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Biografia de São João Crisóstomo


CARTA DO PAPA BENTO XVI
POR OCASIÃO DO XVI CENTENÁRIO DA MORTE
DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO

Venerados Irmãos
no episcopado e no sacerdócio
Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo!

1. Introdução

Celebra-se este ano o XVI centenário da morte de São João Crisóstomo, grande Padre da Igreja para o qual olham com veneração os cristãos de todos os tempos. Na Igreja antiga João Crisóstomo distingue-se por ter promovido aquele “frutuoso encontro entre a mensagem cristã e a cultura helénica” que “teve um impacto duradouro nas Igrejas do Oriente e do Ocidente” [1]. Quer a vida quer o magistério doutrinal do Santo Bispo e Doutor ressoam em todos os séculos e ainda hoje suscitam a admiração universal. Os Pontífices Romanos reconheceram sempre nele uma fonte viva de sabedoria para a Igreja e a sua atenção pelo seu magistério aumentou ainda mais durante o último século. Há cem anos São Pio X comemorou o XV centenário da morte de São João convidando a Igreja a imitar as suas virtudes [2]. O Papa Pio XII ressaltou o grande valor da contribuição que São João ofereceu para a história da interpretação das Sagradas Escrituras com a teoria da “condescendência”, ou seja, da “synkatábasis”. Através dela Crisóstomo reconheceu que “as palavras de Deus, expressas através dos homens, se tornaram semelhantes à linguagem humana” [3]. O Concílio Vaticano II incorporou esta observação na Constituição dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina [4]. O Beato João XXIII ressaltou a compreensão profunda que Crisóstomo tinha do vínculo íntimo entre a liturgia eucarística e a solicitude pela Igreja universal [5]. O Servo de Deus Paulo VI frisou o modo como ele “tratou, com tanta nobreza de linguagem e sagacidade de piedade, o Mistério Eucarístico” [6]. Desejo recordar o gesto solene com o qual o meu amadíssimo Predecessor, o Servo de Deus João Paulo II, em Novembro de 2004 entregou importantes relíquias dos Santos João Crisóstomo e Gregório Nazianzeno ao Patriarcado ecuménico de Constantinopla. O Pontífice ressaltou como aquele gesto era verdadeiramente para a Igreja Católica e para as Igrejas Ortodoxas “uma ocasião abençoada para purificar as nossas memórias feridas, para fortalecer o nosso caminho de reconciliação [7]. Eu mesmo, durante a viagem apostólica à Turquia, precisamente na Catedral do Patriarcado de Constantinopla, tive a oportunidade de recordar “os insignes santos e pastores que vigiaram sobre a Sé de Constantinopla, entre os quais São Gregório de Nazianzo e São João Crisóstomo, que também o Ocidente venera como Doutores da Igreja… Na realidade, eles são dignos intercessores por nós diante do Senhor” [8]. Portanto sinto-me feliz porque a circunstância do XVI centenário da morte de São João me oferece a oportunidade de reevocar a sua luminosa figura e propô-la à Igreja universal para a comum edificação.

2. A vida e o ministério de São João

São João Crisóstomo nasceu em Antioquia da Síria nos meados do século IV. Foi instruído nas artes liberais segundo a prática tradicional do seu tempo e revelou-se particularmente dotado na arte do discurso público. Durante os seus estudos, quando ainda era jovem, pediu o baptismo e aceitou o convite do seu Bispo, Melésio, para prestar serviço de leitor na Igreja local [9]. Naquele período os fiéis estavam perturbados com a dificuldade de encontrar um modo adequado para expressar a divindade de Cristo. João tinha-se alinhado com aqueles fiéis ortodoxos que, em sintonia com o Concílio ecuménico de Niceia, confessavam a plena divindade de Cristo, mas mesmo procedendo assim, tanto ele como os outros fiéis não encontravam em Antioquia o favor do governo imperial [10]. Depois do seu baptismo João abraçou a vida ascética. Por influência do seu mestre Teodoro de Tarso, decidiu permanecer celibatário por toda a vida e dedicou-se à oração, ao jejum rigoroso e ao estudo da Sagrada Escritura [11]. Afastando-se de Antioquia, por seis anos conduziu uma vida ascética no deserto da Síria e começou a escrever tratados sobre a vida espiritual [12]. Em seguida, regressou a Antioquia onde, mais uma vez, serviu a Igreja como leitor e, mais tarde, durante cinco anos, como diácono. Em 386, chamado ao presbiterado por Flaviano, Bispo de Antioquia, acrescentou também o ministério da pregação da Palavra de Deus ao da oração e da actividade literária [13].

Durante os doze anos de ministério presbiteral na Igreja antioquena, João distinguiu-se muito pela sua capacidade de interpretar as Sagradas Escrituras de modo compreensível aos fiéis. Na sua pregação ele empenhava-se com fervor para reforçar a unidade da Igreja fortalecendo nos seus ouvintes a identidade cristã, num momento histórico no qual estava ameaçada quer do interior quer do exterior. Justamente, ele intuiu que a unidade entre os cristãos dependia sobretudo de uma verdadeira compreensão do mistério central da fé da Igreja, o da Santíssima Trindade e da Encarnação do Verbo Divino. Todavia, consciente das dificuldades destes mistérios, João dedicava grande empenho em fazer com que o ensinamento da Igreja fosse acessível às pessoas simples da sua assembleia, tanto em Antioquia como, mais tarde, em Constantinopla [14]. E não deixava de se dirigir também aos discordantes, preferindo usar com eles a paciência e não a agressividade, porque acreditava que para superar um erro teológico “nada é mais eficaz do que a moderação e a gentileza” [15].

A fé sólida de João e a sua habilidade na pregação deram-lhe a possibilidade de pacificar os Antioquenos quando, no início do seu presbiterado, o Imperador aumentou a pressão fiscal sobre a cidade causando uma revolta durante a qual alguns monumentos públicos foram destruídos. Depois da revolta o povo, receando a cólera do Imperador, tinha-se reunido na igreja, desejosa de ouvir de João palavras de esperança cristã e de conforto: “Se nós não vos confortamos, onde podereis encontrar conforto?”, disse-lhes [16]. Nos seus sermões durante a quaresma daquele ano, João expôs todos os acontecimentos relacionados com a revolta e recordou aos seus ouvintes as atitudes que devem caracterizar o compromisso cívico dos cristãos [17], sobretudo a rejeição de meios violentos na promoção de mudanças políticas e sociais [18]. Nesta perspectiva, exortava os fiéis ricos a praticar a caridade para com os pobres, a fim de construir uma cidade mais justa e, ao mesmo tempo, recomendava que os mais instruídos aceitassem ser mestres e que todos os cristãos se reunissem nas igrejas para aprender a carregar os pesos uns dos outros [19]. Se era necessário, também sabia consolar os seus ouvintes fortalecendo a sua esperança e encorajando-os a ter confiança em Deus, tanto para a salvação temporal como para a eterna [20], dado que “a tribulação produz a paciência, a paciência, a virtude provada e a virtude provada, a esperança” (Rm 5, 3-4) [21].

Depois de ter servido a Igreja antioquena como presbítero e pregador por doze anos, João foi consagrado Bispo de Constantinopla em 398, e ali permaneceu durante cinco anos e meio. Naquela função, ele ocupou-se da reforma do clero, estimulando os presbíteros, quer com as palavras quer com o exemplo, a viver em conformidade com o Evangelho [22]. Apoiou os monges que viviam na cidade e ocupou-se das suas necessidades materiais, mas procurou reformar a sua vida, ressaltando que eles se tinham proposto dedicar-se exclusivamente à oração e a uma vida retirada [23]. Atento a evitar qualquer ostentação de luxo e a adoptar, mesmo sendo Bispo de uma capital do império, um estilo de vida modesto, foi generosíssimo na distribuição das esmolas aos pobres. João dedicava-se à pregação todos os domingos e nas festas principais. Estava muito atento a fazer com que os aplausos, com frequência recebidos pela sua pregação, não o induzissem a perder o interesse pelo Evangelho que pregava. Por isso, por vezes lamentava-se porque com frequência a mesma assembleia que aplaudia as suas homilias ignorava as exortações a viver autenticamente a vida cristã [24]. Denunciou incansavelmente o contraste que existia na cidade entre o desperdício extravagante dos ricos e a indigência dos pobres e, ao mesmo tempo, em sugerir aos ricos que acolhessem os desabrigados nas suas casas [25]. Via Cristo no pobre; por isso, convidava os seus ouvintes a fazer o mesmo e a agir por consequência [26]. Foram tão persistentes a defesa do pobre e a reprovação de quem era muito rico, que suscitou a contrariedade e também a hostilidade contra ele por parte de alguns ricos e de quantos detinham o poder político [27].

Entre os Bispos do seu tempo João foi extraordinário pelo zelo missionário; enviou missionários para difundir o Evangelho entre os que ainda não o conheciam [28]. Construiu hospitais para a cura dos doentes [29]. Pregando em Constantinopla sobre a Carta aos Hebreus, afirmou que a assistência material da Igreja se deve alargar a cada necessitado, sem ter em conta o credo religioso: “o necessitado pertence a Deus, mesmo se é pagão ou judeu. Mesmo se não crê, é digno de ajuda” [30].

O papel de Bispo na capital do Império do Oriente impunha que João mediasse as delicadas relações entre a Igreja e a corte imperial. Ele encontrou-se com frequência a ser objecto de hostilidades da parte de muitos oficiais imperiais, às vezes devido à sua firmeza em criticar o luxo excessivo com que se circundavam. Ao mesmo tempo a sua posição de Arcebispo metropolitano de Constantinopla colocava-o na difícil e delicada situação de ter que negociar uma série de questões eclesiais que envolviam outros Bispos e outras sedes. Como consequência das intrigas arquitectadas contra ele por adversários poderosos, tanto eclesiásticos como imperiais, foi condenado duas vezes pelo imperador ao exílio. Faleceu a 14 de Setembro de há 1600 anos, em Comana do Ponto durante a viagem rumo à meta final do seu segundo exílio, distante do seu amado rebanho de Constantinopla.

3. O magistério de São João

A partir do século V, Crisóstomo foi venerado pela inteira Igreja cristã, oriental e ocidental, pelo seu testemunho corajoso em defesa da fé eclesial e pela sua dedicação generosa ao ministério pastoral. O seu magistério doutrinal e a sua pregação, como também a sua solicitude pela Sagrada Liturgia mereceram-lhe depressa o reconhecimento de Padre e Doutor da Igreja. Também a sua fama de pregador era consagrada, já a partir do século VI, com a atribuição do título “Boca de ouro”, em grego “Crisóstomo”. Dele escreve Santo Agostinho: “Observa, Juliano, em qual assembleia te introduzi. Aqui está Ambrósio de Milão… aqui João de Constantinopla… aqui Basílio… aqui os outros, e o seu admirável consentimento deveria fazer-te reflectir… Eles resplandeceram na Igreja católica pelo estudo da doutrina. Revestidos e protegidos pelas armas espirituais guiaram vigorosas guerras contra os hereges e, depois de terem levado fielmente ao termo as obras que lhes foram confiadas por Deus, dormem no seio da paz… Eis o lugar no qual te introduzi, a assembleia destes santos não é a multidão do povo: eles não são só filhos, mas também Padres da Igreja” [31].

Digno de especial menção é depois o extraordinário esforço realizado por São João Crisóstomo para promover a reconciliação e a plena comunhão entre os cristãos do Oriente e do Ocidente. Em particular, foi decisiva a sua contribuição para pôr fim ao cisma que separava a sede de Antioquia da de Roma e das outras Igrejas ocidentais. Na época da sua consagração como Bispo de Constantinopla João enviou uma delegação ao Papa Sirício, a Roma. Em apoio desta missão, em vista do seu projecto de pôr fim ao cisma, ele obteve a colaboração do Bispo de Alexandria do Egipto. O Papa Sirício respondeu favoravelmente à iniciativa diplomática de João; o cisma foi assim resolvido pacificamente e restabelecida a plena comunhão entre as Igrejas.

Sucessivamente, nos finais da sua vida, tendo regressado a Constantinopla do primeiro exílio, João escreveu ao Papa Inocêncio e também aos Bispos Venério de Milão e Cromácio de Aquileia, para pedir ajuda no esforço de restabelecer a ordem na Igreja de Constantinopla, dividida por causa das injustiças cometidas contra ele. João solicitava do Papa Inocêncio e dos outros Bispos ocidentais uma intervenção que “conceda como ele escreveu benevolência não só a nós, mas a toda a Igreja” [32]. De facto, no pensamento de Crisóstomo, quando uma parte da Igreja sofre por uma ferida, toda a Igreja sofre pela mesma ferida. O Papa Inocêncio defendeu João com algumas cartas dirigidas aos Bispos do Oriente [33]. O Papa afirmava a sua plena comunhão com ele, ignorando a sua deposição que considerava ilegítima [34]. Escreveu depois a João para o confortar [35], e escreveu também ao clero e aos fiéis de Constantinopla para manifestar o pleno apoio ao seu Bispo legítimo: “João, o vosso Bispo, sofreu injustamente”, reconhecia ele [36]. Além disso, o Papa reuniu um Sínodo de Bispos italianos e orientais com a finalidade de obter justiça para o Bispo perseguido [37]. Com o apoio do imperador do Ocidente, o Papa enviou uma delegação de Bispos ocidentais e orientais a Constantinopla, junto do imperador do Oriente, para defender João e pedir que um Sínodo ecuménico de Bispos lhe fizesse justiça [38]. Quando, pouco antes da sua morte no exílio, estes projectos falharam, João escreveu ao Papa Inocêncio para lhe agradecer o “grande conforto” que tinha sentido pelo generoso apoio que lhe fora concedido [39]. Na sua carta João afirmava que, apesar de estar separado pela grande distância do exílio, ele estava “dia após dia em comunhão” com ele, e dizia: “Tu superaste até o pai mais afectuoso na tua benevolência e no teu zelo para connosco”.

Contudo suplicava-lhe que perseverasse no compromisso de procurar justiça para ele e para a Igreja de Constantinopla, porque “agora a batalha que tens diante de ti deve ser combatida em favor de quase todo o mundo, da Igreja humilhada ao máximo, do povo disperso, do clero agredido, dos Bispos mandados para o exílio, das antigas leis violadas”. João escreveu também aos outros Bispos ocidentais para lhes agradecer o seu apoio [40]: entre eles, na Itália, Cromácio de Aquileia [41], Venério de Milão [42] e Gaudêncio de Bréscia [43].

Tanto em Antioquia como em Constantinopla João falou apaixonadamente da unidade da Igreja espalhada pelo mundo. A este propósito escreveu: “Os fiéis, em Roma, consideram os que estão na Índia como membros do seu próprio corpo” [44] e ressaltava que na Igreja não há espaço para as divisões. “A Igreja exclamava existe não para que quantos se reuniram se dividam, mas para que quantos estão divididos se possam unir” [45]. E encontrava nas Sagradas Escrituras a confirmação divina desta unidade. Pregando sobre a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, recordava aos seus ouvintes que “Paulo se refere à Igreja como “Igreja de Deus” [46] mostrando que deve estar unida, porque se é de Deus está unida, e não só em Corinto, mas também no mundo: de facto, o nome da Igreja não é um nome de separação, mas de unidade e concórdia” [47].

Para João a unidade da Igreja está fundada em Cristo, o Verbo Divino que com a sua Encarnação se uniu à Igreja como a cabeça ao seu corpo [48]: “Onde está a cabeça, lá está também o corpo”, e portanto “não há separação entre a cabeça e o corpo” [49]. Ele tinha compreendido que na Encarnação o Verbo Divino não só se fez homem, mas também se uniu a nós fazendo-se seu corpo [50]: “Dado que para ele não era suficiente fazer-se homem, ser açoitado e morto, ele une-se a nós não só pela fé, mas também de facto nos torna seu corpo”. Comentando o trecho da Carta de São Paulo aos Efésios: “Tudo de facto submeteu aos seus pés e constituiu-o sobre todas as coisas cabeça da Igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que se realiza totalmente em todas as coisas” [51], João explica que “é como se a cabeça fosse completada pelo corpo, porque o corpo é composto e formado pelas suas várias partes. Portanto, o seu corpo é composto por todos. A cabeça é completa e o corpo tornado perfeito quando todos nós estamos juntos e unidos” [52]. João conclui então que Cristo une todos os membros da sua Igreja a si e entre eles. A nossa fé em Cristo exige que nos comprometamos por uma efectiva e sacramental união entre os membros da Igreja, pondo fim a todas as divisões.

Para Crisóstomo, a unidade eclesial que se realiza em Cristo é testemunhada de modo totalmente peculiar na Eucaristia. Denominado “doutor eucarístico” pela vastidão e profundidade da sua doutrina sobre o Santíssimo Sacramento” [53], ele ensina que a unidade sacramental da Eucaristia constitui a base da unidade eclesial em e por Cristo. “Certamente há muitas coisas para nos manter unidos. Uma mesa está posta diante de todos… a todos foi oferecida a mesma bebida ou, aliás, não só a mesma bebida mas também o mesmo cálice. O nosso Pai, querendo conduzir-nos a um terno afecto, dispôs também isto, que bebamos de um só cálice, o que se destina a um amor intenso” [54]. Reflectindo sobre as palavras da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, “O pão que partimos não é porventura comunhão com o corpo de Cristo?” [55], João comenta: para o Apóstolo portanto, “assim como aquele corpo está unido a Cristo, assim também nós estamos unidos a Ele por meio deste pão” [56]. E ainda mais claramente, à luz das seguintes palavras do Apóstolo: “Pois nós, mesmo sendo muitos, somos um só pão, um só corpo” [57], João argumenta: “O que é o pão? O Corpo de Cristo. E o que se tornam eles quando o comemos? O corpo de Cristo; não muitos corpos, mas um só corpo. Assim como o pão, mesmo se feito de muitos grãos, se torna um… assim também nós estamos unidos quer uns aos outros quer a Cristo… Mas, se somos alimentados por um mesmo pão e todos nos tornamos a mesma coisa, por que não mostramos também o mesmo amor, de modo a tornarmo-nos também sob este aspecto uma só coisa?” [58].

A fé de Crisóstomo no mistério de amor que une os crentes a Cristo e entre eles conduziu-o a exprimir uma profunda veneração pela Eucaristia, uma veneração que alimentou particularmente na celebração da Divina Liturgia. Uma das mais ricas expressões da Liturgia oriental leva precisamente ao seu nome: “A Divina Liturgia de São João Crisóstomo”. João compreendeu que a Divina Liturgia coloca espiritualmente o crente entre a vida terrena e as realidades celestes que lhe foram prometidas pelo Senhor. Ele expressava a Basílio Magno o seu temor reverencial ao celebrar os sagrados mistérios com estas palavras: “Quando tu vês o Senhor imolado que jaz sobre o altar e o sacerdote que, estando de pé, reza sobre a vítima… ainda podes pensar que estás entre os homens, que estás na terra? Não és, ao contrário, imediatamente transportado para o céu?”. Os ritos sagrados, diz João, “não são só maravilhosos para ver, mas extraordinários pelo temor reverencial que suscitam. Ali está em pé o sacerdote… que faz descer o Espírito Santo, e reza prolongadamente para que a graça que desce sobre o sacrifício possa iluminar naquele lugar as mentes de todos e torná-las mais maravilhosas que a prata purificada no fogo. Quem pode desprezar este venerando mistério?” [59].

Com grande profundidade Crisóstomo desenvolve a reflexão sobre os efeitos da comunhão sacramental nos crentes: “O sangue de Cristo renova em nós a imagem do nosso Rei, produz uma beleza indizível e não permite que seja destruída a nobreza das nossas almas, mas continuamente a irriga e alimenta” [60]. Por isso João exorta com frequência e insistência os fiéis a aproximar-se dignamente do altar do Senhor, “não com leviandade… não por hábito e formalidade”, mas com “sinceridade e pureza de espírito” [61]. Ele repete incansavelmente que a preparação para a Sagrada Comunhão deve incluir o arrependimento dos pecados e a gratidão pelo sacrifício realizado por Cristo para a nossa salvação. Portanto ele exorta os fiéis a participar plena e devotamente nos ritos da Divina Liturgia e a receber com as mesmas disposições a Sagrada Comunhão: “Não deixeis, suplicamos-vos, que sejamos mortos pela vossa irreverência, mas aproximai-vos d’Ele com devoção e pureza, e quando o virdes diante de vós, dizei a vós mesmos: “Em virtude deste corpo eu já não sou terra e cinza, já não sou prisioneiro, mas livre; em virtude disto espero no paraíso, e receber os seus bens, a herança dos anjos, e conversar com Cristo”” [62].

Naturalmente, da contemplação do Mistério ele tira depois também as consequências morais nas quais envolve os seus ouvintes: ele recorda-lhes que a comunhão com o Corpo e o Sangue de Cristo os obriga a oferecer assistência material aos pobres e aos famintos que vivem entre eles [63]. A mesa do Senhor é o lugar onde os crentes se reconhecem e acolhem o pobre e o necessitado que talvez antes tenham ignorado[64]. Ele exorta os fiéis de todos os tempos a olhar além do altar sobre o qual é oferecido o sacrifício eucarístico e a ver Cristo na pessoa dos pobres, recordando que graças à ajuda prestada podem oferecer no altar de Cristo um sacrifício agradável a Deus [65].

4. Conclusão

Todas as vezes que encontramos estes nossos Padres escreveu o Papa João Paulo II em relação a outro grande Padre e Doutor, São Basílio, “somos por eles confirmados na fé e encorajados na esperança” [66]. O XVI centenário da morte de São João Crisóstomo oferece uma ocasião bastante propícia para incrementar os estudos sobre ele, recuperar os seus ensinamentos e difundir a devoção a ele. Estou espiritualmente presente com ânimo grato e faço bons votos às várias iniciativas e celebrações que são organizadas por ocasião deste XVI centenário. Gostaria de expressar também o meu desejo fervoroso de que os Padres da Igreja “em cuja voz ressoa a constante Tradição cristã” [67] se tornem cada vez mais um ponto firme de referência para todos os teólogos da Igreja. Regressar a eles significa remontar às fontes da experiência cristã, para saborear o seu vigor e genuidade. Portanto, que melhores votos poderia desejar aos teólogos do que os de um renovado compromisso por recuperar o património sapiencial dos santos Padres? Certamente obtêm um enriquecimento precioso para a sua reflexão também sobre os problemas deste nosso tempo.

Apraz-me terminar esta carta com uma última palavra do grande Doutor, na qual ele convida os seus fiéis e também nós, naturalmente a reflectir sobre os valores eternos: “Ainda por quanto tempo estaremos apegados à realidade presente? Quanto tempo será ainda necessário antes de despertarmos? Ainda por quanto tempo descuidaremos a nossa salvação? Deixai-nos recordar aquilo de que Cristo nos considerou dignos, deixai que lhe agradeçamos, glorifiquemos, não só com a nossa fé, mas também com as nossas obras efectivas, que possamos obter os bens futuros pela graça e amorosa ternura de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual e com o qual sejam glorificados o Pai e o Espírito Santo, agora e por todos os séculos. Amém” [68].

A todos a minha Bênção!

Castel Gandolfo, 10 de Agosto de 2007, terceiro ano de Pontificado.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/letters/2007/documents/hf_ben-xvi_let_20070810_giovanni-crisostomo_po.html


PAPA BENTO XVI

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

São João Crisóstomo (2)

Queridos irmãos e irmãs!

Continuamos hoje a nossa reflexão sobre São João Crisóstomo. Depois do período passado em Antioquia, em 397 ele foi nomeado Bispo de Constantinopla, a capital do Império romano do Oriente. Desde o início, João projectou a reforma da sua Igreja:  a austeridade do palácio episcopal devia servir de exemplo para todos clero, viúvas, monges, palacianos e ricos.

Infelizmente, muitos destes, atingidos pelos seus juízos, afastaram-se dele. Solícito pelos pobres, João foi chamado também “Esmoler”. De facto, como administrador atento ele conseguiu criar instituições caritativas muito apreciadas. O seu arrojo nos vários âmbitos fez com que ele se tornasse para alguns um rival perigoso. Ele, contudo, como verdadeiro Pastor, tratava todos de modo cordial e paterno. Sobretudo, destinava considerações sempre ternas às mulheres e cuidados especiais ao matrimónio e à família. Convidava os fiéis a participar na vida litúrgica, por ele tornada esplendorosa e atraente com genial criatividade.

Não obstante o coração generoso, não teve uma vida tranquila. Pastor da capital do Império, viu-se com frequência envolvido em questões e intrigas políticas, devido aos seus contínuos relacionamentos com as autoridades e as instituições civis. Depois, a nível eclesiástico foi acusado de ter superado os confins da própria jurisdição, e tornou-se assim alvo de fáceis acusações. Outro pretexto contra ele foi a presença de alguns monges egípcios, excomungados pelo patriarca Teófilo de Alexandria que se refugiaram em Constantinopla. Uma acesa polémica foi depois originada pelas críticas feitas por Crisóstomo à imperatriz Eudóxia e às suas palacianas, que reagiram desacreditando-o e insultando-o. Chegou-se assim à sua deposição, no sínodo organizado pelo mesmo patriarca Teófilo em 403, com a consequente condenação ao primeiro breve exílio. Depois do seu regresso, a hostilidade suscitada contra ele desde o protesto contra as festas em honra da imperatriz que o Bispo considerava como festas pagãs, sumptuosas e a expulsão dos presbíteros encarregados dos Baptismos na Vigília pascal de 404 marcaram o início da perseguição de Crisóstomo e dos seus seguidores, os chamados “Joanitas”.

Então João denunciou através de carta os factos ao Bispo de Roma, Inocêncio I. Mas já era demasiado tarde. No ano de 406 teve de novo que se refugiar no exílio, desta vez em Cucusa, na Arménia. O Papa estava convencido da sua inocência, mas não tinha o poder de o ajudar. Um Concílio, querido por Roma para uma pacificação entre as duas partes do Império e entre as suas Igrejas, não pôde ser realizado. O deslocamento extenuante de Cucusa para Pytius, meta nunca alcançada, devia impedir as visitas dos fiéis e interromper a resistência do exiliado extenuado:  a condenação ao exílio foi uma verdadeira condenação à morte! São comovedoras as numerosas cartas do exílio, nas quais João manifesta as suas preocupações pastorais com tonalidades de participação e de sofrimento pelas perseguições contra os seus. A marcha rumo à morte terminou em Comano no Ponto. Aqui, João moribundo, foi levado para a capela do mártir São Basilisco, onde rendeu a alma a Deus e foi sepultado, mártir ao lado do mártir (Palladio, Vita 119). Era o dia 14 de Setembro de 407, festa da Exaltação da Santa Cruz. A reabilitação teve lugar em 438 com Teodósio II. As relíquias do santo Bispo, colocadas na igreja dos Apóstolos em Constantinopla, foram depois trasladadas em 1204 para Roma, para a primitiva Basílica constantiniana, e agora jazem na capela do Coro dos Cónegos da Basílica de São Pedro. A 24 de Agosto de 2004 uma considerável parte delas foi doada pelo Papa João Paulo II ao Patriarca Bartolomeu I de Constantinopla. A memória litúrgica do santo celebra-se a 13 de Setembro. O beato João XXIII proclamou-o padroeiro do Concílio Vaticano II.

Foi dito acerca de João Crisóstomo que, quando foi colocado no trono da Nova Roma, isto é, Constantinopla, Deus mostrou nele um segundo Paulo, um doutor do Universo. Na realidade, em Crisóstomo há uma unidade substancial de pensamento e de acção tanto em Antioquia como em Constantinopla. Mudam só o papel e as situações. Meditando sobre as oito obras realizadas por Deus no suceder-se dos seis dias no comentário do Génesis, Crisóstomo deseja reconduzir os fiéis da criação ao criador:  “É um grande bem”, diz, “conhecer o que é a criatura e o que é o Criador”.

Mostra-nos a beleza da criação e a transparência de Deus na sua criação, a qual se torna assim quase que uma “escada” para subir a Deus, para o conhecer. Mas a este primeiro passo acrescenta-se um segundo:  este Deus criador é também o Deus da condescendência (synkatabasis). Nós somos débeis na “subida”, os nossos olhos são débeis. E assim Deus torna-se o Deus da condescendência, que envia ao homem pecador e estrangeiro uma carta, a Sagrada Escritura, de modo que criação e Sagrada Escritura completam-se. À luz da Escritura, da carta que Deus nos deu, podemos decifrar a criação. Deus é chamado “pai terno” (philostorgios) (ibid.), médico das almas (Homilia 40, 3 sobre o Génesis), mãe (ibid.) e amigo afectuoso (Sobre a providência 8, 11-12). Mas a este segundo passo primeiro a criação como “escada” para Deus e depois a condescendência de Deus através duma carta que nos deu, a Sagrada Escritura acrescenta-se um terceiro passo. Deus não só nos transmite uma carta:  em definitiva, desce Ele mesmo, encarna-se, torna-se realmente “Deus connosco”, nosso irmão até à morte na Cruz. E a estes três passos Deus é visível na criação, Deus dá-nos uma sua carta, Deus desce e torna-se um de nós acrescenta-se no final um quarto passo. No arco da vida e da acção do cristão, o princípio vital e dinâmico é o Espírito Santo (Pneuma), que transforma as realidades do mundo. Deus entra na nossa existência através do Espírito Santo e transforma-nos do interior do nosso coração.

Nesta panorâmica, precisamente em Constantinopla João, no comentário continuativo dos Actos dos Apóstolos, propõe o modelo da Igreja primitiva (Act 4, 32-37) como modelo para a sociedade, desenvolvendo uma “utopia” social (quase uma “cidade ideal”). De facto, tratava-se de dar uma alma e um rosto cristão à cidade. Por outras palavras, Crisóstomo compreendeu que não é suficiente dar esmola, ajudar os pobres sempre que precisem, mas é necessário criar uma nova estrutura, um novo modelo de sociedade; um modelo baseado na perspectiva do Novo Testamento. É a nova sociedade que se revela na Igreja nascente. Portanto João Crisóstomo torna-se assim realmente um dos grandes Padres da Doutrina Social da Igreja:  a velha ideia da “polis” grega é substituída por uma nova ideia de cidade inspirada na fé cristã. Crisóstomo defendia com Paulo (cf. 1 Cor 8, 11) a primazia de cada cristão, da pessoa como tal, também do escravo e do pobre. O seu projecto corrige assim a tradicional visão grega da “polis”, da cidade, na qual amplas camadas de população eram excluídas dos direitos de cidadania, enquanto na cidade cristã todos são irmãos e irmãs com iguais direitos. A primazia da pessoa é também a consequência do facto que realmente partindo dela se constrói a cidade, enquanto que na “polis” grega a pátria era superior ao indivíduo, o qual estava totalmente subordinado à cidade no seu conjunto. Assim com Crisóstomo tem início a visão de uma sociedade construída pela consciência cristã. E ele diz-nos que a nossa “polis” é outra, “a nossa pátria está no céu” (Fl 3, 20) e esta nossa pátria também nesta terra nos torna iguais, irmãos e irmãs, e obriga-nos à solidariedade.

No final da sua vida, do exílio nos confins da Arménia, “o lugar mais remoto do mundo”, João, voltando à sua primeira pregação de 386, retomou o tema que lhe era tão querido do plano que Deus prossegue em relação à humanidade:  é um plano “indizível e incompreensível”, mas certamente guiado por Ele com amor (cf. Sobre a providência 2, 6). É esta a nossa certeza.

Mesmo se não podemos decifrar os pormenores da história pessoal e colectiva, sabemos que o plano de Deus se inspira sempre no seu amor. Assim, apesar dos sofrimentos, Crisóstomo reafirmava a descoberta de que Deus ama cada um de nós com um amor infinito, e por isso deseja que todos se salvem. Por seu lado, o santo Bispo cooperou nesta salvação generosamente, sem se poupar, ao longo de toda a sua vida. De facto ele considerava o fim último da sua existência a glória de Deus, que já agonizante deixou como extremo testamento:  “Glória a Deus por tudo!” (Palladio, Vita 11).

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070926_po.html

A Sabedoria

O pastor ausente e as ovelhas em perfeita ordem! Grande feito do pastor: o rebanho, não apenas em sua presença, mas até durante a ausência, demonstra ardente zelo! (p.17)

O desejo do bem-estar não vos atormenta mais e não tendes dificuldade em superá-lo. Com efeito, de uma vez o eliminastes e tornastes a carne inacessível a este desejo, e acostumastes o estômago a se contentar, quanto à comida e à bebida, com o suficiente para não morrer nem merecer castigo…Pois, comida excessiva alimenta o sono. (p.224)

Nossa meta é a seguinte: não apenas expelir a tristeza, mas também encher-vos de grande e permanente alegria. (p.251)

De fato, a tristeza também produz doença. Quando o corpo está fatigado e totalmente fraco, surge enorme e progressivo perigo. (p.301)

Quanto mais intensa a tribulação, mais aumentam as coroas quanto mais o ouro é provado pelo fogo, mais se purifica;…(p.305)

A Caridade

Onde falta a caridade, as outras virtudes de nada nos servem, porque ela constitui a marca dos discípulos do Senhor, a característica dos servos de Deus, o distintivo dos apóstolos. Com efeito, está escrito: “Nisso reconhecerão todos que sois meus discípulos, (se vos amardes uns aos outros.)” João 13, 35. (p.18)

Por esta razão, conforme Cristo disse, não se revelam seus discípulos por intermédio de milagres, e sim pela caridade. (p.18)

Dialoguemos com moderação. Nada mais forte que a moderação e a doçura. Por essa razão também Paulo recomendou que adotemos cuidadosamente tal atitude, nesses termos: “Ora, um servo de Deus não deve brigar; deve ser manso para com todos”. (II Timóteo 2, 24)

Não convém a um servo do Senhor altercar; bem ao contrário, seja ele condescendente com todos, capaz de ensinar, paciente em suportar os males.

Serão capazes de reter a língua no momento em que ela se exalta além da medida e da conveniência, de acalmar o espírito agitado e moderá-lo constantemente, e de estabelecer em nós permanentemente a paz perfeita. (p.31)

Persistência e coragem na Evangelização

Mesmo, caríssimo irmão, se te injuriarem, te derem pontapés e te cuspirem, se fizerem seja o que for, não desistas dos curativos. De fato, os que cuidam de um homem louco devem suportar muitas coisas desta espécie e não podem abandoná-lo apesar de tudo, mas devem apiedar-se e lastimá-lo tanto mais por se tratar de manifestação da doença. (p.49)

Não são efetivamente apenas as feridas corporais, mas também as dores da alma que alcançam coroas inefáveis, e as aflições da alma, se acolhidas como ação de graças, mais do que a do corpo. (p.240)

Fugir das más companhias

Os mais fracos, ao contrário, fujam da companhia deles e evitem o diálogo, não suceda que o pretexto de amizade se transforme em oportunidade de irreligião. (p.49)

Se a amizade deles te é prejudicial e te arrasta a participar da impiedade, até mesmo se forem os próprios pais, foge deles! Se teu olho te prejudica, arranca-o! Com efeito, foi dito: “Se teu olho direito te escandalizar, arranca-o”. (p.29)

Quando o médico visita um doente, com freqüência resultam benefícios para ambos, mas se alguém um tanto fraco vai para junto dos doentes, simultaneamente causa dano a eles e a si mesmo, porque em nada lhes será útil, e a doença lhe acarretará grande mal. Os que ficam olhando pacientes atingidos de oftalmia contraem a moléstia; assim também os que se unem aos blasfemadores, se são mais fracos, arriscam-se a participar de sua impiedade. A fim, portanto, de evitar tão graves perigos, fujamos da companhia deles e contentemo-nos com rezar e implorar a Deus que ama os homens, quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade…(p.50)

Pois, aquele que pratica o mal na terra e, em vez de expiar seu pecado, goza de consideração da parte dos homens, partirá levando tal estima qual penhor mais seguro de castigo. Este o motivo por que o rico ardia horrivelmente, e sofria punição não apenas por causa da crueldade para com Lázaro, mas porque a prosperidade de que gozava continuamente, com tamanha crueldade, não o tornara melhor. (Cf. Lucas 16, 19-31) (p.203)

Então ninguém estará ao nosso lado nem nos livrará do castigo. Nem pai, nem filho, nem filha, nem mãe, nem outro parente qualquer, nem vizinho, nem amigo, nem advogado, nem donativo em dinheiro, nem superabundante fortuna, nem poder imenso: tudo isso será sacudido como pó. O réu, em vista da sentença que o absolve ou condena, conta apenas com seus atos. Ninguém é então julgado por ações alheias, e sim de acordo com o que ele mesmo praticou. (p.221)

A oração

Eu posso, dizem eles, rezar também em casa, enquanto é impossível ouvir em casa homilia ou instrução. Enganas-te a ti mesmo, ó homem. Se, de fato, podes rezar em casa, não pode rezar do mesmo modo que na Igreja…Efetivamente, os sacerdotes presidem a fim de que as orações do povo, mais fracas, unidas às deles, mais fortes, simultaneamente se elevem para o céu. (p.63)

A verdadeira humildade

Considerar-se pecador quem verdadeiramente o é, não constitui, contudo, humildade. A humildade pertence a quem, apesar de consciente de ter praticado muitas boas ações, não tem de si mesmo alta estima…(p.99)

O fariseu atrelava juntos a justiça e o orgulho, a ponto de dizer: “Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, ávidos, nem como este publicano”.(Lucas 18, 11) …E que fez então este último? Não repeliu as injurias, não se irritou com a acusação: acolheu tais palavras com prudência. A seta do inimigo transformou-se-lhe em remédio e cura, a injuria, em elogio, a censura, em coroa. A humildade é tão bela, que não sente as mordeduras dos agravos de outrem e não se enfurece pelo ultrajes do próximo. É até possível tirar desses ataques grande e excelente fruto, como aconteceu no caso do publicano. Na verdade, ao aceitar as injúrias, ele depôs o fardo de seus pecados e, ao dizer: “Tem piedade de mim, que sou pecador!”; voltou para casa justificado, mais do que o outro. (Lucas 18, 13). (p.100-101)

Sucede nos negócios o mesmo que acontece com as riquezas e que sobreveio àquela viúva. Ela, de fato, por ter dado dois óbolos, superou os que tinham dado mais porque se despojara de tudo o que tinha (Marcos 12, 42); igualmente, os que se dão com todas as forças e fazem o possível para solucionar uma questão, mesmo se nada obtiverem, obtêm a recompensa ligada a sua ação. (p.250)

Misericórdia de Deus

Ora, muitas vezes os homens suportam mal, apartam e repelem quem procura se queixar e chorar junto deles; Deus, porém, não age deste modo. Ao contrário, faz com que te aproximes e a si te atrai, e mesmo se passares o dia inteiro a expor-lhe tuas tribulações ficará ainda mais inclinado a amar-te e a atender as tuas súplicas. Justamente isso queria Cristo mostrar-nos aos proclamar: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso de vosso fardo e eu vos darei descanso”. (Mateus 11, 28)(p.103)

Providência de Deus

De fato, a providência de Deus é mais manifesta que o sol com seus raios e, em cada tempo e lugar, no deserto, nos países habitados e inóspitos, na terra e no mar, em qualquer lugar a que vás, perceberás a memória clara e suficiente, antiga e nova, desta providência…(p.122)

Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? E, se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem.(Mateus 7, 9-11) Com isso revela que, na medida em que a maldade difere da bondade, tanto a bondade de Deus supera a solicitude dos pais. (p.124)

A criação: Obra do Amor de Deus

1.Embelezou o céu não somente com astros; ornou-o ainda com o sol e a lua, ocasionando-te, conforme a oportunidade, ora grande prazer, ora enorme utilidade…Assim como o sol regula as horas do dia, a lua estabelece as da noite; (p.129-130)

2.E tudo isso por ti, ó homem! Com efeito, os ventos também foram criados por tua causa…eles refrescam os nossos corpos fatigados…Além disso, os ventos de outra forma são profícuos às águas, pois não permitem que se corrompam estagnadas, mas as agitam constantemente e ventilam; fazem-nas renovadas…(p.134)

3.Se queres examinar a própria noite, verás, nela também, a grande providência do criador. De fato, ela repousa teu corpo cansado, relaxa e distende os membros tensos pelos esforços diurnos, produz uma alteração e restitui-lhes, pelo repouso, vigor pleno. (p.134-135)

A cruz de Jesus é sinal de salvação

Foi pregado numa alta cruz, cuspiam-lhe, batiam-lhe com bastões, era esbofeteado, escarnecido, foi sepultado por caridade, e teve o túmulo selado. E tudo isso ele o suportou por ti com solícita bondade, a fim de:

1.Suprimir a tirania do pecado, destruir a cidadela do diabo, quebrar os laços da morte;

2. Abrir-nos as portas do céu,

3. Fazer desaparecer a maldição, apagar a primeira culpa;

4. Ensinar-te a paciência, treinar-te à resistência de modo que nenhum dos acontecimentos da vida presente te aflija, nem a morte, nem os insultos, nem as injurias, nem as zombarias, nem os açoites, nem as ciladas dos inimigos, nem as calúnias, nem os ataques, as denúncias, as suspeitas etc.

Viveu, também ele, no meio de tudo isso e o partilhou contigo, dominou-o de modo extraordinário, demonstrando e ensinando-te a não temeres nenhuma dessas provas. (p.140)

Apesar de ter visto o Cristo crucificado, flagelado, injuriado, sorvendo fel, coberto de escarros, escarnecido por todo esse povo, condenado por um tribunal, arrastado à morte, nada o escandalizou. Viu a cruz, os cravos fincados e a multidão corrupta a zombar dele; seguiu, contudo, o caminho reto, dizendo: “Lembra-te de mim em teu reino”. (Lucas 23, 42)…Os judeus, ao contrário, que o haviam visto operar milagres, que haviam aproveitado do ensino ministrado em palavras e atos, não somente não tiraram proveito, como foram arrastados ao mais profundo abismo para sua perda, tendo erguido a própria cruz. (p.170-171)

A Perseverança

Quanto mais forte a tempestade, maiores os prêmios, se for suportada com perseverança, ações de graças e a conveniente coragem como, na realidade, a suportais. (p.200)

O coração agradecido

Glória a Deus em tudo. Não cessarei de repeti-lo sempre em tudo o que me acontecer. (p.201)

Fonte: São João Crisóstomo. Coleção Patrística. Ed. Paulus.2007.

Sensibilidade para com os órfãos

Nada de mais doloroso para as crianças do que ficarem órfãos muito cedo, porque devido à idade nada podem por si mesmas, não tem verdadeiramente quem as proteja, e são muitos os que as atacam e lhes armam ciladas, quais ovelhas no meio de lobos que, vindos de todos os lados, as dilaceram e estraçalham. (p.238)

A paciência

Nada se iguala à paciência, mas que ela é, sobretudo, a rainha das virtudes, o fundamento das ações retas, o porto sem ondas, a paz no meio das guerras, o mar liso na tempestade, a segurança no meio das emboscadas;… (p.294)

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Biografia:

São Francisco de Sales, … nos apresenta o mais fiel retrato da caridade cristã, nasceu aos 21 de agosto de 1567, oriundo de nobre família, no castelo de Sales, na Sabóia, hoje França. Até aos 17 anos o jovem Francisco passou a feliz adolescência sob os cuidados de seus pais, Francisco de Sales e Francisco de Sionas. Só então é que foi cursar as  aulas do colégio de Annecy.

Em 1578 dirigiu-se a Paris, a fim de estudar retórica e filosofia, sob a direção dos padre da Companhia de Jesus, e em 1584 foi terminar os estudos na Universidade de Pádua, doutorando-se em teologia e direito. Mesmo diante das multiplas ciladas que lhe armara a sua estadia em Paris e em Pádua, o seu coração permaneceu puro e intacto, ligando-se até por um voto perpétuo de castidade, levado do grande amor de Deus que o inflamava. Ao regressar ao lar paterno, esperavam seus pais que contraíssem núpcias e iniciasse uma carreira de honrarias e dignidades no mundo.

Francisco, porém, já tinha decidido dedicar-se ao estado eclesiástico e viver unicamente para Deus…e aos 18 de dezembro de 1593 recebeu o sacerdócio das mãos do bispo de Genebra, Dom Cláudio Granier.

Em 1602, depois de um retiro espiritual de 20 dias, Francisco foi sagrado bispo de Genebra, diocese essa que se tornou até a sua morte a arena de muitas lutas e trabalhos em prol das ovelhas do rebanho de Cristo. A custa de muita abnegação tornava-se tudo para todos, a fim de ganhar a todos para Jesus Cristo. Uma caridade santa e sempre igual, que se manifestava principalmente para com os clérigos subalternos e para com os pobres e desamparados, uma humildade e simplicidade de coração inexcedíveis, uma mansidão e paciência inalteráveis com todas vicissitudes da vida – eis aí os seus traços mais característicos.

A Congregação das Visitandinas, fundada por ele juntamente com Santa Francisca de Chantal, sua filha espiritual, é um monumento  perene de seu espírito belíssimo e de seu coração todo terno e compassivo.(p.9-11)

Fonte:Filoteia.Introdução a vida devota. São Francisco de Sales.1958.


CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II
POR OCASIÃO DO 400° ANIVERSÁRIO
DA ORDENAÇÃO EPISCOPAL
DE SÃO FRANCISCO DE SALES

A Sua Ex.cia Rev.ma D. Yves BOIVINEAU
Bispo de Annecy

1. No dia 8 de Dezembro, Vossa Excelência festejará o quarto centenário da Ordenação episcopal de São Francisco de Sales, Bispo de Genebra e Doutor da Igreja, seu Predecessor, “uma das figuras mais fúlgidas da Igreja e da história” (Papa Paulo VI, Angelus de 29 de Janeiro de 1967). Consagrado “Príncipe Bispo de Genebra” no dia 8 de Dezembro de 1602, aquele a quem o rei Henrique IV chamava com elogios “a fénix dos Bispos” porque, dizia ele, “é um pássaro raro sobre a face da terra” depois de ter renunciado ao luxo de Paris e à proposta do rei, que queria atribuir-lhe uma sede episcopal importante, tornou-se o Pastor e evangelizador incansável da sua terra de Sabóia, que ele amava acima de todas as coisas porque, confessava:  “Sou saboiano em todos os sentidos, por nascimento e por dever”. Deixando-se orientar pelos Padres da Igreja, hauria da oração e de um grande conhecimento meditado da Escritura, a força necessária para cumprir a sua missão e conduzir o povo de Deus.

Como o meu Predecessor, o Papa Paulo VI, que escreveu a Carta Sabaudiae gemma, por ocasião do quarto centenário do seu nascimento (26 de Janeiro de 1967), rezo a Deus para que faça florescer e resplandecer na Igreja uma vida espiritual admirável, graças ao ensinamento do Santo Bispo de Genebra, que continua a ser uma luz para os nossos contemporâneos, como o foi no seu próprio tempo.

Conselheiro de Papas e de príncipes, dotado de excelsas qualidades espirituais, pastorais e diplomáticas, Franciso de Sales foi um homem de unidade numa época em que as divisões constituíam uma ferida no seio da Igreja. Preocupou-se de maneira particular em restabelecer a unidade da sua Diocese e em conservar a comunhão na fé, fundamentando a sua acção na confiança em Deus, na caridade que tudo pode, na ascese e na oração, como sublinhou num autêntico discurso programático, depois da sua Ordenação sacerdotal, porque é assim – dizia ele – que devemos viver a regra cristã e que havemos de comportar-nos, verdadeiramente como filhos de Deus (cf. Harangue pour le prévôté:  Oeuvres complètes, ed. de Annecy, VII, pág. 99 ss.).

Em seguida, ele explicará aquilo que, na verdade, é a caridade teologal:  “A caridade é um amor de amizade, uma amizade de dilecção, uma dilecção de preferência, mas de preferência incomparável, soberana e sobrenatural, que é como um sol em toda a alma para a adornar com os seus raios, em todas as faculdades espirituais para a aperfeiçoar, em todos os poderes para a modelar, na vontade, como sua sede, para nela habitar e fazer com que prefira e ame o seu Deus acima de todas as coisas” (Traité de l’amour de Dieu:  Oeuvres Complètes, IV, pág. 165).

2. Tendo como modelo São Carlos Borromeu, o Arcebispo de Milão, comprometeu-se a difundir com fidelidade e criatividade o ensinamento do Concílio de Trento e a pôr em prática as suas disposições pastorais. Reorganizou a sua Diocese, que visitou de lés a lés em duas ocasiões, sofrendo no seu coração pela dolorosa situação de Genebra, sua sede episcopal que tinha passado para a Reforma calvinista. Preocupou-se em formar presbíteros, de maneira particular instituindo para eles as conferências mensais, com a finalidade de dar ao rebanho sem pastor Pastores misericordiosos, capazes de ensinar o mistério cristão e de celebrar cada vez mais dignamente os sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação. Tinha particularmente a peito fazer com que o clero e os fiéis descobrissem que a penitência é um momento de encontro com o amor do Senhor, que acolhe todos aqueles que lhe pedem humildemente perdão. Preocupou-se, além disso, em reformar as ordens monásticas, como escreveu ao Papa Paulo V, em Novembro de 1606 (Oeuvres complètes, XXIII, pág. 325).

3. Doutor do amor divino, Francisco de Sales não tinha paz enquanto não acolhiam o amor de Deus, para o viver plenamente, voltando o seu coração para Deus e unindo-se a Ele (cf. Traité de l’amour de Dieu:  Oeuvres complètes, IV, pp. 40 ss.). Foi assim que, sob a sua orientação, numerosos cristãos empreenderam o caminho da santidade. Ele mostrou-lhes que todos são chamados a viver uma intensa vida espiritual, independentemente da sua situação ou da sua profissão, porque “a Igreja é um jardim cheio de flores infinitas; portanto, são-lhe necessárias flores de diversos tamanhos, de várias cores, de diferentes perfumes, em síntese, de várias perfeições. Dado que todas têm o seu preço, a sua graça e o seu esplendor e todas, na união das suas variedades, fazem uma perfeição muito agradável de beleza” (Traité de l’amour de Dieu:  Oeuvres complètes, IV, pág. 111).

Homem de bondade e amabilidade, que sabia manifestar a misericórdia e a paciência de Deus a quantos encontrava, propôs uma espiritualidade exigente mas tranquila, fundamentada sobre o amor, porque amar a Deus “é a suma felicidade da alma nesta vida e na eternidade” (Lettre à Mère Marie-Jacqueline Favre, 10 de Março de 1612:  Oeuvres complètes, XV, pág. 180). Com grande simplicidade, formou todas as pessoas na oração:  “Deves prostrar-te diante de Deus e permanecer ali aos seus pés; Ele compreenderá, através deste comportamento humilde, que tu lhe pertences e que tens necessidade da sua ajuda, mesmo que não possas falar” (Lettre à Jeanne Françoise Frémyot de Chantal, 14 de Outubro de 1604:  Oeuvres complètes, XII, pág. 325).

Procurou levar as almas até aos píncaros da perfeição, preocupado em unir as pessoas à volta daquilo que está no centro da existência, a vida em intimidade com o Senhor, mediante a qual o homem pode receber a perfeição e aperfeçeiçoar-se (cf. Traité de l’amour de Dieu:  Oeuvres complètes, IV, pág. 49). Além disso, preocupava-se em deixar que todos voltassem para Cristo e recomeçassem a partir de Jesus, para viverem uma experiência positiva, porque Deus permitiu que cada um governasse as suas próprias capacidades, que é oportuno pôr sob o primado da vontade (cf. Traité de l’amour de Dieu:  Oeuvres complètes, IV, pp. 23-24).

Como Santa Joana de Chantal, que também nós possamos escutar as suas exortações a ser fiéis às meditações sobre a Vida e a Morte de Jesus Cristo:  esta é a porta do céu! Meditando-as com frequência, aprenderemos a conhecer os tesouros que elas contêm. A alma deve permanecer na contemplação da Cruz e na meditação da Paixão (cf. L’étendard de la Sainte Croix:  Oeuvres complètes, II). A perfeição consiste em sermos conformes ao Filho de Deus, deixando-nos orientar pelo Espírito Santo, em perfeita obediência (cf. Traité de l’amour de Dieu:  Oeuvres complètes, XI, 15, V, pp. 291 ss.):  “O abandono perfeito nas mãos do Pai celestial e a perfeita aceitação no que diz respeito à vontade divina são a quinta-essência da vida espiritual… qualquer atraso da nossa perfeição provém unicamente da falta de abandono e é certamente verdade que é necessário começar, continuar e concluir a vida espiritual a partir dali, imitando o Salvador que realizou isto com extraordinária perfeição no começo, durante e no fim da sua vida” (Sermon pour le Vendredi Saint, 1622:  Oeuvres complètes, X, pág. 389).

4. Foi também através de uma correspondência epistolar particularmente rica que acompanhou, com grande delicadeza e com progressiva pedagogia, adequada a cada situação em particular, recorrendo de modo muito feliz a imagens muito coloridas, as almas que se confiavam à sua direcção espiritual, a fim de que cada acto positivo e cada vitória sobre o pecado fossem como que “pedras preciosas (que) serão colocadas na coroa de glória que Deus nos prepara no seu Paraíso” (Introduction à la Vie dévote, IV, 8:  Oeuvres complètes, III, pág. 307). Dado que vivia apaixonado por Deus e pelo homem, o seu modo de ver as pessoas era fundamentalmente optimista e nunca deixava de as convidar, segundo a sua expressão, para florescerem onde tinham sido semeadas. Ainda hoje, e isto é um motivo de alegria para mim, as obras de São Francisco de Sales fazem parte da literatura clássica; e isto é sinal de que o seu ensinamento sacerdotal e episcopal encontra eco no coração dos homens e satisfaz as suas mais profundas aspirações. Convido os Pastores e os fiéis a deixarem-se educar pelo seu exemplo e pelos seus escritos, que continuam a ser de grande actualidade.

Como deixar de recordar, nesta circunstância, Santa Joana de Chantal, com quem ele fundou a Ordem da Visitação, desejando propor, de maneira original e inovadora, um estilo de vida religiosa aberto ao maior número possível de mulheres, que colocassem em primeiro lugar a contemplação?

Dando graças pelo testemunho de vida sacerdotal e episcopal do Apóstolo do Chablais, assim como pelas suas obras, rezo ao Senhor para que faça nascer no mundo de hoje um número cada vez maior de homens e de mulheres que saibam viver a espiritualidade salesiana e propô-la aos nossos contemporâneos, a fim de que todos tenham “uma fé vigilante” que “façam não apenas boas obras, mas que penetrem e compreendam com subtileza e prontidão, as verdades reveladas”, em ordem a transmiti-las ao mundo (Sermon pour le jeudi après le premier dimanche de Carême, 1622:  Oeuvres complètes, XI, pág. 220).

5. Por fim, os meus bons votos são os mesmos do Doutor do amor divino:  que “só Deus seja o vosso descanso e a vossa consolação!” (Lettre à Mademoiselle de Soulfour, 16 de Janeiro de 1603:  Oeuvres complètes, XII, pág. 163).

Confiando-o à intercessão da Virgem Maria, a Imaculada Conceição, e de São Francisco de Sales, concedo-lhe de todo o coração uma afectuosa Bênção apostólica. E é de bom grado que a concedo também aos Bispos da sua região, aos sacerdotes e aos fiéis da Sabóia, da Suíça e do Piemonte, às religiosas da Visitação, aos membros dos diversos Institutos salesianos e a todas as pessoas que vivem da espiritualidade salesiana, aos jornalistas, aos escritores e a todas as pessoas que trabalham nos meios de comunicação social, de quem é o Santo Padroeiro, e a todos aqueles que se unem às festividades deste aniversário.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/2002/documents/hf_jp-ii_let_20021209_francesco-sales_po.html

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Fonte: Filoteia.Introdução a vida devota. São Francisco de Sales.1958.

Misericórdia para si mesmo

Ah! que pena me fazem aquelas pessoas que, por serem cheias de imperfeições, depois de alguns meses de devoção, começam a inquietar-se e perturbar-se, já quase a sucumbir a tentação de deixar tudo e tornar atrás. (p.34)

Ora, as imperfeições e as faltas veniais não nos podem tirar a vida espiritual da graça, de que só o pecado mortal nos priva; portanto, o que temos de temer aí é a perda da coragem. (p.35-36)

A mansidão para conosco; Um modo de fazer um bom uso desta virtude é aplicá-la a nós mesmos, não nos irritando contra nós e nossas imperfeições;…Além de que esta ira, pesar e aborrecimento contra si mesmo encaminham ao orgulho, procede do amor próprio que se perturba e inquieta por nos ver tão imperfeitos. (p.176)

Confissão

Conserva sempre uma verdadeira dor dos pecados confessados, por menores que sejam, e uma firme resolução de corrigir-te. (p.123)

O arrependimento de nossas faltas deve ter duas qualidades: a tranqüilidade e a firmeza. (p.176)

A paciência

Não limites a tua paciência a alguns sofrimentos, mas estende-a universalmente a tudo o que Deus mandar ou permitir que venha sobre ti. (p.146)

O homem verdadeiramente paciente tolera com a mesma igualdade de espírito os sofrimentos ignominiosos como os que trazem honra. O desprezo, a censura e a deseducação dum homem vicioso e libertino é um prazer para uma alma grande; mas sofrer esses maus tratos de gente de bem, de seus amigos e parente é uma paciência heróica…pois, como as ferroadas das abelhas doem muito mais que as das moscas, assim as contradições procedentes de gente de bem magoam muito mais do que as que provêm de homens viciosos. (p.146-147)

A paciência nos obriga a querer estar doentes, como Deus quiser, da enfermidade que Ele quiser, no lugar onde Ele quiser,  com as pessoas e com todos os incômodos que Ele quiser; e eis aí a regra geral da paciência…Sou do parecer de São Gregório que diz: “Se te acusarem de uma falta verdadeira, humilha-te e confessa que mereces muito mais que esta confusão. Se a acusação é falsa, justifica-te com toda a calma, porque o exigem o amor a verdade e a edificação do próximo. Mas, se tua escusa não for aceita, não te perturbes, nem te esforces debalde para provar a tua inocência, porque, além dos deveres da verdade, deves cumprir também o da humildade. (p.148)

Queixa-te o menos possível do mal que te fizeram; pois queixar-se sem pecar é uma coisa raríssima; nosso amor-próprio sempre exagera aos nossos olhos e ao nosso coração as injurias que recebemos. Se houver necessidade de te queixares ou para abrandar o teu espírito ou para pedir conselhos, não o faças a pessoas fáceis de exaltar-se e de pensar e falar mal dos outros. (p.148-149)

Muitos numa doença ou numa outra tribulação qualquer guardam-se de se queixar e mostrar a sua pouca virtude, sabendo bem (e isto é verdade) que seria fraqueza e falta de generosidade; mas procuram que outros se compadeçam deles, se queixem de seus sofrimentos e ainda por cima os louvem por sua paciência. Na verdade temos aqui um ato de paciência, mas certamente duma paciência falsa, que na realidade não passa de um orgulho muito sutil e de uma vaidade refinada…Os cristãos verdadeiramente pacientes não se queixam de seus sofrimentos nem desejam que os outros os lamentem; (p.149)

Se caíres numa doença, oferece tuas dores, a tua prostração e todos os teus sofrimentos a Jesus Cristo, suplicando-lhe de os aceitar em união com os merecimentos de sua paixão. (p.150)

A humildade

O homem verdadeiramente humilde gostará mais que os outros digam dele que é um miserável, que nada é e nada vale, do que de o dizer por si mesmo; ao menos, se sabem que assim dele, sofre com paciência e, como está persuadido que é verdade o que dizem, facilmente se conforma com esses juízos, aliás iguais aos seus. (p.158)

A perfeição da humildade, porém, consiste não só em reconhecermos a nossa abjeção, mas também em amá-la e comprazer-nos nela, não por pouca pobreza de animo e pusilanimidade, mas em vista da glória que devemos dedicar ao nosso próximo, preferindo-o a nós mesmos. (p.162)

A mansidão

Portanto, se disserem que és um hipócrita, porque vives cristãmente, ou um covarde porque perdoaste a injuria que o próximo te fez, despreza semelhantes juízos; pois, além de virem de gente néscia e por muitas razões desprezível, seria necessário abandonar a virtude para conservar a reputação. Os frutos das árvores valem mais do que as folhas; nós devemos preferir os bens interiores aos bens exteriores.

A humildade verdadeira e a mansidão sincera são esplêndidos preservativos contra o orgulho e a ira que as injurias costumam excitar em nós, como esse preservativo que o povo denominou “graça de São Paulo”, que faz quem o tomou nada sofra se for mordido ou picado por um víbora. (p.172)

É melhor diz Santo Agostinho…fechar inteiramente a entrada do coração à cólera, por mais justa que seja, porque ela lança raízes tão profundas que é muito difícil de arrancá-las. (p.173)

Demais, quando estás com o animo calmo e sem motivo algum de irritar-te, faze um provimento de brandura e benignidade, acostumando-te a falar e a agir sempre com este espírito, tanto em coisas grandes como pequenas; (p.175)

Isso nos mostra que a brandura com o próximo deve residir no coração e não só nos lábios, e que não é bastante ter a doçura do mel, que exala um cheiro agradável, isto é, a suavidade duma conversa honesta com pessoas estranhas, mas devemos ter também a doçura do leite no lar doméstico, para com os parentes e vizinhos. É o que falta a muitas pessoas, que fora de casa parecem anjos e em casa vivem como verdadeiros demônios. (p.176)

Providência Divina

Na aquisição e manutenção dos bens terrestres, imita as crianças que, segurando-se com uma mão na mão de seu pai, com a outra se divertem em colher frutos e flores; quero dizer que te deves conservar continuamente debaixo da dependência e da proteção de teu Pai celeste, considerando que Ele te segura pela mão, com diz a Sagrada Escritura, para te conduzir felizmente ao termo de tua vida e volvendo de tempos em tempos os olhos para Ele, a ver se tuas ocupações lhe são agradáveis; toma principalmente cuidado que a cobiça de ajuntar maiores bens não te faça largar a sua mão e negligenciar a sua proteção, não poderás dar um passo sequer que não caias com o nariz no chão. (p.181)

A obediência

Para aprender a obedecer com facilidade aos superiores, acostuma a te acomodares de bom grado com a vontade dos teus iguais, conformando-te aos seus sentimentos sem espírito de contestação, se não houver aí alguma coisa de mal; (p.184)

A castidade

Ora, como aquele preceito – “Irai-vos e não pequeis” é no meu entender mais difícil que o outro – “Não vos irei nunca”, por ser bem mais fácil evitar a raiva, do que regrá-la, assim também é mais fácil a abstenção total dos prazeres carnais do que a moderação deles. É certo que a santa licença que o matrimonio confere tem uma força e virtude particular para apagar a concupiscência, mas a fraqueza dos que usam dela passa facilmente da permissão a dissolução, do uso ao abuso.  (p.188)

Viu Santa Catarina de Sena muitos condenados ao inferno sofrendo atrozmente pelas faltas contra a santidade matrimonial. E isso, dizia ela, não tanto pela enormidade do pecado, porque assassinos e blasfêmias são pecados muito maiores, mas porque os que caem naqueles não tem escrúpulos e continuam assim a cometê-los por muito tempo. (p.188-189)

A castidade é necessária para todos os estados. Segui em paz com todos – diz o apostolo – e a santidade sem a qual ninguém verá a Deus. Ora, é de notar que por santidade ele entende aqui a castidade…ninguém verá a Deus sem a castidade; em seus santos tabernáculos não habitará ninguém que não tenha o coração puro e, como diz Nosso Senhor… “Bem aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus”. (p.189)

Estejas sempre de sobreaviso para afastar logo de ti tudo que possa te inclinar a sensualidade; pois este mal se vai alastrando insensivelmente e de pequenos princípios faz rápidos progressos. Numa palavra, é mais fácil fugir-lhe que curá-lo. (p.189)

Nunca trates com pessoa de indubitáveis costumes corrompidos, sobretudo se forem também imprudentes, como quase o sempre o são…Ao contrário, procura a companhia de pessoas castas e virtuosas; ocupa-te muitas vezes com a leitura da Sagrada Escritura; porque a palavra de Deus é casta e torna castos os que a amam…se teu coração descansar em Nosso Senhor,que é realmente o Cordeiro imaculado, bem depressa purificarás tua alma, teu coração e teus sentidos, inteiramente, de todos os prazeres sensuais.  (p.191)

Discurso contra a avareza

Ninguém confessa que é avarento, todos aborrecem essa vileza do coração. Escusam-se pelo número crescido dos filhos, alegando regras de prudência, que exigem um fundo firme e suficiente. Nunca se tem bens demais e sempre se acham novas necessidades para ajuntar ainda mais. O mais avarento nunca crê em sua consciência que o é.  A avareza é uma febre esquisita, que tanto mais se torna imperceptível quanto mais violenta e ardente se torna. (p.193)

Se desejas com ardor e inquietação e por muito tempo os bens que não possuis, crê-me que és avarento, embora digas que não queres possuir injustamente; do mesmo modo que um doente que deseja beber um pouco d’água com ardor, inquietação e por muito tempo, esta mostrando com isso que tem febre, embora só queira beber água. (p.193)

Se amas os bens que possuis, se eles ocupam teu pensamento com ansiedade, se teu espírito anda sempre aí de envolta, se teu coração se apega a eles, se sentes um medo muito vivo e inquieto de perdê-los, crê-me que ainda estás com febre e o fogo da avareza ainda não estás extinto em ti; (p.194)

Não prendas o coração em bem algum teu; não te entristeças nunca das perdas que sobrevierem; (p.195)

Os bens que temos não nos pertencem e Deus, que os confiou à nossa administração, quer que os façamos frutuosos; é portanto, prestar um serviço agradável a Deus cuidar deles com diligência, mas este cuidado há de ser muito mais acurado e maior que o das pessoas do mundo, porque elas trabalham por amor delas mesmas e nós devemos trabalhar por amor de Deus. (p.196)

Quando nosso coração se prende aos bens, se a tempestade ou o ladrão…nos arranca alguma parte deles, que de prantos, que de aflições, quanta impaciência. Mas, quando lhes damos o cuidado que Deus quer que tenhamos e não o coração, se o perdemos, por acaso, de modo algum perderemos a razão e a tranqüilidade. (p.200)

A pobreza

Reserva frequentemente uma parte de teus bens para empregá-la em favor dos pobres. Dar um tanto do que se possui é empobrecer um outro tanto, e quanto mais se da tanto mais se empobrece. (p.197)

Se amas os pobres, deve ter gosto de te achares entre eles, de os ver em tua casa, de os visitar em suas casas, de falar com eles, de os ter perto de ti, na igreja, nas ruas, e em outras partes. Sê pobre ao falar com eles, conformando-te à sua linguagem, como um igual com seu igual; mas sê rico em lhe estender a mão, fazendo-os participar do que Deus te concedeu mais do que eles. (p.197)

Não te contente em ser pobres com os pobres, mas sê ainda mais pobres do que eles. E como assim? hás de perguntar-me. Já vou me explicar: não duvidas de certo que o servo é inferior ao seu dono; entrega-te, pois, ao serviço dos pobres; assiste-os junto ao leito e com tuas próprias mãos, se estão doentes; prepara-lhes a comida à tua própria custa… (p.198)

Nunca me sacio de admirar o zelo de São Luís, um dos maiores reis que o sol jamais viu; e um grande rei, digo, em todo o gênero das grandezas. Servia frequentemente à mesa dos pobres que alimentava e quase todos os dias mandava assentarem-se dois ou três a sua própria; muitas vezes comia o que os pobres deixavam, com um amor incrível por eles e por sua condição. Visitava amiúdo os hospitais e serviam de preferência aos enfermos que tinham uma doença mais asquerosa, como os leprosos, os ulcerosos…e era de joelhos e com a fronte descoberta que lhes prestava estes serviços, respeitando neles a pessoa de Nosso Senhor e amando-os com um amor tão terno como uma mãe a seus filhos….Bem aventurados os aqueles são assim pobres, porque o reino dos céus lhe pertence. Tive fome e me destes de comer, dir-lhe-ás o Rei dos pobres e dos reis no dia tremendo do juízo final. Estava nu e me vestistes; possui o reino que vos está preparado desde o começo do mundo. (p.198)

Tal é em geral a pobreza das pessoas que vivem no mundo; como não são pobres por própria escolha, mas por necessidade, não se faz caso delas e por isso a sua pobreza é mais pobre que a dos religiosos, conquanto esta tenha uma excelência e merecimentos particulares, em vista da escolha feita e do voto pelo qual se adstringem a ela. (p.203)

Não te envergonhes de ser pobre nem de pedir esmolas por amor de Deus; recebe com humildade o que te derem e sofre com mansidão o que te recusarem. (p.203)

Falsas amizades

O mais perigoso de todos os amores é a amizade, porque os outros amores podem afinal existir sem se comunicar; mas a amizade é fundada essencialmente nesta relação entre duas pessoas, sendo quase impossível que as suas boas e as suas más qualidades não passem de uma para outra. (p.208)

Com efeito, quantas moças, mulheres e jovens dizem com toda a seriedade: Na verdade aquele senhor tem um grande merecimento, porque dança,..sabe a fundo todos os jogos, canta…tem um gosto para a elegância de vestir-se,…Que juízos Filotéia! Deste modo julgam os charlatães entre eles que os maiores tolos são os homens mais perfeitos. Como tudo isso diz respeito aos sentidos, as amizades daí originárias se chamam sensuais e mais merecem o nome dum divertimento vão que amizade…Por isso, tais amizades passam e se desfazem logo como a neve sob a ação do sol. (p.205)

Estes namoros causam os mesmo estragos na alma, porque a ocupam de tal modo, e empucham tão poderosamente os seus movimentos, que ela fica inepta e inábil para qualquer obra boa: as folhas, isto é, as conversas, divertimentos e galanteios são tão freqüentes, que fazem perder todo o tempo. E finalmente atraem tantas tentações, distrações, suspeitas e outras conseqüências, que o coração fica todo pisado e corrompido. Numa palavra, estes namoros não só desterram o amor celestial, mas também o temor de Deus, enervam o espírito, fazem desvanecer a reputação…(p.209-210)

Também quanto às amizades é preciso muito cuidado, para não nos enganarmos, principalmente tratando-se de uma pessoa de sexo diverso, por melhores que sejam os princípios que nos unam a ela; pois o demônio tapa os olhos aos que se amam. Começa-se por um amor virtuoso; mas se não se tornarem precauções prudentes, o amor frívolo se vai misturando e depois vem o amor sensual e por fim o amor carnal. (p.214)

Cada um tem seus vícios de sobras e não precisa os dos outros; e a amizade não só não exige nada disso, mas até quer que nos auxiliemos mutuamente a corrigir os nossos defeitos. (p.222-223)

Boas amizades

Se for a religião, a devoção e o amor de Deus e o desejo da perfeição, o objeto de uma comunicação mútua e doce entre ti e as pessoas que amas, ah! então tua amizade é preciosíssima. E excelente, porque vem de Deus; excelente, porque Deus é o laço que a une, excelente, enfim, porque durará eternamente em Deus. (p.210)

Hás de ouvir talvez que não se deve consagrar afeto particular ou amizade a ninguém, porque isto ocupa por demais o coração, distrai o espírito e causa ciúmes; … Num mosteiro onde há fervor, todos visam o mesmo fim, que é a perfeição de seu estado, e por isso a manutenção das amizades particulares não pode ser tolerada aí, para precaver que, procurando alguns em particular o que é comum a todos, passem das particularidades aos partidos. Mas no mundo é necessário que àqueles que se entregam à pratica da virtude se unam por uma santa amizade, para mutuamente se animarem e conservarem nesses santos exercícios. (p.211-212)

Na religião os caminhos de Deus são fáceis e planos e os que aí vivem se assemelham a viajantes que caminham numa bela planície, sem necessitar de pedir a mão em auxílio. Mas os que vivem no século, onde há tantas dificuldades a vencer para ir Deus, se parecem com os viajantes que andam por caminhos difíceis, escabrosos e escorregadiços, precisando sustentar-se uns aos outros para caminhar com mais segurança. Não, no mundo nem todos tem o mesmo fim e o mesmo espírito e daí vem a necessidade desses laços particulares que o Espírito Santo forma e conserva nos corações que lhe querem ser fiéis. (p.212)

A perfeição, portanto, não consiste em não ter nenhuma amizade,mas em não ter nenhuma que não seja boa e santa. (p.213)

A verdadeira amizade não se pode conciliar com o pecado. (p.223)

Jejum

Se podes agüentar o jejum, fazes muito bem em jejuar um pouco mais do que a Igreja obriga, porque o jejum, além de elevar o espírito a Deus, reprime a sensualidade, facilita as virtudes e aumenta os merecimentos. (p.225)

As quartas-feiras, as sextas-feiras e os sábados foram sempre dias que os cristãos antigos tinham como dias de abstinência. (p.225)

O jejum e o trabalho abatem e enfraquecem a carne; se, pois, o teu trabalho é necessário e útil para a glória de Deus, prefiro que sofras o peso do trabalho que o do jejum. (p.226)

Temperança

Numa palavra, sobriedade moderada e constante é muito melhor que uma abstinência austera, mas repassada de intervalos de grande relaxamento. (p.228)

Tanto procurar quanto fugir a convivência com os homens são dois extremos censuráveis na devoção…o fugir é um sinal de orgulho e desprezo do próximo e o procurar é fonte de muitas coisas ociosas e inúteis… Se nada te obriga a fazer ou receber visitas, fica contigo mesmo e entretém-te com teu coração; mas, se algum motivo te impõe esses deveres, cumpre-os em nome de Deus, tratando o próximo com toda a amabilidade e caridade. (p.231)

A força da palavra

Um dos meios mais triviais que têm os médicos para conhecer o estado de saúde é a inspeção da língua; e eu posso afirmar que as nossas palavras são o indício mais certo do bom ou do mal estado da alma. Nosso Senhor disse: Por vossas palavras sereis justificados e por vossas palavras sereis condenados. (p.237)

Se amas a Deus, falarás frequentemente de Deus nas tuas conversas intimas, com as pessoas da casa, com teus amigos e vizinhos. (p.237)

Se alguém não peca por palavras, é um homem perfeito, diz São Tiago. Tem todo cuidado em não deixar sair de teus lábios alguma palavra desonesta, porque, embora não proceda duma má intenção, os que a escutam a podem interpretar de outra forma. (p.238)

Nós costumamos acusar o próximo pelas menores faltas por ele cometidas e a nós mesmos nos escusamos de outras muito grandes. Queremos vender muito caro e comprar o mais barato possível…Queremos que interpretem as nossas palavras benevolamente e com o que nos dizem somos suscetíveis em excesso….Queixamos facilmente de tudo e não queremos que ninguém se queixe de nós. Os benefícios ao próximo sempre nos parecem muitos, mas os que os outros nos fazem reputamos em nada. Numa palavra: nós temos dois corações,…um doce, caridoso e complacente para tudo que nos diz respeito e outro – duro, severo e rigoroso para com o próximo. (p.268-269)

A caridade

A caridade muito longe de ir observar o mal, teme até encontrá-lo, e se o encontra, procura evitá-lo, fazendo como se não o visse. Se ouve por alto falar de alguma coisa má, mais que depressa fecha os olhos e por sua santa simplicidade pensa que foi só uma sombra e aparência do mal. E se, coagida, tem que reconhecer a realidade dum mal, ela vira logo que pode os olhos par o outro lado e procura esquecê-lo. (p.242)

As nossas mínimas e mais insignificantes ações não lhe são menos agradáveis que as maiores e de maior brilho e que para lhe agradar é do mesmo modo necessário servir-lhe numas e noutras, podendo nós em ambas indistintamente merecer o seu amor. (p.264)

Faças tudo em nome de Deus e tudo será bem feito…em toda parte hás de merecer muito diante de Deus, se santificas bem a tua intenção de fazer tudo porque Deus quer que o faças. (p.267)

Maledicência

A inquietação, o desprezo do próximo e o orgulho são inseparáveis do juízo temerário; e, entre os muitos outros efeitos perniciosos que deles se originam, ocupa o primeiro lugar a maledicência, que é a peste das conversas e palestras. (p.247)

Nunca digas – Fulano é um bêbado, embora o tenha visto embriagado. Nem o chames adultero, por tê-lo visto neste pecado…porque uma só ação não da nome à coisa. (p.250)

Nunca podemos, pois, dizer que um homem é mau, sem perigo de mentir; o máximo que podemos dizer, se for necessário, é que cometeu tal ou tal ação má ou que tem levado uma vida má no passado…(p.251)

A regra de falar pouco, que os antigos sábios tanto recomendavam, não se toma no sentido de dizer poucas palavras, mas no de não dizer muitas inúteis, não quanto à quantidade, mas quanto à qualidade. (p.256)

Discurso contra os jogos

Os jogos de dados, de cartas e outros semelhantes, em que a vitória depende principalmente do acaso, não só são divertimentos perigosos, como a dança, mas são mesmo por sua natureza absolutamente maus e repreensíveis… Enfim, esses jogos só dão alegria, quando alguém ganha; e não será uma injusta uma alegria semelhante, que acarreta a perda e o desgosto do próximo? Na verdade uma tal alegria é indigna de um homem de bem. (p.258-259)

Discurso contra os bailes

1.Naquelas mesmas horas que passaste no baile, muitas almas se queimavam no inferno por pecados cometidos na dança ou por suas más conseqüências.

2.Muitos religiosos e pessoa piedosas nessa mesma hora estavam diante de Deus, cantando os seus louvores e contemplando a sua bondade; na verdade o seu tempo foi muito mais empregado que o teu!…

3.Enquanto dançavas, muitas pessoas se debatiam em cruel agonia, milhares de homens e mulheres sofriam dores atrocíssimas em suas casas ou nos hospitais. Ah! eles não tiveram um instante de repouso e tu não tiveste a menor compaixão deles; não pensas tu agora que um dia hás de gemer como eles, enquanto outros dançarão?!…

4.Nosso Senhor, a Santíssima Virgem, os santos e os anjos te estavam vendo no baile. Ah! quanto os desgostastes nessas horas, estando o teu coração todo ocupado com um divertimento tão fútil e tão ridículo.

5. Ah! enquanto lá estavas, o tempo se foi passando e a morte se foi aproximando de ti; considera que ela te chame para a terrível passagem do tempo para a eternidade e para uma eternidade de gozos ou de sofrimentos. (p.262)

A simplicidade de coração

Quantos as cruzes, é bom desejá-las somente na proporção e sob a condição de que saibas suportar bem aquelas que tens. É um absurdo desejar o martírio e não poder suportar uma pequenina injuria. O inimigo nos engana muitas vezes, inspirando-nos desejos para coisas grandes…a fim de afastar o nosso coração das presentes, que por menores que sejam, seriam para nós uma fonte abundantes de virtudes e merecimentos. (p.271)

O sacramento do matrimônio

Prouvera Deus que o seu Filho muito amado fosse chamado para todas as bodas como o foi para as de Caná; nunca faltaria o vinho das consolações e bênçãos. (p.273)

Se quereis maridos, que as vossas mulheres vos sejam fiéis, ensinai-lhes a lição com o vosso exemplo: Com que cara, diz São Gregório Nazianzeno, quereis exigir honestidade de vossas mulheres, se vós próprios viveis na desonestidade? Como lhes pedis o que não lhes dais? (p.277)

Mas vós, ó mulheres, cuja honra esta inseparavelmente aliada com a pureza e honestidade, conservai zelosamente a vossa glória,e  não permitais que nenhuma espécie de dissolução empane a brancura de vossa reputação. Temei toda a sorte de ataques, por pequenos que sejam: nunca permitais que andem em volta de vós os galanteios. (p.277)

A virgindade

Ah! então conservai com toda a delicadeza de consciência todo o vosso amor para este divino Esposo, que, sendo a própria pureza, nada ama mais do que a pureza…(p.294)

Não se deve fazer caso do que dizem os mundanos

Assim que a tua devoção se tornando conhecida no mundo, maledicências e adulações te causarão sérias dificuldades de praticá-la. (p.295)

Os teus amigos, por sua vez, se apressarão a te dar avisos que supõe ser caridosos e prudentes sobre:

– a melancolia da devoção,

-a perda de teu bom nome no mundo,

-o estado de tua saúde,

-o incomodo que causas aos outros,

-a necessidade de conviver no mundo conformando-se aos outros,

E, sobretudo, sobre os meios que temos para salvar-nos sem tantos mistérios. Tudo isso são loucas e vãs palavras no mundo e, na verdade, essas pessoas não tem um cuidado verdadeiro…de tua saúde: Se fosseis do mundo, diz Nosso Senhor, amaria o mundo o que era seu; mas como não sois do mundo, por isso ele vos aborrece.

Vêem-se homens e mulheres passarem noites inteiras no jogo; e haverá uma ocupação mais triste e insípida do que esta? Entretanto, seus amigos se calam;

Mas, se destinamos uma hora à meditação ou se levantamos mais cedo, para nos prepararmos para a santa comunhão, mandam logo chamar o médico,…

Podem se passar trinta noites a dançar, que ninguém se queixa;

Mas por levantar-se na noite de Natal para a Missa do Galo, começa-se logo a tossir e a queixar de dor de cabeça no dia seguinte. (p.295-296)

Quem não vê que o mundo é um juiz iníquo, favorável aos seus filhos, mas intransigente e severo para os filhos de Deus? (p.296)

Procedamos como quisermos, o mundo sempre nos fará guerra. Se nos demoramos um pouco mais no confessionário, perguntará o que temos tanto o que dizer; e, se saímos depressa, comentará que não contamos tudo. (p.297)

Demais, para assegurar os começos de nossa devoção, é muito bom sofrer desprezos e censuras injustas por sua causa; deste modo nós nos premunimos contra a vaidade e o orgulho…(p.298)

Diferença entre o sentir e o consentir

Uma tentação, embora durasse toda a nossa vida, não nos pode tornar desagradáveis à divina Majestade, se não vos agrada e não consentimos nela…(p.300)

Apesar da perturbação geral da alma e do corpo, sempre se conserva a firme resolução de não consentir nem no pecado nem na tentação…(p.302)

É preciso resistir às tentações

Recorre assim a Deus e implora o socorro de sua misericórdia: este é o meio que Nosso Senhor mesmo nos indica nas palavras: Orai, para não cairdes em tentação. (p.309)

É preciso vencer a inquietação

Se é pelo amor de Deus que a alma procura os meios de livrar-se de seus males, os procurará de certo com paciência e doçura, com humildade e tranqüilidade, esperando este favor muito mais da amabilíssima providencia de Deus do que de sua industria, meios e trabalhos. (p.316)

Não digo que o amor-próprio pense assim; mas age com se pensasse assim. Caso não se encontre imediatamente o que se deseja, torna-se irrequieto e impaciente; e, como essas inquietações, longe de aliviar o mal, o aumentam ainda por cima, a alma é dominada por uma grande tristeza, que, perdendo ao mesmo tempo a coragem e a força, faz com que os males cresçam sem remédio. (p.316)

É preciso permanecer sereno em todos acontecimentos

Cumpre-nos, pois, conservar, no meio de tamanha desigualdade de acontecimentos e acidentes, uma igualdade contínua e inalterável do coração e, de qualquer modo que as coisas variem e se movam ao redor de nós, nós permaneceremos sempre imóveis e fixos neste único ponto de nossa felicidade, que é ter somente a Deus em vista, ir a Ele e aceitar só de suas mãos todas as coisas. (p.322)

A verdadeira devoção é uma mudança de vida

A devoção não consiste nessa suavidade nem nas consolações sensíveis e nesse doce enternecimento do coração, que o excitam as lágrimas e aos suspiros e que tornam nossos exercícios espirituais uma ocupação agradável…a devoção e as doçuras não são a mesma coisa, porque muitas almas há que, sentindo essas doçuras, não renunciem a seus vícios e, portanto, não possuem um verdadeiro amor a Deus e muito menos uma verdadeira devoção. (p.324)

A secura espiritual

Muitas vezes estas esterilidades e securas se originam de nós mesmos.

Teu coração está cheio e saciado dos prazeres do mundo; que admira, pois, que não sintas gosto para as alegrias espirituais? (p.331)

Levantam-se às vezes grandes tentações no meio das securas e esterilidades do espírito e aqui é necessário distinguir bem; porque as tentações, posto que não podem vir de Deus, devemos combatê-las continuamente; mas as securas espirituais que, segundo o plano de Deus, nos devem servir de exercício, cabe-nos sofrer com paciência. (p.338)

O coração só repousa em Deus

Ah! com demasiada ânsia vai o nosso coração atrás dos bens criados, persuadido de achar neles a satisfação dos seus desejos; mas assim que os saboreia, reconhece a impossibilidade. Deus não quer que ele ache repouso em parte alguma, como a pomba que saiu da arca de Noé, para que volte a seu Deus, de que se tem afastado. (p.354)

Viver sem vícios

Os vícios lançam (a alma) num abatimento e desolação deploráveis… Quem se dá ao vicio não vive feliz. (p.355)

O exemplo dos santos

Considera os milhares de santos confessores; com que força de espírito desprezaram o mundo! Que invencível foi a sua firmeza! nada conseguiu quebrá-la. Abraçaram sem reserva as suas resoluções e as mantiveram se exceção. (p.356)

O amor de Deus

Não duvidemos; o bom Jesus, que nos regenerou na cruz, nos leva em seu Coração…Considera o amor eterno que Deus tem tido por nós. (p.358-359)


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