes breves orações. Essa esmerada educação materna foi corroborada pelos exemplos do virtuoso pai. A lembrança de mãe tão santa permanecerá indelével na alma agradecida de Paulo Francisco, até o final de sua longa existência. Dela discorria freqüentemente em público, comovido, propondo-a como exemplo.

 Mais tarde dirá: “Se me salvar, como espero, devo-o a educação que recebi de minha mãe ” . Felizes os pais que assim educam para Deus os seus filhos! Crescendo Paulo em idade crescia outrossim na virtude. Desenvolvia-se-lhe natural tendência à solidão, à prece e à penitência, enquanto começava a revelar caráter brando e afável, talhado para a conquista dos corações. Fugia dos divertimentos infantis e, com seu irmãozinho João Batista que, como veremos lhe foi companheiro fiel nos labores apostólicos entretinha-se em construir altarezinhos adornando-os com flores e imagens do Menino Jesus e da ss. Virgem. Ali passava horas e horas recitar o terço, devoção que conservou até a morte.

 Certa vez, enquanto oferecia esta prova de amor à Rainha do Céu, apareceu-lhe uma criança de encantadora formosura Era Jesus, que se dignava recompensar assim a ternura que Paulo lhe votava. Maria Santíssima também lhe patenteou de modo extraordinário, bem como a João Batista, sua materna proteção. Enquanto colhiam flores às margens do rio para ornamentar o altar da Virgem, ambos escorregaram e caíram no Olha. As águas eram profundam, rápida a corrente. Paulo e João Batista estavam prestes a perecer… quando de improviso vêm uma senhora de sobre-humana formosura e majestade que, caminhando sobre as águas, lhes estende a mão e os livra da morte. Graça tão assinalada inflamou mais e mais o coração de Paulo no amor e no reconhecimento para com a sua libertadora e para com aquele deifico Menino, cuja beleza o encantara.

 DEVOÇÃO À SAGRADA PAIXÃO

Em idade tão tenra comunicou-lhe Deus grandes luzes, o dom das lágrimas e da oração. Embora desconhecesse o método de meditar, guiado pelo espírito de Deus, fazia freqüentes e longas reflexões sobre a Paixão de Nosso Senhor, em que tanto o exercitara a piedosa mãe. Ana Maria, talvez sem o saber, preparava o caminho para os desígnios de Deus em relação a Paulo, ao inspirar-lhe tal devoção. Este tinha sempre ante os olhos a imagem de Jesus Crucificado, considerando os cruéis padecimentos do Redentor, enquanto as lágrimas lhe corriam abundantes. Jesus em pessoa o ia preparando suavemente para missão providencial. Fazia com que seus padecimentos fossem atrativo irresistível para o coração de Paulo, começando, desde então, a recreá-lo com freqüentes visões sobre sua vida, suas dores e sua morte. Apareceu-lhe certa vez com a cabeça coroada de espinhos, o rosto ensanguentado, as carnes maceradas!… Tão forte foi a impressão causada no bem-aventurado menino, que, ao recordá-lo, experimentava extrema tristeza. Não é, portanto, para estranhar que começasse desde os mais verdes anos a amar os sofrimentos. Mortificava o gosto e martirizava o delicado corpo. De noite deixava a cama e deitava-se sobre uma tábua, para assemelhar-se ao Salvador, que na agonia teve por leito o madeiro da Cruz. Mui de freqüente, no silêncio da noite e sempre de joelhos, meditava os cruéis padecimentos de Jesus. Às sextas-feiras, principalmente, entregava-se a muitos rigores, absorto nos tormentos do Homem-Deus. Assentava-se à mesa, triste, pálido e com lágrimas nos olhos. Conseguia-se a custo induzi-lo a comer um pedaço de pão, que banhava com suas lágrimas.

 João Batista aprendera de Paulo a amar as austeridades e oração. Ve-los-emos sempre juntos na prática das mortificações mais rigorosas. A Paixão de Nosso Senhor era o pensamento quase continuo do nosso santo. Reunia muitas vezes os irmãozinhos e lhes falava da Paixão, com vigor e unção verdadeiramente singulares em tão tenra idade. Seus jovens ouvintes comoviam-se ao vê-lo chorar, chorando com ele. Assim, pela penitência e pela prece, aparelhava em seu coração um santuário ao Deus da Eucaristia, que em breve iria receber pela primeira vez, A mãe não se descuidava de enviá-lo ao catecismo paroquial, impondo-se o dever de repetir ao filho aquelas verdades da fé. Não se tem cabal certeza da época em que Paulo recebeu pela primeira vez a sagrada Comunhão. E’ de crer, no entanto, que logo após ato tão solene, fosse enviado pelos pais a Cremolino para terminar os estudos, pois é certo que então se achegava amiúde à sagrada mesa, com fervor angélico. Embora nos faltem documentos, é fácil conjecturar ter Deus favorecido com graças assinaladas esta alma de escol em dia tão memorável, crescendo Paulo, desde então, de virtude em virtude, jamais cessando de marchar com passos agigantados pelo caminho da santidade. A Comunhão será sua felicidade e sua fôrça. Ela irá preservar este lírio de toda e qualquer mancha. O Tabernáculo será a torre inexpugnável onde Paulo resguardará a virtude.

 SEUS PRIMEIROS ESTUDOS

Tinha o nosso santo cerca de dez anos. Lucas, notando no filho inteligência lúcida e memória feliz, resolveu confiar-lhe a educação a mestre virtuoso. Incumbiu, pois, de tão delicada missão a um seu amigo, religioso carmelita de Cremolino. A docilidade do discípulo, sua inteligência, a aplicação ao estudo e à piedade, conquistaram-lhe a simpatia do mestre. Esmerou-se este na instrução e educação do aluno, levado por suas qualidades e pela amizade que o unia a Lucas Dánei. Paulo Francisco correspondeu às solicitudes do mestre e às esperanças do pai, sobrepujando os progressos nos estudos o que se podia esperar de sua idade. “ Não há dúvida, diz são Vicente Maria Strambi, que os dotes naturais foram causa desses progressos, mas a causa principal temo-Ia na aplicação ao estudo unida à serenidade de espírito e à tranquilidade do coração, isento de paixões, perturbadoras da inteligência.

 Aplicando-se Paulo mais tarde a estudos profundos e assíduos, aprendeu a raciocinar com solidez, a expressar-se com elegância, insinuação e eloquência. Sua palavra era grave, florida e comovente, o que muito agradava e comovia a

seus ouvintes no decurso das pregações ” . O estudo, que soube converter em oração, não lhe alterou a piedade, de maneira que os progressos na ciência dos santos não foram menos notáveis.

 Multiplicava os exercícios de piedade. Jamais deixou a meditação; diariamente assistia à santa Missa e o mais possível se alimentava do pão dos Anjos. O tempo que lhe deixavam o estudo e as aulas, empregava-o em piedosas leituras e visitas ao ss. Sacramento e à ss. Virgem. O trabalho e a oração foram como que o aroma a lhe preservar a alma da menor culpa. A modéstia, o candor e a piedade prognosticavam viria a ser um grande servo de Deus. Terminou seus estudos literários aos dezesseis ou dezessete anos.

SUA JUVENTUDE

Pelos fins de 1709, de Ovada se transferia a família Dánei para as proximidades de Gênova (Campo Ligúrio). Não diminuís aqui o santo jovem seu fervor nem suas práticas de piedade. Embora ao aconchego da família, vivia no meio do mundo, em idade em que a imaginação é vivida, fáceis as impressões e o coração afetuoso. Iluminado pela graça, compreendeu que o lírio da inocência somente se conserva entre os espinhos da mortificação e sob o orvalho do Céu. Austeridade, oração, modéstia angélica, desprezo do mundo, estudo constante e trabalho assíduo… eis o baluarte que lhe defendeu a virtude. Tal foi sua vida dos 15 aos 20 anos. Talvez seja para estranhar que Paulo, todo fervor e piedade, ainda não manifestasse vocação religiosa ou sacerdotal. E’ que ele tinha altíssimo conceito do sacerdócio, não ousando aspirar a tão sublime dignidade. Mais tarde aceita-la-á, mas tão somente por obediência. O que desejava era ocultar-se num deserto, lugar inacessível, e lá viver como os antigos anacoreta. Ter-se-ia, sem dúvida, afastado do convívio do mundo, não fôr a resistência do diretor espiritual, que o reputava arrimo necessário aos pais.

 Paulo jamais se deixou levar por fervores juvenis, mas, guia do por raro discernimento, lançou-se sem reserva às mãos do pai espiritual, cuja voz para ele era a mesma voz de Deus. Esperava, pois, em silêncio, a hora da Providência. Chegamos a um dos momentos mais solenes da vida espiritual do nosso santo. Quando Deus tem altos desígnios sobre um alma, começa por purificá-la, humilhando-a. Não outorga missões extraordinárias senão à pureza perfeita e à profunda humildade. E’ assim que vai preparar em Paulo seu vaso de eleição, adornando-o com os mais preciosos dons para torná-lo admirável instrumento de suas misericórdias. Vejamos em que circunstâncias lhe concedeu essa graça, que chamaremos de PREPARATÓRIA aos seus adoráveis desígnios.

 UMA GRAÇA EXTRAORDINÁRIA

Teria Paulo seus vinte anos. Assistia a uma instrução familiar de sul pároco, quando brilhante e improvisa luz lhe iluminou o mais recôndito da alma e lhe patenteou sua miséria e seu nada. Apesar de tão exemplar e virtuoso, julgou-se grande pecador. Tão vivo foi o sentimento de seu mísero estado, que lhe arrancou torrentes de lágrimas. “ Quando Deus, diremos com piedoso autor, por um raio de sua luz, faz conhecer à alma a pureza que dela exige, dá-lhe outrossim maior conhecimento dos próprios defeitos, obrigando a examiná-los com severidade e investigar as mais recônditas inclinações, assim viciosas como naturais. Prouvera a Deus que os pecadores chorassem seus maiores crimes com tanto pesar como esta alma chorou, então, suas mais leves faltas ” .

Deste insigne dom resulta o profundo desprezo de si mesmo, coar absoluto desapego de toda criatura e grande zelo pela glória de Deus da salvação do mundo. Exige este toque divino constante fidelidade e à voz do Céu. Com efeito, assim como a alma fiel pode elevar-se ao mais alto, pode a infiel descer ao mais profundo. Deparando um coração dócil, produziu esta graça os melhores frutos em Paulo Francisco. Colocado nessa região de luz, resolveu o santo jovem dar-se inteiramente a Deus. Percebeu insólita transformação interior, por ele chamada, em sua humildade, CONVERSÃO, e que nada arais era senão aumento de virtude.

 Muitos santos foram provados nesse crisol, quando o Senhor se comprazia em confiar-lhes alguma missão extraordinária. Afigurou-se, pois, a Paulo nada ter feito até então pela glória de Deus. Em sua alma apenas via pecados. Desejando purificar a vida passada por uma confissão geral, foi lançar-se aos pés do ministro de Deus, acusando-se das mais leves faltas como se foram enormes pecados. Sentiu compunção tão veemente, que o fez derramar amargas lágrimas e ferir desapiedadamente o peito com uma pedra, à imitação de são Jerônimo, na gruta de Belém.

 PROVAÇÕES ESPIRITUAIS

Quando Deus nos concede alguma graça particular, faz-se mister preparar-nos contra os ataques do inimigo da salvação Enquanto Paulo se inebriava no divino amor, desencadeou o demônio contra ele a mais terrível das tentações Dúvidas a respeito da fé acometeram-lhe o espirito, apossando-se dele a perturbação, a angústia e a perplexidade. Houvera, por ventura, ofendido a Deus, seu soberano Bem? Não combatera devidamente os pensamentos, que lhe moviam tão violenta guerra? Não sabendo como tranquilizar-se, corria à igreja e derramava a sua mágoa aos pés do divino Mestre, apoiando a cabeça fatigada na mesa da comunhão..

Ignoramos quanto durasse a provação; certo é, porém, que no dia de Pentecostes, quando implorava o socorro do Senhor, sentiu elevar-se a alta contemplação e o Espírito Santo esclareceu-lhe a inteligência com abundantes luzes, com que se lhe dissiparam para sempre todas as dúvidas.

 ENTRE OS CRUZADOS

Esta divina claridade acendeu-lhe também no coração labaredas de amor a Jesus Crucificado, com ardentes desejos de sacrificar-se pela sua glória. Por vezes dá Deus às almas sêde ardente de imolação, sem manifestar-lhes o gênero de sacrifício que lhes pede. Ao seráfico patriarca são Francisco, refere são Boaventura, mostrou-se-lhe em visão magnifico palácio repleto de resplandecentes armas marcadas com o emblema da Cruz.

“ Para quem são estas armas e este palácio tão encantador? ” ,perguntou o santo.“ São para ti e teus soldados ” ,respondeu-lhe uma voz.

E ele, julgando-se chamado a combater sob a bandeira dos reis da terra, já se dispunha a partir, quando a mesma voz lhe fêz compreender que aquilo significava os combates espirituais a serem travados sob o estandarte do Rei dos Céus.

 Desejoso de atirar-se às batalhas do Senhor, entregou-se Paulo a largas reflexões.

 Por aquele tempo a república de Veneza fazia grandes preparativos de guerra contra o império muçulmano, prestes a lançar formidável exército contra a Europa. Ronca acabava de elevar a voz, voz poderosa que tem sempre comovido e salvado a Europa da barbárie otomana. Clemente XI convidara, em duas Bulas, os príncipes cristãos para uma aliança contra esses inimigos da civilização e da Cruz. O Santo Pontífice, atemorizado pelo perigo que corria a cristandade, não se contentou em equipar os navios de seus Estados, mas apelou para todos os fiéis a fim de aplacarem a cólera divina com penitências e jejuns, e ordenou preces públicas para implorar o auxílio do alto. “ Eis, exclama Paulo de si para consigo, eis as batalhas a que Deus me chama ” . Combater por Jesus! Ser mártir da fé! Derramar o sangue por tão nobre causa!… Tais pensamentos lhe acenderam o entusiasmo no coração e, sem pôr tempo em meio, alistou-se como voluntário em Crema, na Lombardia. Ei-lo soldado, exercitando-se no manejo das armas, disposto a pelejar contra o inveterado inimigo da fé. Em o novo gênero de vida, não olvidava o seu Deus, frequentando, como em Castellazzo, a oração e os sacramentos. Prestes a embarcar em Veneza rumo ao Oriente, foi adorar o ss. Sacramento, solenemente exposto. Enquanto orava, fê-lo o Senhor compreender claramente que o chalrava para mais alta e santa milícia: a dos apóstolos do Evangelho. Deus falara e Paulo já não vacila. Solicita e obtém a devida baixa, retornando à cidade natal.

 De regresso, hospeda-se em Novello, em casa de uma família que se compunha unicamente do marido e da esposa. Estes, de idade avançada e sem prole, uniam à imensa fortuna sólida piedade. Descortinando no jovem peregrino, de maneiras afáveis e nobres, tesouros de virtudes ocultas sob o véu da modéstia, resolveram adotá-lo por filho e legar-lhe o rico patrimônio. Manifestaram a Paulo o propósito, mas este cortesmente o recusou, pois desejava consagrar a Deus o coração completamente desprendido de tudo e de todos.

CRESCENDO SEMPRE EM FERVOR

Transferindo-se com a família para Castellazzo, o soldado de Cristo recomeçou todos seus exercícios de piedade, esperando que a Vontade de Deus lhe manifestasse qual a sua vocação. Desde esse instante se entregou de vez à contemplação dos tormentos do Redentor, envidando todos os esforços por identificar-se com este divino modelo, mediante a mais rigorosa mortificação.

 Raras vezes dormia no leito. Teresa, sua irmã, notou-o e, desejando esclarecimentos, dirigiu-lhe algumas perguntas a respeito. Paulo, que desejava somente a Deus por testemunha, nada respondeu. No entanto, a irmã, que o vira subir muitas vezes ao sótão com João Batista, suspeitou lá passassem a noite. E, ambos ausentes, lá deparou com umas tábuas e sobre elas alguns tijolos e um crucifixo. Foi o que declarou com juramento no processo de beatificação.

 Outra testemunha também asseverou que Paulo dormia muito pouco e sobre tábuas nuas, com tijolos por travesseiros, meditando em tal maneira, sem interrupção, os cruéis tormentos de Jesus Crucificado. Após breve e torturante descanso, levantavam-se ambos, até ao mais rigoroso inverno, para entregar-se à contemplação do Sumo Bem. A meditação inflama o amor e com o amor nasce o desejo de assemelhar-se ao objeto amado. Com a Cruz em uma das mãos e na outra o instrumento de penitência, Paulo oferecia a Deus seu corpo, como hóstia viva, ao gravar nas carnes as chagas de Jesus. Certa vez a mãe teve ocasião de ouvir, em meio das trevas da noite, o ruído espantoso e lúgubre do instrumento de penitência e o narrou depois, soluçando, à filha. Também o pai os surpreendeu um dia, quando se feriam cruelmente com correias de couro, e não pôde deixar de exclamar:“ Vocês querem se matar? ”

Tão grande era o ardor que estimulava o nosso santo na prática da penitência, que João Batista, embora mui fervoroso, teve inúmeras vezes de arrancar-lhe das mãos o açoite. Quase sempre antecipava a hora de levantar e, sem fazer ruído, para não despertar o mano, entretinha-se com Deus em altíssima contemplação. Às sextas-feiras mais rigorosas eram as penitências e mais austero o jejum. Contentava-se de uma fatia de pão, que mendigava de joelhos, banhando-o com abundantes lágrimas. A bebida, diz-nos testemunha ocular, consistia numa mistura de fel e vinagre. A irmã, que já o suspeitara, surpreendeu-o certa vez com o fel nas mãos, perguntando-lhe, aflita:“ Que vais fazer com isto? ”

 O jovem guardou silêncio, lançando o conteúdo em pequeno frasco, que se esmerava em esconder. Quando Paulo deixou o lar paterno, certo dia Teresa, ao varrer a casa, bateu no frasco com a vassoura e o quebrou. “ Coisa admirável ” diz são Vicente Strambi,“ apenas quebrado o vaso, difundiu-se pela habitação estranho perfume, que surpreendeu a todos. A piedosa irmã recolheu os fragmentos, examinou-os com atenção e notou que ainda estavam impregnados do fel que o servo de Deus ai guardara. Levou um fragmento a uma de suas tias, Rosa Maria, irmã corista no convento de Santo Agostinho, que também se, inebriou daquele delicioso perfume, revelando Deus por este prodígio quão agradáveis lhe eram as austeridades de seu servo, em louvor da Paixão ss. De Jesus Cristo! ”

(…)

De volta a Castellazzo, inscreveu-se na Confraria dedicada a santo Antão, cumprindo o regulamento com escrupulosa fidelidade. Eleito presidente, em todas as festas dirigia aos confrades uma fervorosa palestra. Era-lhe a igreja o lugar predileto. Nela passava muitas horas do dia e da noite, modesto e recolhido, aos pés do Tabernáculo. Assistia quotidianamente ao santo sacrifício da missa; comungava ao menos três vezes por semana; recitava no côro, com os sacerdotes, o divino ofício, ou lá permanecia em oração. Tão freqüentes e prolongadas eram as visitas à igreja, que era voz corrente: “ Se desejardes encontrar o jovem Paulo, procurai-o na igreja ” .

 Para ele a noite mais deliciosa do ano era a de quinta-feira santa. Costumava passá-la diante do santo Sepulcro, aos pés do Deus do Calvário, acompanhando-o, com lágrimas e suspiros, nos diversos passos da Paixão. Oh! noite ditosa a que se passa junto ao Sepulcro do Salvador! Noite de trevas e de luzes, de dor e de alvor! Quantas graças não verte ali o doce Jesus nas almas que sofrem e velam com Ele! Assistindo certa vez ao Ofício de Trevas, ao ouvir as palavras: “ Cristo se fêz por nós obediente até a morte ” , sentiu-se penetrado do vivo desejo de imitar a Jesus Crucificado. Emitiu o voto de obediência, tomando por lema estas palavras de são Pedro: “ Sêde, pois, submissos a todos os homens por amor de Deus (1 Petr. 11, 13) ” .

 E, desde então, obedecia não somente aos superiores, mas até aos irmãos e a todos os que o mandavam, de modo a tornar-se, por amor de Deus, o mais submisso e dócil dos homens. Na igreja sua modéstia inspirava devoção. Permanecia muitas horas de joelhos em terra, sem apoiar-se, com as mãos cruzadas sobre o peito, transpirando viva fé e profunda humildade.

 Atraiu assim a atenção da condessa Canefri, que todos os anos de Alexandria vinha veranear em Castellazzo. Comovida por exemplo tão edificante, interrogou ao sacristão quem era aquele jovem. De volta ao palácio, comunicou ao marido a agradável impressão que recebera. “ Sem dúvida, exclamou, aquele jovem está por tomar graves resoluções. Grandes coisas se hão de ouvir a seu respeito ” .

 Aos pés do altar, Paulo se absorvia em Deus, parecendo privado de toda sensibilidade física. Certa feita, enquanto adorava o ss. Sacramento, exposto na igreja dos Capuchinhos, caiu-lhe sobre o pé um banco bastante pesado. Colho se nada acontecera, continuou imóvel. Seu companheiro, que nos relata o fato, diz são Vicente Strambi, ao ver escorrer o sangue, advertiu-o. Mas o santo, como se nada ouvisse, continuou na mesma atitude. Terminada a função, quis outro obrigá-lo a entrar no convento para medicar-lhe a ferida, ao que se recusou, dizendo:

 “ Isto são rosas em comparação do que sofreu Jesus e do que merecem os meus pecados ” .

(…)

 SEU CONFESSOR

Persuadido de que a obediência é o meio mais eficaz para o cumprimento dos divinos desígnios, desde o momento em que fizera a confissão geral entregara-se sem reserva à direção de seu pároco. O sacerdote, admirado dos singulares caminhos percorridos pelo penitente e desejando discernir o princípio que lhe animava o agir, submeteu-o a duras provações. Humilhava-o e o mortificava. Quando se apresentava na sacristia para se confessar, dizia-lhe o severo confessor que o atenderia na igreja; fazia-o esperar largo tempo, despachando-o sempre por último. Dizia-lhe, então, com aspereza: “ Vamos, depressa! ”

 E, quando o humilde penitente acusava alguma dessas imperfeições inevitáveis, de que só os santos se acusam, repreendia-o como dos maiores crimes.

 E’ para lamentar como esse diretor ultrapassasse por vezes os limites da prudência. Chegou a despedi-lo da mesa eucarística, negando-lhe a Comunhão, como a pecador público, quando era maior o concurso de povo. Diais que humilhação, era isso profunda ferida para o amor de Paulo. Nada obstante, resignava-se em silêncio, imolando ao Deus do Calvário seu ardente desejo de se unir misticamente a Ele. De outra feita, enquanto orava no côro da igreja, sentiu-se arrebatado pelo divino amor, entre delícias e lágrimas. A fim de ocultar esses dons, cobriu o rosto com a capa. O implacável diretor correu para ele e, arrancando-lha com desdém, admoestou-o severamente:

 “ E’ assim que se há de estar diante do SS. Sacramento? ”

E Paulo, de caráter vivo e sensível, sorvia, por amor de Jesus

Crucificado, o amargo cálice dessas ignomínias.

Dizia-lhe a natureza ou o demônio:

“ Abandona esse confessor e procura outro ” .

Ao que respondia o heróico jovem:

“ Não, o demônio não há de levar a melhor; continuarei, custe o que custar. Este é o confessor talhado para mim, pois me faz baixar a cabeça ” . Em dia de carnaval, quando muitos se entregam desenfreadamente a divertimentos profanos, dirigia-se o nosso santo à igreja para adorar o ss. Sacramento e reparar os ultrajes feitos à majestade divina. O confessor, que participava de uma festa familiar, quis submetê-lo a novo gênero de prova. Chamou-o e o intimou, com a severidade habitual, a que tomasse parte na dança. Nada mais contrário aos sentimentos do servo de Deus. Que penitência inesperada! Que fazer? Como conciliar o voto de obediência com as repugnâncias por tal divertimento?… Apressou-se Nosso Senhor a. tirá-lo da, angustiosa situação, porquanto, no momento em que se dispunha a obedecer, cessou de improviso a musica… é que todas as cordas dos instrumentos se romperam!… Tocados de pasmo, todos reconheceram nisto o dedo de Deus, e o confessor se convenceu de que Nosso Senhor destinava a grandes coisas o santo jovem.

 PROPOSTA DE CASAMENTO

Todavia, nova provação o esperava. Seus pais, desfavorecidos dos bens de fortuna, tinham que manter numerosa família. Todas as suas esperanças repousavam em Paulo. Um de seus tios, o sacerdote Cristóvão Dánei, desejoso de reintegrar a família no antigo esplendor, resolveu, de acordo com os pais de Paulo, uni-lo em matrimônio com rica e virtuosa donzela.

 O êxito da empresa parecia-lhe assegurado com o propósito de legar ao sobrinho todos os seus bens. Tratava-se, no entanto, de proporcionar-lhes uma entrevista, a fim de que tudo se ajustasse. Paulo, porém, que já se entregara sem reserva a Deus, recusou tão sedutoras ofertas. Às instâncias do tio, respondia cortesmente não julgar fossem esses os desígnios divinos sobre ele. O sacerdote, porém, aferrado sem dúvida à convicção da época, de que os primogênitos são destinados por Deus a perpetuarem a família, replicou-lhe ser seu dever aceitar a proposta em consideração aos pais, a quem o enlace iria tirar do humilde estado em que jaziam. Mas ele permanecia inflexível.

Todos os membros da família juntaram então seus rogos aos do tio. O jovem sempre irredutível! Julgando a modéstia a causa da negativa e abusando da ascendência de tio e sacerdote, Cristóvão o obrigou a acompanhá-lo à casa da moça. O humilde filho da obediência dispôs-se a segui-lo. Eis, porém, reproduzido o belo edificante exemplo de são Francisco de Sales: o angélico jovem nem sequer alçou os olhos para vê-la; pelo que nada se concluiu. E no entanto o tio pretendia triunfar a todo custo. HERANÇA PRECIOSA Cruel perseguição para o espirito de Paulo! Os sentimentos mais opostos agitavam-lhe a alma. De um lado, o propósito de corresponder ao chamamento divino; de outro, o amor aos pais a braços com as mais duras dificuldades… Nessa dolorosa perplexidade implorava o auxilio do Alto. E Deus lhe veio em ajuda de maneira extraordinária. Cai enfermo o tio e falece imprevistamente, deixando-lhe os haveres para garantir o bom êxito de seus planos. Mas o santo herdeiro renunciou generosamente à herança em presença do vigário forâneo.

 Tomou para si apenas o breviário e, dirigindo-se ao crucifixo, os olhos banhados em lágrimas, exclamou:

 “ Ó meu Jesus Crucificado, protesto que de tal herança desejo apenas este livro de oração, porque vós somente me bastais, ó meu Deus! meu único Bem!” . Daqui se infere quanto o servo de Deus amava a pobreza e a pureza de coração, consagrando-lhes igual estima, e às quais o texto sagrado promete a bem-aventurança celeste.Eis as duas asas que o elevaram acima das vulgares realidades do mundo e com as quais desenvolverá crescente apostolado pela glória de Deus e salvação das almas.

 PRIMEIROS ENSAIOS DE APOSTOLADO

Vimo-lo, desde os mais verdes anos, oferecer aos irmãozinhos exemplos de todas as virtudes. Entretinha-os diariamente com pias leituras e se esforçava por infundir-lhes terna e sólida devoção à Paixão de Jesus Cristo.  O zelo, porém, que de todo lhe incendia o coração, reclamava mais espaços onde projetar suas benéficas irradiações. Mal ingressara na Confraria de que já falámos, impuseram-lhe o cargo de presidente. Fora eleito por unanimidade. Ao presidente cumpria dirigir nas reuniões cirna exortação espiritual aos confrades. E Paulo o fazia magistralmente, comunicando às palavras tal calor e graça, tanta doçura e unção, que penetravam os corações. Em breve atraiu para si a população toda, desejosa de ouvi-lo.

 Explicava outrossim aos domingos a doutrina cristã às crianças. Estes primeiros ensaios, de zelo grangearam-lhe total influência. Desta se aproveitou Paulo para formar unia associação de jovens, inspirados pelo mesmo amor -à, solidão e à prece. Com eles ia, de freqüente, espairecer pelos campos, entretido em colóquios familiares, repassados de unção insinuando-lhes o desprezo do mundo e o amor à virtude ficai. Qual alguns como refere o santo, se tornaram exímios. Ensinava-lhes o modo de meditar a Paixão Jesus Cristo, patenteando-lhes assim a vereda segura e rápida que conduz à perfeição. Dentre eles, oito abraçaram o Instituto dos Servos de Maria, oito ingressaram na Ordem de Santo Agostinho e quatro vestiram o hábito ele São Francisco.

 Tinha para com os pobres e enfermos grande solicitude e cuidados maternos. A fim de proporcionar-lhes assistência pronta e regular, fundou um sodalício, alistando seus companheiros nessa milícia de caridade, cujo zelo avivava com a palavra e o exemplo. Distribuía esmolas aos pobrezinhos, de joelhos, em atitude de profunda veneração. Quando enfermos, assistia-os continuamente, prodigalizando-lhes todos os cuidados corporais e espirituais.

 Sua caridade os seguia além do túmulo, sufragando-os com a esmola da oração. Os cadáveres mais infetos, qual outro Tobias, carregava-os aos ombros. Tais exemplos levava seus jovens amigos a imitá-lo. Fixando os olhares naquela sepultura aberta, lia, como em grande livro, a miséria das coisas terrenas. Certa vez, as reflexões sobre a vaidade do mundo causaram tal impressão a um de seus companheiros, que se apressou a ir abraçar a Cruz de Cristo nas austeridades do claustro.

 A VOZ DOS PRODÍGIOS

Paulo empreende novo apostolado: resolve pôr termo aos escândalos de alguns jovens libertinos. Não era fácil a empresa; porém a força do Todo-Poderoso veio-lhe em auxílio. Comunicou-lhe Deus o dom de penetrar as consciências e ler no âmago dos corações. Ao acercar-se dos pecadores, estranho mau cheiro lhe revelava a fealdade de tais almas.

 Dizia-lhes com convicção:

“ Meu amigo, cometeste tal pecado; vai confessar-te ” . O espanto e a vergonha se apoderavam do culpado, que julgava sua falta conhecida apenas de Deus. Paulo, porém, com toda doçura o animava, o dispunha ao sacramento da Penitência e o encaminhava a um bom confessor, para que lavasse no sangue do Cordeiro as máculas da alma. Os que se lhe mostravam dóceis recebiam de Deus abundantes graças; os que, ao invés, lhe desprezavam as admoestações, eram amiúde castigados exemplarmente. Predizia-lhes, na persuasão de profeta, os espantosos castigos da cólera divina.

 Um jovem, chamado Damião Carpone, era o escândalo da mocidade de Castellazzo. Paulo caridosamente o exortou a mudar de conduta. “ Toma cuidado, meu amigo; se continuares assim, perecerás em breve e de morte trágica ” . O infeliz desprezou o aviso. Meses após, nos campos banhados pelo

Bórmida, encontraram-lhe o cadáver transpassado por várias punhaladas. Fora assassinado em uma de suas excursões noturnas. Amargurado pela má conduta do filho, certo progenitor suplicou a Paulo o induzisse a mudar de vida. O nosso santo falou ao jovem com muita caridade, exortando-o a pedir perdão ao pai. “ Pedir perdão a meu pai? Jamais o farei ” , respondeu o desalmado.

“ Recusas pedir perdão? Pois bem, em breve morrerás ”

 Passados alguns dias, embora gozasse ótima saúde, foi o desventurado ferido de morte repentina. Após esses castigos subiu de prestigio no conceito de todos a santidade de Paulo Francisco. Formou-se em torno desse misto de temor e de afeição que confere tanto poder aos homens de Deus. E Castellazzo se transformou. Já não se viam os abusos até então inutilmente verberados pelos ministros do Evangelho.

Um dia relataram a Paulo que duas senhoras francesas se encontravam sem asilo e sem pão. Duplamente infelizes essas estrangeiras, pois, além de indigentes, eram hereges Tanto bastou para excitar-lhe o zelo e a caridade. Pediu aos pais lhes dessem hospedagem por amor a Cristo. Convertê-las, fazendo-as ingressar no redil da verdadeira Igreja, eis a principal aspiração ele Paulo Conseguiu em parte o seu intento, pois uma delas abjurou o protestantismo e foi por ele colocada no convento ele Santa Maria, de Alexandria.

 Eram as primícias do apostolado do nosso santo, que contava apenas vinte e cinco anos de idade. E que de virtudes e boas obras já praticara! Esses primeiros anos, primavera espiritual, de tão doces recordações, jamais se lhe apagarão da memória. Que conceito tão elevado já poderíamos formar de Paulo e da sua juventude, se ele mesmo, em sua velhice, chegado já ao cume da perfeição e da Cruz, terá dela saudades?.

DEUS PREPARA O FUNDADOR DOS PASSIONISTAS

Estamos em 1718 e Deus começa a revelar a Paulo a idéia da fundação de um Instituto religioso… A principio vagamente; ao depois, com segurança e clareza: … Assim, da noite escura não se passa à luz meridiana, sem que precedam o alvorecer e a aurora, preparando a vista para o resplendor do dia.

 Ó maravilhoso agir da Providência! Por essa inclinação ao bem pronunciada, como provem de Deus, o diretor perito na ação misericordiosa da graça pode descobrir as vocações do Céu. Eis por que no trabalho ainda secreto das vocações necessita a alma de firme direção. Caso contrário, fácil seria afastá-la do verdadeiro caminho, desconhecendo quem a dirige os desígnios de Deus sobre ela. Paulo comunicava a frei Colombano as primeiras luzes a respeito da futura Congregação. Por vezes, era um grande desejo de retirar-se ao ermo, ou a inspiração de reunir companheiros, bem como de andar descalço e revestir-se de pobre túnica.

 O diretor ouvia tudo e tudo examinava com máxima atenção e, doutíssimo como era, concluiu enfim serem luzes supernas. Ouçamos, porém, o nosso santo a respeito do modo como Deus o guiava. Esta página inspirada, escrita por ordem do confessor e em que se revelam as comunicações do Céu, respira verdadeiro encanto. “ Eu, Paulo Francisco, pobre e indigno pecador, o último dos servos de Jesus Cristo, cerca de dois anos depois que a infinita bondade de Deus me chamou à penitência, ao passar certa vez pelas praias de Gênova,deparei pequena igreja solitária sobre um monte, a cavaleiro de Sestri, dedicada à S S. Virgem do Gazzo. Ao contemplá-la, experimentei fortíssimo desejo de viver naquela solidão; porém, obrigado por dever de caridade a assistir a meus pais, não pude levá-lo a efeito e guardei-o no coração. Tempos depois, não me lembro o mês nem o dia, senti novo impulso, muito mais forte, de retirar-me à solidão. Essas inspirações Deus mas dava com grande suavidade interior. ” “ Ocorreu-me ao mesmo tempo a idéia de vestir-me de túnica preta da lã mais ordinária, de andar descalço e de viver na mais rigorosa pobreza. Numa palavra, aspirava viver, cone a graça de Deus, vida penitente. Esse pensamento jamais me abandonou. Um atrativo sempre mais forte chamava-me ao ermo, não unicamente à igreja de que falei, mas á qualquer solidão. ”

 “ Tinha somente em vista seguir os amorosos convites de meu Deus, cuja infinita bondade me impelia a abandonar o mundo. Como não pudesse dar cumprimento a esse desejo, por ser eu indispensável à família, isto é, a meu pai, à minha mãe e a meus irmãos, mantinha sempre secreta a minha vocação, abrindo-me tão somente com o padre espiritual. ” “ Ignorava os desígnios de Deus sobre mim, pelo que não pensava senão em desprender-me dos afazeres domésticos para retirar-me mais tarde à solidão. ”

 “ Contudo, o soberano Bem, que em sua infinita misericórdia tinha outros desígnios sobre este miserável verme da terra, não permitiu que me libertasse então de tais encargos. Quando estava prestes a desembaraçar-me, novas dificuldades surgiam, aumentando mais e mais aqueles anseios. Por vezes pensava em reunir companheiros, idéia que se me fixara no íntimo da alma ” .

 Essas primeiras luzes eram apenas o esboço da santa obra a que Deus o destinava. O jovem multiplicava as preces e as mortificações, rogando a N. Senhor sinais mais claros de sua divina Vontade. Em breve tornar-se-ão essas luzes mais freqüentes e mais inequívocas. De quando em quando fazia-lhe Deus compreender, por locuções internas, que o destinava a uma obra importantíssima, difícil e repleta de sofrimentos.

 Outras vezes, atraindo-a a si com suave arrebatamento, dizia-lhe: “ Far-te-ei ver em breve quanto deves padecer pelo meu nome ” . Um dia, enquanto rezava diante do ss. Sacramento, segredou-lhe o Senhor: “ Meu filho, quem de mim se aproxima, aproxima-se dos espinhos ” . Ouçamos a Paulo: “ Enquanto orava, vi nas mãos de Deus um açoite formado de cordas, como uma disciplina. Nele estava escrita a palavra: AMOR No mesmo tempo dava N. Senhor à minha alma altíssimo conhecimento de que iria açoitá-la, mas por amor, e a alma se lançava alegremente para o açoite, a fim de abraçá-lo e beijá-lo em espírito. Com efeito, depois que Deus por sua infinita bondade me deu essa visão logo, se seguiram grandes sofrimentos, e eu tinha plena certeza de que vi riam, porque Deus me dera conhecimento infuso disso. ”

 DOENÇA MISTERIOSA

Paulo devia ser Apóstolo e plasmar apóstolos. Fadara chamado para a vida mais espinhosa, para o martírio do apostolado. Duas coisas são necessárias para a sua completa submissão ao sacrifício: o perfeito conhecimento da misericórdia de Deus e de sua infinita justiça. Quanto à misericórdia, já o instruíra Jesus, patenteando-se a ele em sua Paixão; vai fazê-lo sentir agora a justiça. À visão do amor seguiu-se a visão espantosa do inferno. Contemplou por instantes as horríveis penas dos condenados. Estava acamado por contusão em unia das pernas. De súbito, é assaltado de pavorosos estremecimentos. Perde os sentidos e prorrompe em altos brados, misto confuso de palavras de raiva e de desespero. Não é fácil imaginar o espanto dos irmãos João Batista e Teresa, que lhe vieram em socorro, vendo-o tremer dos pés à cabeça, desfigurado, tendo estampada no rosto a sensação de horror, e a exclamar: “ Não! Jamais direi o que vi ” . Roga chamem o pe. Jerônimo, com o qual se entretém largo tempo em secreta conversação. Sua irmã que, levada de repreensível curiosidade, se pusera a auscultar na porta, ouviu-o exclamar: “ Oh! pe. Jerônimo, como é longa a eternidade! ” Mais tarde confiou a alguém que naquela ocasião fora transportado pelos Anjos ao inferno e lá contemplara, apavorado, as, penas eternas dos réprobos.

D. FRANCISCO M. GATTINARA

Até o presente, a vida de Paulo foi feita de sacrifícios, de abnegação, de humildade. O confessor reconheceu enfim, na humildade e constância do penitente, a generosidade de sua alma e dele concebeu tal estima, a ponto de reverenciá-lo como a santo, destinado às honras dos altares. Agora já eram evidentes os sinais de que Deus o escolhera para fundar um novo Instituto. Urgia, pois, se pusesse em relação com a autoridade competente, o snr. bispo diocesano. E’ de crer que este já tivesse noticia do servo de Deus, porquanto a virtude do santo jovem espalhava o bom odor de Jesus Cristo, não somente em Castellazzo, mas por outras localidades, inclusive Alexandria. Por toda parte se falava da santidade de sua vida como de verdadeiro prodígio. E’ nosso dever pagar aqui sincero tributo de reconhecimento e gratidão ao sábio e santo antístite, escolhido por Deus para lançar a pedra fundamental do Instituto. D. Francisco Maria Albório de Gattinara nasceu em Pavia, em 1658, de família ilustre.

 Foi um desses homens singulares, enviados por Deus à terra para o bem das almas. Inteligência privilegiada, coração nobre e generoso, desapegado das vaidades do mundo e das doçuras do lar, consagrou-se ao Senhor aos dezesseis anos, na Congregação dos Clérigos Regulares de São Paulo, chamados Barnabitas. O estudo e a piedade fizeram-no grande apóstolo do Evangelho, Possuía todas as qualidades do verdadeiro orador sacro. Dominava-o uma só paixão: ganhar almas para Deus. O zelo, manifestava-o de freqüente, sem o querer, com os soluços, eloquência do coração, que iam ferir o coração dos ouvintes, conquistando para Nosso Senhor os mais empedernidos pecadores, Seus sermões eram interrompidos pelas lágrimas, tornando-se proverbial a expressão:

 “ Que é que derrama com mais abundância no púlpito o padre Gattinara, os suores ou as lágrimas? ” Em prêmio de suas virtudes ou, melhor, para o bem das almas, Clemente XI, em 1706, nomeava-o bispo de Alexandria, e Bento XIII, em 1726, transferia-o para a sede arquiepiscopal de Turim. Essa promoção serviu para fazer brilhar ainda mais as virtudes insignes do santo prelado.

“ A grandeza, diz Bossuet, longe de enfraquecer a bondade, a auxilia a comunicar-se, como o chafariz que lança para o alto suas águas a fim de se espalharem mais e correrem melhor ” . Modelo perfeito de pastor, suas primeiras solicitudes foram para o clero, porção preciosíssima elo seu rebanho, a quem não cessava de incutir mais com o exemplo do que com as palavras, o verdadeiro espírito sacerdotal.

 À salvação e santificação das almas dedicou igualmente grande parte de seu apostolado. Pai dos pobres, empregava todos os haveres em aliviar-lhes, as misérias, lamentando não poder ajudar a todos. É impossível converter em algarismos os tesouros que derramou sobre a miséria dos indigentes. Como se isso não bastasse, a exemplo do divino Mestre imolou a própria vida por seu rebanho. Em 1743, após desoladora guerra, sobrevieram, como sói acontecer, a peste e a fome. Compreendeu o snr. bispo que soara a hora do supremo sacrifício. Renovou então os exemplos de um Carlos Borromeu e dos maiores servos de Deus, oferecendo-se em holocausto para a salvação do seu povo. Ordenou solene procissão. de penitência, a que tomou parte, mau grado a idade avançada. De volta à catedral, dirigiu à consternada grei palavras repassadas de ternura paternal. Ao terminar, levantou os olhos ao Céu, suplicando ardorosamente à divina justiça que, se ainda exigia reparação, descarregasse os golpes sobre o pastor, mas poupasse o rebanho. A vítima foi aceita: não terminara o sermão e já era acometido do mal que consumaria o sacrifício. Dias após, recebia o santo ancião das mãos de Deus a coroa merecida pelo heroísmo de sua caridade. Tal foi o ilustre bispo, de quem Paulo recebeu a humilde túnica da Paixão.

 O piedoso jovem pôs-se inteiramente erre suas mãos, como se fora nas do Altíssimo. Fêz a confissão geral e comunicou-lhe as luzes recebidas do Senhor. O prudente prelado, depois de ouvi-lo com atenção, ordenou-lhe trazer por escrito as revelações com que Deus o favorecera. Lendo o manuscrito de Paulo, o sr. bispo não teve dificuldade em reconhecer nele o sêlo divino. Comovido, banhando com suas lágrimas aquelas paginas inspiradas, exclamou: “ Aqui está o Pai das luzes!… ”Qual a origem desses segredos celestes, que fazem chorar de ternura o santo diretor? Paulo no-lo vai dizer:

 “ No verão p. p. (não me recordo o mês nem o dia, porque não o anotei; lembra-me tão somente que era o tempo da colheita do trigo), em dia de semana, terminava de comungar na igreja dos Capuchinhos de Castellazzo, quando me senti de todo absorto e profundamente recolhido. Tornei, sem demora, à casa e ia tão concentrado como se estivesse em oração. Antes de lá chegar senti-me arrebatado em Deus, com recolhimento ainda mais profundo. Todas as potências de minha alma se abismavam no soberano Bem. As criaturas todas desapareceram-me do pensamento e releu interior se inundava de celestiais suavidades. ” “ Vi-me de repente revestido de preto até o chão, com uma Cruz branca sobre o peito. Sob a Cruz estava escrito o nome ss. de Jesus, também em letras brancas. Tomentos depois, ainda enlevado em Deus, vi que me apresentavam a túnica, adornada com o sagrado nome de Jesus e com a Cruz branca. ”

 “ A túnica era preta, e eu a osculava com alegria. Quando me foi apresentada não divisei forma corpórea: vi-a em Deus. Com efeito, a alma conhece que é Deus porque Ele mesmo a faz compreender pelos movimentos internos e pelas

luzes que lhe derrama no espírito, de maneire tão sublime, que é dificílimo explicar. ”

 “ O que então a alma compreende é algo de tão sublime que não se pode referir nem escrever. Para exprimir-me o melhor possível, direi ser à maneira de visão espiritual, corno Deus se tem dignado conceder-me muitas vezes, quando se compraz em enviar-me particular provação ” .

 Em verdade este jovem, ainda vivendo no século, já falava a linguagem de santa Teresa e são João da Cruz. Vê-se que possuía o mesmo Mestre divino. E continua:

 “ Depois da visão do santo hábito e do emblema sagrado, Deus aumentou-me o desejo de reunir companheiros e de fundar, com a aprovação da santa Igreja, uma Congregação, que tivesse por título: OS POBRES DE JESUS. ”

“ Desde então imprimiu-me e no espírito os dizeres das santas Regras a serem observadas pelos Pobres de Jesus e por mim, seu humilíssimo e indigno servo. ”

APARECE-LHE NOSSA SENHORA

Certo dia, enquanto orava, viu Paulo a ss. Virgem trazendo nas mãos o mesmo santo hábito, com a diferença de que a palavra JESU era seguida por estas duas: XPI PASSIO. E sem mais viu-se revestido daquele hábito. Compreendeu que a grande empresa a que Deus o chamara devia realizar-se sob o patrocínio e poderoso auxílio da ss. Virgem. Estas visões revelam tais caracteres de veracidade, que ninguém, por pouco versado em assuntos espirituais, deixará de reconhecer, à primeira vista, a ação de Deus. Contudo, para poder explicar o que havemos de referir do nosso santo, diremos algo da origem e dos efeitos das visões. Ouçamos a são João da Cruz, mestre nessa matéria: “ Se, na obscuridade de uma noite profunda, brilhar resplandecente luz, divisaremos clara e distintamente os objetos que o espesso véu das trevas nos ocultava. Apenas desapareça essa luz, cairemos novamente na obscuridade, mas esses objetos continuarão profundamente gravados em nossa memória ” .Eis o que se passa nas visões celestiais. Oculto sempre nas secretas escuridões da fé, o divino Sol da inteligência, que é a mesma Verdade, faz sentir à alma, por uma luz mui viva, que ela se encontra nesse Sol ou, como diz Paulo, no IMENSO, e é nesse instante que lhe descobre o que deseja revelar-lhe e nela permanece impresso com tanta clareza, sendo impossível duvidar, mesmo quando a luz haja desaparecido.

 “ Tenho mais certeza, diz Paulo falando de suas visões, daquilo que vejo em espírito pela sublime luz da fé, do que se o vira com os olhos corporais ” . E aduz a razão de que os olhos podem enganar-se por algum fantasma, ao passo que em tais visões, conforme lhe fizera Deus compreender por conhecimento infuso, impossível é o êrro. Aliás, santo Agostinho já o dissera que a Verdade imutável ilumina a inteligência de maneira inefável.

 Em desaparecendo esta luz, o honrem cai de novo em trevas, isto é, volta às debilidades da natureza corrompida, chegando a sofrer repugnâncias e desalentos ocasionados pelo dificultoso da empresa ou pelas hesitações e dúvidas, não a respeito da autenticidade das revelações, mas da sua interpretação e maneira de executá-las e, enfim, pelo temor de obstacular com incorrespondências a obra de Deus. Neste estado se achava o espirito de Paulo, após as visões que acabamos de referir. O snr. bispo, a quem prestava minuciosa conta, examinava-o com a discrição e reserva que exigem semelhantes casos, sem se pronunciar. Por esta razão, Paulo ainda não se decidira. Inquieto e indeciso, inclinava-se a realizar o desejo que tivera outrora de consagrar-se a Deus em alguma Ordem religiosa.

 Certo dia em que, seguindo solitária estrada, mais do que nunca era perseguido por esse pensamento, apareceu-lhe a ss. Virgem. Estava revestida de túnica preta e trazia no peito virginal o EMBLEMA SAGRADO, extremamente branco, sobre fundo preto. Era o emblema em forma de coração encimado por pequena cruz, tendo no centro o lema da Paixão e em baixo três cravos. Maria, ostentando no rosto a tristeza do Calvário, dirigiu-lhe estas palavras:

 “ Vês, meu filho, como estou de luto? E’ por causa da dolorosíssima Paixão do meu amado filho Jesus. Deves fundar uma Congregação, cujos membros se revistam de um hábito igual a este, em sinal de continuo luto pela Paixão e Morte de meu Filho ” . E desapareceu. Os sentimentos que o empolgaram nessa dulcíssimas aparição faziam-no exclamar, muitos anos após, inebriado de gôzo:

 “ Oh! como era formosa! ” … Dissiparam-se-lhe as dúvidas. Conheceu claramente a meta que lhe traçara a Providência. Compreendeu também que havia de ser angelical a pureza dos que trouxessem o hábito que a Virgem Imaculada consagrara, vestindo-o por primeira.

A penitência

Durante as longas horas de oração, permanecia Paulo sempre de joelhos.O corpo, tiritante de frio e extenuado pelo jejum e pelas vigílias,reclamava alivio. No entanto o servo de Deus resistia com indômita energia aos reclamos da natureza. Confortava-o na luta o seu Senhor Sacramentado. A Comunhão, farol de amor, manancial de luz, proporcionava-lhe indizível contentamento, sendo levado a exclamar:

“ O frio, a neve, o gelo causavam-me inefável prazer.

Desejava-os ardentemente, dizendo ao meu Jesus: Vossos tormentos, ó Deus do meu coração, são dádivas do vosso amor… Assim, inebriava-me do meu Jesus, em altíssima suavidade e doce paz, sem movimento algum das potências da alma, que se quedava recolhida ” .

Por vezes a sagrada Eucaristia, abrasando-lhe o peito em chamas de amor, lhe alentava e fortificava o corpo. Ouçamo-lo:

“ Ó misericórdia infinita do nosso soberano Bem! Esta maravilha, conforme Deus me faz entender, provém do grande vigor que o Pão dos Anjos comunica à alma, que repercute também no corpo ” . Uma que outra vez, distrações importunas interrompiam-lhe a oração. Sua alma, porém, não permanecia menos absorta em Deus, continuando a alimentar-se, conforme se exprimia, do santíssimo manjar do divino amor. Eis como Paulo o explica, com encantadora simplicidade: “ Afigurai-vos uma criança que tem os lábios colados ao seio materno: suga o leite e agita as mãozinhas e os pés; revolve-se continuamente, faz movimentos com a cabeça e coisas semelhantes, mas não cessa de sorver o alimento, porque não retira a boca do peito materno. Melhor seria, não há dúvida, se ficasse quieta; porém continua a alimentar-se. O mesmo sucede com a alma. A vontade é a boca, que não cessa de tomar o leite do divino amor, muito embora se agitem a memória e a inteligência. Sem dúvida, melhor seria que essas potências permanecessem tranqüilas e unidas. Não sei explicar-me melhor, porque o Senhor não mo dá a conhecer de outra maneira ” .

Jejum

Das ofertas, guardavam apenas um pouco de pão, de que se alimentavam uma vez ao dia, distribuindo o mais aos pobres. Esse escasso e paupérrimo alimento parecia-lhes assaz delicado. Desejavam submeter-se a mais rigoroso jejum. Eis o que escreve Paulo ao venerando antístite, predileto diretor de sua alma “ Pensei em comer uma só vez cada dois dias, mas esperarei maior inspiração de Deus. Informa-lo-ei de tudo para que se digne abençoar-me ” .

Freqüentemente declinava o dia sem que os solitários de Santo Estêvão tivessem tomado alimento algum. Certa feita, foi visitá-los Lucas Dánei. Encontrou os admiráveis jovens pálidos e a tremer de frio. Perguntou-lhes se já haviam tomado alguma coisa. Foram obrigados a confessar que até aquela hora nada haviam recebido da caridade pública. Comovido, prometeu enviar-lhes algum alimento. Agradeceram de coração, suplicando-lhe, porém, deixasse ao cuidado da Providência provê-]os do necessário. Lucas, com a autoridade de pai, ordenou-lhes comessem por obediência tudo o que lhes enviasse. Os pobres de Jesus uniram naquele dia à abundante alimentação o mérito do jejum e da obediência.

Exemplo de Vida

O demônio procurou certo dia perturbar o auditório, agitando furiosamente uma mulher possessa. O servo de Deus descobriu o ardil do espirito infernal, impôs-lhe silêncio e o demônio calou-se. Todos, atemorizados, começaram a clamar: PERDÃO…  MISERICÓRDIA….E a palavra de Paulo redobrou de eficácia. Os dias de desordens e pecados transformaram-se em dias de penitência e oração. Não houve danças nem festas nem quaisquer desses divertimentos perigosos para a virtude. E o que é mais, ninguém manifestou descontentamento. Apenas um jovem desejou solenizar o casamento com baile público. Soube-o Paulo e, para impedi-lo, encaminhou-se, com a Cruz alçada, ao lugar da dança. Ainda lá não chegara e já os convivas, envergonhados e confusos, e dispersavam. O que, porém, melhor provou a eficácia de suas prédicas foi a reforma dos costumes e as numerosas confissões.

O dom da reconciliação

Dois nobres de Castellazzo, ambos de sobrenome Maranzana, nutriam entre si ódio implacável, escandalizando a população. Párocos, pregadores, religiosos, todos haviam trabalhado em vão para reconciliá-los. Tal vitória Deus a reservara a Paulo. Ambos foram uma tarde a Santo Estêvão ouvir o pregador. Paulo Sardi reconheceu a um deles e avisou ao servo de Deus. Paulo tomou por assunto do sermão a prece de Nosso senhor no alto da Cruz:

“ Pater dimitte illis ” .

Meu Pai, perdoa-os. A caridade do Salvador deu-lhe tal força às palavras, que penetraram naqueles corações empedernidos e deles desterraram todo o rancor. Terminada a prática, foram à cela do santo, onde, admirados pelo encontro inesperado, abraçaram-se e se reconciliaram, com imenso júbilo de seus corações. Paulo exortou-os a se confessarem naquela mesma tarde e, em reparação do escândalo, quis que comungassem juntos no dia seguinte, na igreja paroquial de São Martinho.

Edificante espetáculo para a cidade! Belo triunfo para o Evangelho!. Aqueles homens, até então inimigos irreconciliáveis, foram vistos, um ao lado do outro, no Banquete sagrado da paz e da caridade! Surgiu, certa feita, açulada disputa entre diversos homens. Temiam-se graves desgraças, porque a altercação quase chegara a vias de fato. Acorreu Paulo e, pondo-se de joelhos no meio deles, apresentou-lhes o Crucifixo e pediu se acalmassem por amor de Jesus Cristo. Cessou imediatamente a contenda e o grupo se dissolveu. Quantas reconciliações com Deus e com o próximo não obteve o jovem durante aquela quaresma!

A cura milagrosa

Sucedeu que o pobre homem se feriu em uma perna e a chaga se transformou em ulcera gangrenosa. A gratidão levou Paulo à cabeceira do enfermo. Depois de consolá-lo, quis ver a chaga, que exalava cheiro insuportável. O servo de Deus não pôde dominar repentino movimento de repugnância, mas, contemplando naquelas chagas as de Jesus Crucificado, mandou ao enfermo que voltasse o rosto para o outro lado e… passou a língua na ferida! Vergetto, que o percebera, comoveu-se deveras. Paulo suplicou-lhe que a ninguém o dissesse. No dia seguinte o médico, admirado, encontrou aferida cicatrizada. Vergetto, completamente restabelecido, pôde levantar-se e andar como se nunca estivera doente. Não soube, todavia, guardar silêncio; publicou por toda parte a cura maravilhosa e foi a Retorto relatá-la aos marqueses Del Pozzo.

A caridade com as pessoas

Não hesitava, porém, em sacrificar a vida contemplativa, tão doce ao seu coração, quando a caridade o exigia. Em sabendo que alguém enfermara, apressava-se em ir consolá-lo; prestava-lhe os mais humildes cuidados e, freqüentemente, ao benzê-lo com o Crucifixo, obtinha-lhe de Deus a saúde. Um senhor, por nome José Longo, achava-se em tal estado de debilidade, que não podia ingerir alimento algum. Foi Paulo visitá-lo e lhe preparou certa bebida, apresentando-a como excelente remédio. Apenas o enfermo a ingeriu, recuperou as forças e a saúde. Todos consideraram tal cura como graça obtida pelas orações e méritos do servo de Deus.

Intervenção de São Miguel Arcanjo

Juraram os inimigos expulsá-los do Argentário. Exasperados pela ineficácia das calúnias, lançaram mão da violência, julgando conseguir o que não conseguiram os demônios. Haviam de destruir o retiro, quase concluído! Auxiliados pelas trevas da noite, quando tudo era silêncio em torno do edifício e os religiosos descansavam tranqüilos na ermida, os desalmados, cegos pela paixão, foram de mansinho executar o plano sinistro. Já se aproximavam daquelas paredes sagradas, quando o mesmo poder misterioso que as defendera contra os demônios feriu-os de espanto e terror, fugindo quem para uma direção quem para outra.

Que tinham visto?

De pé, sobre um globo de fogo, empunhando cintilante espada, o arcanjo são Miguel a defender o edifício…Foi assim que uma santa alma o contemplou. Ciente do perigo por que passara a construção e da maneira como fora defendida, dedicou o santo Fundador um altar da nova igreja ao glorioso Arcanjo. Com sinais tão evidentes da proteção celeste, julgou Paulo dever dirigir-se ao eminentíssimo abade para desfazer as calúnias dos adversários. Por duas vezes foi a Roma, escreveu inúmeras cartas; mas só após ingentes trabalhos conseguiu pôr à luz do dia a má fé dos caluniadores.

O cardeal, sempre temeroso de que os pobres e perseguidos religiosos não pudessem ter os altares suficientemente adornados não permitiu o exercício do culto na nova igreja. Autorizou-os apenas a habitarem o retiro. Essa determinação levou ao auge a consternação do santo. Todavia, esperou resignadamente que Deus mudasse o coração do prelado. Como fosse excessivo o calor em 1737, não podiam os religiosos continuar na ermida sem perigo de graves enfermidades. Transferiram-se, pois, para o novo edifício. Mas surgiu outro inconveniente. Os sacerdotes, debilitados pela enfermidade que os acometera, deviam percorrer diariamente milha e meia, descalços e por caminhos pedregosos, para celebrar na igreja de Santo Antão, quando a preço de enormes sacrifícios haviam construído esplêndida igreja. Paulo resolveu escrever ao snr. cardeal, rogando-lhe provisionasse a nova igreja como oratório privado, para que pudessem os, sacerdotes ao menos celebrar o santo Sacrifício. “ Assim, acrescentava, permaneceremos por mais tempo aos pés do Crucifixo, visto não nos ser permitido trabalhar em prol das almas administrando-lhes os sacramentos, como até hoje fizemos. Esperamos que a misericórdia divina, a quem de coração desejamos servir durante toda a vida, compadecer-se-á de nós. Na. divina Bondade descansam todas as nossas esperanças. Rendemos graças ao nosso Amor Crucificado por nos haver fechado os caminhos humanos. Nossa confiança estriba-se unicamente em sua paternal bondade ” .

O milagre da cruz

Muitos milagres acompanharam esses labores apostólicos. Citaremos apenas um, dos mais admiráveis, operado em  presença de todo o povo. Sofria o missionário ao ver que alguns habitantes de Piágaro resistiam à palavra de Deus e desacreditavam a missão. Apelou para N. Senhor a fim de triunfar daqueles corações. Jesus para consolá-lo, revelou-lhe os desígnios de sua misericórdia em prol daquelas almas. Várias vezes, mas sobretudo noa últimos dias, proferiu o apóstolo estas notáveis palavras: “ Há entre vós quem deseja ardentemente a minha partida e o fim da missão, que lhe parece interminável. Pois bem, ao retirar-me, deixarei alguém que pregará melhor do que eu ” .

Ditas estas palavras, deu a bênção papal, desceu do estrado e, seguido de grande parte do povo, partiu para Monteleone, onde ia iniciar outra missão. Muitas pessoas permaneciam ainda na igreja, quando um grande Crucifixo esculpido em madeira começa a derramar copioso suor, particularmente das sagradas chagas das mãos, dos pés e do lado. Todos bradavam a um tempo: Milagre! Milagre! Os que estavam fora entraram em tropel e se puseram em redor da venerável imagem para melhor observar o fenômeno. Um senhor, por nome Antônio Félix, lançou-se sobre o altar, exclamando:

“ Isto é efeito dos meus pecados… ”

A emoção foi geral. Antônio enxugou respeitosamente o misterioso suor com um lenço branco. Outras testemunhas foram referir a Paulo o prodígio. “ Eu já o sabia, – foi a sua resposta. – De que cor é o suor? ”

“ Azul ” ,disseram-lhe.

“ Bom sinal, replicou o santo e prosseguiu caminho. ” Na verdade, sinal da misericórdia divina. Pecador algum resistiu por mais tempo à graça. Os que não se haviam comovido com a palavra ardente do apóstolo, renderam-se à vista do milagre. Para cultuar a milagrosa imagem e perpetuar a memória do ocorrido, construíram uma capela, em que se colocou o Crucifixo, gravando-se em lápides de mármore as seguintes inscrições:

“ Esta imagem de Jesus Crucificado, ao terminar a missão pregada pelo pe. Paulo da Cruz, do monte Argentário, à vista do povo de Piágaro, que soluçava e chorava, derramou suor de côr cerúlea, aos 11 de maio de 1738” .

“ Os magistrados da cidade de Piágaro erigiram este monumento com o auxílio de subscrições, em memória do suor prodigioso, e Antônio Pazzaglia, cidadão de Calle, sacerdote e reitor desta igreja, esmerou-se em ornar esta capela, com sua competência e dinheiro, no ano de 1738 ” .

Fundação dos Passionistas

Meses decorridos, terminaram os comissários o exame das Regras, com a prudência reclamada pela importância do assunto. Aos 30 de abril de 1741, emitiram voto favorável, declarando que as Regras dos Clérigos Menores Regulares Descalços da Santa Cruz e Paixão de Jesus Cristo, com as pequenas alterações prescritas pelo santo Padre, podiam, crescido o número de religiosos, ser aprovadas com Rescrito Apostólico. Na mesma tarde levou o abade Garagni ao Santo Padre, juntamente com as Regras, o voto dos comissários. O grande Pontífice julgava o Instituto de muita vantagem para as almas e de muita glória para Deus. Chegou a dizer: “ Este Instituto foi o último a aparecer na Igreja de Deus, quando deveria ter sido o primeiro ” .

(…)

Levanta-se o Fundador, com os olhos marejados de lágrimas, e emite a profissão dos quatro votos: pobreza, castidade, obediência e propagar a devoção à Paixão de Jesus Cristo. Recebe, em seguida, a profissão de seus filhos. Para completa consagração a Jesus Crucificado e perene lembrança de suas dores, prova outrossim de que já não pertencem ao mundo, deixam o nome de família, a exemplo do Fundador, e tomam outro a recordar-lhes o espírito do Instituto: Pe. João Batista de São Miguel, Antônio da Paixão, Fulgêncio de Jesus e Carlos da Mãe de Deus. Não se faz menção dos nomes dos irmãos leigos. Conhecemos apenas o de José de Santa Maria,que professou dias depois.O santo Fundador colocou em seu peito e no de seus filhos o Emblema sagrado, que traz esculpido o título da Paixão de Jesus Cristo. A começar daquele dia os missionários do monte Argentário receberam o nome de Passionistas.Confessamos experimentar profunda emoção ao narrar a humilde origem da nossa família religiosa.

Muitas conversões

Homens, mulheres, soldados e até pessoas de alta linhagem, que viviam em inimizade, diz um oficial, testemunha de vista, reconciliavam-se naquela praça pública, pedindo mutuamente perdão. Colocaram sobre o tablado, aos pés do pregador, livros obscenos e ímpios, baralhos, etc. Paulo lançou-os imediatamente ao fogo. Espetáculo que sobremaneira excitou ao arrependimento todos os assistentes. Apenas descia do estrado, todos corriam para ele e lhe circundavam o confessionário. Ouçamos ainda um depoimento simples e sincero, …ser o do soldado. Vamos resumi-lo:

“ Pregava o pe. Paulo com tanto zelo, que o rosto se lhe inflamava; sua voz atemorizava, compungia e convertia os pecadores. Em suma, o dedo de Deus era visível… Assim como atemorizava no decurso do sermão, era todo doçura ao terminá-lo: enternecia os corações e a todos inspirava confiança em Deus e esperança do perdão ” .

Todo o povo, comovido e contrito, derramava abundantes lágrimas… O que Paulo semeava nos sermões colhia no tribunal da penitência, onde era todo caridade. Muitos soldados que se não atreviam a confessar-se, temerosos pelas faltas cometidas, fizeram-no a conselho dos companheiros, que já haviam tocado, por assim dizer, com as mãos, a afabilidade e a doçura extraordinárias do servo de Deus para com os pecadores, principalmente para com os mais infelizes. Essa pregação produziu em Orbetello admiráveis conversões.

Havia no regimento suíço inúmeros luteranos e calvinistas. Ao presenciarem espetáculo inédito em suas seitas, atraídos pela caridade do apóstolo, pelo poder de sua palavra e iluminados pela graça, concluíam: “ Este pregador é forçosamente o arauto da verdade ” . E, descobrindo no verdadeiro apóstolo a verdadeira Igreja, lançavam-se em grande número para o tablado, declarando, sem respeito humano, desejarem abjurar os erros e a heresia, Houve entre eles um jovem de nobre linhagem, que exclamou em perfeito italiano:

“ Abjuro, detesto e abomino a seita a que pertenci até o dia de hoje tendo-a por falsa. Reconheço e confesso ser a Igreja Católica Apostólica Romana a verdadeira Igreja fundada por Jesus Cristo ” .

Compaixão pelos pecadores

Na missão de Porto Longone, na Ilha de Elba, um soldado fora condenado à morte. Vieram ter com o santo alguns oficiais, rogando-lhe obtivesse do governador indulto para o condenado mais infeliz do que culpado. O pobre soldado tentara desertar. Correu Paulo ao palácio e solicitou audiência. Responderam-lhe os contínuos que o governador, ao firmar sentença de morte, não recebia pessoa alguma antes da execução. Era ordem formal, absoluta e inviolável. Não podiam, portanto, introduzi-lo sem se comprometerem. O santo insistiu dissessem ao chefe que o pe. Paulo necessitava falar-lhe de assunto urgentíssimo. Renderam-se os contínuos; ao ouvir o nome de Paulo, o general permitiu o conduzissem à sua presença. Estava em seus aposentos, sentado, o queixo apoiado no cabo da espada desembainhada, com a ponta voltada para o chão, imóvel, a espera da comunicação de que fora executada a sentença. Sempre tão afável para com o servo de Deus, recebeu-o desta vez sem voltar-se e perguntou-lhe, rispidamente “ Então, pe. Paulo, que deseja? ”

“ Excelência, – respondeu o santo – o indulto para o condenado à morte ” .

“ Não posso ”

– replica o governador. E às mais eficazes razões, às mais vivas súplicas de Paulo, respondia sempre “ Não posso, não posso… ”

“ Pois bem, – exclamou o apóstolo – já que v. excia. não pode conceder esta graça, outorgue-a N. Senhor ”

E bateu com a dextra na parede.

O edifício se abalou até os alicerces, como se sobreviera violento terremoto!

“ Pois não, pe. Paulo, pois não, – anuíu o general, espavorido – a graça está concedida ” .

A Bondade de São Paulo da Cruz

Se nas perfeições divinas houvera graus, poder-se-ia dizer que a bondade seria o primeiro de seus atributos, por ser o poderoso ímã que a Ele atrai todos os seres. Causam-nos admiração a grandeza e a eternidade de Deus; sua bondade, porém, comovemos o coração e nos subjuga a alma. E’ a humildade justa e agradável amálgama de doçura e de força. Sem doçura, a força seria rigor inflexível; a doçura, sem a força, tornar-se-ia debilidade. Nada mais doce do que a força; nada mais forte que a doçura.

“ A SABEDORIA ATINGE DE UM A OUTRO EXTREMO DO MUNDO COM FORÇA INFINITA E TUDO DISPÕE COM IGUAL DOÇURA (Sap.8,1) ” .

(…)

Também em Paulo da Cruz aliaram-se a doçura e a força. Mais do que no passado, ve-lo-emos nas páginas seguintes dirigindo o pequeno rebanho:

SUA PRUDÊNCIA

Deus, ao inspirar-lhe a fundação do Instituto, parece haver-lhe outrossim gravado no espírito a maneira como governá-lo. Dirigia-se sempre pela operação invisível da graça. Completamente alheio à falsa prudência do século, antepunha aos interesses da Congregação o beneplácito e a glória de Deus. Quando se tratava da glória de N. Senhor nada o detinha. Jamais, porém, iniciava qualquer trabalho com ansiosa precipitação; muito ao contrário, refletia seriamente, escolhendo os meios mais adequados para o bom êxito da empresa. Por vezes as circunstâncias o obrigavam a agir com presteza. Mas, quer temporizasse, quer se lançasse logo ao trabalho, opera-a sempre com plena posse de si mesmo e com a calma de quem está unido a Deus.

“ Agir diversamente, dizia, não convém nem pode dar bom resultado ” . Em afazeres de alguma importância, não confiava na própria opinião; pedia luzes a Deus e tomava conselho dos homens. Repetia com freqüência as sentenças do Espírito Santo:

“ EU, A SABEDORIA, HABITO NO CONSELHO (Prov. 8, 12)… MEU FILHO, NADA FAÇAS SEM CONSELHO ”(Ecl. 32, 24).

Essa a sua regra. Quando lhe davam parecer justo e reto, rendia-se imediatamente, sem levar em conta a condição de quem lho dava.

AMÁVEL SIMPLICIDADE

Fiel guardião das máximas do divino Mestre, aliava a prudência à simplicidade e à candura, aliança proposta por N. Senhor sob o símbolo da serpente e da pomba. Nada mais encantador do que vê-lo agir. A simplicidade cristã era a alma de sua política e a força motriz da alta sabedoria com que desvendava os ardis dos perseguidores. “ À força de tratar tantos que fazeres, dizia com tristeza, vim a perder a bela simplicidade que trouxera do seio de minha mãe ” .

Desejava que os religiosos fossem também alheios a toda simulação. “ Sou lombardo, repetia, o que tenho no coração, tenho-o nos lábios ” . Se, por resposta evasiva de algum de seus filhos, julgasse concluído um trabalho apenas começado. fosse qual fosse o motivo dessa simulação, admirava-se e se afligia. Queixava-se amargamente se a mentira se repetisse, descobrindo muitas vezes por luz superna a verdade que desejavam ocultar-lhe.

 O pe. Antônio depôs nos processos de canonização que, certa manhã, comera às ocultas cinco figos, limpando em seguida os lábios para não ser descoberto. Julgava-se impune, tanto mais que no momento Paulo orava na igreja. Qual, porém, não foi o seu espanto ao ouvir o servo de Deus repreendê-lo:

“ Como se atreveu a comer figos sem licença?… Bem, acrescentou, dentro de alguns dias adoecerá em castigo dessa desobediência ” .

E assim sucedeu. Em outra ocasião, caminhavam juntos, quando Paulo lhe dirigiu uma pergunta. Antônio respondeu-lhe com uma mentira. E o santo, com ar severo: “ Para que não mais torneis a mentir, digo-vos que estais a pensar em tal coisa, em tal lugar, etc. ” E, com toda clareza e minuciosas circunstâncias, revelou-lhe os pensamentos, com espanto do irmão. Não julgava mal de ninguém, estando convencido que todos eram melhores do que ele. A todos tratava com profundo respeito e o manifestava com expressões sinceras.

CONFIANÇA EM DEUS

Outro efeito de sua simplicidade era viver continuamente abandonado nos braços da divina Providência, qual uma criança no regaço materno. Reprovava o desassossego exagerado dos superiores no que diz respeito às necessidades do convento. Recomendava-lhes a confiança na Providência, que jamais abandona aos que se lhe lançam nos braços. Costumava repetir ..Quando éramos três, N. Senhor providenciava para três; quando dez, para dez, e agora que somos muitos, providenciará para muitos. Basta que sejamos bons e observantes fiéis das santa: Regras e nada nos faltará, conforme o nosso estado de pobreza. E a experiência tem confirmado essa profecia. Jamais faltou o necessário a seus filhos e, mesmo em épocas de escassez geral, -eles puderam socorrer os pobres. Numa de tais circunstâncias escrevia o Servo de Deus: “ A geada destruiu os vinhedos, a colheita do trigo é bastante escassa. Teme-se a carestia, mas os celeiros e as adegas do Soberano Senhor não podem falir ” . Deus vinha sempre em seu auxílio, bastas vezes com milagres, para conservar viva nos filhos esta confiança. Batendo os bosques do monte Argentário, alguns caçadores, obrigados pela fome, foram ter ao retiro da Apresentação. Paulo dá-lhes pão e vinho, restando apenas algumas favas para a ceia dos religiosos. Pois bem, aquele legume, insuficiente para um, multiplicou-se a ponto de ter cada religioso a quantidade necessária. E não terminou aqui o prodígio. Ainda estavam à mesa, quando receberam melhores alimentos. Os religiosos de outro convento, por uma terrível tempestade de neve, estavam sem pão e sem esperança de obtê-lo. Chegou a hora da refeição e o santo mandou tranqüilamente a seus filhos que fossem ao refeitório. Instantes depois, tocaram a sineta da portaria. Era um senhor desconhecido a entregar-lhes, sem dizer palavra, uma cesta cheia de branquíssimos pães. Não se podendo conter de alegria, o bom irmão levou imediatamente ao refeitório a inesperada esmola. Quando voltou para agradecer ao misterioso benfeitor, este desaparecera, sem deixar sequer as pegadas na neve!

Estes e semelhantes fatos, que tanto realçam a prudência e simplicidade do servo de Deus, emprestam outrossim a seu governo encanto indescritível. Mais do que tudo, porém. contribuía para fazê-lo querido e respeitado a incomparável suavidade do seu jugo. Severo para consigo. era todo indulgência para com os demais. Não ordenava, suplicava sempre.

JUSTIÇA PARA COM TODOS

A justiça era a alma de seu governo. Não permitia negar-se aos religiosos o que as regras concedessem. Repreendeu severamente a um reitor que provera de água o jardim em detrimento da alimentação e vestuário dos religiosos. O pe. Fulgêncio, por fervor indiscreto, fazia a comunidade levantar um quarto de hora antes. Paulo o censurou publicamente, advertindo-o não subtraísse um minuto sequer do descanso concedido pelas Constituições. “ Quanto aos cargos, nota São Vicente Strambi, não julgava fossem títulos de isenção e motivo de repouso. Tinha por máxima que o superior deve sacrificar-se pela Congregação e pela sua família religiosa ” .

Nas eleições, tinha unicamente em vista os méritos e a capacidade dos súditos, dando sempre preferência à virtude. Propôs algumas vezes ao Capítulo a eleição de religiosos que ele sabia não aceitariam o encargo; fazia-o, porém, para homenagear a virtude.

INVICTA PACIÊNCIA

A par da justiça, resplandeceu em Paulo paciência inalterável. Jamais repreendia com voz alterada pela indignação ou cólera.

Dizia que “ o aviso dado com bondade cura qualquer chaga, ao passo que, dado com aspereza, produz dez ” .

Escreveu a um reitor demasiado severo: “ Não seja precipitado no corrigir, principalmente quando sentir qualquer princípio de paixão; mas, passado algum tempo. quando estiver calmo, chame o culpado e o corrija com coração de pai e de mãe ” .E dava o exemplo. Que doçura e paciência nas correções! Ao advertir a um irmão leigo, este alterou-se a ponto de proferir palavrasconvenientes. Paulo, calmo e humilde, abaixou a cabeça, abriu os braços e falou ao culpado:

“ Tenha compaixão de mim, querido irmão; um pouco de paciência… ”ão, arrependido, lançou-se chorando aos pés do pai amoroso.

CARIDADE PARA COM OS SÚDITOS

O que, porém, mais atraia os corações dos filhos era sua terníssima e extraordinária caridade. Ninguém a ele recorreu, que não fosse aliviado das penas, encorajado nas tristezas e esclarecido nas perplexidades. Tinha bálsamo para todas as feridas, refrigério para todas as dores, pressentindo muitas vezes as necessidades das almas.

 

PUREZA ANGÉLICA

 Em todo o curso desta vida, temos respirado, como num jardim, o doce perfume desta alma virginal, branca e pura como o lírio. Desde os mais tenros anos, tomara por divisa a sentença POTIUS MORI QUAM FOEDARI, Antes morrer do que pecar. Conservou a inocência batismal até o último alento de vida. Discorreu de sua juventude, acusava-se de ter sido demasiado vivo, s acrescentava que Deus o preservara dos escolhos em que tantos jovens se perdem. Quando enfermo em Orbetello, julgando-se sozinho, assim se desabafava com, N. Senhor:

 “Bem sabeis, ó Senhor, que, com o auxílio de vossa graça, o vosso Paulo jamais maculou a alma com falta deliberada”. Não pensemos que nele a virtude fosse fruto espontâneo de temperamento gélido ou de insensibilidade. Muito ao contrário, possuía rara ternura de coração, natural ardente, imaginação vívida. Alcançara a pureza angelical a preço de lutas e combates cruentos. Sua juventude foi dotada de riquíssimos dons naturais `e do atrativo da virtude. Nem por isso foi isenta de perigos. Apesar das mais séries precauções, encontrou rudes assaltos, que quebrantariam virtude menos sólida. Numa palavra, nele brilhou o lírio da virgindade, porque soube cercá-lo com os espinhos da mortificação, da modéstia, da fuga das ocasiões e da desconfiança das próprias forças. Sua modéstia era realmente angélica. Chegou a dizer certa vez que preferia lhe arrancassem os olhos, antes que fitar o rosto de urna mulher.

 Conhecia apenas pela voz uma senhora espanhola de Orbetello, de rara formosura, a quem dirigira por muitos anos. A castidade, qual tímida pomba, vê perigo por toda parte. Em conversa com pessoas de outro sexo, suas palavras respiravam gravidade religiosa e celestial unção. Exigia que a porta do locutório estivesse aberta. O companheiro recebia ordem de não afastar-se muito. Costumava dizer que o companheiro é como o Anjo da guarda. Não admitia exceção com quem quer que fosse.

Estando em conferência espiritual com uma princesa, fecharam por inadvertência a porta do quarto. Bradou Paulo imediatamente: “Abram, abram a porta, pois estarmos de porta fechada é contra as regras de nossa Congregação”. Disse certa vez:

 “Não confio absolutamente em mim; nesta matéria fui sempre escrupuloso, tornando-me por vezes até descortês”. Santas DESCORTESIAS, que levam o religioso a cumprir sua primordial obrigação: a observância das Regras! Velava o coração a fim de que se não afeiçoasse às almas por ele guiadas à santidade. NADA DE LATROCÍNIO EM RELAÇÃO A DEUS! essa a sua divisa.

Uma senhora, recomendando-se-lhe às orações, acrescentou com certa afetação: “Lembre-se sempre de mim em suas orações; jamais me esqueça”.

“Isto não, replicou o Santo; depois de ter atendido às senhoras que a mim recorrem e de tê- las ajudado o melhor possível, recomendo-as a N. Senhor e procuro esquecer-me delas”.

 Talvez pareça pouco satisfatória a resposta, mas era a máxima do servo de Deus que a familiaridade com essas pessoas é espinho capaz de ferir o formoso lírio da pureza. Deviam seus filhos ser Anjos em carne humana. Exortava-os calorosamente a imitarem a modéstia do Salvador. Recomendava-lhes não somente a modéstia da vista e o combate à concupiscência, mas também modelassem o seu agir às normas da modéstia, que a tudo empresta medida, compostura , dignidade.

Subira tão alto na região do amor celeste que, embora revestido de carne humana, já o constituira Deus poderoso protetor da castidade. Na missão de Valentano, dissera a uma jovem “Minha filha, Deus me fêz conhecer que sua inocência será submetida a terrível provação. Muito cuidado, minha filha”. Estimulou-a a confiar em Deus, garantindo-lhe a vitória. Quatro anos decorridos, em quatro ocasiões diversas, sofreu a jovem violentos assaltos. Para repelir o brutal inimigo, invocava o nome do pe. Paulo e sempre saiu vitoriosa.

Espargia o nosso santo em derredor de si o perfume da pureza. Bastava conversar com ele ou mesmo dele se aproximar, para experimentar os atrativos

dessa virtude. Odor caraterístico exalava-se-lhe do corpo, dos objetos de uso e até da cela em que habitava. E esse celestial perfume perdurava por meses e anos.

Por vezes suas carnes virginais como que tomavam as propriedades do corpo

glorioso: impassibilidade, claridade, agilidade e subtileza. No êxtase, tornava-se insensível à dor, desprendia de si luz vivíssima, elevava-se aos ares, voava como os Anjos, ausentava-se de casa com portas fechadas, como Jesus no Cenáculo, encontrava-se presente em vários lugares simultaneamente. Freqüentes eram esses prodígios na vida do servo de Deus. Para retratar com perfeição a Paulo da Cruz, fora mister um raio de luz puríssima, mãos de Anjos, as cores que matizam a celeste Jerusalém.

TERNURA PATERNAL PARA COM OS DOENTES

Para com os enfermos mais terna e afetuosa era sua caridade. Recomendava aos superiores os tratassem com verdadeiro amor materno. Não tolerava em tais casos economia, ordenando vendessem, se necessário, os mesmos vasos sagrado. Visitava-os várias vezes ao dia, servia-os com suas próprias mãos, preparava-lhes e ministrava-lhes os remédios, consolando-os com incomparável afabilidade. Desejava vê-los santamente alegres e totalmente abandonados à divina Vontade. Se o mal se agravava, não permitia os deixassem sós. Quando, por sua vez, adoecia. penava mais pelos incômodos alheios do que pelos próprios males. Apenas tinha-se em pé, dirigia-se, por vezes apoiado em muletas ou levado pelos braços dos filhos, às celas dos enfermos. Não podendo levantar-se, enviava alguém para saber como estavam, se nada lhes faltava e se eram tratados com caridade.

“ A pobreza é boa, exclamava amiúde, mas a caridade é melhor ” .

E acrescentava:

“ Para os enfermos faz-se mister uma mãe ou um santo ” . Paulo possuía coração de mãe, por ter a caridade do santo.

CARINHO PARA COM OS JOVENS

Afeto especial nutria para com os noviços e estudantes. Deviam ser cultivados como plantas delicadas. Proibia impôr-lhes jejum a pão e água e tratá-los com demasiado rigor, acrescentando: “ Da conservação das forças, particularmente na juventude, depende uma observância mais pontual ” . Quando da tomada de hábito, não se continha ao contemplar aquela juventude que, do borrascoso mar do mundo, aportava nas plagas seguras da observância regular. Desde aquele momento far-lhes-ia saborear as doçuras de sua terna caridade.

Ao passarem à casa de estudos, seguia-os com o coração. Em suma, nada omitia do que pudesse fazê-los progredir assim nas letras como no amor a Jesus Crucificado. Alguns escolásticos, de partida para outro retiro, onde iriam dar princípio ao curso filosófico, foram pedir-lhe a bênção. Presenteando-os com uma imagem da ss. Virgem, assim fala o carinhoso pai:

“ Já não tendes pai nem mãe… ei-la, tomai-a por mãe… ”

Fitando os filhos queridos, ajoelhados a seus pés, acrescentou, chorando:

“ Prestai atenção, meus filhos. Resta-nos pouco tempo de vida: não nos veremos mais cá na terra. Quero, portanto, deixar-vos três lembranças, que deveis conservar na memória. Recomendo-vos, em primeiro lugar, a pureza de intenção, porque ela possui a secreta virtude de tudo transformar em ouro. Estudai unicamente para a glória de Deus e bem das almas. ”

“ Em segundo lugar, edificai um santuário interior e aí entrai para tratar com o Soberano Bem, que habita dentro de nós, como no-lo ensina a fé. Nas horas de estudo, detende-vos de quando em quando, dizendo internamente, com espírito de fé: Ó PADECIMENTOS DE JESUS!… ”

“ Recomendo-vos, finalmente, a modéstia da vista, guarda angélica do recolhimento… ” Ao pronunciar estas palavras, derramou novas lágrimas e os abençoou carinhosamente.

FIRMEZA INABALÁVEL

O governo do nosso santo, com ser suave, não deixava de ser forte. Observava, com vista perspicaz, a conduta dos religiosos. Aos incorrigíveis, após os meios brandos, empregava atitudes enérgicas, fazendo-os tremer. Se alguém resolvesse abandonar o Instituto, deixava-o ir, dizendo “ Prefiro a observância a todos os indivíduos do mundo. Deus não precisa de ninguém; poucos e bons! ” . Corrigia as mais leves faltas, porque desejava que todos fossem perfeitos. Falar em voz alta, rir estrepitosamente, proferir palavras ociosas, mostrar-se demasiado alegre ou delicado, eram defeitos que não passavam sem correção.

Cantando o divino Ofício no coro, um clérigo cometeu um erro. Voltou-se o santo para ele, repetindo a sentença:

“ MALEDICTUS HOMO QUI FACIT OPUS DEI FRAUDULENTER ”

(Jerem. 48, 10). Essas palavras foram pronunciadas com tal inflexão de voz, que a todos fêz tremer, servindo de lição para o futuro. Se alguém não inclinava a cabeça ao GLORIA PATRI ou ao nome ss. de Jesus, repreendia-o severamente. Não hesitou em mudar de retiro a um irmão leigo que faltara à santa caridade.

Um religioso se mostrara demasiado familiar e alegre em presença de algumas piedosas benfeitoras, em visita ao retiro do Santo Anjo. Advertiu-o asperamente, exigindo-lhe para o futuro mais modéstia e gravidade religiosa, como convém aos filhos da Paixão. Alguma vez exclamou:

“ Não conheceis a força que Deus colocou neste peito? Não é bom superior quem não sabe dizer não ” . Julgava-se réu de grande pecado se, para não perder a estima dos súditos, deixasse de corrigir-lhes os defeitos. Soía repetir: “ Não quero condenar-me por pecados alheios. Jesus imputou a Pilatos sua morte, porque este se mostrara fraco perante os doutores da lei e Heli foi castigado por não opor-se com energia às indignas arbitrariedades dos dois filhos ” .

Ao comentar a incúria de certos superiores que, ou por fraqueza de caráter ou por falsa caridade, deixam de repreender os súditos delinqüentes, suspirava “ Oh! quantos superiores estão no inferno por pecados de omissão! ”

Só nomeava superiores serios e de ánimo varonil, que se não deixavam levar por considerações humanas de timidez ou de outras quaisquer paixões. Era seu lema:

“ Não é bom superior o que não sabe dizer, quando necessário: NÃO SE PODE ” . Não se deve aqui concluir que Paulo fosse inflexivel. Pelo contrário, era compassivo por natureza. Se os religiosos se humilhavam e se arrependiam, era como se os visse refugiar-se em santuário inviolável. E passava do rigor á brandura. Alguns dos nossos estudantes, narra são Vicente Strambi, não sei por que falta, prostraram-se-lhe aos pes, pedindo perdao. O santo, sereno e alegre, disse-lhes, a sorrir: “ Oh! repreenda-os agora quem fôr capaz!… Que querem que eu faça? Levantem-se, pois venceram ” . E pós-se a conversar com eles alegremente, como pai amorossíssimo. Era isento daqueles caprichos que depravam e exasperam o caráter. Com admirável discernimento, regulava-se na correção pelo grau de virtude do culpado, a exemplo do Salvador “ que não quebrou a frágil cana, nem apagou a mecha ainda fumegante ” Is. 42. 3 Ciente de que o homem deve ser dirigido com delicadeza e respeito para mais fácilmente triunfar, no coração de Paulo a compaixão e a ternura quase sempre substituíam a repreensão e o castigo. Porém, onde mais lhe resplandecen o zelo, foi quando se tratava de gravar no coração dos religiosos as três virtudes fundamentais do Instituto:

POBREZA, ORAÇÃO E SOLIDÃO.

“ Recomendo-vos, dizia aos religiosos, a santa pobreza. Se fordes pobres, sereis santos. Se, porém, andardes em procura dos bens deste mundo, perdereis o espírito religioso e desaparecerá dentre vós a observância regular. Os filhos da Paixão de Jesus Cristo devem viver despojados de todos os bens terrenos. Nossa Congregação deve ser pobre de espírito e completamente desnuda, Somente assim conservará perene vigor ” . Era zelosíssimo na prática desta celestial virtude. Exigia que pobre fosse o vestuário dos religiosos, pobre a alimentação, pobres as celas, pobres os edifícios. Como da santa pobreza nasce a vida perfeitamente comum, tinha esta em grande estima “ Oh! que felicidade a vida comum! que grande tesouro encerra! ” .

E suas obras se conformavam ao seu parecer. Nunca possuiu coisa alguma como própria e exigia que entre os filhos tudo fosse comum. Era a pobreza personificada. Entremos em sua cela: pequena mesa de madeira ordinária, duas ou três cadeiras de palha, uma enxerga sobre algumas táboas, uma coberta de lã. uni Crucifixo, uma pia de barro para água benta, alguns quadros ordinários… essas as preciosas mobílias de Paulo da Cruz! Esmerava-se por ser o mais pobre entre os pobres. Não era menor seu amor à oração. “ Se formos homens de oração, sentenciava, Deus servir-se-á de nós, embora miseráveis, para os mais brilhantes triunfos de sua glória. Sem a oração, nada faremos de bom ” .

Estimava deveras os religiosos que se entregavam de fato à oração, e com eles se aconselhava. Para que o espírito de oração lançasse profundas raízes na alma de seus filhos, exortava-os ao recolhimento com a lembrança da presença de Deus: “ Este exercício faz com que a oração seja contínua ”. E prosseguia: “ Pessoas há que têm grande devoção em visitar lugares santos e as igrejas mais célebres. Estou longe de criticá-las; digo, contudo, que o nosso interior é grande santuário, por ser o templo vivo de Deus. Néle reside a ss. Trindade. Permanecer nesse templo é devoção verdadeiramente sublime ” Com tais expressões inflamava os corações dos filhos no desejo de tratarem familiarmente com Deus, comunicando-lhes o verdadeiro espirito de oração. A esta solidáo interior colocava uma centinela: a solidão exterior, sem a qual é impossível a primeira. Chamou de retiros aos nossos conventos, para infundir-nos o amor á solidão. Edificou-os, sempre que possível, longe dos povoados, para que, após as fadigas do apostolado, encontrassem “ religiosos, no ar puro e na calma do silêncio, o duplo refrigério do espírito e do corpo. ”

Quando os religiosos deixavam o retiro, esperava-os ansiosamente, contando as horas da auséncia. Ao regressarem, não lhes permitia referirem acontecimentos profanos. “ Isto seria trazer o mundo para o convento ” . Como na Congregação o espírito de solidáo devia estar unido ao zélo das almas, também ao apostolado tinha imenso amor e extremava-se por infundí-lo no coração dos filhos. Repetía: “ Levando-se em consideração o bem das almas, vale mais um missionário do que um convento. Prefiro perder um convento que um missionário ” . Alegrara-se sobremaneira quando os religiosos partiam para as missões. Abraçava-os ternamente e, chorando, dizia-lhes: “ Oh!! se tivesse trinta anos a menos, percorreria de bóa vontade o mundo todo a pregar a divina misericórdia!… ” Ao regressarem, extenuados, venerava-os como vítimas da caridade, assinalados com os gloriosos estigmas do sacrifício…Desabafava…em santos afetos. Apertava-os ao peito,… Deviam ser tratados com a máxima caridade. Éle mesmo, admirável ancião, os servia á mesa, ensinando a todos o preço do missionário apostólico. Folgava em ver entre os filhos o verdadeiro amor fraterno. A vida religiosa era para ele escola de respeito e caridade. Exigia dos sacerdotes suma condescendência para com os irmãos leigos, e destes o maior respeito pelos sacerdotes, em consideração do divino caráter que os revestia. Todos deveriam dar-se a cada um e cada um a todos. Com o imolar-se perenemente em prol dos filhos queridos, matava o egoísmo, peste e ruína das comunidades religiosas, e doutrinava o desprendimento, vida dos convento. Quem não sabe dar-se, não sabe ser pai.

Para traçar-lhe numa pincelada o governo, diremos: nos limites das santas Regras, doçura ilimitada: transpostos esses limites, firmeza inquebrantável. E nisto consiste a salvação das Ordens e Congregações religiosa. e o preservativo do relaxamento, Eis o governo de são Paulo da Cruz. Governo de prudência e simplicidade, de doçura sem fraqueza. de força sem aspereza, que obrigava os religiosos a viverem no fervor e na fiel observância, fazendo o pai venerável derramar lágrimas de inefável consolação.

Fala bem alto o fato seguinte: Aos religiosos de Santo Eutízio (Soriano), faltava-lhes o necessário para fazerem o pão em casa. Piedoso benfeitor comprometeu a fazê-lo, devendo os religiosos ir buscá-lo. A família do bom homem edificava-se desse mister. Ao apresentar-se à porta da casa, modesto e recolhido, o irmão encarregado apenas pronunciava a palavra: PÃO. Assim procedia, não por escassez de inteligência ou educação, mas para evitar palavras inúteis e não faltar ao santo silêncio, prescrito pelas Regras. Semelhante delicadeza de consciência é prova patente das heróicas virtudes dos primeiros Passionistas.O santo Fundador afirmava, jubiloso, que mais de SESSENTA, isto é, todos os que até então haviam falecido com o santa hábito, gozavam no paraíso os esplendores da glória eterna.

A paixão de Cristo o transforma

Supera de muito as nossas débeis forças o que nos resta dizer a respeito de Paulo da Cruz. Para cantar as maravilhas que iremos referir neste capitulo, fora necessário a lira do Anjo e o coração do Serafim. Balbuciaremos apenas algumas palavras. Ó Jesus Crucificado, que de portentos não operais com vossos santos! Paulo foi sempre serafim de amor. Com o transcorrer dos anos essas labaredas cresceram tanto, a ponto de transformar-se em verdadeiro incêndio. Ao meditar os padecimentos do Redentor, abismava-se o santo naquele oceano sem praias nem fundo. Flexas de amor transpassavam-lhe o coração e ele chorava copiosamente. Os colóquios com Jesus Crucificado comoveriam corações de pedra. Ouçamo-lo “ Ó meu amado Redentor, que se passava no vosso Coração divino durante a flagelação?! ”

– Ou:

“ Oh! que aflição, que agonia vos causavam os nossos pecados, as minhas ingratidões!… Por que não morro também por vós? ” . Chamava-o de “ MEU SOBERANO BEM, O CELESTE ESPOSO DE MINHA ALMA… ” Em suma, a dor e o amor encontravam expressões que, para traduzi-las, fora mister dar às palavras asas de fogo. E das expressões nasciam os desejos: sofrer e morrer pelo Amor Crucificado. Essas aspirações levavam-no aos delíquios da embriaguez espiritual e do êxtase.Ao refletir:“ Um Deus açoitado!… um Deus crucificado!… um Deus morto por meu amor!… ” , quedavam-se-lhe todas as potências da alma; o espírito já não formulava nenhum pensamento; somente o coração se absorvia no silêncio interior, suprema expressão da caridade.

Jesus, então, o atraía, comunicava-lhe de maneira inefável as próprias dores, fazia-o desfalecer de altíssima suavidade, submergindo-o no âmago do seu divino Coração. Duravam pouco essas operações da graça: os frutos, porém, como sejam, amor mais ardente a Jesus Crucificado e fome insaciável de padecer, perduravam por largo tempo. Nas desolações espirituais, não pedia lenitivo: ao contrário, temia privar-se desses ricos tesouros. O frio, o calor, a fome, a sede, todos os incômodos físico. eram-lhe doces refrigérios. Suportava-os com imensa alegria. chamando-os “ PENHORES DO AMOR DIVINO, PEDRAS PRECIOSAS PARA O SEU CORAÇÃO ” . Martirizava de mil maneiras o corpo inocente, chegando a gravar com ferro em brasa sobre o coração a Cruz e o nome ss. de Jesus, cicatriz imortal que levou à eternidade. Guindara-se Paulo de grau em grau à mais alta região do amor, haurindo sublimes noções dos mais secretos mistérios do Céu. Certo dia, com Jesus Eucarístico no coração, foi arrebatado em sublime êxtase. Abismado no Soberano Bem, prelibou por instantes os inefáveis encantos do amor e. associado à Humanidade do Verbo, teve sensível conhecimento da Divindade… Compreendeu, além do mais, ser Jesus Crucificado a porta soberana do amor, a transformação da alma em Deus e o aniquilamento no Infinito.

“ Por esta porta é que devemos entrar, – diz santa Teresa – se quisermos que a divina Majestade nos revele grandes segredos ”

(Autobiografia da santa, cap. XXVII).

O coração de São Paulo da Cruz se alargou por amor a Jesus Cristo

As chamas de amor reverberavam-se-lhe no rosto, no corpo tudo, chamuscando-lhe a túnica na parte que tocava o coração. Se tais eram as chamas desse amor, qual lhe não seria a impetuosidade? Sentia contínuas e dolorosas palpitações de coração, sobretudo às sextas-feiras: indizível martírio que o fazia prorromper em furtivas lágrimas e gemidos, sempre solicito em ocultar os dons celestes. O coração, pelas violentas palpitações, não se conteve nos estreitos limites do peito, dilatando duas costelas; fenômeno que não se pode explicar naturalmente, na opinião do sábio médico Del Bene, que o observara no retiro de Vetralla, quando tratou o nosso santo. Aliás, outras testemunhas do fato prodigioso atestaram-no com juramento no processo de Canonização.

Paulo sempre passou a noite de quinta para sexta-feira santa de joelhos, imóvel, ante o ss. Sacramento exposto, a meditar os padecimentos e a morte ignominiosa do Salvador. Numa dessas noites, enquanto desabafava o amor em torrente de lágrimas, Jesus gravou-lhe no coração o EMBLEMA sagrado, semelhante ao que trazia sobre o peito, com os instrumentos da Paixão e as dores de Maria. A partir desse momento, intumesceu-se-lhe o peito, dilatando extraordinariamente a cavidade que encerra o coração. Afirma o dr. Giuliani com juramento que não só viu, mas tocou as três costelas prodigiosamente arcadas, não tenda a menor dúvida da sobrenaturalidade do fato.

O APÓSTOLO QUE CONVERTEU MUITOS BANDIDOS

Que força, que fecundidade no apostolado de Paulo, inspirado unicamente em Jesus Crucificado! Já vimos como Deus abençoou a extraordinária messe de almas, colhida pelo grande missionário no campo da Igreja. Por toda parte onde se fazia ouvir a sua voz, operava-se completa transformação: refloresciam os costumes, desapareciam os ódios implacáveis, restabelecia-se a paz no seio das famílias, entregavam-se as almas à prática da oração mental, os corações se inflamavam no amor ao Cristo Crucificado.

Reviviam-se os mais belos tempo do cristianismo. Pronunciava-se o nome do grande missionário com admiração e acatamento.“ O pe. Paulo é verdadeiramente santo! é grande apóstolo de Jesus Crucificado! ” Não sabiam separar-se dele. Terminada a missão, acompanhavam-no, em multidão, grande trecho da estrada; recomendavam-se às suas orações, beijavam-lhe as mãos, a capa e até as pegadas, ao longo dos caminhos!Dir-se-ia recebera de Jesus moribundo o dom particular de converter os salteadores em BONS LADRÕES.

 Morte de São Paulo da Cruz

Ao notar os religiosos, ajoelhados e chorando ao redor do eito, aproveitou a ocasião para fortificá-los no espírito de Jesus Crucificado. O testamento sagrado do pai moribundo foi escrito por dois sacerdotes, que se encontravam no Oratório contíguo à cela. Ouçamo-lo:

“Em primeiro lugar, recomendo-vos instantemente o santíssimo preceito dado por Jesus aos discípulos, na véspera de sua morte: Conhecer-vos-ão por meus discípulos, se vos amardes mutuamente (Jo. 13, 35). A caridade fraterna é, meus queridos irmãos, o que de todo o coração desejo de todos os presepes e de todos os que se acham revestidos desse hábito de penitência, memorial perene da Paixão e Morte do nosso amado Redentor, bem como dos que futuramente forem chamados pela divina misericórdia a este pequeno rebanho do Senhor. Recomendo a todos, particularmente aos superiores, amor ao espírito de ração, de solidão e de pobreza. Se este espírito se conservar entre nós, a Congregação resplandecerá como sol, por toda a eternidade, em presença de Deus e dos homens. Amai, eu vo-lo aplico, amai sempre com amor filial e sincero a santa Igreja. Pedi incessantemente por ela e por seu chefe. Sêde submissos o Santo Padre em tudo e por tudo. Trabalhai como infatigáveis apóstolos na salvação das almas; inflamai os corações na devoção à Paixão de N. Senhor e às Dores da divina Mãe”.

Após haver manifestado sincero reconhecimento aos benfeitores, notadamente ao Romano Pontífice, apoderou-se-lhe da alia profundo sentimento de humildade: Como sou miserável! Estou para deixar-vos e entrar na eternidade… Ai de tuim! que apenas vos deixo maus exemplos! o entanto, confesso-vo-lo que sempre tive em vista a vossa santificação e perfeição espiritual.

Peço-vos, portanto, perdão, com rosto em terra. Recomendo-vos encarecidamente a minha alma, fim de que N. Senhor a receba no seio de sua misericórdia. Espero-o pelos méritos de sua Paixão e Morte”. Voltando-se para o SS. Sacramento, prosseguiu: “Sim, meu amado Jesus, espero, embora pecador, ir imediatamente ver-Vos no Paraíso e dar-Vos, ao deixar o corpo, aquele santo ósculo que a Vós me unirá para sempre, podendo assim cantar eternamente a vossa infinita misericórdia.”

“Recomendo-vos, meu doce Jesus, a pobre Congregação, fruto de vossa Paixão, de vossa Cruz, de vossa Morte.

Abençoai, vo-lo suplico, abençoai a todos os religiosos e benfeitores do Instituto… ” Tomou então a voz do Santo entoação de inefável ternura. Prestemos atenção, nós que temos a ventura de ser filhos de são Paulo da Cruz. Aconselha-nos são Vicente Maria Strambi conservemos a lembrança destas solenes palavras

“Suplico-vos, ó Virgem Imaculada, Rainha dos Mártires, suplico-vos pelas dores que sofrestes na Paixão de vosso amado Filho, lançai a todos a vossa bênção maternal. Coloco a todos e a todos deixo sob o manto de vossa doce proteção”.

Despediu-se por fim dos filhos queridos: “Vou deixar-vos, mas esperarei a todos lá no Céu, onde rezarei pela santa Igreja, pelo Soberano Pontífice, pela nossa. Congregação, pelos benfeitores. Deixo-vos todos, presentes e ausentes, com a minha bênção”. E levantando com esforço a destra, traçou o sinal da Cruz sobre os filhos, que choravam e soluçavam. Dirigiu-se em seguida ao Salvador “Vinde, vinde, Senhor Jesus…! VENI, DOMINE JESU (Apoc. 22, 20).” E chorando batia no peito e repetia “DOMINE, NON SUM DIGNUS – Senhor, não sou digno…”

e com devoção de serafim recebeu em seu coração o amabilíssimo Jesus. Todos se retiraram, pois o Santo precisava de silêncio, para se abismar em adoração e ações de graças.

EPÍLOGO DE UMA VIDA SANTA

Comungava diariamente e sempre em jejum, suportando ardentíssima sede. O Santo Padre, ao saber do heróico sacrifício do servo de Deus, mandou-lhe dizer por Frattini que podia comungar quatro vezes por semana sem estar em jejum. Paulo aproveitou-se do privilégio até o último dia de vida.

Enternecido pela bondade do Vigário de Cristo, recomendou novamente aos filhos jamais omitissem a recitação diária das ladainhas de todos os Santos conforme as intenções do Papa e pelas necessidades da santa Igreja e acrescentou:

“Se me salvar, como espero pela sagrada Paixão de N. Senhor Jesus Cristo e pelas Dores de Maria, hei de rezar sempre pelo Santo Padre. Como lembrança, deixo-lhe depois da minha morte, esta imagem da Virgem das Dores. E’ prova de meu reconhecimento”. Passados instantes renova a recomendação de rezarem pelo Papa “a fim de que a divina misericórdia o conserve em saúde por muito tempo, para o bem da santa Igreja, e o assista em todos os empreendimentos. Como os desejos do Santo Padre são unicamente agradar a Deus, que os realize com todo o zelo possível”.

Paulo continuava a consolar os filhos desolados, a exortá-los à fiel observância das santas Regras, a recomendar-lhes evitassem as menores faltas voluntárias. Que os superiores vigiassem sobre este ponto, “porque os que perderam o espírito religioso são, no campo do Senhor, como ervas daninhas, que põem a perder a boa semente”.

Repetiu o que dissera aos superiores, quando gravemente enfermo, em Santo Anjo “Despojo-me do pouco que tenho em uso e peço-vos a caridade de dar-me de esmola alguma roupa usada, que me servirá de mortalha”. Visitando-o o revmo. pe. João Maria Boxadors, Geral da Ordem dos Pregadores e grande admirador do Santo, mais tarde cardeal da santa Igreja, Paulo recomendou-lhe seu pequeno rebanho, dizendo-lhe que o deixava sob a proteção da Ordem de São Domingos, cumulada de tantos favores pela SS. Virgem.

Pediu-lhe autorização para erigir, nos nossos noviciados, a confraria do santo Rosário, e faculdade ao Mestre de Noviços de inscrever na mencionada confraria todos os religiosos, que almejassem usufruir desse privilégio. O pe. Boxadors concedeu-lhe de boa mente o favor solicitado e Paulo regozijou-se no Senhor por enriquecer a Congregação de tão precioso tesouro. O mal aumentava. O servo de Deus, sempre tranqüilo, esperava pela morte. Imagem viva do Redentor, o corpo era-lhe uma chaga. Nenhuma posição lhe mitigava as dores. Sentia sede devoradora e a água aumentava-lhe as dores! Dizia, às vezes:

“Parece que me arrancam a alma; não há em todo o meu corpo um espaço de quatro dedos isento de dor”. E não se lamentava! Que paz e serenidade inalteráveis! Alçava, de vez em quando, os olhos ao céu, juntava as mãos, e exclamava:

“Bendito seja Deus!”

ou patenteava por gestos que adorava a ss. Vontade de Deus. O pe. João Maria de Santo Inácio, seu confessor, disse-lhe certa vez: “Jesus deseja fazê-lo morrer crucificado como Ele”. Manifestou o santo enfermo, pela expressão do rosto, que folgava imensamente em estar pregado à Cruz do seu Senhor. Fitava amiúde Jesus Crucificado e a Virgem das Dores, haurindo força e alegria para o derradeiro sacrifício. Passavam os dias e as noites, e ele sempre a sofrer. Era verdadeiro milagre como um homem tão extenuado de forças pudesse viver sem alimento algum.

Temiam os religiosos vê-lo entrar de um momento a outro em agonia, mas Paulo lhes assegurava que a hora do trespasse ainda não chegara. O pe. João Maria devia pregar missão em Tolfa; temendo, todavia, que o Santo morresse em sua ausência, diferia a partida de um dia para outro. Paulo, antepondo a glória de Deus e a salvação das almas à própria consolação, disse-lhe: “Vá, vá tranqüilo, pois não morrerei tão logo”.

Animado sempre do espírito apostólico, acrescentou: “Ao passar flor Rota, incentive aqueles bons habitantes a assistirem a missão”.

O missionário, após pedir-lhe a bênção, beijou-lhe a mão. Paulo, por sua vez, osculou a mão desse filho que tão bem o assistia nos caminhos espirituais. D. Struzzieri, antigo filho do venerável Fundador, então bispo de Amélia, escreveu-lhe pedindo o esperasse em Roma no ia 18 de outubro. Referiu-lhe o secretário as palavras e o desejo do Prelado. O Servo de Deus respondeu sorrindo: “Sim, responda-lhe que o esperarei”.

No entanto extinguia-se-lhe a voz e as forças se lhe diminuíam de dia a dia. Sentindo aproximar-se o último combate, solicitou o sacramento da Extrema-Unção, escolhendo para ato tão comovente festa da Maternidade divina de Maria, segundo domingo de outubro. No sábado, 7 do mesmo mês, confessou-se com o pe. João faria, que já voltara da missão. Domingo de manhã, recebeu m Viático Aquele que é a Ressurreição e a Vida. “Em seguida, para melhor compenetrar-se da graça da Extrema Unção, mandou chamar a um de seus padres, narra o piedoso biógrafo do Santo, pedindo-lhe expusesse os efeitos deste grande sacramento. Ele, que com tanta competência podia ensinar a outrem, quis por humildade ser instruído?”.

O religioso que teve essa honra é o mesmo que nos oculta o nome: SÃO VICENTE: MARIA STRAMBI, então lente de Teologia em Santos João e Paulo, mais tarde Bispo de Macerata Tolentino. Um santo a doutrinar a outro santo! Terminadas as vésperas, dirigiram-se os religiosos à cela do enfermo Com as mãos postas, profundamente recolhido, seguia as orações rituais, enquanto dos olhos deslizavam-lhe doces lágrimas. Os religiosos, à imitação do pai moribundo, rezavam e choravam. Terminada a cerimônia, chegou d. Marcucci, vice-gerente, perguntando pela saúde do pe. Paulo. “Ah! Expia., respondeu chorando o religioso, é a última vez que vereis ao nosso pai, pois está tão acabado, que pouco lhe resta de vida”. Encaminhou-se o snr. bispo para a cela do servo de Deus. A vista daquele rosto, em que se associavam as sombras da morte e os primeiros resplendores do Céu, comoveu-se profundamente, não pronunciando uma palavra sequer. Colho o santo se esforçasse por pedir-lhe a bênção, d. Marcucci, dizendo-lhe que se não fatigasse, lançou-se de joelhos aos pés da cama, rezou três ave-marias e pronunciou em voz alta as seguintes palavras: “Que Jesus e Maria, nossa Mãe, nos abençoem…” Dir-se-ia não atrever-se abençoar a um santo com a fórmula ordinária dos bispos.

Pode dizer-se que Paulo estava em contínua agonia. Todavia, oito dias depois, com admiração geral, conseguiu escrever de próprio punho uma carta à virgem de Cervéteri. Dava-lhe alguns conselhos e dizia que a esperava no Céu, para onde iria daí a dois dias. Rosa Calabresi depõe: “Estávamos já bem adiantados no mês de outubro de 1775, quando recebi uma carta do Ven. Servo de Deus…, a última que recebi. Estava escrita toda de sua mão. Os pensamentos davam a conhecer uma mente clara e uma alma virtuosa. A escrita, porém, indicava a fraqueza das forças, pois as letras não estavam traçadas como de costume e as linhas começavam no alto e iam terminar quase na metade da página. Dava-me diversas recomendações…, a última bênção… (dizendo que) dentro de dois dias teria morrido…, concluía que tornaríamos a nos ver no céu”.

No dia de são Lucas (18 de outubro), de quem era devotadíssimo, recusou a poção de pão dissolvido em água, desejando comungar em jejum. Foi sua última Comunhão. De ora em diante só vive para o Céu. Quer deixar a terra num ósculo de amor. Pediu não permitissem entrar na cela pessoa estranha, pois os derradeiros instantes de vida deveriam pertencer exclusivamente a N. Senhor e aos seus filhos.

Apesar da proibição, os religiosos abriram exceção ao bispo…, a um religioso Camaldulense do Convento de São Gregório e a um senhor de Ravena. O Santo, sempre bondoso, acolheu-os, presenteando-os com pequeno Crucifixo, exortando-os, por sinais a meditarem perenemente a sagrada Paixão de Nosso Senhor. Enternecidos até as lágrimas, exclamaram ao retirar-se: “Ah! na verdade vê-se a santidade estampada em seu rosto! Oh! como são ditosos, estes padres, pois têm por pai a um santo! Sim, Paulo é grande santo!”. Pouco antes do meio dia, chega d. Struzzieri. Desce do carro e corre à cela do amado pai, toma-lhe a mão e cobre-a de beijos. O moribundo reanima-se ao rever o querido filho. Sorri, descobre a cabeça em sinal de respeito ao Prelado e deseja também beijar-lhe a mão, mas o snr. bispo retira-a imediatamente. Após afetuosas palavras, disse Paulo ao enfermeiro “Diga ao pe. Reitor que trate bem ao snr. bispo e aos seus domésticos, fazendo-os servir pelos religiosos”. Cumprira a palavra, esperando o snr. bispo. Agora, ciente de que lhe chegara a última hora, pediu ao enfermeiro o ajudasse a mudar de posição, para poder fitar as imagens de Jesus Crucificado e da Mãe das Dores. Nessa posição permaneceu até a morte. Pouco depois, sentindo calafrios, disse ao enfermeiro “Chame o pe. João Maria porque minha morte está próxima”. Respondeu-lhe este que não via perigo iminente de morte, tanto mais que o médico, horas antes, o achara melhor. “Chamem, chamem o pe. João Maria para auxiliar-me”, insiste o Santo. Estavam os religiosos no coro cantando vésperas. O irmão, não julgando iminente o desenlace, sentou-se junto ao leito do servo de Deus e perguntou-lhe: “Meu padre, por ventura não aceita de boa vontade a morte para cumprir a SS. Vontade de Deus?” Respondeu o moribundo com voz forte “Sim, morro de muito boa mente para cumprir a SS. Vontade de Deus”. “Coragem, pois, acrescentou o enfermeiro; confie em N. Senhor”. Estendeu Paulo os braços às queridas imagens e disse com admirável ternura “Ali estão minhas esperanças, na Paixão de Jesus e nas Dores de minha Mãe Maria….”

O CÉU RECEBE MAIS UM SANTO

Terminadas as vésperas, chamou o enfermeiro ao pe. João Batista de São Vicente Ferrer, primeiro Consultor. Paulo, apenas o vê, exclama:“Auxiliem-me, porque vou morrer”,e entrou em doce agonia.

Pressurosa a comunidade acorreu à cela do pai moribundo. Estão todos de joelhos, a orar. O pe. Reitor encomenda-lhe a alma. Os religiosos e mons. Frattini respondem às orações da Igreja. O primeiro Consultor, por delegação especial do Santo Padre, dava ao moribundo, com a bênção apostólica, a indulgência plenária em artigo de morte, bem como as indulgências do Rosário e do Carmo. O pe. João Maria absolveu-o novamente, atendendo ao pedido do Santo. Excitava-o d. Struzzieri a vivos sentimentos de fé, esperança e caridade. Leu-se em seguida a Paixão de Jesus Cristo segundo São João. Esta leitura pareceu reanimar o enfermo. Percebia-se que hauria, desse manancial de salvação, paz, consolo e amor. Seus olhares fitavam ora a imagem de Jesus Crucificado, ora a de Nossa Senhora das Dores. Manifestara o desejo de morrer sobre palhas, com uma corda ao pescoço, coroa de espinhos na cabeça, revestido do santo hábito com o distintivo da Paixão no peito. Satisfizeram-lhe em parte o desejo. O pe. João Maria, ao estender sobre ele a santa túnica e ao colocar-lhe ao pescoço uma corda, disse-lhe:

“Alegre-se, pois lhe é dado morrer na cinza e no cilício…”. De repente, entra o moribundo em doce êxtase. Que expressão de felicidade! Os lábios se entreabrem em celestial sorriso, os olhos estão fixos no Céu, os braços estendidos. Com repetidos sinais das mãos, parece pedir aos presentes deixem passagem livre a misteriosas pessoas que se aproximam.Foi opinião geral que fruía celestial visão.

E não se enganaram, pois, após a morte, apareceu glorioso a uma alma santa, revelando-lhe que naquele instante baixaram à sua cela, circundados de resplandecente luz, o divino Redentor, a 88. Virgem, o Apóstolo são Paulo, são Lucas, são Pedro de Alcântara, o pe. João Batista, seu irmão, e todos os seus religiosos que o precederam na Glória, seguidos de inúmeras almas por ele convertidas nas santas missões. O Santo já gozava dos primeiros albores da eterna bem-aventurança! Deixou cair os braços e cerrou os olhos. “Pe. Paulo, bradou o bispo de Amélia, lembrai-vos no Céu da pobre Congregação e de todos nós, pobres filhos vossos”.E o pai amoroso com sinais dá a entender que o fará… Eram cerca de dezesseis horas de quarta-feira, 18 de outubro de 1775. O nosso Santo contava 81 anos, nove meses e quinze dia”.

LÁGRIMAS DE JÚBILO

Os religiosos, quais órfãos, agruparam-se, chorando, ao redor do santo corpo. Beijavam aquelas mãos que tanto os abençoaram, poisavam as cabeças naquele peito, que ardeu de amor a Deus N. Senhor, esperando alcançar por esse contato sagrado a plenitude do espírito que deve animar aos filhos da Paixão.

De repente, por um desses sentimentos instintivos ou divinos, fenômeno que se dá unicamente na morte dos santos, a dor cede lugar à alegria, as lágrimas à doce e celestial consolação. Será, por ventura, um raio secreto da felicidade dos bem-aventurados, que baixa do Céu às almas, reverberando-se no mortal sepulcro? Frattini e os demais testemunhas dessa morte ou, melhor, deste triunfo, exclamavam, jubilosos: “Tivemos a felicidade de ver como morrem os santos…”.

APARECE GLORIOSO

Numerosos prodígios anunciaram à terra que o céu contava mais um santo. Aquele que gravara no coração as chagas de Jesus Crucificado devia revestir-se dos traços de Jesus glorioso. Depois de sua morte, apareceu Nosso Senhor às santas mulheres e aos apóstolos. Paulo também apareceu a algumas almas santas. No instante em que o nosso santo deixava o mundo para entrar na eternidade, sua penitente Rosa Calabresi rezava, em Cervéteri, retirada em seu quarto. Eis que de repente o aposento se ilumina com extraordinária luz, nomeio da qual, elevada no ar, vê uma pessoa revestida de paramentos sacerdotais e tão resplandescente que não podia fitá-la.Por três vezes a visão a chama pelo nome: “ Rosa! ”

Mas a jovem,… não respondia. Então ouviu distintamente estas palavras: “ Eu sou o pe. Paulo. Vim trazer-te a notícia de que faleci há pouco e agora vou para o céu para gozar de Deus… adeus até o céu! ”

Rogou-lhe Rosa pedisse a Deus para que ela também se tornasse digna de ir gozá-lo no céu. E a visão desapareceu.Na manhã seguinte eis que chega uma carta do pe. Inácio, seu novo diretor, na qual este lhe notifica o feliz trânsito do nosso padre. Em vista do que já vira, nenhuma tristeza experi- mentou a boa moça. Já era inútil rezar por ele; todavia, para manter a promessa que lhe fizera nas conferências espirituais, correu à igreja e começou a via sacra. Chegando à terceira estação, vê uma grande luz e, no meio dela, o servo de Deus, não vestido de passionista, mas de lindo manto branco e vermelho, cercado e cortejado por grande multidão de anjos ” .

Admirada por vê-lo vestido daquela maneira, perguntou-lhe o que significava aquilo. E o santo diretor: “ Isto é o símbolo de minha ilibada pureza e de minha ardente caridade, virtudes que tanto amei e pratiquei durante minha vida, e de meu martírio pela penitência e pelo sofrimento ” . Dizendo-lhe que aplicasse aquela via sacra pelas almas do purgatório, deixou-a, depois de lhe dirigir estas textuais palavras: “ Adeus, filha! Espero-a no céu para ver a Deus, para louvar a Deus, para possuir a Deus por toda a eternidade ”

Fonte:Vida de São Paulo da Cruz.Autor:Pe. Luis Teresa de Jesus Agonizante

Biografia de Santo Estanislau por Felipe Aquino

 O rei Boleslau II da Polônia (1058-1079) é lembrado nas páginas da história pelos empreendimentos militares vitoriosos que consolidaram o jovem Estado, alargando-lhe os limites à custa da Rússia, pela valorização das terras, por ele promovida com uma nova organização fundiária e pelas reformas políticas e econômicas. Deste rei, porém, o primeiro historiador polonês, Vicente Kadlubeck, lembra também as graves injustiças e o comportamento imoral na vida particular. Mas em seu caminho, Boleslau encontra um severo repreensor. Qual João Batista em relação a Herodes, o destemido bispo de Cracóvia, Estanislau, levantou sua voz, admoestando o onipotente soberano sobre seu dever de respeitar os direitos alheios.

Estanislau nasceu em 1030 na diocese de Cracóvia, em Szczepanowa, filho de pais pobres. Concluindo os primeiros estudos com os beneditinos de Cracóvia, aperfeiçoou-os na Bélgica, na célebre escola de Liège. Voltando a sua pátria, distingui-se pelo zelo pastoral e pelas benéficas iniciativas realizadas com caridade e inteligência. Morto o bispo de Cracóvia, o papa Alexandre II nomeou-o para o alto cargo. A sua designação foi, além do povo e do clero, acalentada pelo próprio Boleslau II, que nos primeiros anos, consentiu na obra de evangelização em toda a região e na formação do clero local, secular, que devia ocupar progressivamente o lugar dos monges beneditinos na administração da Igreja polonesa.

A boa harmonia entre o bispo e o soberano durou até que o corajoso Estanislau teve de antepor seus deveres pastorais à tolerância para com as faltas do amigo, pois a reprovável conduta do soberano corria o risco de alimentar os maus costumes dos súditos. As crônicas do tempo contam de fato que o rei, apaixonado por uma bela matrona, Cristina, esposa de Miecislau, sem demora mandou raptá-la, com grave escândalo para todo o país.

Ameaçada e depois efetivada a excomunhão do soberano, este não mais conteve o seu furor, fazendo trucidar Estanislau em Cracóvia, na Igreja de são Miguel, durante a celebração da missa. O ignóbil assassinato na catedral parece ter sido perpetuado pelas mãos do próprio soberano depois que os guardas tiveram de se retirar, porque eram impedidos por força misteriosa. Venerado pelos poloneses desde o dia do seu martírio, santo Estanislau foi canonizado a 17 de agosto de 1253 na basílica de são Francisco de Assis e desde então o seu culto é muito difundido na Europa e na América.

 

http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=SANTODIA&id=scd0101

Estanislau nasceu em Sézépanow, pequena cidade da Polônia perto de Cracóvia, no dia 26 de julho de 1030. Seu pai, Wielislas, era dos principais senhores do país; e sua mãe, Bogna, pertencia também a ilustre família. Ambos eram muito piedosos e esmoleres, o que influenciou muito beneficamente o caráter do filho, já de si propenso à virtude.

Bem dotado para os estudos, Estanislau cursou primeiro a universidade de Gnesen, então a mais famosa, e depois a mundialmente célebre universidade de Paris, onde estudou direito canônico e teologia.

Empreende a verdadeira reforma da Igreja

Quando voltou à sua pátria, tornara-se herdeiro de boa fortuna pela morte dos pais. Vendeu tudo, revertendo o dinheiro em favor dos pobres, e foi ordenado sacerdote pelo bispo de Cracóvia, Lamberto Zula, que o fez cônego da sua catedral.

Como pregador, logo adquiriu fama, sendo também muito procurado como diretor de consciência. Sua reputação tornou-se tão grande, que muitos eclesiásticos e leigos vinham de todas as partes da Polônia para consultá-lo sobre problemas de consciência ou canônicos. Com fé profunda, esmerada prudência e sólida erudição, tornou-se muito conhecido. Não é de admirar que, quando D. Lamberto faleceu, todos – rei, nobres, clero e povo – o escolhessem para sucedê-lo. Recusou-se peremptoriamente a aceitar o cargo, sendo necessária uma ordem formal do Papa Alexandre II para que cedesse. Foi sagrado no ano de 1072, aos 42 anos de idade.

A partir de então dedicou-se com energia à reforma da Igreja, tão desejada pelo Sumo Pontífice, exigindo que seu clero tivesse vida edificante e agradável a Deus, não só para servir de modelo, mas sobretudo para oferecer, com mãos puras, o santo sacrifício da Missa. Ele começava por dar o exemplo da piedade mais profunda e abnegação mais completa.

Todos os anos visitava as diversas partes de sua diocese, corrigindo abusos, promovendo o santo sacramento do crisma, reconciliando inimigos e casais separados. Elaborou uma lista dos pobres e viúvas de sua diocese, para melhor poder socorrê-los.

Sem virtude, mas valente, o rei torna-se déspota

No ano de 1058, tinha subido Boleslau II ao trono ducal da Polônia, cuja capital era então Cracóvia. Era um príncipe ambicioso e valente. Dizem os historiadores que ninguém era mais atrevido no combate, mais ágil e destro no manejo da lança e da espada, mais sofrido no campo de batalha. Por isso foi vitorioso tanto nas planícies da Hungria quanto nas estepes russas e pântanos da Pomerânia. Tornou-se tão forte, que separou-se do Sacro Império Romano Alemão. E no Natal de 1076, colocou a coroa real em sua cabeça.

O país tornou-se então refúgio seguro para outros príncipes caídos em desgraça, como Bela da Hungria, Jaromir da Boêmia e Isaslao da Rússia, que aí encontraram amparo e apoio.

Sem virtude sólida, o sucesso subiu à cabeça de Boleslau, fazendo-o tão soberbo e libidinoso quanto os legendários reis orientais da história antiga. Seu palácio transformou-se num harém. Como um vício atrai outro, tornou-se déspota, perseguindo não só a nobreza, mas também o povo. Num paroxismo de sensualidade, chegou ao vício infame da sodomia.

Tornou-se tão temível, que ninguém tinha coragem de levantar a voz contra ele. Ou quase ninguém, pois Estanislau, bispo da capital do reino, não conhecia temores. Numa assembléia plenária do clero e nobres, na presença do rei, começou a pregar as verdades da moral católica e a defender os direitos da justiça e da virtude. Falou dos juízos de Deus, da perda das almas, dos castigos eternos, da continência, da santidade do matrimônio e dos direitos de súditos e vassalos em qualquer reino. Isso atingia diretamente o rei, que respondeu irado, com uma série de injúrias e insultos, chamando o prelado de hipócrita e soberbo. Foi o início de uma batalha sem quartel entre o bispo e o rei, que só terminaria com o assassinato do bispo.

“Não te é lícito, ó rei, teres a mulher de outro”

Um fato foi além de todas as medidas despóticas de Boleslau. Um de seus vassalos, Miécislas, era casado com uma mulher notável por sua virtude e beleza. Passava mesmo como sendo a mulher mais bela do reino. Boleslau a mandou seqüestrar e levar para seu palácio.

Esse ato escandaloso e imoral revoltou toda a nobreza, que se dirigiu ao arcebispo de Gnesen, então primaz, e aos outros bispos do reino, pedindo-lhes que fossem falar ao déspota e mostrar-lhe a iniqüidade de sua ação. Mas os prelados temeram irritar o monarca, e se mostraram muito lenientes. A nobreza se vingou deles, publicando por toda parte que eram mercenários, e que tinham muito menos em conta a causa de Deus do que sua própria fortuna e ambição.

Não foi desse número Santo Estanislau. Com voz respeitosa, mas firme, ele disse a Boleslau o que outrora São João Batista dissera ao rei Herodes: “Não te é permitido tomá-la por mulher!” (Mt 14,4). Censurou também o soberano por suas desordens, e alertou-o de que, se não se corrigisse, expunha-se às censuras da Igreja. Arrogante, Boleslau insultou novamente o bispo, dizendo com grosseria: “Quando se fala assim de maneira tão pouco conveniente a um rei, dever-se-ia ser guardador de porcos”.

A guerra entre os dois chegava ao auge. Não encontrando na vida privada do prelado nada que o desabonasse, Boleslau recorreu à calúnia, chamando-o de usurpador do bem alheio. Era uma alusão ao seguinte fato: o bispo tinha comprado um terreno em Piotrawin, de um certo Pedro, e havia pago o preço em presença de testemunhas, confiando na boa-fé das mesmas. Como naquele tempo a palavra dada, tinha força de lei, ele não se importou em ter um recibo de quitação. Acontece que Pedro faleceu. Boleslau procurou então os sobrinhos e herdeiros, pedindo-lhes que reclamassem novamente o pagamento, pois ele, rei, faria calar as testemunhas.

Santo Estanislau teve de comparecer a um julgamento presidido pelo rei, com vários juízes, diante das testemunhas intimidadas que não quiseram declarar-se em seu favor. Vendo que não podia contar com os homens, pediu a Deus que fosse sua testemunha. Inspirado pelo Céu, pediu aos juízes um prazo de três dias, findo o qual traria como testemunha o próprio vendedor, Pedro. Ora, este havia falecido três anos antes. Por isso, como zombaria, os juízes aceitaram.

Nos dois dias seguintes o santo jejuou e celebrou a santa Missa, pedindo a Nosso Senhor que defendesse sua causa. No terceiro, depois de celebrar, foi ao cemitério revestido com os trajes episcopais, escoltado por seus clérigos e muitos fiéis. Pediu que abrissem o túmulo de Pedro, e tocou seus restos mortais com o báculo. Imediatamente o corpo do falecido se recompôs, e Santo Estanislau pôde ir com o ressuscitado ao tribunal, e diante dos presentes aterrorizados, comprovou a inocência do santo.

Martirizado aos pés do altar onde celebrava

Como o monarca prosseguisse com suas iniqüidades, Santo Estanislau excomungou-o publicamente e interditou-lhe a entrada na catedral. Mas Boleslau continuou a assistir ao divino sacrifício, sem se importar com a excomunhão. O bispo então ordenou ao clero que interrompesse a missa tão logo o rei entrasse no recinto sagrado. O rei jurou vingança.

No dia 8 de maio de 1079, Santo Estanislau celebrava a santa Missa na igreja de São Miguel, nos arredores da cidade, quando ouviu o tropel de gente de guerra, mas não interrompeu o santo sacrifício. Era Boleslau, que vinha acompanhado de seus soldados para vingar-se. Mandou que alguns deles entrassem na igreja e matassem o celebrante, mas os soldados não ousaram levantar a mão contra seu pastor. Então o próprio rei entrou no santuário e desferiu violento golpe na cabeça de Estanislau, em seguida trespassou-lhe o coração, cortou-lhe o nariz e desfigurou o rosto. Mandou cortar depois o corpo em quatro partes e espalhar pela cidade. Alguns fiéis, desobedecendo à ordem do rei, reuniram os restos mutilados do mártir e os enterraram em frente da igreja de São Miguel. Mais tarde seus restos mortais foram transferidos para a catedral.

O grande pontífice São Gregório VII, ao saber do horrendo crime, pôs em interdito o reino da Polônia, excomungou e depôs o rei, que acabou abdicando.

O santo mártir foi canonizado em 1253 pelo papa Inocêncio IV. É ele um dos padroeiros da Polônia, venerado sobretudo em Cracóvia, sua cidade episcopal.

E-mail do autor: pmsolimeo@catolicismo.com.br

___________
Obras consultadas:
•    Les Petits Bollandistes, Saint Stanislas, évêque de Cracovie, Martyr, in Vies

des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo V, pp. 385 e ss.

•    Frei Justo Perez de Urbel, O.S.B., San Estanislao de Cracóvia, in Año

Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo II, pp. 304 e ss.

•    Pe. José Leite, S.J., Santo Estanislau, Mártir, in Santos de Cada Dia,

Edições A.O., Braga, 1993, tomo I, pp. 457-458.

•    Francis Mershman, Saint Stanilaus of Cracow, in The Catholic

Encyclopedia, Online Edition Copyright © 2003 by Kevin Knight,

•    Juan Bautista Weiss, História Universal, Tipografia La Educación,

Barcelona, 1927, vol. V, pp. 544-545.

 

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II À POLÓNIA

MISSA PONTIFICAL DO SANTO PADRE

EM HONRA DE SANTO ESTANISLAU

Cracóvia, 10 de Junho de 1979

 

Louvado seja Jesus Cristo!

1. Todos nós hoje aqui reunidos nos encontramos diante de um grande mistério da história do homem. Cristo, depois da sua Ressurreição, encontra-se com os apóstolos na Galileia e dirige-lhes as palavras que há pouco ouvimos dos lábios do diácono que proclamou o Evangelho: Foi-Me dado todo o poder no céu e na terra: Ide, pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos tenho mandado. E Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo (Mt. 28, 18-29).

Nestas palavras está encerrado o grande mistério da história da humanidade e da história do homem.

Cada homem, de facto, caminha. Caminha em direcção ao futuro. Também as nações caminham. E toda a humanidade. Caminhar significa não só sofrer as exigências do tempo, deixando continuamente atrás de si o passado: o dia de ontem, os anos, os séculos… Caminhar significa estar consciente também do fim.

Será que o homem e a humanidade no seu caminho através desta terra passam apenas ou desaparecem? Para o homem tudo consistirá no que ele, sobre esta terra, constrói, conquista e usufrui? Independentemente de todas as conquistas, de todo o conjunto da vida (cultura, civilização e técnica) não o esperará nada mais? «Passa a figura deste mundo»! E o homem? Passa totalmente junto com ela?…

As palavras pronunciadas por Cristo no momento da despedida dos Apóstolos exprimem o mistério da história do homem, de todos e cada um, o mistério da história da humanidade.

O baptismo no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo é uma imersão no Deus vivo, «n’Aquele que É», como diz o livro do Génesis, n’Aquele que é, que era e que vem, como diz o Apocalipse (Apoc. 1, 4). O baptismo é o início do encontro, da unidade, da comunhão, pelo que toda a vida terrena é apenas um prólogo e uma introdução; o cumprimento e a plenitude pertencem à eternidade. «Passa a figura deste mundo». Devemos, por conseguinte, encontrar-nos «no mundo de Deus», para alcançar o fim, para chegar à plenitude da vida e da vocação do homem.

Cristo mostrou-nos este caminho e, despedindo-se dos Apóstolos, reconfirmou-o mais uma vez, recomendou-lhes que eles e toda a Igreja ensinassem a observar tudo o que Ele lhes tinha dito: Eu estarei sempre convosco até ao fim do mundo.

2. Escutamos sempre com a maior comoção estas palavras com que o Redentor ressuscitado delineia a história da humanidade e juntamente a história de cada homem. Quando diz «ensinai todas as nações» aparece diante dos olhos da nossa alma o momento em que o Evangelho chegou à nossa Nação, nos inícios mesmos da sua história, e quando os primeiros Polacos receberam o baptismo no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. O perfil espiritual da história da Pátria foi traçado pelas próprias palavras de Cristo, ditas aos Apóstolos. O perfil da história espiritual de cada um de nós foi traçado mais ou menos da mesma maneira.

O homem, de facto, é um ser racional e responsável. Pode e deve, com o esforço pessoal do pensamento, chegar à verdade. Pode e deve decidir. O baptismo, recebido nos inícios da história da Polónia, tornou-nos ainda mais conscientes da autêntica grandeza do homem; «a imersão na água» é sinal do chamamento a participar na vida da Santíssima Trindade, e é ao mesmo tempo uma verificação insubstituível da dignidade de cada homem. Já o mesmo chamamento testemunha em seu favor: o homem deve ter uma dignidade extraordinária, se foi chamado para tal participação, para a participação na vida do próprio Deus.

Do mesmo modo, todo o processo histórico da consciência e das opções do homem está intimamente ligado à viva tradição da própria nação, na qual, através de todas as gerações, ressoam com vivo eco as palavras de Cristo, o testemunho do Evangelho, a cultura cristã, os costumes nascidos da fé, da esperança e da caridade. O homem escolhe conscientemente, com liberdade interior. Aqui a tradição não é limitação: é tesouro, é riqueza espiritual, é um grande bem comum, que se confirma com toda a opção, com todo o acto nobre, com toda a vida autenticamente vivida como cristão.

Pode-se renegar tudo isto? Pode-se dizer não? Pode-se recusar a Cristo e a tudo aquilo que Ele trouxe para a história do homem?

Pode-se certamente. O homem é livre. O homem pode dizer a Deus: não. O homem pode dizer a Cristo: não. Mas permanece a pergunta fundamental: é lícito fazê-lo? E em nome de quê é lícito? Que argumento racional, que valor da vontade e do coração podes apresentar diante de ti mesmo, do próximo, dos compatriotas e da nação para recusar, para dizer «não» àquilo de que todos vivemos durante mil anos? Aquilo que criou e sempre constituiu as bases da nossa identidade?

Uma vez Cristo perguntou aos Apóstolos (isto aconteceu depois da promessa da instituição da Eucaristia, e muitos afastaram-se d’Ele): também vós quereis retirar-vos? (Jo. 6, 67). Permiti que o sucessor de Pedro, perante vós todos aqui reunidos, perante toda a nossa história e a sociedade contemporânea, repita hoje as palavras de Pedro, que foram então a sua resposta à pergunta de Cristo: Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna (Jo. 6, 68).

3. Santo Estanislau foi Bispo de Cracóvia durante sete anos, como é confirmado pelas fontes históricas. Este bispo-compatriota, oriundo da não distante Szczepanow, assumiu a sede de Cracóvia em 1072, para a deixar em 1079, sofrendo a morte pelas mãos do rei Boleslau, o Ousado. O dia da morte, segundo as mesmas fontes, era o 11 de Abril e é neste dia que o calendário litúrgico da Igreja universal comemora Santo Estanislau. Na Polónia, porém, a solenidade do bispo mártir é desde há séculos celebrada a 8 de Maio e continua a sê-lo também hoje.

Quando, como metropolita de Cracóvia, iniciei convosco os preparativos para o nono centenário da morte de Santo Estanislau, que é comemorado este ano, todos estávamos ainda sob a impressão do milénio do Baptismo da Polónia, celebrado no ano do Senhor de 1966. Na perspectiva deste acontecimento e em confronto com a figura de Santo Adalberto, também ele bispo e mártir, cuja vida esteve ligada na nossa história à época do baptismo, a figura de Santo Estanislau parece indicar (por analogia) outro sacramento, que faz parte da iniciação do cristão na fé e na vida da Igreja. Este sacramento, como é sabido, é o sacramento do Crisma, ou seja da Confirmação. Toda a releitura «jubilar» da missão de Santo Estanislau na história do nosso milénio cristão, e ainda toda a preparação espiritual para as celebrações deste ano se referiam precisamente a este sacramento do Crisma, isto é, da confirmação.

A analogia tem muitos aspectos. Sobretudo, porém, procurámo-la no de s envolvimento normal da vida cristã . Tal com o um homem baptizado se torna cristão maduro mediante o sacramento do Crisma, assim também a Providência Divina deu à nossa Nação, na altura própria, depois do Baptismo, o momento histórico do Crisma. Santo Estanislau, que da época do baptismo está separado por quase um século inteiro, de modo particular simboliza este momento pelo facto de ter dado testemunho a Cristo derramando o próprio sangue. O sacramento do Crisma na vida de cada cristão, habitualmente jovem, porque é a juventude que recebe este sacramento — também naquele tempo a Polónia era nação e país jovem — deve fazer com que também ele se torne «testemunha de Cristo» na medida da própria vida e da própria vocação. É este um sacramento que de modo particular nos associa à missão dos Apóstolos, enquanto introduz cada neófito no apostolado da Igreja (especialmente no chamado apostolado dos leigos).

É o sacramento que deve fazer nascer em nós um agudo sentido de responsabilidade pela Igreja, pelo Evangelho, pela causa de Cristo nas almas humanas, pela salvação do mundo.

O sacramento do Crisma recebemo-lo só uma vez na vida (como acontece com o baptismo), e toda a vida que se abre na perspectiva deste sacramento adquire o aspecto de uma prova grande e fundamental: prova de fé e de carácter. Santo Estalisnau tornou-se, na história espiritual dos Polacos, padroeiro daquela grande e fundamental prova de fé e de carácter. Veneramo-lo também como padroeiro da ordem moral cristã. Em definitivo, de facto, a ordem moral constitui-se através dos homens. Esta ordem, por conseguinte, é composta de um grande número de provas, cada uma das quais é prova de fé e de carácter. È de cada prova vitoriosa que deriva a ordem moral. ao passo que toda a prova falida traz desordem.

Sabemos ainda muito bem, por toda a nossa história, que não podemos absolutamente, de modo algum, permitir-nos esta desordem, que já muitas vezes pagámos amargamente.

E portanto a nossa meditação de sete anos sobre a figura de Santo Estanislau, a nossa referência ao seu ministério pastoral na sede de Cracóvia, o novo exame das suas relíquias, ou seja do crânio do Santo, que tem gravados os vestígios dos golpes mortais — tudo isto nos leva hoje a uma grande e ardente oração pela vitória da ordem moral nesta difícil época da nossa história.

É esta a conclusão essencial de todo o perseverante trabalho destes sete anos, a condição principal e juntamente a finalidade da renovação conciliar, para a qual trabalhou tão pacientemente o Sínodo da arquidiocese de Cracóvia; e também o principal motor da pastoral e de toda a actividade da Igreja, de todos os trabalhos, de todas as tarefas e programas que são e serão empreendidos na terra polaca.

Que este ano de Santo Estanislau seja o ano de uma particular maturidade histórica da Nação e da Igreja na Polónia, o ano de uma nova, consciente responsabilidade pelo futuro da Nação e da Igreja na Polónia: eis o voto que hoje aqui convosco, veneráveis ou dilectos Irmãos e Irmãs, desejo, como primeiro Papa de estirpe polaca, oferecer ao imortal Rei dos séculos, ao eterno Pastor das nossas almas e da nossa história, ao Bom Pastor!

4. Permiti agora que, para fazer uma síntese, abrace espiritualmente toda a minha peregrinação na Polónia que, inicia da na véspera do Pentecostes em Varsóvia, está para concluir-se hoje em Cracóvia, na solenidade da Santíssima Trindade. Desejo agradecer-vos, caríssimos compatriotas, por tudo! Porque me acompanhastes ao longo do percurso inteiro da peregrinação, deste Varsóvia e através da Gniezno dos Primazes e de Jasna Gora. Agradeço mais uma vez às Autoridades do Estado o seu gentil convite e acolhimento. Agradeço também às Autoridades de todas as voivodias, e especialmente às Autoridades da cidade de Varsóvia e — nesta última etapa — às Autoridades municipais da antiga cidade real de Cracóvia. Agradeço à Igreja da minha Pátria: ao Espiscopado, dirigido pelo Cardeal Primaz, ao Metropolita de Cracóvia e aos meus Irmãos Bispos: Julião, João, Estanislau e Albino, com os quais me foi dado colaborar por muitos anos, aqui em Cracóvia, na preparação do Jubileu de Santo Estanislau. Agradeço também aos Bispos de todas as Dioceses sufragâneas de Cracóvia, Czstochowa, Katoowice Kielce e Tarnow. Tarnow é, através de Szczepanow, a primeira pátria de Santo Estanislau. Agradeço a todo o Clero. Agradeço às Ordens religiosas masculinas e femininas. Agradeço a todos e a cada um em particular. E verdadeiramente coisa boa e justa, nosso dever e fonte de salvação, agradecer.

Também eu, agora neste último dia da minha peregrinação através da Polónia, desejo abrir largamente o meu coração e dizer em voz alta, dando graças nesta magnífica forma de «prefácio». Como desejo que este meu agradecimento chegue à Divina Majestade, ao coração da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo!

Meus Compatriotas! Com quanto calor agradeço mais uma vez, juntamente convosco, o dom de termos sido — há mais de mil anos — baptizados no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; e termos sido imersos na água que, mediante a graça, aperfeiçoa em nós a imagem do Deus vivo — na água que é uma onda de eternidade: nascente de água a jorrar para a vida eterna (Jo. 4, 14). Agradeço porque nós homens, nós Polacos, cada um dos quais nasce como homem da carne e do sangue (Cfr. Jo. 3, 6) dos seus pais, fomos concebidos e nascemos também do Espírito (Cfr. Jo. 3, 5). Do Espírito Santo.

Desejo pois hoje, estando aqui — nestes vastos prados de Cracóvia — e voltando o olhar para Wawel e Skalka onde, há novecentos anos «sofreu a morte o célebre Bispo Estanislau» realizar mais uma vez o que se actua no sacramento do Crisma ou seja no sacramento da Confirmação, de que Ele é símbolo na nossa história. Desejo que aquilo que foi concebido e nasceu do Espírito Santo, seja novamente confirmado mediante a Cruz e a Ressurreição de Cristo, na qual participou de modo particular o nosso compatriota Estanislau de Szczepanow.

Permiti, por conseguinte, que, como o bispo durante o Crisma, assim também eu repita aquele gesto apostólico da imposição das mãos sobre todos aqueles que estão aqui presentes, sobre todos os meus compatriotas. Nesta imposição das mãos exprime-se, de facto, a aceitação e a transmissão do Espírito Santo, que os Apóstolos receberam do próprio Cristo, quando, depois da Ressurreição, foi até junto deles estando fechadas as portas (Jo. 20, 19) e disse recebei o Espirito Santo (Jo. 20, 22).

Este Espírito, Espírito de salvação, de redenção, de conversão e de santidade, Espírito de verdade, Espírito de amor e Espírito de Fortaleza — herdado dos Apóstolos como força viva — era transmitido muitas vezes pela s mãos dos bispos a gerações inteiras na terra polaca. Este Espírito — tal como o bispo oriundo de Szczepanow o transmitia aos seus contemporâneos — desejo hoje transmiti-to eu a vós. Desejo hoje transmitir-vos este Espírito Santo abraçando cordialmente com profunda humildade, aquele grande «Crisma da história» que vos viveis.

Repito pois, seguindo o próprio Cristo: / Recebei o Espírito Santo (Id. ibid.) /Repito seguindo o Apóstolo: Não extingais o Espírito! (1 Tess. 5, 19). / Repito seguindo o Apóstolo: Não entristeçais o Espírito Santo! (Ef. 4, 30).

Deveis ser fortes, Caríssimos Irmãos e Irmãs! Deveis ser fortes daquela força que brota da fé! Deveis ser fortes da força da fé! Deveis ser fiéis! Hoje, mais do que em qualquer outra época, tendes necessidade desta força. Deveis ser fortes da força da esperança que traz a perfeita alegria de viver e não permite entristecer o Espírito Santo!

Deveis ser fortes do amor, que é mais forte que a morte, como revelaram Santo Estanislau e o Beato Maximiliano Maria Kolbe. Deveis ser fortes daquele amor que é paciente e benigno…; não é invejoso…; não se ufana, não se ensoberbece, não é inconveniente, não procura o seu interesse, não se irrita, não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo crê, tudo espera, tudo suporta, aquele amor que nunca acabará (1 Cor. 13, 4-8).

Deveis ser fortes da força da fé, da esperança e da caridade, consciente, madura, responsável, que nos ajuda a estabelecer aquele grande diálogo com o homem e com o mundo nesta etapa da nossa história: diálogo com o homem e com o mundo, radicado no diálogo com o próprio Deus — com o Pai por meio do Filho no Espírito Santo — diálogo da salvação.

Quereria que este diálogo fosse retomado em conjunto com todos os nossos irmãos cristãos, embora hoje ainda separados, mas unidos por uma única fé em Cristo. Falo sobre isto, aqui, deste lugar, para exprimir palavras de gratidão pela carta que recebi dos representantes do Conselho Ecuménico polaco. E embora não se tenha chegado, por causa do programa tão denso, a um encontro em Varsóvia, recordai-vos, queridos irmãos em Cristo, que trago este encontro no coração como um vivo desejo e como expressão da confiança para o futuro.

Aquele diálogo não deixa de ser vocação através de todos «os sinais dos tempos». João XXIII e igualmente Paulo VI, no Concílio Vaticano II. acolheram este convite ao diálogo. João Paulo II. desde o primeiro dia confirma a mesma disponibilidade. Sim ! É necessário trabalhar pela paz e a reconciliação entre os homens e as nações de todo o mundo. É necessário procurarmos aproximarmo-nos reciprocamente. É necessário abrir as fronteiras. Quando somos fortes do Espírito de Deus, somos também fortes da fé no homem — fortes da fé, da esperança e da caridade que são indissolúveis — e estamos prontos a dar testemunho à causa do homem perante aquele que tem verdadeiramente a peito esta causa. Para quem esta causa é sagrada. Aquele que deseja servi-la segundo a melhor vontade. Não se deve, pois, ter medo! É preciso abrir as fronteiras! Recordai-vos que não existe o imperialismo da Igreja, mas só o serviço. Há só a morte de Cristo no Calvário. Há a acção do Espírito Santo, fruto desta morte, Espírito Santo que permanece com todos nós, como a humanidade inteira, até ao fim do mundo (Mt. 28, 20).

Com particular alegria saúdo aqui os grupos dos nossos irmãos chegados do sul, de além dos Cárpatos. Deus vos recompense pela vossa presença. Como desejaria que aqui pudessem estar presentes também os outros! Deus vos recompense, irmãos Lusazianos. Como desejaria que pudessem estar presentes durante esta peregrinação do Papa Eslavo, também outros nossos irmãos na língua e nos acontecimentos da história. E se não estão, se não estão presentes neste parque, recordem que por isso estão ainda mais presentes no nosso coração. Recordem que estão mais presentes no nosso coração e na nossa prece.

5. Existe ainda, lá em Varsóvia, na Praça da Vitória, o túmulo ao Soldado Desconhecido, junto do qual iniciei o meu ministério de peregrino em terra polaca; e aqui, em Cracóvia no Vístula — entre Waevel e Skalka — o túmulo «ao Bispo Desconhecido» do qual ficou uma admirável «relíquia» no tesouro da nossa história.

E por isso, permiti que, antes de vos deixar, dirija ainda o meu olhar para Cracóvia, esta Cracóvia em que cada pedra e cada tijolo me são queridos. E que veja ainda daqui a Polónia…

E por conseguinte, antes de me ir embora daqui, peço-vos que aceiteis, mais uma vez todo o património espiritual cujo nome é «Polónia», com a fé, a esperança e a caridade enxertada por Cristo em nós no santo Baptismo.

Peço-vos

— que não percais nunca a confiança, que não vos abatais, que não vos desencorajeis;

— que não corteis por vós as raízes de que tivemos origem.

Peço-vos

— que tenhais confiança, apesar de toda a vossa fraqueza, que procureis sempre a força espiritual n’Aquele junto de quem tantas gerações dos nossos pais e das nossas mães a encontravam.

— Não vos separeis nunca d’Ele.

Não percais nunca a liberdade de espírito, com a qual Ele «torna livre» o homem.

 Não desdenheis nunca a Caridade, a coisa «maior», que se manifestou através da cruz, e sem a qual a vida humana não tem nem raízes nem sentido.

Tudo isto vos peço

— em memória e pela poderosa intercessão da Mãe de Deus de Jasna Gora e de todos os santuários da terra polaca;

— em memória de Santo Wojciech, que sofreu a morte por Cristo perto do mar Báltico;

— em memória de Santo Estanislau, caído sob a espada real de Skalka.

Peço-vos tudo isto. Amen.

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1979/documents/hf_jp-ii_hom_19790610_polonia-cracovia-blonia-k_po.html

 

 

 

 

 

CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II

À ARQUIDIOCESE DE CRACÓVIA

E À IGREJA NA POLÓNIA NO 750° ANIVERSÁRIO

DE CANONIZAÇÃO DE SANTO ESTANISLAU

  “Beatum Stanislaum episcopum digne Sanctorum Catalogo duximus ascribendum”.

“Considerámos coisa digna inscrever no Álbum dos Santos o beato bispo Estanislau” com estas palavras, em 17 de Setembro de 1253, o meu venerado predecessor, o Papa Inocêncio IV, confirmou o acto de canonização do Mártir de Cracóvia, ordenando ao mesmo tempo, que a sua memória fosse celebrada todos os anos em 18 de Maio. A Igreja na Polónia, com uma alegria inextinguível e com muita devoção cumpria aquela ordem, venerando o Santo Padroeiro de toda a Nação. Faz isso de modo particularmente solene este ano, em que se celebra o 750º aniversário de canonização. Portanto, desejo de coração unir-me às celebrações deste jubileu e exprimir a minha união com o clero e com os fiéis da Igreja em Cracóvia e em toda a Polónia, que se reúnem junto do túmulo de Santo Estanislau, para louvar a Deus por todas as graças, recebidas pela Nação polaca pela sua intercessão, ao longo dos séculos.

A recordação do ministério de Santo Estanislau na sede de Cracóvia, que só durou sete anos, e especialmente a recordação da sua morte, acompanhou incessantemente, no decorrer dos séculos, a história da Nação e da Igreja na Polónia. E nesta memória colectiva o santo Bispo de Cracóvia permaneceu como padroeiro da ordem moral e da ordem social na nossa Pátria.

Como Bispo e Pastor anunciou aos nossos antepassados a fé em Deus, infundiu neles, mediante o santo Baptismo, a Confirmação, a Penitência e a Eucaristia, o poder salvífico da Paixão e da Ressurreição de Jesus Cristo. Ensinou a ordem moral na família fundada sobre o matrimónio sacramental. Ensinou a ordem moral no âmbito do Estado, recordando até ao rei, que nas suas acções deve ter em conta a imutável Lei de Deus. Defendeu a liberdade, que é o direito fundamental de cada homem e da qual nenhum poder pode privar alguém, sem violar a ordem estabelecida pelo próprio Deus. No alvorecer da nossa história, Deus, Pai dos povos e das nações, manifestou-nos, por meio deste santo Padroeiro, que a ordem moral, o respeito da Lei de Deus e dos justos direitos de cada homem, é a condição fundamental da existência e do desenvolvimento de cada sociedade.

A história fez de Santo Estanislau padroeiro também da unidade nacional. Quando, em 1253 os Polacos tiveram a canonização do primeiro filho da sua terra, a Polónia estava a experimentar a dolorosa divisão em ducados regionais. E foi precisamente aquela canonização que despertou nos princípios da dinastia dos Piast, que estava no poder, a necessidade de se reunir em Cracóvia, para partilhar, junto do túmulo de Santo Estanislau e no lugar do seu martírio a alegria comum pela elevação de um seu Concidadão à glória dos altares na Igreja universal. Todos viram nele o padroeiro e o intercessor diante de Deus. Uniram a ele as esperanças num futuro melhor da Pátria.

Da tradição piedosa que narra que o corpo de Estanislau, assassinado e cortado em bocados, se reuniu de novo, surgiu a esperança de que a Polónia dos Piast teria superado a divisão da dinastia e se teria tornado um Estado de unidade duradoura. Na perspectiva daquela esperança, desde a canonização, o santo Bispo de Cracóvia foi eleito como principal Padroeiro da Polónia e Pai da Pátria.

As suas relíquias, depostas na catedral de Wawel recebiam a veneração religiosa da parte de toda a Nação. Esta veneração adquiriu um novo significado durante as divisões, quando, de além das barreiras, sobretudo da Silésia, chegavam ali polacos para se aproximarem destas relíquias que recordavam o passado cristão da Polónia independente. O seu martírio tornou-se o testemunho da maturidade espiritual dos nossos antepassados e adquiriu uma eloquência particular na história da Nação. A sua figura era símbolo da unidade que se construía não com base no território de um estado independente, mas com base naqueles valores perenes e na tradição espiritual que constituíam o fundamento da identidade nacional.

Santo Estanislau foi também padroeiro das lutas pela sobrevivência da Pátria durante a segunda guerra mundial, cujo fim na nossa terra se une à sua festa no mês de Maio. Do alto do céu ele participou nas provas da Nação, nos seus sofrimentos e esperanças. Nos tempos difíceis da reconstrução pós-bélica do País e da opressão por parte das ideologias inimigas, a Nação, amparada pela sua intercessão alcançava vitórias e empreendia os esforços orientados para uma renovação social, cultural e política. Santo Estanislau é considerado há muitos séculos defensor da verdadeira liberdade e mestre de uma união criativa entre a lealdade para com a Pátria terrena e a fidelidade a Deus e à Sua Lei aquela síntese que se realiza na alma de cada crente.

Pio XII, na carta por ocasião do 700º aniversário da canonização, escreveu a seu respeito:  “Ao vosso povo foi dado um Pastor que ofereceu a vida pelas ovelhas, defendendo a fé e a moral, e com o seu sangue tornou ainda mais férteis as sementes do Evangelho lançadas à terra desta forma. Ele distinguiu-se pelo facto de que, confiando na Divina Providência, mostrou um exemplo luminoso da força cristã. Santo Estanislau, que se distinguiu por uma profunda piedade para com Deus e pelo amor ao proximo, nada teve de mais suave do que a solicitude pela grei a ele confiada e até ao fim da sua vida nada mais desejou senão reproduzir do modo mais perfeito em si a imagem do Divino Pastor”. Cito estas palavras, para indicar aos Pastores de hoje Bispos e Sacerdotes o modelo a ser imitado. De facto, também hoje, há necessidade de coragem na transmissão e na defesa do santo depósito da fé, e ao mesmo tempo daquele amor de Deus que se manifesta numa incessante solicitude pelo homem, por cada filho de Deus exposto às adversidades que parecem apagar a luz da esperança na vitória da verdade, do bem e da beleza, num futuro melhor na realidade temporal e na eterna felicidade no reino de Deus. O exemplo do amor generoso de Santo Estanislau ilumine sempre os Pastores da Igreja na Polónia.

Estanislau de Szczepanów tornou-se o inspirador de numerosos santos e beatos na nossa terra polaca. Existe um profundo vínculo espiritual entre a figura deste grande Padroeiro da Polónia e numeroos santos e beatos, que deram um grande contributo de bem e de santidade à história da nossa Pátria. Um sinal deste vínculo é o costume de levar em procissão à Igreja de Skalka as relíquias dos santos polacos. No Bispo de Cracóvia, os Santos encontram um exemplo do heroísmo da fé, da esperança e da caridade, que é realizado todos os dias e que assume a forma do heroísmo quotidiano. Esta cadeia de santidade, cujo primeiro elo na terra polaca é Santo Estanislau, não pode ser interrompida. É necessário que todos nós, filhos da terra polaca, nos sintamos responsáveis pelo seu prolongamento e o transmitamos às gerações futuras como o tesouro mais precioso. Eis o desafio que Santo Estanislau apresenta hoje a todos os fiéis:  crescei na Santidade! Construí o edifício da vossa vida, apoiando-vos na rocha da graça divina, sem poupar esforços, para que a sua solidez seja fundada na fidelidade a Deus e aos seus mandamentos!

Santo Estanislau testemunha com eloquência que em Jesus Cristo o homem é chamado à vitória. Oxalá esta vitória do bem sobre o mal, do amor sobre o ódio, da unidade sobre as divisões, se torne parte de cada Polaco. Rezo para que o clero e os leigos na Polónia se tornem cada vez mais santos e que transmitam o património da santidade às novas gerações no terceiro milénio.
A Igreja na Polónia deseja viver todo este ano como o ano de Santo Estanislau. Por isso, decidi também unir o jubileu do 750º aniversário da sua canonização com a possibilidade de obter a graça da indulgência plenária com as habituais condições, durante a visita ao seu túmulo na catedral de Wawel e ao lugar da sua morte, em Skalka.

A quantos desejarem usufruir deste dom e a todos os devotos de Santo Estanislau,  na  Polónia  e  no  mundo, concedo de coração a minha Bênção apostólica.

Vaticano, 8 de Maio de 2003.

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/2003/documents/hf_jp-ii_let_20030508_arcivescovo-cracovia_po.html

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1979/documents/hf_jp-ii_hom_19790610_polonia-cracovia-blonia-k_po.html

 

CONCELEBRAÇÃO EM HONRA DE SANTO ESTANISLAU

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

20 de Maio de 1979

 

1. A alegria do período pascal inspira à Igreja, na liturgia de hoje, palavras de viva gratidão. Estas: Nisto se manifestou o amor de Deus para connosco (1 Jo. 4, 9); manifestou-se em Deus ter mandado o Seu unigénito Filho ao mundo (Id., ibid.); mandou-O para nós termos a vida por meio d’Ele (Id., ibid.); mandou-O como vítima de expiação pelos nossos pecados (1 Jo. 4, 10).

Este sacrifício oferecido no Calvário na Sexta-feira Santa foi aceite. E eis que o Domingo de Páscoa nos trouxe a certeza da Vida. Aquele que rompeu os selos do sepulcro, manifestou a vitória sobre a morte, e com isto revelou a Vida que temos por meio d’Ele (1 Jo. 4, 9).

A esta Vida são chamados todos os homens: Deus não faz acepção de pessoas (Act. 10, 34; cfr. Gál. 4, 9). E o Espírito Santo, como o testemunha na liturgia de hoje São Pedro, desceu sobre quantos ouviam a palavra (Act. 10, 44).

A obra de salvação levada a termo por Cristo não tem qualquer limite no espaço e no tempo. Abraça cada um e todos. Cristo morreu na Cruz por todos e a todos ganhou esta Vida Divina, cuja potência se manifestou na Sua Ressurreição.

A esta grande e universal alegria pascal da Igreja desejo associar hoje, de modo especial, a alegria dos meus compatriotas, a alegria da Igreja na Polónia, expressa pela presença de tantos peregrinos do mundo inteiro com o ilustre e amadíssimo Primaz da Polónia, Estevão Cardeal Wyszynski, com os Arcebispos e Metropolitas de Cracóvia e de Wroclaw, e com muitos representantes do resto do Episcopado Polaco. Celebrando este Santíssimo Sacrifício, queremos exprimir a Deus, que é «Amor», a nossa gratidão pelo milénio tanto da fé como da permanência na união com a Igreja de Cristo. E pelo milénio da presença da Polónia, sempre fiel, junto deste centro espiritual da catolicidade e da universalidade, que é o túmulo de São Pedro em Roma, como também esta esplêndida Basílica sobre ele construída.

2. O motivo da nossa especial alegria é, este ano, o jubileu de Santo Estanislau, Bispo de Cracóvia e Mártir. Na verdade, passaram 900 anos desde que este Bispo sofreu o martírio às mãos do rei Boleslau. Expôs-se à morte, admoestando o rei e pedindo-lhe mudasse de atitude. A espada real não poupou contudo o Bispo; atingiu-o durante a celebração do Santíssimo Sacrifício, e de repente tirou-lhe a vida. Testemunha deste momento ficou a preciosíssima relíquia do crânio do Bispo, no qual se encontram ainda hoje sinais visíveis dos golpes mortais. Esta relíquia, guardada num precioso relicário, é levada, todos os anos há muitos séculos, da catedral Wawel à igreja de São Miguel em Skalka (Rupella) no mês de Maio, quando na Polónia são celebradas as solenidades de Santo Estanislau. Nesta procissão tomavam parte, no decurso dos séculos, os reis polacos, sucessores daquele Boleslau, que dera a morte ao Bispo e, segundo a tradição, terminou a vida como penitente convertido.

O hino litúrgico em honra de Santo Estanislau era executado como canto solene da Nação, que aceitou o mártir como próprio padroeiro. Eis as primeiras palavras deste hino:

«Gaude mater Polonia / Prole fecunda nobili / Summi Regis magnalia / Laude frequenta vigili».

3. Hoje eu, primeiro Papa na história da Igreja da estirpe dos Polacos e dos Povos eslavos, celebro com gratidão a memória de Santo Estanislau, porque até há alguns meses era eu o seu sucessor na sé episcopal em Cracóvia. E juntamente com os meus compatriotas aqui reunidos, exprimo a viva gratidão a todos os que participam aqui nesta solenidade. Dentro de duas semanas, terei a felicidade de dirigir-me em peregrinação à Polónia, para lá agradecer a Deus o milénio da fé e da Igreja, que se funda em Santo Estanislau, como sua pedra angular. E embora este acontecimento seja principalmente o jubileu da Igreja na Polónia, exprimimo-lo também na dimensão da Igreja universal, porque a Igreja e uma grande família de Povos e Nações, de que no momento justo todos contribuíram para fazer uma comunidade mediante o próprio testemunho e o próprio dom, e colocaram assim em relevo a sua participação na unidade universal. Tal dom foi, há 900 anos, o sacrifício de Santo Estanislau.

4. Podemos recordar, decorridos 900 anos, o grande mistério de Santo Estanislau unindo-o ao próprio mistério pascal de Cristo. Assim o fez o Episcopado polaco na sua Carta Pastoral a todos os polacos de dentro e de fora das fronteiras da pátria, a fim de os preparar para o jubileu deste ano.

É este o parágrafo da Carta:

«Meditando na oração sobre este martírio, perdura ainda em nós a recordação da paixão do nosso Salvador Jesus Cristo. Chamou os Seus discípulos a participarem nesta paixão: ‘quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz … e siga-me!’ Se a partir da sua morte e ressurreição os discípulos do Senhor deram o próprio sangue durante séculos em testemunho de fé e de amor, isto sempre se realizou com Ele e n’Ele. Cristo atrai-os para o Seu Coração trespassado e ficam unidos a Ele. Todo o martírio religioso, só na morte de Cristo encontra o seu sentido e valor, e chega a ser plenamente compreendido e frutífero. A cruz da vida e o martírio de Santo Estanislau estavam na sua essência muito próximos da cruz e morte de Jesus Cristo no Calvário. Tinham o mesmo significado. Cristo defendia a verdade do Seu Pai, Deus eterno; defendia a verdade de Si mesmo, Filho de Deus; defendia também a verdade do homem, da sua vocação e destino, da sua dignidade de Filho de Deus. Defendia o homem que na verdade vive debaixo do poder terreno, mas de modo mais incomparável vive debaixo do poder divino. Seja o fruto deste santo jubileu a fidelidade ao sangue que derramou Cristo no Calvário para salvar o homem, para salvar a cada um de nós; a fidelidade à Mãe Dolorosa de Cristo; a fidelidade ao martírio e sacrifício de Santo Estanislau».

Com quanto regozijo leio estas palavras: Permitem-nos compreender melhor o que proclama a liturgia sobre Santo Estanislau: vivit victor sub gladio. Na verdade, sobre a cabeça do Bispo de Cracóvia, Estanislau de Szczepanow, caiu no ano de 1079 a espada que lhe tirou a vida; e sob essa espada ficou vencido o Bispo. Boleslau eliminou do seu caminho o próprio adversário. O grande drama encerrou-se nas fronteiras limitadas do tempo. Apesar de tudo, se a força da espada conseguiu terminar o drama no momento do sacrifício e da morte, no mesmo instante a força do Espírito, que é Vida e Amor, começou a revelar-se e a crescer. Irradiou das suas relíquias e atingiu os povos das terras dos Piastas e uniu-as. A força material da espada pode matar e destruir; em compensação, reavivar e unir de modo estável só o podem conseguir o amor e a força espiritual. O amor manifesta-se na morte quando alguém dá a vida pelos seus amigos (Jo. 15, 13) .

Alegremo-nos, uma vez que podemos louvar a Deus hoje pela revelação do seu amor na morte de Santo Estanislau, servo da Eucaristia e servo do Povo de Deus na sé de Cracóvia.

A Igreja na Polónia está agradecida à Sé de Pedro, pois acolheu mediante o Baptismo, em 966, a Nação na grande comunidade da família dos Povos.

A Igreja na Polónia está agradecida à sé de São Pedro, porque o Bispo e Mártir Santo Estanislau de Szczepanow foi elevado aos altares e proclamado Padroeiro dos Polacos.

A Igreja na Polónia, graças à memória do seu Padroeiro, confessa a força do Espírito Santo, a Força do Amor, que é mais forte que a morte.

E com esta confissão deseja servir os homens do nosso tempo. Deseja servir a Igreja na sua universal missão no mundo contemporâneo. Deseja contribuir para o reforço da fé, da esperança e da caridade, não só no seu povo mas também nas outras Nações e Povos da Europa e do mundo inteiro.

Junto do túmulo de São Pedro pedimos, com a mais profunda humildade, que tal testemunho e tal prontidão de servir sejam bem recebidos pela Igreja de Deus, que está «em toda a terra». Peçamos com humildade, com amor e com a mais profunda veneração, que sejam aceites por Deus omnipotente, Perscrutador dos nossos corações e Pai do século futuro.

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1979/documents/hf_jp-ii_hom_19790520_vescovi-polacchi_po.html

 

 

CARTA APOSTÓLICA

RUTILANS AGMEN

DO SUMO PONTÍFICE

JOÃO PAULO II

POR OCASIÃO DO IX CENTENÁRIO

DA MORTE DE SANTO ESTANISLAU

 

Aos Veneráveis Irmãos Stefan Wyszynski

Cardeal da Santa Igreja Romana

Arcebispo Metropolita de Gniezno e Varsóvia

e Franciszek Macharski


Arcebispo Metropolita de Cracóvia

aos outros Bispos e a toda a Igreja da Polónia

ao completar-se o nono século da morte

de Santo Estanislau

 

Bispo e Mártir

I. O brilhante exército, daqueles que foram atormentados e corajosamente arrostaram a morte pela fé e pelas virtudes cristãs, infunde na Igreja, desde os seus inícios pelo decurso dos séculos, estimulante vigor e energia. Diz com razão Santo Agostinho: “Como de semente de sangue encheu-se de mártires a terra, e dessa semente brotou a seara da Igreja. Mais eloquentemente afirmaram Cristo os mortos do que os vivos. Hoje afirmam, hoje pregam: cala-se a língua, soam os factos” (Santo Agostinho, Serm. 284, 4; PL 38, 1298). Estas frases dir-se-ia que se podem aplicar agora especialmente à Igreja Polaca, tendo-se também ela desenvolvido com o sangue dos mártires; entre estes ocupa o primeiro lugar Santo Estanislau, cuja vida e morte gloriosa parecem falar com insistência.

 

Exactamente no ano em que a Igreja lá estabelecida celebra nove séculos desde que o mesmo Santo Estanislau, Bispo de Cracóvia, foi coroado do martírio, não pode faltar a voz do Bispo de Roma e sucessor de São Pedro. Este jubileu é da maior importância e está intimamente unido com a história da Igreja e da Nação Polaca; este povo, durante mais de mil anos, manteve e celebrou intima relação entre a sua história e a mesma Igreja. Essa voz, repetimos, não pode faltar, tanto mais que foi elevado, por misterioso desígnio de Deus, à Cátedra de Pedro, como Sumo Pastor da Igreja, quem pouco antes sucedera a Santo Estanislau na sé episcopal de Cracóvia.

 

É bem admirável que se Nos ofereça a oportunidade de escrever esta carta no nono centenário da morte de Santo Estanislau, carta que Nós próprio solicitámos ao célebre Predecessor Nosso Paulo VI e depois ao próximo sucessor do mesmo, João Paulo I, que teve um ministério pontifício de apenas 33 dias. Hoje, pois, não só levamos a efeito aquilo que pedimos a ambos os Predecessores Nossos na Cátedra de Pedro, quando éramos Arcebispo de Cracóvia, mas satisfazemos também um especial desejo e ambição. Quem podia pensar que, aproximando-se já as solenidades estabelecidas para comemorar este jubileu de Santo Estanislau, Nós deixaríamos a sé episcopal de Cracóvia, ocupada outrora por aquele Santo, e passaríamos à Sé romana por voto dos Cardeais reunidos em conclave? Quem poderia imaginar que Nós celebraríamos os dias solenes do mesmo jubileu, não como “pai de família” dirigindo as cerimónias, mas voltando como hóspede à região dos Nossos maiores, na qualidade de primeiro Pontífice Romano vindo do povo da Polónia, e de primeiro Papa na história da Igreja que visita a mesma terra?

 

II. Segundo o calendário litúrgico da Igreja na Polónia, a festa de Santo Estanislau celebra-se há séculos no dia 8 do mês de Maio. Todavia a solenidade externa em Cracóvia transfere-se para o domingo que segue imediatamente o dia 8. Então sai da catedral, que se encontra na colina Wawel, uma procissão que se dirige para a igreja de São Miguel em Rupella, onde, segundo a tradição, o Bispo Estanislau, natural da aldeia de Szczepanów, foi martirizado quando celebrava a Missa por Boleslau o Temerário.

 

Estabeleceu-se porém que este ano as principais solenidades em honra de Santo Estanislau, que tomam simultaneamente a forma de jubileu, sejam diferidas, do primeiro domingo que segue o dia 8 de Maio, para o período entre o domingo do Pentecostes e o domingo da Santíssima Trindade. Enorme é a importância desse dia do Pentecostes, em que a Igreja comemora o seu nascimento no Cenáculo de Jerusalém. De lá, onde tinham estado os Apóstolos reunidos em oração com Maria Mãe de Jesus (Cfr. Act 1, 14), saíram estes, cheios daquele vigor que lhes fora infundido na alma como dom especial do Espírito Santo. De lá saíram eles e foram pelo mundo para cumprir o mandato de Cristo: Ide, pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado (Mt 28, 19-20).

 

Foi portanto do Cenáculo do Pentecostes que partiram os Apóstolos. Dele igualmente, na sucessão das idades, vão procedendo os sucessores deles. Depois, a seu tempo, dai procedeu também Santo Estanislau, natural da aldeia de Szczepanów, levando no peito o mesmo dom da fortaleza para testemunhar a verdade do Evangelho até ao derramamento do próprio sangue. Aquela geração, de nós afastada por nove séculos, foi a geração dos nossos maiores, que, do mesmo modo que Santo Estanislau, deles Bispo na sé de Cracóvia, são ossos dos nossos ossos e sangue do nosso sangue. A duração do seu ministério pastoral foi breve: de 1072 a 1079, isto é, sete anos, mas o fruto desse ministério ainda hoje se mantém. Com efeito, a ele se aplicam as palavras que dirigiu Cristo aos Apóstolos: escolhi-vos para irdes e dardes fruto, e o vosso fruto permanecer (Jo 15, 16).

 

III. As solenidades estabelecidas em honra de Santo Estanislau, pelas quais, completados nove séculos a partir da sua morte, dalgum modo nos referimos ao Cenáculo do Pentecostes, revestem-se de altíssimo significado. Na verdade, do Cenáculo saíram todos quantos, segundo as palavras de Cristo, foram pelo mundo inteiro, ensinando todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Cfr. Mt 28, 19). A Nação Polaca foi purificada em nome da Santíssima Trindade pela água do baptismo no ano de 966. Assim, não foi há muito que se completaram mil anos a partir dessa data, que marcou ao mesmo tempo o inicio da história da Igreja na Polónia e da existência da Nação.

 

Deve sem dúvida exaltar-se a força inerente ao baptismo, isto é, ao sacramento pelo qual somos sepultados na morte de Cristo (Cfr. Col 2, 12) para nos tornarmos participantes da sua ressurreição, daquela vida que o Filho de Deus feito homem quis ficasse constituindo a vida das nossas almas. O início de tal vida está no baptismo que, administrado em nome da Santíssima Trindade, dá aos filhos do homem o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1, 12) no Espírito Santo.

 

O milénio porém daquele baptismo, que foi solenizado na Polónia em 1966 como ano consagrado a glorificar a Santíssima Trindade, compreende também este jubileu de Santo Estanislau. Na verdade, deste sacramento, pelo qual de maneira particular cada homem se consagra a Deus (Cfr. Conc. Vat. II, Const. dogm. Lumen Gentium, 44), devem ser considerados frutos copiosíssimos os Santos, que pela sua vida e morte foram tornados “oferenda permanente” para Deus (Cfr. Prece eucarística III).

 

Quando pois, na solenidade da Santíssima Trindade neste ano do Senhor de 1979, fizermos memória com rito festivo do martírio de Santo Estanislau, recordaremos também o baptismo conferido em nome da Santíssima Trindade, donde proveio aquele quase primeiro e maduro fruto de santidade. Este tanto o esperou a Nação inteira, e neste Santo do seu mesmo povo reconheceu agradecida este fruto daquela vida nova de que ele se tornara participante, desde que a Polónia se purificou no banho salutar dos Cristãos.

 

Estes factos levam a que, o nono século completado desde o martírio de Santo Estanislau, por assim dizer o inscrevamos com singular veneração no Milénio do baptismo recebido pelos nossos maiores em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

E para darmos maior importância a esta veneração, estabelecemos, segundo os desejos dos Bispos da Polónia, que a memória de Santo Estanislau seja elevada, no calendário 1itúrgico da Igreja universal, ao grau de memória obrigatória.

 

IV. O culto, prestado por nove séculos a Santo Estanislau, lançou raízes profundas na região da Polónia. Para aumentar essa veneração contribuiu notavelmente a canonização pela qual o Nosso Predecessor Inocêncio IV, em Assis, junto do sepulcro de São Francisco, no dia 8 de Setembro de 1253, decretou as honras dos Santos ao mesmo egrégio varão. Profundas raízes tem este culto. E penetram em toda a história da Igreja na Polónia, manifestam-se na vida da Nação e unem-se à sua mesma sorte. Não são apenas celebrações anuais que testemunham o culto de Santo Estanislau; são também muitas dioceses, igrejas e paróquias a ele dedicadas naquela região e fora dos limites dela. Aonde quer que chegavam filhos da terra da Polónia, para aí levavam o culto do seu grande Padroeiro. Durante muitos séculos Santo Estanislau fora o Padroeiro principal da Polónia, quando por concessão de João XXIII, Nosso Predecessor, ele — juntamente com a bem-aventurada Virgem Maria, Rainha da Polónia, e Santo Wojtecho Adalberto — ficou a protegê-la com o seu celestial patrocínio. Deste modo, no corrente ano em que é celebrado o nono centenário do martírio de Santo Estanislau, essas solenidades são promovidas pela sé de Cracóvia mas também por Gniezno e Monte Claro. Na verdade, quase pelo espaço de mil anos, junto de Santo Estanislau, Prelado de Cracóvia, estava colocado Santo Wojtecho Adalberto, cujo ‘corpo martirizado recebeu sepultura em Gniezno, durante o reinado de Boleslau Magno, chamado Chrobry. Ambos os Santos, portanto, Estanislau e Wojtecho Adalberto, juntamente com a bem-aventurada Virgem Maria, Rainha da Polónia, defendem a nossa pátria.

 

Os lugares relacionados com a vida e a morte de Estanislau são venerados religiosamente: é este Santo honrado sobretudo na igreja catedral de Cracóvia, situada na colina Wawel, catedral onde se conserva o seu túmulo; mas também no templo da aldeia Rupella e na sua terra natal Szczepanów, que agora está na diocese de Tarnova. Veneram-se as suas relíquias, sobretudo a cabeça, que ainda agora mostra abundantes vestígios das feridas mortais que datam de nove séculos. A esta relíquia da cabeça acorrem todos os anos habitantes da cidade real e peregrinos de toda a Polónia, para a acompanharem em solene procissão pelas ruas da cidade de Cracóvia Nesta procissão, em séculos passados, tomavam parte os reis da Polónia, sucessores de Boleslau o Temerário, que no ano de 1079, segundo se diz, matou Santo Estanislau e, conforme se narra, morreu fora dos limites da pátria, reconciliado com Deus.

 

Não é verdade que estas circunstâncias encerram especial significado? Não indicam ter sido Santo Estanislau no decorrer dos séculos fautor de reconciliação, graças a qual os cidadãos se reconciliaram com Deus, quer fossem soberanos quer súbditos? Não insinuam aquela especial união de espíritos, de que todos — graças ao martírio — participaram e constantemente participam? Esta é com certeza a força da morte, que por meio do mistério baptismal foi completamente inserida na Ressurreição de Cristo, na Sua verdade e no Seu amor: Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13).

V. Santo Estanislau, Padroeiro dos Polacos! Com que emoção pronuncia estas palavras o Romano Pontífice que durante tantos anos da própria vida e ministério episcopal esteve unido a este Padroeiro e a toda a tradição deste Santo! Interessou-se também por todos ,os estudos, que neste século e no imediatamente anterior pessoas competentes não deixaram de consagrar aos acontecimentos e às circunstâncias; que levaram a que se cometesse há 900 anos tal crime. Esses estudos iluminam o facto, certificado pela história e mostram que este varão nobilíssimo continua até hoje a sugerir acções, experiências e verdades que sempre se conservam pujantes e sempre têm importância na vida do homem, da Nação e da Igreja.

 

De tal modo, apoiados nesta vitalidade de Santo Estanislau, Padroeiro dos Polacos — ao cabo já de nove séculos após o seu testemunho, dado com vida e morte — convém mostrarmos a Deus uno na Trindade, por meio da Mãe de Cristo e da Igreja, tudo o que operou e sem descanso opera a riquíssima herança que a história da salvação uniu na região da Polónia como ano de 1079. É herança de fé, esperança e caridade, que dá plena e própria razão da vida do homem e da sociedade. É herança de firmeza e fortaleza em confessar a verdade, que denota a elevação da alma humana. É herança de solicitude pela saúde e bem espiritual e temporal do próximo, isto é, pelos habitantes da mesma Nação e por todos os que devemos servir com firme perseverança. É também herança de liberdade, que se mostra nesse serviço e na doação feita por amor. E, por .último, admirável tradição de estreitamento e unidade, para cujo aperfeiçoamento na história da Polónia — como provam os factos — Santo Estanislau, a sua morte, o seu culto e sobretudo a sua canonização concorreram mais que tudo.

 

A Igreja na Polónia recorda esta herança todos os anos. Todos os anos se volta para esta nobilíssima tradição de Santo Estanislau, a qual se tornou património singular da alma polaca. Neste ano do Senhor de 1979, a Igreja na Polónia, encontrando-se em circunstâncias especiais, deseja recorrer à mesma herança; deseja-a examinar mais profundamente e daí tirar consequências para a vida quotidiana; deseja encontrar nela auxílio para a luta contra as fraquezas, os vícios e os pecados, aqueles sobretudo que se opõem ao bem dos Polacos e da Polónia; deseja com nova defesa robustecer a fé e a esperança da vida futura, com a qual desempenhe a sua missão, e robustecer a fé e a esperança do serviço, que prestará à salvação de todos e cada um.

 

A estes anseios, a estes pedidos ardentes dos corações, que Nos chegam da pátria, Nós, João Paulo II, natural da Polónia, unimo-Nos de todo o coração; e, impressionado pela grande importância deste jubileu, concedemos, com efusão de caridade, a Bênção Apostólica a vós; Veneráveis Irmãos, aos restantes Bispos da Polónia, aos sacerdotes, aos religiosos e aos fiéis.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 8 do mês de Maio do ano de 1979, primeiro do Nosso Pontificado

JOÃO PAULO PP. II

 

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_letters/1979/documents/hf_jp-ii_apl_08051979_rutilans-agmen_po.html

 MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II

AOS POLACOS POR OCASIÃO

DA FESTA DE SANTO ESTANISLAU

Domingo, 10 de Maio de 1981

 “Santo Estanislau, Padroeiro nosso, protector de toda a Pátria, rogai por nós!”.

Encontro nos meus lábios, mas ainda mais no meu coração, estas palavras nunca esquecidas que vós cantais no caminho de Wawel para Skauka, atravessando as ruas de Cracóvia. Encontro-me a mim mesmo entre vós! Tal como, durante tantos anos, me foi concedido participar nesta festa em honra de Santo Estanislau, que é festa não só de Cracóvia mas de toda a Polónia; participar nesta procissão, na qual, de século em século, caminhava para o futuro toda a nossa história.

 Hoje, de Roma, do sólio de São Pedro e São Paulo, saúdo-vos, caros irmãos e irmãs, reunidos — todos juntos — na solenidade do Padroeiro da Polónia, convidados pelo Metropolita de Cracóvia: cardeais, bispos, sacerdotes, famílias religiosas masculinas e femininas, habitantes de Cracóvia, peregrinos de toda a Polónia e do estrangeiro. Estou convosco! Vivo juntamente convosco aquilo que durante tantos anos me foi dado viver convosco!

Neste ano do Senhor de 1981 faço votos por que esta tradição, a secular tradição de Santo Estanislau, demonstre o que é a tradição verdadeira e cristã. Tradição radicada no mistério pascal da Cruz, da Morte e da Ressurreição de Cristo.

 Desejo-vos que esta tradição de Santo Estanislau se demonstre não só esplêndida recordação do passado, mas também força animadora e renovadora — sempre de novo — dos corações dos homens, de toda a Igreja e do povo. Isto vos desejo, caros compatriotas, irmãos e irmãs, neste dia solene; por isso rezo convosco, repetindo com os lábios e o coração, repetindo com toda a minha vida as palavras: “Santo Estanislau, Padroeiro nosso, protector de toda a Pátria, rogai por nós!”.

 Estas palavras assumem, no ano do Senhor de 1981, particular eloquência. São especialmente fecundas neste ano tão difícil e, ao mesmo tempo, precursor de um importante renovamento.

 Não vos faltem as forças!

 Oxalá, amados compatriotas, conserveis a unidade do espírito e a paz dos corações!

Tudo isto que é necessário para a nossa amada Pátria, tudo isto torno-o objecto da comum oração convosco a Santo Estanislau, Padroeiro da Polónia. E daqui, da Sé Apostólica, transmito-vos a bênção que vem do coração: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Louvado seja Jesus Cristo!

 http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/messages/pont_messages/1981/documents/hf_jp-ii_mes_19810510_san-stanislao_po.html

Biografia do Vaticano

 Hermano Pedro de São José Betancurt 
(1626-1667)

 PEDRO DE SÃO JOSÉ BETANCUR nasceu em Villaflor de Tenerife, nas Ilhas Canárias, Espanha, no dia 19 de Março de 1626, tendo sido baptizado logo no dia 21. Seus pais, Amador González Betancur de la Rosa e Ana Garcia educaram-no cristãmente e Pedro descobriu os valores da fé e da caridade, de modo especial. E ele nunca esqueceu os ensinamentos recebidos; ouvindo falar dos trabalhos missionários que muitos homens e mulheres estavam a empreender nas terras da América, deixou-se entusiasmar pela ideia de ir anunciar o Evangelho, emigrando para a Guatemala em 1651 com esse propósito.

Ali começou a viver como se fosse essa a sua pátria, depressa captou a simpatia das famílias do lugar, que desejavam a presença de Pedro em suas casas, pela sua afabilidade e interesse pela situação de cada um; pagava a hospedagem com os trabalhos humildes que podia fazer.

Dele disse o seu biógrafo:  “Todo o tempo em que conhecemos Pedro de Betancur, conhecemo-lo como um homem virtuoso. Nele, a virtude parecia natural. Era tão amável como virtuoso e todos os que o conheciam, o estimavam e quem o estimava, gostava de comunicar com ele. Todos desejavam tê-lo em sua casa e muitos o procuravam”. Fez da pobreza sua companheira de vida, para não ter outro tesouro a não ser Jesus Cristo e não ter outra preocupação senão o amor dos pobres. Viveu em Santiago de los Caballeros, entrava livremente na casa de todos os que ali habitavam, saindo como tinha entrado:  livre de apegos materiais, alma limpa e coração desprendido, mas com a convicção firme de que tinha deixado a semente do Evangelho no seio daquelas famílias. O seu biógrafo diz, mesmo, estas palavras bem elucidativas da sua presença:  “o Irmão Pedro deixava as casas onde entrava banhadas de luz e saía delas sem detrimento da sua pureza”. Por isso, ele pode ser chamado um “mensageiro do amor de Deus na América”.

Possuía a sabedoria própria de um homem simples. Por esta razão, a sua vida se lê melhor nas suas acções do que nos seus discursos. Por dificuldades nos estudos, não conseguiu ser sacerdote, não foi membro de uma Ordem religiosa, o que o convenceu de que Deus o chamava à santidade por outro caminho; seguiu o da caridade, tornando-se um verdadeiro apaixonado pelo pobres por amor a Cristo. Sincero e humilde, mas de um singular intuição e prática na vida, soube reconhecer Deus e encontrar Cristo nas ruas da cidade. Os seus compatriotas chegavam em busca de poder e de riquezas; ele procurou as suas honras na catequese, na oração e no alívio dos sofrimentos humanos dos pobres. Essa era a sua ambição, que realizava “sempre ocupado em obras de misericórdia”, aliviando o sofrimento do seu Salvador nas cruzes dos mais pobres.

Era homem de oração; reconhecendo-se como humilde servo da Santíssima Trindade, distinguiu-se por uma vida de comunhão contínua com Deus Pai através da oração e da perseverança em fazer o bem, às vezes à custa das maiores dificuldades, incompreensões e contrariedades, mas espalhando sempre a caridade a mãos cheias, dele se podendo dizer como de Cristo:  “passou pela terra fazendo o bem” (cf. Act 10, 38). Deixando-se guiar pelo Espírito Santo, permaneceu sempre aberto à sua inspiração, para orientar os seus passos, palavras e acções.

Peregrino e contemplativo, traçou um itinerário de lugares de oração, de recolhimento e de contemplação, para que aqueles povos pudessem gozar de momentos de contacto com o Senhor.

Ainda hoje, a tradição fala desses lugares:  o Calvário, o Outeiro da Cruz, os pátios da Pousada de Belém, o Templo de S. Francisco, bem como as ruas de pedra abençoadas pela sua passagem continuam a ser sinais da sua presença permanente naqueles lugares. Soube cimentar a piedade popular na devoção aos mistérios de Cristo e da Virgem Maria, na frequência dos sacramentos e na meditação, acompanhadas pela preocupação constante da salvação da alma.

Por isso, não nos admiremos de que ele fosse um “leigo fundador de uma Ordem religiosa”. Assim se expressam os Bispos da Guatemala em Carta Pastoral, escrita a propósito da sua canonização.

Tendo vestido o hábito da terceira Ordem de penitência franciscana, continuou a sua vida na prática das obras de caridade, consolidando a sua devoção a Maria; rezava o terço na Capela da casa com os escravos, os mais simples, sem deixar de se retirar para o “seu” Calvário (tinha-o construído com as suas próprias mãos), pelos pátios da Pousada de Belém, onde, no dizer do seu biógrafo, “os pobres podiam encontrar pão material para o sustento do seu corpo e o pão da doutrina para alimento da sua alma”. Alguns deixaram-se seduzir pelo seu exemplo e congregou à sua volta os que julgou idóneos para dar cumprimento aos seus desejos. Com eles acerta uma vida regular de oração e austeridade que, ao trabalho com os pobres, uniam uma espiritualidade muito rica de fidelidade a Deus e vida comunitária. Assim nasceu a Ordem Betlemita, fundada na Guatemala e ainda hoje viva naqueles meios, ao serviço das pessoas mais humildes e sem lar.
Destacam os Bispos da Guatemala três caminhos na herança espiritual legada por Pedro de São José: 

a) Caminho espiritual, baseado na adoração do Verbo Encarnado, na meditação constante da paixão de Cristo, no amor e adoração ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia, amor à Mãe de Deus e a devoção do santo Rosário, a que se juntava a prática da mortificação, da penitência e do jejum.
b) Caminho misericrdioso, caracterizado pelo amor aos pobres e a solidariedade para com todos. Para isto, não hesitou em escrever uma carta ao Rei de Espanha, pedindo autorização para construir um hospital para convalescentes, o primeiro do mundo para este género de doentes.

c) Um caminho profético, onde se descobrem os valores perenes de uma autêntica evangelização. Assim o evangelizador verdadeiro não deve condenar ninguém definitivamente, pois o plano de Deus quer a salvação de todos e que todos cheguem ao conhecimento da verdade (cf. 1 Tim 2, 4), o evangelizador propõe o plano de Deus a um mundo dominado pelo afã das riquezas, a ambição do poder e a indiferença orientada pelo prazer.

Beatificado por João Paulo II em Roma, no dia 22 de Junho de 1980, vai ser canonizado ainda pelo mesmo Sumo Pontífice, na Guatemala, em 30 deste mês de Julho.

Fizemos algumas referências à Carta Pastoral com que os Bispos da Guatemala quiseram preparar as suas comunidades para esta celebração. A Igreja presente neste país da América Central rejubila com esta jornada, que ficará na memória do seu povo cristão; com ele, alegrar-se-á também a Igreja no México, onde uma canonização e duas beatificações marcarão positivamente a sua vida. Sabemos bem que a santidade não tem fronteiras, para ela não há limites de tempo ou espaço. Graças a Deus!

Fonte:http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20020730_betancurt_po.html

VIAGEM APOSTÓLICA À TORONTO,
À CIDADE DA GUATEMALA E À CIDADE DO MÉXICO

CANONIZAÇÃO DO BEATO IRMÃO PEDRO
DE SÃO JOSÉ DE BETANCUR

HOMILIA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II

Hipódromo da Cidade da Guatemala
Terça-feira, 30 de Julho de 2002

1. “Vinde, benditos de meu Pai… Em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes (Mt 25, 34.40). Como não pensar que estas palavras de Jesus, com as quais se concluirá a história da humanidade, possam ser adequadas também para o Irmão Pedro, que, com tanta generosidade, se dedicou ao serviço dos mais pobres e abandonados?

Hoje, ao inscrever no álbum dos Santos o Irmão Pedro de São José de Betancur, faço-o convencido da actualidade da sua mensagem. O novo Santo, levando como bagagem unicamente a sua fé e a sua confiança em Deus, atravessou o Atlântico para servir os pobres e os indígenas da América:  primeiro em Cuba, depois em Honduras e, por fim, neste abençoado solo da Guatemala, a sua “terra prometida”.

2. Agradeço cordialmente as palavras que me foram dirigidas por D. Rodolfo Quezada, Arcebispo da Cidade de Guatemala, apresentando-me a estas queridas comunidades eclesiais. Saúdo os Senhores Cardeais, os Bispos da Guatemala, o Bispo de Tenerife e todos os que vieram de outras partes do Continente americano.

Saúdo também com grande estima os sacerdotes, os consagrados, as consagradas e inclusive as religiosas de clausura. Dirijo uma saudação especial e afectuosa aos Irmãos da Ordem de Belém e às Irmãs Betlemitas, fruto da inspiração da Madre Encarnação Rosal, primeira Beata guatemalteca e reformadora da Comunidade que deu início a fundação, para recuperar os valores fundamentais dos seguidores do Irmão Pedro.

Agradeço particularmente a presença nesta celebração dos Presidentes das Repúblicas da Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, República Dominicana, do Primeiro-Ministro de Belize e das outras Autoridades civis. Estimo também a participação neste acto da missão vinda da Espanha para esta feliz ocasião.

Desejo, de igual modo, exprimir o meu apreço e proximidade aos numerosos indígenas. O Papa não se esquece de vós e, ao apreciar os valores das vossas culturas, estimula-vos a superar com esperança as situações, por vezes difíceis, que estais a viver. Edificai o futuro com responsabilidade, trabalhai pelo progresso harmonioso do vosso povo! Mereceis todo o respeito e tendes direito a realizar-vos plenamente na justiça, no desenvolvimento integral e na paz.

3. “Fortalecidos pelo seu Espírito… Cristo habite pela fé nos vossos corações… de tal sorte que, arraigados e fundados na caridade, possais compreender… a profundidade do amor de Cristo” (Ef 3, 16-19). Estas palavras de São Paulo, que acabámos de escutar, manifestam como o encontro interior com Cristo transforma o ser humano, enchendo-o de misericórdia para com o próximo.
O Irmão Pedro foi homem de oração profunda, já na sua terra natal, Tenerife, e depois em todas as etapas da sua vida, até chegar aqui, onde especialmente na eremitério do Calvário, buscava assiduamente a vontade de Deus em todos os momentos.

Assim, ele é um luminoso exemplo para os cristãos de hoje, aos quais recorda que, para ser santo “há necessidade de um cristianismo que se destaque principalmente pela arte da oração” (Novo millennio ineunte, 32). Por isso, repito a minha exortação a todas as comunidades cristãs da Guatemala e de outros países, para que sejam autênticas escolas de oração, nas quais rezar seja a parte central de todas as actividades. Uma vida de piedade intensa produz sempre abundantes frutos.

Foi assim que o Irmão Pedro formou a sua espiritualidade, particularmente na contemplação dos mistérios de Belém e da Cruz. Se no nascimento e na infância de Jesus aprofundou o acontecimento fundamental da Encarnação do Verbo, que o levou a descobrir quase naturalmente o rosto de Deus no homem, na meditação sobre a Cruz encontrou a força para praticar heroicamente a misericórdia com os mais pequeninos e necessitados.

4. Hoje somos testemunhas da verdade profunda das palavras do Salmo que há pouco recitamos:  o justo “não teme. Distribui do que é seu, dá aos pobres; a sua prosperidade subsiste para sempre” (11, 8-9). A justiça que persiste é a que se pratica com humildade, partilhando cordialmente o destino dos irmãos, espalhando em toda a parte o espírito de perdão e misericórdia.

Pedro de Betancur distinguiu-se precisamente pela prática da misericórdia com espírito de humildade e vida austera. Sentia no seu coração de servidor a admoestação do Apóstolo Paulo:  “Tudo o que fizerdes, fazei-o de todo o coração como quem o faz pelo Senhor e não pelos homens” (Cl 3, 23). Por isso foi verdadeiramente irmão de todos os que viviam em situações de necessidade e empenhou-se com ternura e grande amor na sua salvação. É quanto sobressai nos acontecimentos da sua vida, como na sua dedicação aos enfermos do pequeno hospital de Nossa Senhora de Belém, berço da Ordem Betlemita.

Também hoje o novo Santo é um urgente convite a praticar a misericórdia na sociedade actual, sobretudo quando são tantos os que esperam que uma caridosa mão os socorra. Pensamos nas crianças e nos jovens sem casa ou sem educação; nas mulheres abandonadas com tantas necessidades para enfrentar; nas multidões de marginalizados nas cidades; nas vítimas do crime organizado, da prostituição e da droga; nos enfermos desprovidos de assistência ou nos idosos que vivem sozinhos.

5. O Irmão Pedro “é uma herança que não se deve perder, mas fazer frutificar num perene dever de gratidão e num renovado propósito de imitação” (Novo millennio ineunte, 7). Esta herança há-de suscitar nos cristãos e em todos os cidadãos o desejo de transformar a comunidade humana numa grande família, na qual as relações sociais, políticas e económicas sejam dignas do homem, e se promova a dignidade da pessoa com o reconhecimento efectivo dos seus direitos inalienáveis.

Gostaria de concluir recordando como a devoção à Santíssima Virgem acompanhou sempre a vida de piedade e de misericórdia do Irmão Pedro. Oxalá ela nos guie também a nós para que, iluminados pelos exemplos do “homem que foi caridade”, como Pedro de Betancur é conhecido, possamos alcançar o seu Filho Jesus.

Louvado seja Jesus Cristo!

No momento de dar a Bênção final, o Papa pronunciou ainda estas palavras: 

Antes de deixar este recinto, o lugar da Canonização do primeiro Santo da Guatemala e de Tenerife, desejo dizer-vos uma vez mais que me comovestes. Obrigado, muito obrigado, Guatemala, por esta fé, esta cordialidade e estas ruas tão maravilhosamente decoradas. Obrigado, porque sei que por detrás de cada cruz se encontra este coração. Sede fiéis a Deus, à Igreja e à vossa tradição católica, iluminados pelo exemplo do Santo Irmão Pedro. Guatemala, sê sempre fiel, sob a salvaguarda do Santo Cristo de Esquípulas! Guatemala, levo-te no meu coração!

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/2002/documents/hf_jp-ii_hom_20020730_canonization-guatemala_po.html

Biografia de Santo Estanislau pelo Vaticano

Desejo aqui referir-me a outro exemplo, que provém de há 400 anos, mas se conserva sempre vivo e actual. Trata-se da figura de São Estanislau Kostka, patrono dos jovens, cujo túmulo se encontra na igreja de Santo André ao Quirinal, em Roma. Aqui, de facto, terminou a sua vida aos 18 anos de idade este santo, por natureza muito sensível e terno, todavia muito corajoso.   

A fortaleza levou-o, a ele proveniente de nobre família, a escolher ser pobre, seguindo o exemplo de Cristo, e a colocar-se ao seu serviço exclusivo. Embora a sua decisão encontrasse firme oposição. por parte do ambiente, conseguiu com grande amor, mas também com grande firmeza, realizar o seu propósito, expresso no mote: “Ad maiora natus sum” (“nasci para coisas maiores”). Chegou ao noviciado dos Jesuítas, percorrendo a pé o caminho de Viena a Roma e procurando fugir aos seus perseguidores que desejavam, pela força, afastar este “obstinado” jovem, dos seus intentos.   

Sei que no mês de Novembro muitos jovens de toda Roma — especialmente estudantes, alunos, noviços — visitam o túmulo de Santo Estanislau na igreja de Santo André. Estou unido a eles, porque também a nossa geração precisa de homens que saibam com santa “obstinação” repetir: “Ad maiora natus sum”. Temos necessidade de homens fortes!   

Temos necessidade de fortaleza para ser homens. De facto, só é homem verdadeiramente prudente aquele que possui a virtude da fortaleza; assim como também só é homem verdadeiramente justo aquele que tem a virtude da fortaleza.   

Peçamos este dom do Espírito Santo que se chama o “dom da fortaleza”. Quando ao homem faltam as forças para “superar-se” a si mesmo em vista de valores superiores — como a verdade, a ,justiça, a vocação e a fidelidade matrimonial — é necessário que este “dom do alto” faça de cada um de nós um homem forte e, no devido momento, nos diga “no íntimo”: coragem!   

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1978/documents/hf_jp-ii_aud_19781115_po.html   

… Também a vós quero indicar o exemplo de fortaleza dum jovem de 18 anos, Santo Estanislau Kostka, patrono da juventude, que, para seguir a própria vocação ao estado religioso, apesar de ser de complexão franzina e de natureza sensível, enfrenta a oposição do ambiente, foge à perseguição dos seus, e realiza, a pé e em segredo, a viagem de Viena a Roma, para poder entrar no noviciado dos jesuítas e corresponder assim à chamada do Senhor. O seu túmulo, na igreja de Santo André ao Quirinal, é meta, sobretudo neste mês, de piedosas visitas de muitos jovens.   

Vede, caros jovens: seguir a Cristo, construir o homem em vós e fazer esforços para que ele se construa nos outros, exige corajosos propósitos e a força tenaz de os cumprir, auxiliando-vos uns aos outros mesmo em associações, que permitam a união dos vossos esforços, o aprofundamento recíproco das vossas convicções e o incitamento recíproco e a ajuda amigável.   

Confiai-vos à graça do Senhor que grita dentro de nós e para nós: coragem!   

A vitória sobre o mundo será de Cristo. Quereis manter-vos do Seu lado e enfrentar com Ele este combate do amor, animados por invencível esperança e corajosa Fortaleza?   

Não estareis sós; todos estarão convosco, também o Papa, que vos ama e vos abençoa.    

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1978/documents/hf_jp-ii_spe_19781115_giovani_po.html   

 Biografia de Santo Estanislau de Kostka pelos Arautos do Evangelho

 O dia 28 de outubro de 1550 foi de grande festa no castelo de Kostkow, em Prasnitz, Polônia. O senador João Kostka anunciava orgulhoso o nascimento de seu filho Estanislau aos grandes do reino, que acorriam ao castelo para contemplar o pequeno anjo dormitando em berço de ouro. Aquele nascimento, entretanto, estava envolto num suave mistério: o bebê trazia no peito três cruzes rubras, de inexplicável origem. O pai queria forçosamente interpretá-las como um sinal das façanhas e glórias militares que o pequeno obteria para aumentar as grandezas da família, assinalada entre as mais nobres e influentes da Polônia. Já a mãe, Margarida Kriska, tinha um coração religioso, e entrevia nesse prodígio um sinal do céu: aquele era um menino predestinado por Deus.   

 Os acontecimentos dariam sobrada razão à mãe virtuosa. No menino transparecia toda espécie de qualidades de espírito, e pairava ao seu redor uma aura de inocência e louçania. Bastava falar de qualquer assunto religioso que seus olhos brilhavam de contentamento, desejando sofregamente que lhe ensinassem as coisas do Céu.   

Igualmente, não podia suportar que proferissem qualquer palavra contrária à glória de Deus em sua presença. Conta-se que num fausto banquete oferecido pelo senador Kostka, um príncipe aficionado às novas idéias da Reforma Protestante, não se contendo, estalou em impropérios contra a Igreja Romana e o próprio Deus. Viu-se, então, o menino cair desmaiado diante de todos. Consternados, os convivas perguntavam donde provinha tal mal-estar, e calavam de estupor ao saber que diante do pequeno Estanislau não se podia ofender a Deus.   

Entre os pais do santo menino havia uma profunda divergência quanto à análise que faziam do próprio filho. Enquanto a mãe se encantava por ver desabrochar em sua alma uma elevada vocação, o pai obstinava-se em construir em sua imaginação façanhas e vitórias portentosas como jamais se vira, a não ser nos feitos de seus antepassados. Como de Paulo, o filho mais velho, ele percebia não poder esperar muito, era de Estanislau que, julgava, lhe viria a glória imortal: “Este é um Kostka genuíno. Ele será meu sucessor”.   

Os estudos em Viena   

 Paulo e Estanislau haviam recebido uma boa formação intelectual com Bilinski, o preceptor escolhido para iniciá-los nas ciências clássicas. Agora era necessário encaminhá-los para estudar em um grande estabelecimento, a altura do nome da família. A escolha recaiu sobre o Colégio Jesuíta de Viena, da Polônia a mais próxima instituição da Companhia, para onde acorriam numerosos jovens de vários países.   

Assim, aos 16 anos de Paulo e 14 de Estanislau, eles se despediram da casa paterna e partiram para terra estrangeira, a fim de completar a instrução acadêmica. Ambos prometeram à virtuosa mãe que jamais se entregariam a nenhum pecado, pois a pior desgraça que lhes podia acometer seria ofender a Deus. A promessa de Estanislau era sincera e profunda, enquanto Paulo dava mostras de cumprir uma mera formalidade.   

De fato, vendo os irmãos lado a lado, como eram diferentes! Em nada eram harmônicos. Estanislau amava o recolhimento, ao passo que Paulo era adepto das diversões pecaminosas. Com muita propriedade, as figuras de Esaú e Jacó pareciam reviver nos filhos do senador.   

“Ad maiora natus sum”   

A vida em Viena foi repleta de graças e cruzes. O carisma dos filhos de Santo Inácio tocou a fundo o jovem Estanislau. Admirava os jesuítas de toda alma, encantava-se com a pureza de sua doutrina e a comple ta adesão aos conselhos evangélicos daqueles sacerdotes flexíveis ao sopro do Espírito Santo. Não demorou em desejar ser como eles, pois a seus olhos, era na Companhia de Jesus que estava o mais alto ideal que pudesse abraçar. Foi da forte convicção de que havia nascido para coisas maiores que surgiu sua divisa: “Ad maiora natus sum”.   

De outro lado, como foi preciso recorrer à proteção do Céu para perseverar na prática das virtudes! Várias vezes Paulo, movido pelo ódio à sua integridade, desferia-lhe golpes brutais deixando-o desfalecido e ensangüentado. Assim se expressou Bilinski no depoimento do processo de beatificação: “Paulo jamais disse uma palavra amável a seu santo irmão. Todavia, tanto ele quanto eu tínhamos completa consciência da santidade de todos os atos de Estanislau”.   

 Nossa Senhora veio curá-lo   

 A esse duro golpe, a Fé de Estanislau não esmoreceu. Rezou fervorosamente e confiou contra toda esperança. Qual não foi seu estupor ao ver numa manhã aproximarem- se três refulgentes anjos acompanhados de Santa Bárbara, trazendo-lhe a Sagrada Comunhão e cumulando sua alma de consolações e alegrias! Se a maldade dos homens lhe negara o que havia de mais sagrado, não seria a Providência Divina que o deixaria desamparado. Pouco depois ele viu aproximar- se de seu leito a figura soberana da Santíssima Virgem, que tra zia nos braços seu Divino Filho e lhe sorria. Num gesto maternal, ela depositou o Infante nos braços do pobre enfermo, e o Menino Jesus o cobriu de afagos. Naquele momento, todas as perseguições esvaeceram- se, os incontáveis sofrimentos pareceram-lhe como pó… Sim, valia a pena sofrer as privações para gozar daquele convívio celestial! Sentindo as forças voltarem-lhe repentinamente, ele ouviu a voz suavíssima da Rainha dos Céus:   

 – “Agora que te curei, entra na Companhia de meu Filho! É Ele que o quer!”.   

Resta apenas um caminho: o “impossível”   

 O assombro que sua cura milagrosa provocou não foi pequeno. Revigorado e indescritivelmente feliz, Santo Estanislau pediu admissão ao Padre Provincial da Áustria, que não podia desprezar os sinais inequívocos de sua vocação. Contudo, recebê-lo sem o consentimento paterno seria uma imprudência que acarretaria trágicas conseqüências. Foi-lhe negado o acesso à congregação em que Nossa Senhora o mandara entrar. Que aflitivo paradoxo…   

A chama de entusiasmo e fervor que a visita celestial acendeu-lhe na alma foi tão grande que não se apagaria diante dessa primeira negativa. Ele estava disposto a bater em quantas casas dos jesuítas houvesse no mundo, certo de que alguma delas haveria de recebê-lo. Se o pai não o autorizava a seguir o chamado celestial, só lhe restava uma saída para levar ao perfeito cumprimento o mandato de Maria Santíssima: fugir.   

Numa madrugada soturna, disfarçado de peregrino e sem ter levantado qualquer tipo de suspeita, Estanislau partiu para a Alemanha. Foi a pé de Viena a Dillengen. Lá, finalmente pôde ser compreendido por São Pedro Canísio, que o admitiu na Companhia de Jesus, julgando, porém, que a permanência na Alemanha não o deixa seguro da tirania de seu pai. O local mais indicado era Roma, onde São Francisco de Borja, o Superior Geral, haveria de protegê-lo. Foi assim que ele partiu para atravessar os Alpes, os Apeninos, e chegar à Cidade Eterna, após dois meses de caminhada heróica e incansável. Transpôs, sem titubear, praticamente metade da Europa!   

 Atingiu a perfeição de uma longa existência   

 A 

  

Entretanto, bem diversos eram os desígnios de Deus. Nossa Senhora aparecera-lhe em Roma, e viera chamá- lo, dizendo que lhe restava pouco tempo de vida. Sua alma já estava pronta para o Céu!  

  

Assim, numa festa da Santíssima Virgem, ele comentou que muito em breve haveria de morrer. Ninguém acreditou. Subitamente, de um leve mal-estar, desencadeou-se no noviço uma forte febre e ele expirou santamente na festa da Assunção de Maria Santíssima, 15 de agosto de 1568.   

Como estava equivocado o nobre senador da Polônia! Deus havia reservado ao jovem Estanislau uma glória insuperável e eterna. Se hoje no mundo inteiro sua família é conhecida, e se tem a honra de figurar de forma indelével na memória da Santa Igreja, não é senão porque ali fulgurou o brilho da santidade de seu filho. Santo Estanislau Kostka provou para os jovens de todos os tempos que um homem vale na medida em que corresponde generosamente ao chamado de Deus e deseja as coisas do Alto. (Revista Arautos do Evangelho, Ag/2008, n. 80, p. 34 à 37)

 

http://www.arautos.org/view/show/3569-santo-estanislau-kostka-acima-de-tudo-a-vontade-de-deus   

 Biografia de Santo Estanislau de Kostka por Plínio Maria Solimeo

 “Ajoelha-te, ajoelha-te; vê que Santa Bárbara, acompanhada de dois Anjos, traz-me a Comunhão”, exclamou Estanislau moribundo no leito, dirigindo-se a seu preceptor, quando estudante no colégio jesuíta de Viena.

E o preceptor completa sua narração com as seguintes palavras: “E levantando-se, pôs-se de joelhos na cama. Depois disse três vezes: ‘Senhor, eu não sou digno…’ Abriu a boca… e estendeu a língua com profundíssima humildade”.(1) Mas não foi ainda desta vez que Estanislau morreria.   

Esse episódio é emblemático da vida inteiramente excepcional deste Santo, cuja festa comemora-se a 13 de novembro, dia em que seu corpo foi exumado e encontrado sem nenhuma forma de corrupção.   

Das mais nobres famílias da Polônia   

Estanislau nasceu em 1550 no castelo de Rostkow, de uma família das mais nobres da Polônia, que se “distinguia pela invariável fidelidade à antiga fé católica, diante das tempestades luteranas e renascentistas”.(2) Seus pais foram João Kostka, Senador do Reino, e Margarida Kriska, de estirpe não menos ilustre que o marido.   

Estanislau foi dessas almas que parecem ter, desde o berço, correspondido a todas as graças especialíssimas com que Deus as cumula, percorrendo em pouco tempo, na santidade, uma carreira que muitos levam a vida inteira para atingir.   

De uma pureza extrema, qualquer palavra mais livre fazia o menino enrubescer e até mesmo perder os sentidos. Quão diferente da perversão infantil que grassa em nossos dias! “Falemos doutra coisa, costumava dizer o velho pai, senão o nosso Estanislauzinho levantará os olhos ao céu, para dar em seguida com a cabeça no chão”.(3) A par dessa extrema delicadeza de consciência, o menino foi, desde cedo, também modelo de sabedoria e honestidade.   

Na capital do Império Austro-Húngaro   

Foi-lhe dado como preceptor um jovem cavaleiro, João Bilinski, para ensinar-lhe as primeiras letras. Aos 14 anos seu pai enviou-o com este, e com o irmão mais velho, Paulo, para Viena, onde o Imperador Fernando tinha fundado um colégio jesuíta para a educação da juventude de língua alemã. Foram recebidos na qualidade de internos; e quando Maximiliano I fechou o internato, foram viver na casa de um luterano, o Senador Kimberker. Para a consciência reta de Estanislau, o viver sob o teto de um herege era um contínuo tormento.   

Entre seus condiscípulos, Estanislau logo se fez notar “por seu belo espírito, assiduidade ao estudo e raras virtudes. …. Ele fugia cuidadosamente da conversação dos escolares libertinos e de tudo que não o incitasse à devoção e ao amor de Jesus Cristo …. O recolhimento e o silêncio faziam suas delícias; e, quando falava, era sempre com tanta modéstia e discrição, que, era perceptível, não dizia nada precipitada ou irrefletidamente”.(4)   

Ora, nunca dois irmãos foram tão diferentes como Paulo e Estanislau. O primogênito era amante da boa-vida, mundano, dado aos prazeres que a grande capital podia oferecer. O caçula não vivia senão para as coisas celestes. E com isso era, mesmo sem o querer, uma censura muda e constante ao modo de ser do irmão. Evidentemente tinham que surgir atritos, que Paulo resolvia segundo a “lei do mais forte”, chegando muitas vezes a agredir Estanislau. Este entretanto tinha uma fortaleza de alma que se sobrepunha à moleza produzida pelos vícios no irmão.   

Nossa Senhora lhe entrega o Menino Jesus   

Certo dia Estanislau adoeceu tão gravemente, que os médicos declararam nada mais ser possível fazer, e que a medicina já não podia salvá-lo. O doente suplicou então ao irmão e ao preceptor que chamassem um sacerdote para ministrar-lhe os Sacramentos, ao menos a Sagrada Comunhão. No entanto, os dois, temendo desgostar o luterano que jamais permitira a entrada de um sacerdote católico em sua casa, optaram por fazer ouvidos moucos. Estanislau resolveu então apelar para o Céu; lembrou-se de ter lido certa vez que os que se recomendavam a Santa Bárbara não morriam sem receber os Sacramentos. Com fervor, pediu então a intercessão dessa Santa em seu favor. O que ocorreu a seguir, narrado por seu preceptor, depois ordenado Sacerdote, vem descrito no início deste artigo.   

Pouco depois ele recebia também a visita de Nossa Senhora com o Menino Jesus nos braços e colocando-O nos de Estanislau. Ao despedir-se, a Mãe de Deus recomendou-lhe que entrasse para a Companhia de Jesus. No mesmo momento, Estanislau sentiu-se inteiramente curado.   

Dois Santos o auxiliam a realizar sua vocação   

O adolescente quis obedecer imediatamente o conselho de Nossa Senhora. Foi procurar o Pe. Provincial dos jesuítas na Áustria, mas este negou-lhe admissão sem a autorização do pai; recorreu ao Legado Papal, que também não quis comprometer-se. Aconselhado então pelo Pe. Francisco Antônio, confessor português da Imperatriz, fez o voto de peregrinar de casa em casa da Companhia pelo mundo, até encontrar uma que o admitisse sem condições.   

Para isso teve que sair escondido de casa e tomar a estrada para Augsburgo. Doou seus trajes de seda a mendigos, e vestiu-se com uma grosseira túnica adrede preparada. Entrementes seu irmão e o preceptor, dando-se conta da fuga, partiram de carruagem atrás do fugitivo. Quando dele se aproximaram, Estanislau, como um pobre peregrino, pediu uma esmola. Sem se darem conta, jogaram-lhe uma moeda e continuaram o caminho…   

Como o Provincial de Augsburgo encontrava-se em Dilingen, para lá se dirigiu o jovem polonês. Ora, este não era senão o grande São Pedro Canísio, que reconquistaria para a verdadeira fé quase metade da Alemanha, pervertida pelo ímpio Lutero. Como os Santos se entendem, foi sem dificuldade nenhuma e com grande alegria que ele recebeu o jovem postulante. E, para livrá-lo da possível perseguição do pai, enviou-o com outros dois pretendentes à casa mãe, em Roma.   

Outro grande Santo, São Francisco de Borgia, então terceiro Geral dos jesuítas, recebeu Estanislau na Cidade Eterna com os braços abertos dizendo-lhe: “Estanislau, eu te recebo, e não te posso negar este gosto, porque tenho muitas provas de que Deus te quer em nossa Companhia”[i]  

Assim via Estanislau atendidos seus votos, entrando para o noviciado de Santo André do Quirinal a 28 de outubro de 1567.   

O Anjo do Noviciado   

Em pouco tempo o jovem polonês mereceu de seus condiscípulos o cognome de o Anjo do Noviciado. “Apoiado no conhecimento de si mesmo, quer dizer, de seu nada [sem a graça divina], de suas fraquezas, de sua incapacidade para todo bem e de sua corrupção original, ele tinha uma humildade que os louvores não podiam alterar, e que as reprimendas mais humilhantes não podiam exasperar”.(6) Seu amor a Deus era tão veemente, que abrasava-lhe o peito. Um dia, o Padre-ministro encontrou-o muito cedo no pátio, perto da fonte, refrescando-se. ¾ “Que fazes aqui numa hora tão matinal?” perguntou-lhe. Respondeu o noviço: ¾ “Padre, meu peito ardia muito e vim buscar um pouco de alívio”.(7)   

Devoção especialíssima à Mãe de Deus   

Estanislau tinha a mais profunda devoção a Maria Santíssima. Estudava e compilava os textos mais belos em seu louvor, e as passagens mais próprias a demonstrar sua grandeza. Em sua honra rezava, desde pequeno, o Rosário. A quem lhe perguntava por que amava tanto a Maria, respondia: “Como não A hei de amar, se é minha Mãe?”   

Foi por insistência sua que se instituiu o costume de os noviços todas as manhãs, logo ao acordarem, porem-se de joelhos voltados em direção da Basílica de Santa Maria Maior, e pedir a Nossa Senhora sua bênção. O mesmo fariam à tarde, logo depois do exame de consciência. Esse costume manteve-se depois no Noviciado.   

O desejo de Estanislau era o de morrer na véspera do dia de gloriosa Assunção de Maria ao Céu, e ele teve uma revelação de que seu voto seria atendido.   

No dia de sua festa, Maria Santíssima vem buscá-lo e o leva ao Céu   

Como era costume em diversas comunidades religiosas, no fim do mês de julho foi distribuído a esmo, no noviciado jesuíta, o nome de um Santo daquele mês que cada religioso deveria venerar e honrar de modo mais especial durante o mês entrante. Coube a Estanislau, para agosto, o do grande mártir São Lourenço. No dia 8, na vigília da festa do Santo, Estanislau quis honrá-lo de uma maneira particular, fazendo um ato de humilhação pública. Após ter dito suas faltas no refeitório, osculou os pés de cada religioso, disciplinou-se, e pediu a cada um de esmola um pequeno pedaço de pão para sua refeição. Depois foi ajudar na cozinha onde, à vista do fogo, começou a meditar nos sofrimentos de São Lourenço, assado vivo em uma grelha. Isso o impressionou tanto, que caiu desmaiado. Levado à sua cela, veio-lhe à boca um fluxo de sangue. Soube então que seu desejo de morrer no dia da Assunção seria satisfeito. E isso ele o dizia a todos.   

Na vigília dessa gloriosa festa, pediu para lhe serem administrados os Sacramentos, que recebeu angelicamente. E às três horas da manhã do dia 15, Nossa Senhora, acompanhada por uma multidão de Anjos, veio receber a virginal alma de Estanislau Kostka. Ele morria aos 18 anos incompletos, tendo passado apenas 10 meses no noviciado jesuíta.   

Acorreu tanta gente a seu enterro, que levou seu médico, Dr. Francisco Tolet, depois nomeado Cardeal, a exclamar: “Eis uma coisa verdadeiramente maravilhosa: um pequeno noviço polonês que morre; faz-se honrar pela cidade de Roma como um Santo!”.(8)   

A glorificação post mortem   

Enterrado na igreja Santo André monte Cavallo, em Roma, começaram a ocorrer milagres em seu túmulo. Sua fama difundiu-se, primeiro por sua pátria, e depois por toda a Europa. Na Polônia “não havia Prelado ou grande senhor que não quisesse ter [sua estampa], e o próprio Rei colocou-o em sua galeria junto às imagens dos santos”.(9)   

Beatificado em 1604, Estanislau foi canonizado em 1726.   

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?idmat=194430DA-D8FF-F013-5E051CAE00D516F6&mes=Novembro1999   

________________   

Notas:   

1-Pe. José Leite, S.J., Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1987, 3ª edição, vol. III, p. 294   

2-Idem, ibidem   

3-Id. Ib.   

4-Lês Petits Bollandistes, Viés dês Saints, d’après de Père Giry, par Mgr. Paul Guérin, Paris, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, vol. XIII, p. 388.   

5-Abbé Croisset, Año Cristiano, tradução espanhola do Pe. José Francisco de Islã, Saturnino Calleja, Madri, 1901, tomo IV, p. 497   

6-Les Petits Bollandistes, op. cit. p. 391.   

7-Pe. José Leite, op. cit., p. 296.   

8-Les Petits Bollandistes, op. cit., p. 394.   

9-Id., ib., p. 394 

  


  
 

Biografia de São Estanislau de Jesus Maria

ESTANISLAU DE JESUS E MARIA (JOÃO PAPCZYNSKI)
 (1631-1701)

Aos 18 de maio de 1631 nascia João Papczynski (seu nome de batismo) em Podegrodzie, no sul da República Polonesa, então um dos maiores estados da Europa pela sua área de quase 1 milhão de quilômetros quadrados. Seu pai, Tomás, era camponês e um apreciado ferreiro. Durante alguns anos foi prefeito da aldeia e cuidava da igreja em Podegrodzie. Sua mãe, da família Tacikowski, era uma mulher piedosa e ativa. Não pouparam esforços em proporcionar uma sólida formação ao filho.

João freqüentou colégios dos piaristas e jesuítas com grandes dificuldades, seja por causa de problemas nos seus estudos, seja em razão de guerras e epidemias no país. Tais interrupções eram preenchidas com o trabalho na propriedade do pai. Mais tarde, no seu escrito Secreta conscientiae, renderia graças a Deus por lhe haver preservado “a consciência pura e santa” neste período. Cresceram nele outrossim a generosidade, a têmpera de espírito e o talento de educador da juventude.

Após concluir a retórica e os dois anos do curso de filosofia no colégio jesuíta em Rawa Mazowiecka, João ingressa na Ordem das Escolas Pias (1654), que havia conhecido 5 anos antes. Contrariava o natural desejo de sua família para que se casasse. Anos depois confessaria: “É muito difícil expressar o quanto eu apreciava a minha vocação, que apenas o próprio Deus em mim despertara”. As Escolas Pias combinavam a espiritualidade mariana com a dedicação à juventude, pelo que João se lhe sente atraído. No Noviciado recebe o nome religioso de Estanislau de Jesus e Maria. Devido aos seus progressos na vida religiosa, já no segundo ano é encaminhado para estudar teologia em Varsóvia, professando aí os votos religiosos (1656).

Tendo recebido dias depois as ordens menores e o subdiaconado, Estanislau e seus coirmãos foram obrigados a abandonar o convento, pois nos arredores de Varsóvia se havia desencadeado uma batalha com os exércitos suecos. Eles fugiram então para Rzeszów, mas logo tiveram de se afastar também dali, porquanto se aproximavam os exércitos de Rakoczy, aliado da Suécia que atacou pelo sul da Polônia. Refugiaram-se em Podoliniec, onde no início de 1658 foi confiado ao irmão Estanislau o ensino da retórica no colégio local. Transferido dois anos depois para Rzeszów, recebeu a mesma incumbência no colégio recém-inaugurado. No dia 12 de março de 1661 foi ordenado sacerdote por D. Estanislau Samowski, bispo de Przemysl. Após atuar por três anos como mestre de retórica em Rzeszów, foi transferido para Varsóvia.

Após sua ordenação, padre Estanislau se envolveu com todo o zelo na atividade pastoral, procurando conciliá-la com outras incumbências de sua comunidade religiosa. Assim, por exemplo, para atender às necessidades dos alunos, redigiu e publicou o Prodromus reginae artium, um manual de retórica que teria várias edições. Procurava apresentar à juventude não apenas a forma de “pronunciar belas palavras”, mas também orientações para uma “vida de bondade e nobreza”, a fim de que, “com o passar dos anos, com a conquista da sabedoria e de todo gênero de virtudes, os educandos se tornem um dia um verdadeiro adorno da sua família, um verdadeiro adorno da República”. Dadas as situações da sociedade de seu tempo, Estanislau criticava em seus escritos as desigualdades sociais e a corrupção política. A nobreza se lhe opõe ferozmente, eliminando tais referências do seu livro.

Desde 1663 o padre Papczynski já se havia tornado famoso em Varsóvia não apenas como professor de retórica, mas igualmente como mestre de vida espiritual (pregador e confessor).

Alguns dos seus sermões foram publicados no Orator crucifixus (1670), em forma de meditações sobre as últimas sete palavras de Cristo. Entre os seus penitentes estavam, por exemplo, o núncio apostólico Antonio Pignatelli (futuro Papa Inocêncio XII) e o senador João Sobieski (futuro rei polonês). Foi também um incansável propagador do culto da imaculada conceição de Maria, tendo organizado uma irmandade em sua honra em Varsóvia.

Apesar das inúmeras ocupações, Estanislau era sempre dedicado à vida religiosa do seu instituto. Boa parte dos seus coirmãos reconhecia a sua sincera busca da santidade evangélica, particularmente através da oração e ascese. Exerceu as tarefas de prefeito do colégio, de auxiliar na beatificação de José Calasanz, de representante no capítulo provincial. Ao mesmo tempo, intensificavam-se as controvérsias. Movido pelo espírito do fundador, o padre Estanislau defendia zelosamente a observância religiosa e o direito de eleição dos superiores provinciais. Começa a ser acusado de desordem e revolta. Ele chama este período de “longo martírio”. Busca força e apoio na cruz de Cristo, o que daria origem ao livro Christus patiens, uma série de reflexões sobre a paixão do Senhor. Em vista do bem maior, pediu em 1669 a autorização para deixar a Ordem das Escolas Pias, o que foi confirmado pelo breve apostólico de 11 de dezembro de 1670.

Ao receber o indulto de saída em Kazimierz (arredores de Cracóvia), inesperadamente o padre Estanislau leu diante de todos a sua Oblatio, um ato previamente preparado de total entrega a Deus e à Imaculada, anunciando seu propósito de fundar a “Sociedade dos Padres Marianos da Imaculada Conceição” e expressando sua fé neste mistério através do “voto de sangue”, ou seja a disposição de defendê-lo mesmo com a vida. Mais tarde confessaria que a Oblatio era fruto de uma inspiração divina e que a nova ordem “havia sido moldada em [seu] espírito pelo Espírito Divino”.

Depois de rejeitar convites de outras ordens religiosas e benefícios oferecidos por alguns bispos, fixou residência na diocese de Póznan com o apoio de D. Estêvão Wierzbowski, vestindo o hábito branco em honra da Imaculada Conceição (1671). Neste ínterim preparou a regra da nova comunidade (Norma vitae). A fim de dar início ao seu instituto, dirigiu-se a uma pequena comunidade de eremitas em Puszcza Korabiewska e lhes apresentou a sua nova proposta. Os “eremitas marianos” obtiveram a aprovação eclesiástica no dia 24 de outubro de 1673, através de um decreto do bispo Estanislau Swiecicki.

O padre Estanislau se dedicará com todos os esforços para que a nova comunidade possa crescer e ser reconhecida pela Santa Sé, o que se daria em 1699 Inocêncio XII aprovava a última ordem do clero regular da história da Igreja. Diversas circunstâncias conduzirão o padre Estanislau a incluir como elementos do carisma da nova ordem religiosa o sufrágio pelos fiéis defuntos e o auxílio pastoral à Igreja local além da propagação do culto à Imaculada Conceição, pelo que muitas vezes exclamava: Immaculata Virginis Conceptio sit nobis salus et protectio.

Preocupado com a santificação dos fiéis, escreveu-lhes em 1675 a obra ascético-mística Templum Dei mysticum. Deixaria ainda uma série de meditações para a Santa Missa intituladas Inspectio cordis.

Consciente de haver cumprido a sua missão, falece a 17 de setembro de 1701 no convento de Góra Kalwaria, pronunciando estas palavras: “Em Vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito”, tendo abençoado antes os seus coirmãos, estimulando-os à observância da regra e expressando o ardente desejo da união com Cristo. Várias dificuldades sobrevirão à nova Ordem após a sua morte, o que dificultaria inclusive a abertura do seu processo de beatificação. Finalmente, em 1992 a Congregação para as Causas dos Santos reconhece a heroicidade das virtudes do padre Papczynski e em 2006 um milagre por sua intercessão.

Hoje a Congregação dos Padres Marianos renovada em 1909 pelo bem-aventurado Bispo Jorge Matulaitis conta com mais de 500 membros em 18 países de todos os continentes.

HOMILIA DO CARDEAL TARCISIO BERTONE
NA SOLENE CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA
PARA A BEATIFICAÇÃO
DE ESTANISLAU DE JESUS MARIA (1631-1701)

Domingo, 16 de Setembro de 2007

Senhores Cardeais
Venerados Irmãos
Bispos e Sacerdotes
Ilustres Autoridades civis e militares
Queridos membros da Família religiosa fundada pelo novo Beato
Queridos irmãos e irmãs!

Antes de tudo agradeço ao Senhor porque me ofereceu, pela segunda vez, a feliz oportunidade de visitar, no espaço de poucos meses, a vossa querida Pátria, a Pátria do Beato Estanislau Papczynski e do Servo de Deus João Paulo II, que todos o esperamos possa dentro em breve ser também ele elevado à glória dos altares. Agradeço também ao Senhor porque precisamente neste santuário, onde ontem à noite nos encontrámos para a liturgia das Vésperas, hoje posso presidir à solene celebração eucarística durante a qual, em nome de Sua Santidade Bento XVI, tive a honra de proclamar Beato o Padre Estanislau Papczynski. Significativo e também comovedor é que tudo isto se realize neste famoso santuário de Nossa Senhora de Lichen, onde há muitos anos os Padres e os Irmãos Marianos, filhos espirituais do novo Beato, desempenham o seu ministério pastoral, seguindo fielmente o carisma do seu Fundador.

Com estes sentimentos de profunda gratidão ao Senhor, gostaria de saudar cordialmente os Senhores Cardeais, os Arcebispos e os Bispos presentes, com uma menção particular e reconhecida ao Bispo D. Wieslaw Mering, Pastor desta Diocese, o qual com espírito de verdadeira fraternidade me acolheu a mim e a quantos me acompanharam. Saúdo com deferência as Autoridades civis e militares locais, regionais e do Estado começando pelo Presidente da República da Polónia, o Sr. Lech Kaczynski. Hoje realiza-se o desejo do Sejm [parlamento] da Res Pubblica das duas Nações [Polónia-Lituânia], o qual no ano de 1764 apresentou à Sé Apostólica o pedido para elevar rs honras dos altares “Estanislau Papczynski, um polaco famoso pelos seus milagres” (Volumina Legum, vol. VII, Sampetersburgo 1860, pág. 168, n. 105). Saúdo todos os presbíteros e diáconos, as pessoas consagradas, e entre elas de modo particular os Padres e os Irmãos Marianos com o seu Superior-Geral, Padre Jan Mikolaj Rokosz. Saúdo os peregrinos que vieram aqui de várias partes do mundo, alguns de muito longe. Por fim, dirijo uma saudação aos que, graças às ligações da televisão e da rádio penso sobretudo nos idosos, nos doentes, nos encarcerados podem unir-se espiritualmente a este sugestivo rito litúrgico.

A palavra de Deus, que nos propõe a hodierna liturgia do XXIV Domingo do tempo comum, apresenta-nos o mistério do homem pecador e a atitude divina de extrema e infinita misericórdia.

O Senhor arrependeu-Se das ameaças que proferira contra o Seu povo” (Êx 32, 14). A primeira leitura, há pouco proclamada, mostra-nos Moisés que depois de ter estabelecido a aliança com Deus, sobe ao Monte Sinai para receber as tábuas da Aliança e detém-se em diálogo com Ele por 40 dias. Os Israelitas, cansados de o esperar, voltam as costas a Deus esquecendo os prodígios realizados para os libertar da escravidão egípcia. O cenário que o autor sagrado descreve torna-se comovedor: Moisés, ao qual Javé revela o pecado dos Israelitas e a sua intenção de os punir, faz-se advogado e implora com fervor o perdão para aquele povo ingrato e pecador.

Não invoca a justiça de Deus, mesmo sabendo bem que Israel se manchou com a culpa mais grave caindo na tentação da idolatria, mas apela-se à misericórdia divina e à aliança que por sua iniciativa Deus estabeleceu com Abraão, com Isac e Jacob. E Deus ouve a oração de Moisés: paciente e misericordioso, abandona o propósito de punir o seu povo, que lhe voltou as costas.

Quantos ensinamentos nos oferece esta página do livro do Êxodo! Ajuda-nos a descobrir o verdadeiro rosto de Deus; ajuda-nos a compreender o mistério do seu coração bom e misericordioso. Por muito grande que possa ser a nossa falta, será sempre maior a misericórdia divina, porque Deus é Amor.

Testemunho maravilhoso deste mistério é a experiência humana e espiritual do apóstolo Paulo. Na segunda Leitura, tirada da sua primeira Carta a Timóteo, ele confessa que Cristo, o tocou no mais profundo da alma e, de perseguidor dos cristãos, o fez instrumento da graça divina para a conversão de muitos. Jesus, o verdadeiro bom Pastor, não abandona as suas ovelhas, mas deseja reconduzi-las todas ao redil do Pai. Não é esta, queridos irmãos e irmãs, também a nossa experiência? Quando com o pecado nos afastamos da recta via perdendo a alegria da amizade de Deus, se voltamos para Ele arrependidos sentimos não a dureza do seu juízo e da sua condenação, mas a doçura do seu amor que nos renova interiormente.

“Assim, digo-vos, há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrepende” (Lc 15, 10). Estas palavras de Jesus, que o evangelista Lucas narra na página evangélica agora proclamada, confirmam ulteriormente em nós a certeza do amor misericordioso do Senhor. A Divina Misericórdia é a boa notícia que não devemos cansar-nos de proclamar e testemunhar neste nosso tempo difícil. Só Cristo, que conhece o ser humano no seu íntimo, pode falar ao coração do homem e restituir-lhe a alegria e a dignidade de homem criado à imagem de Deus. E por isto tem necessidade de colaboradores fiéis e de confiança; tem necessidade de santos e nos chama a ser santos, isto é, verdadeiros amigos e arautos do seu Evangelho.

Autêntico amigo de Cristo e seu apóstolo incansável foi o Beato Estanislau de Jesus Maria Papczynski. Nascido em Podegrodzie numa pobre família camponesa, viveu num tempo em que a Polónia, atormentada por numerosas guerras e pestes, estava a afundar cada vez mais no caos e na miséria. Formado nos sadios princípios do Evangelho, o jovem Estanislau desejava doar-se a Deus sem limites e desde a adolescência sentiu-se orientado para a Imaculada Virgem Mae de Deus.

Com o passar do tempo, o Senhor transformou o pequeno pastor, que gostava pouco de estudar e de frágil constituição física, num pregador que atraía as multidões com a sua sabedoria cheia de erudição e de misticismo profundo; num confessor cujo conselho espiritual era procurado até pelos dignitários da Igreja e do Estado; num professor cuidadosamente instruído e autor de diversas obras publicadas em numerosas edições; no fundador do primeiro Instituto masculino polaco, precisamente a Congregação dos Clérigos Marianos da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria.

Quem o orientou durante toda a existência foi precisamente Maria. No mistério da sua Imaculada Conceição o novo Beato admirava o poder da Redenção realizada por Cristo. Na Imaculada vislumbrava a beleza do homem novo, entregue totalmente a Cristo e à Igreja. Deixava-se fascinar a tal ponto por esta verdade de fé, que estava disposto a dar a vida para a defender. Sabia que Maria, obra-prima da criação divina, é a confirmação da dignidade de cada homem, amado por Deus e destinado à vida eterna no céu. Ele queria que o mistério da Imaculada Conceição distinguisse a Comunidade religiosa que tinha fundado, fosse o seu apoio constante e a verdadeira alegria. Quantas vezes, precisamente aqui, neste Santuário de Maria Mãe das Dores onde se recolhem em oração multidões de peregrinos, ressoou e continua a ser repetida esta comovedora invocação do Beato Estanislau: “Maria, tu consolas, confortas, amparas, libertas os oprimidos, os que choram, que são tentados, os deprimidos […]. Ó doce Virgem! Mostra-nos Jesus, fruto bem-aventurado da tua vida!”.

Animado pelo amor de Deus, o Beato Estanislau ardia de uma forte paixão pela salvação das almas e dirigia-se aos seus ouvintes com tons prementes como este: “Volta portanto para o teu Pai! Porque andas errante pelo longínquo país das paixões, privado dos sentimentos de amor do Sumo Bem? Volta para o Pai! Cristo chama-te, vai para Ele” (Inspectio cordis, 1, 25, 2).

Seguindo o exemplo do Bom Samaritano, detinha-se ao lado de quantos estavam feridos na alma, aliviava os seus sofrimentos, confortava-os infundindo neles esperança e serenidade, conduzia-os à “pousada do perdão”, que é o confessionário, ajudando-os assim a recuperar a sua dignidade crista perdida ou recusada.

A caridade divina estimulava o Beato Estanislau a fazer-se evangelizador especialmente dos pobres, do povo simples, socialmente discriminado e descuidado sob o ponto de vista espiritual, de quantos se encontram em perigo de morte. Consciente de como estava difundida na época a chaga do alcoolismo, com a palavra e com a vida ensinava a sobriedade e a liberdade interior como um antídoto eficaz contra qualquer tipo de dependência. Animado depois por um profundo sentimento de amor pátrio pela República das Nações polaca, lituana e rutena, não hesitava em estigmatizar a busca do próprio interesse em quantos geriam o poder, o abuso da liberdade nobiliária e a promulgação de leis injustas. Ainda hoje o novo Beato lança à Polónia, à Europa, que fadigosamente procura os caminhos da unidade, um convite sempre actual: só lançando bases sólidas em Deus pode haver verdadeira justiça social e paz estável.

Queridos irmãos e irmãs, o amor do Beato Estanislau pelo homem alargava-se também aos defuntos. Depois de ter vivido a experiência mística do sofrimento de quantos se encontravam no purgatório, rezava com fervor por eles e exortava todos a fazer o mesmo. Ao lado da difusão do culto da Imaculada Conceição e do anúncio da Palavra de Deus, a oração pelos defuntos torna-se assim uma das finalidades principais da sua Congregação. O pensamento da morte, a perspectiva do paraíso, do purgatório e do inferno ajudam a “empregar” de modo sábio o tempo que transcorremos na terra; encorajam-nos a considerar a morte como etapa necessária do nosso itinerário para Deus; estimulam-nos a acolher e respeitar sempre a vida como dom de Deus, desde a concepção até ao seu fim natural. Que sinal significativo para o mundo dos nossos dias é o milagre da “inesperada continuação da gravidez entre a 7ª e a 8ª semana de gestação” que se verificou por intercessão do Padre Papczynski. O dono da vida humana é Deus!

O segredo da vida é a caridade: o inefável amor de Deus, que ultrapassa a fragilidade humana, leva o coração do homem a amar a vida, a amar o próximo e até os inimigos. Aos seus filhos espirituais o novo Beato confiou desde o início esta recomendação: “Um homem sem caridade, um religioso sem a caridade, é uma sombra sem o sol, um corpo sem a alma, simplesmente é uma nulidade. Aquilo que a alma é no corpo, na Igreja, nas ordens religiosas e nas casas religiosas, é a caridade”. Portanto, não admira verificar que, entre tantas contrariedades e cruzes, diversos discípulos seus se tenham distinguido pela sua perfeição evangélica. É suficiente recordar o venerável Servo de Deus Pe. Kazimierz Wyszynski (1700-1755), fervoroso promotor do culto mariano, o Beato Arcebispo Giorgio Matulaitis-Matulewicz (1871-1927), providencial renovador e reformador da Congregação dos Clérigos Marianos e padroeiro da reconciliação entre a Nação polaca e a lituana; os Beatos mártires de Rosica (Bielo-Rússia), Jerzy Kaszyra (1904-1943) e Antoni Leszczewicz (1890-1943), os quais, durante a segunda guerra mundial entregaram livremente a vida pela fé em Cristo e por amor aos homens. Até nos momentos dramáticos da perseguição, a obra do beato Estanislau não foi cancelada. O Beato Jorge Matulaitis-Matulewicz voltou a dar-lhe impulso, testemunhando, mais uma vez, que o Amor vence tudo.

Queridos Padres e Irmãos Marianos, é-vos hoje confiada a preciosa herança espiritual do vosso Fundador: acolhei-a e sede em toda a parte, como ele, incansáveis anunciadores do amor misericordioso de Deus, mantendo o olhar fixo em Maria Imaculada para que se realize em cada um de vós o projecto divino.

Queridos devotos e peregrinos, a Igreja na Polónia está em festa pela elevação aos altares deste seu filho eleito. O exemplo da sua vida santa e a sua celeste intercessão sirvam de encorajamento a todos para abrir sempre o coração confiante à omnipotência do amor de Deus. Repletos de alegria e de esperança, damos graças a Deus pelo dom do novo Beato e louvemo-lo com as palavras do apóstolo Paulo: “Ao Rei dos séculos, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém” (1 Tm 1, 17).

Fonte:http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20070916_paczynski_po.html http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/card-bertone/2007/documents/rc_seg-st_20070916_beatif-polonia_po.html
 

Para que o vosso fruto permaneça

Materiais da Comissao Geral para a Beatifi cacao

do Servo de Deus Padre Estanislau Papczyński,

Fundador da Congregacao dos Padres Marianos

Pe. Wojciech Skóra MIC,

Postulador Geral

 BIOGRAFIA DO PADRE ESTANISLAU PAPCZYNSKI

Rito de beatificação

Lichen, 16 de setembro de 2007

 O Venerável Servo de Deus Estanislau Papczynski nasceu no dia 18 de maio

de 1631 em Podegrodzie, na Polônia, na então diocese de Cracóvia. Faleceu em Góra Kalwaria, nos arredores de Varsóvia, na antiga diocese de Poznan, no dia 17 de setembro de 1701.

A sua vida constitui um extraordinário testemunho da misericórdia e da sabedoria divinas, as quais – como ele mesmo muitas vezes lembrou – lhe foram proporcionadas durante a sua longa e difícil vida. Ele descobria o amor de Deus, de maneira especial, na face de Cristo sofredor. A si mesmo, muitas vezes chamava de pecador e servo de pouco valor, encontrando unicamente em Cristo a esperança da sua salvação. Escrevia ele: Arrependo-me do fundo do coração e por amor de Deus desejo arrepender-me com a máxima perfeição dos meus pecados, que mergulho todos nas salvíficas chagas do meu Senhor e Redentor Jesus Cristo (Testamento I).

A experiência do amor de Deus despertou no Servo de Deus o desejo de viver

na perfeição evangélica, de maneira que aos 23 anos de idade ingressou na ordem das Escolas Pias. Como religioso e sacerdote – distinguindo-se pelo espírito da oração e da mortificação – ele mesmo atingiu uma profunda união com Deus e conduziu muitas pessoas à perfeição. À vocação universal dos cristãos para a santidade ele dedicou o livro Templo místico de Deus, lembrando essa verdade especialmente aos fiéis leigos.

Educado na devoção a Nossa Senhora, tinha um amor especial ao mistério da Sua Imaculada Conceição, descobrindo nele o cerne do cristianismo, isto é, o dom gratuito do imensurável amor de Deus para com o homem, alcançado por

Jesus Cristo e aceito por Maria como a primeira entre os crentes, com total amor e submissão a Deus. Nesse mistério depositava uma grande esperança de alcançar os bens eternos, muitas vezes exclamando: A Imaculada Conceição da Maria Virgem seja a nossa salvação e defesa. Percebia a forma fundamental do culto210 à Imaculada Conceição na imitação da vida evangélica de Maria, compreendida como cooperação com a graça divina concedida por Cristo.

Da contemplação do mistério da Imaculada Conceição surgiu a obra da vida do pe. Papczynski, a Congregação dos Padres Marianos, que – como ele mesmo muitas vezes repetia – fundou por inspiração do Espírito Santo. Após obter a dispensa legal dos votos simples na ordem das Escolas Pias no dia 10 de dezembro de 1670, iniciou a obra da fundação da comunidade dos marianos. Apesar das muitas dificuldades, graças à sua extraordinária confi ança no poder da Providência Divina, coroou a sua vocação de fundador, tendo obtido em 1699 a aprovação pontifícia para a sua congregação, com base na Regras das Dez Virtudes da SVM.

Três meses antes da sua morte professou os votos solenes na presença do núncio apostólico na Polônia, bem como aceitou esses votos de seus fi lhos espirituais. Antes de morrer confiou a pequenina comunidade dos marianos ao Senhor Jesus Cristo e à seletíssima Virgem Mãe Maria […] como a seus verdadeiros e únicos Fundadores, Guias, Defensores e Padroeiros.

O Fundador dos Marianos passou a ser conhecido como “Pai dos pobres”. Em

meio ao povo simples e espiritualmente abandonado, com grande empenho desenvolveu o seu trabalho apostólico. Dedicou-se também com zelo a outras obras de caridade, relacionadas com corpo e a alma. Através da sua fervorosa oração, para muitos alcançou a saúde e a graça da salvação. Por essas razões, ainda em vida era considerado um santo.

Entre os pobres do seu tempo, tratou com especial amor os agonizantes e os mortos em conseqüência da miséria e de numerosas guerras e epidemias. O ardente amor do pe. Papczynski aos falecidos tinha uma origem divina, moldada durante visões místicas do purgatório. Profundamente convencido de que todo ser humano é destinado à glória, ele mesmo, sem descanso, dedicou-se a essa obra de nobre amor, recomendando-a aos seus irmãos na vocação e estimulando a ela multidões de pessoas leigas. Escrevia ele: Porquanto, qual caridade pode ser maior do que a demonstrada aos falecidos, dos quais não podes esperar nenhuma recompensa, nenhuma gratidão e nenhum elogio? (Templo místico de Deus).

Em seu Testamento espiritual escreveu: A todos os presentes e a cada um dos

meus futuros irmãos e companheiros, para sempre entrego a mais maravilhosa

fundação: a Providência do Deus Bondosíssimo. Aos curiosos, deixo a minha

imagem para contemplar, e a imagem da vida de meu Senhor Jesus Cristo para imitar…

 Estanislau de Jesus Maria nasceu na Polónia em 1631, na aldeia de Podegrodzie. Em 1654 entrou na Ordem das Escolas Pias (Padres Escolápios), na qual fez a profissão religiosa e foi ordenado presbítero. Em 1670 deixou a Congregação dos Escolápios e, três anos depois, fundou a Congregação dos Padres Marianos da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria para promover a honra da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria, auxiliar as almas do Purgatório e ajudar os párocos na pastoral. A autoridade eclesiástica designou-o superior geral vitalício da Congregação por ele fundada. Nos seus escritos sobre retórica e espiritualidade promoveu a vocação universal à santidade quer dos religiosos quer dos leigos. Morreu com fama de santidade no dia 17 de Setembro de 1701.

 Dos escritos do Bem-aventurado Estanislau Papczynski, presbítero (Norma vitae, cap. II: De caritate) Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus De modo perfeito, o Mestre das Nações comparou ao bronze que soa ou ao címbalo que retine o servo de Deus que não possua o verdadeiro amor. Com efeito, a conquista da vida eterna e o valor dos méritos dependem do amor. Por isso, cada um de vós procure conquistar para si da forma mais eficaz, mais que todos os bens, essa pérola preciosíssima, esse tesouro escondido no campo. Porque, embora o amor de Deus seja um dom, ele é recebido e conservado através da oração incessante e da mortificação. Portanto, que, entre vós, tudo se faça com amor.

Os mandamentos de Deus e os conselhos evangélicos, as leis da santa Igreja

Católica Romana, as suas normas, decisões, ritos, costumes e também esta Regra e outras disposições que um dia possam ser promulgadas, sejam observados por amor a Deus. Assim, de facto, esclama o Mestre Celeste: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, o que deve ser entendido não apenas em relação à sua santa doutrina e à Sagrada Escritura, mas também em relação às disposições e aos documentos da sua santa Igreja, que Ele mesmo, através do Espírito Santo, instrui e dirige, e em relação às decisões dos superiores, que dela, isto é, da Igreja, provêm ou por ela são confirmadas.

Além disso, por amor a Deus, deveis cumprir tudo que é bom e evitar todo o mal. Deveis praticar toda a virtude possível, deveis abominar quaisquer transgressões e o pecado. Por amor a Deus, deveis de bom grado e corajosamente suportar as mortificações, as aflições, as repreensões, as injustiças, as calúnias, as dificuldades, os sofrimentos, a penúria, a severidade e outras coisas do gênero.

Por amor a Deus, deveis realizar com a máxima perfeição possível as vossas práticas de piedade, as vossas obrigações e as tarefas que vos forem confiadas, bem como tudo o que se relaciona com o vosso estado e a vossa vocação. Ao amor de Deus deveis dedicar todas as acções e experiências difíceis de toda a vossa vida, especialmente aquelas do dia-a-dia, bem como todos e cada um dos momentos, circunstâncias ou mudanças de todas e de cada uma dessas atividades e experiências. Com submissão, confiança e piedade, deveis oferecê-las, por toda a eternidade, no altar do amor, com coração puro, juntamente com os méritos de Cristo Senhor e de Sua Mãe Imaculada, bem como de todos os Santos e da Igreja universal.

Enfim, a vossa regra comum e o caminho mais seguro para o céu deve ser aquela que em ambos os Testamentos a Sabedoria divina quis reconhecer como a mais digna de recomendação: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente.

No que diz respeito ao amor mútuo, saibei que, entre vós, o mais caro à Divina

Majestade é aquele que mais se distingue no amor aos irmãos. Cada um lembre-se de que a alma do seu Instituto é o amor e de que, na medida em que dele se afastar, na mesma medida também se afastará da vida. Por conseguinte, da mesma forma que diligentemente se empenhar em contribuir para o bem, para a fama, para a pureza e santidade de toda a Congregação, também a cada um dos seus membros demonstrará o mesmo que desejaria para si. Evite, portanto, a peste perniciosa, que mais se opõe ao amor, constituída de: inveja, ódio, obstinação, rivalidade, desconfiança, difamação, antipatia, simpatia, ciúme, delação, injúrias, mexericos, maledicências, perseguição, parcialidade, desprezo dos outros, perturbação, confusão, brigas e disputas. E, como pela paz da própria alma, assim se empenhe pela paz dos outros e da casa, como um zeloso vigia do amor. Enfim, seja de toda a Congregação seja de cada um dos seus membros, procure afastar todo o mal.

Lembrai-vos do amor da Igreja primitiva, a respeito da qual o autor dos Actos dos Apóstolos diz: A multidão dos que haviam abraçado a fé tinham um só coração e uma só alma.

Além disso, em todas ocasiões que se apresentem não negligencieis a demonstração de todas as formas de amor às pessoas que não pertençam à Congregação, e manifestai um amor generoso não apenas em relação àqueles cuja benevolência experimentastes, mas também em relação aos adversários e inimigos (aos quais nosso Senhor justamente nos recomenda que amemos). Lembrai-vos sempre das obras de misericórdia que são feitas ao Chefe Supremo – Cristo – nos seus membros, e que serão as únicas a triunfar no seu severo julgamento.

 Perdão das culpas

A capacidade de perdoar, mencionada pelo Padre Estanislau entre as posturas

apropriadas às comunidades em que reside o amor cristão, foi por ele mais amplamente analisada em Templum Dei Mysticum. No capítulo 21, dedicado à

renovação do Templo Místico que se encaminha à ruína em razão de atos ímpios, o Fundador comenta catorze atos de piedade que o reconstroem e pelas quais tudo se pode alcançar de Deus. Entre os sete relacionados à alma, encontra-se o “perdão aos culpados” (TDM XXI) e o “perdão das culpas” (TDM XXI). Tanto a primeira postura, que diz respeito ao perdão da culpa, quanto a segunda, que se caracteriza pela desistência da vingança e da desforra, são para o Padre Papczynski um caminho de assemelhar-se a Cristo e de imitar a misericórdia do Pai Celestial: “O perdão aos culpados que contra nós praticaram o mal, a reconciliação com os inimigos, direi eu que propriamente isso é uma coisa não apenas cristã, mas simplesmente divina. Porquanto, em que mais expressamos a bondade divina senão no perdão das ofensas e no amor aos inimigos? Com efeito, a bondade de Deus mais para nós resplendeceu porque, quando éramos Seus inimigos, não apenas nos reconciliou consigo pelo Filho, que nos alcançou a graça no lugar dos pecados, mas, para satisfazer a justiça, quis oferecê-Lo por nós em sacrifício (TDM XXI). A prática do perdão na comunidade é um sinal infalível de que o amor que une os irmãos é realmente o amor cristão, que traz em si nitidamente os traços pascais e que haure a sua força do amor do Pai, que amou a nós pecadores e ofereceu Seu Filho para que tivéssemos a vida. O Padre Papczynski tem consciência disso quando afi rma que aquele que persegue o próximo junta-se aos algozes do próprio Cristo, ao passo que aqueles que suportam as perseguições e perdoam a culpa tornam-se semelhantes ao Cristo sofredor (cf. TDM XXI). Mais nitidamente ainda aponta para isso o fato de que, para o nosso Fundador, a falta do perdão apresenta-se em nítida contradição com a recepção da Eucaristia, como escreve a esse respeito, algumas vezes com palavras muito ásperas. Vale a pena citar pelo menos um desses rígidos pronunciamentos: “Ouvi vós, que alimentais ódios eternos e sustentais na alma a contínua obstinação, aguardando apenas uma ocasião para a desforra, e nesse ínterim, na Santíssima Eucaristia, juntamente com Judas beijais o Cristo Senhor: se as vossas culpas fossem perdoadas como vós costumais perdoá-las aos vossos inimigos, a questão da vossa salvação estaria definida: pereceríeis. Por isso amai os vossos inimigos – como o recomenda Jesus Cristo – para que sejais fi lhos do vosso Pai que está nos céus (cf. Mt 5, 44-45)”. (TDM XXI; cf. também IC 46r; IC 68r). A Eucaristia é a celebração do perdão e da reconciliação com Deus. Ao bebermos o Sangue de Cristo, como dizia S. Ambrósio, estamos bebendo o nosso perdão dos pecados e nos tornamos repletos do Espírito Santo. A rigidez do pronunciamento do Padre Estanislau lembra-nos que, ao nos aproximarmos da Mesa do Senhor com o coração repleto do espírito do ódio e da dissensão, não bebemos o perdão, mas sim a nossa sentença. A falta do perdão é para o Padre Papczynski um sinal de loucura, porquanto nos torna diante de Deus mentirosos e nos prepara uma sentença condenatória no juízo final. A esse respeito escreve belas palavras analisando as palavras de Cristo que da cruz perdoa aos Seus algozes: “Ao passo que nós somos levados pela loucura a tal ponto que preferimos cair no inferno a com serenidade de espírito perdoar alguma palavra mordaz, um pequeno desprezo, uma insignificante ofensa a nós infligida, mergulhando isso nas chagas do Salvador, apesar de todos os dias exclamarmos ao Pai celestial: Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós  perdoamos a quem nos tem ofendido (Mt 6, 12). Portanto, ou é preciso perdoar ou, se não perdoamos, é preciso mentir diante de Deus. Mas visando a qual proveito?

Para multiplicar o número das dívidas? Isso é absurdo e [é] prova da maior tolice! É preciso perdoar até àqueles que não o pedem, para que, pedindo, alcancemos o perdão de Deus. É preciso perdoar para que também a nós seja perdoado” (IC6-7). Vale a pena lembrar-se também de que o apelo à vida no perdão não diz respeito apenas ao relacionamento intracomunitário, mas, como claramente ordena o Padre Fundador em sua regra, deve irradiar-se igualmente para fora da comunidade religiosa (cf. NV II 5).

O perdão das culpas na comunidade é um dos sinais fundamentais do Espírito

do Senhor Ressuscitado dentro dela. Apenas Ele dá ao ser humano aquele amor que tem o poder de derrubar o muro da hostilidade que brota do pecado. Apenas o amor que vem do alto não busca o seu proveito e não se lembra do mal.

 

Artigos das constituições: 12, 91-100, 102, 107, 113-114; 12 Procurem distinguir-se, principalmente, pelo espírito de abnegação e sacrifício; pela humildade, piedade, laboriosidade; pela fé viva e firme e pela caridade ardente; pela mútua união fraterna e perfeita obediência aos superiores; pelo espírito apostólico e pelo zelo. [CM 10] 91 Todos estimem e favoreçam grandemente, como mãe nutrícia de todos os bens espirituais, a instituição da vida comum, que seja inflamada do espírito da família de Deus e da caridade fraterna, da santa e verdadeira amizade e de afeto cordial, de mútua solicitude e solidariedade. Sejam um só corpo e um só espírito como foram chamados a uma só esperança da vocação. [Ef 4,4; CM 278]

92 Observem todos, exatamente, a vida comum nas casas da Congregação, quanto à oração em comum, apostolado, mesa e habitação e toda a regra da vida. Por conseguinte ninguém deve ser livrado facilmente de qualquer exercício comum e, muito menos, seja deixado só, por longo tempo fora da comunidade. [CM 279; PC 15]

93. O superior maior, com o consentimento do seu conselho, pode permitir ao membro que permaneça fora da casa religiosa, mas não além de um ano, salvo se por motivo de estudos, de doença ou de apostolado exercido em nome da Congregação. [CM 280; CDC 665/1] Capítulo II

94 Os membros estendam a todos os confrades, com quem estão unidos pela

mesma vocação e regra de vida, a caridade “que foi derramada nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5,5), e pela qual nos unimos com Cristo pelo batismo e pela participação da Eucaristia. Fomentem entre si com a mente, o coração e o trabalho a mútua caridade que é alma da vida comum e de tudo aquilo que se faz na Congregação; antecipem-se em estimar-se reciprocamente, sejam mutuamente condescendentes e perdoem-se uns aos outros; corrijam uns aos outros no Senhor e estimulem-se em fazer o bem. [NV II,4; CM 288, 292; PC 15] 64

95 À maneira da Igreja primitiva na qual “a multidão dos fi éis era um só coração e uma só alma” (At 4,32), os membros vivam não somente com os outros, mas também pelos outros em espírito de serviço fraterno, esquecendo-se de si mesmos. Prestem-se mutuamente ajuda, obséquios, defesa e consolação. Unindo forças e conselhos, esforcem-se por conseguir os fi ns da Congregação em fraterna emulação, harmonia e unanimidade. Cada um alegre-se pelo feliz êxito do trabalho dos outros e ajude-os para que desenvolvam plenamente suas aptidões no serviço de Deus. [CM 288; PC 15]

96 Haja cuidado especial dos membros que estão doentes, idosos, inválidos.

Todos, e principalmente os superiores, usem de caridade e de solicitude para com eles, e procurem criar-lhes tais condições, que possam se sentir sempre úteis. [CM 394]

97 Carregando o peso uns dos outros, os membros suportem com paciência as falhas e as fraquezas dos confrades, inevitáveis na vida humana. Procurem tolerar e compreender, em caridade, as opiniões diferentes das suas e outras dissensões, provenientes da diversidade da índole, da idade ou nacionalidade. Assim seja conservada na Congregação a unidade de espírito no vínculo da paz. [Gal 6,2; Ef 4,3]

98 Em todo o corpo da Congregação, quer entre a casa principal e todas as províncias e casas, quer reciprocamente entre si, reine uma estreitíssima união, concórdia, conformidade e a maior caridade; fomentem-nas mediante freqüentes relacionamentos, através de comunicações e notifi cações daquilo que estão fazendo e é para edificação, e também mediante obras empreendidas comunitariamente. Havendo ocasião de ajudar outras casas ou províncias, os membros não faltem a esse dever de caridade. [CM 295]

99 Demonstrem grande caridade para com os membros provenientes das outras casas; hospedem-nos com carinho, prestem-lhes conselhos e auxílios na realização dos negócios, e, se o necessitarem socorrem-nos. Os hóspedes, por sua vez, procurem mostrar-se agradecidos aos confrades e deixar-lhes na casa, com o exemplo de sua vida, um estímulo para seguir à perfeição. [CM 289]

100 Se acontecer que algum membro estiver em perigo de perder a vocação,

a comunidade está obrigada a prestar-lhe ajuda necessária para vencer este

perigo.

102 Os membros, assumindo conscienciosamente a responsabilidade pelo bem da casa, empreguem uma cuidadosa diligência em observar a ordem diurna estabelecida, em cumprir os seus deveres, em prestar as prescritas contas e fazer relatórios. Os superiores, por sua vez ajudem-nos no fi el cumprimento dos deveres, promovendo e favorecendo a unânime colaboração e procurem que os assuntos de maior importância sejam discutidos em comum; contudo cabe ao superior com seu conselho discernir o que se deve fazer. [CM 321; CDC 26; PC 14] 65

107 Na ordem do dia seja prescrito, cotidianamente, algum tempo livre, a fi m

de restabelecer as forças, para um novo trabalho. O recreio favoreça não somente o corpo, mas também o espírito, nutra e fomente a mútua caridade entre os membros; recomenda-se a todos a paz, o bom humor e a alegria no Senhor.

113 Nas conversas sejam afáveis e simples, mas cautelosos, circunspectos e prudentes; na conversação conservem moderação, discrição e também singeleza e veracidade. Acautelam-se de não falar mal de alguém ou de lesarem sua fama, nem introduzam assuntos que possam desunir os ânimos. Empreguem todos os esforços para estabelecer entre todos o reino e a paz de Cristo, fomentar a concórdia e o senso da fraternidade e promover a salvação de todos. [CM 182, 189-191]

114 A humildade, a mansidão, a modéstia, as boas maneiras, a delicadeza e a

maturidade religiosa, a gravidade unida à afabilidade devem ornar de tal modo os membros que pelo porte exterior e decoro, sirvam de exemplo aos outros, edifiquem aqueles que encontrarem ou deles se aproximarem e tornem seu ministério mais eficaz. [CM 187] Itens do diretório: 58-69, 73, 182, 283.

58. Estimem muito a verdadeira amizade e a fomentem entre si; acautelem-se,

contudo, de não excluir alguns membros da conversa comum e evitem tudo o que tem ressaibo de leviandade e de sensualidade. Reine o amor mútuo, o qual seja espiritual, ativo e universal, isto é, se estenda a todos os irmãos e a todos abrace. (C.95)

59. Assim como é repreensível a demasiada preocupação com aquilo que se refere ao corpo, assim recomenda-se a todos um cuidado moderado e prudente das forças e da saúde do mesmo corpo, como preciosos dons de Deus, a fim de que possam aplicar-se melhor e por mais tempo ao serviço de Deus; procurem observar prudentemente a salubridade e os preceitos higiênicos. Quem perceber que alguma coisa prejudica gravemente a sua saúde, confesse-o com simplicidade e humildade ao superior (C.96)

 

A transposição da clausura relaciona-se com o abandono do “mundo” juntamente com as suas concupiscências e com a busca da perfeição religiosa. Nessa decisão, desde os primórdios da tradição da vida consagrada, inscreve-se o postulado de uma radical mudança de costumes. S. Bento, que lançou os fundamentos do monasticismo ocidental, fez da conversio morum um dos elementos da profissão monástica (cf. Regra de S. Bento, cap. 58). Todo aquele que ingressava na vida religiosa obrigava-se solenemente a uma luta constante com os defeitos e as paixões, a renunciar ao mundo e à sua forma de pensar (cf. Miroslaw Daniluk SCJ, Enciclopédia dos institutos de vida consagrada e associações de vida apostólica, Lublin, 2000, 81; cf. também Dizionario degli istituti di perfezione, 106-110). Essa radical mudança de forma de vida é para o Padre Estanislau uma condição indispensável para ingressar nos caminhos religiosos da imitação de Cristo. Ele escreve a esse respeito de forma sucinta e enfática: “[…] aqueles que seguem os passos de Cristo ou aqueles que querem segui-Lo tem de abandonar tudo: o mundo, as honras, as riquezas, as amizades, os amores, as pessoas próximas, os parentes, os pais e além disso a sua vida (cf. Lc 14, 26), submetendo a sua vontade à vontade de uma outra pessoa. Tal é, em síntese, o caminho daqueles que ingressam nos passos de Cristo” (IC 66r). A radical mudança de costumes deve ser o objeto da nossa incessante solicitude, e a sua negligência é uma hipocrisia que, em vez de frutos da vida, traz a condenação. Ao refletir sobre o evangelho

que narra o encontro de Jesus no templo, o Fundador parece perguntar a cada um de nós: “E agora, como passas os teus anos na casa de Deus? Com quanta tibieza, com quanta indolência, com quanta arrogância! Cuida para que não aconteça que com o traje religioso pareças imitar a Jesus, mas e pelos teus costumes te comportes como um devasso e te apresentes pior que uma pessoa do mundo. O estado religioso não salva ninguém, mas sim a vida religiosa. Talvez tenhas ouvido falar daquele soldado condenado que ingressou num instituto religioso e trocou o uniforme religioso pelo hábito, mas não mudou os seus costumes. Por isso, após a morte apareceu vindo do inferno e devolvendo o traje religioso no rabo do cavalo.

Deus te livre de seres um religioso apenas de nome, e não também na realidade. Se não abandonasses os maus costumes mundanos e se não correspondesses à tua vocação, terias um fim igualmente muito infeliz. Não pôde o castíssimo José, com sua esposa, a Santíssima Virgem, encontrar o Menino Jesus nas conversas, na leitura de curiosidades, no mundo, nas ruas, nas convicções contrárias ao teu gênero de vida e no estilo de vida das pessoas do mundo” (IC 12v-13r)…porquanto – embora vivendo entre os muros do convento – vivemos à maneira deste mundo. Será que algumas vezes não nos assemelhamos um pouco ao aquarista que se admira que os peixinhos por ele criados morreram, mas não percebe que, em vez de deixá-los no aquário, mantinha-os na gaiola dos canários?… Toda vida pode desenvolver-se apenas no ambiente que lhe é adequado.

Com a mudança dos costumes estão estreitamente relacionados os dois outros

postulados. O religioso é chamado para pronunciar um categórico “não” diante

do mal e de forma decidida submeter a sua vontade a Deus. Na vida e nos escritos do Padre Estanislau, tanto esse “fi at” dito a Deus como o “ápage” lançado contra o demônio têm uma natureza radical.

A intransigência na luta contra tudo aquilo que é mau manifesta-se em diversos

traços. Em primeiro lugar, para o Padre Papczynski não existe um pecado tão leve que possa ser menosprezado, não existe um defeito tão pequeno que não

mereça o esforço de ser extirpado com as raízes. Isso é especialmente importante, como observa o nosso Fundador, quando se leva em consideração o fato de que o ataque do diabo contra as pessoas religiosas inicia-se normalmente a partir de coisas aparentemente pequenas e sem importância. “Com a máxima diligência deves evitar as pequenas imperfeições e até os mínimos pecados. Sem dúvida eles não são percebidos quando os semeia o infernal malfeitor. Quando, no entanto, após quedas maiores e após uma grande quantidade de pecados graves os perceberes e sobre eles refletires, compreenderás que essas mínimas imperfeições, que com menosprezo admitiste, deram início àquelas graves. […] Evita as pequenas imperfeições a fim de impedires o acesso aos pecados maiores, ou, caso já se tenham propagado, afasta-os, a fi m de preservares o teu coração puro a muito pura a tua alma, e para fazer que pelo bem da tua salvação não pratiques no futuro transgressões maiores. Porquanto o espírito mau costuma proceder com as pessoas espiritualizadas de tal forma que não lança de imediato contra elas a rede através dos pecados graves, porque os abominam. Ele o faz através de pequenas imperfeições, quanto às quais sabe o que fazer para que as menosprezem, e então as conduz até aos pecados mais graves” (IC 22v). O Padre Papczynski está profundamente convencido de que as pequenas e desprezadas imperfeições do dia-a-dia é que pavimentam o largo caminho que conduz à condenação eterna e de que a sua tênue e delgada rede é inteiramente sufi ciente para o demônio enlear um religioso (cf. IC 88r). O radicalismo dessa intransigente luta com o mal é apresentado pelo Beato Fundador de forma concisa, e com ele certamente concordarão todos aqueles a quem Deus permitiu alcançar a santidade: “[…] Se não estás pronto a antes morrer do que voltar a pecar, fi ca sabendo que o Espírito Santo não reside em ti” (IC 57v).

No entanto o categórico “não” diante do mal não é sufi ciente para chamar aquele que o pronuncia um radical imitador de Cristo. Afi nal Ele mesmo nos adverte que o “terreno inculto” do coração humano, quando limpo e arrumado, é de bom grado novamente ocupado pelos infernais inquilinos (cf. Mt 12, 43-45). Toda conversão verdadeira não é apenas a rejeição do pecado, mas também, e sobretudo, a escolha de Deus. Os caminhos daqueles que buscam o perfeito amor sempre passam pela alternativa infl exivelmente colocada: amar o mundo até a rejeição de Deus ou seguir a Sua vontade até a rejeição do mundo. O nosso Fundador pronuncia o seu “fiat” ao Pai Celestial “com todo o seu coração, com toda a sua alma e com toda a sua força” (cf. Dt. 6, 5). Em suas refl exões escreve: “Tendo ingressado na vida religiosa, agora te entregaste a um Senhor melhor. Deves, portanto, proclamar e declarar a guerra contra o outro. Tem certeza de que, para bem a conduzires, poderás contar com a ajuda celestial, no entanto com a condição de que lutes como se deve lutar. Deus abençoa nas batalhas aqueles a quem convocou para a luta. Ataca, portanto, o que é do mundo, o que faz parte das más concupiscências, tudo aquilo que tens em ti de amor-próprio ou que novamente se insinua no teu coração, já dedicado a um outro Senhor: arranca isso ou decididamente afasta isso de ti. E fica convencido de que deves possuir aqueles anseios que estão de acordo com a tua vocação, que te estimulam ao desprezo de ti mesmo, à propagação da glória divina e ao zelo religioso. A seguir, deves de tal forma extinguir em ti o amor-próprio que não sobre dele uma centelha sequer. Muitas vezes acontece que, depois de apagado o incêndio, o fogo em alguma parte escondido novamente se acende. Da mesma forma, alguma centelha de amor-próprio que tenha sido deixada em algum lugar costuma provocar um incêndio maior que o inicial. […]

Lembra-te de que, quando servias ao mundo, tratavas a Deus com a máxima aversão. Tu na verdade não percebias isso, mas aquele oculto amor ao mundo não era outra coisa senão um ódio declarado à Divina Majestade. Porquanto não podias amar os dois ao mesmo tempo: Deus e o mundo; porque, da mesma forma que o Olimpo não admite a existência de dois sóis, também o coração não pode ter dois amantes. Por isso, amando o mundo, ao qual servias, odiavas a Deus, o que não percebias. E quando agora espontaneamente te tornaste um escravo de Deus, deves entregar-Lhe todo o teu coração e odiar já para sempre o mundo, teu senhor anterior. Procura, portanto, através de ações, provar que amas a Deus” (IC 78v-79r). A ausência da vontade própria e a verdadeira imitação de Cristo e a busca da 167vontade de Deus, através da submissão à obediência, é um dos motivos que mais freqüentemente aparecem nos escritos do Padre Estanislau. Buscai primeiramente o Reino de Deus e o resto vos será acrescentado; não trilheis os caminhos do mundo, que busca sobretudo o “resto”, e nunca a Deus (cf. IC 132r) – exclama Ele dirigindo-se a nós através da sua vida e do que escreveu. Será que realmente imitas a Cristo? – pergunta às mais profundas camadas da nossa consciência. O fato de teres professado os votos e de vestires o hábito não faz necessariamente de ti um discípulo de Cristo, mas pode acontecer que te inscreva apenas no número dos imitadores de Judas. “Disse-lhe: Segue-me. Leva em consideração o fato de que o testemunho da verdadeira conversão é a verdadeira imitação de Cristo. Judas não se converteu, porque, embora tenha seguido os passos de Jesus, acompanhou-O traiçoeiramente e cheio de falsidade O seguiu pensando nos seus interesses materiais.

De outra forma, como podes imaginar, procedeu São Mateus. Ele foi um verdadeiro imitador de Cristo, visto que, levantando-se, seguiu os Seus passos.

Do que se levantou? Do pecado. Aonde seguiu a Cristo? À prática das virtudes.Eis que tens aqui uma boa regra que te é fornecida para a imitação de Cristo: levantar-se e seguir os Seus passos. Se não te levantares, não serás capaz de acompanhá-Lo, ainda que te pareça que estás seguindo os Seus passos. Se nos recônditos do teu amor-próprio escondes os interesses do amor a ti mesmo e outros semelhantes, não segues a Cristo, não imitas verdadeiramente a Cristo, ainda que vistas o traje religioso, ainda que tenhas professado os votos da obediência, castidade e pobreza e disso te vanglories. Por isso levanta-te e segue-O, porque, se não te levantares, jamais O acompanharás” (IC 135v).

Como foi mencionado acima, o radicalismo da imitação de Cristo pode ser encontrado em muitos, senão em todos os aspectos da vida do nosso Fundador.

Os três apresentados nesta conferência, ou seja: a categórica rejeição do mal, por menor que ele seja, a mudança dos costumes e a busca de Deus de todo o coração, vontade e inteligência, não foram escolhidos ao acaso, porquanto são, em sua essência, a realização das promessas do batismo. É o início e o ápice de todo o caminho cristão, a sua própria essência – essa renúncia ao demônio, ao pecado e tudo que a ele conduz, bem como o ingresso no mundo pascal da vontade e do amor de Deus. O dom da vida religiosa nos foi proporcionado para que possamos ser cristãos. Chamando-nos ao caminho dos conselhos evangélicos, Deus mostrou a cada um de nós aquele lugar melhor, onde podemos ser plenamente cristãos.

Santo Inácio de Antioquia, ao seguir ao lugar do seu martírio, numa carta aos cristãos de Roma escreve que deseja ser cristão, e não apenas dizer que o é. Com grande fervor procura convencê-los de que unicamente na experiência radical do cristianismo, que é o martírio, ele pode tornar-se verdadeiramente um homem e discípulo de Cristo. Podemos dizer, mantendo as devidas proporções, que o Padre Papczynski faz um apelo semelhante aos seus irmãos na vocação: não é suficiente falar; é preciso ser. E, para ser, o nosso compromisso deve ser total e definitivo.

 …..Que as palavras do Beato, que bendizem o triunfo de Cristo sobre a morte, infl amem os nossos corações para a continuação da celebração litúrgica e para toda a nossa vida: “A morte morreu no momento em que no lenho morreu a Vida. Quando Jesus, dando o sinal da morte, tendo inclinado a cabeça, entregou o espírito, então voltou a nós o sopro da vida. Quando morreu, Ele nos fortaleceu. Quando superou a morte, preparou para nós a alegria em razão do infi ndável triunfo. Que triunfo foi esse? “Consumida está a morte na vitória” – alegremente exclamou Paulo. Zomba da morte: “Onde está a tua vitória, ó morte? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? […] Mas graças a Deus, que nos deu a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo” (Christus Patiens VII).

No Beato Padre Estanislau Papczynski resplandeceu a vitória do Senhor e a plenitude da Sua vida, decorrente da Páscoa. Que resplandeçam também em nós. Para a vida eterna. Amém!

OBRAS DE MISERICÓRDIA NOS ESCRITOS E NA VIDA

 DO PADRE ESTANISLAU PAPCZYSKI, FUNDADOR DOS

MARIANOS[1]

Pe. Casimiro Krzyzanowski, MIC

Introdução*

Templum Dei Mysticum (TDM), O Templo Místico de Deus, é o escrito latino

que apresenta a mais completa e detalhada exposição da doutrina do Pe. Papczyski sobre as obras de misericórdia. Essa está contida no Capítulo XXI, intitulado:

 “Restauratio Templi Mystici”, “Reparação do Templo Místico”. Aqui, o “templo

místico de Deus” é a alma do cristão. Esta alma, afirma Pe. Estanislau, é destruída pela “opera impia”, isto é, os pecados, e, por isso, são necessárias obras misericordiosas, “opera pia”, para efectuar a “restauratio”, a reparação, isto é, uma renovação da alma, para a restabelecer no estado anterior. Numa palavra, o que foi danificado é preciso repará-lo.

 As obras de misericórdia são chamadas pelo Pe. Papczy􀀇ski “Pietatis actiones”, isto é, acções de piedade, de bondade, de clemência, e afirma que, por meio delas, se pode alcançar tudo de Deus: “quibus effeceris omnia apud Deum”1. O Pe. Estanislau segue a tradicional divisão das obras de misericórdia, que são catorze: apresenta as sete que dizem respeito ao corpo, as obras corporais e as sete que dizem respeito à alma ou ao espírito, as obras espirituais.

 A. Obras de misericórdia corporais

Pe. Papczyski põe em primeiro lugar a obra visitandi infirmos, visitar os enfermos. Esta obra de misericórdia, diz ele, é expressamente louvada por Jesus Cristo, porque é uma das obras pelas quais, como feitas a Ele próprio, no juízo final se receberá o Reino celeste: “estive doente e viestes visitar-me” (Mt 25, 36). “São de louvar, diz Pe. Estanislau, os que visitam os doentes pobres, e, por isso, chegam ao seu leito non vacuis manibus, isto é, não de mãos vazias.

 …Pe. Papczyski dedicava-se frequentemente a esta obra de misericórdia. Como o afirma um dos textos do seu Processo, deslocava-se “septios ad infirmos”, muito frequentemente aos enfermos, e Pe. Leporini informa-nos que visitava frequentemente os hospícios para os pobres, distribuindo por eles copiosas esmolas e provendo-lhes “necessaria”, as coisas para satisfazer as suas necessidades materiais e para cuidar das suas doenças. Além disso, com as suas orações, às vezes obtinha-lhes a cura.

Pe. Papczyski procurava “diligentemente” aliviar “inopias et calamitates”, isto

é, as indigências e os infortúnios dos pobres, e, por isso, mereceu o apelativo de “Pater pauperum”, Pai dos pobres e “Pater agentium et orphanorum”, Pai dos necessitados e dos órfãos.

Pe. Wyszyski menciona o facto de que Pe. Papczyski erigiu um hospício para manter, com meios de subsistência de todo o género, os idosos pobres, em Góra.

Quando a construção deste hospício foi interrompida com a morte do bispo Wierzbowski, para salvar esta obra de misericórdia, Pe. Estanislau dedicou-se a esse trabalho com os seus companheiros religiosos e, “com as próprias mãos”, completou a construção. “Redemptio captivorum, isto é, empenho em libertar os prisioneiros, especialmente das mãos dos infiéis”. “Oh, como é gloriosa! Como é rica em mérito!”, exclama Pe. Papczy􀀅ski, no louvor desta quarta obra de misericórdia corporal. Depois apresenta o exemplo do bispo Paulino de Nola, o qual, “depois de ter prodigalizado para este fim tudo o que pertencia à Igreja e o que ele mesmo possuía, se ofereceu prisioneiro voluntário aos Vândalos, como substituto de um jovem, filho de uma viúva pobre”. Pe. Papczyski dirige-se aos ricos e pergunta-lhes se “o seu ouro, que geme na prisão [isto é, em qualquer esconderijo], não deveria ser usado de um

modo mais conveniente para redimir os prisioneiros que gemem como escravos nas mãos dos Mouros e dos Tártaros!”

 Louva S. Pedro Nolasco e S. Raimundo porque “fundaram uma Congregação de religiosos que se dedicavam à redenção dos prisioneiros, até ao ponto de se oferecerem a eles mesmos em seu lugar para obter a sua libertação. Pena é, diz ele, que tais homens, tão santos e piedosos, os mercedários, não se encontrem na Polónia, pois poderiam prestar auxílio a tropas inteiras de polacos que estão detidos nas mãos dos Tártaros e dos Turcos, expostos como estão ao perigo de perder a sua salvação eterna”, evidentemente, perdendo a fé. Depois, oferece outro exemplo: “no cálculo de Deus, diz ele, ao asceta santíssimo Teódulo foi equiparado um comediante Cornélio, o qual, para remediar à vergonha de uma certa mulher e para obter a liberdade para o seu marido dissipador, encarcerado pelos seus credores, vendeu o vestuário e os móveis da casa, e com quatrocentas moedas de ouro assim adquiridas socorreu a miséria de outrem”. Disto se vê, conclui Pe. Papczyski, que “Deus vos estima muito, a vós que não tendes em nenhuma estima os vossos tesouros, quando os gastais em favor dos pobres”.

A quinta obra de misericórdia espiritual, que consiste em cuidar de “nudos operire, isto é, de vestir os nus, é-nos imposta, segundo o Pe. Papczyski, pela própria lei da natureza. Porque, quem somos nós para poder suportar descoberta a carne proveniente da nossa carne?

“Não o pôde, diz ele, aquela Taumaturga de Sena [isto é, Santa Catarina de Sena], a qual se despojou da sua túnica [aqui chamada: ‘veste interior’] para cobrir um pobre, e, por isso, como dom de Cristo, obteve a impassibilidade ao frio”4.

“Não o pôde suportar, Martinho, ainda catecúmeno, o qual, com a metade do

seu manto, cobriu um homem nu, isto é, Cristo”, observa Pe. Estanislau.

“Não o pôde suportar, João [de facto, era Pedro] Gamrat, Bispo de Cracóvia, o

qual, embora não sendo santo, de um carro com indumentos, que o acompanhava, costumava distribuí-los aos indigentes que encontrava, enquanto passava pelos caminhos. Por isso, mereceu ser avisado, pelo céu, da sua morte, a tempo oportuno, a fim de que pudesse juntar a penitência à misericórdia e se salvasse.

… “Ai de vós, dirige-se Pe. Estanislau àqueles que descuram esta obra de misericórdia, que talvez dais alimento a muitos cães e permitis que os homens morram de fome! A vós que fechais os batentes da porta aos peregrinos e impedis, também, às vossas portas, a entrada aos homens pios e religiosos, Cristo não vos expulsará da porta do Céu?

“Não sabeis, pergunta Pe. Papczyski, que a prostituta [Raab], pela hospitalidade oferecida benevolamente aos dois exploradores, foi recebida nas moradas celestes?” (Cf. Jos 2, 1-22; 6, 22-23.25)5.

Depois, Pe. Papczy􀀃ski cita o provérbio: “Hospes venit, Christus venit”, isto é “Chega um hóspede, chega Cristo”, que nos recorda o provérbio polaco (e português): “Hóspede em casa, Deus em casa”, e explica: “quem recebe um hóspede recebe Cristo; e Cristo, por sua vez, conclui o nosso autor, não receberá aquele que o acolheu nos tabernáculos eternos?”.A resposta a esta pergunta é: sim, recebê-lo-á certamente.

Considerando a sétima obra de misericórdia corporal, Pe. Estanislau exorta os

fiéis a “Sepelire mortuos, isto é, sepultar os mortos gratuitamente, só por caridade; e isto, segundo Pe. Papczy􀀃ski, não é para Deus um serviço de pouco valor. Este acontece raramente, anota ele, especialmente quando são poucos os que nele participam e também poucos os que o fazem. E entre estes, famosíssimo é Tobias, o velho, o qual pelas suas acções de piedade, como a de sepultar os mortos, se torna amigo de Deus”, como o afirma o nosso autor no início do capítulo. Pe. Papczy􀀃ski cita as palavras dirigidas a Tobias pelo Arcanjo Rafael: “Enquanto oravas, tu e a tua nora Sara, eu apresentava as vossas orações diante da glória do Senhor. Da mesma forma, enquanto enterravas os mortos, eu também estava contigo” (Tob 12, 12). E daqui, Pe. Papczyski conclui: “certamente de um modo eficassíssimo reza aquele que, crendo obter a misericórdia de Deus, a exerce para com o homem. Na verdade, pergunta o nosso autor, que misericórdia pode ser mais insigne do que a prestada aos mortos, dos quais não se pode esperar nenhuma recompensa, nenhuma gratidão e nenhum louvor?”6.

5 Trata-se daqueles dois exploradores enviados por Josué a Jericó. Pe. Estanislau chama-os Josué e Caleb, mas verdadeiramente não são conhecidos os seus nomes. Naquilo que diz respeito à recompensa dada a Raab por esta hospitalidade, do livro de Josué, só se sabe que esta com a sua família foi salva do extermínio dos habitantes de Jericó (“não morreu com os incrédulos”); mas, da Carta aos Hebreus e da Carta de Tiago, sabe-se que Raab foi salva pela sua fé ( He 11, 31), justificada por causa das suas obras (Tg 2, 25)

6 Hoje, à luz da doutrina da comunhão dos santos em Cristo, acreditamos que podemos ser ajudados por todos os fiéis defuntos, seja pelos que já são glorificados seja pelos que ainda se purificam depois desta vida ( cf. Catecismo da Igreja Católica, 956, 958, 1475 e 1479). No tempo em que viveu o Pe. Estanislau, acreditava-se que só depois das almas alcançarem o céu é que poderiam “recompensar-nos” da ajuda que lhe prestamos (cf. infra, quando se fala sobre a sexta obra de misericórdia espiritual).

 “E, por isso, afirma Pe. Papczyski, os que fazem tais coisas sem dúvida que

procuram a vida imortal”.

 B. Obras de misericórdia espirituais

São, depois, apresentadas, de um modo mais desenvolvido, as obras espirituais, assim chamadas, explica Pe. Papczyski, porque dizem respeito à “alma e não ao corpo”.

A primeira obra de misericórdia espiritual é: “Consilium dare indigenti”, ou seja, aconselhar quem tem necessidade de conselho. Habitualmente, refere-se aos que têm dúvidas, que têm necessidade de conselho. Pe. Papczy􀀃ski afirma que “mentis optimae est, isto é, é de óptima índole dar conselho sincero e salutar”. E prova-o do seguinte modo: “Deus criou os sábios, a fim de que os não sábios [ isto é, os homens com pouca capacidade de discernimento] sejam ajudados e dirigidos por eles.

Verdadeiramente piedoso é quem o faz sem ambicionar e procurar recompensa. Porque às vezes um recto conselho, afirma Pe. Estanislau, ajuda mais do que não sei quantos subsídios pecuniários. Muitos se precipitariam no Inferno se não encontrassem óptimos conselheiros; não poucos se perderiam se não se salvassem por um conselho de outrem.

Por isso, exorta o nosso autor, dêem os peritos o conselho no foro de consciência, no foro dos assuntos públicos, na cúria, nos campos militares; o conselho que achem mais salutar e útil, e o façam movidos pela caridade e, então, com esta exímia virtude, proverão também muito à própria salvação”.

Pe. Papczy􀀃ski afirma que os que procuram alcançar a perfeição, se se servem de óptimos conselheiros, fazem um máximo progresso nela e ilustram a Igreja inteira com as suas obras. Isto vê-se, segundo ele, na vida de Santa Teresa de Ávila: “Quantas grandes coisas, afirma ele, fez na Igreja a virgem Teresa, a qual se serviu, para além do Espírito Santo, de óptimos conselheiros!” E menciona um deles, S. Pedro de Alcântara, o qual “não só a ela, mas a muitos outros com os seus conselhos promovit ad astra”, isto é, fez avançar até ao Céu, aos cumes da virtude.

Por isso, afirma ele, “devem-se derramar os dons do Espírito Santo. Seria inveja e malícia se alguém recusasse mostrar justas e honestas coisas àquele que deseja sabêlas”. E, por fim, admoesta contra a avareza da qual é movido “quem quer receber mercês pelo seu conselho”.

Pe. Leporini afirma que Pe. Papczyski era conhecido como “Vir Consiliorum”,

isto é, homem famoso pelos seus conselhos, enquanto “os homens de todos os estados, condição e sexo iam a ele como a um oráculo e regressavam satisfeitos, dando graças a Deus”7.

“Dare veniam in nos delinquentibus, isto é, perdoar os ofensores e reatar relações amigáveis com os inimigos”. Realizar isto, afirma Pe. Papczyski, louvando esta segunda obra de misericórdia espiritual, “não é só propriamente cristão, mas é verdadeiramente divino”. E prova-o deste modo: “Em que é que exprimimos mais a bondade de Deus do que em perdoar as ofensas e em amar os inimigos? Já que a máxima bondade de Deus se manifestou em nós no facto de que, quando éramos seus inimigos, ele nos reconciliou consigo por Seu Filho. Deus não só nos concedeu o perdão dos pecados, mas, para satisfazer a justiça, quis que o Filho fosse imolado por nós. É LEPORINI, § 68.

isto que nos ensina o Apóstolo quando diz: «De facto, quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu pelos ímpios. Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa boa talvez alguém se atreva a morrer. Mas é assim que Deus demonstra o Seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós. […].

…Pe. Papczy􀀃ski, no Orator Crucifixus, cita Isidoro Clário, o qual afirma que Deus “permite que aconteçam as ofensas entre os homens, a fim de que todos tenham alguns devedores, aos quais deve ser dado o perdão; para que assim

 Ele possa perdoar-nos máximos débitos, que Lhe tínhamos de pagar”10. “E nós, maravilha-se Pe. Estanislau, que assim imprudentemente deliramos, preferimos antes precipitarmo-nos no Inferno do que suportar com paciência, perdoar, mergulhar nas feridas do Salvador qualquer pequena palavra de sarcasmo, ou um exíguo desprezo, ou uma pequena injúria. Contudo, todos os dias clamamos ao Pai celeste: «perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido». Se, portanto, não perdoamos, aumentamos as nossas ofensas, e isto é um absurdo e a prova de máxima insânia”. E Pe. Papczyski conclui: “O perdão deve ser dado sobretudo também àqueles que não no-lo pedem, para que, pedindo-o, o possamos obter de Deus. Devemos perdoar, a fim de que nos seja perdoado”11.

Quem, porém, quer ter a firme certeza desta clemência divina, deve, segundo Pe.Estanislau, não só perdoar aos seus ofensores, mas também amar os inimigos. De facto, das palavras de Jesus: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34), aprendemos que “devemos amar os nossos inimigos e perdoar-lhes as injúrias, a fim de que consigamos, assim, o certíssimo perdão e a remissão dos nossos delitos”12. Mais ainda, quem ama os inimigos obtém não só a remissão dos pecados mas também a adopção de filho de Deus, como o prometeu Cristo: “Amai os vossos inimigos”, […] a fim de que sejais filhos do vosso Pai, que está nos Céus”(Mt 5, 44-45).

Pe. Estanislau, tendo diante dos olhos tal dúplice efeito, exorta os fiéis ao amor

para com os inimigos, com as palavras de Santo Agostinho: “«exorto-vos ao amor para com os inimigos, porque não conheço nenhuma medicina mais útil para a sanação das feridas dos pecados. Embora exija muito esforço amar os inimigos será grande o prémio no futuro». Oh felicíssimo homem, exclama Pe. Estanislau, que por amor aos inimigos, obtém seja a remissão dos pecados seja a adopção de filho de Deus!”13.

Pe. Papczyski perdoava facilmente as injúrias recebidas. Os seus inimigos, se

caídos em qualquer grave doença, juntamente com o perdão, às vezes, recebiam das suas mãos também a cura; de uma ou de outra maneira eram ajudados por ele. Toda a sua vingança para com os adversários consistia no dirigir-se a eles com as palavras de Santa Hedviges: “Parcat tibi Deus!”, “Deus te perdoe!”14.

Na Norma Vitae, Pe. Papczyski exorta os Marianos a mostrar, sempre e em todas as ocasiões, às pessoas não pertencentes ao Instituto, mesmo às inimigas, “toda a possível caridade”, e quer que os Marianos se recordem sempre das obras de misericórdia, “que são feitas ao supremo Cristo Cabeça nos Seus membros”15.

Passando à terceira obra de misericórdia espiritual, Pe. Papczy􀀇ski afirma que

“Solari afflictos, ou seja, consolar os aflitos, não só com palavras, mas também com obras, não é uma fácil piedade”.

Pe. Papczyski distinguiu-se nesta obra de misericórdia. Segundo a irmã Otólia,

sua contemporânea, “ele consolava e ajudava os necessitados nas suas tribulações, enfermidades e aflições”16. Obtinha várias graças e consolações para aqueles que, nas suas aflições, se recomendavam às suas orações17.

“Tal piedade, anota o nosso autor, foi manifestada, segundo a narração de

Virgílio18, pela [rainha] Dido, a qual disse: «Non ignara mali, miseris succurrere disco – não ignorante dos males, aprendo a socorrer os míseros»19”. E Pe. Papczyski explica:

“deixando para trás a coutada da sua pátria Tiro, Dido, com toda a cidade de Cartago, recebeu o exilado Eneias com suma afabilidade. Embora pagã, mostrou o modo de socorrer os aflitos com os factos”.

E, depois, Pe. Estanislau dá-nos outros exemplos desta piedade: “A Job, os fiéis amigos, às palavras repletas de consolação acrescentaram os dons: «deram-lhe cada um uma cordeira e um brinco de ouro»” (Job 42, 11).

“A Mãe de Deus, a Beatíssima Virgem, angustiada pela crudelíssima morte do

seu dilectíssimo Filho, era confortada por João: a partir daquela hora, em que se fechou o nosso clementíssimo Salvador no túmulo, «tomou-a consigo» (cf. Jo 19, 27)”.

“O próprio Mestre celeste, encorajando os discípulos, dizia: «o vosso coração

não se perturbe nem se entristeça»” (Jo 14, 27).

“Ao contrário, o profeta, chorando sobre Jerusalém, cantava: «Chora sem cessar pela noite dentro; as lágrimas correm-lhe pelas faces. Entre todos os seus amantes, não há um que a console; todos os seus aliados a traíram, tornaram-se seus inimigos» (Lam 1, 2)”.

E Pe. Papczyski pergunta-se: “Que é mais grave do que não ter alguém que se

condoa, participando na sua dor? Que é mais cruel do que acrescentar uma aflição a um aflito?”.

Por isso, Pe. Estanislau admoesta os fiéis: “Estai atentos, Cristãos, alegrai, se

puderdes, também um triste inimigo. Alexandre vitorioso nobremente mostrou

compaixão por Dario vencido. A nós tais coisas não nos convêm. Contudo, o Apóstolo ordena-nos «chorar com quem chora» (Rom 12, 15). E nem Cristo, nosso Rei e Legislador, nos ensinou outra coisa com o seu exemplo, quando, «vendo a cidade», em que pouco depois deveria ser morto e que em breve seria destruída, «chorou sobre ela» (Lc 19, 41)”.

É de notar que Pe. Papczyski já se referiu a este episódio evangélico quando

tratou sobre o perdoar os ofensores. “Facilmente, se condói, também, afirma Pe. Estanislau, com a ruína espiritual dos outros aquele que experimentou a própria fragilidade. Famosíssimo era aquele padre Felipe Néri, o qual, ouvindo que alguém cometeu um pecado mais grave, costumava dizer: «Deus me conceda que eu não faça coisas piores».

“Certamente se uma calamitas – calamidade sofrida pelo próximo, às vezes,  provoca lágrimas em nós, é sobretudo a ruína espiritual que deve provocá-las, afirma Pe. Estanislau. Porque, que é mais infeliz do que o homem feito inimigo de Deus pelo

pecado? Tais homens devem ser, de todos os modos, encorajados, ajudados”.

E, depois, Pe. Estanislau anota que disto depende uma outra obra, a quarta obra

de misericórdia espiritual:

 Prudência e Mansidão

 Depois, Pe. Papczyski volta ao discurso sobre a prudência da repreensão,

porque, diz ele, “é preciso ter em conta a natureza daqueles que são repreendidos e a sua índole; devem ser tidos em consideração a ocasião e o modo de fazê-lo sapientemente. Mais, para os obstinados e os que estão privados da graça, é preciso pedir a Deus com máximo fervor para que realize com a sua luz o que supera a nossa prudência ou autoridade, do mesmo modo que transformou, às vezes, homens de máxima malvadez em homens de máxima santidade. Aqui é mais útil a oração do que uma rígida correcção ou uma severa repreensão. Por isso, disse muito bem o autor da Imitação de Cristo: «O que o homem não pode corrigir em si mesmo ou nos outros deve sofrê-lo com paciência, enquanto Deus não dispuser o contrário […]. Se alguém, depois de admoestado, uma ou duas vezes, não aceder, não alterques com ele; mas entrega tudo a Deus, que sabe tirar o bem do mal, para que a Sua vontade seja feita e o Senhor glorificado em todos os Seus servos»21”.

Porém, Pe. Papczy􀀃ski, citando estas palavras, não quer dissuadir da correcção, porque, diz ele, “unicuique mandatum est de proximo suo – a cada um é-lhe confiado o seu próximo. Contudo, continua o nosso autor, nem permito a indulgência, porque ela lança na ruína inteiras agregações.

“Quero, diz ele, que aqui esteja unida a caridade com a prudência e a paciência.”

 Aceitar ser julgado

 Pe. Estanislau anota que “já São Paulo recomendava bastante esta obra de misericórdia aos Coríntios”; procurava corrigir o seu modo de agir contrário a ela, dirigindo-lhes esta admonição: “«No entanto, um irmão processa o seu irmão, e isto diante dos não crentes! Ora, a existência de questões entre vós é já um sinal de inferioridade. Por que não preferis, antes, sofrer uma injustiça? Por que não preferis ser prejudicados? Mas, pelo contrário, sois vós que cometeis injustiças e causais danos, e isto contra os próprios irmãos! Ou não sabeis que os injustos não herdarão o Reino de Deus?» (1 Cor 6, 6-9)”.

“Desta cláusula do Apóstolo, verdadeiramente grave, afirma Pe. Papczyski, compreendo que é feliz quem sofre as ofensas; e, pelo contrário, é infeliz quem as faz. Quando aquele é exaltado pela recusada vingança tanto mais este é humilhado por Deus

… É bom perdoar, mas é mal irritar, ofender, oprimir. Enquanto eu, perdoando imito Cristo, tu perseguindo-me, rivalizas com os opressores de Cristo.

“Por isso, diz Pe. Papczyski, persuado a que se perdoem as ofensas, mas dissuado para que estas não se inflijam. Porque é útil para mim sofrer inocentemente, mas para ti é muito danoso maltratar-me. Ai! Então tu estás destinado a ir precipitadamente para o inferno, porque com a tua perseguição me fazes avançar para o Céu?” E Pe. Estanislau conclui com as palavras de Tomás de Kempis: “«Tem um grande e salutar purgatório neste mundo o homem paciente que, recebendo injúrias, mais se dói com a maldade dos outros do que com as próprias afrontas»33”.

 Ao perdão das ofensas convida-nos, sobretudo, afirma Pe. Estanislau, o exímio

exemplo que nos é dado por Cristo Crucificado, o qual assim rezava: “Perdoa-lhes, ó Pai, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). É a “primeira palavra” pronunciada por Cristo, da cruz, e Pe. Papczy􀀃ski desenvolve-a de modo a mostrar que, “remittendo remissionem obtineri, isto é, perdoando as ofensas aos outros, nós mesmos obtemos o perdão dos nossos pecados”34.

Portanto, Pe. Estanislau insiste que se perdoem as ofensas; exorta os fiéis para que perdoem aos inimigos, aos caluniadores, aos difamadores, aos perseguidores, aos adversários, aos invejosos, aos opressores: “Perdoa-lhes, e Deus te perdoará; com a tua mansidão provocarás a clemência de Deus: acredita-me, não permitirá ser superado por ti nela”35.

 [1]

 Esta conferência foi proferida em italiano a 5 de Abril de 2002, na V Semana de Espiritualidade sobre a Misericórdia de Deus, realizada no Convento de Balsamão, de 2 a 7 de Abril de 2002. Está publicada in IV E V SEMANA DE ESPIRITUALIDADE SOBRE A MISERICÓRDIA DE DEUS, Obras de Misericórdia, Edições MIC, FÁTIMA 2003, pp. 255-277. A tradução portuguesa, para esta publicação, foi feita pelo Pe. Basileu Pires, MIC, e pelo, ainda noviço, Ir. João Rodrigues, MIC.

Fonte:http://www.stanislauspapczynski.org

Biografia pelo Padre Basileu Pires

 Depois de uma adolescência e juventude marcadas pela aventurada e pela dor, em que abandonou, por cerca de dois anos, a casa dos pais, João faz os seus estudos, primeiro, no Instituto das Escolas Pias, e, depois, no colégio dos Jesuítas, onde fez os estudos humanísticos, e, em 1654, conclui o curso bienal de Filosofia.
Foi, provavelmente, aos 19 anos, durante os seus estudos no Instituto dos Piaristas, que João se sentiu chamado para ser religioso nessa congregação. É a 2 de Julho de 1654, já com 23 anos, que decide entrar para o Instituto das Escolas Pias da Mãe de Deus (Piaristas), recebendo o nome de Estanislau de Jesus Maria.
Naquele tempo a Polónia tinha sido invadida pelas tropas suecas. Certo dia, o noviço Estanislau foi agredido por um soldado sueco, protestante. Quando este puxou da espada para o matar (provavelmente, só porque viu nele, pelo hábito que vestia, um representante da Igreja Católica), Estanislau apresentou-lhe o pescoço para receber o golpe fatal, na esperança de poder dar a própria vida pela verdadeira fé. O soldado deu-lhe três golpes, os quais, porém, não lhe causaram senão uma intensa dor.
Emitiu os votos na Congregação dos Piaristas a 22 de Julho de 1656.
Ainda antes de ser ordenado padre, foi professor de Retórica durante 5 anos nos colégios da sua Congregação. A 12 de Março de 1661 é ordenado sacerdote. Continua como professor de Retórica até 1669. Sobre o assunto escreve um livro intitulado Introdução à Rainha das Artes, que foi publicado, pela primeira vez, em 1663, sendo muito apreciado.

Exerceu primorosamente o ofício de pregador, conquistando depressa o renome de “Orador famoso”.

Por defender que a eleição de todos os superiores da Província polaca da Congregação dos Piaristas fosse feita pelo Capítulo Provincial, de acordo com a legislação da Igreja e por defender a fiel observância da regra nas comunidades da sua Província, entrou em conflito com os superiores, tendo sido considerado um “perturbador da Província”. As constantes e graves perseguições promovidas pelos superiores à sua pessoa, o relaxamento da observância da vida religiosa entre os Piaristas, o desejo de estabelecer a paz e a tranquilidade entre os membros divididos, por causa dele, em duas facções opostas e o impedimento imposto pelos superiores à sua actividade literária foram as principais razões que levaram o Pe. Estanislau a sair da Congregação dos Piaristas, em 1670. Mas, no acto formal da saída, o Pe. Estanislau acrescentou uma solene proclamação (Oblatio) da sua plena adesão à segunda vocação religiosa, ou seja, a de iniciar um novo Instituto religioso, o dos Clérigos Marianos da Imaculada Conceição, e de viver nele segundo o espírito dos conselhos evangélicos, até à morte.

A grande aventura e missão do Beato Estanislau de Jesus Maria Papczyñski foi, sem dúvida, a fundação da Ordem dos Marianos da Imaculada Conceição.
Depois de muitas dificuldades passadas para obter a dispensa dos votos simples e do juramento de perseverança no Instituto dos Piaristas, em Setembro de 1671, veste o hábito branco em honra da Imaculada Conceição, pela qual era um apaixonado.
O P. Estanislau apresentou o seu projecto (expresso na Norma de vida) de fundação do Instituto da Imaculada Conceição a um grupo de eremitas de Korabiew, que aceitou, iniciando assim a primeira comunidade do novo instituto. A 24 de Outubro de 1673, o bispo da Diocese visitou esta comunidade, reconhecendo a Norma de vida do P. Estanislau e acrescentando-lhe uns Estatutos, dados por ele. Esta é reconhecida como a data da fundação da Congregação dos Marianos da Imaculada Conceição.
Em 1690, o Bem-aventurado Estanislau vai a Roma a fim de tratar da aprovação pontifícia do Instituto. Depois de perder a esperança de obter a aprovação com base nas próprias Constituições, decidiu escolher uma Regra já aprovada pela Santa Sé e agregar-se a uma Ordem já existente. Escolheu a Ordem da Imaculada Conceição de Santa Beatriz da Silva (portuguesa) e a Regra da mesma. A sua escolha não foi aceite por se tratar de uma Ordem feminina e por a Regra não ter sido adaptada a institutos masculinos. Regressa à Polónia.

A aprovação pontifícia é dada a 24 de Novembro de 1699, pelo Papa Inocêncio XII, ficando a Congregação dos Marianos da Imaculada Conceição sob a Regra das Dez Virtudes da Bem-aventurada Virgem Maria, com a consequente agregação à Ordem dos Franciscanos, com a tríplice missão de:

– Defender o mistério da Imaculada Conceição (Este dogma ainda não tinha sido definido. Foi esta a primeira Congregação masculina dedicada à Imaculada Conceição);
– Oferecer sufrágios pelas almas do Purgatório (particularmente pelos falecidos na guerra e dizimados pela peste);

– Prestar auxílio aos párocos (particularmente na catequese do povo simples).

Pe. Estanislau foi um intrépido apóstolo da abstinência das bebidas alcoólicas e determinou que essa fosse também uma característica da sua Ordem. Além da sua dedicação às obras de misericórdia espirituais, particularmente a do socorro às almas mais necessitadas do Purgatório, foi conhecido como um homem de “máxima caridade para com os irmãos” e apelidado de “Pai dos pobres”, “Pai dos necessitados e dos órfãos”.
A 14 de Abril do mesmo ano, O Servo de Deus Estanislau e os seus companheiros, convocados em Capítulo, aceitaram a Regra das Dez Virtudes Evangélicas de Maria e declararam-se prontos a emitir os votos solenes sob a mesma Regra.
A 16 de Junho de 1701, o Venerável Estanislau faz a sua profissão perante o Núncio Francisco Pignatelli, em Varsóvia, em que promete observar a Regra das Dez Virtudes, acrescentando a cláusula: “que não contrarie o espírito do nosso Instituto”. De seguida, recebe a profissão dos seus súbitos.

Pe. Estanislau de Jesus Maria Papczyñski pode finalmente exclamar: “Agora, Senhor, podeis deixar partir o vosso servo em paz…”. E assim aconteceu: Frei Estanislau morreu, com fama de santidade, a 17 de Setembro desse mesmo ano, em Góra Kalwaria, onde está sepultado, na capela da Ceia do Senhor.

 A Congregação dos Marianos da Imaculada Conceição, fundada pelo Venerável Servo de Deus Estanislau de Jesus Maria Papczyñski, em 1673, na Polónia, foi renovada pelo Beato Jorge Matulaitis, em 1909. Veio para Portugal em 1754, com o Venerável Servo de Deus Casimiro Wyszynski. Tendo sido expulsa, como todas as outras, em 1834, regressou, como congregação renovada, em 1954. Neste momento conta com duas Casas: uma, no Convento de Balsamão, em Trás-os-Montes, outra, em Fátima. No mundo, está presente em 18 países.

O objectivo da Congregação dos Marianos é viver o Evangelho à luz do mistério da Imaculada Conceição e imprimir o dinamismo deste mistério na acção evangelizadora que desenvolve. É também à luz do mistério da imaculada Conceição, como libertação radical do pecado e plenitude de salvação, que vai em auxílio dos nossos irmãos defuntos, para que, livres das penas devidas aos seus pecados, possam gozar da plenitude da felicidade em Cristo.

Não tendo nenhuma actividade especificamente carismática, mas atentos ao que o Espírito diz à Igreja, os Marianos, em Portugal, dedicam-se aos seguintes campos de apostolado: Apostolado da Misericórdia de Deus, Pastoral Juvenil e vocacional, Pastoral Paroquial, Pastoral do acolhimento, Diálogo entre a cultura e a fé.
Pe. Basileu Pires, MIC

Fonte:http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=47927


Arquivos

Ano Sacerdotal

Campanha da Fraternidade 2010

Anúncios