Biografia dos Santos

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Biografia pelo Vaticano

 

CARTA ENCÍCLICA DE JOÃO XXIII

 SACERDOTII NOSTRI PRIMORDIA

CENTENÁRIO DA MORTE DO CURA DE ARS

  

Aos veneráveis irmãos patriarcas, primazes, arcebispos, bispos e outros ordinários do lugar em paz e comunhão com a Sé Apostólica e a todo o clero e fiéis do orbe católico: Sobre o sacerdócio católico, no primeiro centenário da morte do santo cura de Ars.

 

 

PRÓLOGO

Coincidências significativas

1. As puríssimas alegrias que acompanharam copiosamente as primícias do nosso sacerdócio estão para sempre associadas, em nossa memória, à emoção profunda que experimentamos a 8 de janeiro de 1905 na Basílica Vaticana, por ocasião da gloriosa Beatificação daquele humilde sacerdote da França que foi João Maria Batista Vianney. Elevados nós mesmos ao sacerdócio havia apenas alguns meses, fomos atraídos pela admirável figura sacerdotal que o nosso predecessor s. Pio X, o antigo pároco de Salzano, era tão feliz em propor como modelo a todos os pastores de almas. E, a tantos anos de distância, não podemos evocar essa recordação sem agradecer ainda ao nosso Divino Redentor, como graça insigne, o impulso espiritual assim impresso, desde o princípio, à nossa vida de sacerdote.

 

2. Recordamos também que, no mesmo dia dessa beatificação, chegou ao nosso conhecimento a elevação ao episcopado de Mons. Tiago Maria Radini-Tedeschi, o grande bispo que devia, alguns dias depois, chamar-nos ao seu serviço e que foi para nós um mestre e pai muito querido. Foi em sua companhia que, no princípio desse ano de 1905, nos dirigimos pela primeira vez em peregrinação a Ars, a modesta aldeia que o seu santo pároco tornou para sempre tão célebre.

3. Por nova disposição providencial, no ano em que recebíamos a plenitude do sacerdócio, o Papa Pio XI de gloriosa memória, a 31 de maio de 1925, procedia à solene canonização do “pobre cura de Ars”. Na sua homilia, o Pontífice comprazia-se em descrever “a frágil figura corpórea de João Batista Vianney, a cabeça resplandecente com uma espécie de coroa branca de longos cabelos, a face emaciada e cavada pelos jejuns, mas em que tão bem se refletiam a inocência e santidade de um espírito tão humilde e tão suave que, logo à primeira vista as multidões se sentiam movidas a salutares pensamentos”.(1) Pouco depois, o mesmo Pontífice, no ano do seu jubileu sacerdotal, completava a iniciativa já tomada por s. Pio X quanto aos párocos da França e estendia a todo o mundo o celeste patrocínio de s. João Batista Vianney “para promover o bem-espiritual dos párocos no mundo inteiro”. (2)

 

4. Gostamos de lembrar, estes atos dos nossos predecessores, ligados a tantas queridas recordações pessoais, veneráveis irmãos, neste centenário da morte do santo cura de Ars. Com efeito, a 4 de agosto de 1859, entregava ele a alma a Deus, consumido pelas fadigas de um excepcional ministério pastoral de mais de quarenta anos e rodeado de unânime veneração.

 

5. Damos, pois, graças à divina Providência, que já por duas vezes se dignou alegrar e iluminar as horas solenes da nossa vida sacerdotal com o esplendor da santidade do cura de Ars, por nos oferecer de novo, desde os primeiros tempos deste supremo pontificado, a oportunidade de celebrar a memória tão gloriosa deste pastor de almas. Não vos surpreenderá, aliás, que, ao dirigir-vos esta carta, o nosso espírito e o nosso coração se volvam especialmente para os sacerdotes, nossos filhos caríssimos, a fim de os exortar a todos instantemente – e sobretudo aos que estão empenhados no ministério pastoral – a meditar os admiráveis exemplos de um irmão no sacerdócio, tornado seu celeste patrono.

 

Ensinamentos deste centenário

 

6. São já numerosos os documentos pontifícios que lembram aos padres as exigências do seu estado e os guiam no exercício do seu ministério. Para só mencionar os mais importantes, recordamos de novo a exortação Haerent animo, (3) de s. Pio X, que estimulou o fervor dos nossos primeiros anos sacerdotais, a magistral Encíclica Ad Catholici Sacerdotii (4), de Pio XI, e, entre tantos documentos e alocuções do nosso imediato predecessor sobre o padre, a sua exortação Menti Nostrae, (5) e também a admirável trilogia em honra do sacerdócio, que lhe foi sugerida pela canonização de s. Pio X. (6) Esses textos, veneráveis irmãos, são conhecidos de todos vós. Mas consentir-nos-eis que evoquemos aqui, com a alma emocionada, o último discurso que a morte impediu Pio XII de pronunciar e que ficou como o extremo e solene apelo deste grande Pontífice à santidade sacerdotal: “O caráter sacramental da ordem chancela da parte de Deus num pacto eterno o seu amor de predileção, que exige em troca, da criatura escolhida, a santificação… O clérigo deve ser tido como um eleito entre o povo, cumulado dos dons sobrenaturais e participante do poder divino, numa palavra, um ‘outro Cristo’… Já não pertence a si, nem aos parentes e amigos, nem mesmo à sua pátria. Deve consumi-lo um amor universal. Mais ainda, a caridade universal será o seu respiro, os seus pensamentos, a vontade, os sentimentos deixam de ser seus, para serem de Cristo, que é a sua vida”.(7)  S. João Maria Vianney atrai-nos e impele-nos a todos para estes cimos da vida sacerdotal. E nós somos felizes em convidar para tanto os padres de hoje; porque, se conhecemos as dificuldades que eles encontram na sua vida pessoal e nos encargos do seu ministério, e nos queixamos de que o espírito de alguns ‚ batido pelas ondas deste mundo e entibiado pelo cansaço, contudo a nossa experiência também não ignora a fidelidade corajosa da maior parte e a devoção espiritual dos melhores. A uns e a outros, o Senhor dirigiu, no dia da ordenação, estas palavras de ternura: “Já não vos chamo servos, mas amigos!” (8) Possa essa nossa carta encíclica ajudá-los a todos a perseverar e a crescer nesta amizade divina que constitui a alegria e a força de toda a vida sacerdotal.

 

Finalidade da encíclica

 

8. Não é nosso desejo, veneráveis irmãos, abordar aqui todos os aspectos da vida sacerdotal contemporânea; e, seguindo o exemplo de s. Pio X, “não diremos nada que vós não saibais, nada de novo para quem quer que seja, mas simplesmente o que a todos importa rememorar”.(9) Com efeito, ao relembrar os traços da santidade do cura de Ars, seremos levado a pôr em relevo alguns aspectos da vida sacerdotal, que em todos os tempos são essenciais, mas que, nos nossos dias, tomam tal importância que julgamos ser nosso dever apostólico insistir neles particularmente, por ocasião deste centenário.

 

9. A Igreja, que glorificou este padre “admirável pelo seu zelo pastoral e seu ininterrupto desejo de oração e de penitância”,(10) tem hoje a alegria, passado um século sobre a sua morte, de o apresentar aos padres de todo o mundo como modelo de ascese sacerdotal, de piedade, e sobretudo de piedade eucarística, modelo enfim de zelo pastoral.

 

I. ASCESE SACERDOTAL

 

Conselhos evangélicos e santidade sacerdotal

 

10. Falar de s. João Maria Vianney ‚ evocar a figura de um padre excepcionalmente mortificado que, por amor de Deus e pela conversão dos pecadores, se privava de alimento e sono, se impunha rudes penitências e, sobretudo, levava a renúncia de si mesmo a um grau heróico. Se é certo que comumente não é pedido a todos os féis que sigam este caminho, a divina Providência dispôs que nunca faltem no mundo pastores de almas que, levados pelo Espírito Santo, não hesitem em encaminhar-se por estas vias, porque tais homens operam com este exemplo o regresso de muitos, que se convertem da sedução dos erros e dos vícios para o bom caminho e a prática da vida cristã! A todos, o exemplo admirável de renúncia do cura de Ars, “severo para consigo e bondoso para com os outros”, (11) lembra de forma eloqüente e urgente o lugar primordial da ascese na vida sacerdotal. O nosso predecessor Pio XII, de saudosa memória, no desejo de evitar certos equívocos, não hesitou em precisar que é falso afirmar “que o estado clerical – justamente enquanto tal e por proceder do direito divino – por sua natureza, ou pelo menos em virtude de um postulado da mesma, exige que os seus membros professem os conselhos evangélicos”.(12) E o Papa conclui justamente: “O clérigo, portanto, não está ligado, por direito divino, aos conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência”.(13) Mas seria deformar o genuíno pensamento deste Pontífice, tão cioso da santidade dos padres, e o ensino constante da Igreja, acreditar que o padre secular é menos chamado à perfeição do que o religioso. A realidade é totalmente diversa, porque o exercício das funções sacerdotais “requer uma maior santidade interior, do que aquela exigida pelo estado religioso”.(14) E se, para atingir esta santidade de vida, a prática dos conselhos evangélicos não é imposta ao padre em virtude do seu estado clerical, não obstante ela apresenta-se a ele e a todos os discípulos do Senhor, como o caminho mais seguro para alcançar a desejada meta da perfeição cristã. Aliás, para nossa grande consolação, quantos padres generosos o compreenderam no presente, não deixando por isso de continuar nas fileiras do clero secular e pedindo a pias associações aprovadas pela Igreja que os guiem e sustentem nos caminhos da perfeição!

 

11. Convencidos de que “a grandeza do sacerdócio está na imitação de Jesus Cristo”,(15) os padres estarão, pois, mais do que nunca, atentos aos apelos do divino Mestre: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me…” (Mt 16,24). O santo cura d’Ars, segundo se afirma, “tinha meditado muitas vezes estas palavras de nosso Senhor e esforçava-se por pô-las em prática”.(16) Deus concedeu-lhe a graça de se conservar heroicamente fiel a elas; e o seu exemplo guia-nos ainda no caminho da ascese onde ele, resplandeceu brilhantemente pela pobreza, castidade e obediência.

 

S. João Maria Vianney, exemplo de pobreza evangélica

 

12. Primeiramente tendes o exemplo de pobreza, virtude pela qual o humilde cura d’Ars, se tornou digno êmulo do patriarca de Assis, de quem foi, na Ordem Terceira, discípulo fiel. (17) Rico para dar aos outros, mas pobre para si mesmo, viveu num total desprendimento dos bens deste mundo, e o seu coração verdadeiramente livre abria-se com generosidade a todos os que, afligidos por misérias materiais ou espirituais vinham até ele de toda a parte em busca de remédio. “O meu segredo é bem simples, dizia ele, é dar tudo e nada guardar”.(18) O seu desinteresse fazia-o atender a todos os pobres, sobretudo os da sua paróquia, aos quais testemunhava extrema delicadeza, tratando-os “com verdadeira ternura, com os maiores cuidados e até com respeito”.(19) Recomendava que nunca deixassem de ter atenções para com os pobres, porque tal falta recai sobre Deus; e, quando um miserável batia à sua porta, sentia-se feliz, ao recebê-lo, com bondade, por lhe poder dizer: “Sou pobre como vós; hoje sou um dos vossos!”.(20) No fim da sua vida, comprazia-se em repetir: “Estou muito satisfeito; já não tenho nada de meu; Deus pode chamar-me quando quiser”.(21) Por isso, veneráveis irmãos, podereis compreender como, de todo o coração, exortamos nossos queridos filhos do sacerdócio católico, a meditar num tal exemplo de pobreza e caridade.

 

 “A experiência cotidiana atesta – escrevia Pio XI, ao pensar no cura d’Ars – que a ação dos sacerdotes de vida modesta, os quais, segundo a doutrina evangélica, não procuram absolutamente seus próprios interesses, redunda em extraordinários benefícios para o povo cristão”.(22) E o mesmo Pontífice, considerando o estado da sociedade contemporânea, dirigia também aos padres este grave aviso: “Ao ver que os homens vendem e compram, tudo pelo dinheiro, os padres caminhem desinteressadamente pelos engodos do vício, e desprezando todo baixo desejo de ganhar, busquem almas e não dinheiro, a glória de Deus e não a sua!” (23)

 

Aplicações aos padres de hoje

 

13. Estas palavras devem estar inscritas no coração de todos os padres. Se há alguns que possuem legitimamente bens pessoais, que não se prendam a eles! Que se lembrem, antes, da obrigação que formula o Direito Canônico, a propósito dos benefícios eclesiásticos, “de dispender o supérfluo com os pobres ou com as obras pias”.(24) E queira Deus que nenhum mereça a censura do santo pároco às suas ovelhas: “Quantos têm dinheiro guardado, e tantos pobres a morrer de fome!”.(25) Mas nós sabemos que muitos padres vivem, de fato, em condições de verdadeira pobreza. A glorificação de um dos seus, que voluntariamente se despojou de tudo e se regozijava com o pensamento de ser o mais pobre da paróquia, (26) será para eles um providencial estímulo para se dedicarem à prática de uma pobreza evangélica. E se a nossa paternal solicitude pode servir-lhes de conforto, saibam quanto nos regozijamos pelo seu desinteresse no serviço de Cristo e da Igreja.

 

14. Mas, ao recomendar esta heróica pobreza, não pretendemos, de forma nenhuma, veneráveis irmãos, aprovar a pobreza total a que, por vezes, são reduzidos os ministros do Senhor nas cidades e no campo. No seu comentário da exortação do Senhor ao desprendimento dos bens deste mundo, São Beda, o Venerável, previne-nos contra qualquer interpretação abusiva: “Não se deve crer que seja prescrito aos santos não conservar dinheiro para seu uso pessoal ou para dar aos pobres, visto ler-se que o próprio Senhor… tinha algum dinheiro para os gastos da Igreja nascente…; mas que não se sirva Deus por causa disso, nem se renuncie à justiça com receio da pobreza”.(27) Pois o operário tem direito ao seu salário, (cf. Lc 10,7) e, fazendo nossas as preocupações do nosso predecessor imediato, pedimos instantemente a todos os fiéis que correspondam com generosidade ao louvável apelo dos bispos, desejosos de assegurar aos seus colaboradores recursos convenientes.(28)

 

Sua castidade angélica

 

15. S. João Maria Vianney, pobre de bens materiais, foi igualmente exemplo de voluntária mortificação da carne. “Não há senão uma maneira de se dar a Deus no exercício da renúncia e do sacrifício – dizia ele – isto é, darse totalmente”.(29) E, em toda a sua vida, praticou, em grau heróico, a ascese da castidade.

 

16. O seu exemplo sobre este ponto parece, particularmente oportuno, porque, em bastantes regiões, infelizmente, os padres são obrigados a viver, em virtude do seu cargo, num mundo onde reina uma atmosfera de excessiva liberdade e sensualidade. E a palavra de s. Tomás‚ para eles cheia de verdade: “É por vezes mais difícil viver virtuosamente tendo cura de almas, por causa dos perigos exteriores”.(30) Além disso, muitas vezes, estão moralmente sós, pouco compreendidos, pouco amparados pelos fiéis a quem se dedicam. A todos, e, sobretudo, aos mais isolados e mais expostos, nós dirigimos um apelo premente, para que toda a sua vida seja um puro testemunho dessa virtude a que s. Pio X chamava “o mais belo ornamento da nossa ordem”.(31) E recomendamo-vos, insistentemente, veneráveis irmãos, que procureis para os vossos padres, na medida do possível, condições de existência e trabalho que estimulem a sua boa vontade. É preciso, a todo o custo, combater os perigos do isolamento, denunciar as imprudências, afastar as tentações da ociosidade ou os riscos do excesso de trabalho. Lembremo-nos igualmente, a este respeito, dos magníficos ensinamentos do nosso predecessor na Encíclica “Sacra Virginitas“. (32)

 

17. Foi dito do cura d’Ars: “A castidade brilhava no seu olhar”.(33) Na verdade, quem estuda a sua personalidade fica surpreendido, não só pelo heroísmo com que este padre subjugava seu corpo (cf. 1Cor 9,27), mas ainda pela força da convicção com que conseguia que a multidão dos seus penitentes o seguisse. É que ele sabia, por uma longa prática do confessionário, os males causados pelos pecados da carne. Por isso de seu peito saíam estes gemidos: “Se não houvesse almas puras que aplacassem a Deus ofendido pelos nossos pecados, quantos e quão terríveis castigos teríamos nós que suportar!”. E, falando com experiência, juntava ao seu apelo um estímulo fraterno: “A mortificação tem um bálsamo e um sabor de que não podem prescindir os que alguma vez os conheceram… Neste caminho, o que custa ‚ o primeiro passo”.(34)

 

18. Esta ascese necessária da castidade, longe de fechar o padre num estéril egoísmo, torna o seu coração mais aberto e mais acessível a todas as necessidades dos seus irmãos. Dizia otimamente o cura d’Ars: “Quando o coração é puro não pode deixar de amar, porque encontrou a fonte do amor, que é Deus”.

 

19. Que benefício para a sociedade humana ter assim, no seu seio, homens que, livres das solicitações temporais, se consagram inteiramente ao serviço de Deus e dão aos seus irmãos a sua vida, os seus pensamentos e as suas forças! Que graça para a Igreja ter padres empenhados em guardar integralmente esta virtude! Com Pio XI, consideramo-la a glória mais pura do sacerdócio católico, ela que nos parece “a melhor resposta aos desejos do Coração de Jesus e aos seus desígnios sobre as almas sacerdotais”. (35) Não estaria também conforme com os desígnios da divina caridade a mente do santo cura d’Ars, quando exclamava: “O sacerdócio ‚ o amor do Coração de Jesus!”(36)

 

Seu espírito de obediência

 

20. São numerosos os testemunhos sobre o espírito de obediência do santo, podendo afirmar-se que para ele a exata fidelidade ao “prometo” da ordenação foi motivo para uma permanente renúncia de quarenta anos. Durante toda a sua vida, com efeito, aspirou à solidão de um santo retiro, e as responsabilidades pastorais foram para ele pesado fardo, do qual por várias vezes tentou libertar-se. Mas sua obediência total ao Bispo foi mais admirável. Por isso, veneráveis irmãos, temos o prazer de relatar algumas testemunhas da sua vida: “Desde a idade de quinze anos este desejo (da solidão) estava no seu coração para o atormentar e tirar-lhe a felicidade de que poderia gozar na sua posição”.(37)  Mas “Deus não permitiu que pudesse realizar tal desígnio. A divina Providência queria sem dúvida que, sacrificando o seu gosto à obediência, o prazer ao dever, João M. Vianney tivesse constantemente ocasião de se vencer”.(38) “Vianney continuou cura d’Ars com obediência cega e assim ficou até à morte”.(39)

 

21. Esta total adesão à vontade dos superiores era, convém afirmá-lo, inteiramente sobrenatural no seu motivo: era um ato de fé na palavra de Cristo que dizia aos seus apóstolos: “Quem vos ouve, ouve a mim” (Lc 10,16), e, para ser-lhe fiel costumava habitualmente renunciar à sua própria vontade na aceitação do seu pesado encargo do confessionário e em todas as tarefas cotidianas onde a colaboração entre confrades torna o apostolado mais frutuoso.

 

22. Estimamos propor como exemplo aos padres, esta rigorosa obediência, esperando que saibam compreender toda a sua grandeza e cada vez a cultivem com maior empenho. E se, um dia, sentissem a tentação de duvidar da importência desta virtude capital, hoje tão facilmente esquecida, convençam-se de que têm contra si as afirmações claras e nítidas de Pio XII, que atesta que “a santidade da vida pessoal e a eficácia do apostolado têm por base e sustentáculo a obediência constante e exata à sagrada hierarquia”.(40) Deveis também recordar-vos, veneráveis irmãos, com quanta força os nossos últimos predecessores denunciaram os graves perigos do espírito de independência no clero, tanto para o ensino da doutrina como para os métodos de apostolado e para a disciplina eclesiástica.

 

23. Não desejamos insistir mais sobre este ponto, preferindo exortar nossos filhos que foram chamados ao sacerdócio a desenvolver em si mesmos o sentido filial de que pertencem à Igreja, nossa mãe. Dizia-se do cura d’Ars que ele só vivia na Igreja e só para a Igreja trabalhava, como palha que se consome no fogo. Padres de Jesus Cristo, nós estamos no braseiro que o fogo do Espírito Santo anima; tudo recebemos da Igreja; só agimos em seu nome e pelos poderes que ela nos conferiu: esforcemo-nos para servi-la nos laços da unidade e pela forma por que ela deseja ser servida. (41)

 

II. ORAÇÃO E CULTO EUCARÍSTICO

 

24. Homem de penitência, s. João Maria Vianney tinha igualmente compreendido que “o padre, antes de tudo, deve ser homem de oração”.(42) Todos conhecem as longas noites de adoração que, este jovem pároco duma aldeia, então pouco cristã, passava diante do Santíssimo Sacramento. O sacrário da sua igreja tornou-se o foco da sua vida pessoal e do seu apostolado, a ponto de não se poder evocar justamente a paróquia de Ars no tempo do Santo, senão por estas palavras de Pio XII sobre a paróquia cristã: “O centro é a igreja e, na igreja, o sacrário e, ao lado, o confessionário onde se restitui a vida sobrenatural ou a saúde ao povo cristão”.(43)

 

A oração nos exemplos e no ensino do cura d’Ars

 

25. Aos padres deste século, que costumam exagerar a eficácia da ação e que tão facilmente se entregam ao mesmo dinamismo exterior do ministério sacerdotal, com prejuízo do seu aproveitamento espiritual, como é oportuno e salutar este modelo de oração assídua numa vida inteiramente votada às necessidades das almas! “O que impede a nós padres de ser santos, é a falta de reflexão. Não entramos em nós mesmos; não sabemos o que fazemos. Precisamos da reflexão, da oração, da união com Deus”. Ele próprio vivia, segundo testemunham os contemporâneos, num estado de contínua oração, do qual não conseguiram distraí-lo, nem o peso extenuante das confissões, nem os outros trabalhos pastorais. “Mantinha uma união constante com Deus no meio da sua vida excessivamente ocupada”.(44) Mas escutemo-lo, porque ele ‚ incansável, quando fala das alegrias e dos benefícios da oração: “O homem é um pobre, que tudo precisa pedir a Deus”.(45) “Quantas almas podemos converter com nossas orações!”(46) E repetia: “A oração, eis toda a felicidade do homem sobre a terra”. (46) Esta felicidade, gozou-a ele; longamente, enquanto o seu olhar iluminado pela fé contemplava os mistérios divinos e, pela adoração do Verbo encarnado elevava sua alma simples e pura para a Santíssima Trindade, supremo objetivo do seu amor. E os peregrinos, que enchiam a igreja de Ars, compreendiam que o humilde padre lhes confiava alguma coisa do segredo da sua vida interior por esta exclamação freqüente, que lhe era tão querida: “Ser amado por Deus, estar unido a Deus, viver na presença de Deus, viver para Deus: oh! que bela vida e que bela morte!” (48)

 

O padre é, antes de tudo, um homem de oração

 

26. Nós desejaríamos, veneráveis irmãos, que todos os padres das vossas dioceses se deixassem convencer, pelo testemunho do santo cura d’Ars, da necessidade de serem homens de oração e da possibilidade de o serem, qualquer que seja a sobrecarga por vezes extrema dos trabalhos do seu ministério. Mas para isso ‚ necessária uma fé viva, como a que animava João Maria Vianney e o fazia realizar maravilhas. “Que fé! – exclamava um dos seus colegas. Chegaria para enriquecer uma diocese inteira!”(49)

 

27. Esta fidelidade à oração é, aliás, para o padre um dever de piedade pessoal, da qual a sabedoria da Igreja salientou muitos pontos importantes, como a oração mental cotidiana, a visita ao Santíssimo Sacramento o terço e o exame de consciência.(50) É mesmo uma obrigação estrita contraída para com a Igreja, quando se trata da recitação diária do ofício divino.(51) Talvez por terem esquecido algumas destas prescrições, certos membros do clero se foram entregando, pouco a pouco, à instabilidade exterior, ao empobrecimento interior, ficando expostos um dia, sem defesa, às tentaçäes desta vida terrena. Pelo contrário, “trabalhando sem cessar pelo bem das almas, João M. Vianney não abandonava a sua. Trabalhava estrenuamente na própria santificação, para ficar assim mais apto a levar os outros a ela”. (52) Com s. Pio X, “consideremos pois como certo e estabelecido que o padre, para ocupar dignamente o seu lugar e cumprir o seu dever, deve consagrar-se antes de tudo à oração… Mais do que qualquer outra pessoa, deve obedecer ao preceito de Cristo: é preciso orar sempre; preceito que s. Paulo recomenda com insistência: ‘perseverai na oração, com vigilância e na ação de graças… Rezai sem cessar”‘.(53) E, de boa vontade, ao terminar este ponto, nós evocamos a palavra de ordem que o nosso predecessor imediato dava aos padres, desde o começo do seu pontificado: “Orai, orai cada vez mais e com maior insistência!” (54)

 

A piedade eucarística do santo cura d’Ars

 

28. A oração do cura d’Ars, que passou por assim dizer os trinta últimos anos de vida na igreja onde o retinham os seus inúmeros penitentes, era sobretudo uma oração eucarística. A sua devoção para com nosso Senhor, presente no Santíssimo Sacramento do altar, era verdadeiramente extraordinária. “Está ali – dizia – aquele que tanto nos ama; por que nós não havemos de amá-lo?” (55) E, por certo, ele amava-o e sentia-se como que irresistivelmente atraído para o sacrário. Explicava ele aos seus paroquianos: “Para bem rezar não há necessidade de falar tanto! Sabemos pela fé que Deus está ali, no sacrário; abrimos-lhe o nosso coração e sentimo-nos felizes por ser admitidos à sua presença. É a melhor maneira de rezar”. (56) Não perdia ocasião de inculcar aos fiéis o respeito e o amor à divina presença na Eucaristia, convidando-os a aproximarem-se com freqüência da Sagrada mesa; e dava-lhes exemplo desta profunda piedade: “Para se convencerem disso, referiram as testemunhas, bastaria vê-lo celebrando a missa, e fazendo a genuflexão ao passar diante do sacrário”. (57)

Importância da Eucaristia na vida do padre

 

29. “O exemplo admirável do santo cura d’Ars conserva ainda hoje todo o seu valor”, atesta Pio XII. (58) Nada poderá substituir na vida de um padre a oração silenciosa e prolongada diante do altar. A adoração de Jesus, nosso Deus, a ação de graças, a reparação pelas nossas próprias faltas e pelas dos homens, a súplica por tantas intenções que lhe são confiadas, elevam este padre ao máximo de amor para com o divino Mestre a quem prometeu fidelidade e para com os homens que confiam no seu zelo pastoral. E pela prática deste culto, esclarecido e fervoroso para com a Eucaristia, que um padre aumenta a sua vida espiritual e se preparam as energias missionárias dos mais valorosos apóstolos.

 

30. Acrescente-se o beneficio que daí resulta para os fiéis, testemunhas desta piedade dos seus padres e atraídos pelo seu exemplo. Dizia Pio XII ao clero de Roma: “Se vós quiserdes que os fiéis orem com devoção dai-lhes vós o exemplo, na igreja, fazendo as orações na sua presença. Um padre ajoelhado diante do sacrário, numa atitude exterior respeitosa e em profundo recolhimento, é para o povo objeto de educação, um aviso, um convite à emulação na prece”.(59) Foi esta, por excelência, a arma apostólica do jovem cura d’Ars; não duvidemos do seu valor em todas as circunstâncias.

 

O sacerdócio e o sacrifício da missa

 

31. Nunca devemos esquecer que a oração eucarística, no verdadeiro sentido da palavra, é o santo sacrifício da missa. Convém, veneráveis irmãos, insistir especialmente neste ponto, já que é um dos aspectos essenciais na vida sacerdotal.

 

32. Não é nossa intenção renovar aqui o exposto na doutrina tradicional da Igreja sobre o sacerdócio e o sacrifício eucarístico; os nossos predecessores, Pio XI e Pio XII, de feliz memória, em documentos magistrais, recordaram tão claramente este ensinamento, que nós nos limitaremos a exortar-vos a torná-lo amplamente conhecido dos padres e dos fiéis que vos estão confiados. Dissipar-se-ão incertezas e ousadias de pensamento que, por vezes, se têm manifestado a este respeito.

 

33. Mas é bom mostrar nesta Encíclica em que sentido profundo o santo cura d’Ars, heroicamente fiel aos deveres do seu ministério, mereceu na verdade ser proposto como exemplo aos pastores de almas e proclamado seu celeste padroeiro. Com efeito, se é verdade que o padre recebeu o caráter da ordem para o serviço do altar e começou o exercício do seu sacerdócio com o sacrifício eucarístico, este não deixará de ser, durante toda a vida, a base da sua ação apostólica e da sua santificação pessoal. E foi este, precisamente, o caso de s. João Maria Vianney.

 

34. Que é, pois, o apostolado do padre, considerado na sua ação essencial, se não congregar, onde quer que viva a Igreja, em volta do altar, o povo regenerado pelo santo batismo e purificado dos seus pecados? É então que o padre, pelos poderes que só ele recebeu, oferece o divino sacrifício onde o próprio Jesus renova a imolação única realizada no Calvário para redenção do mundo e glorificação do Pai; ‚ ali que os cristãos reunidos oferecem ao Pai celeste a Vítima divina por meio do padre e se aprestam a imolar-se eles mesmos como “hóstias vivas, santas, agradáveis a Deus” (Rm 12,1). É ali que o povo de Deus, iluminado pela pregação da fé, e alimentado com o Corpo de Cristo, encontra a sua vida, o seu crescimento e, se lhe é necessário, reforça a sua unidade; é ali, numa palavra, que, de geração em geração, em toda a parte, cresce espiritualmente o Corpo místico de Cristo, que é a Igreja.

 

35. A este respeito, o santo cura d’Ars, de dia para dia, cada vez mais se foi empenhando no ensino da fé e na purificação das consciências e, portanto, todos os atos do seu ministério convergiam para o altar. Uma vida assim não pode deixar de ser considerada eminentemente sacerdotal e pastoral. Sem dúvida, em Ars, os pecadores acorriam numerosíssimos à Igreja, atraídos pela fama de santidade do pastor, ao passo que tantos padres têm de consagrar longos e laboriosos esforços para reunir o povo que lhes está comado e, à maneira de missionários, ensinar os primeiros elementos da doutrina cristã. Mas estes trabalhos apostólicos, tão necessários e por vezes tão difíceis, não podem fazer esquecer aos homens de Deus o fim para o qual devem continuamente tender e que o cura d’Ars atingiu quando, na sua humilde igreja de aldeia, se consagrava às tarefas essenciais da ação pastoral.

 

A missa, fonte primária da santificação pessoal do padre

 

36. Mas há mais. E toda a santificação pessoal do padre que deve modelar-se sobre o sacrifício que ele celebra, segundo o incitamento do Pontifical romano. “Sede conscientes do que fazeis, imitai o que tratais”. Demos aqui a palavra ao nosso imediato predecessor, na sua exortação apostólica Menti Nostrae: “Assim como toda a vida do Salvador foi votada ao sacrifício de si mesmo, assim também toda a vida do padre, que deve reproduzir em si a imagem de Cristo, deve ser com ele, nele e por ele, um sacrifício agradável… O padre não se contentará com celebrar o sacrifício eucarístico, mas deverá vivê-lo profundamente. Assim, colherá nele a força sobrenatural que o transformará completamente e o fará participar da vida de expiação do próprio Redentor”.(60) E o mesmo Pontífice conclui: “É pois uma obrigação para o padre reproduzir na sua alma o que se passa no altar e, visto que Jesus se imola, assim também o seu ministro deve imolar-se com ele; já que Jesus expia os pecados dos homens, o padre alcançará a sua própria purificação e a dos outros, seguindo a via árdua da ascese cristã”. (61)

 

37. É esta elevada doutrina que a Igreja tem em vista, ao convidar seus ministros a uma vida de ascese e ao recomendar-lhes a celebração com profunda piedade do sacrifício eucarístico. Não será talvez por não terem compreendido bem o laço íntimo, e como que recíproco, que une o dom cotidiano de si mesmos à oblação da missa, que certos padres, pouco a pouco, chegaram a perder o primeiro amor da sua ordenação? Era esta a experiência adquirida pelo cura d’Ars que assim a exprimia: “A causa do relaxamento do padre é não prestar atenção à missa”. E o Santo, que tinha o “hábito heróico de oferecer-se em sacrifício pelos pecadores”, (62) derramava abundantes lágrimas “ao pensar na infelicidade dos padres que não correspondem à santidade da sua vocação”.(63)

38. Com paternal afeto pedimos aos nossos queridos padres que se examinem periodicamente sobre a forma como celebram os santos mistérios e, especialmente, sobre as disposições espirituais com que sobem ao altar e os frutos que se esforçam por tirar. O centenário deste padre admirável que, “na consolação e felicidade de celebrar a santa missa” (65) encontrava a coragem do seu próprio sacrifício, a isso os convida: temos íntima confiança que a sua intercessão lhes alcançará abundantes graças de luz e de força.

 

III. ZELO PASTORAL

 

O santo cura d’Ars modelo de zelo apostólico

 

39. Esta vida de ascese e de oração, cujos exemplos acabamos de expor, mostra claramente o segredo do zelo pastoral de s. João Maria Vianney e da extraordinária eficácia sobrenatural do seu ministério. Escrevia o nosso predecessor, de feliz memória, Pio XII: “Que o padre se lembre que o altíssimo ministério que lhe foi confiado será tanto mais fecundo quanto mais estreitamente estiver unido com Cristo e se deixar guiar pelo seu espírito”.(65) A vida do cura d’Ars confirma, uma vez mais, esta grande lei de todo o apostolado, fundada na própria palavra de Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer ” (Jo 15,5).

 

40. Sem dúvida, não se trata aqui de relembrar a admirável história deste humilde pároco de aldeia, cujo confessionário foi, durante trinta anos, assediado por multidões tão numerosas que certos espíritos fortes da época ousaram acusá-lo de “perturbar o século XIX”,(66) nem de tratar de todos os métodos de apostolado, com que ele se desempenhava do seu ofício e que nem sempre se podem aplicar em nossos dias. Basta-nos lembrar, sobre este ponto, que o Santo foi no seu tempo um modelo de zelo pastoral nesta aldeia de França, onde a fé e os costumes se ressentiam ainda dos abalos da Revolução. “Não há muito amor de Deus nessa paróquia, tereis vós de o despertar”(67) lhe disseram quando para lá o mandaram. Apóstolo infatigável, hábil e sagaz para conquistar a juventude e santificar os lares, atento às necessidades humanas das suas ovelhas, próximo da sua vida, trabalhando sem descanso por estabelecer escolas cristãs e promover missões paroquiais, ele foi na verdade, para o seu pequenino rebanho, o bom pastor, que conhece suas ovelhas e as livra dos perigos e conduz com fortaleza e suavidade. Sem dar por isso, não fazia ele seu próprio elogio nesta apóstrofe de um dos seus sermões: “Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus: eis o maior tesouro que Deus pode conceder a uma paróquia”?(68)

 

41. O exemplo do cura d’Ars conserva, na verdade, um valor permanente e universal sobre três pontos essenciais, que nos apraz, veneráveis irmãos, propor à vossa consideração.

 

Sentido apurado das suas responsabilidades pastorais

 

42. O que em primeiro lugar impressiona é o sentido apurado que ele tinha das suas responsabilidades pastorais. A humildade e o conhecimento sobrenatural do valor das almas fizeram-no levar com receio o ônus de pároco. “Meu amigo – confiava ele a um colega -, não sabeis o que é passar duma paróquia para o tribunal de Deus!”(69) Todos sabemos o desejo, que durante muito tempo o atormentou, de fugir para um lugar retirado para aí “chorar a sua pobre vida”, e como a obediência e o zelo das almas o reconduziram sempre ao seu posto.

 

43. Mas se, em certas horas, ele se sentiu assim acabrunhado pelo seu cargo excepcionalmente pesado, é precisamente porque tinha uma concepção heróica do seu dever e das suas responsabilidades de pastor. Com efeito, nos primeiros anos de seu ofício paroquial elevava ao céus a prece suplicante: “Meu Deus, concedei-me a conversão da minha paróquia, sujeito-me a sofrer o que quiserdes, durante toda a minha vida!”(70)  E obteve do céu essa conversão. Mas, mais tarde, confessava: “Quando vim para Ars, se tivesse previsto os sofrimentos que lá me esperavam, teria morrido imediatamente, de medo?”(71) A exemplo dos apóstolos de todos os tempos, ele via na cruz o grande meio sobrenatural de cooperar na salvação das almas que lhe estavam confiadas. Por elas, sofria, sem se queixar, calúnias, incompreensões e contradições; por elas, aceitou o verdadeiro martírio físico e moral de uma presença quase ininterrupta no confessionário, todos os dias, durante trinta anos; por elas, lutou como atleta do Senhor contra os poderes infernais; por elas, mortificou seu corpo. E é conhecida a sua resposta a um colega que se queixava da pouca eficácia do seu ministério: “Rezastes, chorastes, gemestes, suspirastes. Mas porventura jejuastes, fizestes vigílias, dormistes sobre o chão duro, fizestes penitências corporais? Enquanto não o fizerdes, não julgueis que fizestes tudo!”(72)

 

44. Dirigimo-nos a todos os padres, que têm cura de almas e incitamo-los a entender a força ínsita nessas graves palavras! Examine cada um, segundo a prudência sobrenatural que sempre deve regular nossas açäes, a sua vida, e veja se é tal como a exige a solicitude pastoral do povo que lhe está confiado. Sem nunca duvidar da misericórdia divina que vem em auxílio da nossa fraqueza, e pondo os olhos em s. João Maria Vianney, como num espelho, considere, a responsabilidade do cargo que assumiu. “O grande mal para nós, párocos, deplorava o Santo, é que a alma se deixe entibiar”. Considerava isso um estado perigoso do pastor a quem não impressiona ver tantas ovelhas que lhe estão confiadas vivendo na sordidez do pecado. E, para melhor entender ainda os ensinamentos do cura d’Ars, que “estava convencido que, para fazer bem aos homens, é preciso amá-los”,(73) examine-se cada um sobre a caridade que o anima para com aqueles que Deus confiou aos seus cuidados e pelos quais Cristo morreu!

 

45. É certo que a liberdade dos homens, ou determinados acontecimentos independentes da sua vontade, podem por vezes opor-se aos esforços dos maiores santos. Mas o padre nem por isso deve deixar de se lembrar que, segundo os insondáveis desígnios da divina Providência, a sorte de muitas almas está ligada ao seu zelo pastoral e ao exemplo da sua vida. Não será este pensamento de tal natureza que provoque nos obreiros de Cristo, que são tíbios, uma salutar inquietação e desperte nos fervorosos um zelo mais ardente?

 

 

 

 

Pregador e catequista infatigável

 

46. “Sempre pronto a corresponder às necessidades das almas”,(74)  João Maria Vianney, como bom pastor, primou em procurar-lhes com abundância o alimento primordial da verdade religiosa. Durante toda a sua vida, foi pregador e catequista.

 

47. Conhece-se o trabalho solícito e perseverante a que se obrigou para bem cumprir este dom do seu cargo, “primeiro e máximo dever”, segundo o Concílio de Trento. Seus estudos, tardiamente feitos, foram laboriosos, e os sermões custaram-lhe no começo não poucas vigílias. Mas que exemplo para os ministros da palavras de Deus! Alguns não hesitam em desculpar, sem razão, a falta de zelo nos estudos, invocando a pouca erudição do Santo. Deveriam antes imitar a coragem com que se tornou apto para tão grande ministério, segundo a medida dos dons que lhe foram repartidos, estes, aliás, não eram tão poucos como por vezes se afirma, porque “tinha uma inteligência límpida e clara”.(75)

 

48. Em todo o caso, cada padre tem o dever de adquir e desenvolver os conhecimentos gerais e a cultura teológica proporcionada às suas aptidões e funções. E praza a Deus que os pastores de almas façam sempre tanto como fez o cura d’Ars para desenvolver a capacidade da sua inteligência e fortalecer a memória com o exercício, sobretudo para tirar a iluminação do melhor de todos os livros que é a cruz de Cristo! O seu bispo dizia dele a alguns dos seus detratores: “Não sei se é instruído, mas o que é certo é que brilha com luz do céu”.(76)

 

49. Foi com toda a razão que o nosso predecessor de feliz memória, Pio XII, não hesitou em apresentar como modelo aos pregadores da cidade eterna o humilde pároco de aldeia. “O santo cura d’Ars não tinha, por certo, o gênio natural dum P. Ségneri ou dum Benigno Bossuet; mas a convicção viva, clara e profunda, de que estava animado, vibrava na sua palavra, brilhava nos seus olhos, sugeria à sua imaginação e sensibilidade idéias, imagens, comparaçäes justas, apropriadas, deliciosas, que teriam encantado um s. Francisco de Sales. Tais pregadores conquistam o auditório. Àquele que está cheio de Cristo não será difícil conquistar os outros para Cristo”.(77) Estas palavras descrevem à maravilha o cura d’Ars, catequista e pregador. Quando, no fim da vida com a voz enfraquecida, já não se podia fazer ouvir por todo o auditório, era ainda pelo olhar de fogo, pelas lágrimas, pelos gemidos de amor de Deus ou pela expressão de dor ao simples pensamento do pecado, que convertia os fiéis atraídos para junto da sua cátedra. Com efeito, quem não ficará impressionado pelo testemunho duma vida tão inteiramente votada ao amor de Cristo?

 

50. Até à santa morte, s. João Maria Vianney conservou-se assim fiel à missão de instruir o povo e os peregrinos que enchiam a sua igreja, a denunciar “a tempo e fora de tempo” (2 Tm 4,2), o mal sob todas as formas, sobretudo a elevar as almas para Deus, porque “preferia antes mostrar o lado atraente da virtude, do que a fealdade do vício”.(78) Este humilde padre tinha, com efeito, compreendido em alto grau a dignidade e a grandeza do ministério da Palavra de Deus: “Nosso Senhor, que é a própria Verdade – dizia ele – não faz menos caso da sua Palavra do que do seu corpo”.

 

51. Compreende-se assim a alegria dos nossos predecessores, oferecendo este pastor de almas como modelo aos padres, porque é de suma importência que o clero seja, em toda a parte e em todos os tempos, fiel ao seu dever de ensinar. Dizia a este propósito s. Pio X: “Importa pôr em relevo, e com insistência, este ponto essencial: um padre, seja quem for, não tem missão mais importante, nem mais estrita obrigação”.(79) Este vibrante apelo, constantemente renovado pelos nossos predecessores, e de que se faz eco o Direito Canônico, (80) nós vo-lo dirigimos, veneráveis irmãos, neste ano centenário do santo catequista e pregador de Ars. Encorajamos as tentativas feitas com prudência, sob a vossa orientação, em vários países, para melhorar as condições do ensino religioso dos jovens e dos adultos, nas suas diversas formas e tendo em conta os diferentes ambientes. Mas, por muito úteis que sejam tais trabalhos, Deus faz-nos lembrar, neste centenário do cura d’Ars, o irresistível poder apostólico de um padre que, tanto pela sua própria vida como pelas suas palavras, presta homenagem a Cristo crucificado não com “a persuasiva linguagem da sabedoria, mas com uma demonstração do poder do Espírito” (l Cor 2,4).

 

Incansável apóstolo do confessionário

 

52. Por último, resta-nos evocar na vida de s. João Maria Vianney este aspecto do ministério pastoral, que para ele, durante muitos anos de sua vida, foi como um longo martírio e fica para sempre ligado à sua memória: a administração do sacramento da penitência, que dele recebeu singular brilho e produziu os mais abundantes e salutares frutos. “Em média, cada dia, passava quinze horas no confessionário. Este labor cotidiano começava de madrugada e só acabava à noite”.(81) E quando caiu esgotado, cinco dias antes de morrer, os últimos penitentes aglomeravam-se à cabeceira do moribundo. Calculou-se que no final da vida, o número anual dos peregrinos atingisse oitenta mil. (82)

 

53. Dificilmente se podem imaginar as contrariedades e os sofrimentos físicos destas intermináveis horas no confessionário, para um homem já esgotado pelos jejuns, macerações, enfermidades, e falta de sono… Mas, acima de tudo, ele sentia-se como moralmente esmagado pela dor. Escutai a sua lamentação: “Ofende-se tanto a Deus, que quase nos sentimos tentados a pedir o fim do mundo!..É preciso vir a Ars para se saber o que é o pecado e a sua multidão quase infinita… Não se sabe o que se deve fazer: só se pode chorar e rezar”. O santo esquecia-se de acrescentar que tomava também sobre si uma parte da expiação: “Pela minha parte – contava ele a quem lhe pedia conselho – dou-lhes uma penitência pequena e o resto faço-a eu por eles”.(83)

 

54. Na verdade, o cura d’Ars não vivia senão para os “pobres pecadores”, como ele dizia, na esperança de os ver converter-se e chorar. A sua conversão era “o fim para o qual convergiam todos os seus pensamentos e a obra em que dispendia todo o tempo e todas as forças”.(84) É que, com efeito, ele sabia, pela experiência do confessionário, toda a malícia do pecado e as suas horrorosas devastações no mundo das almas. Falou disso em termos terríveis: “Se tivéssemos fé e víssemos uma alma em estado de pecado mortal, morreríamos de pavor!”(85)

55. Mas a acuidade da sua dor e a veemência da sua palavra provinham menos do receio das penas eternas que ameaçam o pecador endurecido, do que da emoção que sentia com o pensamento do amor divino ignorado e ofendido. Ante a obstinação do pecador e a sua ingratidão para com um Deus tão bom, as lágrimas brotavam-lhe dos olhos: “Oh, meu amigo – dizia ele – eu choro, porque vós não chorais!” (86) Mas, pelo contrário, com que delicadeza e fervor ele fazia a esperança renascer nos corações arrependidos! Incansavelmente, tornava-se junto deles o ministro da misericórdia divina, que é, dizia ele, poderosa “como uma torrente saída do leito, que arrasta os corações na sua passagem”(87) e mais terna do que a solicitude de uma mãe, porque Deus é “mais pronto em perdoar do que uma mãe em tirar seu filho do fogo”. (88)

 

56. Seguindo o exemplo do santo cura d’Ars, os pastores de almas deverão tomar a peito consagrar-se, com competência e dedicação, a este ministério tão grave, porque é aí que, finalmente, a misericórdia divina triunfa da malícia dos homens e que o pecador ‚ reconciliado com Deus. Recordemos, igualmente, que nosso predecessor Pio XII condenou “com palavras bem duras” a opinião errônea segundo a qual não se deveria fazer tanto caso da confissão freqüente das faltas veniais: “Para avançar com ardor crescente no caminho da virtude, recomendamos vivamente este piedoso costume da confissão freqüente, introduzido pela Igreja não sem a inspiração do Espírito Santo”. (89) Enfim, ousamos esperar que os ministros do Senhor serão os primeiros a ser fiéis, segundo as prescrições canônicas, (90) à  prática regular e fervorosa do sacramento da penitência, tão necessário à sua santificação, e que tomarão na maior conta as insistentes recomendações que, muitas vezes e com sofrimento, Pio XII lhes dirigiu com esta finalidade.(91)

 

Conclusão

 

57. Ao terminar esta carta, veneráveis irmãos, desejamos afirmar-vos a nossa viva esperança de que, pela graça de Deus, este centenário da morte do santo cura d’Ars despertará em todos os padres o desejo de cumprir mais generosamente o seu ministério e, sobretudo, este “primeiro dever que é trabalhar na sua própria santificação”.(92)

 

58. Quando, desde este cume do supremo Pontificado onde a Providência quis colocar-nos, consideramos a imensa ansiedade das almas, os graves problemas da evangelização em tantos países e as necessidades religiosas das populações cristãs, sempre e por toda a parte se apresenta diante dos nossos olhos a imagem do padre. Sem ele, sem a sua ação cotidiana, que seria das iniciativas mesmo as mais apropriadas às necessidades do momento? Que fariam mesmo os mais generosos apóstolos leigos?

 

Exortações

 

59. É a esses padres tão amados e sobre os quais se fundam tantas esperanças de progresso na Igreja, que ousamos pedir, em nome de Cristo Jesus, inteira fidelidade às exigências espirituais da sua vocação sacerdotal. Estas palavras cheias de sabedoria de s. Pio X realçam o nosso apelo: “Para fazer reinar Jesus Cristo no mundo, nada é mais necessário do que um clero santo, que seja, com o exemplo, com a palavra e com a ciência, guia dos fiéis”.(93) Quase o mesmo dizia s. João Maria Vianney ao seu bispo: “Se quiserdes converter a vossa diocese, será preciso tornar santos todos os vossos párocos!”.

 

60. A vós, veneráveis irmãos, que tendes a responsabilidade da santificação dos vossos padres, recomendamo-vos que os ajudeis nas dificuldades, por vezes graves, da sua vida pessoal ou do seu ministério. Quanto pode fazer um Bispo que ama os seus padres e ganhou a sua confiança, que os conhece, segue de perto e guia com autoridade firme e sempre paternal! Se vos pertence a solicitude de todas a diocese, vivei em primeiro lugar e com solicitude paternal para esses homens que colaboram tão estreitamente convosco e aos quais vos unem laços tão sagrados.

 

61. Igualmente pedimos a todos os fiéis, neste ano centenário, que rezem pelos padres e contribuam, pela sua parte, para a sua santificação. Hoje, os cristãos fervorosos esperam muito do padre. Querem ver nele, neste mundo onde triunfa com freqüência o poderio do dinheiro, a sedução dos sentidos, o prestígio da técnica, um testemunho do Deus invisível, um homem de fé, esquecido de si mesmo e cheio de caridade. Saibam esses cristãos que podem contribuir muito para que seus padres sejam fiéis a tão grande ideal, por um respeito religioso do seu caráter sacerdotal, uma compreensão mais exata da sua tarefa pastoral e das suas dificuldades, uma colaboração mais ativa no seu apostolado.

 

62. O nosso olhar paternal não pode deixar de voltar-se, cheio de afeição e esperança, para a juventude. “A colheita é grande, mas poucos os operários! (Mt 9,37). Em tantas regiões, os apóstolos, gastos pelo trabalho, esperam ansiosamente os que hão de rendê-los! Povos inteiros sofrem duma fome espiritual ainda mais grave do que a do corpo; quem lhes levará o alimento celeste da verdade e da vida? Esperamos firmemente que a juventude deste século não será menos generosa em corresponder ao apelo do Mestre do que a dos tempos passados.

 

63. Por certo, a condição do padre é muitas vezes difícil. Não é para admirar que seja o primeiro alvo visado pelos inimigos da Igreja, porque, dizia o cura d’Ars, quando se quer destruir a religião, começa-se por atacar o padre.

 

64. Mas, não obstante estas gravíssimas dificuldades, que ninguém duvide da felicidade profunda que é partilhar do padre fervoroso, chamado pelo Salvador Jesus a colaborar na mais santa das obras, a da redenção das almas e do crescimento do corpo místico de Cristo. Famílias cristãs, pesai as vossas responsabilidades e dai vossos filhos, com alegria e gratidão, ao serviço da Igreja.

 

65. Não pretendemos desenvolver aqui este apelo, que é também o vosso, veneráveis irmãos. Mas estamos certos de que compreendereis e partilhareis a ansiedade do nosso coração e todo o poder de convicção que desejaríamos pôr nestas poucas palavras. É a s. João Maria Vianney que confiamos esta causa tão grave e da qual depende o futuro de tantos milhares de almas!

Oração e bênção

 

66. Para a Virgem Imaculada volvemos agora os nossos olhares. Pouco antes de o cura d’Ars acabar a sua longa carreira, cheia de merecimentos, ela apareceu numa outra região de França a uma donzela humilde e pura, para lhe comunicar uma mensagem de oração e de penitência, cuja imensa repercussão espiritual ‚ bem conhecida desde há um século. Na verdade, a existência do santo padre, cuja memória estamos celebrando, era antecipadamente uma viva ilustração das grandes verdades sobrenaturais confiadas à vidente de Massabielle! Ele próprio tinha pela Imaculada Conceição da Santíssima Virgem uma viva devoção, ele que, em 1836, consagrara a sua paróquia a Maria concebida sem pecado, devia acolher com tanta fé e alegria a definição dogmática de 1854. (94)

67. Desta forma, comprazemo-nos em unir no pensamento e na nossa gratidão para com Deus estes dois centenários, de Lourdes e de Ars, que se sucederam providencialmente e honraram grandemente a nação tão querida ao nosso coração, à qual pertencem estes lugares tão santos. Lembrado de tantos benefícios obtidos e na esperança de novas graças, faremos nossa a invocação mariana, que era familiar ao santo cura d’Ars: “Bendita seja a santíssima imaculada conceição da bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus! Que todas as nações glorifiquem, que toda a terra invoque e bendiga o vosso Coração Imaculado!”. (95)

68. Com a mais viva esperança de que este centenário da morte de s. João Maria Vianney possa despertar, em todo o mundo, uma renovação de fervor nos padres e nos jovens chamados ao sacerdócio, e também que possa suscitar por parte de todos os fiéis uma atenção maior e mais ativa para os problemas da vida e do ministério dos padres, nós de todo o coração concedemos a todos, e em primeiro lugar a vós, veneráveis irmãos, como penhor das graças celestes e da nossa benevolência, a bênção apostólica.

Dada em Roma, junto de S. Pedro, no dia 1° de agosto do ano de 1959, ano I do nosso Pontificado.

JOÃO PP. XXIII

http://www.vatican.va/holy_father/john_xxiii/encyclicals/documents/hf_j-xxiii_enc_19590801_sacerdotii_po.html

Vida de São João Maria Vianney

Família

Em 11 de fevereiro de 1778, em Ecully, ..Mateus Vianney desposava Maria Beluse. Se Mateus era cristão fervoroso, sua jovem esposa trazia como o melhor dos dotes uma fé operante e esclarecida. Deus abençoou aquela união. Tiveram seis filhos que, segundo o piedoso costume da época foram consagrados à Virgem Santíssima, ainda mesmo antes de nascer: Catarina que, casando-se muito jovem, morreu santamente pouco depois; Joana Maria, que foi para o céu apenas com cinco anos; Francisco, futuro herdeiro da casa paterna; João Maria, mais tarde somente conhecido pelo nome de Cura D´ars; Margarida, a única dos irmãos Vianney que sobreviveu, e por muito tempo, a seu santo irmão… Vindo ao mundo por volta da meia noite, a 8 de maio de 1786, João Maria foi batizado no mesmo dia. (p.12)

Os Vicent – pais, de Marion e os Vianney, fizeram um convenio que bem mostra as suas boas relações e sobretudo os sentimentos altamente cristãos: Os Vicent acolheriam as mulheres indigentes; os homens iriam para a casa dos Vianney. João Maria indicava os mendigos a casa paterna. Alguns daqueles pobres, que sempre andavam a pé, levavam consigo crianças pequenas. Comovido até às lagrimas por vê-los tão infelizes, João Maria tomava os inocentes pela mão, e, da porta, os ia recomendando à mãe. A uns faltava o calçado ou o vestido, a outros as calças ou a camisa. A sra Vianney deixava-se vencer e o filhinho, com o coração nadando em alegria, via saírem dum grande armário os presentes tão desejados. Os pobres se assentavam à mesa com os donos e eram os primeiros a serem servidos. (p.22)

Infância

Uma tarde, quando contava uns 4 anos, João Maria saiu sem dizer nada a ninguém. A mãe deu pela falta. Chamou-o. Escutou. Nem resposta. Procurou ansiosa, no pátio, atrás dos montes de lenha e de feno. O menino não aparecia. Ele que sempre respondia à primeira chamada! (p.15)

O inocente rezava com fervor, de mãos postas, diante da imagem da Virgem Maria. Maria Vianney tomou-o nos braços e o apertou ao coração. “Oh meu filho, tu estavas aqui, lhe disse com voz tremula pelo pranto. Por que te escondeste para rezar? Tu bem sabes que nós rezamos juntos. (p.15)

Algumas vezes João Vianney erguia à Virgem verdadeiro altar. Com a terra da barranca construía pequenas capelas e modelava imagens de santos ou de padres. (p.20)

Assim foi que, sem pensar, o pequeno Vianney se convertera em apóstolo e catequista de seus companheiros. De pé ante o rústico altar repetia tudo quando tinha ouvido no silencio quieto daquelas noites memoráveis; ensinava-lhes as orações que aprendera com a mãe. “Um menino”, acrescentava ele, “não deve desobedecer aos pais nem irar-se, nem proferir blasfêmias e palavras grosseiras” e concluía gravemente: “Ah meninos, tendes juízo e amai muito a Deus”.Sob as arvores de Chante-Marle acabava de desabrochar uma vocação sacerdotal. (p.21)

Certo dia, pouco depois da primeira comunhão, foi com Francisco trabalhar na vinha. Quis emparelhar com o irmão, rapaz de 15 anos; à tarde voltou para casa extenuado, abatido.

“Estou cansado, disse à mãe, porque quis acompanhar Francisco”.

-Francisco – disse à mãe magoada, não Andes tão depressa, mas ajuda-o um pouco tanto como eu. Bem vês que ele é mais fraco do que tu.(p.30)

No dia seguinte foi trabalhar como de costume com Francisco. Antes de pegar no serviço, beijou devotamente os pés da imagem, colocando-a mais adiante, a certa distância. Quando chegou no lugar onde estava, tomou-a respeitosamente e fez como na primeira vez…De regresso à casa, disse à mãe: “Terei sempre confiança na Virgem. Hoje invoquei-a e se dignou ajudar-me. Já posso acompanhar no trabalho a Francisco sem sentir cansaço algum. (p.30)

Costumava desde a infância saudar a Virgem a cada hora que soava, ajuntando à Ave-Maria a piedosa fórmula: Deus seja Bendito! Coragem, minha alma! O tempo passa! A eternidade se aproxima. Vivamos tal como devamos morrer. Bendita seja a Imaculada Conceição de Maria, Mãe de Deus. (p.30)

Depois da refeição, quando descansavam juntos, João estendia-se como os outros sobre a relva; “fingia dormir, mas orava a Deus, de todo o coração”.
(p.30)
Vocação Sacerdotal

Uma das primeiras ocupações de Padre Balley ao se estabelecer em Ecully foi a de recrutar vocações sacerdotais. Teve bom êxito, e, dentro em breve, fundou uma escola presbiterial. O marido de Catarina Vianney, excelente cristão, informou tudo isto ao jovem cunhado. João Vianney já conhecia o Padre Balley por ter assistido a missa dele…Desde que João Maria Vianney conheceu a existência de tal escola presbiterial, sentiu o coração encher-se de esperanças. Não seria aquela a ocasião oportuna para fazer ao pai uma tentativa com maiores probabilidades de vitória!…Afinal de contas, que desejaria o filho senão a vontade de Deus? Mateus Vianney foi conquistado. “Pois bem, disse ele, já que João Maria está tão firme no seu propósito, não quero mais contrariá-lo”. A essa feliz nova, o nosso aspirante apressou a mãe ir ter com o Padre Balley. Maria Vianney, acompanhada da irmã Margarida Humbert apresentou-se no presbitério de Ecully…Informaram-no como se havia manifestado a vocação em João Maria, sobre a idade e os estudos primários incompletos feitos já havia tempo. O Padre Balley estava indeciso…

“Mas, insistiu, ao menos consinta em ver o meu cunhado; estou certo que se o conhecer haverá de aceitá-lo”.

O austero Padre Balley fixou os olhos perscrutadores no moço de 19 anos, magro, recolhido e discreto. Fez-lhe algumas perguntas, achando-o muito instruído em religião. Agradou-lhe o sorriso franco e confiante do candidato ao sacerdócio, abraçando-o com afetuosa afabilidade. “Oh! Por esta vez, pensou no seu interior, aceito-o. Depois, dirigindo-se a João Maria: “Fica tranqüilo, meu amigo, eu me sacrificarei por ti, se preciso for”. (p.34-35)

O Seminário

Os estudos de seminarista estavam pois começados. As manhãs e as tardes, passava-as ordinariamente no presbitério de Ecully. (p.37)

Mas, tinha muita dificuldade no que se referia aos estudos.,.O pequeno Dechamps e os irmãos Loras, muito bem educados, que retinham com facilidade as declinações e conjugações, riam ao ouvirem tropeçar o grandalhão naquilo que eles aprenderam brincando. Os progressos de João Maria nos estudos foram quase nulos, durante os primeiros meses…Aproximava-se, entretanto, uma crise de espírito cujo desenlance poderia ter sido fatal.. A tentação se desencadeava como tormenta sobre aquela alma desolada. Apoderou-se do pobre estudante grande desgosto por tudo que havia sonhado. Começou a rever em pensamento o lar e os campos paternos, em cujos cultivos, graças à sua robustez, conseguira êxitos mais fáceis. “Vou voltar para casa”, disse com tristeza ao Padre Balley, que muito se apiedava dele. Com um olhar penetrante o velho mestre sondou a grande mágoa do querido discípulo. Mas, sabendo que tesouro fora confiado à sua guarda, perguntou-lhe: “Aonde vais, meu filho? Só irás aumentar tuas penas…Oh! não; não pode ser. Deus não permitirá. Uma vocação tão sublime, o sacerdócio, o altar, a salvação dos pecadores, a messe tão abundante e os operários tão poucos…O demônio do desalento deixou de inquietar aquela alma pura. (p.38-39)

Convocação para o exército

Um agente do marechalato de Lião levou à casa de Dardilly uma convocação militar com o nome de João Maria Vianney. (p.42)

Por uma exceção inesperada, somente João Maria e outros três seminaristas foram chamados ao exercito…Surpreendido, o Padre Balley correu até Lião pra expor o caso do seu discípulo. As juntas de alistamento negaram-se a considerar como seminarista aquele estudante tardio que, morando em casa particular, recebia lições num presbitério. Além disso, o seu nome não figurava na lista oficial entregue pela autoridade diocesana. A 26 de outubro entrava como recruta numa das corporações de Lião. Apenas teve ocasião de conhecer a vida de quartel, não guardando, porem, dela muitas gratas recordações. “A má conduta dos companheiros e as blasfêmias o chocaram profundamente”. Além disso o trabalho intelectual tão duro e as mortificações a que se havia entregue em Ecully tinham-lhe abalado a saude e as forças. Uma febre pertinaz minava-lhe a vida, agravada por uma mudança brusca de costumes. Em 28 de outubro não se pode levantar. O médico da guarnição achou o seu estado grave, e mandou que o transportassem para o hospital geral da cidade, onde foi acamado na sala S. Roque, reservada para os militares…Durante a quinzena que passou no hospital de Lião, Padre Balley e depois todos os seus parentes foram visitá-lo. (p.44-45)

No dia 5 de janeiro de 1810, uma ordem do capitão dos recrutas, Blanchard, notificava ao soldado de infantaria, Vianney, que ele pertencia ao destacamento que no dia seguinte ia partir para a fronteira de Espanha…Foi despachada a guia de marcha e o soldado Vianney recebeu ordem de, ao menos, se unir aos da retaguarda…A mochila pesava-lhe sobre os ombros. O andar era vagaroso e vacilante. Que fazer para se juntar aos outros no primeiro dia? Uma angustia indizível apoderou-se de sua alma. Elevou o coração a Deus e se pôs a passar as contas do rosário…O cansaço chegou ao extremo. Já sem força arrastava-se sobre as pernas.Avistando pequeno bosque em que se poderia abrigar do frio e do vento, afastou-se uns cem passos do caminho junto a uma vereda que ia dar na montanha. Lá, assentado sobre a mochila, para distrair-se…pôs-se novamente a recitar o rosário, recorrendo à Santíssima Virgem, seu refugio ordinário, pedindo-lhe confiantemente que não o abandonasse. (p.45-46)

No meado de 1810, João Maria recebeu notícia de sua família…Muito se alegrou João Maria com as notícias da família…a forte inclinação para o sacerdócio não arrefecera… O tempo que teve para estudar na sua cela, mais do que monástica, foi muito pouco. Em fins de outubro chegou uma notícia por meio de uma mensageira…Que nova e que transportes de alegria! O aluno do Padre Balley não seria mais perseguido. Estava livre. (p.52)

Conforme a lei, quem procurasse um suplente poderia se livrar-se. (p.44)

O mais moço dos filhos Vianney, Francisco…contava 20 anos, tirara por sorte um número elevado e além disso a incorporação dos de sua classe havia sido diferida. O capitão Blanchard aconselhou o jovem recruta que se antecipasse ao chamamento. Dessa maneira poderia suprir o irmão e livrá-lo, conforme o que permitia a lei. O próprio pai aprovou a substituição…Francisco aceitou o contrato,e por documento em cartório comprometeu-se a substituir o irmão mediante 3000 francos, parte da herança que mais tarde caberia a João Maria…Incorporado ao 6º Regimento de Linha, pôs-se em marcha para Phalsbourg…Os pais nunca mais o viram. Creram, portanto, que tivesse perecido na guerra. (p.52-53)

Morte da Mãe

Maria Vianney abraçou..o filho querido que tanto sofrera. Mas ela apresentava também no seu semblante os sinais de prolongados sofrimentos. Silenciosamente havia derramado muitas lágrimas e muitas emoções..Algumas semanas após a volta de João Maria à casa paterna, a 8 de fevereiro, sua mãe, sua santa mãe expirava com a idade de 58 anos. (p.53)
De volta ao Seminário

O Padre Balley jamais duvidara desse retorno Providencial. E por dezesseis meses, cada noite, durante a oração, recomendava a Deus o seu querido discípulo…Dali em diante o nosso seminarista não se hospedava mais em casa da Tia Humbert e sim na casa paroquial.(p.55)

O Padre Balley quis que João Maria ficasse com ele, a fim de mais de perto cuidar de seus estudos até ali tão pouco e interrompidos…João Maria estava para completar 25 anos. O tempo urgia. O Padre Balley ansiava por vê-lo chegar às ordens sacras. Equiparou-o aos estudantes de retórica dos Seminários Menores,logrando deste modo apresentá-lo para a primeira tonsura. Era 28 de maio de 1811. A partir desta data o jovem Vianney, iniciado o clericato, pertencia ao foro da Igreja. Já era um passo para o sacerdócio. (p.55)

A obediência era perfeitíssima. “Em casa do Padre Balley, dizia ele, jamais fiz a minha vontade.” As suas leituras prediletas eram a vida dos santos…João Maria Vianney foi mandado para o Seminário Maior de Verrieres, perto de Montbrison. (p.56)

Apesar disso, em 13 de junho de 1813, ou seja depois de 7 ou 8 meses passados em Verrieres, escrevia ao “querido pai”: Quanto aos meus estudos, vão um pouco melhor do que eu pensava”. É que de certo temia não compreender nada…(p.58)

As assíduas e prolongadas visitas à capela animavam-no. Dali por diante,…a devoção a Maria Santíssima tornou-se mais filial e mais terna. A piedade para com a mãe de Deus o levara a fazer o voto de escravidão (de Grignon de Montfort), pelo qual à ela se entregava sem reservas.

Seria, porém, exagero afirmar que João Maria vivesse em Verrieres exilado e perseguido. “Os mais sérios e piedosos gostavam de tomá-lo como modelo”…Desta maneira conquistou a simpatia de Marcelino Champagnat, o futuro fundador dos Pequenos Irmãos de Maria…A idade avançada, a igualdade de sacrifícios; o mesmo ideal e virtudes os uniram logo por uma estreita amizade. (p.58-59)

Estudo de filosofia

João Maria não fora muito feliz em Verrieres. Apenas chegou a entender aquela filosofia insípida e fria, inspirada em Descartes e explicada segundo o sistema da velha Sorbona. Em julho de 1813, grande foi sua alegria quando, ao voltar a Ecully, encontrou o antigo mestre. Recebeu-o ele com não menor satisfação. Uma vez juntos reavivam-se suas esperanças: a subida do sacerdócio era muito áspera, mas o cume já estava próximo. Ao alcançá-lo como respiraria aliviado! O ministério das almas não teria tantas aridezes como as classes e os livros…(p.61)

Estudo de Teologia

Todos sabiam…que João Maria Vianney não fizera regularmente os estudos, e por isso ninguém se admirava do pouco êxito obtido. Se mais tarde operou verdadeiros milagres na direção das almas, deveu-o ao perseverante trabalho e sobretudo às graças com que Deus o cumulou visivelmente. (p.63)

Um dos professores, o Padre Mioland, em o vendo tão atrasado, por compaixão dava-lhe algumas aulas. Explicava-lhe a teologia num manual escrito em francês e redigido com muita clareza…Graças a essas explicações, melhor adaptadas à sua capacidade, o jovem Vianney poderia adquirir no Seminário os conhecimentos suficientes. Mas sendo o latim a língua oficial das aulas e dos exames, para o nosso estudante as preleções em comum eram pouca coisa mais do que letra morta.(p.63)

Mas que acervo de penas, que desalento, quando, depois de cinco ou seis meses, os professores, julgando-o incapaz de ir mais adiante com os estudos, aconselharam-no a que se retirasse. (p.63)

O Padre Balley, que o recebeu de braços abertos e sobre cujo peito chorou amargamente, ouviu-lhe as confidencias. Depois, tomando a palavra, novamente assegurou a seu protegido que Deus o escolhera para o serviço do altar.

Felizmente, a piedade sustentava-o e o próprio Deus vinha em seu auxílio. Quando estudava, dizia ele mais tarde, a angustia me oprimia. Não sabia o que fazer…Aproximava-se o tempo das Ordenações. O exame canônico começava em fins de maio, e o Padre Balley aventurou apresentar o seu discípulo. A diocese estava com falta de sacerdotes. O candidato já ia completar 29 anos. (p.64)

Introduzido na sala dos exames viu aquele venerável tribunal presidido pelo Cônego Bochard, Vigário Geral, e composto do que mais sábio e mais digno possuía a diocese de Lião. Já muito impressionado, ouviu que o chamavam. Logo perdeu a calma, entendendo mal as perguntas que lhe fizeram em latim. Embaraçou-se e o que respondeu foi duma maneira incompleta…O tribunal examinador ficou perplexo. Todos conheciam o reto juízo natural e o critério do Padre Balley. Não ignoravam os elogios que tinha feito da piedade e constância de seu discípulo… Haveriam de recusar aquele seminarista de tão boa vontade ou ao menos fazê-lo esperar? Acharam melhor declinar toda a responsabilidade daquele caso de dúvida. João Maria Vianney estava livre para solicitar admissão em outra diocese, se algum bispo o quisesse receber.(p.64-65)

Na tarde daquele mesmo dia regressou ao presbitério de Ecully. O Padre Balley percebeu o perigo e no dia seguinte foi a Lião. Primeiramente aconselhou-se com o sacerdote que ouvira a primeira confissão de João Maria, e que lhe dera a 1ª comunhão, o Padre Groboz, que veio a ser mais tarde Secretário Geral do Arcebispado de Lião, acompanhou o Padre Balley a fim de irem ter com o Vigário Geral que no dia antecedente havia interrogado a João Maria. O cura de Ecully nada mais fez do que repetir o que julgava o seu discípulo: o menos instruído talvez, mas o mais virtuoso dos seminaristas de Lião.(p.65)
O Padre Courbon…era pois este quem haveria de decidir sobre a sorte de João Maria Vianney. Não faltou quem o advertisse que o discípulo do Padre Balley só entendia bem a língua materna, não havendo esperança de aprender o latim….O Padre Courbon, simples e bondoso, limitou-se a perguntar: “Sabes rezar o Rosário”?

– Sim. É um modelo de piedade.

-“Um modelo de piedade? – pois bem, eu o admito. A graça de Deus fará o resto.” (p.65)

Ordenação Sacerdotal

Por meio da humilhação e do sofrimento, o Escultor Divino tinha suficientemente modelado e embelezado aquela alma. Chegara a hora da consagração…João Maria voltou ao seminário um mês antes da Ordenação, a fim de se preparar com exercícios espirituais e ouvir as instruções necessárias sobre as cerimônias, e sobre os poderes que lhe iam ser conferidos. Na manhã de 2 de julho, o futuro subdiácono, revestido de alva, deu o passo simbólico que o separava para sempre da vida secular e mundana. Depois, tocando o cálice destinado a conter o Sangue de Cristo, desposou a castidade. (p.67) Até fins de maio de 1815, João Maria, admitido ao Diaconato, entrou novamente para o Seminário. Ali soube manter-se à margem de toda discussão, e formou no seu interior uma tranqüila solidão de que jamais saiu um só instante. A 23 de junho, véspera da festa de seu santo protetor, foi ordenado diácono..(p.69)

Por inesperado favor, devido, sem dúvida, às diligencias de seu abnegado mestre, mas também à fama de suas virtudes, logo depois do diaconato, foi admitido à ordenação sacerdotal. Pela segunda vez foi submetido ao exame canônico em Ecully, com presença do Vigário Geral Padre Bochard. Verificou este com grande satisfação que, depois de transcorrido um ano, o nosso “Teólogo tinha feito verdadeiros progressos”. O jovem Vianney foi interrogado pelo douto examinador sobre os pontos mais difíceis da teologia moral, e isto por espaço de mais de uma hora. Ficou satisfeito com as suas respostas e mesmo admirado pela clareza e precisão…Decidiu-se que o nosso diácono, depois de alguns dias de retiro, iria a Grenoble receber o presbiterato. (p.69-70)

Numa quarta-feira, nove de agosto, o Padre Vianney apresentou-se na secretaria do Arcebispado, onde Mons. Courbon lhe entregou as cartas dimissórias. Este papéis rezavam que… o Sr.Bispo de Grenoble podia ordenar a João Maria Vianney,…na diocese de Lião, com a condição, porém, de que o neopresbítero só mais tarde pudesse receber a licença para ouvir confissões…A Igreja, conclui Mons. Courbon, “ao assinar as demissórias, não necessita somente de padres sábios, mas também e sobretudo de padres piedosos.” (p.70)

Com a idade de 29 anos, depois de tantas incertezas, de tantos fracassos e de tantas lágrimas, João Maria Vianney via aberta as portas do santuário. Enfim, subia ao altar do Senhor. Desde aquele momento de sua ordenação se considerava, de corpo e alma, como um vaso sagrado, exclusivamente destinado ao Divino ministério. (p.71)

O Padre Vianney celebrou sua primeira missa na capela do Seminário Maior, onde no dia anterior recebera a ordenação sacerdotal…Finalmente pode chegar a Ecully, onde já o esperava ansioso seu velho mestre. Agradável surpresa lhe estava reservada: o padre Balley, depois de se ter ajoelhado a seus pés e recebido sua benção, comunicou-lhe a alegre nova: Os Reverendíssimos Vigários Gerais se haviam dignado conceder um coadjutor à paróquia de Ecully, e o sacerdote designado para tal cargo não era outro senão Maria Vianney. (p.73)

Os paroquianos de Ecully participaram da alegria de seu pastor. “O padre Vianney muito no edificou quando esteve entre nós. Quanto mais agora que é sacerdote!” Com efeito, logo depositaram nele toda confiança…O Padre Vianney recebeu as faculdades necessárias para ouvir confissões, depois de muitos meses após a nomeação de coadjutor. Vimos antes que Monsenhor Courbon assim o havia determinado. O primeiro penitente que se lhe prostou aos pés foi seu próprio confessor, o Padre Ballley em pessoa… O primeiro ato ministerial do Padre Vianney data de 27 de agosto de 1815: um batizado. (p.74)

O Padre Vianney era o primeiro a dar o exemplo. Aquele padre de 30 anos já se conduzia a si mesmo com admirável reserva. Era muito simples e muito franco, mas “evitando toda familiaridade”.Possuía aquele dom particular dos santos de que fala São Francisco de Sales, o qual consiste “em ver a todos sem olhar ninguém” …se sentia frágil como qualquer homem deste mundo. Orava e, se mortificava para dominar a carne…(p.75)

Quando Monsenhor Courbon nomeou a João Maria Vianney coadjutor de Ecully, o Padre Balley manifestou grande contentamento pelo motivo de o reter a seu lado para ajudá-lo a prosseguir nos estudos de teologia. Assim aconteceu. Nos momentos livres…o mestre lhe explicava, de uma maneira mais prática, o dogma, a moral e a liturgia católica. Quando saiam juntos o pároco propunha ao coadjutor casos de consciência mais ou menos difíceis. O jovem sacerdote procurava por si mesmo dar a solução com os motivos que o levaram a resolver deste ou daquele modo. Deus, porém, não colocara o Padre Vianney em Ecully somente para exercer o ministério paroquial; mandara-o para uma escola de santidade. (p.75)

Era no dizer do cônego Pelletier,…“um santo junto a outro santo!”…Levando vida comum, tal como exigiam os estatutos da Igreja de Lião…viviam numa comunidade jamais perturbada. Juntos faziam os exercícios de piedade e até mesmo peregrinações a Nossa Senhora…com tanta pobreza que ambos tinham que se abrigar sob o único guarda-chuva da casa paroquial de Ecully.(p.76-77)

De comum acordo, ambos copiavam orações a Santíssima Virgem para distribuí-las na paróquia. Compuseram o “Rosário da Imaculada Conceição”, que ainda hoje se reza na Igreja de Ars, antes da oração à noite…A 17 de dezembro, depois de se ter confessado com seu filho predileto e depois de ter recebido o viático e a extrema unção, cheio de méritos adormeceu no Senhor o venerado pastor de Ecully (p.77)
Guardou-se com veneração em toda a comarca de Ecully a memória daquele santo sacerdote. Pouco depois da morte do Padre Balley, os paroquianos de Ecully apresentaram à cúria de Lião um pedido que por si só bastaria para testemunhar a estima que lhes merecia o Padre Vianney. Pediram que fosse nomeado pároco. A petição não logrou êxito….O Padre Tripier tomou o lugar do Padre Balley, continuando o Padre Vianney como coadjutor. O Padre Tripier não se achou obrigado em consciência a seguir as pegadas do antecessor…Pareceu-lhe dentro em breve que o seu coadjutor era muito exagerado. Pois se recusava acompanhá-lo às casas dos colegas ou dos paroquianos abastardos, sob o pretexto de só ter uma batina, a qual não era decente para ir com aquela honrosa companhia? O Padre Tripier teria pedido outro coadjutor? É bem provável. Em todo caso a administração diocesana não tardou muito a transferia o Padre João Maria Vianney. (p.78)

Nos princípios de fevereiro, o padre João Maria Vianney, coadjutor de Ecully, foi avisado que a capela e a aldeia de Ars estavam confiadas a seu zelo…Simplesmente foi ter com Mons. Courbon, que ao assinar a provisão lhe disse: “Não há muito amor a Deus naquela paróquia. Vossa Reverendissima procurará introduzi-lo”…Monsenhor Courbon procurou animá-lo. Aquela aldeia era uma das mais humildes. Os recursos muito poucos… mas naquela longínqua paróquia não o abandonaria a Providência…Assim falava Monsenhor Courbon àquele sacerdote de 33 anos…No dia 9 de fevereiro de 1818, pela manhã, pôs-se a caminho para Ars. (p.78-79)

O Ministério Sacerdotal na aldeia de Ars

No reduzido campo que lhe fora confiado, o Padre Vianney viu a boa semente…Sem perder o tempo em inúteis lamentações, pôs logo mãos à obra. Não tinha pretensão de converter todo mundo, mas ao menos aquela pequeníssima aldeia, cujas almas Deus acabava de lhe confiar. (p.88)

Ainda que Padre Vianney não fosse mais do que capelão de Ars, os seus paroquianos lhe davam, como a seu predecessor, o título de Cura. Com esse nome tomou posse no domingo, 13 de fevereiro. Toda a paróquia, com exceção duns poucos, se achava presente. A cerimônia simples, porém tocante, interessou vivamente aos assistentes. (P.89)

Tanta simplicidade impressionou aquela boa gente. Os moradores mais abastardos, proprietários ou ricos agricultores, para quem era coisa dura dar um centésimo aos pobres, ficaram estupefatos ao verem que seu pároco não guardava nada para si. Diante disso, viram-se obrigados a reconhecer nele um verdadeiro homem de Deus. (p.91)

Penitencia

Já no dia da chegada o Padre Vianney dera o colchão a um pobre. Os outros dois não distribuídos ficaram numa cadeira sobre o quarto de hóspedes. Ele mesmo não precisava de cama. Por muitas semanas deitou-se sobre uns sarmentos colocados num canto do andar térreo. O pavimento e as paredes estavam úmidas e o austero penitente contraiu imediatamente uma nevralgia facial que o fez sofrer durante 15 anos. (p.94)

Março. 1818. Estamos em plena quaresma. Excelente motivo para que o nosso asceta recomece aquele jejum rigoroso, que só terá fim com a própria vida. Tinha um cuidado a menos, pois vivia sem cozinheira. Reduzia as necessidades materiais ao mínimo possível. Nunca teve grande pontualidade nas refeições….Somente 15 dias depois de ter tomado posse, chegou de Dardilly sua irmã Margarida, em companhia da viúva..cozinheira “honorária” da casa paroquial de Ars. O acolhimento que lhes dispensou o Padre Vianney foi muito cordial; porém não passou disso: “Minhas filhas, lhes perguntou com familiaridade, que vos darei? Não tenho nada.” Após um momento de reflexão, lembrou-se que tinha guardado para si alguma coisa: umas batatas já meio bolorentas que ele mesmo cozinhara. “Não tivemos coragem de comê-las, dizia Margarida. Ele tomou duas ou três e comeu-as a nossa vista, dizendo: “Não estão podres, ainda as acho boas”. (p.95)

Pregação contra as Tabernas

Poderá ser guardado o dia do Senhor servindo-se a Deus devotadamente enquanto a taberna fizer concorrência à Igreja? O padre Vianney achava que esvaziar uma equivalia a encher a outra…Investiu logo com mão firme contra o inimigo; e na sua indignação, … não mediu expressões: “A taberna é a tenda do demônio, a escola onde o inferno prega e ensina sua doutrina e o lugar onde se vendem almas, onde as fortunas se arruínam, onde a saúde se perde, onde começam as rixas e onde se cometem os assassinatos! Os taberneiros, roubam o pão das pobres esposas e de seus filhos, dando vinho a esses beberrões que gastam no domingo o que ganharam durante a semana.” (p.108-109)

O pregador ia alcançando seu fim. Os paroquianos se foram afastando das tabernas da praça. Um dos proprietários foi expor ao Sr. Cura que de fato aquilo era uma ruína. O Padre Vianney deu-lhe dinheiro e mandou que fechasse a casa. Aquele homem veio a ser um excelente paroquiano. Quanto ao seu colega,…fechou igualmente a sua casa e mudou de profissão. Desta maneira o Padre Vianney conseguiu que não houvesse mais tabernas nas vizinhanças da igreja. Os dois últimos, estabelecidos em outros pontos do povoado, acabaram também por desaparecer. (p.109)

Pregação contra o hábito de blasfemar

Ora, naquela pequena aldeia tinha o desgosto de ouvir blasfêmias até mesmo da boca de crianças que apenas sabiam o “Pai Nosso”. Jamais pode tratar de assunto tão doloroso sem chorar…dizia: “Tomai cuidado! Se a blasfêmia reinar em vossa casa tudo perecerá.” Assim ele reprimira a blasfêmia com uma corajosa severidade, e procurava por todos os meios possíveis fazê-la objeto de horror para as crianças e jovens….(p.110)

O Cura D´Ars soube fazer tão bem a guerra contra toda a espécie de blasfêmias, juramentos e imprecações e até mesmo expressões grosseiras…que pouco a pouco desapareceram do vocabulário de Ars. Em lugar disso, começou-se a ouvir dos lábios daqueles camponeses o Pai Nosso, a Ave Maria ou palavras como estas: Como Deus é Bom! Deus seja Bendito! (p.110)

Pregação contra ao bailes

Jamais ele permitiu que tomassem parte nos bailes de sociedade e nem sequer assistissem a eles como simples expectadores. Pouco tempo depois de sua chegada à paróquia, os castelães de Ars organizaram um ou dois bailes entre famílias, mas logo se abstiveram disso “em respeito a sua proibição”. Ele só conhecia o baile,… com certa magoa, através da desordens que produzia entre a gente do campo.(p.117)

Irritados ao verem como as moças deixavam os bailes pela igreja, os libertinos de Ars e dos povoados vizinhos…organizaram reuniões secretas nos lugares mais afastados…foram combinados encontros nas feiras ou nos bailes dos povoados vizinhos, onde, longe de qualquer vigilância, julgavam poder se entregar punemente a sua diversão predileta…Sem muita dificuldade, o Padre Vianney chegou a descobri-los. (p.118)

No ano de 1824, para honrar de maneira mais digna o grande santo que tomara na confirmação como patrono,o Cura d´Ars fez levantar, à sua custa, uma segunda capela que dedicou a São João Batista…Apesar de tudo os amantes dos prazeres profanos, no meio dos demais durante a cerimônia, não puderam ler sem despeito a inscrição, para eles bem clara, que o Cura d´Ars mandara esculpir no arco da capela: Sua cabeça foi o preço duma dança. (p.126)

Sobriedade no vestir

Na igreja jamais tolerou decotes, nem braços nus. Não os permitia nem aos grandes nem aos humildes deste mundo. (p.120)

Os peregrinos de Ars por trinta anos puderam admirar na igreja, nas ruas e nas estradas, as senhoras e as moças daquela aldeia, dignas e modestas como monjas. (p.121)

Calunias

Escreveram-lhe cartas anônimas, repletas de infâmias e injurias. Colaram papeluchos do mesmo teor na porta da casa paroquial. À noite faziam algazarra e tocavam trombetas ao pé da janela de seu quarto. (p.133)

Então abandonou-se ainda mais nos braços da Providencia. E enquanto o seu coração se revoltava contra a ignomínia, pois tratava-se de sua honra de sacerdote: perdoava aos culpados. Mais ainda: tratava-os como amigos. (p.134)

Criação do orfanato

O bom pastor encontrara no povoado e em seus arredores vários pobres, infelizes,..orfãs sem casa, filhas de pais desnaturados ou indigentes que as deixavam mendigar ou as empregavam ainda muito jovens como criadas em casa sem religião…O coração compassivo do Cura d´Ars não podia sofrer isso e resolveu estabelecer na mesma escola um orfanato com o significativo nome de “Providência”. Na verdade, aquela casa não teria outro provedor que o Pai que está nos céus. (p.153)

A fundação da “Providencia” de Ars foi um notável beneficio. O Cura d´Ars dizia: “Só no dia do juízo poderemos ver o bem operado nesta casa”. De fato, a obra do Santo salvaguardou a virtude de centenas de jovens que naquele asilo aprenderam a ganhar o sustento honestamente…Vieram a ser excelentes mães de famílias ou empregadas. Muitas abraçaram o estado religioso. (p.157)

Conversão dos moradores de Ars

Em 1833, o aspecto de Ars estava completamente mudado..Ars estava irreconhecível..Era um Oasis de santidade. (p.165)

O que agora nos dias úteis se podia ver era um moço passando com o rosário entre os dedos à frente de sua junta de bois. A noite, o sino tocava para a oração. Todos os que podiam iam à Igreja e os que tinham de ficar em casa se ajoelhavam diante das santas imagens. (p.165)

O Cura d´Ars recomendava aos seus paroquianos o “abençoai Senhor” e a ação de graças antes e depois das refeições, e a recitação do Angelus três vezes ao dia, onde quer que se achassem e sem respeito humano. Logo que as três badaladas soavam pelo vale e transpunham as pequenas colinas, cessava o trabalho….Todos rezavam as orações prescritas. O mesmo se praticava nas estradas e nas ruas do povoado…Tal proceder lhes valia muitas vaias, dos aldeões vizinhos. “Se fordes atrás do vosso Cura, diziam zombando, ele vos converterá em capuchinhos. Essas observações, porém, não abatiam o animo daquela boa gente, que respondia: “Nosso Cura é um santo e a ele devemos obedecer”. (p.166)

Luta espiritual

O espírito do mal permanecia invisível, porem sua presença se deixava sentir. Derrubava as cadeiras, sacudia os pesados móveis do quarto, e gritava…Vianney, Vianney..Comilão de batatas..Ah..ainda não esta morto…Não me escaparás..As vezes, imitando os animais, grunhia como o urso, uivava como um cachorro…(p.180)

Também sentia como se lhe passassem a mão pelo rosto ou como se ratos lhe corressem pelo corpo. Certa noite ouviu o ruído dum enxame de abelhas. Foi correr a cortina para espantá-las mas não viu nada…fez o sinal da cruz e o demônio o deixou em paz.(p.181)

Fama de Santo

Foram pessoas humildes e devotas, e não outras as que começaram a divulga-lhe a fama. Esses rumores encontraram eco, mais tarde, junto as pessoas. (p.191)

Durante 30 anos uma multidão de peregrinos, renovando-se sem cessar, desfilava pela igreja de Ars…E ninguém imagine que durante o inverno,quando o frio se faz sentir …houvesse na aldeia muito menos peregrino que durante o tempo bom. De novembro a março o pároco Vianney não passava menos de 11 a 12 horas diárias no confessionário. (p.205)

Por mais longa que fosse e espera, para encontrar lugar na Igreja, os forasteiros…não desanimava. Queriam a todo custo ouvir o Santo, e na maior parte o objetivo principal,..era falar-lhe intimamente no confessionário…(p.207)

Devemos ter em conta que o “Cura D´Ars só empregava em cada confissão o tempo estritamente necessário. Confessava durante 16 e às vezes 18 horas nos dias de festa…(p.207)

Cada noite, durante a oração,… tal era o seu pranto ao pronunciar a frase: Deus meu, não permitais que o pecador pereça…Ah! os pobres pecadores! Se eu pudesse me confessar por eles!…(p.213)

Diretor Espiritual

Para as pessoas jovens, capazes de elevadas virtudes, a vaidade e o orgulho inconscientes podem ser obstáculos na vida da perfeição. O santo diretor trabalhava para fazer que eles rompessem com as ultimas afeiçoes do amor-próprio. A senhorita Carolina Lioger, de Lião, alma de eleição, futura fundadora das Irmãs Vitimas do Sagrado Coração, cujo nome de profissão religiosa era Madre Maria Verônica, passava em Ars uma temporada durante vários anos consecutivos. Acompanhava-a sua mãe. Ora, o Cura d´Ars, que queria forma aquela jovem para o cumprimento dos grandes desígnios a que estava destinada, comprazia-se em exercitá-la na humildade e o fazia sem consideração alguma. Em certa ocasião mandou que se pusesse de joelho com os braços em cruz no umbral da porta, enquanto os fieis saíam da missa. Geralmente os homens pecam muito por respeito humano. (p.215-216)

Milagres

Quando lhe parecia conveniente alguma cura, o P.Vianney pedia-a de viva voz ou no íntimo do coração,mas depois encarregava a Santa Filomena de obter de Deus a feliz realização. Não era justamente por esse motivo que a chamava d a encarregada dos seus negócios, sua representante, sua consuleza junto de Deus.p.362).

“Já falamos na jovem Irmã Dorotéia,religiosa da Providência de Vitteaux. Achava-se doente do peito e o médico havia dito:”Morrerá na entrada do inverno”. O Cura d’ars, ao vê-la entre a multidão, concedeu-lhe por obséquio acesso franco ao confessionário. “Minha irmã, para que deseja ser curada”Expôs ela as suas razões e o Santo replicou: “Bem, vá ao altar de Santa Filomena pedir sua cura: entretanto eu rezarei por você. Soror Dorotéia foi rezar à virgenzinha mártir e, de repente, sentiu-se curada. Deu-se isso em maio de 1853.”(p.363).

“Durante a grave enfermidade que em maio de 1843 quase levou o P.Vianney, uma pessoa de Chalon-sur-Saone, a senhora Claudina Raymond-Corcevay, dói a Ars em busca de cura. Doente da laringe e dos brônquios, não podia falar sem sentir na garganta uma dor semelhante à queimadura produzida por um ferro em brasa; só se comunicava com os seus escrevendo sobre uma ardósia. Neste estado se dirigiu ao Cura d’Ars, naquela manhã em que, convalescente, baixou à igreja pela primeira vez. “Minha filha, disse ele, os remédios da terra são inúteis, e a senhora já os tomou em demasia. Mas nosso Senhor pode curá-la. Recorra à Santa Filomena. Deixe a ardósia sobre o altar. Faça-lhe violência. Diga-lhe que se ela não puder restituir a sua voz que lhe dê a dela.(p.363).

“Em 1855 esteve em Ars a senhora Farnier, de MontChanin(Saone-et-Loire). Esta jovem era coxa. Implorou do servo de Deus a cura de sua perna.”Minha filha, respondeu o Santo d’Ars, a senhorita desobedece muito à sua mãe; respondeu-lhe muito mal. Se, portanto quiser que Deus a cure corrija-se deste defeito tão feio. Quanto trabalho lhe custará! Lembre-se de uma coisa: ficará boa, é verdade,mas pouco apouco, conforme foro esforço empregado para se corrigir.Em voltando a Montchanin, a jovem Farnier esforçou-se por ser mais obediente para com sua mãe. A perna, dez centímetros mais curta que a outra,foi-se encompridando visivelmente, de modo que em poucos anos sua doença desapareceu de todo.(p.366).

“Antes de tudo, quando lhe pediam para curar alguma pessoa, o P.Vianney exigia a fé como condição indispensável. “Mulher, a tua fé é grande”, disse o Divino Mestre antes de curar a filha da cananéia.” Não exigiamenos o cura d’Ars quando lhe pediam para obter um milagre. “Não é assim que se deve proceder quando alguém deseja ser curado”,respondia a um jovem de Marselha, indivíduo atacado por um mal crônico, e cuja fé corria parelha com os costumes.

Bem faça a senhora uma novena de orações, mandava a uma mulher de Montfluer(Jura), que fora a Ars a fim de pedir por um parente enfermo. Somente acrescentou hesitando: “Não sei se Deus a escutará, pois naquela casa não há mais religião do que numa estrebaria de cavalos.” Era a pura verdade. O doente morreu ao findar a novena.(p.367-368).

Êxtase

Os que tiveram adita de assistir a missa do Curad’Ars notavam a transfiguração que então se produzia em toda a sua pessoa. Ele mesmo o sabia, de maneira que costumava recomendar às órfãs da providência que não olhassem para ele quando estivesse no altar. Anjo pela fé e serafim pelo amor, tinha ao celebrar os” olhos como chamas que iluminavam o rosto”. Notei muitas vezes, ao lhe ajudar na missa, diz André Treve que sua atitude recolhida tinha todas as aparências do êxtase. Instintivamente olhavam-lhe os pés para ver se ainda tocavam o solo. Ele mesmo confessou algumas vezes que as espécies eucarísticas lhe bastavam para alimentar-se, como se conta de outros santos.(p.370)

Via,constantemente, Jesus na Eucarístia

Em 1850, dizia numa instrução das 11 horas: “Eis que somos todos terrenos e nossa fé nos apresenta os objetos a trezentas léguas de distância, como se Deus estivesse no outro lado dos mares. Se tivéssemos uma fé viva, eu vos asseguro que O veríamos ali, no Santíssimo Sacramento. Há sacerdotes que O vêem todos os dias no santo sacrifício da missa.”(p.371).

Olhar ecplisado

“Depois de muito esperar , Maria Roch pode aproximar-se do confessionário, pois chegara a sua vez, Olhou para o lugar escuro, onde estava o servo de Deus. Que viu ali? Dois raios de luz que pareciam sair o rosto do Santo, cujo semblante estava como que eclipsado por aqueles intensos resplendores.(p.372)

Morte de João Maria Vianney

Incontestavelmente, o Cura d´Ars havia pressentido, muito tempo antes, não só a época aproximada, mas também o dia exato de sua morte…Dizia frequentemente: “Vou-me embora, em breve morrerei”. (p.389)

O suave moribundo já não parecia mais desta terra. Os seus lábios não se moviam, mas os olhos permaneciam voltados para o céu, dando-nos a crer que estava em contemplação. (p.393)

No mesmo dia, às três da tarde, o confessor julgou prudente administrar-lhe os últimos sacramentos.Ele mesmo os pediu sem querer esperar pelo dia seguinte, como lhe propuseram.(p.394)

Às dez horas da noite o Cura D`Ars pareceu chegar ao fim. O Padre Toccanier aplicou-lhe a indulgencia plenária em artigo de morte. À meia-noite o Padre Monnin deu-lhe para beijar o crucifixo de missionário e começou as orações dos agonizantes..Na quinta feira, 4 de Agosto de 1859, às duas da madrugada, quando o jovem sacerdote acabava de ler com voz trêmula estas palavras: que os santos anjos de Deus saiam ao teu encontro e te introduzam, na Jerusalém celeste; …São João Maria Vianney…adormecera como obreiro que terminara sua jornada. (p.395)

Conversava com Nossa Senhora

A narradora, Estefânia Durié, nascida em Allier, pessoa inteligente, reservada e digna de toda confiança, a qual costumava fazer coletas para as obras do Padre Vianney, …Passou primeiramente pela “Providencia”, onde tomou a refeição e depois…eis o que aconteceu:

-Acabava de dar uma hora da tarde. O Cura estava só no seu quarto. Catarina Lassagne abriu-me a porta da casa paroquial. Comecei a subir a escada quando ouvi o Cura d´Ars falar com alguém. Subi sem fazer ruído e escutei. Uma doce voz lhe dizia: “Que quereis pedir?

– Ah! minha boa mãe, eu peço a conversão dos pecadores, o consolo dos aflitos, o alivio dos enfermos, e em particular, de uma pessoa que há muito tempo padece e que deseja morrer ou curar-se. A voz respondeu: “Curar-se-á, mas só mais tarde”.

Ao ouvir estas palavras, entrei subitamente no quarto cuja porta estava ligeiramente entreaberta. Como eu padecesse de um câncer, estava convencida de que tudo aquilo era pra mim. Qual não foi a minha surpresa ao ver de pé junto a estufa uma senhora de estatura regular, vestida com uma roupa de radiante alvura, sobre a qual se viam espargidas umas rosas de ouro! Seu calçado me parecia branco como a neve. Em suas mãos brilhavam os mais ricos diamantes e a fronte estava circundada por um diadema de estrelas luzentes como o sol.

Quando pude dirigir os meus olhos para ela, vi que sorria docemente. Minha boa mãe, disse-lhe imediatamente, levai-me para o céu.

– Mais tarde.

– Ah! minha mãe, já é tempo.

-Tu serás sempre minha filha e eu sempre serei tua mãe.

Depois de ter pronunciado estas palavras, desapareceu. Fiquei por uns momentos como que fora de mim, estupefata pela graça que me fora concedida. É possível ver coisas, tão formosas e ser tão ingrata! Dizia comigo mesma. A tornar a mim, contemplei o Santo Cura, de pé diante de sua mesa, com as mãos juntas sobre o peito, o rosto resplandecente e o olhar imóvel. Temi que estivesse morto; aproximei-me dele e lhepuxei pela batina. “Meus Deus, sois vós”?.

Não, meu Pai, sou eu( e como eu pronunciasse estas palavras, tornou a si e pertubou-se) Onde estava, meu Pai que estava vendo?

-Vi uma senhora.

– Eu também, repliquei. Quem era pois esta senhora?

– Não fale disto a ninguém, replicou-me o Padre Vianney em tom severo ou nunca mais porá os pés aqui.

– Posso dizer-lhe o que penso? Parece-me que era a Santíssima Virgem.

-E não se enganou…Então, também a viu?

-Sim, vi-a e lhe falei…Agora explique-me o que se passou quando eu pensava que Vossa Reverendíssima estava morto.

-Oh,não!… É que estava muito contente por ver minha mãe.

-Meu pai, devo a Vossa Reverendíssima o tê-la visto…Quando voltar consagre-me à ela para que ela me consagre ao seu Divino Filho.

O servo de Deus me prometeu, e depois disse: “A senhora ficará curada.”

-Mas quando, meu Pai!´

-Um pouco mais tarde. Não pergunte mais.

Com um tom amável acrescentou:

“A Santíssima Virgem, Santa Filomena e eu nos conhecemos muito bem”.
(p.373-374)

O dom das lágrimas

Recebeu com abundancia o dom das lagrimas…Pois, bem, o Cura D´Ars nunca falava do pecado e dos pecadores sem chorar. Durante todo o tempo da Via-Sacra, os soluços arquejavam-lhe o peito. Não raro, ao distribuir a Sagrada Comunhão, as lágrimas caíam-lhe sobre a casula. Mormente no fim de sua vida, não podia pregar sobre a Eucaristia, a bondade e o amor de Deus, e sobre as delicias do céu, sem ser interrompido pelas lágrimas…Chorava ao ver o espetáculo mais humilde da natureza, se lhe recordava o amor de Deus ou o endurecimento dos pecadores. Dizia: “Os passarinhos cantavam no bosque, e eu me pus a chorar. Pobres animaizinhos, pensava eu, Deus vos criou para cantar e vós cantais…O homem foi feito para amar a Deus não o ama. (p.379)

Consagrar a Deus nosso trabalho

É mister, oferecer a Deus o nosso trabalho, o nosso repouso e os nossos passos. Oh! Como é belo fazer tudo por Deus. Vamos, minha alma. Se tu trabalhas com Deus és tu que trabalhas, mas é Deus que abençoa o teu trabalho. De tudo tomará nota; a privação de um olhar, duma satisfação, tudo será anotado. Há pessoas que sabem aproveitar-se de tudo, mesmo do inverno. Faz frio; oferecem a Deus os pequenos sofrimentos. Como é bom oferecer-se a Deus todas as manhãs em sacrifício! (p.29)

Amor á vocação do sacerdócio

Não se compreenderá bem o sacerdócio senão no céu. Se o compreendêssemos na terra, morreríamos não de espanto, mas de amor. (p.70)

Importância do jejum

O demônio não faz muito caso da disciplina e de outros instrumentos de penitencia. O que o põe em debandada são as privações no comer, no beber e no dormir. Nenhuma coisa o faz temer tanto como isso, por outro lado, nada é tão agradável a Deus como isso. (p.97)

Sábias palavras contra as tabernas (bares)

A taberna é a tenda do demônio, a escola onde o inferno prega e ensina sua doutrina e o lugar onde se vendem almas, onde as fortunas se arruínam, onde a saúde se perde, onde começam as rixas e onde se cometem os assassinatos! Os taberneiros, roubam o pão das pobres esposas e de seus filhos, dando vinho a esses beberrões que gastam no domingo o que ganharam durante a semana. (p.108-109)

Sábias palavras contra o respeito humano

Se um pastor se quiser salvar, precisa, quando encontrar alguma desordem na paróquia, saber calcar os pés o respeito humano, o temor de ser desprezado e o ódio dos paroquianos, ainda mesmo estando certo de que ao baixar do púlpito vai ser morto. Isso não o deve amendontrar.

Amor

Sofrer amando, não é sofrer. (p.137)

Oração

Meus irmãos, não são as longas e belas orações que Deus escuta, mas as que saem do fundo do coração. (p.144)

Humildade

Hoje recebi duas cartas: Numa me dizem que sou um santo, na outra que sou um charlatão; a primeira nada me acrescentou, a segunda nada me tirou. (p.144)

Eucaristia

Meus filhos, todos os seres da criação tem necessidade de se nutrirem para viver; foi para isso que Deus fez crescer as arvores, e as plantas; é uma mesa bem servida onde todos os animais vêm cada um tomar o alimento que lhe convém. Mas é necessário que a alma também se nutra. Onde está pois o seu alimento?… Meus filhos, quando Deus quis dar alimento à nossa alma para sustentá-la em sua peregrinação neste mundo, olhou para todas as coisas criadas e não encontrou nada digno dela. Então concentrou-se em si mesmo e resolveu dar-se a si próprio. Oh, minha alma, como és grande! Só Deus te pode contentar!.. O alimento da alma é o corpo e o sangue de Deus!…Oh! formoso alimento! A alma não se pode alimentar senão de Deus. Só Deus pode bastar-lhe. Só Deus pode saciá-la. Fora de Deus não há nada que possa saciar-lhe a fome. Necessita absolutamente de Deus… Que ditosas são as almas puras unidas a Deus pela comunhão. No céu resplandecerão como formosos diamantes porque Deus se refletia nelas…Oh! vida ditosa! Alimentar-se de Deus! Oh! Homem, como és grande. Nutrido, com o corpo e sangue de um Deus! Ide, pois, comungar, meus filhos!…(p.227-228)

Quando se recebe a sagrada comunhão, a alma inebria-se como bálsamo do amor como a abelha das flores. (p.232)

Bibliografia: TROCHU, Francis. O Santo cura D’Ars. Editora Littera Maciel. 1997.

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