Biografia dos Santos

Archive for the ‘Santa Teresa d'Ávila’ Category



A Família

“Minha mãe tinha o cuidado de nos fazer rezar e de nos ensinar a ser devotos de Nossa Senhora e de alguns santos. Começou a despertar-me à piedade na idade de seis ou sete anos. Fazia-me bem ver que meus pais estimavam a virtude. Tinham muitas. (p.11)

Meu pai era homem de muita caridade com os pobres, piedade com os enfermos e bondade com os empregados tanto assim que jamais se pôde conseguir dele que tivesse escravos, porque lhes tinha grande compaixão. Certa vez tendo em casa a escrava de um de seus irmãos, tratava-a como filha. Dizia causar-lhe grande dor só de pensar que não era livre. Era homem de grande retidão. Jamais o ouviram jurar ou murmurar. Era honesto em extremo. (p.11-12)

Minha mãe, que também tinha muitas virtudes, era de grande honestidade; passou a vida com freqüentes enfermidades. Era muito formosa, contudo, nunca deu a perceber que fazia caso disso. Morreu aos trinta e três anos, e já se trajava como pessoa idosa. Era de trato muito ameno e bastante inteligente. (p.12)

Éramos três irmãs e nove irmãos. Pela bondade de Deus, todos se assemelhavam a seus pais em virtude, exceto eu. No entanto, fui a mais querida de meu pai e não era isto sem razão alguma. Lastimo quando relembro as boas inclinações que Senhor me tinha dado e quão mal soube aproveitá-las, quando comecei a ofender a Deus. Meus irmãos em nada me impediam de servir a Deus. A todos tinha grande amor e eles a mim. Um deles quase de minha idade era meu predileto. Ficávamos juntos a ler vida de santos. Vendo os martírios que as santas sofriam por amor a Deus, parecia-me que compravam muito barato a sorte de gozarem de Deus. Desejava morrer assim, não tanto por amor, ao que entendo,mas para desfrutar depressa dos imensos bens que os livros diziam haver no céu. (p.12)

Dava esmolas como podia, mas era pouca a possibilidade. Procurava solidão para rezar minhas devoções, que eram bastantes, especialmente o rosário, do qual minha mãe era muito devota, e nos incutia a mesma devoção. ” (p.13)

A Vida Velha

Chegando ao uso da razão e apesar de ter mãe tão virtuosa, pouco ou quase nada aproveitei de suas boas qualidades. Comecei a vestir-me com elegância, a querer agradar e parecer bonita. Cuidava muito das mãos, dos cabelos, de perfumes e de todas as vaidades, que não eram poucas, por ser eu muito exigente nos meus gostos. Não tinha má intenção, pois não quisera que alguém ofendesse a Deus por minha causa. Durou-me muitos anos essa preocupação de demasiado alinho, juntamente com outras coisas que não me pareciam pecado. Agora vejo quão mau devia ser. (p. 15-16)

Alguns primos-irmãos freqüentavam a nossa casa. Eram quase de minha idade, pouco mais velhos. Andávamos sempre juntos. Tinham-me grande amor. Conversávamos sobre toas as coisas que lhes davam prazer, e eu ouvia as aventuras de suas afeições e leviandades, nada boas. Na idade em que se deve começar a cultivar as virtudes, vejo agora o perigo que há em tratar com pessoas que não reconhecem a vaidade do mundo e, pelo contrário, a ela nos arrastam. Pior ainda, minha alma começava a se acostumar àquilo que era causa de todo o seu mal. (p. 16)

Se me coubesse dar conselhos, diria aos pais que, tenham muito cuidado em escolher as pessoas que convivem com seus filhos nessa idade. O perigo é grande, porque as nossas inclinações naturais pendem mais para o mal do que para o bem. Assim aconteceu comigo. (p.16)

Aprendi todo o mal de uma parenta que muito freqüentava a nossa casa. Era de modos tão levianos, que minha mãe fizera tudo para afastá-la da nossa convivência. Parecia adivinhar o mal que me causaria. Mas havia tantas ocasiões de estar conosco, que não conseguiu impedir. Afeiçoei-me ao seu trato. Com ela conversava continuamente e me entretinha, porque me ajudava em todos os passatempos de meu agrado e ainda que atraía a eles, tomando-me também por confidente das suas conversas e vaidades. (p.16)

Certo é que essa amizade de tal maneira me mudou que, da natural inclinação à virtude que minha alma tinha, quase nada ficou. Ela e outra, que possuía o mesmo gênero de passatempos, pareciam imprimir em mim seus defeitos.
(p.17)

Por aqui entendo o grande proveito que faz a boa companhia. Tenho por certo que, se naquela idade tivesse mantido relações com pessoas virtuosas, não me teria desviado da virtude. Se desde o princípio tivesse tido quem me ensinasse a temer a Deus, minha alma teria adquirido forças para não cair. Aos poucos, perdendo esse santo temor de Deus, só me ficou o de manchar a honra. Era o que atormentava em todas as circunstancias. Atrevia-me a fazer muitas coisas bem contrárias à minha honra e à de Deus, julgando que ninguém descobriria coisa alguma. (p.17)

A Vida Nova

Eu andava nessas vaidades não havia 3 meses, quando me levaram a um mosteiro existente no lugar,onde se educavam meninas de minha condição, embora não tão ruins quanto eu. Nos primeiros oito dias senti muito. Foi mais pelo receio de se haver divulgado minha leviandade, do que por estar no convento. (p.18)

Vivia em desassossego, de modo que no fim de oito dias, e creio que ainda antes, estava muito mais contente que na casa de meu pai. Todas gostavam de mim, pois o Senhor me deu esta graça, de agradar a todos, onde quer que estivesse, e assim era muito querida. Eu sentia então grande aversão à idéia de me fazer monja. Contudo gostava de ver tão boas religiosas como eram daquela casa, observantes, recolhidas e de grande honestidade. Minha alma começou a voltar aos bons costumes de minha meninice, e vi a grande graça que Deus faz a quem se põe em companhia de almas boas. (p.19)

Certa monja dormia em nosso dormitório de educandas, e por meio dela o Senhor quis, ao que parece, começar a me dar a luz, como agora direi. Comecei a gostar da boa e santa conversação dessa monja. Agradava-me ouvi-la falar tão bem de Deus. Era muito discreta e santa. Em nenhum tempo, a meu ver, perdi o gosto de ouvir estas coisas. Contou-me que tinha resolvido ser monja só por ter lido as palavras do Evangelho: “Muitos são os chamados e poucos os escolhidos”. Falava-me do premio que o Senhor dá aos que deixam tudo por ele. Este bom relacionamento começou a dissipar os costumes que a má companhia havia deixado, elevava meu pensamento aos desejos das coisas eternas e diminuía um tanto a grande aversão que eu tinha de ser monja, pois era imensa. (p.19-20)

Estive nesse mosteiro um ano e meio, corrigindo-me bastante. Comecei a rezar muitas orações vocais e a pedir a todos que me encomendassem a Deus, para que encontrasse o caminho em que melhor o havia de servir. Desejava, no entanto, que não fosse o de monja, pois Deus não me dava este desejo, contudo, temia o casamento. No fim do tempo que ali passei, já estava mais afeiçoada a ser religiosa, embora não naquela casa. Havia ali certas práticas de virtude que a mim pareciam exageradas. (p.21)

Deixava-me levar mais pelo que agradava à minha sensibilidade e vaidade do que pelo bem e interesse de minha alma. Vinham-me algumas vezes esses bons pensamentos de consagrar-me a Deus, mas logo passavam e eu não conseguia persuadir-me nem decidir-me. Nesse tempo, apesar de andar descuidada de minha salvação, o Senhor andava mais zeloso, dispondo-me para a vocação que melhor me convinha. Deu-me uma grande enfermidade que me obrigou a voltar para a companhia de meu pai. Quando me restabeleci, levaram-me para casa de minha irmã, que residia numa aldeia, a fim de visitá-la. Era extremo o amor que me tinha, e por sua vontade eu nunca sairia de junto dela. Seu marido também gostava muito de mim, ao menos demonstrava grande afeição. Ter sido benquista, por toda parte onde andei, é uma das grandes graças que devo ao Senhor, e eu lhe correspondia sendo o que sou. (p.21)

No trajeto situava-se a casa de um irmão de meu pai. Era ele muito experiente, de grandes virtudes, viúvo, e o Senhor também andava preparando-o para si. Em idade avançada veio a deixar tudo que tinha, faz-se religioso e morreu tão santamente. (p.21)

Foram poucos dias que passei em casa desse meu tio. Com a força que as palavras de Deus, tanto lidas como ouvidas, faziam em meu coração boa companhia, fui entendendo as verdades que compreendera em menina; o nada de tudo que é transitório, a vaidade do mundo, a brevidade com que tudo acaba. Pus-me a pensar e a temer que iria talvez para o inferno se tivesse morrido. (p.22)

Conquanto minha vontade ainda não se inclinasse de todo a ser monja, vi que este era o melhor e mais seguro. Assim pouco a pouco, determinei-me a abraçá-lo, muito embora fazendo-me violência. Nesta luta estive três meses, combatendo contra mim mesma. (p.22)

Em toda esta deliberação sobre a escolha de estado, creio que mais me movia o temor servil que o amor. O demônio sugeria-me que eu não agüentaria os trabalhos da vida religiosa, sendo tão amiga das comodidades. A isto acudia eu com a lembrança dos sofrimentos padecidos por Cristo. Não seria muito que eu padecesse alguns por seu amor. (p.22)

Fui acometida nesse tempo por constantes desfalecimentos acompanhados por febre. Sempre tive bem pouca saúde. Ter ficado amiga de bons livros deu-me vida. Li as Cartas de São Jerônimo. Animaram-me de tal sorte, que decidi falar a meu pai. Era quase como tomar o hábito religioso, porque sendo tão briosa, não voltaria atrás por motivo algum, uma vez que o houvesse declarado. Meu pai me queria tanto que de modo algum consegui sua licença. Os rogos de algumas pessoas, às quais pedi que lhe falassem, tiveram o mesmo resultado. O que se pôde arrancar dele foi que, depois de sua morte, eu faria como bem entendesse. (p.22-23)

Lembro-me perfeitamente, e penso ser bem verdade, que ao deixar a casa de meu pai, foi tal o meu sofrimento, que creio, não será maior a dor da morte. Parecia-me que os ossos se apartavam uns dos outros. O amor de Deus não superava o amor a meu pai e à minha família. Foi necessário fazer-me em tudo tanta violência, que se o Senhor não me sustentasse, minhas convicções não bastariam para prosseguir. Chegado o momento, o Senhor deu-me ânimo para lutar contra mim mesma, de modo que realizei o meu propósito. (p.24)

Ao tomar o hábito, Sua Majestade fez-me logo compreender quanto favorece aos que no seu serviço se fazem violência. A que precisei fazer ninguém observou em mim, percebiam somente minha boa vontade. Na mesma hora, deu-me tal alegria de ter abraçado aquele estado, que jamais me faltou até hoje, e Deus transformou a aridez de minha alma em ternura. Deleitavam-me as observâncias da vida religiosa. Na verdade, algumas vezes, estando a varrer em horas que antes costumava a ocupar com meus divertimentos e vaidades, sentia uma estranha felicidade sem saber de onde me vinha, ao lembrar que estava liberta de tudo aquilo. (p.24-25)

A mudança de vida e de alimentação prejudicou-me a saúde. Ainda que a alegria fosse grande não agüentei. Aumentaram os desmaios, com uma dor tão intensa no coração, que espantava os que me viam, além de muitos outros males. (p.26)

Período de doença

Assim passei o primeiro ano, bem mal de saúde. Não penso em ter ofendido muito a Deus. A doença era tão grave, que eu vivia ameaçada de perder os sentidos, e as vezes chegava a perde-los. Meu pai procurava algum remédio com muita diligencia. (p.26)

Tive de ir para casa de minha irmã na aldeia onde ela residia, aguardando o tempo marcado para o tratamento. Fui levada com extremo cuidado por minha irmã, por meu pai e pela monja, minha amiga, que comigo viera e me queria muitíssimo. Residia no lugarejo onde fui curar-me, um sacerdote que, além de ser pessoa de certa nobreza e inteligência, tinha alguma instrução, não muita. Comecei a confessar-me com ele. Sempre fui amiga de gente culta. (p.32)

Comecei, pois, a confessar-me com o sacerdote de quem falei. Estando no principio de minha vida religiosa, eu tinha então poucas faltas a confessar, em comparação do que tive depois…Tanto fervor numa pessoa ainda jovem causava confusão àquele sacerdote. (p.33)

Estive naquele lugar três meses, com muitos sofrimentos. O tratamento foi mais enérgico do que a minha compleição. No fim de dois meses, à força de remédios, minha vida se acabava. As dores no coração, das quais me tinha ido curar, cresceram tanto, que me parecia às vezes tê-lo rasgado por dentes agudos. Temeram que fosse raiva. As forças me faltavam, nada comia, apenas bebia um pouco; tudo me causava náuseas e a febre era contínua, o organismo estava gasto em conseqüência de purgativos diários durante quase um mês. Estava tão ressequida, que meus nervos começaram a se encolher com dores insuportáveis. Nem de dia nem de noite tinha algum descanso. Sentia profunda tristeza. Eis o que havia lucrado meu pai me trouxe de volta. Fui novamente examinada por vários médicos. Todos me desenganaram, declarando que além de outros males estava tuberculosa. Pouco se dava. O que me afligia eram as dores contínuas, dos pés a cabeça. No dizer dos próprios médicos são intoleráveis essas dores espasmódicas. Eu sofria duro tormento. Aprouve a Deus, não ter perdido, por minha culpa tantos méritos! Neste sofrimento mais agudo estive cerca de três meses. Parecia impossível alguém suportar tantos males juntos. (p.35)

Veio à festa de Nossa Senhora da Glória em agosto. Até então, desde abril, havia durado o tormento, conquanto maior nos últimos três meses. Logo tratei de me confessar. Sempre fui amiga de o fazer frequentemente. Pensaram que o pedia por medo de morrer, e, para não me alarmar, meu pai não consentiu. O amor carnal e demasiado, ainda de pai tão católico e esclarecido, pois era o bastante, e não agiu por ignorância. Poderia fazer-me grande mal! Naquela mesma noite fui acometida de uma crise tão forte, que fiquei sem sentidos aproximadamente quatro dias. Neste estado deram-me o sacramento da unção dos enfermos. Pensavam que eu poderia morrer de uma hora para outra. Não faziam senão repetir o Credo, como se eu entendesse alguma coisa. Por vezes me julgavam já morta. Até cera achei depois nos olhos. (p.36)

Grande foi o pesar de meu pai, por não me ter permitido a confissão. Não se cansava de orar e clamar a Deus. Bendito seja aquele que se dignou ouvi-lo! Havia um dia e meio estava aberta a sepultura do meu mosteiro à espera do corpo. Já tinham sido feitas exéquias num convento de nossos frades fora da cidade, quando o Senhor permitiu que eu recuperasse os sentidos. Quis logo confessar-me. Comunguei com muitas lágrimas. A meu parecer não eram lágrimas de contrição de ter ofendido a Deus. Isto bastaria para me salvar. Não me serve de desculpa o engano, em que me fizeram cair alguns confessores, afirmando-me não haver pecado mortal onde certamente havia. (p.36)

As dores que me ficaram eram intoleráveis, de modo que não estava inteiramente em meus sentidos. Contudo, fiz a confissão inteira de tudo em que tinha consciência de ter ofendido a Deus. Esta graça me fez Sua Majestade entre outras: depois que comecei a comungar, jamais deixei de confessar coisa alguma em que julgasse haver pecado, mesmo venial. (p.36)

Chegada a este ponto minha vida, vendo como, de certo modo, o Senhor me ressuscitara, na verdade sinto tão grande espanto que chego a tremer. Parece-me que foi bom para ti, ó minha alma, ponderar de que perigo te livrara o Senhor. Já que por amor não deixavas de ofendê-lo, ao menos por temor dos castigos deixaste de ofendê-lo. (p.37)

Passados os quatro dias em que parecia morta, fiquei em tal estado, que só o Senhor sabe os indizíveis tormentos que sentia. A língua estaca dilacerada, de tão mordida. Nada tomei naqueles dias; sentia-me muito fraca, quase sem respirar, a garganta seca a ponto de nem poder engolia água. Parecia-me estar desconjuntada, com a cabeça atordoada ao extremo. Após alguns dias de espasmo fiquei encolhida, como que enovelada. Parecia morta, incapaz de mover braços, pés, mãos e cabeça, se outros não me moviam. Ao que me lembro só movia um dedo da mão direita. Não sabiam como tocar em mim. Sentia tantas dores, que não podia suportar. Serviam-se de um lençol, que das pessoas seguravam, cada uma de seu lado, para me mudarem de posição. (p.38)

Durou até Páscoa florida. Sentia-me aliviada somente quando não se aproximavam de mim. As dores então muitas vezes cessavam. Só com esse pequeno alivio já tinha a impressão de estar melhor. Receava que me viesse a faltar a paciência. Tive grande contentamento quando me senti sem tão agudas e contínuas dores. Eram insuportáveis quando me vinham os calafrios intensos das violentas febres intermitentes que fiquei padecendo. Todo alimento me causava repugnância. (p.38-39)

Minha pressa de voltar ao meu mosteiro era tão grande, que mesmo nesse estado fui transportada para lá. A que esperavam morta, receberam viva, mas o corpo em condições piores que da morte. Fazia pena vê-lo. Era impossível descrever minha extrema fraqueza. Só tinha ossos. Assim fiquei mais de oito meses. Embora tivesse melhoras, fiquei paralitica por quase três anos. Louvei a Deus quando comecei a andar…(p.39)

Estava muito conformada com a vontade de Deus, ainda mesmo que me deixasse sempre naquele estado. Se desejava sarar, era unicamente para ter solidão, como antes, e fazer oração. Na enfermaria não era possível. Confessava-me frequentemente e falava sempre de Deus, de modo que todas se edificavam, admirando-se da paciência que o Senhor me dava. Somente pelas mãos de Sua Majestade seria possível sofrer tanto mal com tanta alegria. (p.39)

Via a grande graça que o Senhor me fazia em me dar juntamente tão grande arrependimento. Procurava logo confessar-me e de minha parte fazia tudo para recuperar a graça. Todo o mal vinha de não cortar pela raiz as ocasiões e de ter confessores que pouco me ajudavam. Se estes me dissessem que eu andava em perigo e era obrigada a não manter mais aquelas relações mundanas, sem dúvida tudo se remediaria. De modo algum seria capaz de passar um só dia em pecado mortal, se disto tivesse consciência. Todos estes sinais de temor de Deus vieram-me com a oração. Melhor que tudo, o temor dói envolvido pelo amor, sem lembrança de castigo. Durante o tempo que passei tão mal de saúde, tive a consciência muito alertada de pecados mortais. (p.40)

No estado em que me tinham posto os médicos da terra, vendo-me tão tolhida em tão pouca idade, resolvi recorrer aos médicos do céu. Embora sofresse as doenças com muita alegria, desejava curar-me. Imaginava que tendo saúde serviria muito mais a Deus. Por vezes também refletia que, se ficasse curada, mas fosse me condenar, melhor seria continuar como estava. É um dos nossos erros: não nos submetemos inteiramente ao que o Senhor faz. Ele sabe melhor do que nós o que nos convém. (p.41)

Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José, e muito me encomendei a ele. Claramente vi que desta necessidade, como de outras maiores referentes à honra e à perda da alma, esse pai e senhor meu salvou-me com maior lucro do que eu lhe sabia pedir. Não me recordo de lhe haver, até agora, suplicado graça que tenha deixado de obter. (p.41)

E São José mostrou quem era. Fez que me levantasse, andasse e não estivesse mais paralítica. (p.42)

Quase nunca estou – penso não exagerar – sem muitas dores, e algumas vezes bem graves, especialmente no coração. Este mal antigamente contínuo, agora é muito pouco espaçado. Da paralisia aguda e das febres que tinha com freqüência, estou boa a oito anos. Tão pouco se me dá de todos estes males que muitas vezes chego a alegrar-me, parecendo-me que com isso sirvo ao Senhor de algum modo. Meu pai acreditou nas minhas palavras, porque ele era incapaz de faltar à verdade. Eu, de acordo com o que lhe falava, também não o queria enganar. Para o convencer mais, acrescentei que já fazia muito em rezar o ofício no coro. (p.50)

Morte do pai

Neste tempo meu pai foi acometido pela enfermidade de que morreu, e que durou algum tempo. Fui tratar dele, estando mais enferma na alma que ele no corpo, e metida em muitas frivolidades. (p.51)

Tive muitos sofrimentos na enfermidade de meu pai. Creio que lhe paguei alguma coisa do que ele tinha passado nas minhas. Apesar de me sentir muito mal, esforçava-me para servi-lo. (p.51)

Parecia-me, entretanto, que me arrancavam a alma ao ver que sua vida se acabava pouco a pouco, porque o amava muito. (p.51)

É para louvar a Deus a morte que teve, e como desejava morrer. Aconselhou-nos depois de receber a extrema unção, confiou-nos o cuidado de encomendá-lo a Deus e de pedir misericórdia para ele. Recomendou-nos servir sempre ao Senhor, tendo presente que nesta vida tudo se acaba. Dizia-nos com lágrimas o grande pesar que sentia de não ter servido como devera. Quisera ser – ter sido- frade e da mais estreita observância. (p.52)

Passou três dias sem sentidos. No dia em que morreu, o Senhor lhe restituiu o conhecimento, de modo tão perfeito, que nos deixou admirados. Assim ficou até que no meio do Credo expirou, dizendo-o ele mesmo. Ficou parecendo um anjo, e bem convencida estou de que o fosse realmente, pois sua alma era tão boa e tais as suas disposições. (p.52)

Os confessores

Seu confessor, um dominicano muito douto, dizia não duvidar de que tivesse ido direto para o céu. Confessando-o havia alguns anos, louvava sua pureza de consciência. Esse dominicano, padre virtuoso e temente a Deus, muito me auxiliou. Confessei-me com ele e tomou para si a tarefa de zelar por minha alma e abrir-me os olhos acerca da perdição que eu vivia. Pouco a pouco, tratando com ele, falei-lhe da minha oração. Disse-me que não a deixasse, pois dela só poderia tirar proveito. Voltei a fazê-la, ainda que sem evitar as ocasiões perigosas e nunca mais a abandonei. (p.52-53)

Depois que comecei a ter oração, quase nunca me cansava de falar ou ouvir falar de Deus. (p.62)

Em especial achava-me à vontade na oração do Horto, onde lhe fazia companhia. Pensava naquele suor e na aflição, que o Senhor havia experimentado. Desejaria, se fosse possível, enxugar aquele suor tão penoso…Durante longos anos, quase todas as noites antes de adormecer, quando me encomendava a Deus para bem dormir, tinha o costume de pensar um pouco neste passo da oração do Horto, mesmo antes de ser monja.(p.65)

Meu confessor, um padre muito santo da Companhia de Jesus, como disse, respondia o mesmo, segundo soube mais tarde. Era muito discreto e extremamente humilde, mas sua grande humildade causou-me bastante sofrimento. Apesar de ser douto e de ter muita oração, não confiava em si. Aliás, o Senhor não o conduzia pelo mesmo caminho. Sofreu muito por minha causa. Diziam-lhe – como vim a saber – que se precavesse a meu respeito, que não se deixasse enganar pelo demônio, fazendo-lhe crer alguma coisa do que ouvia de mim. Apontavam-lhe exemplos de outras pessoas. Tudo isso me fazia sofrer. Cheguei a temer que não houvesse com quem me confessar e que todos fugiriam de mim. Não fazia senão chorar. Foi providencia divina ter ele querido continuar a atender-me. Era virtuoso este servo de Deus, e a tudo se exporia por seu amor. Dizia-me que não ofendesse eu a Deus, não me afastasse de sua direção e não tivesse receio. Por sua vez ele não me faltaria. (p.228)

Por minha causa, em meio a tantas dificuldades, padeceu bastante nos três anos e tanto em que foi meu confessor. Nas grandes perseguições que moveram contra mim e, por permissão do Senhor, em muitas circunstancias, julgaram mal a meu respeito sem ter havido causa para isto. Procuravam-no e lançavam-lhe a culpa de tudo, conquanto estivesse totalmente inocente. Seria impossível poder sofrer tanto se não possuísse tanta santidade e o Senhor não o animasse. (p.228)

Visão Espiritual com Santa Clara

“Quando ia comungar no dia de santa Clara, apareceu-me esta Santa com muita formosura. Disse-me que tivesse coragem e prosseguisse no meu empreendimento, pois não deixaria de ajudar. Adquiri por ela extrema devoção. Em prova do cumprimento de sua promessa, um mosteiro de sua ordem, situado perto do nosso, nos tem ajudado a viver. Ainda mais: pouco a pouco a bem- aventurada Santa elevou os meus anseios a tanta perfeição, que a pobreza por ela instituída em seus mosteiros se observa também neste, e vivemos de esmolas. Não temos rendimentos, e jamais se poderá fazer de outro modo. O Senhor fez ainda mais, talvez, pelos rogos da bendita Santa. Sem que peçamos, provê-nos do necessário com muita fartura. Seja bendito por tudo. Amém.” (p.278)

Visão Espiritual com Nossa Senhora

“Por esses mesmos dias eu me encontrava na capela de um mosteiro da ordem do glorioso São Domingos, na festa da Assunção de Nossa Senhora. Considerava os inúmeros pecados, que em tempos idos havia confessado naquela igreja, e várias coisas de minha vida ruim. Sobreveio-me um arroubamento tão grande, que quase perdi de todo os sentidos. Sentei-me e penso que nem vi a elevação nem ouvi a missa, o que me deixou algum escrúpulo. Em tal estado pareceu-me que recobriam de uma veste de brancura e esplendor. A principio não enxergava quem vestia. Depois vi Nossa Senhora a meu lado direito e meu pai São José ao esquerdo, que me adornavam com aquelas vestes. Tive a intuição de que me faziam compreender que estava limpa de meus pecados.” (p.279)

“Depois de assim vestida, sentindo imensa felicidade e glória, logo me pareceu que a Senhora me tomava as mãos nas suas. Disse-me que eu lhe causava muito contentamento com a minha devoção ao glorioso São José. Estivesse certa de que o mosteiro se faria conforme os meus desejos. Nele o Senhora, ela e são José seriam bem servidos. Não receasse relaxação neste ponto. Embora se fundasse sob uma jurisdição, que não era do meu gosto, ela e seu esposo nos guardariam. Seu Filho já nos havia prometido andar conosco.” (p.279)

“Como sinal da verdade de suas promessas deu-me uma jóia. Pareceu-me então que me punha ao pescoço um colar formosíssimo, do qual pendia uma cruz de alto valor. Esse ouro e essas pedras preciosas eram tão diferentes dos que existem no mundo, que não há comparação. Sua formosura é muito superior ao que na terra podemos imaginar. O intelecto seria incapaz de perceber de que matéria era a veste, nem a imaginação pode produzir a alvura que apraz o Senhor representar-nos. Todas as coisas deste mundo se nos afiguram, por assim dizer, mero esboço de carvão.” (p.279)

“A formosura que vi em Nossa Senhora, era grandíssima. Não pude observar nenhum de seus traços em particular, senão em conjunto a beleza do rosto. Estava vestida de branco, cercada de imenso esplendor, mas suave, que não deslumbrava. Não vi tão claramente o glorioso São José, mas percebi que estava ali, como nas visões de que falei, nas quais não se vêem imagens. Nossa Senhora parecia muito jovem. Estiveram comigo algum tempo, e eu sentia regozijo e glória, como jamais talvez tenha sentido, e os quais não quisera ver findar. Em seguida, pareceu-me vê-los subir ao céu, rodeados de inúmeros de inumeráveis anjos. Fiquei com muita saudade, mas tão consolada, enlevada, absorta em oração e enternecida, que tive algum tempo quase fora de mim, sem conseguir falar nem fazer movimento.” (p.279-280)

Visão Espiritual com sua irmã

“Durante a oração me foi revelado que minha irmã morreria da mesma forma e que eu procurasse convencê-la de estar sempre preparada. Minha irmã vivia numa aldeia. Cheguei sem nada dizer do que me levava a sua casa. Conforme podia, fui, pouco a pouco, esclarecendo-a em todas as coisas. Induzi-a a se confessar frequentemente e que em tudo fosse cuidadosa com sua alma. Como era muito boa, assim fez. No fim de quatro ou cinco anos, continuando sempre neste costume e tendo a consciência muito bem disposta, morreu sem que ninguém a visse, e sem se poder confessar.” (p. 290)

“O que lhe valeu foi que não havia mais de oito dias que se confessara, segundo costumava. Esta circunstancia consolou-me, quando recebi a noticia de sua morte. Esteve muito pouco tempo no purgatório. Menos de oito dias depois, tendo eu acabado de comungar, o Senhor me apareceu e quis que eu visse como a levava à glória.” (p. 290)

Conversão de pecador

Veio ter comigo uma pessoa que havia dois anos e meio vivia num pecado mortal dos mais abomináveis que já ouvi. Durante todo esse tempo não o confessava, nem se emendava, e dizia missa. Na confissão, acusava-se de seus outros pecados. Quanto a este, alegava que não podia confessar algo tão feio. Tinha grande desejo de sair desse estado, contudo, não se podia vencer. Causou-me grande lástima e senti muita pena ao saber que se ofendia a Deus de tal maneira. Prometi rogar ao Senhor por sua conversão, e pedi a outras pessoas, melhores do que eu, que fizessem o mesmo. Escrevi a este sacerdote por um mensageiro ao qual ele me dissera que podia entregar as cartas. O fato é que, logo à primeira carta, ele se confessou. Assim quis Deus usar de misericórdia com essa alma, em atenção às preces de numerosas pessoas muito santas às quais a encomendei. Eu, ainda que miserável, fazia o que estava em minhas mãos. Escreveu-me que tinha melhorado bastante. Havia alguns dias abstinha-se do pecado, mas era tão grande o tormento das tentações, que lhe parecia estar no inferno, pelo muito que sofria. Pedia-me que intercedesse por ele junto a Deus. Tornei a encomendá-lo às minhas irmãs, que levaram muito a sério, e por suas orações obtiveram a graça. Era uma pessoa da qual ninguém podia suspeitar. Implorei a Sua Majestade, que pusesse fim àqueles tormentos e tentações, e que os demônios voltassem contra mim seus assaltos, contanto que eu não ofendesse a Deus. O resultado foi que passei um mês em grandes tribulações. (p.251-252)

Foi o Senhor servido de que ficasse em paz aquela alma. Assim me escreveram, tendo-lhe eu dado conta do que sofrera naquele mês. Cobrou forças espirituais, ficando inteiramente livre. Não se cansava de dar graças ao Senhor e a mim, como se eu houvesse feito alguma coisa. O crédito que já tinha, de que o Senhor me fazia favores, infundira-lhe confiança. Quando se via muito apertado, contou que lia minhas cartas e ficava livre da tentação. Ficou espantado de ver o que eu havia padecido enquanto ele ficava livre. Não foi menor o meu espanto, e sofreria muitos anos para salvar aquela alma. Seja por tudo louvado! (p.252)

Luta Espiritual

Na verdade pode muito a oração dos que o servem, como são, a meu ver, as irmãs desta casa. Os demônios se indignaram ainda mais contra mim,vendo que eu as estimulava. O Senhor, também, por meus pecados, o permitia. Uma noite, pensei que me iam estrangular. Lançamos muita água benta, e vi grande multidão deles fugindo como quem se vai despenhando. São inúmeras as vezes que esses malditos me atormentam, porém, não tenho medo algum, sabendo que nem se podem mover se o Senhor não lhes dá licença. Cansaria a Vossa Mercê e a mim se fosse mencionar todos os detalhes. Seja isto útil para o verdadeiro servo de Deus, que assim desprezará esses espantalhos inventados pelos demônios para nos causar temor. É bom notar que perdem as forças quando são desprezados e a alma se torna muito mais poderosa. Sempre resulta algum proveito considerável, que não comento para não me estender.

Só narrarei o seguinte fato, sucedido numa noite de Finados. Encontrava-me num oratório rezando um noturno. Dizia umas orações muito devotas que temos no fim de nosso breviário, quando, de repente, o demônio se põe sobre o livro para me impedir de acabar a oração. Fiz o sinal da cruz e desapareceu. Recomecei e logo voltou. O mesmo aconteceu por três vezes, se não me engano. Enquanto não joguei água benta, não pude terminar. Mal acabei, vi que saíram do purgatório algumas almas. Certamente faltava pouco para completarem sua expiação. Pensei que o propósito do demônio seria provavelmente retardar a libertação delas. (p.252-253)

Fundação do Mosteiro

Aconteceu uma vez, estar na companhia de várias pessoas. Uma delas perguntou a mim e às outras, porque não seríamos monjas à maneira das descalças? Acrescentou que seria bem possível fundar um mosteiro. (p.267)

Um dia, depois da comunhão, Sua majestade me mandou expressamente que trabalhasse nessa empresa com todas as minhas forças. Fez grandes promessas que não se deixaria fundar o mosteiro, no qual ele seria muito bem servido. Disse-me que devia ser dedicado a São José. Este glorioso Santo nos guardaria a uma porta, Nossa Senhora à outra, e Cristo andaria conosco. A nova casa se tornaria uma estrela da qual se irradiaria grande esplendor. Embora as ordens religiosas estivessem relaxadas, eu não devia crer que nelas ele fosse pouco servido. Disse-me ainda que refletisse no que seria no mundo se não houvesse religiosos. Ordenou-me, enfim, referir tudo isso ao meu confessor e suplicar-lhe que não fizesse oposição à projetada obra, nem estorvasse a sua realização. (p.268)

Mal se começou a saber do projeto do lugar, veio sobre nós tamanha perseguição, que levaria muito tempo para contar. Choveram os ditos e as risadas. Tinham tudo em conta de disparate. A mim diziam que estava bem no meu mosteiro. À minha companheira perseguiram tanto, que a traziam atribulada. Eu não sabia o que fazer. Chegava a pensar que em parte tinham razão. Estando assim muito aflita, encomendando-me a Deus, Sua Majestade, começou a consolar-me e animar-me. Disse-me que por aqui veria o que tinham passado os santos fundadores das ordens religiosas. Restavam-me a passar muito maiores perseguições do que eu podia imaginar. Não tivesse medo…O fato é que, entre as almas de oração e mesmo em toda a cidade, não havia uma pessoa que então não fosse contra nós e não tivesse tudo por imenso disparate. Foram tantos os comentários e tal o alvoroço, mesmo no meu mosteiro, que pareceu impossível ao provincial ter de enfrentar a todos. Mudando de opinião, recusou admitir a futura casa. Alegou que a renda era insuficiente, além de pouco segura, e que eram muitos os que nos contradiziam. Em tudo devia ter razão. O certo é que voltou atrás e retirou a licença. Nós duas sentimos a impressão de serem estes os primeiros golpes. (p.269)

Em toda a cidade não tínhamos quem nos fosse favorável, e por isso diziam que nos guiávamos só por nossas cabeças. (p.270)

Jamais pude deixar de crer que se havia de fazer a fundação.Não via meio, nem sabia como, nem quando, contudo, tinha tudo por certo. O que me fez sofrer muito foi quando certa vez, meu confessor, como se eu tivesse dado algum passo contra sua vontade, escreveu-me ordenando que me convencesse de que tudo não passava de um sonho e não falasse mais em fundação, pois bem via o escândalo que resultara. (p.273)

Conforme ordenara o meu confessor eu devia calar-me por enquanto, até vir a ser oportuno tornar a cuidar da projetada obra. Fiquei tão consolada e contente, que me parecia reduzir-se a toda a perseguição desencadeada contra mim. Aqui o Senhor me ensinou o imenso bem que é padecer por ele sofrimentos e perseguições. Vi em minha alma um tal aumento de amor de Deus e muitas outras coisas, que ficava admirada. Daí vem que não posso deixar de desejar tribulações. (p.274)

Meu confessor tornou-me a dar-me licença para me dedicar à obra com todas as forças. Bem via eu em que tribulações me metia, por estar só e ter pouquíssimos recursos. Ficou então combinado que se faria tudo com o maior segredo. (p.277)

É que, em suma, o convento se havia de manter: o Senhor queria a sua fundação, e pouco podiam todos contra a sua Divina vontade. (p.305)

Logo que se principiou a rezar o ofício, o povo começou a ter muita devoção para com este mosteiro. Recebemos noviças, e o Senhor se pôs a mover, os que mais nos tinham perseguido, para muito nos favorecerem e nos assistirem com esmolas. Já aprovaram o que tanto haviam reprovado. Pouco a pouco desistiram do pleito, declarando-se convencidos de ser esta casa obra de Deus, pois, Sua Majestade tinha querido que fosse adiante apesar de tanta oposição. (p.309)

Atualmente não acho outra razão para viver senão o padecer, e é o que peço a Deus com maior amor. Digo-lhe algumas com todo o ardor da vontade: Senhor, ou morrer ou padecer. Não vos peço outra coisa para mim. Dá-me consolo ouvir o relógio bater, porque me parece estar um pouquinho mais perto de ver a Deus, tendo passado aquela hora de minha vida. (p.355)

Bibliografia: 1.Livro da Vida. 2.Castelo Interior ou Moradas. 3.Caminho da Perfeição. Editora Paulus.

Sabedoria

Fazer sempre o Bem

“Não se deve fazer o menor mal, ainda que seja para conseguir um bem maior que seja” (p.34).

Nunca murmurar

“Não falava mal de pessoa alguma, por pouco que fosse. Em geral evitava toda murmuração, porque trazia diante dos olhos não dever dizer de outrem o que não queria que dissessem de mim” (p.39).

Decidir pela cruz de Jesus

“A vida que eu levava era penosa ao extremo, porque na oração percebia melhor as minhas faltas. Por um lado Deus me chamava, por outro, eu seguia o mundo. Apesar de experimentar grande felicidade nas coisas divinas, sentia-me presa às humanas. Procurava conciliar esses dois contrários tão inimigos um do outro: vida espiritual com seus gostos e suavidades e os passatempos dos sentidos. ” (p.53).

“Quando sofro perseguições, o espírito se torna forte, embora o corpo ressinta, e eu também me aflija”. (p. 254)

“Procuras unir-te a Deus. Pretendes seguir os conselhos de Cristo carregado de injurias e falsos testemunhos, e desejas guardar intactos o crédito e a honra? Não é possível chegar lá. Os caminhos são opostos. O Senhor só se aproxima da alma, quando nos esforçamos e procuramos renunciar ao nosso direito em muitas coisas”. (p.258)

Fugir das más companhias

“Para cair havia muitos que me ajudavam, mas para levantar achava-se tão sozinha que hoje me admiro de não ter caído para sempre. Louvo a misericórdia de Deus. Só ele me dava a mão. Seja bendito para sempre, para sempre. Amém.” (p.56)

“Os mundanos não temem andar entre leões, que ameaçam tirar-lhes um pedaço. É isto que o mundo chama suas delícias e satisfações. Entretanto, no serviço do Senhor, dir-se-ia que o demônio mete medo até de insetozinhos inofensivos. Mil vezes me espanto, e dez mil vezes quisera abundantemente chorar e clamar a todos, publicando minha grande cegueira e maldade, para ajudá-los de algum modo a abrir os olhos. Aquele, que tudo pode, lhes abra por sua bondade e não permitia que me torne a cegar. Amém.”

Reconhecer que toda Bondade vem de Deus

Se pois, disser alguma coisa boa, será que o Senhor assim quis para algum bem. O que houver de mau será meu. (p.75)

Oração

“Deus é poderoso: tudo pode, tudo ordena, tudo governa e tudo enche com seu amor”.(p.226)

“Depois que comecei a ter oração, quase nunca me cansava de falar ou ouvir falar de Deus.” (p.62)

“Para mim, tornou-se uma penosa cruz tratar com alguém que não ama a Deus nem se entrega á oração. É pura verdade, segundo me parece, e sem exceção”. (p. 195)

Humildade

“O que tenho entendido é que todo o alicerce da oração está na humildade e quanto mais a alma se humilha, mais Deus a engrandece” (p.176)

“Se Sua Majestade quiser elevar-nos à categoria de seus camareiros e confidentes dos seus segredos, vamos de boa vontade, senão, sirvamos em ofícios baixos e não tomemos assento no melhor lugar. Deus cuida de tudo, melhor do que nós e sabe o que é bom para cada um”. (p.176)

Amar de verdade Jesus

“Por sinais inequívocos a alma sente quando ama de verdade ao Senhor. Chegado a este grau, o amor não anda dissimulado como no princípio, senão com grandes ímpetos e desejos de ver a Deus, como já disse, ou direi depois: tudo cansa, tudo enfastia, tudo atormenta. Se não é com Deus ou por Deus, não há descanso que não lhe seja cansaço, porque a alma se vê privada de seu verdadeiro repouso.” (p.207)

A Glória dos justos

“Quem mais tiver feito, maior glória terá. Quão rico se achará o que deixou por Cristo todas as riquezas? Quão sábio o que se alegrou de ser tido por louco, pois assim chamaram à mesma Sabedoria.”…Sim, sim, parece que se acabaram os que o mundo tinha por loucos, vendo neles obras heróicas de verdadeiros amantes de Cristo!” (p.217)

“Todavia, depois que o Senhor me fez compreender quão grande é a diferença que há no céu entre as alegrias de uns e as alegrias de outros, vejo que, também neste mundo, não se põe limites em seus dons, quando lhe apraz. Quisera eu, de minha parte, não ter medida em servir a Sua Majestade e gastar por ele toda a minha vida, minhas forças e minha saúde, de modo a não perder por minha culpa um pouquinho de maior felicidade. E assim digo: se me dessem a escolher entre padecer todos os tormentos imagináveis até o fim do mundo e depois subir um grauzinho na glória, ou sem sofrimento algum ir alegrar-me numa gloria um pouco menor, de muito boa vontade tomaria todos os tormentos a troco de fruir um pouquinho mais da compreensão das grandezas de Deus. Vejo que mais o ama e louva quem mais o entende.” (p.316)

“Realmente em poucos meses alguém pode ter alcançado mais que outro em vinte anos. Como disse, o Senhor dá suas graças a quem quer e também a quem melhor se dispõe”. (p.339)

O mundo

“O mundo esta de tal forma perdido, que já não se usam mais as práticas de perfeição. Os grandes favores dos santos estão esquecidos”. (p.217)

Luta Espiritual

“De muitos fatos cobrei experiência de que não há coisa do que mais fujam os demônios do que água benta”. (p.250)

“Se os demônios nos amedrontam é porque nós mesmo queremos apavorar-nos, com apegos às honras, bens e deleites. Juntam-se a nós, porque também somos contrários a nós mesmos. Causam-nos muito dano, porque amamos e queremos o que deveríamos detestar. Neste caso somos nós que lhes pomos nas mãos as armas com que nos havíamos de defender. Na luta, elas se voltam contra nós. Esta é a grande lástima.” (p. 205)

“Se, pelo contrário, tudo desprezamos por Deus, se nos abraçamos com a cruz e se tratamos de o servir verdadeiramente, o demônio foge destas verdades como quem foge da peste.” (p. 206)

Misericórdia de Jesus

“O Senhor concede seus dons como e quando quer, sem que dependam da antiguidade ou dos serviços prestados”. (p.286)

Creia sempre que Jesus realiza milagres

“Não se espante com coisa alguma e nada considere impossível. Tudo é possível ao Senhor. Procure revigorar a fé e humilhar-se, vendo que nesta ciência o Senhor poderá fazer uma velhinha mais sábia do que um homem instruído, com toda sua doutrina”. (p.287)

Sacerdócio

“Deus não deixa de estar na Eucaristia, embora seja mau o sacerdote que pronuncia as palavras de consagração”. (p.331)

“Tive compreensão nítida de como os sacerdotes tem mais obrigação de serem bons do que os outros. Vi que coisa atroz é receber este Santíssimo Sacramento indignamente e a que ponto o demônio é senhora da alma em pecado mortal”. (p.331)

Conselho para uma Vida de Pobreza

“Ao que me parece, o desejo das honras anda sempre acompanhado de algum interesse de ter rendas e fortuna. No mundo raramente se honra a quem é pobre. Pelo contrário, ainda que mereça ser honrado, é tido em pouco.” (p.24)
“E como vos alegrareis se virdes alguém escapar do inferno pela esmola que vos tiver dado! É bem possível, pois estais muito obrigadas a rezar continuamente por aqueles que vos dão de comer. Embora tudo nos venha das mãos de Deus, o próprio Senhor quer que sejamos agradecidas às pessoas por cujo meio ele nos socorre. Nisto não haja descuido.” (p.28)

“Aqui entra a verdadeira humildade. Esta virtude, a meu ver, anda sempre junto com o desapego. São duas irmãs inseparáveis.” (p.66)

“Verdadeiramente é sinal de grande humildade deixar-se condenar injustamente e não se defender, pois é imitação perfeita do Senhor que assumiu todos os nossos pecados. Peço-vos encarecidamente que tenhais neste ponto o máximo cuidado porque é fonte de imensos benefícios. Não há absolutamente nenhuma vantagem em se defender, a não ser em certas circunstancias em que o silencio causaria desgosto ou escândalo.” (p.85)

“O verdadeiro humilde há de desejar sinceramente ser tido em pouco, ver-se perseguido e condenado sem culpa, mesmo em coisas graves. Se quer imitar ao Senhor, que melhor ocasião que esta? Aqui não há necessidade de forças físicas, nem de ajuda de alguém, a não ser de Deus”. (p.86)

Conselho para uma Vida de Oração

“Habituar-se à solidão é grande coisa para a oração e, sendo esta o fundamento desta casa, é necessário por todos os meios afeiçoarmo-nos ao que mais a favorece”. (p.39)

“Estás claro. Deus leva por caminho penoso os que ama. Quanto mais lhes quer, menos os poupa. Não há razão para acreditar que despreze os contemplativos. Com sua própria boca os louva e os considera seus amigos. Ora, crer que Deus admita à sua íntima amizade gente comodista e sem sofrimentos é disparate. Tenho por certíssimo: Deus dá muito maiores cruzes aos contemplativos que aos demais”. (p.101)

“Durante toda a minha vida, afeiçoei-me às palavras do Evangelho. Elas me recolhem mais do que os melhores livros, nem tenho vontade de os ler, especialmente quando os autores não são muito aprovados”. (p.126)

Conselho no trato com as famílias

“Crede-me, o que mais nos apega ao mundo é o afeto aos parentes, e é também o de que mais dificilmente nos desapegamos”. (p.64)

É preciso amar a Jesus

“Somos mais amigos de prazeres que de cruzes. Por isso os fracos não trocariam suas consolações pelos valores dos que se vêem a volta com securas. Prova-nos Senhor, que sabes as verdades, a fim de que nos conheçamos”. (p.59)

“É que o Senhor faz seus benefícios quando quer, como quer e a quem quer”. (p.72)

“O Senhor não dá mais do que se pode sofrer. Dá primeiro a paciência – depois a dor”. (p.137)

“A grandeza de Deus não tem limites. Tampouco têm suas obras. Quem poderá avaliar suas misericórdias e maravilhas?” (p.227)

“Vendo que realizais as obras a vosso alcance, Sua Majestade entenderá que faríeis muito mais se pudésseis. Assim vos dará o prêmio como se lhe tivésseis ganho muitas almas”. (p.259)

“O Senhor não olha tanto a magnificência das obras. Olha mais o amor com que são feitas. Se realizarmos o que está a nosso alcance, o que depender de nós, Sua Majestade fará com que o continuemos realizando cada dia mais e melhor”. (p.260)
——————————–
Bibliografia: 1.Livro da Vida. 2. Caminho da perfeição. 3. Castelo interior ou moradas. Editora Paulus

Anúncios

Arquivos

Ano Sacerdotal

Campanha da Fraternidade 2010

Anúncios