Biografia dos Santos

Archive for the ‘Santo Afonso de Ligório’ Category

A formação do livro “Glórias de Maria”.

Era o dia 25 de outubro de1784, numa pobre cela do convento redentorista de Pagani. O velho Padre Afonso de Ligório, todo recurvado pela artrose, ouvia atentamente o Irmão Romito que lia para ele um livro de piedade. O velhinho parecia cochilar. Mas, de repente, interrompeu a leitura: “Irmão, quem é o autor desse livro tão belo sobre Maria?” O irmão enfermeiro arqueou as sombrancelhas, sorriu levemente e,… leu: “As Glórias de Maria”, pelo ilustríssimo Dom Afonso de Ligório..”

Padre Afonso ficou um instante com os lábios entreabertos, ligeiramente desconcertado, e acabou dizendo: “Meu Deus, eu vos agradeço o terdes me inspirado essa obra em honra de vossa Mãe Santíssima. Como é bom, as portas da eternidade, poder pensar que fiz algumas coisa para semear nos corações a devoção a Maria”.

Foi muito tempo antes, em 1732, que o livro começou a germinar no coração de Afonso. Naquele tempo, ele ainda era um padre moço, na força de seus 38 anos. Havia dois anos tinha reunido um grupo de missionários padres e leigos, para a evangelização dos mais abandonados, principalmente dos mais pobres. (p.5)

Como sempre fazia todas as tardes o missionário pregava sobre Maria. E foi por isso que, conforme a tradição, na pequena sacristia começaram os estudos e as pesquisas que iriam estender-se por uns quinze anos.Estudos que levariam Afonso a ler praticamente tudo quando fora escrito sobre Maria, desde a Bíblia, passando pelos Santos Padres da Igreja, pelos grandes teólogos, até os autores mais recentes. Trabalho imenso, realizado nos poucos dias que mediavam entre uma missão e outra, ou nas horas tardas da roubadas ao sono. Havia fortes motivos para que o missionário se pusesse a escrever. Em primeiro lugar estava sua devoção à Virgem Maria, a quem aprendera a amar desde a infância. Sentia-se também obrigado pela gratidão, pois atribuía a Maria a sua “conversão”, e queria colocar à disposição dos pregadores uma obra bem documentada que ajudasse os fiéis. (p.6)

Concluindo seu livro, Afonso assim dizia a Maria: “Agora posso dizer que morro contente, por deixar na terra este meu livro que continuará a louvar-vos e a pregar o vosso amor, como tenho sempre procurado fazer durante estes anos que têm seguido a minha conversão, por meio de vós alcancei de Deus, ó Maria Imaculada. (p.9)

Bibliografia: Ligório. Santo Afonso. Glórias de Maria. 20. ed. Editora Santuário. 1989.

Publicação de livro por amor à Nossa Senhora

Ó amantíssimo Redentor e Senhor meu, Jesus Cristo, eu, vosso miserável servo, sei quanto vos agrada quem procura glorificar vossa Mãe Santíssima, que tanto amais e tanto desejais ver amada e honrada, por todos. Por isso resolvi publicar este meu livro que fala de suas glórias.(p.21)

Preocupação de que os sacerdotes possam amar sempre à Maria

Especialmente há de oferecer aos sacerdotes material conveniente para sua pregações sobre a Mãe de Deus. (p.28)

Importante propagar a devoção à Maria

A propagação da devoção a Maria Santíssima é de muita importância para cada um de nós e para o povo. (p.28)

A Santa Igreja bem a nós, seus filhos, ensina quanto zelo e quanta confiança devemos recorrer sem cessar a esta nossa amorosa protetora. Pois é ordem sua que se lhe tribute um culto particular. Durante o ano celebra muitas festas em sua honra e prescreve que um dia da semana lhe seja especialmente dedicado. Exige também que, diariamente no Oficio Divino, todos os eclesiásticos e religiosos a invoquem em nome do povo cristão, e que três vezes ao dia, os fiéis a saúdem ao toque das Ave-Marias. (p.113)

Isto mesmo, quer Maria que nós façamos. Que sempre a invoquemos, que sempre lhe peçamos, não por necessitar dos nossos obséquios, nem das nossas honras tão inadequadas aos seus merecimentos, mas sim para que, à medida da nossa devoção e da nossa confiança, possa melhor socorrer-nos e consolar-nos. (p.114)

Muito felizes são os devotos desta piedosíssima Mãe. Pois ela não só os socorre neste mundo, mas também no purgatório são assistidos e consolados com a sua proteção. Por terem essas almas maior precisão de socorro, empenha-se a Mãe da Misericordia com zelo ainda mais intenso em as auxiliar. Elas muito padecem e nada podem fazer por si mesmas. (p.190-191)

Mas a Santíssima Virgem não só favorece e consola os seus devotos, como também os tira e livra do purgatório com sua intercessão. (p.192)

Avivemos, pois, cada vez mais a nossa confiança, ó devotos de Maria, sempre que a ela recorremos pedindo-lhe graças. Para avivá-las tenhamos sempre presentes duas grandes prerrogativas que possui esta boa Mãe: o desejo de nos fazer bem e o poder de conseguir do Filho tudo quanto lhe pede. Quão vivo é o seu desejo de ajudar a todos! (p.306)

Afirmo que, entre todas as praticas devotas, nenhuma há que tanto agrade a nossa Mãe, como recorrer frequentemente à sua intercessão. Peçamos-lhe, pois, auxilio em todas as necessidades particulares. Por exemplo: quando vamos tomar ou dar conselhos, nos perigos, nas aflições e tentações, principalmente nas tentações contra a pureza. (p.459)

Esforçai-vos também por fazê-la amar por quantos conheceis, na firme convicção de que vos salvareis, se perseverardes na verdadeira devoção a Maria até a morte. (p.463)

Maria é Rainha

Tendo sido a Santíssima Virgem elevada à dignidade de Mãe de Deus, com justa razão a Santa Igreja a honra, e quer que de todos seja honrada com o título glorioso de Rainha.(p.35)

Maria é, pois, Rainha. Mas saibamos todos, para consolação nossa, que é uma Rainha cheia de doçura e de clemência, sempre inclinada a favorecer e fazer bem a nós pobres pecadores. Quer por isso a Igreja a saudemos nesta oração com o nome de Rainha de Misericórdia. (p.36)

Maria é Imaculada

Ora, vejamos quanto convinha às Três Pessoas preservar Maria da culpa primitiva. E isso por ser ela Filha de Deus Pai, Mãe de Deus Filho e Esposa de Deus Espírito Santo. (p.235-236)

O nascimento de Maria, sim, é justo seja celebrado com festas e louvores universais. Pois a Virgem viu a luz do mundo, criança na idade, porém grande em merecimentos e virtudes. Todavia para compreendermos o grau de santidade com que nasceu, precisamos considerar primeiramente a grandeza da graça com que Deus a enriqueceu; em segundo lugar, quanto foi grande a fidelidade de Maria em corresponder a essa graça. (p.258)

Maria é Cheia de Graças

Os primeiros frutos da redenção passaram, pois, pelas mãos de Maria. Foi ela o canal pelo qual foi comunicado a graça ao Batista, e o Espírito Santo a Isabel, o dom de profecia a Zacarias, e tantas outras bênçãos àquela casa. Foram estas as primeiras graças que sabemos terem sido distribuídas na terra pelo Verbo, depois que se encarnou. (p.301)

Instruções aos sacerdotes

Eis as regras de vida que ele se traçou, desde a sua entrada para as Santa Ordens, quando permanecia no seio da sua família, depois de recebido o hábito eclesiástico e a prima tonsura:

1. Freqüentar sempre santos sacerdotes, para me edificar com seus exemplos.
2. Fazer todos os dias pelo menos uma hora de oração mental, para alimentar o recolhimento e o fervor.
3. Visitar assiduamente o Santíssimo Sacramento, sobretudo nos templos
onde estiver exposto.
4. Ler a vida dos santos eclesiásticos, para neles encontrar modelos a imitar.
5. Ter uma devoção especial à santíssima Virgem, Mãe e Rainha do clero, e devotar-me particularmente ao seu serviço.
6. Honrar o estado eclesiástico, e por isso nada fazer que possa acarretar
a mais ligeira mancha à sua reputação.
7. Ser sempre respeitoso para com as pessoas do mundo, sem as freqüentar;
não me familiarizar com os seculares, sobretudo com as pessoas do outro sexo.
8. Ver a vontade de Deus nas ordens dos superiores e obedecer-lhes
como ao próprio Deus.
9. Trazer o hábito eclesiástico e a tonsura clerical; mostrar-me sempre
modesto, sem afetação, singularidade ou pretensão.
10. Viver em paz no seio da família; estar atento às lições do professor na aula; ser exemplar no templo, sobretudo no desempenho dalguma função.
11. Confessar-me ao menos de oito em oito dias e comungar ainda mais
vezes.
12. Afastar-me de todo o mal, e exercitar-me na prática de todo o bem (Villecourt, l. 1. ch. 10).(p.9)

Importância do sacerdócio

O jovem levita, que já se tinha feito admirar noutra carreira (na de advogado),
edificou toda a cidade de Nápoles pelo seu fervor sempre crescente, subindo aos diversos degraus do sacerdócio; e ao cabo de três anos duma preparação tão perfeita, foi julgado digno de ser elevado com dispensa ao Sacerdócio, em 21 de dezembro de 1726.

Escreveu então as resoluções seguintes:

1.Sou sacerdote, a minha dignidade está acima da dos anjos; deve ser pois a minha vida duma pureza angélica, para a qual sou obrigado a tender por todos os meios possíveis.
2.Um Deus digna-se obedecer à minha voz; com melhoria de razão
devo eu obedecer à sua, obedecer à graça e aos meus superiores.
3.A santa Igreja honrou-me; é necessário que por minha vez eu a honre,
com a santidade da minha vida, com o meu zelo, com os meus trabalhos etc.
4.Eu ofereço ao Padre eterno Jesus Cristo, seu Filho; logo é do meu dever revestir-me das virtudes de Jesus Cristo, e tornar-me capaz de tratar o mais santo dos mistérios.
5.O povo cristão vê em mim um ministro de reconciliação, um mediador
entre Deus e os homens; logo é necessário que eu me conserve sempre na graça e amizade de Deus.
6. Querem os fiéis ver em mim um modelo das virtudes a que aspiram;
devo portanto edificá-los a todos e sempre.
7. Os pobres pecadores, que perderam a vida das graça, esperam de mim a sua ressurreição espiritual; é necessário pois que eu trabalhe nela, pelas minhas orações, exemplos, palavras e conduta.
8. Preciso de coragem para triunfar do demônio, da carne, e do mundo; logo devo corresponder à graça divina, para os combater vitoriosamente.
9. Preciso de ciência para me tornar capaz de defender a religião, combater o erro e a impiedade; devo pois aproveitar-me de todos os meios possíveis para adquirir essa ciência.
10. O respeito humano e as amizades mundanas desonram o sacerdócio: logo devo ter-lhes horror.
11. Nos padres, a ambição e o espírito de interesse conduzem as mais das vezes à perda da fé; devo pois abominar esses vícios como origens de reprovação.
12. Em mim a gravidade e a caridade devem ser inseparáveis: serei portanto prudente e reservado, principalmente a respeito das pessoas do outro sexo, sem ser altivo, grosseiro ou desdenhador.
13. Só posso agradar a Deus pelo recolhimento, fervor e virtudes sólidas, que o santo exercício da oração alimenta; nada pois devo descurar para as adquirir.
14. Só devo procurar a glória de Deus, a minha santificação e a salvação
do meu próximo; a isso pois me devo dedicar, até com sacrifício da minha vida, se tanto for necessário.
15. Sou padre: o meu dever é inspirar a virtude, e glorificar a Jesus Cristo,
Sacerdote eterno (Villecourt, l. 1. ch. 11).(p.10)

A dignidade do padre

Diz Sto. Inácio mártir que a dignidade sacerdotal tem a supremacia entre todas as dignidades criadas. Santo Efrém exclama: “É um prodígio espantoso
a dignidade do sacerdócio, é grande, imensa, infinita. Segundo S. João Crisóstomo, o sacerdócio, embora se exerça na terra, deve ser contado no número das coisas celestes. Citando Sto. Agostinho, diz Bartolomeu Chassing
que o sacerdote, alevantado acima de todos os poderes da terra e de todas as grandezas do Céu, só é inferior a Deus. e Inocêncio III assegura que o sacerdote está colocado entre Deus e o homem; é inferior a Deus, mas maior
que o homem. Segundo S. Dionísio, o sacerdócio é uma dignidade angélica, ou antes divina; por isso chama ao padre um homem divino. Numa palavra, concluí Sto. Efrém, a dignidade sacerdotal sobreleva a tudo quanto se pode conceber.Basta saber-se que, no dizer do próprio Jesus Cristo, os padres devem ser tratados como a sua pessoa: Quem vos escuta, a mim escuta; e quem vos despreza, a mim despreza9. Foi o que fez dizer ao autor da Obra imperfeita: Honrar o sacerdote de Cristo, é honrar o Cristo; e fazer injúria ao sacerdote de Cristo, é fazê-la a Cristo”. Considerando a dignidade dos sacerdotes, Maria d’Oignies beijava a terra em que eles punham os pés.(p.15).

O valor sagrado da missa

Não pode a Igreja inteira, sem os padres, prestar a Deus tanta honra, nem obter dele tantas graças, como um só padre que celebra uma missa. Com efeito, sem os padres, não poderia a Igreja oferecer a Deus sacrifício mais honroso que o da vida de todos os homens: mas o que era a vida de todos os homens, comparada com a de Jesus Cristo, cujo sacrifício tem um valor infinito? O que são todos os homens diante de Deus senão um pouco de pó, ou antes um nada? Isaías diz: São como uma gota de água… e todas as nações são diante dele, como se não fossem.(p.16).

Assim, o sacerdote que celebra uma missa rende a Deus uma honra infinitamente maior, sacrificando-lhe Jesus Cristo, do que se todos os homens, morrendo por ele, lhe fizessem o sacrifício das suas vidas. Mais ainda, por uma só missa, dá o sacerdote a Deus maior glória, do que lhe têm dado e hão de dar todos os anjos e santos do Paraíso, incluindo também a Virgem santíssima; porque não lhe podem dar um culto infinito, como o faz um sacerdote celebrando no altar.(p.16).

O poder de Deus concedido ao sacerdote

Mas é muito maior prodígio que Deus, em obediência a poucas palavras do padre, desça sobre o altar, ou a qualquer parte em que o sacerdote o chame, quantas vezes o chamar, e se ponha entre as suas mãos, embora esse sacerdote seja seu inimigo! Aí permanece inteiramente à disposição do padre, que pode transportá-lo à sua vontade dum lugar para outro, encerrá-lo no tabernáculo, expô-lo no altar, ou ministrá-lo aos outros. É o que exprime com admiração S. Lourenço Justiniano, falando dos padre: “Bem alto é o poder que lhes é dado! Quando querem, demudam o pão em corpo de Cristo: o Verbo encarnado desde do Céu e desce verdadeiramente à mesa do altar! É-lhes dado um poder que nunca foi outorgado aos anjos. Estes conservam-se junto do trono de Deus; os sacerdotes têm-no nas mãos, dão-no ao povo e eles próprios o comungam”. (p.17)

Quando ao corpo místico de Jesus Cristo, que se compõe de todos os fiéis, tem o sacerdote o poder das chaves: pode livrar do inferno o pecador, torná-lo digno do Paraíso, e, de escravo do demônio, fazê-lo filho de Deus. O próprio Jesus Cristo se obrigou a estar pela sentença do padre, em recusar ou conceder o perdão, conforme o padre recusar ou dar a absolvição, contanto que o penitente seja digno dela. (p.17)

De modo que o juízo de Deus está na mão do padre, diz S. Máximo de Turim. A sentença do padre precede, ajuda S. Pedro Damião, e Deus a subscreve. Assim, conclui S. João Crisóstomo, o Senhor supremo do universo não faz senão seguir o seu servo, confirmando no Céu tudo quanto ele decide na terra.(p.17).

Sabedoria de São Francisco sobre os padres

S. Francisco de Assis dizia: “Se eu visse um padre, primeiro ajoelharia diante do padre, e depois diante do anjo”.(p.19).

Confissão

Qual seria o nosso espanto, se víssemos um homem que, mediante algumas palavras, tinha a virtude de tornar branca a pele dum negro! O padre faz mais, quando diz: Eu te absolvo, — porque no mesmo instante demuda em amigo um inimigo de Deus, e um escravo do inferno num herdeiro do Céu.(p.20).

Não ter apego ao dinheiro

Na Lei antiga disse Deus: Separei-vos dos outros povos, para que sejais o meu povo129. Com quanto mais forte razão quer o Senhor na Lei nova, que os sacerdotes ponham de parte os negócios do século, para só agradarem. Àquele a quem se consagraram! É o que ele declara pela voz do Apóstolo: Nenhum soldado de Deus se deve ingerir nos negócios seculares, para agradar
Àquele cujo serviço abraçou. E é a promessa que a Igreja exige de todos os clérigos, ao entraram no santuário pela prima-tonsura. Faz-lhes prometer que de futuro só Deus será a sua herança.(p.30).

Pureza de coração

É-nos necessária portanto a santidade, que consiste na pureza do coração;(p.32).

Sacerdócio

A Lei antiga excluía das funções de sacrificador os cegos, coxos, corcundas
e leprosos: Nec accedet ad ministerium ejus, si caecus fuerit, si claudus… si gibbus… si habens jugem scabiem (Levit. 21, 18). Os santos Padres, dando um sentido espiritual a estes defeitos, olham como indignos de subir ao altar: os cegos, ou que fecham os olhos à luz divina; os coxos, ou preguiçosos, que nada adiantam no caminho de Deus, e vivem sempre com as mesmas imperfeições, sem oração e sem recolhimento; os corcovados, que sempre estão com as suas afeições voltadas para a terra, para os bens, honras e prazeres do mundo; os leprosos, ou sensuais que, à semelhança do mundo animal imundo, diz o Sábio, se revolvem no lodaçal dos prazeres torpes. Numa palavra, quem não é santo é indigno de se aproximar do altar, porque, sendo impuro, mancha o santuário de Deus. Não se aproxime do altar, porque tem uma mancha, e não deve manchar o meu santuário.(p.33).

O padre não pode ser egoísta

Um padre tíbio não é ainda manifestamente frio, porque não comete deliberadamente pecados mortais; mas afroixa em tender para a perfeição, a que o seu estado o obriga; não lança conta aos pecados veniais, e cada dia os comete em grande número sem escrúpulo: mentiras, intemperanças na comida e na bebida, imprecações, Ofício mal recitado, missa mal celebrada, maledicência contra todos, chocarrices inconvenientes. Vive na dissipação, no meio dos negócios e prazeres do século; alimenta desejos e apegos perigosos; cede à vanglória, ao respeito humano, aos melindres e ao amor próprio; não pode suportar a menor contrariedade, a menor palavra que o humilhe; vive sem oração e sem devoção.(p.48-49).

Não se pode fazer as pazes com as falhas

O venerável Luís du Pont dizia: “Tenho cometido muitas faltas, mas nunca fiz a paz com as minhas faltas”. Há muitos que fazem as pazes com os seus defeitos, e é o que há de causar a sua perda. Segundo S. Bernardo, enquanto se detestam as próprias imperfeições, dá se esperança de regressar ao bom caminho; mas, deste que se peca ciente e deliberadamente, sem temor de pecar e sem dor de haver pecado, pouco a pouco se cai na perdição. As moscas que morrem no bálsamo fazem-lhe perder a suavidade do odor, diz o Sábio383. Essas moscas são precisamente as faltas que se cometem e não se detestam; porque então permanecem como mortas na alma: é a explicação de Dionísio Chartreux. Quando uma mosca cai num perfume,diz ele, e lá permanece, estraga-o e anula-lhe o bom odor. No sentido espiritual, essas moscas que morrem em nós são os pensamentos vãos, as afeições mais ou menos culposas, as distrações não combalidas: tudo isso nos rouba a doçura dos exercícios espirituais.(p.54).

Impureza é um mal

A incontinência é chamada por Basílio de Seleucia uma peste viva, e por S. Bernardino de Sena, o mais funesto de todos os vícios; e isso porque, como diz S. Boaventura, a impudicícia destrói o germe de todas as virtudes. Por isso Sto. Ambrósio lhe chama a origem e mãe de todos os vícios. De fato, este vício arrasta consigo todos os crimes: ódios, roubos, sacrilégios etc. S. Remígio teve pois razão em dizer que por causa deste vício, poucos adultos se salvam. E lê-se no Pe. Paulo Segneri que assim como o orgulho encheu o inferno de anjos rebeldes, assim a impudicícia o enche de homens. Nos outros vícios pesca o demônio ao anzol; neste é à rede, de modo que enche mais o inferno com esta paixão, do que com todas as outras. Assim, para punir a incontinência, há Deus enviado à terra os flagelos mais espantosos: dilúvios de água e de fogo!(p.57).

Remédios contra a incontinência

Muitos remédios indicam os mestres da vida espiritual, contra esta lepra de impureza; mas os dois principais e os mais necessários são a fuga das ocasiões e a oração. Quanto ao primeiro, dizia S. Filipe de Néri que neste combate a vitória é para os poltrões, isto é, para os que fogem à ocasião. Embora o homem empregue todos os outros meios possíveis, se não fugir, está perdido. Quanto ao segundo remédio, que é a oração, devemos estar persuadidos que de nós mesmos não temos força para resistir às tentações da carne. Há de vir-nos de Deus a força, — que ele não concede senão a quem lha suplica. O único baluarte contra esta tentação, diz S. Gregório de Nyssa, é a oração. E antes dele tinha dito o Sábio: Como eu sabia que não podia possuir este tesouro, se Deus mo não desse, apresentei-me diante do Senhor e pedi-lho.(p.63).

Evitar Escândalos

Mas se o escândalo é tão abominável mesmo nos seculares, quanto mais o não será no padre, que Deus estabeleceu na terra para salvar as almas e conduzi-las o para o céu! O padre é chamado o sal da terra. É próprio do sal conservar as coisas: assim o padre é destinado a manter as almas na graça de Deus.(p.72).

Não se acomodar

Não digais: Sou um simples padre, sem cura de almas, basta que cuide de mim. Não; todo o padre é obrigado a trabalhar na salvação das almas, segundo as suas forças e a necessidade em que elas se encontrarem. Assim, quando as almas por falta de confessores se encontram em grande necessidade espiritual, até o simples padre está obrigado a confessar, como demonstramos na nossa Teologia moral (l. 6. n. 625). Se não tem a ciência precisa, para exercer esta função do seu ministério, está obrigado a adquiri-la(p.81).

Respeito humano

Se queremos que Deus recompense os trabalhos que consagramos à salvação das almas, não nos devemos deixar mover nem pelo respeito humano, nem pela nossa própria honra e interesse, mas só pelo amor de Deus e da sua glória. De contrário, o fruto dos nossos labores seria um castigo e não uma recompensa. “Grande seria a nossa loucura, dizia o bem-aventurado José Calasanzio, se trabalhando como trabalhamos, esperássemos dos homens uma recompensa temporal”.(p.90).

Obras do padre Zeloso

I.Deve ser cuidadoso em advertir os pecadores. Os padres que vêem ofender a Deus, e se calam, são chamados por Isaías de cães mudos.
II.O padre zeloso deve dar-se à pregação.
III.Deve o padre assistir aos moribundos; é a obra de caridade mais agradável a Deus, e mais útil à salvação das almas; porque no momento da morte os pobres doentes, por um lado são mais vivamente tentados pelo demônio, e pelo outro menos capazes de lhe resistir por si mesmos. S. Filipe de Néri viu muitas vezes os anjos a sugerir aos padres as palavras, que deviam dirigir aos moribundos. Para os párocos é um dever de justiça, e para todos os sacerdotes um dever de caridade; porque todos o podem cumprir, mesmo os que não têm o talento da pregação. Têm aí ocasião de fazer muito bem, não só aos doentes, mas ainda a todos os parentes e amigos que os rodeiam; porque é o tempo mais próprio para entretenimentos espirituais. Em tal conjuntura, não conviria mesmo que um padre falasse doutra coisa, senão da alma e de Deus.
IV.Finalmente, deve o padre persuadir-se de que o meio mais eficaz para salvar as almas é aplicar-se a ouvir confissões. O venerável Pe. Luís Fiorilo, dominicano, dizia que pregar é lançar a rede, ao passo que confessar é puxá-la para a praia e tomar o peixe.(p.91-92).

Zelo com a missa

Ao entrar na sacristia, deve o celebrante despedir-se de todos os pensamentos
do mundo e dizer com S. Bernardo: Cuidados, negócios, esperai por mim aqui; eu e o meu servo, isto é a minha razão com a minha indigência, vamos ali adorar a Deus, e logo voltaremos a ter convosco; pois voltaremos, ai!, e demasiado cedo. S. Francisco de Sales escrevia a Sta. Joana de Chantal: “Quando me volto para o altar para começar a missa, perco de vista todas as coisas da terra”. Postos de parte pois todos os pensamentos do mundo, não deve o padre ocupar-se então senão da grande obra, que vai fazer e do pão celeste, de que vai alimentar-se a essa mesa divina: Quando estiveres sentado à mesa do príncipe, considera atentamente as iguarias que te são servidas35. Pense o padre que vai chamar do Céu à terra o Verbo feito homem, para se entreter familiarmente com ele no altar, para o oferecer de novo ao Padre eterno, e para enfim se alimentar da sua carne sagrada. O venerável João de Ávila, antes de subir ao altar, procurava excitar-se ao fervor, dizendo: “Eis que vou consagrar o Filho de Deus, tê-lo nas minhas mãos, falar-lhe, tratar com ele e recebê-lo no meio seio”.(p.136).

Em segundo lugar, é necessário que o sacerdote celebre a missa com respeito e devoção. Sabe-se que o uso do manípulo foi introduzido, para que o padre enxugasse as lágrimas; porque outrora tais sentimentos de devoção experimentavam os sacerdotes, ao celebrarem, que não faziam senão chorar.
Já dissemos que o padre ao altar é o representante do próprio Jesus Cristo, como escreveu S. Cipriano. É nesta qualidade que diz: Hoc est corpusmeum; hic est calix sanguinis mei. Mas, ó Céu! Que lágrimas, que lágrimas de sangue se deveriam chorar, quando se pensa no modo como a máxima parte dos padres celebram a missa!(p.137).

Conversar com Jesus após receber a comunhão

Mas, por outro lado, não quer o Senhor que as suas graças se percam, prodigalizando-as a ingratos, segundo a expressão de S. Bernardo. Tenhamos
pois cuidado de nos entretermos com Jesus Cristo depois da missa, ao menos durante uma meia hora, ou o mínimo um quarto de hora; mas, ai!, um quarto de hora é muitíssimo pouco. Devemos considerar que o padre, desde o dia da sua ordenação, não é de si próprio, mas de Deus. E o próprio Senhor disse: Hão de oferecer ao Senhor, seu Deus, o incenso e o pão; e por conseqüência serão santos.(p.142).

Sabedoria

Aponta S. Boaventura cinco sinais pelos quais se pode reconhecer quando é que a afeição de espiritual se torna carnal:

1.º – Quando há entretenimentos longos e inúteis; e, desde que são longos,
são sempre inúteis.
2.º – Quando há olhares e elogios recíprocos.
3.º – Quando um desculpa os defeitos do outro.
4.º – Quando se deixam perceber pequeninos ciúmes.
5. º – Quando o afastamento causa inquietação.
Tremamos; somos de carne. O bem-aventurado Jurdano repreendeu fortemente um dia um dos seus religiosos, por ter dado a mão a uma mulher, ainda que sem má intenção; e, tendo-lhe o religioso observado que era uma pessoa virtuosa, respondeu-lhe: “A chuva é boa e a terra também, mas misturadas fazem lama”. Esta mulher é santa e este homem é santo; mas, se se põem na ocasião, ambos se perdem. “Choca o forte com o forte e ambos caem”.(p.160).

Características do confessor

Acima de tudo, necessita o confessor da santidade, para se manter com firmeza no exercício de seu ministério. Se não estiver adiantado na santidade, dizia S. Lourenço Justiano, não poderá trabalhar na salvação do próximo, sem prejudicar a sua. Precisa ele, primeiro que tudo, dum grande fundo de caridade, para acolher todos os que o procurem: pobres, ignorantes e pecadores. Padres há que não confessam senão pessoas devotas; se lhes aparece um pobre aldeão, de consciência embrulhada, ouvem-no com impaciência e despendem-no com dureza. Assim, esse desgraçado que se fez uma grande violência para se vir confessar, ao ver-se repelido, ganha horror ao sacramento, não ousa aproximar-se, e entrega-se desesperado a uma vida dissoluta. O Redentor divino, que veio para salvar os pecadores, e sempre foi cheio de caridade para com eles, dirige a tais confessores a censura que um dia fez a seus discípulos: Vós não sabeis de que espírito deveis estar animados. Não procedem assim os confessores caridosos, que observam a exortação do Apóstolo: Como eleitos de Deus, como santos e queridos dele, tomai entranhas de misericórdia. (p.174).

II. Em segundo lugar, precisa o confessor de uma grande firmeza, e em particular para ouvir as confissões das mulheres. Quantos padres, em ocasiões
tais, têm perdido a sua alma! Acham-se em relação com meninas, ou moças solteiras, ouvem a confissão das suas tentações e muitas vezes das suas quedas; porque também elas são de carne. A própria natureza nos faz afeiçoar às mulheres, principalmente quando elas vem com tanta confiança revelar-nos as suas misérias; e quando são pessoas piedosas, dadas à espiritualidade, o perigo do apego é ainda maior, como diz o Doutor angélico, por que então exercer maior atrativo sobre o nosso coração. No entender do mesmo santo, de parte a parte cresce a afeição, e à proporção dela crescerá o apego, sob a aparência de piedade, a princípio; mas depois o demônio facilmente conseguirá que a afeição espiritual se torne carnal.(p.175).

Humildade do padre

Segundo S. Bernardo, quanto mais alta é a dignidade do padre, tanto mais ele deve ser humilde; de contrário, se cair no pecado, a da queda será a medida da sua elevação. Donde conclui S. Lourenço Justiniano que a jóia mais brilhante e preciosa do padre deve ser a humildade. No mesmo sentido diz Alcuino: Visto que estás colocado na mais sublime dignidade, necessária te é a mais excelente humildade. E antes deles tinha dito o divino Mestre: O maior dentre vós faça-se o mais pequeno de todos5. A humildade é a verdade; por isso o Espírito Santo nos adverte que, — se soubermos distinguir o precioso do vil, isto é, o que é de Deus do que é nosso, — seremos como que a sua boca, que sempre diz a verdade6. Devemos pois repetir sempre esta súplica de Sto. Agostinho: Que eu me conheça a mim e vos conheça a vós. É também o que continuamente dizia a Deus S. Francisco de Assis, por estas palavras: “Quem sois vós e quem sou eu?” Estava tão compenetrado a um tempo, da grandeza e bondade que via em Deus, como da indignidade e miséria que descobria em sim mesmo. É assim que, à vista do Bem infinito, os santos se abatem até ao centro da terra; quanto melhor conhecem a Deus, tanto mais pobres e cheios de defeitos se reconhecem. Os orgulhosos, ao contrário, mal conheceu o seu nada, porque estão às escuras.(p.193).

Sabedoria sobre a humildade

Diz Sto. Agostinho: Deus está alto; se te elevas, foge de ti; se te abaixas, desce para ti. Aos humildes une-se o Senhor de boa vontade, e enriquece os das suas graças; dos orgulhosos, afasta-se, e foge deles com horror. Ouve as preces dos humildes: A oração do que se humilha atravessará as nuvens… e não se retirará sem que o Altíssimo a tenha atendido. Repele ao contrário as orações dos soberbos: Resiste Deus aos soberbos e dá a sua graça aos humildes. Aos orgulhosos não quer vê-los senão de longe: Está Deus muitíssimo alto e olha com benevolência as coisas baixas; as altas olha-as de longe. As pessoas que vemos ao longe não as conhecemos; assim de certo modo parece que Deus não conhece nem ouve os orgulhosos que lhe pedem. Quando esses o invocam, responde-lhes: Em verdade vos digo que não vos conheço. Numa palavra, os orgulhosos são abomináveis a Deus e aos homens.(p.194).

Prática da humildade

Primeiro que tudo, devemos conceber um grande horror pelo orgulho, porque Deus, como acima vimos, resiste aos orgulhosos e priva-os das suas graças. Um padre, sobretudo para se conservar casto, necessita duma assistência particular de Deus; como pois, se for orgulhoso, poderá guardar a castidade, quando o Senhor lhe retirar o auxílio, em castigo do seu orgulho? O orgulho, diz o Sábio, é o sinal duma ruína próxima. Por isso Sto. Agostinho chega a dizer que, de certo modo, é proveitoso aos orgulhosos caírem nalgum pecado manifesto, para que aprendam a humilhar-se e a desprezar-se a si próprios. Assim Davi caiu em adultério, por falta de humildade, como depois confessou nestes termos: Pequei antes de ser humilhado.(p.195).

Não se gloriar do bem praticado. Em segundo lugar é necessário que estejamos prevenidos contra a vaidade, por qualquer bem de que sejamos instrumentos, – nós principalmente que nos achamos erguidos à sublime dignidade do sacerdócio. Como são altos os nossos ministérios! Foi-nos confiada a augusta função de oferecer a Deus o seu próprio Filho. Como diz S. Paulo, foi-nos conferida a missão de reconciliar os pecadores com Deus, pela pregação e administração dos sacramentos. (p.196).

3. Manter-se na desconfiança de si mesmo. Em terceiro lugar, é necessário que vivamos numa contínua desconfiança de nós mesmos. Se Deus nos não assistir, não poderemos conservar-nos na sua graça: Se Deus não guardar a cidade, debalde vigiará o que a guarda. Há santos que, com pouca ciência, converteram povos inteiros. Santo Inácio de Loyola fazia em Roma discursos familiares, e até cheios de expressões impróprias; apesar disso, como eram palavras que saíam dum coração humilde e abrasado do amor de Deus, produziam um tal fruto, que os ouvintes iam logo confessar-se com tantas lágrimas que mal podiam falar. Pelo contrário, há sábios que pregam e, com toda a sua ciência e eloqüência, não convertem uma só alma.(p.198).

4. Aceitar as humilhações. Em quarto lugar, para adquirir a humildade, é necessário acima de tudo que aceitemos as humilhações, que nos advierem, ou de Deus ou dos homens, dizendo então com sinceridade: Tenho pecado, sou verdadeiramente culpado, e não tenho sido castigado como merecia. Pessoas há, nota S.Gregório, que se dizem pecadoras e dignas de todo o desprezo, mas não se crêem tais; porque apenas são desprezadas ou repreendidas logo se irritam. São muitos os que têm as aparências da humildade, diz igualmente Sto. Ambrósio, mas sem terem dela a realidade. (p.199).

Doçura

Aprendei de mim que sou doce e humilde do coração. A doçura é chamada a virtude do Cordeiro, isto é, de Jesus Cristo, que sob este nome quis ser designado: Eis o Cordeiro de Deus. Enviai, ó Senhor, o Cordeiro dominador da terra. E foi predito que ele na sua paixão se comportaria como um cordeiro: Permanecerá mudo como um cordeiro diante do tosquiador, e não abrirá a boca. Sou como um cordeiro cheio de mansidão, que levam a imolar no altar. Assim a doçura foi a virtude predileta do nosso Salvador.

De todas as virtudes, diz S. João Crisóstomo, é a doçura que nos torna mais semelhantes a Deus. Na verdade, é próprio de Deus tornar bem por mal, conforme a palavra do Redentor: Fazei bem aos que vos odeiam… para serdes verdadeiros filhos do vosso Pai que está nos céus, e faz nascer o sol sobre os bons e os maus. E é o que ainda faz dizer a S. João Crisóstomo – que são apenas os homens doces, que Jesus Cristo apelida imitadores de Deus. Aos que são doces é prometido o Paraíso. “A doçura, diz S. Francisco de Sales, é a flor da caridade”. E o Eclesiástico declara que um coração doce e fiel faz as delícias do Senhor. Os que são doces não sabe Deus repeli-los. Sempre lhe são extremamente agradáveis as orações dos humildes e doces. Ora, a virtude da doçura consiste em duas coisas: 1.ª em reprimir os movimentos de cólera contra os que os provocam; 2.ª em suportar os desprezos.(p.203).

Mortificação interior

Sem a mortificação interior, pouco aproveita a exterior. De que serve a uma pessoa extenuar-se com jejuns, e encher-se de orgulho? Que lhe aproveita abster-se de vinho, e embriagar-se de raiva? No dizer do Apóstolo, é necessário que nos despojemos do homem velho, isto é, do amor próprio, e nos revistamos do homem novo, isto é, de Jesus Cristo, que nunca teve complacência em si, como nota S. Paulo. Era o que fazia gemer S. Bernardo, sobre o estado desgraçado dalguns monges que, mostrando nos seus hábitos aparências de humildade, conservavam no interior as suas paixões. Estes religiosos, dizia, não se despojam dos seus vícios: o que fazem é cobrir-se com sinais postiços de penitência. Quem permanecer apegado a si mesmo e às suas coisas, pouco ou nenhum fruto colherá dos seus jejuns, vigílias, cilícios e disciplinas.(p.216).

Desapego

Quem quer ser todo de Deus, diz S. João Clímaco35, deve desapegar-se principalmente de quatro coisas: bens, honras, parentes, e sobretudo da própria vontade.(p.216).

Perigo de ajuntar riquezas

Falemos do grande perigo, que corre a salvação dum padre, que quer ajuntar dinheiro e bens. Sim, exclama Sto. Hilário, colocam-se num grande perigo os padres que se afadigam a encher os seus cofres e a aumentar a sua fortuna42. Foi o que o Apóstolo nos advertiu, dizendo que os escravos da avareza, além de serem atormentados por muitos cuidados e inquietações, que lhes impedem todo o proveito espiritual, caem em tentações e desejos que os conduzem à ruína.(p.217).

O padre deve desapegar-se da família

É necessário que o padre se despoje do apego a seus pais. Disse Jesus Cristo: Quem não aborrece seu pai e sua mãe… não pode ser meu discípulo85. Mas como havemos de aborrecer nossos progenitores?Devemos deixar de os atender todas as vezes que eles se oponham ao nosso bom espírito, conforme a explicação dum sábio autor: Se eles obstam a que o seu filho padre acomode a sua vida à disciplina da Igreja, e tentam obrigá-lo a ocupar-se dos seus negócios temporais, deve evitá-los como inimigos que o afastam dos caminhos de Deus. O mesmo diz S. Gregório: Os que nos embargam de trilhar o caminho de Deus, devemos olhá-los como estranhos, e até aborrecê-los (aborrecer-lhes o procedimento) e fugir deles. E Pedro de Blois: Só é eleito para ser sacerdote na casa do Senhor o que diz a seu pai e sua mãe: Não sei quem sois. Quem quer servir a Deus, diz Sto. Ambrósio, deve separar-se da sua família. Devem-se honrar os pais; mas é necessário antes de tudo obedecer a Deus, diz Sto. Agostinho. E, segundo S. Jerônimo, deixar de obedecer a Deus para testemunhar aos seus uma grande afeição, não é piedade filial; é antes impiedade para com Deus. De Sto. Antônio abade refere Sto. Agostinho que queimava as cartas recebidas de seus pais, dizendo: Para que me não queimeis, é que eu vos queimo. Deve desprender-se de seus pais, quem quer estar unido a Deus.(p.221).

Meios para vencer a si mesmo

Quanto aos meios a empregar para se vencer a si mesmo e domar todas as paixões desordenadas, ei-los aqui.
1.º – A oração: quem ora consegue tudo. Oratio, cum sit una, omnia potest, diz S. Boaventura. E o próprio Jesus Cristo disse: Pedi tudo quanto desejardes e ser-vos-á concedido.
2.º – Fazer-se violência com uma resolução firme; uma vontade forte triunfa de tudo.
3.º – Examinar-se sobre a paixão que tem a combater, impondo-se alguma penitência cada vez que sucumbir.
4.º – Reprimir os desejos desregrados. Dizia S. Francisco de Sales: “Quero poucas coisas; e o que quero, com muita moderação o quero”.
5.º – Mortificar-se nas pequenas coisas, e mesmo nas permitidas. É assim que se ganha disposição para triunfar nas ocasiões mais importantes.

Mortificações exteriores

Se não tivermos coragem para mortificar o nosso corpo com grandes austeridades, pratiquemos ao menos algumas pequenas mortificasses. Suportemos com paciência as penas que nos advierem, por exemplo: este incômodo, esta vigília, este cheio desagradável, quando assistimos aos dentes,que vamos confessar nas prisões, quando ouvimos de confissão os pobres, e outras coisas semelhantes. Ao menos privemo-nos, de tempos a tempos, de algum prazer permitido.(p.231).

Ter olhar de criança

Primeiro que tudo, devemos mortificar a vista. Os primeiros dardos que ferem uma alma casta, e por vezes lhe dão a morte, entram pelos olhos, nota S. Bernardo. E um profeta disse: Foi o meu olhar que assolou a minha alma.É por meio dos olhos que os pensamentos culposos são excitados no espírito.Dizia S. Francisco de Sales: “O que não se vê não se deseja”. Assim, o demônio move primeiro a tentação de olhar, depois de desejar, e enfim de consentir.(p.231)

Pecado da gula

“É necessário comer para viver, dizia S. Francisco de Sales, e não viver para comer”. Pessoas há que parecem viver para comer, fazendo como diz S.Paulo, da sua barriga o seu deus. Segundo Tertuliano, o vício da gula ou dá a morte, ou pelos menos, obscurece muito todas as virtudes. Foi a gula que causou a ruína do mundo: pelo prazer de saborear um fruto, Adão se deu à morte a si próprio, e arrastou na sua queda todo o gênero humano.(p.235).

Prudência

quanto ao sentido do tato, é necessário, primeiro que tudo, que evitemos toda a familiaridade com pessoas do outro sexo, embora parentas. – São minhas irmãs, minhas sobrinhas. – Sim, mas são mulheres. Os confessores prudentes têm razão em proibir às suas penitentes que lhes beijem mesmo a mão.(p.236).

Meios a empregar para ser todo de Deus

1. Desejo da perfeição. O padre que aspira a dar-se todo a Deus, deve começar a conceber um grande desejo da santidade. Os santos desejos são como asas, que alevantam as almas para Deus; Porque o começo da sabedoria é um desejo muito sincero de a possuir.(p.246).

2. Intenção de agradar a Deus em tudo. Em segundo lugar, o padre que se quer santificar, deve fazer todas as suas ações no intuito de agradar a Deus. Todas as suas palavras, todos os seus pensamentos, todos os seus desejos, todos os seus atos, devem ser apenas um exercício de amor para com Deus. A Esposa dos Cânticos umas vezes se fazia caçadora ou guerreira; outras se aplicava à cultura da vinha ou dos jardins; mas sempre, nesses diversos exercícios, se mostrava amante fiel, porque tudo fazia por amor do seu Esposo. Tal é o modelo do padre: quanto diz, quanto pensa, quanto sofre e opera, ou celebre, ou confesse ou pregue, se assiste aos enfermos, faz oração e se mortifica, faça o que fizer,tudo deve derivar do mesmo princípio, porque deve fazer tudo para agradar a Deus. Jesus Cristo disse: Se o vosso olhar for simples, todo o vosso corpo será alumiado. Por olhar, entendem os santos Padres a intenção. Assim, diz Sto. Agostinho, é a intenção que torna boa a obra.(p.248).

3. Paciência nas dores e humilhações. Em terceiro lugar, o padre que se quer santificar, deve estar pronto a sofrer em paz por Deus todos os males desta vida: pobreza, humilhações, doenças e morte. O Apóstolo diz: Glorificai e trazei a Deus no vosso corpo. Gilberto comenta assim estas palavras: Quer S. Paulo que tragamos Jesus Cristo de bom grado e com alegria; quem o traz descontente ou com lamentações, não o traz, antes o arrasta como que à força.(p.249).

4. Conformidade com a vontade de Deus. Enfim, quem deseja santificar-se, só deve querer o que Deus quiser. Todo o nosso bem consiste em nos unirmos à vontade de Deus. Dizia Sta. Teresa: “O que é preciso procurar no exercício da oração, é conformar a própria vontade com a de Deus; e deve-se estar bem persuadido de que é nisso que consiste a mais alta perfeição”109. Tudo quanto o Senhor pede de nós é que lhe entreguemos o nosso coração, ou a nossa vontade. E no dizer de Sto. Anselmo, é como que mendigando que Deus nos pede o nosso coração; ainda que repelido, não desiste, redobra de instâncias: “Não sois vós, Deus meu, que tantas vezes bateis à nossa porta, mendigando e dizendo: Meu filho, dá-me o teu coração; e ainda que muitas vezes vo-lo recusemos, sempre voltais de novo!”(p.251).

Necessidade dos Santos

Quanto à necessidade da intercessão da Mãe de Deus, é verdade que o Concílio de Trento (Sess. 25, De inv. Sanct.) declarou solenemente que a intercessão dos santos é útil, sem dizer que seja necessária. No entanto, a esta pergunta: “Somos nós obrigados a pedir aos santos que intercedam por nós?” Santo Tomás responde afirmativamente, porque a ordem da lei divina exige que, na condição de viadores, nos salvemos por meio dos santos, obtendo por sua mediação as graças necessárias à salvação. Eis as suas palavras: “Segundo S. Dionísio, a ordem dos seres exige que os últimos regressem a Deus por intermédio dos que estão mais próximos dele. E, como os santos que estão na pátria se acham muito próximos de Deus, exige a ordem da lei divina que nós, retidos longe do Senhor pelos laços do corpo, regressemos a ele por meio dos santos”. Depois ajunta: “Assim como os benefícios de Deus nos advém por meio dos sufrágios dos santos, assim também é necessário que por meio dos santos nos voltemos para Deus, para recebermos dele novos benefícios”. O mesmo pensamento se encontra expresso noutros autores e especialmente no continuador de Tournely, que diz com Sílvio: Somos obrigados pela lei natural a observar a ordem estabelecida por Deus; ora Deus estabeleceu que os inferiores cheguem à salvação implorando o socorro dos superiores.(p.257)

Mas, se isso é verdade de intercessão dos santos, muito mais da intercessão de Maria, cujas preces diante de Deus são mais poderosas que as de todos os santos.(p.257-258).

Necessidade de intercessão de Nossa Senhora

I. Quanto ao seu poder, Cosme de Jerusalém chamava à intercessão da nossa Rainha, não só poderosa, mas onipotente. E Ricardo de S. Lourenço diz: O Filho onipotente comunicou a sua onipotência a sua Mãe. O Filho é onipotente por natureza, e a Mãe por graça; porque ela obtém de Deus tudo quanto pede, e isto por duas razões: a primeira é que ela excede todas as criaturas em fidelidade e amor para com Deus; o que faz, como diz o Pe. Soares, que o Senhor ame mais a Maria, que a todos os bem-aventurados juntos. Um dia Sta. Brígida ouviu Jesus dizer a sua Mãe: Minha Mãe, pedi-me o que quiserdes, porque nenhuma das vossas súplicas pode ficar sem efeito.(p.259).

II. Tanto Maria é poderosa para nos salvar pela sua intercessão, como é misericordiosa para conosco e interessada na nossa salvação. É o que nota. S. Bernardo. É chamada Mãe de misericórdia, porque a sua terna bondade para conosco faz que nos ame e socorra, como uma mãe ama e socorre seu filho doente. Segundo o Pe. Nieremberg, o amor de todas as mães reunidas não iguala o de Maria, por um só de seus servos que a ela se recomenda. Por isso é comparada à bela oliveira na amplidão dos campos. Dos campos, comenta o cardeal Hugues, para que todos venham e se refugiem junto dela. E assim como a oliveira, dá o azeite, símbolo da misericórdia, a quem a preme, assim Maria derrama as suas misericórdias sobre quem recorre a ela.

O bem-aventurado Amadeu e S. Beda afirmam que a nossa Rainha, no Céu, está sempre ocupada a orar por nós39. Ai! exclama S. Bernardo, o que é que poderia brotar duma fonte de misericórdia senão misericórdia? Um dia ouviu Sta. Brígida que o nosso Salvador dizia a sua Mãe: Mater, pete quod vis a me. E Maria respondeu: Misericordiam pelo miseris. É como se tivesse dito: Meu Filho, visto que me constituístes Mãe de Misericórdia, – que posso eu pedir-vos senão que useis de misericórdia com os miseráveis pecadores? – A caridade imensa de que está abrasado o coração de Maria para com todos os homens, diz S. Bernardo, como que a obriga a difundir por todos a sua misericórdia.(p.260)

Prática da Devoção Mariana

Repito pois, recorramos sempre a esta augusta Mãe de Deus, rogando-lhe que nos proteja; mas, para melhor merecermos a sua proteção, tenhamos o cuidado de a honrar quanto possível. Um grande servo de Maria, o irmão João Berchmans, da Cia. de Jesus, estava em artigo de morte, quando os seus irmãos lhe perguntaram o que tinha a fazer para cativarem as boas graças desta poderosa Rainha. Ele respondeu: Quidquid minimum, dum modo sit constans. Uma leve homenagem basta, para assegurar a proteção da Mãe de Deus; contenta-se com o mínimo dos nossos esforços, contanto que seja perseverante; porque é tão generosa, diz Sto. André de Creta, que recompensa
habitualmente com graças abundantes as mais pequenas coisas que se façam em sua honra62. Quanto a nós, não nos devemos limitar a isso; ofereçamos-lhe ao menos todas as homenagens, que de ordinário lhe rendem os seus devotos servos: rezar o terço todos os dias, fazer as suas novenas, jejuar aos sábados, trazer o seu escapulário (ou a respectiva medalha), visitar diariamente alguma das suas imagens, pedindo-lhe qualquer graça especial, ler cada dia um pouco nalgum livro que trate dos seus louvores, saudá-la ao sair de casa e ao regressar, pôr-se na sua presença; de manhã ao levantar e à noite ao deitar, rezar três A. M. em honra da sua pureza.(p.262-263).

Vida de Padre(p.267-278).

De manhã

1. Os primeiros atos ao levantar De manhã, ao levantar, fará o sacerdote atos de agradecimento, amor e oferecimento de tudo quanto obrar e sofrer durante o dia. Terminará por uma súplica a Deus e à santíssima Virgem, para obter a graça de não cair em nenhum pecado.

Eis como estes atos podem ser formulados: Meu Deus! Prostrado na vossa presença, adoro a vossa Majestade infinita, e submeto-me a vós inteiramente.
Creio em vós, espero em vós, e amo-vos de todo o meu coração. Dou-vos graças por todos os benefícios, e em especial por me haverdes conservado a vida durante esta noite. Ofereço-vos todos os meus pensamentos, palavras, ações e sofrimentos deste dia, em união com os de Jesus e Maria.

Formo a intenção de ganhar todas as indulgências que puder, e de as aplicar pelas almas do Purgatório. Meu Deus! Por amor de Jesus Cristo, livrai-me de todo o pecado. Meu Jesus! Pelos vossos merecimentos, fazei que viva unido a vós. Maria, minha Mãe! abençoai-me, e acolhei-me sob o vosso manto. Meu anjo da guarda e todos os meus santos patronos, intercedei por mim! Amém. Recitam-se em seguida três A. M. em honra da pureza da santíssima Virgem

2. Oração mental

O padre começará o seu dia por meia hora de oração mental sobre as verdades eternas, ou sobre a paixão de Jesus Cristo, cuja meditação mais particularmente convém a um padre antes de celebrar, por isso que vai renovar
ao altar a memória dela, oferecendo a Deus a mesma Vítima e o mesmo sacrifício. Na oração, depois de lido o assunto, cuidará de produzir atos de dor e amor, e endereçar muitas vezes a Deus preces fervorosas, para obter a perseverança na graça e o seu divino amor. Tome cautela em não deixar a oração, qualquer que seja o tédio e aridez que nela experimente. Se a deixar, colocar-se-á no maior perigo de perder a Deus. Embora não pudesse dizer outra coisa senão: Meu Deus! ajudai-me! Meu Jesus, misericórdia! – a sua oração lhe aproveitaria muito.

Para estar mais recolhido na oração, encerre-se num lugar, em que possa estar a sós com o seu crucifixo. Para isto, procure quanto possível ter um quarto à parte; se o não puder conseguir, mais valerá fazer a sua oração na igreja, do que no meio do ruído das pessoas que passam e conversam.

3. A santa missa

Após a oração, recitará as horas menores até Nôa em seguida irá celebrar. A não haver algum impedimento, conviria para mais recolhimento que celebrasse antes de todas as ocupações do dia. Além da meditação, não deixará de fazer ainda uma curta preparação para a missa, avivando a fé no grande mistério que vai celebrar; que faça ao menos três atos: de amor, de contrição, e de desejo de se unir a Jesus Cristo.

Depois da missa, não omitirá a ação de graças, durante uma hora, ou ao menos meia, aplicando-se a produzir atos de amor, de oferecimento e de súplica. O tempo que se segue à missa é o de ajuntar tesouros de graças.

Quando sobrevier algum estado de secura interior, em que nada possa fazer
por impulso próprio, leia ao menos nalgum bom livro afetos piedosos para com Jesus Cristo.

4. As confissões e o estudo

Se é confessor, terminada a ação de graças, irá confessar. Cumpre observar
que, nos dias de maior afluência, poderá abreviar a ação de graças para ouvir as confissões, mas isso somente em casos tais, que são raros. De ordinário, não deve o confessor deixar a sua ação de graças depois da missa, para que os penitentes não esperem nada. Quando porém vierem para se confessar homens, que não costumem freqüentar os sacramentos, fará bem em os ouvir antes de celebrar; porque esses penitentes não têm paciência para esperar, e se não se confessarem naquela ocasião, Deus sabe quando se confessarão.

Quanto ao sacerdote que não é confessor, esse irá estudar. Aplique-se tanto ao estudo da moral, para se tornar capaz de administrar o sacramento da penitência, como à composição de sermões, e a outras coisas semelhantes, que aproveitem à sua instrução, ou ao bem das almas.

5. Da ordem nos exercícios

Importa observar aqui que nem todos os exercícios, de que se fala neste regulamento, devem ser praticados pela ordem exposta; contanto que se façam
no decurso do dia, isso basta; pouco importa que um preceda o outro, conforme se julgar mais conveniente. Assim, por exemplo, no inverno, em que amanhece mais tarde, pode estudar uma ou duas horas, depois da meditação e do ofício. De resto, um padre que quer viver conforme a dignidade do seu estado, deve fixar o tempo e a hora para todos os seus exercícios, de modo a cumpri-los numa ordem constante; não faça como alguns que nenhuma ordem observam nas suas ações. A vida sem regra é uma imagem do inferno, que Jó chama: Terram miseriae et tenebrarum, ubi umbra mortis, ET nullus ordo, sed sempiternus horror inhabitat (Jó 10, 22).

6. O almoço

Chegada a hora do almoço, comerá sobriamente, como convém a um padre. Não imite certos padres glotões, que desde a manhã querem toda a família ocupada em lhes preparar as iguarias, e, se depois as não encontram ao seu gosto, inquietam todos os domésticos e parentes. “O que procura contentar a sua boca jamais se tornará santo”, dizia S. Filipe de Néri. E, se o padre deve ser sóbrio na alimentação, mais ainda no uso do vinho, cujo excesso é mais pernicioso à virtude, sobretudo à castidade.

Ao sábado, em honra da santíssima Virgem, procure observar ao menos o jejum ordinário, se não se crê com forças para jejuar a pão e água; em último caso, que se contente com um só prato. De mais, nalgum outro dia da semana, como na quarta e sexta, e em todas as novenas de nossa Senhora, prive-se ao menos de alguma coisa à mesa.

II – Exercícios para depois do meio dia

1. A leitura espiritual

Tomado o descanso necessário, o padre recitará Vésperas e Completas, e fará em seguida meia hora de leitura espiritual. Para esta leitura poderá servir-se do tratado do Conhecimento e do Amor do Filho de Deus, pelo Pe. Saint- Jure, ou da Perfeição cristã, pelo Pe. Rodrigues, livros cheios de piedade e unção1. Poderá também servir se doutras obras, mas busque principalmente as Vidas dos Santos, como a de S. Filipe de Néri, S. Francisco de Borja… Nos livros espirituais, vêem-se as virtudes em teoria; nas Vidas dos Santos, vêem-se praticadas, o que move mais à imitação. S. Filipe de Néri não cessava de exortar os seus penitentes à leitura das Vidas dos Santos. Quantos santos, tais como S. João Colombiano, Santo Inácio de Loyola e Santa Teresa deverem a essa leitura o impulso que os levou a darem-se inteiramente a Deus!

2. A visita ao Santíssimo Sacramento e à Santíssima Virgem

Depois da leitura espiritual, irá fazer a sua visita ao Santíssimo. Dos simples fiéis, muitos há que todos os dias praticam com exatidão este santo exercício, e nunca faltam a ele, por qualquer embaraço ou incômodo que lhes sobrevenha; mas é raro, muito raro até, encontrar padres seculares que o façam. É preciso confessá-lo, Jesus Cristo está mal servido com os seus padres! Tudo isso deriva do pouco amor que lhe têm: quem ama ternamente um amigo, procura vê-lo todas as vezes que pode, sobretudo quando as suas visitas são muito agradáveis a esse amigo.

Por esta visita não intendo apenas algum Padre nosso, dito de passagem e com distração diante do altar; consiste ela em aplicar o espírito, por um tempo considerável, a excitar afetos piedosos para com Jesus Cristo no santíssimo Sacramento, e em lhe pedir graças, — principalmente o dom da perseverança final e do seu santo amor. Ai! Quem deveria pois ir entreter-se com Jesus Cristo mais vezes e por mais tempo, que um padre, a quem é dado fazê-lo descer do Céu à terra todos os dias, tomá-lo nas próprias mãos, alimentar-se da sua carne adorável, e ainda para seu proveito encerrá-lo no tabernáculo, onde pode gozar da sua presença todas as vezes que quiser?

Depois da visita ao Santíssimo, não deixe de visitar também, na mesma igreja, a Mãe de Deus, pondo-se na presença da imagem que lhe inspirar mais devoção.

3. O recreio

A seguir, poderá recriar-se por algum tempo, passear pelo campo, ou por algum caminho solitário, em companhia de algum padre ou pessoa espiritual,que fale de Deus e não do mundo. A falta de tal companhia , deve ir só, para não perder com algum companheiro mundano todo o recolhimento adquirido nos exercícios de piedade. Se nesse tempo vago pudesse assistir a alguma academia de moral, mais aproveitaria: lá encontraria ao mesmo tempo
recreio e lucro.

Exercícios da tarde

1. Antes de cear

De tarde, convém que o padre faça ainda uma meia hora de oração mental. Se possível fosse, conviria que a fizesse com a todas as pessoas da casa, lendo ele os pontos da meditação, e terminando-a com os atos das virtudes cristãs.

Depois rezará Matinas e Laudes, seguidas de meia hora de estudo. Em seguida, recitará o terço com a gente da casa, tendo o cuidado de indicar os mistérios que se devem meditar, e concluirá pelas ladainhas da santíssima Virgem.

2. A ceia

Ao terço seguir-se-á a ceia, na qual deve ser ainda mais sóbrio que ao almoço. Se o não for e se exceder, não só sofrerá do estômago e da cabeça, mas não poderá de manhã satisfazer aos deveres importantes que lhe incumbem: meditar, celebrar e ouvir confissões. Tudo será feito com distração, tédio e em grande parte perdido.

3. Últimos atos antes de se deitar

Depois da ceia fará o exame de consciência, seguido do ato de contrição e doutros atos de piedade. Em seguida recite prostrado três A. M. à santíssima Virgem, encomende-se aos seus santos patronos e deite-se.

Eis a oração que pode fazer antes de se deitar:

Meu Deus! Agradeço-vos a graça de me haverdes conservado durante este dia; rogo-vos que me conserveis também esta noite e me preserveis de todo o mal. É para vos agradar que vou tomar este repouso, na intenção de, a cada respiração, vos amar, louvar e servir, como fazem os Santos no Céu.

Maria, minha Mãe! Dignai-vos abençoar-me e guardar-me sob o vosso manto. Anjo da minha guarda e meus santos patronos, intercedei por mim!

IV-Exercícios não diários

1. A confissão

O padre se confessará duas vezes, ou ao menos uma por semana. Não deixará de ter um diretor espiritual, que o encaminhe em todos os exercícios espirituais, e mesmo nos negócios temporais que possam interessar à sua alma.

2. O retiro mensal

Fará cada mês um dia de retiro, em que ponha de parte os negócios temporais, e até os espirituais que respeitam ao seu próximo. Retirado em sua casa ou numa casa religiosa, só cuidará de si próprio em silêncio, consagrando o dia inteiro a orações, leituras espirituais, visitas ao Santíssimo, e outros exercícios semelhantes. Ó! que força colhe a alma nestes retiros, como se une mais intimamente a Deus, e ganha impulso para caminhar a passo mais firme nos dias seguintes!

3. Alguns avisos particulares

Nas tentações, principalmente contra a pureza, renove a resolução de sofrer antes mil mortes, que ofender a Deus; recorra logo a Jesus e Maria, invocado os seus nomes santíssimos até que a força da tentação acalme. Vista sempre com modéstia. usando casaco comprido, e nunca seda.

Evite os grandes jantares, os divertimentos do mundo, e as reuniões dos seculares, sobretudo aonde afluírem mulheres.

Regras Espirituais para um padre que aspire à perfeição(p.279-280).

1. Evitar o pecado e a perturbação depois do pecado

Um pecado que aspira à perfeição e deseja santificar-se, deve primeiro que tudo tomar a peito evitar antes o pecado que a morte, até o mínimo pecado venial deliberado. Depois do pecado de Adão, no estado atual da fragilidade humana, ninguém pode e nunca pôde — à exceção de Jesus Cristo e de sua Mãe santíssima — ser isento de todas as faltas veniais indeliberadas; mas podemos muito bem, com o auxílio de Deus, evitar todas as faltas deliberadas, isto é, cometidas com plena advertência e consentimento; é o que têm feito os santos. Quem aspira à perfeição deve estar bem decidido a deixar-se antes martirizar, do que dizer com advertência plena uma mentira, ou cometer qualquer outro pecado venial, por pequeno que seja.

Tal deve ser a sua resolução; mas, se tiver a desgraça de cair nalguma falta, deliberada ou indeliberada, não se perturbe nem inquiete. Nunca a inquietação
vem de Deus, é um fumo que não pode sair senão do próprio abismo da inquietação, que é o inferno. Vem-nos de lá, porque, como dizia com razão S. Luís de Gonzaga, o demônio pesca sempre nas águas turvas. Quando uma pessoa, por exemplo, cometeu uma falta, perturba-se, e depois perturba-se por se haver perturbado: neste estado de inquietação, não só será incapaz de praticar o bem, mas até facilmente cometerá muitas outras faltas, quer de impaciência, quer doutra espécie.

Por isso, desde que a falta está cometida, é necessário humilhar-se e recorrer logo a Deus: faça um ato de amor ou de contrição, com o bom propósito de emenda, e peça com muita confiança a graça de que necessita, dizendo:

Senhor! eis o que eu sei fazer e, se me retirardes a vossa mão, ainda farei pior! Amo-vos, arrependo-me do passado e não quero recair no futuro; dignai-vos conceder-me o socorro que da vossa bondade espero. Feito isto, ficai em paz, como se nenhuma falta houvésseis cometido. Se até no mesmo dia recairdes, procedei do mesmo modo. se tivésseis a desgraça de recair cem vezes, sempre deveríeis concluir assim: humilhe-se quem se exaltou, mas nunca se fique desalentado. Importa observar que o perturbar-se depois de uma falta cometida, não é efeito da humildade, mas do orgulho: dói-se o pecador do que lhe aconteceu,menos por ser ofensa feita a Deus, do que pela vergonha que sente de se apresentar diante dele com tal mancha. Nunca o padre pois deve perturbar-se com as suas faltas, mas humilhe-se como capaz de cometer essas e ainda outras; faça depois um ato de amor de Deus Então o pecado em vez

2. Desejo eficaz de adiantar no amor de Deus

Esteja o padre animado do desejo de crescer cada vez mais no amor de Deus. Não querer adiantar na perfeição — que assenta por completo no amor de Deus — é querer atrasar. Non progredi, jam reverti est diz Sto. Agostinho (Epist. 17. E. B. app.). Quem sobe a corrente dum rio, e não luta de contínuo contra o movimento das águas, será por elas arrastado. É o que nos acontece, desde que não lutemos contra a concupiscência da carne. Os santos desejos adoçam-nos as dificuldades e fazem-nos caminhar para a frente; mas é necessário que sejam firmes e eficazes, isto é, que sejam quanto possível postos em prática. Não tenhamos a linguagem dos que, por exemplo, se limitam a dizer: Ó! se eu tivesse irmãos nem sobrinhos, entraria numa ordem religiosa; se eu tivesse saúde, faria tais penitências…

Esses jamais dão um passo à frente no caminho de Deus; ao contrário, sempre
se arrastam nos mesmos pecados, sempre conservam os mesmos apegos e animosidades, caminham de mal a pior.

Haja pois desejo de adiantar no amor de Deus, mas com a resolução firme de fazer todo o possível para chegar ao fim, desconfiando das próprias forças e pondo toda a confiança só em Deus; porque aquele que confia em si, priva-se do auxílio da graça.

3. Devoção à Paixão do Salvador e ao Santíssimo

Para adiantar na perfeição, é também necessário ser muito devoto da paixão de N. S. Jesus Cristo e do Santíssimo Sacramento. Quando se consideram estes grandes mistérios de amor, em que um Deus, para se fazer amar, sacrifica a sua vida e se dá em alimento a um verme da terra, criatura sua, não se pode deixar de arder em amor por Jesus Cristo. Charitas enin Christi urget nos, diz S. Paulo (2Cor 5,14). Quem pensa no amor do nosso Salvador, vê-se como que forçado a amá-lo. Às suas chagas sagradas chama S. Boaventura feridas, que ferem os mais duros corações, e inflamam no amor de Deus as almas mais geladas. De ordinário pois, não deixe o padre de fazer todos os dias meia hora de meditação sobre a Paixão de Jesus Cristo. Faça além disto durante o dia freqüentes atos de amor para com o divino Mestre, começando desde o despertar e procurando adormecer num ato de amor. Dizia Sta. Teresa que os atos de amor são como lenha que entretém no coração o doce fogo do amor divino. Em particular, um ato de amor muito agradável a Deus é o oferecimento de si mesmo, dispondo-se para fazer e sofrer tudo quanto for do beneplácito divino. Santa Teresa repetia este ato pelo menos cinqüenta vezes
cada dia.

4. Intenção de fazer tudo por Deus

Em todas as suas ações, deve o padre ter a intenção de tudo fazer só para Deus. Os mestres da vida espiritual chamam à reta intenção uma alquimia celeste, que converte em ouro todas as nossas ações, mesmo as que respeitam às necessidades corpóreas, como o repouso, o alimento e o recreio.

Mas, em especial, é necessário que os exercícios de piedade se façam unicamente para agradar a Deus, e não por motivo de interesse, vanglória, ou gosto próprio; de contrário, tudo se perderá e, em vez de recompensa, se receberá castigo. Para com segurança pois, se fazer por Deus tudo quanto se fizer, convém que se obre sempre sob a dependência dum diretor.

5. Amor da solidão e do silêncio

É preciso que o padre ame a solidão e o silêncio. Quem trata e fala demasiado com os homens, necessita de tomar cautela; se a não tiver, dificilmente evitará o pecado: In multiloquio non deerit peccatum (Prov. 10, 10). Por isso o Senhor disse: In silentio et in spe erit fortitudo vestra (Ps. 30, 15).

Seremos fortes contra as tentações, na medida em que confiarmos em Deus, e nos afastarmos do comércio com as criaturas. De mais, quem fala muito com os homens, falará pouco com Deus. Na solidão fala e conversa familiarmente o Senhor com as almas, conforme esta exclamação de S.Jerônimo: O solitudo, in qua Deus cum suis familiariter loquilur ac conversatur!
E o próprio Deus nos faz compreender que é na solidão que nos fala aos corações: Ducam eam in solitudinem, et loquar ad cor ejus (Os. 2, 14). As almas que ardem no amor de Deus sempre buscam a solidão: é o que se observa. Corriam os santos a esconder-se nas florestas e em espantosas cavernas, para não serem perturbados pelo ruído do mundo e poderem tratar a sós com Deus. O silêncio e a solidão forçam, por assim dizer, a alma a não pensar senão em Deus.

No entanto, não consiste a virtude em estar sempre calado, mas em falar quando convém. Um bom padre cala-se quando deve calar-se, e fala quando deve alar; mas fala somente de Deus, ou do que interessa à glória de Deus e ao bem das almas. Muitas vezes uma palavra de Deus, dita familiarmente em conversa ou a um amigo, produzirá mais fruto que muitos sermões.

Deve-se pois ter cuidado em todos os entretenimentos, por indiferentes que sejam, de misturar alguma palavra edificante sobre as verdades eternas ou sobre o amor de Deus. Quando se ama uma pessoa, sempre se desejaria falar e ouvir falar dela; quando se ama a Deus, só se fala e quer ouvir falar de Deus.

6. Conformidade com a vontade de Deus

Consiste acima de tudo o amor de Deus na conformidade com a sua santa vontade, especialmente nas coisas que mais contrariam o amor próprio, como são as doenças, a pobreza, o desprezo, as perseguições e as securas espirituais. Devemos estar persuadidos de que tudo isso, que nos advém de Deus, nos é útil, por ser feito ou permitido para nosso bem; porque ninguém há que mais nos ame do que Deus. Se queremos santificar-nos, digamos em tudo quanto nos acontecer: Fiat voluntas tua. Sit nomen Domini benedictum. Domine, quid me vis facere? Sicut Domino placuit, ita factum est. Ita, Pater! quoniam sic fuit placitum ante te. Em todas as eventualidades da vida, agradáveis ou desagradáveis, procuremos conservar essa paz contínua, essa tranqüilidade inalterável de que os santos nos dão exemplo, dizendo sempre: In pace in idipsum dormiam ET requiescam. Uma alma que ama a Deus passa uma vida uniforme, sempre em união com o Senhor; era o que nos seus cânticos exprimia um grande servo de Deus, o cardeal Petrucci, sobre esta palavra do Espírito Santo: Non contristabit justum quidquid ei acciderit (Prov. 12, 21).

Assim, um padre que ama a Deus jamais será abalado pela aflição. Só o pecado lhe deve causar dor; mas esta dor mesmo, como acima dissemos, deve ser uma dor calma, que não perturbe a paz da alma.

7. Desejo de morte

Deve o padre desejar muitas vezes o Paraíso, e por conseqüência a morte, para ir em breve para o Céu amar a Jesus Cristo, com todas as suas forças e por toda a eternidade, sem receito de jamais o perder. Entretanto, procederá sem reservas para com Deus, nada lhe recusando, do que souber que lhe é mais agradável, e estará sempre atento a afastar do seu coração tudo o que não é Deus nem para Deus.

8. Devoção à santíssima Virgem

Esforce-se por conceber uma grande confiança e terna devoção para com a santíssima Virgem. Sempre todos os santos têm alimentado em seus corações uma piedade filial para com a Mãe divina. Cuide de fazer todos os dias uma leitura nalgum livro, que trate das suas glórias e da confiança que devemos ter na sua poderosa proteção. Não deixe de jejuar aos sábados em sua honra, o melhor que possa, e em todas as suas novenas, pratique ao menos alguma abstinência e mortificação. Não deixe de visitar todos os dias alguma imagem sua. Quanto puder, falará da confiança que se deve ter na proteção de Maria, e procurará aos sábados fazer aos fiéis uma pequena instrução na igreja, para os afervorar na devoção a esta compassiva Soberana.

Pelo menos, fale dela em cada um dos seus sermões, e recomende a mesma devoção a todos os seus penitentes, assim como a todas as demais pessoas que possa. Quanto mais se amar a Maria, tanto mais se amará a Deus; porque Maria atrai a Deus os que a amam. Quia tota ardens fuit, diz S.Boaventura, omnes se amantes, eamque languentes, incendit (De B. M. V. s.1).

9. Ser humilde do coração

Esforce-se por ser humilde do coração. Muitos há que são humildes de palavras, mas não do coração; dizem que são os maiores pecadores do mundo, que merecem mil infernos; apesar disso, querem ser preferidos, estimados e louvados. Quando ninguém os aplaude, a si próprios se louvam; ambicionam os empregos mais altos, e não podem sofrer uma palavra de desprezo.

Não procedem assim os humildes de coração: nunca falam dos seus talentos,
da sua nobreza, das suas riquezas, nem de coisa alguma que os distinga.

Amará pois os empregos e serviços mais humildes e obscuros. Receberá as afrontas sem se perturbar, e até interiormente se comprazerá nelas, por se tornar assim semelhante a Jesus Cristo, que foi saturado de opróbrios. Nas contradições que ferirem e irritarem o seu orgulho, faça-se violência para nada dizer nem fazer naquela ocasião, ainda mesmo que seja superior e como tal obrigado a reprimir a insolência de quem o ultraja. Enquanto sentir os nervos exaltados, deve calar-se até que eles acalmem. De contrário, o fumo da perturbação lhe ofuscará a vista; olhará como justo o que diz e faz, ao passo que tudo será falta e desordem. Além disto, quando a correção se faz no momento da exasperação, o inferior não a recebe como reprimenda merecida, mas como efeito da impaciência da parte do superior, o que a torna inútil ou pouco menos. Pela mesma razão, quando o superior conhece que o seu inferior está perturbado, deve diferir a admoestação, esperando que ele acalme; doutro modo, o inferior cego pela sua paixão, longe de receber a repreensão, romperá em maiores excessos.

10. Tornar bem por má

Será prestável a todos, e cuidará em especial de fazer bem a quem lhe tiver feito mal, pelo menos recomendando-o a Deus; é a vingança dos santos.

11. Mortificação interior e exterior

Esteja atento em praticar a mortificação interior e exterior. Jesus Cristo a recomendou, quando disse: Abneget semetipsum (Matth. 16, 24); o que é absolutamente necessário para chegar à santidade.

Exige a mortificação interior que cada um se vença a si próprio, recusando ao amor próprio tudo quanto o possa contentar. Abstenha-se pois de toda a ação que não tenha outro objeto senão satisfazer a curiosidade, a ambição, ou a vontade própria.

Ame também a mortificação exterior: os jejuns, as abstinências, as disciplinas, e outras coisas semelhantes. Os santos maceraram a sua carne quanto puderam, isto é, quanto lhes permitia a obediência, que é a regra dos santos.

Quanto àquele que, em razão da sua pouca saúde, não puder impor mortificasses exteriores, esse deve abraçar as dores e incômodos que tiver a sofrer, tomando a peito levar tudo com resignação e tranqüilidade. Deve abster-se até de dar a conhecer sem necessidade o que sofre, e de se queixar do pouco cuidado dos médicos ou das pessoas da casa.

12. Orar sempre

É necessário orar sempre e recomendar-se a Deus. Todas as nossas boas resoluções e propósitos se desvanecem como o fumo, se nos descuidarmos de orar; porque, sem a oração, ficamos privados das graças necessárias para os cumprir3. Devemos ter os lábios sempre abertos para orar, dizendo: Senhor, ajudai-me; Senhor, misericórdia; Senhor, tende compaixão de mim. — Assim o têm feito todos os santos, e assim se têm santificado.

Acima de tudo, não cessemos de pedir a Jesus Cristo o dom do seu santo amor. Dizia S. Francisco de Sales que este dom encerra todos os outros; porque desde que se ama a Deus empregam-se todos os esforços para evitar quanto lhe possa desagradar, e fazer todo o possível para lhe agradar.

Peçamos também sempre a graça de ter muita confiança na paixão de Jesus Cristo e na intercessão de Maria. Não cessemos de recomendar a Deus as santas almas do Purgatório e os pobres pecadores; porque estas orações são muito agradáveis a Deus.

Máximas Espirituais para um padre(p.279-280).

Antes perder tudo, que perder a Deus. Antes desagradar a todo o mundo, que desagradar a Deus. Só é para temer o pecado, que nos deve causar horror. Antes morrer do que cometer com advertência um só pecado, mesmo venial.

Tudo acaba; o mundo é uma cena, que passa depressa.
Cada momento vale um tesouro para a eternidade.
O que apraz a Deus é bom.
Fazei o que quereríeis ter feito à hora da morte.
Vivei como se no mundo só houvesse Deus e vós.
Só Deus contenta o homem.
Nenhum bem há senão Deus; nenhum mal senão o pecado.
Nada façais para vossa própria satisfação.
Quem mais se mortifica nesta vida, mais gozará na outra.
Para os amigos de Deus, o amargo é doce e o doce é amargo.
É nas doenças que se vê quem tem virtude.
Quem quer o que Deus quer, tem tudo quanto quer.
A vontade de Deus torna doce o que é amargo.
Quem nada deseja do mundo, de nada tem necessidade.

Não retardeis o cumprimento dos vossos bons propósitos, se não quereis atrasar.Perturbar-se com as faltas cometidas não é humildade, mas orgulho.
Só somos o que somos diante de Deus.

Quem ama a Deus, mais deseja amar do que saber.
Quem quer santificar-se, deve banir do seu coração tudo quanto não é Deus.
Não é todo de Deus quem busca alguma coisa que não é Deus.

A dor, a pobreza e a humilhação foram as companheiras de Jesus Cristo; que sejam também as nossas. Venha donde vier, nunca a perturbação vem de Deus. O humilde crê-se indigno de toda a honra e digno de todo o desprezo. Quando se pensa no inferno que se mereceu, sofrem-se com resignação todas as penas. Esquecei-vos a vós mesmos, e Deus pensará em vós.

Amai os desprezos, e encontrareis a Deus. Quem se contenta com um bem mínimo, não está longe do mal. A quem procura ser estimado, estima Deus pouco. Os santos falam sempre de Deus; sempre dizem mal de si próprios, e
sempre bem dos outros. Os curiosos são sempre dissipados. Desgraçado de quem ama mais a saúde que a santidade! Sempre o demônio anda à caça dos ociosos. Um padre vaidoso é uma pela nas mãos do demônio.

Quem quer estar em paz, deve mortificar todas as suas paixões, sem excetuar uma só. S. José Calasâncio dizia: “Um servo de Deus fala pouco, trabalha muito e sofre tudo”. Cuidam os santos de ser santos, e não de o parecerem. Quem não amar muito a oração, jamais chegará a um alto grau de perfeição. Primeiro se há de ser reservatório para recolher, e depois canal para difundir. Todo o apego impede de ser inteiramente de Deus. É Jesus Cristo e o seu beneplácito que o padre deve trazer diante dos seus olhos, e nada mais. Nas obras que falam à vista se esconde muitas vezes o orgulho. Oferecer-se por completo a Deus é uma excelente preparação para a comunhão. Quando andardes por lugares povoados, conservai os olhos baixos; pensai que sois padre e não pintor.

Bibliografia: Ligório, Santo Afonso. Glórias de Maria. Editora Santuário, 20. ed. 1989. Ligório, Santo Afonso. A Selva – Dignidade e Deveres do Sacerdote, 1928. PortoTipografia,74.

Anúncios

Arquivos

Ano Sacerdotal

Campanha da Fraternidade 2010

Anúncios