Biografia dos Santos

São João da Cruz – Doutor da Igreja

Posted on: abril 17, 2010


São João da Cruz – Biografia – Cartas Completas

O Carmelo

A primeira experiência carmelitana não é positiva. Frei João não encontra o que esperava: o clima não favorece a vida interior, o Carmelo sofre a crise do burguesismo, que prejudica as Ordens religiosas. No fim dos estudos de teologia, pensa em ingressar na Cartuxa, em busca de um estilo de vida mais evangélico e favorável à sua exigência de santidade. O encontro com Teresa no outono de 1567 resolve este dilema angustiante:iniciar dentro da Ordem um movimento de reforma que vise instaurar a vida contemplativa como ideal principal do Carmelo. João é um Carmelita convicto, ama a Ordem, por isso aceita plenamente a idéia de Madre Teresa…No ambiente carmelitano, João dá o melhor de si mesmo, e recebe a formação necessária para dar início à reforma entre os frades.(p.15)

A Bíblia

São João da Cruz,…conhecia a Bíblia, amava-a de coração e sabia se movimentar com facilidade pelo mundo bíblico. Mais que um erudito é um apaixonado pela palavra de Deus.(p.16).

Escritor

Quando sobra tempo e sente necessidade torna-se escritor. A maioria dos que entram em contato com os escritos de São João da Cruz, são levados a considerá-lo um escritor profissional, no entanto sua atividade é breve, 8 anos, de 1578 a 1586…É no sofrimento e na marginalização mais dura que nasce o Frei João, poeta e escritor…João da Cruz não está preocupado em terminar suas obras:três, dos quatro escritos principais, ficarão para sempre incompletos, não por falta de tempo, mas por falta de inspiração.(p.20).

Místico

Não há dúvida de que São João da Cruz é um dos maiores místicos de todos os tempo…Ele foi alguém que não só teve uma experiência forte da presença de Deus, mas também ajudou outros a iniciar o caminho da aventura da fé…Ao longo de seus escritos, encontramos conselhos, avisos, que evitam ao ‘principiante’ perder tempo precioso na busca de Deus.(p.21).

Teólogo

Normalmente podemos correr o risco de colocar em oposição a teologia e a mística. É um erro que deve ser evitado. João da Cruz é um teólogo e um grande teólogo…Possui uma visão sistemática e completa da história da salvação.(p.21).

Quadro cronológico(p.8-14)

1542 – Nascimento em Fontiveros(Ávia), em data desconhecida. Filho de Gonzalo de Yepes e Catalina Álvarez. São três irmãos: Francisco, Luís e João.

1545-1551 – Infância pobre e difícil: Quando morre o pai, a família emigra para Torrijos e não encontrando melhores condições de vida, volta a Fontiveros. Luís, o segundo dos irmãos, morre. Em 1551 fixam residência em Arévalo.

1551-1559 – Ocupou-se nos ofícios de carpinteiro, pintor, entalhador; acólito na igreja da Madalena.

1559-1563 – Estuda humanidades no colégio dos Jesuítas.

1563 – Recebe o hábito religioso dos Carmelitas, chamado Frei João de São Matias.

1564 – Entre o verão e o outono faz sua profissão religiosa.

1567- Ordenado sacerdote em Salamanca, provavelmente em julho; reza sua primeira missa em Medina, provavelmente em agosto, acompanhado de sua mãe. Setembro/outubro: Encontra-se pela primeira vez com Santa Teresa, em Medina, que o conquista para dar início à sua Reforma entre os frades.

1568 – Terminados seus estudos em Salamanca, volta a Medina; mantém colóquios com Santa Teresa; parte com ela rumo a Valladolid no dia 9 de agosto para a fundação das descalças e permanece lá até outubro, informando-se detalhadamente da nova vida reformada; no início de outubro vai a Duruelo(Ávila) para preparar uma ‘alquería’ para o primeiro convento descalço, e no dia 28 de novembro, primeiro domingo do Advento, inaugura nele a vida reformada de Carmelitas Descalços.

1569-1572- Formador dos descalços

1572 – Fim de maio, chega a Ávila a pedido de Santa Teresa, como confessor e vigário do Mosteiro de Carmelitas da Encarnação, onde ela é priora.

1574 – …no dia 19 de março inauguram a fundação de Descalças, regressando a Ávila no fim do mês.

1575-1576 – …Os Calçados de Àvila levam-no prisioneiro a Medina, mas logo é libertado e restituído ao seu cargo por intervenção de Núncio.

1577-1578 – Encarcerado em Toledo – Na noite do dia é aprisionado e tirado violentamente de sua casinha da Encarnação de Ávila, e entre o dia 4 e 8 é levado ao Convento dos Descalços de Toledo, onde fica recluso no cárcere conventual durante oito meses; ali compõe seus primeiros poemas místicos.

1578 – Durante a oitava as Assunção, por volta das duas ou três horas, provavelmente no dia 17, foge do cárcere conventual se refugiando de dia no convento das Descalças. O resto do mês de agosto e todo o mês de setembro, fica escondido na casa do Sr.Pedro González de Mendoza.

1578-1588- Superior de Andaluzia

1578- No início de outubro encontra-se em Almodóvar, onde participa do Capítulo dos Descalços, que começa no dia 9, e é eleito Vigário do Convento do Calvário(Jaén); de passagem para esta casa se detém em La Peñuela e nas Descalças de Beas; no início de novembro toma posse de seu cargo que durará sete meses e meio.

1580 – morre em Medina a mãe do santo.

1585 – No dia 17 de fevereiro inaugura a fundação de Descalças em Málaga;

1591 – Últimos sofrimentos e morte

Junho – do Capítulo de Madri sai sem nenhum cargo…o abandono e uma surda perseguição caem sobre ele.

10 de agosto – Chega como súdito a La Peñuela; um mês depois aparecem nele ‘umas pequenas calenturas’ que nunca mais cedem;

28 de setembro – Vai doente para Úbeda(Jaén), onde passa os últimos meses de sua vida.

Dezembro – à meia-noite de 6ª feira, 13, ao sábado, 14, morre santamente em Úbeda aos 49 anos de idade.

1675 – Aos 25 de janeiro é beatificado pelo Papa Clemente X

1726 – O Papa Bento XIII o canoniza aos 27 de dezembro.

1926 – Pio XI, o Papa Carmelitano, proclama-o Doutor da Igreja, chamando-o Doutor Místico, no dia 24 de agosto.

1952 – É proclamado Padroeiro dos poetas espanhóis, aos 21 de março.

Fonte: São João da Cruz . Obra cCompletas. 2002. Vozes.

Biografia feita pela Ordem Carmelita

Dizem que a santidade está de mãos dadas com a loucura. Se existe uma “sã loucura” esta é própria dos santos, que toma dos “loucos normais” a contradição que os caracteriza. Neles, aquilo que parece inconciliável encontra feliz conexão. Os radicais, no sentido de penderem por um único lado da balança da vida, são os homens comuns, ora rastejantes sobre a terra, alienados das coisas do alto, ora perdidos nas realidades do alto, alienados das coisas da terra. Os santos não. Destes tudo se pode esperar, são imprevisíveis, admiravelmente terrenos, surpreendentemente divinos!

São João da Cruz é um emblema deste tipo de homem.

Vivido entre 1542 e 1591 na Espanha, sua vida é marcada, por um lado, pela dor infligida-lhe pela dura realidade externa, e por outro pela alegria da descoberta crescente de uma vasta e luminosa realidade interior.

Órfão de pai aos 3 anos, João de Yepes – seu nome civil – prova o esforço da mãe que procura corações benevolentes a garantir-lhe a sobrevivência. Na adolescência pode trabalhar e estudar.

Aos 21 anos faz-se religioso carmelita, mas sofre a angústia de não poder viver ali como queria, e sonha com a austeridade e o silêncio monástico dos cartuxos.

No ano em que se ordena sacerdote, em 1567, encontra-se com Santa Teresa, que o conquista para a sua obra de reforma entre os frades. No ano seguinte, em 1568, torna-se o primeiro carmelita descalço, assume o novo nome de João da Cruz e vive momentos de indescritível felicidade, num casebre perdido da zona rural de Ávila. A partir daqui empenha-se, até o fim da vida, em diversas tarefas entre os carmelitas descalços que vêem-se em ligeira expansão. Sua missão somente é interrompida pela perseguição dos padres da Ordem Carmelitana, que o escolhem como vítima do conflito gerado pelo crescimento dos descalços. Durante 9 meses, entre 1577 e 1578, é encarcerado no convento da cidade de Toledo. No meio de um sofrimento físico e moral somente imaginável por quem passou pela dura realidade da prisão, brotam do seu coração as mais belas poesias místicas já escritas, que revelam a experiência de um Deus que se faz prisioneiro do nosso amor.

Terminado o tempo da prisão, retoma suas atividades, até o ano de 1591, quando, em meio a uma surda perseguição dos seus próprios superiores, alegra-se por ver aproximar-se o almejado momento de poder ver rompida a tênue tela que o separava do seu divino amado.

São João da Cruz deixou-nos escritos de maravilhosa profundidade de vida espiritual. Seus escritos revelam a densidade de vida que ele mesmo viveu, e constitui doutrina insuperável, pela originalidade das considerações, a respeito do itinerário da vida cristã, desde seus primeiros passos às mais altas realizações nesta vida. A forma que envolve o conteúdo dos ensinamentos do místico doutor, é de igual modo, plena de beleza poética, pois somente a poesia é capaz de expressar sentimentos e realidades indizíveis.


Além das cartas, de pensamentos e ditos e outros escritos menores, São João da Cruz deixou-nos quatro grandes escritos que interrelacionam-se e onde desenvolve o dinamismo que toda pessoa humana é chamada a percorrer em sua relação com Deus. Tais obras são: Subida do Monte Carmelo, Noite escura, Cântico espiritual e Chama viva de Amor. As duas primeiras obras acentuam a purificação como passagem e caminho que concretiza a união, purificação que envolve atitudes que têm por protagonismo ora a pessoa que responde à graça, ora Deus mesmo que, aos passos da pessoa, toma o processo em suas mãos. As outras obras, ainda que tocando a realidade da purificação, centram sua atenção na vivacidade do amor que tudo pervade e nas consequências positivas da união com Deus, ideal último para o qual todos nós fomos criados.

O centro de tudo é sem dúvida o amor: força propulsora do processo, objeto de purificação que consiste em concentrar toda a sua força para Deus, fim e ideal do caminho. A união com Deus é união de amor com aquele que é amor. Ordenado para Deus, nosso amor recupera sua veemência, sua característica de força e movimento, afinal o amor é forte como a morte e sua medida é ser sem medida. Tão infinito como Deus é o amor, e, do mesmo modo como ele nos amou, à loucura, quando o amamos, somos levados a cometer por ele loucuras de amor. “Com ânsias de amores inflamada”, diz um trecho de uma sua poesia, é assim que a alma caminha em seu caminho com Deus e para Deus. Amando assim, este santo carmelita tornou-se, sem dúvida, um louco, louco de paixão por Deus, e nenhum de nós que dele se aproxima e por ele deixa-se guiar, pode deixar de almejar a mesma loucura, de um mesmo amor.

Frei César Cardoso de Resende, ocd

Fonte: http://www.carmelo.com.br/default.asp?pag=p000113


Biografia de São João da Cruz, pelo Papa João Paulo II

MESTRE NA FÉ
DO SUMO PONTÍFICE PAPA
JOÃO PAULO II

Introdução

1. Maestro en la fe y testigo del Dios vivo, san Juan de la Cruz se hace presente en la memoria de la Iglesia, particularmente hoy, al celebrarse el IV Centenario de su tránsito a la gloria, que tuvo lugar el 14 de diciembre de 1591, cuando desde su convento de Úbeda fue llamado a la casa del Padre.

1. Mestre na fé e no testemunho do Deus vivo, São João da Cruz se faz presente na memória da Igreja, especialmente hoje, ao comemoramos o quarto centenário de sua passagem para a glória, que teve lugar em 14 de Dezembro 1591, quando a partir do convento de Ubeda foi chamada à casa do Pai.

Es un gozo para toda la Iglesia comprobar los frutos abundantes de santidad y sabiduría que este hijo suyo sigue dando con el ejemplo de su vida y la luz de sus escritos. É uma alegria ver a Igreja abundantes frutos de santidade e de toda a sabedoria que seu filho continua com o seu exemplo de vida e luz dos seus escritos. En efecto, su figura y sus enseñanzas atraen el interés de los más variados ambientes religiosos y culturales, que en él hallan acogida y respuesta a las aspiraciones más profundas del hombre y del creyente. Abrigo, pues, la esperanza de que esta celebración jubilar sirva para dar más realce y difusión a su mensaje central: la vida teologal en fe, esperanza y amor.

É uma alegria para toda a Igreja comprovar os frutos abundantes de santidade e sabedoria que este seu filho continua fornecendo com o exemplo de sua vida e a luz dos seus escritos. Com efeito, sua figura e seus ensinamentos atraem o interesse dos mais diversos ambientes religiosos e culturais que nele encontram acolhida e resposta às mais profundas aspirações do homem e do fiel. Acolho, portanto, a esperança de que esta celebração jubilar sirva para dar mais destaque e difusão à sua mensagem central: a vida teologal na fé, esperança e no amor.

Este mensaje, dirigido a todos, es herencia y tarea apremiante para el Carmelo Teresiano que, con razón, lo considera padre y maestro espiritual. Su ejemplo es ideal de vida; sus escritos son tesoro a compartir con cuantos buscan hoy el rostro de Dios; su doctrina es también palabra actual, en especial para España, su patria, cuyas letras y nombre honra con su magisterio de alcance universal.

Esta mensagem dirigida a todos, é herança e tarefa urgente para o Carmelo Teresiano que, com razão, o considera pai e mestre espiritual. Seu exemplo é um ideal de vida; seus escritos são tesouros a compartilhar com quantos buscam hoje o rosto de Deus. Sua doutrina é também palavra atual, em especial para a Espanha, sua pátria, cujas letras e nome honra com seu ensino de alcance universal.

2. Yo mismo me he sentido atraído especialmente por la experiencia y enseñanzas del santo de Fontiveros. Desde los primeros años de mi formación sacerdotal encontré en él un guía seguro en los senderos de la fe. Este aspecto de su doctrina me pareció de importancia vital para todo cristiano, particularmente en una época como la nuestra, exploradora de nuevos caminos, pero también expuesta a riesgos y tentaciones en el ámbito de la fe.

Eu me senti particularmente atraído pela experiência e os ensinamentos do Santo de Fontiveros. Desde os primeiros anos da minha formação sacerdotal encontrei nele um guia seguro no caminho da fé. Este aspecto de sua doutrina parece vital para todo cristão, especialmente numa época como a nossa, exploradora de novos caminhos, mas também expostas a riscos e tentações no âmbito da fé.

Mientras continuaba aún vivo el clima espiritual suscitado por la celebración del IV Centenario del nacimiento del santo carmelita (1542-1942) y Europa renacía de sus cenizas, tras haber experimentado la noche oscura de la guerra, elaboré en Roma mi tesis doctoral en Teología acerca de La fe según san Juan de la Cruz [1] . En ella analizaba y destacaba la afirmación central del doctor místico: la fe es el medio único, próximo y proporcionado para la comunión con Dios. Ya entonces intuía que la síntesis de san Juan de la Cruz contiene no solamente una sólida doctrina teológica sino, sobre todo, una exposición de la vida cristiana en sus aspectos básicos como son la comunión con Dios, la dimensión contemplativa de la oración, la fuerza teologal de la misión apostólica, la tensión de la esperanza cristiana.

Enquanto continuava ainda vivo o clima espiritual suscitado pela celebração do IV Centenário do nascimento do santo carmelita(1542-1942) e a Europa renascia de suas cinzas, depois de ter experimentado a noite escura da guerra, elaborei em Roma minha tese de doutorado em Teologia acerca da fé segundo São João da Cruz.  O estudo analisou e destacou a afirmação central do doutor místico: a fé é o único meio, próprio e adequado para a comunhão com Deus.

Percebi então que a síntese de São João da Cruz contém não só uma sólida doutrina teológica, mas, sobretudo, uma exposição da vida cristã em seus aspectos básicos, como são: a comunhão com Deus, a dimensão contemplativa da oração, a força teológica da missão apostólica, a tensão da esperança cristã.

Durante mi visita a España, en noviembre de 1982, tuve el gozo de exaltar su memoria en Segovia, ante el sugestivo escenario del acueducto romano, y venerar sus reliquias junto a su sepulcro. Pude proclamar de nuevo allí el gran mensaje de la fe, como esencia de su enseñanza para toda la Iglesia, para España, para el Carmelo. Una fe viva y vigorosa que busca y encuentra a Dios en su Hijo Jesucristo, en la Iglesia, en la belleza de la creación, en la oración callada, en la oscuridad de la noche y en la llama purificadora del Espíritu [2] .

Durante a minha visita à Espanha em novembro de 1982, tive a alegria de celebrar sua memória em Segovia, com a sugestiva paisagem do aqueduto romano, e venerar suas relíquias junto a seu sepulcro. Pude proclamar de novo lá a grande mensagem da fé, como essência de seus ensinamentos para toda a Igreja, para a Espanha, para o Carmelo. Uma fé viva e vigorosa que busca e encontra a Deus em seu Filho Jesus Cristo, na Igreja, na beleza da criação, na oração silenciosa da noite e na chama purificadora do Espírito Santo.

3. Al celebrar ahora el IV Centenario de su muerte es conveniente, una vez más, ponerse a la escucha de este maestro. Por una feliz coincidencia se hace nuestro compañero de camino para este período de la historia, en los umbrales del año 2000 cuando acaban de cumplirse los 25 años de la clausura del Concilio Vaticano II, que impulsó y favoreció la renovación de la Iglesia en lo que se refiere a pureza de doctrina y santidad de vida. “A la Iglesia -afirma el Concilio- toca hacer presentes y como visibles a Dios Padre y a su Hijo encarnado, con la continua renovación y purificación propias bajo la guía del Espíritu Santo. Esto se logra principalmente con el testimonio de una fe viva y adulta, educada para poder percibir con lucidez las dificultades y poderlas vencer” [3] .

Ao celebrar agora o quarto centenário de sua morte é desejável, uma vez mais, por-se a escutar este mestre. Por uma feliz coincidência, ele se torna nosso companheiro de caminho para esse período da história, no limiar do ano 2000, quando acabam de se cumprir os 25 anos do encerramento do Concílio Vaticano II, que promoveu e encorajou a renovação da Igreja, no que se refere a pureza da doutrina e a santidade de vida. “À Igreja”, afirma o Conselho, cabe fazer presente e visível a Deus-Pai e seu Filho encarnado, com a constante renovação e purificação própria, sob a orientação do Espírito Santo. Isto se alcança principalmente por meio do testemunho de uma fé viva e adulta, educada para poder perceber com clareza as dificuldades e poder vencê-las. ” [3] .

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_letters/documents/hf_jp-ii_apl_19901214_juan-de-la-cruz_sp.html

Biografia de São João da Cruz por Edith Stein

No caso de são João da Cruz ser levada em conta uma terceira circunstância:ele foi um artista por natureza. Entre os vários ofícios e artes que experimentou quando rapaz, figuram o de entalhador de madeira e o de pintor…(p.13)o senso artístico de São João da Cruz revelou-se em sua tenra infância. Nem faltam provas que testemunhem sua precoce escolha do caminho da santidade. Sua mãe contou mais tarde às Carmelitas Descalças de Medina Del Campo que seu filho, quando criança, se comportava como um anjo. Essa mãe piedosa inspirou-lhe um profundo amor à Maria, a Mãe Santíssima, e sabemos por fontes seguras que, por duas vezes, o menino foi salvo de afogamento por intervenção pessoal de Maria. Tudo quanto sabemos de sua infância e adolescência indica que, desde os primeiros anos de vida, foi ele um predileto da graça divina.(p.15).

João deve ter encontrado o Crucifixo também nas oficinas onde trabalhava. Talvez tenha tentado esculpir crucifixos, como se comprazerá em fazê-lo mais tarde. Embora o que foi dito dependa de muitas conjeturas, temos fortes razões para admitir um precoce encontro de João com a cruz, por seu manifesto amor à penitência e à mortificação. Ainda menino de nove anos, troca, com desdém, a comodidade de seu leito pela dureza de gravetos. Anos mais tarde, passa a dormir apenas poucas horas nessa dura enxerga, porque parte da noite é dedicada ao estudo. Quando pequeno, ainda escolar, pedia esmola em favor de colegas ainda mais pobres; fará o mesmo mais tarde para os pobres do hospital. Após muitas experiências malsucedidas em outras profissões, resolve dedicar-se ao árduo serviço de enfermeiro….ainda animado por esse mesmo desejo, não se contentou com a observância mitigada da Ordem Carmelita de então, devotando-se à reforma do Carmelo.(p.18).

…É costume dos Carmelitas estudarem diariamente a Escritura.(p.18).

O pequeno João assistia às funções litúrgicas da Semana Santa, das quais participava como coroinha. Ora, no Domingo de Ramos e em toda a Semana Santa, a liturgia coloca diante dos olhos dos fiéis, com impressionante realismo, os últimos dias de Jesus, sua morte e sepultamento, em textos e melodias comoventes…se pessoas de coração frio e até mesmo incrédulos e mundanos não conseguem ficar indiferentes, como não teria o jovem santo sentido um profundo efeito.(p.20)

Primeira Missa

A primeira Missa por ele celebrada foi no Convento de Sant’ana em Medina Del Campo, em setembro de 1567, na oitava da natividade de Nossa Senhora. Estavam presentes sua mãe e seu irmão mais velho, Francisco, com sua família. Um santo temor o havia levado a recusar a dignidade sacerdotal; somente a obediência às ordens de seus superiores o fez vencer os escrúpulos. A convicção de sua indignidade se fez sentir vivamente ao iniciar a celebração. Despertou-lhe o desejo ardente de ser inteiramente puro, para com as mãos imaculadas tocar o Santíssimo. Do íntimo de seu coração, formula o pedido para que Deus o preserve de ofendê-lo mortalmente.(p.25).

Visões

O crucificado lhe aparecia frequentemente em visões…em sua doutrina, João declara que as visões, locuções e revelações são de pouca importância para a vida mística. Neste particular, ele sempre chamou a atenção para o perigo da ilusão, se alguém atribuir muita importância a esses fenômenos. Tal fato consistiria num obstáculo ao caminho da união…O fato de se ter manifestado sobre as duas visões evidencia sua importância especial. Ambas foram seguidas de verdadeira fúria de perseguições e sofrimentos…A primeira aparição deu-se em Ávila, no Convento da Encarnação, para onde o chamou santa Teresa, a fim de assumir o múnus de confessor das monjas. Imerso, um dia, na contemplação dos sofrimentos na cruz, apresentou-se-lhe visivelmente o Cristo crucificado, coberto de chagas e inundado de sangue. Tão viva e real foi a aparição que o Santo voltando a si, conseguiu fixá-la num desenho a bico-de-pena.

A segunda aparição ocorreu em Segóvia e data do fim de sua vida…”Tínhamos no Convento um crucifixo. Um dia, ao deter-me diante dele, pareceu-me ser mais indicado colocá-lo na Igreja, porque desejava que fosse venerado não só pelos frades, mas também pelos traunsentes. Pus-me a realizar a minha idéia. Colocando-o na igreja, encontrei-me um dia diante dele em oração, quando ele me disse: ‘Frei João, podes fazer-me um pedido em troca do serviço que tens prestado! Respondi: ‘Senhor o que te peço são sofrimentos que teria de suportar por ti, e que eu seja desprezado e desdenhado por ti.’…E foi o que aconteceu. João não foi nomeado para cargo algum – mandaram-no para a solidão de La Peñuela. Foi aí que soube das pressões sofridas pelas carmelitas:foram submetidas a interrogatórios, a fim de se colherem acusações contra João da Cruz. Procuravam-se motivos para expulsá-lo da Ordem. Não muito depois, em virtude da última doença, João foi obrigado a deixar La Peñuela, onde não havia recursos médicos. Assim, chega a última estação de sua via-crucis – a cidade de Ubeda. Coberto de feridas e fraco, chega a esse lugar onde encontra o prior, Pe. Francisco Crisóstomo, seu feroz adversário, que se incumbiu de maltratá-lo de todos os modos. Assim, João atingiu o cume do Gólgota, satisfeitos seus desejos de tratos aviltantes.(p.28).

A defesa da fé o faz sofrer

Uma tarde, por volta do ‘Angelus’, João saiu, em Ávila, da igreja conventual onde acabara de ouvir confissões e dirigiu-se pelo caminho costumeiro à casinha que ocupava seu companheiro, Pe. Germano. Foi então que se arremeçou contra ele um homem, espancando-o de tal forma que o deixou jogado no chão – foi a vingança de um amante a quem arrebatara sua presa.  Ao narrar o ocorrido, João acrescentou que nunca sentira na vida tão doce consolação: fora tratado como o próprio Cristo e experimentara a doçura da cruz.(p.29).

Torturas e sofrimentos

Na noite de 4 de dezembro de 1577, alguns carmelitas calçados, acompanhados de seus simpatizantes, entraram na residência dos dois confessores do Convento e os levaram presos. Deste momento em diante João esteve desaparecido. Santa Teresa soube que fora o prior Maldonado quem o raptara. Mas o seu paradeiro só foi conhecido nove meses tarde, após sua volta à liberdade. De olhos vendados, João foi conduzido, através dos subúrbios da cidade, ao Convento de Nossa Senhora de Toledo…Submeteram-no a interrogatórios e, como se recusasse a renunciar à Reforma, trataram-no como rebelde. Sua prisão era um cubículo de cerca de 3m de comprimento por 2m de largura, ‘no qual, embora fosse de estatura baixa, mal podia ficar em pé”, como nos relata Teresa. Na cela não havia janela ou orifício por onde entrasse o ar, exceto uma pequena fresta bem no alto da parede…de início era levado ao refeitório todas as tardes; posteriormente, três vezes por semana, enfim, somente às sexta-feiras…No refeitório, era-lhe também aplicada a disciplina. Ajoelhado, descoberto..recebia açoite de todos. Como suportasse tudo com paciência e amor, chamaram-no de covarde…Seu hábito ficava ensopado de sangue pelas flagelações, mas ele tinha de tornar a vesti-lo e usá-lo durante os nove meses de prisão. (p.31).

Noite escura

Quando afirma que nunca experimentara tanta luz e consolo sobrenaturais quanto no cárcere, temos de reconhecer que ele já havia ultrapassado as graças ligadas aos sofrimentos. Os versos da noite escura e do Cântico espiritual, compostos na prisão, testemunham a sua beatificante união com Deus. A cruz e a noite são o caminho para a luz celeste – eis a jubilosa mensagem da cruz. (p.33).

Sabedoria da Cruz

Manter sempre vivo o desejo de imitar a Cristo, vivendo conforme sua vida….renunciar a qualquer prazer que se ofereça aos sentidos e até afastá-lo de si, caso não contribua para a honra e glória de Deus.

“não queirais desejar nada além da cruz, sem qualquer consolação, porque isso é em verdade perfeito”.(p.223). São João da Cruz

“Quanto maiores e mais pesados os fardos, tanto melhor recompensa para quem os carrega”. (p.228).São João da Cruz

Um dia aconteceu que, em presença do Santo, uma irmã se pronunciou em termos desfavoráveis a um leigo que era hostil ao convento. Recebeu, então, o seguinte conselho: Nesse caso, vós e as demais deveis acolhê-lo com maior afabilidade; deste modo vos tornareis discípulas de Cristo”. E acrescentou: “É mais fácil suportar uma pequena amargura nessa ocasião, e encomendar esse homem a Deus que dobrar a amargura cedendo à vontade em tais sentimentos contra o próximo.(p.228-229).

Vida de São João da Cruz

O amor aos doentes, os membros sofredores de Jesus Cristo, acompanhou-o a vida inteira…limpava-lhes os vasos e não permitia que por falta de recursos fossem removidos aos hospitais. “Repreendia com severidade quaisquer negligências nesse ponto”.(p.231).

João tudo fazia com admirável serenidade e gravidade, escreve padre Eliseu dos Mártires. Seu trato e conversa eram agradáveis, muito espirituais e proveitosos para os que o ouviam e com ele se abriam. Nisto foi ele tão singular e profícuo, que os que se aproximavam dele, homens ou mulheres, voltavam espiritualizados, devotos e afeiçoados à virtude….era perseverante na oração…(p.239)

João era coerente consigo, e mesmo quando superior, foi pela bondade delicada que conquistou os corações. Quando necessário repreendia, mas só com mansidão e amor paterno.(p.245).

No dia 22 de setembro de 1591, monta o burrico que um amigo pôs à sua disposição e dá início a última viagem de sua vida. É realmente uma jornada de sofrimentos. Sua perna enferma dói como se estivesse para ser amputada. E esta era a razão de seu sofrimento:começou por inchar-se a perna e depois se abriram sucessivamente cinco feridas purulentas, que lhe davam motivo para esta oração: “Muito vos agradeço, meu Senhor Jesus Cristo, por me concederdes numa só perna as cinco chagas que trazíeis nos pés, nas mãos e no peito. ..e não se queixava de modo algum entre as maiores dores.(p.250)

No dia 13 de setembro, perguntou qual o dia da semana: ao saber que Ra uma sexta-feira, ao correr do dia indagou por várias vezes a hora, pois esperava rezar Matinas no Céu.  Nesse último dia de sua vida manteve-se ainda mais quieto e recolhido que antes.(p.254)

…E de repente, durante a recitação dos salmos, viu brilhar uma esfera luminosa entre o teto e a extremidade do leito…e no momento em que o Santo expirou, viu subitamente o leito circundado de clarão luminoso.(p.256).

Nem mesmo para com seus inimigos emprega palavras ásperas: o que eles lhe fazem, considera obra de Deus.(p.242).

Sabedoria da fé

Durante o capítulo realizado em Lisboa, muitas pessoas, mesmo padres austeros, iam visitar uma religiosa cujos estigmas atraíam grande atenção e guardavam como relíquias pedacinhos de pano embebido no sangue dos estigmas. João não deu atenção ao caso nem visitou a religiosa. Mais tarde, em Granada, ao lhe perguntarem durante o recreio se havia visto a estigmatizada, respondeu: “Não a vi, nem desejo vê-la, pois muito me pesaria se minha Fé precisasse contemplar tais coisas para crescer um pouco…”(p.241).

Diretores espirituais falhos

Quantas vezes Deus está unindo a si a alma contemplativa por meio da união delicadíssima do conhecimento amoroso, sereno, pacífico, solitário…e chega um diretor espiritual que não sabe mais que martelar e malhar as faculdades, como ferreiro e…dirá: “Ande, deixe-se desses repousos que são ócio e perda de tempo…” Falta a essa espécie de diretores o necessário conhecimento; “apesar disso, metem suas mãos grosseiras em coisa que não entendem e não a deixam para quem entenda.(p.245).

Procure sempre inclinar-se

Não ao mais fácil, e sim ao mais difícil;

Não ao mais saboroso, e sim ao mais insípido;

Não ao mais gostoso, mas ao que dá menos gosto;

Não ao repousante, mas ao trabalhoso;

Não ao que consola, mas ao desconsolo;

Não ao mais, e sim ao menos;

Não ao mais alto e precioso, mas ao mais baixo e desprezível;

Não ao querer alguma coisa, mas ao nada querer;

Não ao andar buscando o melhor das coisas temporais, mas o pior e desejar entrar em toda..pobreza de tudo quanto há no mundo, por amor de Cristo.

(p.48-49).

Biografia do Carmelo Teresiano – parte 2

Recordemos brevemente as etapas de sua vida até o momento de seu encontro com Santa Teresa no locutório de Medina del Campo, para logo seguir seus passos no seio da nascente Ordem.

Após uma infância serena e feliz (a escassez de meios econômicos não impediu dona Catarina de dar a seus filhos pão e carinho), João entra na adolescência habituado já ao trabalho e a colaborar nas tarefas domésticas ou em qualquer outro afazer necessário para o sustento, pois se “pouco se ganha fiando, menos ainda olhando”.

Buscando seu lugar na vida, foi logo mudando de patrão e de ofício sempre que se lhe apresentava uma oportunidade melhor, como é próprio de todo jovem empreendedor e inteligente, até que, graças ao apoio de Alonso Alvarez de Toledo, diretor do Hospital da Conceição, encontrou a maneira de conjugar o trabalho com o estudo. Dos 17 aos 21 anos freqüentou o Colégio da Companhia em Medina e nessa escola de humanidades e de virtude amadureceu sua vocação religiosa.

Não sabemos quais foram as circunstâncias externas que levaram João ao noviciado dos Carmelitas em 1563, porém, não é difícil adivinhar, à luz da história posterior, que foi a Providência divina que guiou seus passos até o Carmelo, onde tinha-lhe preparada a senda definitiva para o resto de sua vida.

Terminado o noviciado, foi para Salamanca para completar seus estudos, cursando três anos de Artes e um de Teologia na célebre Universidade.

Pouco sabemos também de seus primeiros anos de vida religiosa. Estão caracterizados por uma busca intensa de Deus, na oração e na penitência, a que logo veio somar-se uma crise de desilusão ou desencanto, nascida talvez do contraste que observa entre seus sonhos de perfeição e a realidade humana pouco brilhante que o circunda. Acostumado a mudar de ambiente cada vez que tinha tentado melhorar sua situação, é lógico que pense também nessa solução para o novo problema que se lhe apresenta. Mas desta vez, o esquema jurídico ao qual se acha sujeito por sua profissão religiosa já fez por ele a escolha. Segundo a legislação da época, quem desejava passar de uma Ordem para outra necessitava da permissão expressa da Santa Sé, a não ser que se tratasse de ir para a Cartuxa. E nos Cartuxos estava frei João pensando seriamente quando a Madre Teresa de Jesus atravessou em seu caminho.

Da primeira e longa conversação que mantiveram estas duas grandes almas nos ficou somente – e não é pouco – o testemunho da Santa em suas Fundações. Falta-nos a versão de frei João. Porém, não é difícil intuir que o impacto em seu jovem espírito foi tremendo, pois mudou definitivamente o rumo de sua vida, fazendo-o preferir a realidade teresiana a seus sonhos pessoais. Esta nova realidade que se descortina ante os olhos atônitos de frei João é constituída, sobretudo, pela própria Madre Teresa, em cuja maturidade espiritual descobre a melhor encarnação do ideal que estava buscando. Frei João, por sua parte, compreende também que aos 25 anos não se pode continuar buscando soluções somente para si, mas que já é hora de ir pensando em prestar a própria ajuda aos demais e que isso poderia muito bem fazê-lo colaborando a criar entre os religiosos um ambiente de fervor e de entusiasmo como o que a Madre Teresa tinha conseguido suscitar entre as religiosas.

E a partir desse momento começa a preparar-se para a missão que caracterizará o resto de sua vida. A Santa conta-nos que o informou de seus planos e projetos – “eu lhe disse o que pretendia” – e frei João mostrou-se disposto a pôr mãos à obra imediatamente – “contanto que não demorasse muito” -. Efetivamente a Santa não perde tempo e passando da teoria à prática, na primeira ocasião que se lhe apresenta, leva-o consigo à fundação de Valladolid (agosto de 1568) para que faça seu “noviciado teresiano”, dando-lhe a oportunidade de conviver um par de meses com suas monjas para aprender o “estilo de fraternidade” que se leva em suas casas.

Quando frei João saiu de Valladolid a caminho de Duruelo no início de outubro, levava impressa em sua alma uma nova visão da Regra carmelitana, reinterpretada nas Constituições da Madre Fundadora e, sobretudo, encarnada na vida de suas filhas. Este é o dado histórico mais importante e a chave mais segura para interpretar a atividade do Santo nos anos sucessivos: fazer sua a descoberta teresiana para comunicá-la aos demais.

Frei João converteu-se desde esse momento em colaborador seguro e fiel da Madre Fundadora. Acompanhou-a pessoalmente às fundações de Alba de Tormes (1571) e Segóvia (1574), e prestou-lhe sua ajuda incondicional para a renovação espiritual do mosteiro da Encarnação de Ávila: dirigido e diretor da Santa durante os anos de 1572-1574, continuou exercendo seu ministério de confessor no triênio sucessivo.

Sobre o significado da presença do Santo nas comunidades masculinas de Duruelo-Mancera (novembro 1568-abril 1571), Pastrana (outubro 1570) e Alcalá (abril 1571-maio 1572), o testemunho mais direto que possuímos é o de Ana de Jesus que, passando por Mancera a caminho da fundação de Salamanca em novembro de 1570, fez uma visita aos primeiros Descalços. Vinte e cinco anos depois, assim recordava as impressões daquela visita: “Estivemos no convento dos frades Descalços e eles nos mostraram e disseram o que nossa Madre Teresa de Jesus e sua companheira Antônia do Espírito Santo lhes tinha traçado e ensinado a fazer na fundação daquele convento, no qual estavam então os primeiros Descalços que eram frei Antônio de Jesus, prior, e frei João da Cruz, subprior, os quais toda a maneira de proceder e de ordenar as coisas que tinham,  haviam-na recebido de nossa santa Madre e ela nos contava com muito gosto as miudezas que eles lhe perguntavam e  que mais ou menos cinco anos depois de feita a primeira casa de monjas, Deus lhe havia mandado estes dois Padres. E eles disseram-me em particular muitas das coisas que aqui se passaram, e fiquei certa de que ela foi tão fundadora deles como nossa, e assim a têm eles e terão sempre” .

Durante os seis anos e meio que vão desde maio de 1572 até finais de 1578, o Santo permaneceu praticamente à margem da evolução imprevista e em parte incontrolável dos Descalços. Quando voltou para sua companhia, encontrou-os em um momento de aperto e de verdadeira crise. Recordemos que sua fuga do cárcere de Toledo quase coincide com o encarceramento por parte do núncio Sega dos Padres Antônio, Mariano, Roca e Gracián, e que, não muito depois (16 de outubro de 1578), o núncio submeteu os Descalços à jurisdição imediata dos provinciais. Esta medida do núncio, ainda que em sua intenção estivesse encaminhada para restabelecer a paz e a harmonia na Ordem, enquanto se estudava mais a fundo o assunto dos Descalços, na prática aumentou as tensões e a desconfiança entre ambos os grupos, polarizando a atenção da hierarquia tradicional para conseguir a submissão dos Descalços e criando nos Descalços um sentimento ainda maior de unidade interior e de luta pala sobrevivência autônoma.

Nesse contexto, frei João da Cruz assume, desde inícios de novembro de 1578, a responsabilidade de vigário no convento de El Calvario e a direção das monjas de Beas. E essa será sua ocupação durante os próximos dez anos: governo e direção dos religiosos e religiosas seguidores da Madre Teresa de Jesus.

A chave para compreender este período da vida de frei João no-la dá a mesma Santa numa carta à priora de Caravaca em dezembro de 1579: “Filha, procurarei que o Padre Frei João da Cruz passe por aí. Faça de conta que sou eu; abram-lhe com franqueza suas almas. Consolem-se com ele, que é alma a quem Deus comunica o seu Espírito”. No capítulo quarto já vimos a importância que dava a Madre Teresa, nas comunidades que ia criando, à figura da superiora-mestra de espírito. Das qualidades extraordinárias da Madre Fundadora para essa missão, dão testemunho seus escritos e suas filhas que, inclusive depois de ter saído de sob seu magistério imediato, aproveitavam a passagem da Madre a caminho de novas fundações para continuar tratando de suas almas com ela. O “façam de conta que sou eu”, tem , pois, o sentido de uma recomendação incondicional do estilo espiritual de frei João da Cruz, que tinha assimilado plenamente o espírito da Madre Fundadora.

E como à Madre Fundadora suas filhas de Ávila pediram-lhe que deixasse por escrito o conteúdo de suas conversações espirituais para poderem ruminar sua doutrina e tirar dela maior proveito, também ao frei João da Cruz começaram a pedir o mesmo. Graças a isso podemos documentar o período histórico mais importante de sua vida e também nós podemos aproveitar de sua experiência e magistério. Os primeiros escritos conservados – além das poesias que compôs no cárcere – reproduzem o esquema do Monte, ditos e máximas espirituais e dois brevíssimos tratados intitulados Cautelas e Avisos a um religioso. Por eles podemos ter uma idéia da experiência e conhecimento do mundo interior que possuía o Santo a dez anos de distância de seu encontro com Teresa de Jesus, vemos quais são os temas de suas conversações e práticas espirituais e quais os pontos-chave de sua pedagogia para encaminhar as almas para a verdadeira contemplação.

Se do valor histórico desses documentos queremos passar a sua utilidade espiritual, perene e sempre atualíssima, bastarão um par de indicações metodológicas para evitar tropeços. Em primeiro lugar tenha-se presente o título que o Santo mesmo colocou em suas máximas: “Ditos de luz e amor”, e como o amor e a luz não podem ser classificados, tampouco esses ditos podem reduzir-se a axiomas matemáticos, mas  devem ser meditados, buscando-se neles a profundidade e a amplidão de sentido que têm nos lábios do mestre e que transcende as circunstâncias particulares nas quais podia se achar a alma que lhos pediu ou o momento determinado em que foram escritos.

O mesmo pode-se dizer, e com maior razão, de seus breves tratados. Contêm uma orientação, um verdadeiro sistema de vida cuja utilidade espiritual não está condicionada por nenhuma circunstância: “Resignação, mortificação, exercício das virtudes e solidão física e espiritual”. Cada alma irá vendo dia por dia, momento por momento, em qual desses aspectos deverá reforçar a vigilância ou aumentar a generosidade: recomendando resignação, o Santo ensina a não querer solução para tudo, a não meter-se alguém onde não é chamado, livrando-se de desassossegos estéreis e, inclusive, nocivos, que costumam encobrir-se com capa de zelo; recomenda a mortificação especialmente com os de casa, pois todos os desejos de imitar a Cristo crucificado caem por terra se não se sabe aceitar com paciência e humildade as limitações, reais ou aparentes, daqueles que nos rodeiam; o exercício de virtudes mais seguro o Santo indica-o no cumprimento cotidiano do próprio dever, empenhando-se nele com perseverança, só por amor de Deus, evitando com cuidado toda inclinação ao próprio brilho e buscando antes aquilo que ninguém quer fazer; por solidão física e espiritual entende, finalmente, a solicitude da alma para recolher-se em Deus assim que suas obrigações o permitirem, vivendo em contínua oração e desprezando todo pensamento que não vai direcionado para Deus. “Com isso, não pretendo insinuar que se descuide do ofício de que o encarregaram ou de qualquer outro que a obediência lhe designe, não empregando toda a solicitude requerida. O que quero dizer é que deve executá-lo de modo a ficar nele isento de culpa, pois isto não o quer Deus nem os superiores” .

As Cautelas contêm a mesma substância de doutrina, com o acréscimo de algumas orientações práticas sobre o modo de considerar o superior religioso, que a um leitor superficial poderiam parecer um contraste com o magistério teresiano. Para compreender o sentido de tais contradições aparentes, convém ter presente que costumam se acentuar alguns aspectos com mais ou menos intensidade, segundo as circunstâncias em que se fala dos mesmos. Por isso, é necessário, para conhecer o pensamento de um autor, recolher todas as suas expressões e fazer com elas uma síntese completa. Bastará indicar aqui que, quando a Santa fala com suas filhas, dirige-se a comunidades onde reina a paz e a harmonia e não necessita, como frei João quando fala com as Descalças de Beas em conflito momentâneo com o provincial, explicar-lhes o mistério de um superior inepto ou o modo de tirar proveito espiritual de um mau governo. Por isso, o Santo distingue, em perfeito acordo com Teresa, entre o que é “sentimento particular” e o que diz respeito ao bem comum. A Santa recomenda a obediência sempre e se há algo a corrigir no superior, não há de se corrigir com a murmuração, senão através da autoridade competente: se a experiência demonstra que a superiora não é apta para o cargo “não se deve deixar passar o primeiro ano sem tirá-la do cargo. Porque em um não pode causar muito dano, mas em três pode destruir o convento” . Frei João recomenda essa mesma submissão e põe em guarda contra os estragos que o demônio costuma causar entre os religiosos quando estes não olham a obediência com olhos sobrenaturais; mas não proíbe de fazer uso da luz natural para ajudá-la. Vemos, com efeito, que ele pessoalmente apoiou a “rebelião” das monjas da Encarnação contra o provincial, animando-as a preferir a Madre Teresa como priora, pagando com o cárcere a sua postura , e continuava apoiando as monjas de Beas que, valendo-se da situação geográfica pouco definida de seu convento, não prestavam obediência nem ao provincial de Andaluzia nem ao de Castela, apesar dos decretos do núncio.

As religiosas que tiveram a dita de experimentar a eficácia dessa doutrina e compartilhar as confidências espirituais de frei João da Cruz o batizaram de “homem interior”. Porém, essa interioridade não impediu o Santo de desenvolver uma atividade extraordinária nos mais variados ministérios, quando o serviço de Deus e o bem das almas o exigiam.

O Santo trata várias vezes do tema em seus escritos, sobretudo no Cântico, onde achamos uma frase que se tornou proverbial: “É mais precioso diante dele e da alma um pouquinho desse puro amor e de maior proveito para a Igreja, embora pareça nada fazer a alma, do que todas as demais obras juntas”. Frase que vem precedida de uma exegese admirável das palavras do Senhor a Marta: “Uma só coisa é necessária” (Lc 10), com um convite explícito a evitar interpretações unilaterais: “Notemos aqui o seguinte: enquanto a alma não chega ao perfeito estado de união de amor, convém exercitar-se no amor tanto na vida ativa como na vida contemplativa” .

E na vida ativa e na contemplativa o Santo prosseguiu exercitando-se, como deduz-se de seus escritos e de suas biografias, deixando-nos em sua vida o modelo mais perfeito de equilíbrio entre ação e contemplação, que recomenda em seus escritos.

Fonte:http://www.ocd.pcn.net/hp_5.htm

São João da Cruz. Noite escura

Imperfeições espirituais

Soberba espiritualDesejo de falar sobre coisas espirituais diante de outros, e até às vezes de ensiná-las mais do que de aprendê-las, e condenam em seu coração outros quando não vêem seguir o estilo de devoção que eles quiseram…Nisto se parecem com o fariseu que se gabava louvando a Deus pelas obras que fazia e desprezando o publicano…E costumam chegar a tal ponto que  alguns, que não querem que ninguém pareça melhor do que eles. Por isso, quando lhes apresenta ocasião, condenam os outros e murmuram contra eles com obras e palavras, olhando a palha do olho de seu irmão e não vendo a trave no seu.(p.38).

…Costumam fazer muitos propósitos e cumprem poucos. Algumas vezes têm desejos de que os outros conheçam seu espírito e sua devoção, e para isto às vezes fazem gestos externos, lançam suspiros e outras coisas raras.(p.39).

Tem vergonha de dizer seus pecados com clareza para que seus confessores não os estime menos, e dissimulam-nos para que não os achem tão maus. E isto é mais escusar-se do que acusar-se. Por isso, sempre gostam de dizer-lhe o que há de bom.(p.39).

Também alguns dão pouca importância a suas faltas. E outras vezes se entristecem demasiado por ver que caem nelas, achando que já deviam ser santos, e se aborrecem consigo mesmos com impaciência, o que constitui outra imperfeição.(p.40).

Não gostam de elogiar outros. Mas gostam muito de que os elogiem.(p.40).

Os imperfeitos quando quisessem ensinar-lhe algo e até quando parecesse que lhes ensinam eles mesmos tomam a palavra que sai da boca de quem lhes ensina para demonstrar que já sabem o que está dizendo.(p.41).

Humildade espiritual – Consideram todos melhores do que eles, e costumam ter deles santa inveja, com desejo de servir a Deus como eles servem. E, assim, quanto mais fazem tanto menos se satisfazem.

Vivem tão solícitos, preocupados e absorvidos nesta atenção de amor, que nunca se preocupam com saber se os outros fazem ou deixam de fazer. E se param para pensar, é sempre achando que todos os outros são muito melhores do que eles.(p.41).

Consideram todos melhores do que eles.(p.40).

Estes, com muita tranqüilidade e humildade, têm desejo de serem ensinados por qualquer pessoa que lhes possa fazer bem.(p.41).

Não tem vontade de dizer suas coisas, porque as estimam tão pouco que até a seus mestres espirituais têm vergonha de dizê-las, parecendo-lhes que não vale a pena manifestá-las.(p.41).

Sentem maior desejo de dizer suas faltas e pecados, ou de que se saiba mais deles do que de suas virtudes.(p.41).

É por isso que se inclinam a abrir sua alma com quem menos estima suas coisas e seu espírito.(p.42).

Avareza Espiritual – Ficam muito desconsolados e queixosos porque não encontram o consolo que desejariam ter nas coisas espirituais. Muitos nunca se satisfazem de ouvir conselhos e aprender muitos mandamentos espirituais, e de ter e ler muitos livros que falem disso. E o tempo deles é empregado mais nisso do que em praticar a mortificação e a perfeição da pobreza interior de espírito que devem.

Enchem-se de imagens e rosários, as vezes muito originais e atraentes. Algumas vezes deixam uns e apanham outros; ora mudam, ora voltam a mudar..apegando-se mais a esta cruz do que àquela por ser mais rara.(p.43)

Humildade espiritual – Eu vi outra pessoa que rezava com contas feitas com ossos das espinhas de peixe. E sua devoção não era menos preciosa diante de Deus, pois não se fundamentava na forma, porém no substancial.(p.44).

Luxúria espiritual – Algumas vezes..quando falam ou fazem coisas espirituais, surgem certo brio e galhardia, pensando nas pessoas que as olham e se deixam levar pela vaidade.

Alguns…se afeiçoam a algumas pessoas em sentido espiritual, que muitas vezes nasce da luxúria e não do espírito. Conhece-se a desordem quando, com a lembrança de tal afeto, não crescem a lembrança e o amor de Deus, mas, sim, remorso de consciência….porque se o amor humano cresce, notar-se-á que se vai esfriando o amor de Deus e esquecendo-se dele por causa daquela lembrança, o que provoca certo remorso.(p.48).

Por isso, disse Jesus: “Da carne nasce carne, do Espírito nasce espírito”(Jo 3, 6). Isto significa que o amor que nasce da sensualidade termina em sensualidade, e o que nasce do espírito termina em espírito e o faz crescer.(p.48).

Ira espiritual – porque, quando acabam para eles o sabor e o gosto pelas coisas espirituais, naturalmente se sentem insípidos e, com a amargura que os domina, fazem coisas de mau humor e com facilidade se aborrecem com coisas insignificantes e às vezes se tornam insuportáveis.(p.50).

Outros espirituais incorrem em outra espécie de ira espiritual:irritam-se contra os vícios alheios com certo zelo impaciente, assinalando outros com o dedo. E, às vezes, sentem ímpetos de corrigi-los com rispidez e, algumas vezes, o fazem, como se fossem eles os donos da virtude. Tudo isso contraria a mansidão espiritual.(p.50).

Outros, quando se vêem imperfeitos, com impaciência e soberba irritam-se contra si mesmos. Sua impaciência os leva a querer ser santos em um dia.(p.50).

Muitos deles propõem muito e fazem grandes propósitos, e, como não são humildes nem desconfiam de si mesmos, quanto mais propósitos fazem tanto mais caem e tanto mais se aborrecem, sem terem paciência para esperar que Deus lhes dê o que desejam quando ele queira. Isto também contraria a mansidão espiritual. (p.51).

Gula espiritual – Atraídos pelo gosto que aí encontram, alguns se matam com penitências e outros se enfraquecem com jejuns, fazendo mais do que sua debilidade agüenta, sem ordem nem conselho alheio. Pelo contrário, até procurando ocultá-lo a quem nisto deviam obedecer.(p.52).

Vereis muitos deles discutindo com seus mestres espirituais para que lhes concedam o que querem, até que arrancam e conseguem o que querem por meio de pressão; do contrário, se não obtêm o que querem, entristecem-se como crianças e ficam de má vontade, achando que não servem a Deus quando não fazem o que querem…ficam tristes, perdem o fervor e relaxam.(p.51).

Não hesitam em discutir muito com seus confessores para que os deixe comungar muitas vezes; e o pior é que muitas vezes se atrevem a comungar sem licença e o parecer do ministro e dispensador dos mistérios de Cristo.(p.53).

Quando comungam, põem todo seu esforço em buscar algum sentimento e gosto, em vez de dedicar-se a adorar e louvar a Deus dentro de si mesmos.E tal apego têm aos sentimentos que, quando não conseguem alcançar nenhum gosto ou experiência sensível, acham que não fizeram nada.(p.54).

São como crianças, que não se movem nem agem pela razão, mas, sim, pelo gosto.(p.55).

Inveja espiritual – Costumam ter movimentos de pesar diante do bem espiritual dos outros…Entristecem-se com as virtudes alheias….quereriam ser preferidos em tudo…(p.56).

Preguiça espiritual – Costumam experimentar tédio e fugir das coisas que são mais espirituais, que são as que mais contradizem  o gosto sensível…se alguma vez não encontram  na oração a satisfação que seu gosto pedia, não querem voltar a ela, ou às vezes a deixam de todo, ou vão a ela com má vontade.(p.56).

Quereriam que Deus quisesse o que eles querem, e se entristecem de querer o que Deus quer, sentindo repugnância por amoldar sua vontade a de Deus. (p.57).

Também se entendiam quando lhes mandam o que não lhes dá gosto…São como os que criados no meio dos prazeres, que fogem da tristeza de toda coisa áspera e ficam agastados com a cruz, em que se acham os deleites do espírito.

Noite escura

A noite escura, que é a contemplação, mostra nos espirituais duas classes de trevas ou purificações, coincidentes com as duas partes do homem: sensitiva e espiritual. Uma noite ou purificação é sensitiva. Nela a alma se purifica nos sentidos, amoldando-os ao espírito. A outra é noite ou purificação espiritual. Nela a alma se purifica e se despoja segundo o espírito, amoldando-o e dispondo-o para a união de amor com Deus. (p.59)

Purificação dos sentidos

O primeiro sinal: a alma não encontra gosto nem consolo nas coisas de Deus, mas tampouco nas do mundo. O segundo sinal de que estamos na noite escura é que continuamente nos lembramos de Deus com diligência e preocupação dolorosa, acreditando que não glorificamos a Deus, mas antes retrocedemos, pelo fato de nos vermos com aquela insipidez para as coisas de Deus. O terceiro sinal…consiste em não mais meditar nem discorrer com a imaginação como antes, por mais esforços que faça. (p.62-65).

A sabedoria vem acompanhada do amor

A alma se purifica sendo iluminada por este fogo de sabedoria amorosa – pois Deus jamais dá sabedoria mística sem amor, pois é o próprio Deus que a infunde – É o que demonstra Jeremias quando diz: “Enviou fogo aos meus ossos e me ensinou”(Lm 1, 13). (p.133).

Assim o salmista pôde dizer: “O coração me ardia por dentro; enquanto pensava um fogo se ateou em mim, até que soltei a língua”(38, 4). (p.135).

Mas é próprio da força e da veemência do amor crer que tudo é possível e pensar que todos pensam como ele, pois acredita que não há outra coisa em que alguém deva ocupar-se nem buscar, a não ser quem ela busca e quem ela ama. Acha que não há outra coisa que se possa querer nem em que alguém possa ocupar-se, exceto aquele que ela quer e que todos pensam nele.(p.140).

Fraqueza do ser humano diante da perfeição de Deus

Porque, quanto mais a alma se aproxima de Deus, mais sente, por causa de sua fraqueza, trevas obscuras e profunda escuridão. O grande esplendor do sol causará mais trevas e dor a quem esteja mais perto do sol pela fragilidade e impureza de seus olhos.(p.150).

Na verdade, a alma constata que tem verdadeira determinação e eficácia para não ofender a Deus e para cumprir sua vontade. Aquele amor obscuro infunde nela muito diligente preocupação e inquietude interior no sentido de ver o que poderá fazer para dar-lhe gosto e examinando mil vezes se o ofendeu em alguma coisa.(p.152).

Degraus do amor

O primeiro faz a alma enfermar proveitosamente…porque nela a alma more ao pecado e a todas as coisas que não são de Deus. (p.161).

O segundo degrau faz a alma buscar Deus sem cessar.(p.161).

O terceiro degrau da escala amorosa é o que faz a alma agir e que lhe dá calor e ardor para não pecar. Sobre isto diz o salmista: “Feliz quem teme o Senhor e se entusiasma com seus mandamentos”(Salmo 11,1)…Considera pequenas as grandes obras que faz pelo Amado, as que são muitas considera poucas.(p.162).

O quarto degrau é o constante sofrimento sem se cansar.(p.163).

O quinto degrau de amor impele a alma para desejar e cobiçar a Deus impacientemente.(p.164).

O sexto degrau faz a alma correr com ligeireza para Deus e tocá-lo muitas vezes e, sem desfalecer, corre pela esperança. O amor a fez tão forte que a leva a voar com ligeireza. A propósito deste degrau diz Isaías: “Os que esperam no Senhor renovam suas forças, abrem asas como as águias, correm sem se cansar, caminham sem desfalecer”(Isaías 40, 31).

O sétimo degrau desta escada torna a alma atrevida e com veemência….É o que diz o Apóstolo: ‘A caridade tudo crê, tudo espera e tudo pode’(1Cor 13, 7). Os que alcançaram este grau conseguem de Deus o que lhe pedem com gosto: “Será o Senhor tua delícia e te dará o que pede o teu coração”.

O oitavo degrau de amor leva a alma a agarrar e segurar sem largar o amado, como diz a esposa: “Encontrei o amor de minha alma; agarrei-o e não mais o soltarei”(Ct, 3, 4).

O nono degrau faz a alma arder suavemente. Este é o degrau dos perfeitos, que ardem suavemente, porque o Espírito Santo produz neles este ardor suave e deleitoso, conseqüência da união que têm com Deus.(p.167).

O décimo degrau já não é desta vida. O décimo e último degrau desta escada secreta de amor torna a alma totalmente semelhante a Deus, pela clara visão de Deus que em seguida a alma possui imediatamente, pois, havendo chegado nesta vida ao nono grau, ela sai do corpo. Porque estes poucos que o alcançam não entram no purgatório, pois já estão mais do que purificados pelo amor.

Sabedoria

“Onde há verdadeiro amor de Deus não entram o amor próprio nem o de suas coisas.”

Fonte: São João da Cruz. Noite Escura lida hoje. Ballester. Paulus. 5.ed.2005.

Sabedoria de São joão da Cruz – Obras Completas

Os superiores devem ser humildes

-em nenhuma outra coisa mostra alguém ser indigno de governo como mandando com arrogância; ao contrário, os superiores devem procurar que os súditos nunca se retirem tristes de sua presença.(p.68)

Perigo da ambição

E dizia ainda: -ser este vício tão forte e nocivo, que transforma suas vítimas em pecadores tais que, de sua vida e artimanhas, faz o demônio uma argamassa capaz de desnortear os confessores, ainda que sejam muito sábios porque a ambição costuma excitar todos os vícios.(p.68).

Meios de vencer os vícios e adquirir virtudes

a. perfeito:Opor resistência ao vício através da prática de uma virtude

“Existe uma maneira mais comum e não tão perfeita que consiste em procurar resistir a algum vício por meio de atos de virtude que se lhe opõe e destrói tal vício, pecado ou tentação.  Como se ao vício ou tentação de impaciência, ou espírito de vingança, que sinto em minha alma, por algum dano recebido, ou por palavras injuriosas, ou quisesse resistir lançando mão de considerações apropriadas, por exemplo, considerando a paixão do Senhor; “Era maltratado e ele sofria, não abria a boca”.(Is 53, 7).

b. perfeitíssimo: Fazer uma renuncia de si mesmo perfeita, abraçando a humildade, pois ao sumir o alvo não existe mais onde possa ser atingido ou ferido, e assim, se conquista mais virtudes.Ocupar-se apenas das coisas de Deus.

“Há outra maneira mais fácil, proveitosa e perfeita de vencer vícios e tentações e adquirir e conquistar virtudes. Consiste no seguinte: a alma deve aplicar-se apenas nos atos e movimentos anagógicos[1] e amorosos, prescindindo outros exercícios estranhos; por este meio consegue opor resistência e vencer todas as tentações do nosso adversário, alcançando assim as virtudes em grau eminente.(p.69).

Advertência aos principiantes

Quando isso não for suficiente, porque a tentação é forte e eles são fracos, aproveitem-se, então de todas as armas de piedosas meditações e exercícios que julgarem ser necessários para conseguir a vitória. Devem estar persuadidos de que este modo de resistir é excelente e eficaz.(p.71)

Deus Santo, Deus Forte Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro

-planejando a divina Majestade destruir e arrasar a cidade de Constantinoplas, por meio de violenta tempestade, ouviram os anjos repetior, por três vezes, estas palavras: “Sanctus Deus, Sanctus Fortis, Sanctus Immortalis, miserere nobis”; com essa súplica, logo Deus se aplacou, fazendo cessar a procela que já havia causado muito dano e ameaçava acarretar maior prejuízo ainda.

E assim afirmava: -serem as citadas palavras de grande eficácia, quando dirigidas a Deus em necessidades particulares de fogo, água, ventos, tempestades, guerras, assim como em vicissitudes de alma e corpo, honra, haveres etc.(p.72).

Compaixão

É verdade evidente que a compaixão pelo próximo cresce na medida em que a alma se une a Deus por amor. Porque, quanto mais ama, mais deseja que esse mesmo Deus seja amado e honrado por todos…antes, parecendo-lhes pouco irem sozinhos para o céu, procuram, com ânsias e celestiais afetos, com engenhosas diligências, levar também consigo muitas almas.(p.73).

Duas coisas servem de asas à alma para que esta se eleve à união com Deus, a saber: a compaixão afetiva da morte de Cristo e a do próximo.(p.73).

Confessar mulheres

Recomendava… que: “- guardassem uma certa reserva no trato com elas; porque afabilidades com mulheres não servem senão para desviar a afeição e fazer com que saiam com dano espiritual.(p.74).

Sofrimentos

Assim, os sofrimentos que nos causam as criaturas, se os aceitamos por Deus, quanto maiores forem, mais intenso amor despertam para com ele. E que, por um momentâneo padecer por Deus aqui na terra, concede Sua Majestade imensas e eternas delícias no céu, isto é, ele mesmo, sua formosura, sua glória.

Amar os inimigos

“Uma religiosa daqui(de Beas) empregou, um dia, diante do Santo Padre uma palavra que denotava ressentimento contra um secular, por certo prejuízo por ele causado àquele convento. O bem-aventurado Padre a atalhou dizendo que este era um mais poderoso motivo para que ela e todas as outras procurassem fazer a esta pessoa o bem que pudessem, pois isto era ser discípulas de Cristo.(p.78).”


Dizia: “Por onde quer que fossem, procurassem fazer bem a todos, pois assim demonstrariam ser filhos de Deus, e o que fosse remisso neste ponto prejudicaria mais a si mesmo que ao próximo.(p.79).

Trabalhos

“Não nos devemos deixar dominar pelos trabalhos e, sim, pairar sobre eles, como a cortiça sobre a água.(p.79).

Como caminhar?

Procura conduzir-te como se no mundo não houvesse mais do que tu e Deus e deste modo hás de trabalhar e desempenhar as tuas tarefas.(p.79).

Que fazer quando algo nos faltar?

Filhos, que significa ser pobres, senão que nos faltem algumas coisas? Não fizemos, acaso, voto de pobreza? Pois abracemo-la quando algo nos faltar. (p.79)

Testemunho

“Deve ensinar mais com obras do que com palavras.”(p.79).

Religiosas

“As pessoas religiosas são a melhor gente que Deus tem em sua Igreja.”(p.80)

Providência Divina

“Nosso Senhor não nos faltará se formos aquilo que devemos ser.”(p.80)

Melhor do que pedir ajuda é rezar para que alguém ajude

“Temos em casa o Senhor que há de prover às nossas necessidades. Ao invés de perder tempo pelas ruas e incomodar os benfeitores, empreguemos algum em encomendar o caso Àquele que move os corações.(p.80)

Confessor Santo

Quanto mais santo é o confessor, mais brando será e menos se escandalizará com as faltas alheias, porque conhece melhor a precária condição do homem.(p.81)

Amor a Cruz

Não queira mais nada a não ser somente a cruz, que é uma linda coisa.(p.81).

Não julgar

Não suspeites de teu irmão, que isso te fará perder a pureza de coração.(p.81).

Êxtase

Certa vez perguntaram ao..Fr.João da Cruz de que modo entrava em arroubamento. Ele respondeu:

-contradizendo a sua vontade e fazendo a vontade de Deus, porque o êxtase nada mais é do que sair a alma de si mesma e arrebatar-se em Deus.(p.81).

Poesia de São João da Cruz

Para vir a saborear TUDO – não queiras ter gosto em nada;

Para vir a saber TUDO – não queiras saber algo em nada;

Para vir a possuir TUDO – não queiras possuir algo em nada;

Para vir a ser TUDO – não queira ser algo em nada;

Quando reparas em algo – deixas de lançar-te ao TUDO.

(p.85-87).

Carvão

A alma virtuosa, mas, sozinha e sem mestre, é como o carvão aceso que está isolado: antes se vai esfriando que acendendo.(p.93).

Paz no coração

Não poderá chegar à perfeição quem não procurar satisfazer-se com tão pouco…pois isto se requer para chegar à tranqüilidade e paz de espírito.

Não é vontade de Deus que a alma se perturbe com coisa alguma nem padeça angústias; porque se as padece nos casos adversos do mundo, é por fraqueza de sua virtude, pois que a alma perfeita goza com o que aflige a imperfeita.(p.98).

Aceitar tudo que acontece no mundo como providência de Deus

Não te entristeças, repentinamente com os casos adversos do século, pois não sabes o bem que consigo trazem, ordenado nos juízos de Deus para o gozo sempiterno dos eleitos.(p.99)

Na tribulação e na alegria

Na tribulação recorre logo a Deus confiantemente, e serás animado, esclarecido e ensinado.

Nos gozos e gostos recorre logo a Deus com temor e verdade, e não serás enganado nem envolvido em vaidade.(p.99)

Amizade com Deus

Tome a Deus por esposo e amigo com quem Andes constantemente e não pecarás, e saberás amar, e as coisas necessárias sucederão prosperamente parati.(p.99)

Importância de ser pacífico

Considera que Deus só reina numa alma pacífica e desinteressada.(p.99).

Sabedoria

Se na hora da conta te hás de lamentar por não teres empregado este tempo no serviço de Deus, por que não o ordenas e empregas agora como o quererás tê-lo feito quando estiver morrendo?(p.100)

Salvar a si mesmo

Deixa todas essas outras coisas que te restam e aplica-te a uma só que tudo traz consigo, que é a solidão santa e divina leitura, e aí persevera no esquecimento de todas as coisas; e se te não incumbirem de alguma obrigação, agradarás mais a Deus sabendo-te guardar e aperfeiçoar a ti mesmo, que granjeando todas as coisas juntas. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo todo se perder a sua alma(Mt 16, 26)?(p.100)

Refreie a língua

Refreie muito a língua e o pensamento e traga continuamente o afeto em Deus; assim se lhe aquecerá o espírito divinamente.(p.101)

Ser feliz quanto mais desprezado e pobre

Tenha sempre na memória a vida eterna, e que serão os mais abatidos e pobres, os que em menos conta se têm, que gozarão do mais alto senhorio e glória em Deus.(p.101).

Alegria no sofrimento

Alegre-se sempre em Deus que é a sua saúde, considerando um bem sofrer, de qualquer maneira, por Aquele que é bom.

Não se apegar pelas vaidades do mundo

Seja inimiga de admitir em sua alma coisas que em si não tenham substância espiritual, para que não lhe façam perder o gosto à devoção e ao recolhimento.(p.101).

Traga interior desapego de todas as coisas e não ponha gosto em qualquer temporalidade; assim recolherá a sua alma aos bens que não conhece.(p.102).

A alma que caminha no amor não cansa nem se cansa.(p.102).

Há almas que se envolvem no lodo como os animais, e outras voam como as aves que no ar se purificam e limpam.(p.102).

Devemos medir os trabalhos por nós e não nos medirmos pelo trabalho.(p.102).

Quem não busca a cruz de Cristo não busca a glória de Cristo.(p.102)

Para enamorar-se Deus de uma alma, não olha a sua grandeza, mas a grandeza da sua humildade.(p.102).

A sabedoria entra pelo amor, silêncio e mortificação. Grande sabedoria é saber calar e não reparar no que dizem ou fazem, nem nas vidas alheias.(p.103).

Deixa-te ensinar, deixa-te mandar, deixa-te sujeitar e desprezar e serás perfeita.(p.103).

Todo apetite causa na alma cinco danos: o primeiro, é que a inquieta; o segundo, que a perturba; o terceiro, que a suja; o quarto, que a enfraquece; o quinto, que a obscurece.(p.103).

A perfeição não está nas virtudes que a alma conhece de si, mas consiste nas que Nosso Senhor vê na alma, e é como carga fechada; não tem, pois, a alma de que se orgulhar, mas antes estar prostada por terra a respeito de si mesma.(p.103).

O amor

O amor não consiste em sentir grandes coisas, mas…em padecer pelo amado.(p.104).

Pensar só em Deus

O mundo inteiro não é digno de um só pensamento do homem, porque só a Deus ele é devido; assim qualquer pensamento posto fora de Deus é um roubo que se lhe faz.(p.104).

Não reparar nas imperfeições alheias

Não reparar nas imperfeições alheias, guardar silêncio e tratar continuamente com Deus desenraizam grandes imperfeições da alma, tornando-a senhora de grandes virtudes.(p.104).

Recolhimento interior

Os sinais do recolhimento interior são três: o primeiro, se a alma não gosta das coisas transitórias; o segundo, se gosta da solidão e do silêncio e se é impelida a buscar tudo quanto é mais perfeito; o terceiro, se as coisas que costumavam ajudá-la – como as considerações meditações e atos – a estorvam, não encontrando a alma outro apoio na oração senão a fé, a esperança e a caridade.(p.104).

Vença os hábitos imperfeitos

Os hábitos de imperfeições voluntárias que não se chega a vencer, tais como o costume de falar muito, um pequeno apego não vencido a qualquer pessoa, vestido, cela ou livro, tal espécie de comida e outras coisas, em saber, em ouvir e outras semelhantes, não somente impedem a união divina, mas ainda o chegar à perfeição.(p.105).

União com Deus

O demônio teme a alma unida a Deus como ao próprio Deus.(p.105).

Refreie a língua

A maior necessidade que temos para progredir é calar, diante deste grande Deus, o apetite e a língua, pois a linguagem que ele mais ouve é a do amor silente.(p.106).

Não buscar os erro dos outros nem idolatra ninguém

Nunca olhes nem para o bem nem para o mal alheio.(p.106).

Fixe seu amor em Deus

Grande mal é olhar mais para os bens de Deus que para o próprio Deus; oração e desapego.(p.106).

Fale pouco

Fale pouco e só se meta nas coisas que for perguntado(p.106).

Não se justifique

Não se justifique, nem se recuse a ser por todos corrigido; ouça de rosto sereno toda repreensão, pense que é Deus quem lha diz.(p.107).

Viver só para Deus

Viva neste mundo como se só com Deus vivesse, para que o coração não se detenha em coisa alguma.(p.107).

Nunca ouça queixas de outra pessoa

Nunca ouça fraquezas alheias e se alguém se lhe queixar de outrem, poderá pedir humildemente que nada lhe diga.

Não se queixe

Não se queixe de ninguém.(p.107).

Silêncio

Silencie sobre o que Deus lhe der;(p.107).

Paz

Procure conservar o coração em paz:que nenhum acontecimento o desassossegue, considere que tudo há de acabar.(p.107).

Não procurar saber quem é contra ou a favor de ti

Não te detenhas muito, nem pouco, em verificar quem te é contra ou a favor; procura sempre agradar ao teu Deus. Pede-lhe que faça em tia Sua vontade. Ama-o muito, pois Lhe deves isto.(p.107).

12 estrelas para chegar à perfeição

Amor de Deus, amor do próximo, obediência, castidade, pobreza, assistência…

Penitência, humildade, mortificação, oração, silêncio, paz.(p.107);

Nunca tomes um homem como exemplo

Nunca tomes um homem por exemplo no que tiveres a fazer, por santo que seja, porque o demônio porá diante de ti as suas imperfeições; mas imita a Cristo que é sumamente perfeito e sumamente santo e jamais errarás.(p.108).

Se alegrar quando falarem mal de ti

Procurar falar com desprezo próprio e desejar que todos o façam(p.109).

Outros Avisos

Quanto mais te aparta das coisas terrenas, mais te aproximas das celestiais.(p.110);

Quem se queixa e murmura não é perfeito, nem mesmo bom cristão;(p.110).

É humilde quem se esconde em seu próprio nada e se abandona em Deus.(p.110).

É manso quem sabe suportar o próximo e tolerar-se a si mesmo.

Quem confia em si mesmo é pior que o demônio.

Quem age com tibieza,[2] perto está da queda.

Quem foge da oração, foge de todo o bem.

Melhor é vencer-se na língua que jejuar a pão e água.

É melhor padecer por Deus que fazer milagres.

Cautelas

1.Contra o mundo

(p.114-116)

A primeira é que a respeito de todas as pessoas tenhas igual amor e igual esquecimento, quer sejam parentes, quer não o sejam, desprendendo o coração tanto de uns como de outros;

Considera a todos como estranhos e desta maneira cumprirás melhor o teu dever para com eles do que pondo neles a afeição que deves a Deus. Não ames mais uma pessoa do que a outra, porque errarás.

Nada penses em relação a eles, nem bem, nem mal.

A segunda cautela contra o mundo se refere aos bens temporais….Não deves ter cuidado algum a esse respeito, nem de comida, nem de vestido etc.

A terceira cautela….consiste…em evitares com todo o cuidado o pensamento e mais ainda falar sobre o que se passa na comunidade; o que acontece ou aconteceu com qualquer religioso em particular; não te ocupes da sua maneira de ser, do seu trato, das suas coisas, por mais graves que sejam. Nem a pretexto de zelo, de remédio a dar, digas coisa alguma, a não ser a quem de direito convém dizê-lo a seu tempo. Não te escandalizes nem jamais te admires de coisas que vejas ou percebas, procurando guardar tua alma no esquecimento de tudo isso. Porque se quiseres reparar em alguma coisa, mesmo que vivas entre anjos, muitas coisas não te parecerão bem por não compreenderes a substância delas.

Sirva-te de exemplo a mulher de Ló, que por se ter perturbado com a perdição dos sodomitas e voltado a cabeça para observar o que se passava, a castigou o Senhor transformando-a em estátua de sal. É para que entendas que, ainda no caso de viveres entre demônios, Deus quer que vivas de tal modo no meio deles que não desvies a cabeça do pensamento às sua coisas, mas as deixe totalmente, procurando conservar a alma pura e inteira em Deus, sem que qualquer pensamento a respeito disso ou daquilo, te possa estorvar.

2. Contra o demônio

(p.117-119)

Jamais te movas a coisa alguma, ainda que te pareça boa e cheia de caridade, quer para ti quer para qualquer outra pessoa, dentro e fora de casa, sem ordem de obediência…As ações do religioso não lhe pertencem, mas são da obediência e se dela as subtraíres, delas te pedirão contas, como se fossem perdidas.

Jamais considerares o prelado menos que Deus, seja ele quem for, pois constituído em seu lugar…põe-te cuidadosamente de sobreaviso para não considerares a sua índole, o seu trato, a sua aparência…porque com isso…virás mudar a obediência de divina em humana, movendo-te ou não, apenas pelos modos que puderes observar visivelmente no prelado, e não no Deus invisível, a quem nele serves.

A terceira cautela…é que no íntimo do coração procures sempre humilhar-te em palavras e obras..querendo que sejam preferidos a ti…

E sê sempre mais amigo de ser por todos ensinado do que de querer ensinar ao menor entre todos.

3.Contra a carne

(p.119-120).

A primeira cautela é que compreendas que não vieste para o convento senão para que todos te instruam e exercitem.

A segunda cautela é que jamais deixes de fazer obras por não encontrar nelas gosto e prazer.

A terceira cautela seja que nunca o varão espiritual ponha os olhos no prazer dos exercícios para a eles se apegar, vindo a fazê-los só pelo gosto que lhe proporcionam.

[1] Arrebatamento da alma para a contemplação das coisas divinas.

[2] Desleixo, morno.

Fonte: São João da Cruz. Obras Completas. Editora Vozes.2002.

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