Biografia dos Santos

Dom Bosco

Posted on: abril 3, 2010

Biografia de Dom Bosco pelo Vaticano

SECRETARIA DE ESTADO

HOMILIA DO CARDEAL ANGELO SODANO
NA MEMÓRIA LITÚRGICA DO FUNDADOR DOS SALESIANOS

Sexta-feira, 31 de Janeiro de 2003
Estimados Concelebrantes
Irmãos e Irmãs no Senhor

O primeiro Santo que aprendi a conhecer foi Dom Bosco. Quando eu tinha quatro anos, frequentava o jardim-de-infância gerido pelas Irmãs Salesianas na minha cidade natal, na Ilha de Asti. A boa mestra escolar ensinava-nos a rezar e, no termo das orações quotidianas, depois de pedirmos a intercessão de Maria Auxiliadora, também nos fazia invocar sempre a intercessão de Dom Bosco. Um grande quadro do nosso Santo representava-o bondoso e risonho no meio de muitos jovens. A partir de então, há 70 anos, comecei a conhecer e a amar Dom Bosco.

1. Uma personalidade forte

Depois, durante a minha vida, pude ler muitas das suas biografias, conhecer a sua figura extraordinária e ver em muitas regiões do mundo os frutos das suas intuições pedagógicas e do seu zelo apostólico, sobretudo no meio dos jovens e dos trabalhadores.

Precisamente, nos últimos dias, comecei a ler uma grande obra de Dom Bosco, de recente publicação, escrita pelo benemérito Pietro Braido e intitulada Don Bosco prete dei giovani nel secolo della libertà Dom Bosco, sacerdote dos jovens no século da liberdade (LAS, Roma 2003).

Hoje, encontramo-nos aqui reunidos para dar graças ao Senhor por ter suscitado na sua Igreja esta grande personalidade de Apóstolo dos tempos modernos e por nos ter confiado à sua intercessão.

Todos vós conheceis bem a sua figura. Ele é um típico Santo das terras do Piemonte, que se formou num ambiente pobre e austero, pitoresco da Turim de Oitocentos. Todavia, superando inúmeras dificuldades, Dom Bosco soube criar obras maravilhosas ao serviço dos jovens e para a difusão do Reino de Deus no mundo.

A sua vida decorreu entre o ano de 1815, data do seu nascimento em Castelo Novo de Asti, e o de 1888, ano em que, num dia 31 de Janeiro como hoje, ele voltou para a Casa do Pai. Foram 73 anos de uma existência intensamente vivida, de uma vida santa. Não é por acaso que, hoje, nós o veneramos nos nossos altares, como Apóstolo dos tempos modernos.

2. Uma mensagem actual

Hoje, na festa do nosso Santo, foi de bom grado que vim presidir a esta Concelebração eucarística, com os beneméritos Padres Salesianos, e implorar do Senhor, por intercessão de São João Bosco, graças copiosas sobre todos os presentes.

Do exemplo de Dom Bosco, podemos tirar muitas mensagens:  o seu amor à Igreja, a sua predilecção pelos jovens, a sua devoção filial a Nossa Senhora, invocada com o bonito título de “Auxílio dos Cristãos”, Auxilium Christianorum, assim como o seu amor filial pelo Sumo Pontífice. E é precisamente sobre este aspecto da sua vida que, agora, gostaria de reflectir por um momento, juntamente convosco que trabalhais aqui no Vaticano, na casa do Papa.

3. Dom Bosco e Pio IX

O Papa com quem Dom Bosco teve a ocasião de tratar na maior parte da sua vida foi Pio IX, o Beato Pio IX, Papa precisamente de 1846 a 1878, num Pontificado que durou 32 anos!
Além disso, nos seus últimos dez anos de vida, Dom Bosco ainda teve contactos frequentes com Leão XIII que, em  1878,  tinha  sucedido  ao  saudoso Pio IX. Mas foi sobretudo com Pio IX que Dom Bosco teve numerosos encontros:  com efeito, contam-se vinte audiências com Pio IX, além de centenas de cartas.

Com a sua estratégia apostólica voltada para os jovens e os trabalhadores, o humilde sacerdote de Valdocco suscitava a admiração do Papa. O Sumo Pontífice ficou impressionado com o facto de Dom Bosco ter começado o seu apostolado nas penitenciárias da “Generala” de Turim. Ficou também impressionado com o facto de que, no período em que os políticos se preocupavam com a formação da Itália, ele se preocupava em formar os italianos. A este propósito, a insistência de Dom Bosco era peculiar:  formar bons cristãos para ter cidadãos honestos. Daqui derivou também a instituição das escolas profissionais. Não é por acaso que, um grande escritor como Piero Bargellini, tenha dado este título à sua biografia de Dom Bosco:  O Santo do trabalho.

4. A fidelidade ao Papa

E Dom Bosco, por sua vez, esteve sempre muito próximo do Sumo Pontífice, embora na Turim daqueles anos existissem ambientes anticlericais e, entre os católicos, se levantassem debates acérrimos acerca do poder temporal dos Papas.

De  Dom  Bosco,  é  célebre  a  seguinte frase:  “No que diz respeito à religião,  eu  estou  com  o  Papa  e  disto me orgulho” (Memórias biográficas, XII, pág. 423).

Nessa época, muitos políticos do Ressurgimento italiano punham em dúvida a autoridade pontifícia, mas Dom Bosco respondia-lhes de modo inequívoco, como um dia disse a um ministro:  “Vossa Excelência deve saber que, em todas as coisas, eu estou com o Papa” (Ibid., IX, pág. 483).

Este era o comportamento que ele exigia dos seus, com grande determinação, dizendo:  “A palavra do Papa deve ser a nossa regra em tudo e para tudo” (Ibid., IX, pág. 494).

Revigorado por esta fidelidade ao Papa, Dom Bosco respondeu também à proposta que o Papa Leão XIII lhe fez quando, em 1880, pediu que edificasse a igreja do Sagrado Coração, em Castro Pretório. Tratava-se de um desejo do Papa e, embora já tivesse uma idade veneranda, Dom Bosco começou a estender a mão e a angariar fundos para a construção deste templo, que ainda nos dias de hoje é uma testemunha eloquente do seu zelo apostólico.

5. Uma visão de fé

O amor de Dom Bosco pelo Papa nascia de uma profunda visão de fé. E a sua insistência com os jovens é característica:  “E não griteis:  “Viva Pio IX!”. Não bradeis:  “Viva Leão XIII!” mas,  pelo contrário,  clamai:   “Viva  o Papa!””.

Já a partir de 1848, o jovem sacerdote deu um exemplo concreto do seu apego ao Papa. Dom Bosco era sacerdote havia sete anos, quando veio a saber que o Papa Pio IX teve de fugir de Roma para Gaeta, em virtude da proclamação da República Romana, e que ali o Papa se encontrava em sérias dificuldades económicas. Então, Dom Bosco angariou novos fundos entre os jovens do oratório e, em seguida, enviou-os ao Papa em Gaeta:  tratava-se de um óbolo de 33 liras!

Depois, o Papa encarregou o seu Secretário de Estado, Cardeal Antonelli, da tarefa de agradecer a Dom Bosco este gesto muito concreto de solidariedade para com o Sucessor de Pedro (cf. Arnaldo  Pedrini, Pio  IX  e  Don  Bosco, na Revista:  “Pio IX”, ano XXI, 43, pp. 435-450).
Estimados amigos, muitos de vós trabalhais na Tipografia do Vaticano. Por conseguinte, ficareis contentes se eu vos recordar com que alegria Dom Bosco comunciou ao Papa Pio IX, que tinha instalado em Turim a sua primeira tipografia. Numa missiva de 10 de Março de 1863, de Valdocco, Dom Bosco escrevia ao Papa:  “Beatíssimo Padre… nesta casa foi instalada uma tipografia exclusivamente destinada a difundir livros católicos. Que Vossa Santidade se digne conceder a sua santa Bênção a fim de que Deus permita a continuação da tipografia… É um filho que abre o seu coração ao melhor e mais amável de todos os pais, a cujos pés julga como máxima ventura poder prostrar-se e invocar a santa Bênção para si mesmo, para os seus sacerdotes e os seus jovens. Com profundo afecto e respeito, seu filho Dom João Bosco” (Epistolário, LAS, Roma 1991, pp. 560-561).

6. Conclusão

Irmãos e Irmãs no Senhor, falei-vos acerca do amor que Dom Bosco nutria pelo Papa. Mas deveria recordar-vos também os outros dois grandes amores de Dom Bosco:  a Eucaristia e Nossa Senhora. Porém, numa breve homilia não se podem apresentar todas as características da figura poliédrica do nosso Santo.

Contudo, do céu ele alegrar-se-á ao ver que, no dia de hoje, nós lembrámos um aspecto peculiar da sua existência, um  aspecto  que  lhe  estava  muito  a peito.

Do céu, São João Bosco interceda por  nós,  concedendo-nos  a  graça  de um  grande  amor  a Cristo  e  à  sua santa  Igreja,  assim  como  de  um profundo amor ao Papa, “o doce Cristo na terra”!

E assim seja!

http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/2003/documents/rc_seg-st_20030131_sodano-don-bosco_po.html

Vida de Dom Bosco

Giovanni Melchior Bosco

o nasceu em 16 de agosto de 1815 em Becchi, perto de Turim, norte da Itália. Ficou órfão de pai aos 2 anos de idade. Margarida, sua mãe, ensinou-lhe a ver Deus em tudo, principalmente no rosto dos mais pobres. Aos 9 anos, teve um sonho que marcou a sua vida. Um senhor majestoso e uma nobre senhora dão a dica: “Torna-te forte, humilde e robusto. A seu tempo, tudo compreenderás. Aprende com os saltimbancos dos circos ambulantes, dá espetáculo para seus colegas, conta-lhes histórias e conquista-lhes o coração. Leva todo mundo para a Igreja”. Seu irmão António, que não gostava dele, não o deixa estudar. Assim, saiu de casa com 12 anos de idade. Cuidava de bois na fazenda dos Moglia e estudava debaixo das árvores. Voltou para casa apenas quando António se casou. Entrou no seminário de Chieri. Inteligente e dedicado, aprendeu ofícios de alfaiate, ferreiro, encadernador, tipógrafo e outros.

Em 5 de junho de 1841, foi ordenado sacerdote em meio à revolução industrial. Logo iniciou sua obra de educação de crianças, por influência de São José Cafasso. Dedicou-se aos jovens abandonados da cidade de Turim, “produtos da era da industrialização”, que então começava. A realidade era dura para aqueles que haviam deixado o campo em direção à cidade. O que mais chocava Dom Bosco eram as cadeias cheias de jovens. Essa realidade o mpressionava tanto que decidiu impedir que meninos tão jovens acabassem na cadeia. Os párocos de Turim sentiam o problema, mas esperavam que os garotos os procurassem na sacristia. Dom Bosco foi ao encontro deles na rua, nos botequins onde trabalhavam.

Em 1841, começou o Oratório de Dom Bosco, com Bartolomeu Garelli, um oratório diferente dos outros. Em questão de meses, o oratório tinha 80 jovens. Em 1847, Dom Bosco sentiu necessidade de recolher os meninos em internatos-escola. Em 1853, Dom Bosco começou as escolas profissionais. Neste meio, estão presentes as oficinas de alfaiate, encadernação, marcenaria, tipografia e mecânica, respostas às necessidades da época. Para mestres destas oficinas, Dom Bosco inventou um novo tipo de religioso: o coadjutor salesiano.

O internato do Oratório de Valdocco cresceu. Em 1861, eram 800 meninos. Mamãe Margarida vendia objetos de estimação para arranjar dinheiro. Alimentar e educar aqueles meninos custava muito. Em 1859, Dom Bosco reuniu o primeiro grupo de jovens educadores no Oratório. Este grupo deu origem à Congregação Salesiana.

Nos anos seguintes, Dom Bosco fundou e organizou a Congregação Salesiana, o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora e os Cooperadores Salesianos. Costruiu, em Turim, a Basílica de Nossa Senhora Auxiliadora, e fundou 59 casas salesianas em 6 países. Abriu as missões na América Latina. Publicou as Leituras Católicas para o povo mais simples. Sobretudo, viveu o modo evangélico de educar através da Razão, Religião e Carinho, que passa à história como referencial pedagógico denominado Sistema Preventivo.

A alguém que lhe lembra tudo o que fez, responde: Eu não fiz nada. Foi Nossa Senhora quem tudo fez.

Morreu em 31 de janeiro de 1888, deixando esta recomendação: Amem-se como irmãos. Façam o bem a todos e o mal a ninguém. Digam a meus jovens que os espero no paraíso. Foi beatificado em 1929 e canonizado por Pio XI em 1934.

Fonte:http://www.santuariodombosco.org.br/dom_bosco.php

BIOGRAFIA 2 – LIVRO DOM BOSCO Pe. A. Auffray SDB – 4a. Edição – Editorial Dom Bosco – São Paulo 1946.

Introdução

Que precioso punhado de sementes que é a vida de Dom Bosco! Que estupenda floração de exemplos de santidade, de estímulos para o apostolado, de sincera e exultante glorificação! Onde quer que se leia a narração dessa vida cheia da mais vária policromia de fatos, de vicissitudes, de heroísmos, de incompreensão dos homens, de proteção do céu, de milagres, de profecias, de vasta e ubertosa irradiação de apostolado, iluminam-se as frontes, aquecem-se os corações e movimentam-se todas as fibras do entusiasmo.

Ora, dos muitos que escreveram a vida de Dom Bosco, “para que toda a terra conheça tais maravilhas”, o ilustre salesiano francês, P. Agostinho Auffray, está entre os que mais palmas lograram merecer, pela maneira feliz com que soube aliar a fidelidade histórica, o sabor literário e a analise perscrutadora dos vários lados da figura desse “Gigante da caridade”. O leitor, ao mesmo tempo que penetra sensivelmente no recinto histórico em que viveu Dom Bosco e contempla o vivo desenrolar-se dos acontecimentos em que o Santo foi protagonista, tem a satisfação de se ver nisso acompanhado por um guia ilustrado e atencioso, o qual não deixa passar despercebido nenhum dos tesouros que se escondem sob a amável simplicidade do grande educador do século dezenove.

Foi o desejo de tornar participantes de tanta riqueza aos leitores patrícios que nos levou à audácia de tentar a tradução de obra tão formosa. Dizemos audácia, sim, porque esta pobre tradução deixa apenas adivinhar o que se contém de primoroso no áureo estilo do original, premiado pela Academia Francesa. Em todo o caso procuramos ser fiel. E fazemos votos que a singeleza de nosso estilo desataviado tenha por isso mesmo deixado subsistir livre e dominadora toda a cativante nitidez da narração e da análise do autor.

Nascimento

Para sermos exatos, devemos dizer que João Bosco não nasceu precisamente em Castelnuovo d’Asti. Seus pais moravam cinco quilômetros mais para o interior, em Becchi, minúsculo grupo de casas da pequena vila de Murialdo, pertencente ao município e à paróquia de castelnuovo. Nasceu no dia 16 de agosto de 1815, de Francisco Bosco e de Margarida Occhiena; no dia seguinte foi batizado com os nomes de João Melquior. O pai do menino era um lavrador que sustentava a .família com seu trabalho. Tinha, é verdade, além da casa em que morava, algumas jeiras de terra; mas isso não bastava para sustentar as seis bocas que havia em casa; sim, porque sob aquele teto minúsculo moravam, além da mãe setuagenária, a mulher, um filho de doze anos -Antônio – nascido de um primeiro matrimônio, e os dois meninos nascidos de Margarida Occhiena, José e João. Por felicidade os dois cônjuges eram moços ainda ele tinha 31 anos e ela 27 – e o trabalho não os assustava.

Morte de Pai

Uma tarde de maio, Francisco Bosco, depois de um dia penoso de trabalho que o deixara Imerso num banho de suor, cometeu a imprudência de entrar na adega do proprietário vizinho, seu patrão. Dali saiu com uma pneumonia violenta que em quatro dias o levou à sepultura. Foi essa a mais antiga e a mais dolorosa das lembranças que João Bosco guardou de seus primeiros anos. Trinta anos mais tarde, quando rodeado dos primeiros meninos do seu Oratório de Turim lembrava diante de seus olhinhos atentos a infância longínqua, mais de uma vez ouviram-no contar a cena terrível: “Eu não tinha ainda dois anos quando meu pai morreu e não lembro mais sua fisionomia. Lembro somente estas palavras de minha mãe: Joãozinho, não tens mais pai. Todos iam saindo do quarto do morto, mas eu teimava em ficar. E mamãe insistia docemente: “Vem Joãozinho, vem”. E eu respondia: “Se papai não vier, eu também não vou”. – “Vem filhinho, teu pai já não vive mais”. E com essas palavras, minha santa
mãe, rompendo em soluços, me levou embora. Eu chorava porque via que ela estava chorando, mas naquela idade não podia compreender o porquê. No entanto aquela expressão: “Não tens mais pai” me ficou sempre gravada na mente. Depois desse primeiro sofrimento até a idade de cinco anos não conservo mais nenhuma lembrança de minha infância.”

A educação de Dom Bosco

Depois da morte do chefe, a viúva tomou as rédeas do governo da casa…Margarida aproveitava todas as menores ocasiões para imprimir o pensamento de Deus Criador, em todos os seus aspectos, nos corações dos filhos. Nas noites estreladas chegavam à soleira da casa e ela dizia: “Foi Deus que colocou lá em cima todos esses astros maravilhosos. Se é tão belo o firmamento, que não será o Paraíso?”. Ou então diante do espetáculo magnífico da aurora a tingir de matizes incomparáveis a neve dos Alpes no horizonte “Quantas maravilhas Nosso Senhor criou para nós, meus filhos!” As vezes uma chuva de pedra devastava toda a vinha ou parte dela. E Margarida sussurrava: “Baixemos a cabeça meus filhos. Deus nos tinha dado esses lindos cachos de uva. Deus no-los tirou. Ele é o Dono. Para nós é uma provação; para os maus é um castigo”. E quando nas noites de inverno, o vento uivava lúgubre ou a chuva martelava o teto, enquanto a família estava toda agasalhada encolhidinha junto ao fogo que crepitava, Margarida dizia aos filhinhos: “Como devemos querer bem a Deus que nos dá tudo o que é necessário! Ele é mesmo o nosso Pai, o Pai nosso que está no céu”.

A pobre casa de Becchi guardava a triste lembrança de uma tarde em que não havia nada, absolutamente nada, com que matar a fome. Um amigo percorrera dois dias inteiros fazendas e mercados para ver se comprava, por qualquer preço que fosse, alguma Coisa com que alimentar aquelas cinco bocas : fora tudo inútil, voltara de mãos vazias! A pobre mulher não sabia mais a que santo recorrer e via definhar de fome as três crianças e a pobre avozinha. E verdade que no estábulo havia uma vaquinha leiteira. Era o que garantia a toda a família de camponeses uma parte do alimento cotidiano. Mas seria prudente sacrificar a vaca ou o bezerrinho? Não seria arriscar o futuro se a carestia continuasse ainda? Margarida tinha a alma perplexa: era hora de rezar. E então a família inteira se pôs de joelhos para implorar de Deus o conselho; depois a mãe levantou-se resoluta; tinha passado a hesitação. Auxiliada pelo vizinho foi ao estábulo. De aí a minutos o novilho estava abatido. Mais algumas horas e aqueles pobres estômagos minoravam finalmente os sofrimentos que desde muitos dias os vinham atormentando.

A mãe conservava os três meninos sempre afastados das companhias perigosas. É verdade que tais companhias eram raras naqueles tempos; mas a ovelha ronhosa, -capaz de contaminar todo o redil, se encontra em toda a parte e sempre; e acontecia que os três meninos se aproximavam de companheiros maus sem o saberem. Porém a mãe sabia.

-Mamãe, podemos ir brincar com aquele menino que nos está chamando?
-Sim, meus filhos – E as crianças corriam alegres para o terreiro diante da porta. Mas outras vezes a resposta aos desejos dos meninos era um “não” decidido; e então não passavam a soleira da porta nem por todo o ouro do mundo.

Em Becchi eram pobres, bem pobres. Mas justamente por isso não faltava nunca um lugar para um mendigo que batesse à. porta. E como sabiam que a casa era hospitaleira não faltavam os clientes. No mais das vezes eram mendigos verdadeiros ou então vendedores ambulantes que passavam por ali; outras vezes eram desertores do exército que se escondiam nos bosques vizinhos, ou bandidos perseguidos pela polícia. Quando caía a noite essa gente ia bater à boa porta que nunca deixava de se abrir. Qualquer pobre viajante que passasse encontrava um prato de sopa e uma fatia de polenta: e lhe mostravam um cantinho no paiol para a noite. Algumas vezes o pobrezinho não tinha nem tempo de encarapitar-se no caridoso esconderijo, pois já apareciam os guardas ao pé da colina; e tinha que escapar por uma porta enquanto eles entravam por outra… e Margarida os convidava a assentar-se, a tomar um copo de vinho, e aquecer-se e enfim a estar à vontade como se estivessem em sua própria casa. Uma vez aconteceu até que alguns desses infelizes não tiveram tempo de fugi’ e se esconderam tremendo no estábulo; e de aí separados apenas por uma parede fininha, iam seguindo no auge da inquietação a conversa dos policiais. Mas sob o teto
de Margarida jamais fora violado o direito de asilo; os próprios guardas sabiam que a casa se abria para todos, para eles como para seus “clientes”, sem distinção, com toda a caridade.

Sonho de Dom Bosco

Aos nove anos tive um sonho que me ficou profundamente gravado na memória. Por toda a vida. No sonho pareceu-me estar perto de casa, numa área bastante espaçosa, onde brincava uma multidão de meninos. Alguns riam, não poucos blasfemavam. Ao ouvir aquelas blasfêmias, lancei-me imediatamente no meio deles, tentando, com socos e palavras, fazê-los calar. Nesse momento apareceu um Homem…nobremente vestido. Seu rosto era tão luminoso que eu não conseguia fixá-lo. Chamou-me pelo nome e disse:

-Não com pancadas, mas com a mansidão e a caridade é que deverá ganhar esses seus amigos. Ponha-se logo a instruí-los sobre a feiúra do pecado e a preciosidade da virtude.

Confuso e assustado, respondi que eu era um menino pobre e ignorante incapaz de lhes falar de religião. Naquele instante os meninos, parando de brigar e gritar, juntaram-se ao redor do Personagem que falava. Quase sem saber o que dizia, perguntei:

-Quem é o senhor que me ordena coisas impossíveis?

-Justamente porque parecem coisas impossíveis é que você deve torná-las possíveis com a obediência e a aquisição da ciência.

-E como poderei adquirir a ciência?

-Eu lhe darei a Mestra. Sob sua orientação você poderá tornar-se sábio.

-Mas quem é o senhor?

-Sou o Filho dAquela que sua mãe ensinou a saudar três vezes ao dia. O meu nome? Pergunte-o a minha Mãe.

Nesse momento vi a seu lado uma Senhora de aspecto majestoso, vestida de um manto todo resplandecente como o sol. Percebendo-se confuso, acenou para que me aproximasse. E tomando-me com bondade pela mão, disse:

-Olhe!

Olhando, percebi que aqueles meninos haviam fugido e em seu lugar estava uma multidão de cabritos, cães, gatos,ursos e outros animais.

-Eis o campo! É por aí que deverá trabalhar. Torne-se humilde, forte e robusto: e o que agora está vendo acontecer com esses animais, você o fará por meus filhos.

Tornei então a olhar: em vez de animais ferozes, apareceram manso cordeirinhos que, saltitando e balindo, corriam ao redor daquele Homem e daquela Senhora, como para fazer-lhe festa.

Neste ponto, sempre no sonho, desatei a chorar e pedia àquela Senhora que falasse mais claro,porque não sabia o que Ela queria dizer. Então a Senhora me pôs a mão na cabeça e disse: “A seu tempo tudo compreenderás”. (Livro Dom Bosco: Uma biografia nova. Autor: Terésio Bosco. p.16-17)

De manhãzinha, quando João contou o sonho à família reunida, cada um deu o seu palpite. José disse placidamente : “Certamente você vai ser pastor de ovelhas, de cabras e de outros animais”. – “A não ser que vá acabar como chefe de bandidos” emendou maldosamente Antônio. A avó prudente, sentenciou: “Não se deve dar crédito a sonhos”. Mas Margarida, envolvendo o filho num grande olhar de ternura, suspirou: “Quem sabe se um dia não serás sacerdote?”

Encontro com Padre Calosso

Algumas semanas depois, no início da primavera desse ano de 1826, parece que a Providência quis encaminhar o menino para a meta dos seus desejos. Um incidente, aliás insignificante, uma simples conversa numa estrada pareceu vir abrir-lhe o caminho para o estudo.

Um velho sacerdote setuagenário voltava assim todas as tardes com seus paroquianos; era o Padre Calosso, cura de Murialdo. Apesar dos seus tardos anos, percorria também ele os dezesseis quilômetros por dia para merecer na tarde da vida o grande perdão do Jubileu. Durante a caminhada vinha observando desde o início da semana aquele menino de cabelos encaracolados, de passos ágeis que ia um tanto separado de todos os outros como que a ruminar recolhido a palavra dos missionários.
E o diálogo entre o padre e o menino recomeçou.

-Qual é o teu nome? Quem são teus pais? Que escola estás freqüentando?
-Chamo-me João Bosco; perdi meu pai na idade de dois anos; mamãe tem cinco bocas para sustentar. Sei ler e também escrever um pouquinho.
-Já sabes um pouco de gramática?
-Não sei o que é isso.
-Gostarias de estudar?
-Nem se fale!
-Mas e porque não estudas, então?
-É que meu irmão Antônio não quer.
-Porque?
-ele sempre diz que para trabalhar na enxada qualquer instrução é mais que suficiente.
-E para que é que gostarias de estudar?
-Para ser padre.
-E porque queres ser padre?
-Para atrair a mim os meninos, ensinar-lhes a religião e impedir que se tornem maus. Eu já reparei bem que quando seguem o mau caminho é porque ninguém cuida deles… Mas, dê licença, senhor Cura, já estou chegando; tenho que subir por aqui para chegar a Becchi. De fato o menino e o grupo que estava com ele se achavam ao pé da colina em cujo cimo fica o povoado. Ninguém tinha achado o caminho comprido.
-Sabes ajudar a missa, Joãozinho? Perguntou ainda o velho Cura, já para se despedir.
-Sei, mais ou menos.
-Então vem ajudar-me amanhã. Tenho uma coisa a te dizer.
O menino foi. Depois da missa, o bom padre lançou ainda um olhar sobre aquela alma de camponesinho e concluiu que era mesmo chamado para uma missão mais elevada que a de trabalhar na terra. Devia trabalhar, semear, ceifar, enceleirar, tudo isso, sim, mas no campo das almas.

-Dize a tua, mãe que venha falar comigo domingo, combinaremos tudo a respeito do teu futuro.

No domingo seguinte Margarida foi falar com o padre Calosso e ficou combinado que todas as manhãs Joãozinho, iria a Murialdo receber uma lição de latim. No resto do dia continuaria a trabalhar no campo, uma vez que Antônio espreitava ciumento, obtuso e tirânico. Pouco faltou que não provocasse um escarcéu quando soube da decisão tomada; acalmou-se quando calculou que as tais lições só iriam ter inícios seis meses mais tarde, no outono, quando os trabalhos da lavoura começam a rarear.

E foi um ano delicioso o que o menino passou ao lado do Cura de Murialdo. Ele irá recordá-lo sempre com comoção. Achara finalmente o padre com que sempre sonhara bom, simples, paterno, e ao mesmo tempo tão piedoso, tão sábio nos seus conselhos, tão firme no seu proceder!

Se Antônio via o irmãozinho com um livro, embora num dia em que não fosse mesmo possível fazer nenhum outro trabalho – como por exemplo um dia de chuva ou um dia santo – arrancava-o e atirava-o contra a parede gritando “Já te disse cem vezes que não quero ver-te com livros. Nasceste para ser lavrador como eu; põe isso na cabeça”. A situação era tão crítica que não podia durar mais tempo. Margarida compreendeu. No outono seguinte, para evitar brigas, fez João suspender as lições. Mas esse ato, tão doloroso para os dois corações, ainda não foi bastante para acalmar a ira do irmão maior. E então numa tarde de fevereiro foi decidido o grande sacrifício. – “É melhor que te afastes de aqui, Joãozinho, disse a Mãe soluçando. Estás vendo que Antônio não acalma mesmo. Parte com a graça de Deus. Vai procurar trabalho nos sítios vizinhos. Se não achares, vai a Moncucco e lá procura a família Moglia: é gente rica e boa e hão de te receber. E isso amanhã mesmo, sim? Está portanto combinado”.

“Ninguém -escrevia ele mais tarde – poderia fazer uma idéia de minha felicidade! O Padre Caloso era para mim um anjo de Deus. Eu o amava mais que a um pai, rezava continuamente por ele , para assim demonstrar-lhe a minha gratidão. Na sua modesta casa eu progredia mais num dia do que numa semana em Becchi”.

E a morte veio, brutal e inesperada, truncar de um só golpe os sonhos do menino. Com toda a ligeireza de suas pernas o rapazinho correu para a cabeceira de seu benfeitor. Infelizmente a paralisia cerebral tinha dominado o bom velho. Já não falava mais. Todavia por meio de gestos, pôde indicar que debaixo do travesseiro estava uma chave, que essa chave era da escrivaninha e que tudo o que lá estava era para ele, João.

O pensamento do bom sacerdote ainda estava lúcido e a sua intenção era manifesta. Depois da morte queria, como havia prometido, proteger a vocação de seu discípulo e fazê-la chegar até ao fim. Esse fato se deu no dia 9 de novembro. Na tarde do dia 21 o Padre Caloso morreu com a idade de 75 anos.
Com essa morte inesperada, João estava para ser atirado de novo num caminho desconhecido e quem sabe como e quando poderia reatar os seus estudos! As economias do velho cura – 6.000 liras! -resolviam imediatamente o problema e o menino podia ficar com esse dinheiro de acordo com a mais sã consciência. – Mas, e isso não iria talvez lesar os direitos dos herdeiros? Que situação angustiosa! Que terrível tentação! Por fim, triunfou a confiança em Deus. Quando vieram os herdeiros do Padre Caloso – escreveu Dom Bosco nas memórias – entreguei-lhes a chave da escrivaninha e tudo o mais que lhes pertencia”.

Confirmação do sonho profético

Certa manhã de agosto, um vizinho do Sussambrino, José Turco, encontrou-o a irradiar alegria do rosto e dos olhos. E lhe perguntou -Que novidade é essa, Joãozinho? Há tempo que eu te via todo triste e preocupado, e esta manhã tão alegre?
-Ah! senhor Turco, agora eu tenho plena certeza que serei padre um dia!
-Não digas! E como é isso?
-Esta noite tive um sonho, que me garante. Vi aproximar-se de mim uma senhora majestosa, a apascentar um grande rebanho. Chegou perto de mim, chamou-me pelo nome e me disse – “Joãozinho, vês este rebanho? Pois eu o entrego todo a ti. – Mas como, poderei tomar conta de tantos cordeirinhos e de tantas ovelhas? Não tenho pastos aonde conduzi-los.
– Não temas, eu velarei teus passos e te ajudarei”. E a visão desapareceu.
-O senhor vê portanto que tenho motivo para ficar tranqüilo, conclui Joãozinho.

Amizades de Dom Bosco

Inteligência de escol, João Bosco era também um coração de apóstolo. Em Chieri como em Castelnuovo, ou em Moncucco, em Becchi, sua preocupação era a juventude. Essa que vai correndo pelas ruas, essa da qual ninguém se ocupa, que está exposta a todos os perigos e que têm máxima facilidade de neles cair. Os companheiros maus propriamente ditos, esses ele os evitava, seguindo o conselho que recebera da mãe na manhã de sua primeira comunhão: “Fugir das más companhias como da peste”. E em Chieri havia também de tais malvados, capazes de perverter as melhores almas. No seu diário Dom Bosco escreveu “Encontrei alguns que me queriam arrastar ao teatro, ao jogo a dinheiro, a ir nadar. Mais de um me convidou a roubar nos terrenos alheios. E um chegou ao ponto de me aconselhar a furtar dinheiro de minha patroa para comprar gulodices”.

Com esses tipos não se podia conseguir nada. Ele o sabia. Mas com os outros, a massa, os tímidos, os fracos, os ignorantes, que imenso campo aberto ao seu zelo de pequeno apóstolo.

Começou a reuni-los numa sociedade de companheiros alegres: A Sociedade da Alegria. Essa agremiação tinha apenas dois artigos nos seus estatutos:
1) Cada sócio tem obrigação de fugir de toda a conversa e de toda a ação indigna de um cristão.
2) Todos os sócios devem distinguir se pela diligência em cumprir todos os deveres de estudo e de religião.

Além disso a ordem para todos era: fugir da tristeza e da melancolia. E ninguém transgredia esse ponto. As vezes, chefiados por João, saíam a passeio pelas colinas floridas cujos cimos dominam Turim e voltavam trazendo, conforme a estação do ano em que se achavam, cada um seu punhado de morangos silvestres, de murtinhos ou de cogumelos. Outras vezes partiam corajosamente em demanda da Capital. Levavam no bolso um pedaço de pão para a merenda. E não lhes causavam medo os vinte e cinco quilômetros de ida e volta. Eram jovens e ágeis. A tarde voltando contavam o que tinham visto. Um descrevia o cavalo de bronze da Praça de São Carlos, outro o cavalo de mármore da escadaria de honra do Palácio Real. Outras vezes ainda, – e isto acontecia especialmente nas tardes de muito calor – contentavam-se em sair da cidade e ir sentar-se numa pontezinha que havia perto, para apreciar as habilidades do inexaurível prestidigitador de Becchi. E, como sempre, a boa e franca alegria terminava numa oração. A sociedade tinha suas reuniões ora em casa de um, ora em casa de outro, onde houvesse lugar para todos; falava-se de todos os assuntos, mas especialmente de religião. E no domingo à tarde não havia coisa no mundo que lhes fizesse deixar o catecismo. João os levava à igreja dos Padres Jesuítas e ai assistiam ao catecismo amenizado com um mundo de lindas histórias que aqueles bons padres sabiam contar aos estudantes sempre amigos de contos.

Para ajuda-lo no seu zelo, fez Deus desabrochar no caminho de João uma preciosa flor de amizade cristã. É o jovem Comollo do qual vamos falar… Depois da morte de Comollo, veremos João, moço de 24 anos renunciar heroicamente, para sempre, às doçuras inefáveis da amizade. Mas depois de ter respirado o suave perfume dela durante quatros anos. Como tinha nascido essa afeição profunda entre os dois? Da maneira mais simples do mundo. Uma vez em Chieri falava-se numa pensão de estudantes sobre as virtudes de alguns deles. O dono da casa Senhor Marchisio. disse: Em Chieri há um moço que é tido como santo; é o sobrinho do pároco de Cinzano. Ao ouvir essa solene afirmação, João começou a sorrir. Santo não é coisa de todos os dias. E depois… um santo tão precoce era realmente coisa curiosa. Mas o dono da casa insistiu: É mesmo como estou dizendo aos senhores. E depois o moço tem por quem puxar. O Pároco, seu tio, é, ao que parece, muito venerado nestes arredores.

Todo o mundo sabe que, se na hora de iniciar as aulas o professor tarda um pouquinho a chegar, os alunos espontaneamente ficam à vontade. O colégio de Chieri não fazia exceção a essa regra. Lá também, esses poucos minutos sem vigilância eram minutos de verdadeira balbúrdia. Uns davam empurrões nos companheiros, outros pulavam por sobre as carteiras, riam, gritavam, cometiam mil diabruras, até que a chegada do professor fazia cessar tudo bruscamente. Certa manhã, em que a rapaziada estava fazendo um barulho particularmente insuportável, um aluno dos mais levianos viu um colega quieto no seu lugar a repassar as lições e quis obrigá-lo a
tomar parte na algazarra geral.

-Vamos! Deixe os livros e vem brincar conosco.
-Muito obrigado, respondeu o aluno interpelado, não estou com vontade. E além disso não sou capaz de brincar como vocês.
-Tens que vir assim mesmo. Se não, te farei vir a poder de socos e pontapés.
-Faça como quiser, mas eu não vou e não quero ir…
Nem chegou a acabar a frase. Duas solenes bofetadas ciaram-lhe no rosto. O ofendido empalideceu ao receber o insulto, depois o sangue lhe cobriu ao rosto. Mas, dominando a comoção, balbuciou docemente, no meio do silêncio trágico da classe: – Estás contente agora? Pois então deixe-me tranqüilo. E está perdoado! Era um ato heróico de paciência e João Bosco que assistia à cena sentiu-se comover até o mais profundo… E perguntou: Quem é esse companheiro novo que não conheço ainda?

-É Luiz Comollo, sobrinho do pároco de Cinzano.
-Muito bem! Tinha encontrado, sem procurar, o modelo que tanto ouvira elogiar em casa do senhor Marchisio. Estava satisfeito!

Desde esse dia, a mais profunda amizade uniu o dois moços: o aluno de humanidades e o aluno de retórica. Tornaram-se inseparáveis. Tudo neles os aproximava um do outro: a piedade, o entusiasmo pêlos estudos, o amor a Nossa Senhora, o zelo pelo bem dos companheiros, o espírito de sacrifício e… até a diferença de temperamento. Pois Bosco e Comollo eram dois gênios diferentes. Luiz Comollo era calmo, recolhido, amigo da solidão, de compleição bastante delicada, excessivamente tímido. João Bosco, pelo contrário, era todo vida e movimento; dotado de uma força física fora do ordinário, só desejava ter ocasiões em que empregá-la; ávido de ação, suspirava por qualquer oportunidade em que pudesse ajudar ao próximo. Era afinal um temperamento sangüíneo, enquanto Comollo se qualificava entre os fleumáticos. Entretanto jamais uma amizade foi tão harmoniosa como essa e poucas deram frutos tão bons. E dos dois qual lucrou mais? João confessa ter sido o mais beneficiado e deve-se aceitar sua declaração. Pois não se pode negar que Comollo exerceu uma profunda influência sobre João Bosco. Esta alma naturalmente impetuosa e violenta, tendo sempre diante de si a doçura constante do amigo, tornou-se a alma mais pacifica, mais calma, mais senhora de si que jamais se possa imaginar.

Um dia em que Comollo recebeu outra bofetada sem se lamentar, Bosco atirou-se contra os agressores e lhes administrou uma solene surra. Porém o amigo, embora agradecendo, lhe disse: – “Tua força me espanta, João. Mas lembra-te que Deus não te deu tal força para esmagar os outros. Ele quer que nos amemos, que perdoemos, que façamos o bem a quem nos faz mal”.

Encontro com Padre Cafasso

O Padre Cafasso, que iremos conhecer largamente no capítulo seguinte, era conterrâneo de Bosco e quatro anos mais velho que ele. Tinha sido ordenado padre havia bem pouco tempo, mas desde o Seminário Maior gozava de tal fama de santidade que atraía a si, como estamos vendo, tantas almas inquietas, ou perturbadas.

No seminário de Chieri, João Bosco encontrou as pegadas ainda recentes de seu benfeitor. Respirou ainda o perfume persistente de sua virtude. Ele próprio é quem nos conta: “Além de tudo o mais, o que prendia a gente dentro daqueles muros era o nome bendito do Padre Cafasso. O perfume de suas virtudes ainda se expandia por todo o Seminário. A caridade para com os companheiros, a submissão aos Superiores, a paciência no suportar os defeitos do próximo, a atenção em não ofender a ninguém, o gosto que experimentava em servir a todos, a indiferença quanto ao passadio, a resignação diante da inclemência das estações, a prontidão em dar catecismo às crianças, o porte sempre edificante, o zelo pelo estudo e pela piedade, brilharam de esplendor tão vivo durante os seus anos de seminário que deixaram após si uma fragrância duradoura…”

João Bosco ficou seis anos no Seminário, dois de filosofia e quatro de teologia. A fama que lá deixou foi pelo menos tão elevada quanto a do Padre Cafasso…A sobriedade desta anotação marginal traduz bem francamente a realidade. O clérigo Bosco foi realmente um modelo de seminarista. Fiel até ao escrúpulo na observância dos deveres mais pequeninos, deixava-se guiar docilmente pelo regulamento da casa, pelo horário, pelo sino; executava com prontidão tudo o que lhe era ordenado. Dotado de grande capacidade de trabalho e de inteligência pronta, aprendia num instante a lição marcada. E então empregava as sobras de tempo em leituras e no estudo de línguas. É incrível o número de livros de doutores da Igreja e de escritores eclesiásticos que conseguiu devorar nesses anos. A seu respeito os companheiros notaram também uma particularidade que indica um raro domínio de si mesmo: ninguém jamais o viu encolerizado, nem o ouviu lamentar-se do passadio do Seminário. Tudo aceitava com um sorriso, e nas provações cotidianas que forjavam sua vontade, adorava a santa vontade de Deus.

Ordenação Sacerdotal de Dom Bosco

Nas ordenações de setembro de 1840 recebeu o Subdiaconato, em Turim; na primavera de 1841, no sábado da Paixão, o Diaconato; e finalmente no dia 26 de maio, festa de São Felipe Neri, entrou em retiro espiritual, em Turim, em casa dos Padres da Missão, a fim de preparar-se para o Ordenação sacerdotal. Num minúsculo canhenho, que guardou até o fim da vida, tomou nota dos propósitos que a graça lhe sugeriu nesses dias de benção. Ei-los reproduzidos fielmente “O padre não vai jamais sozinho para o Céu nem para o Inferno. Se for fiel à sua vocação vai para o Céu com as almas que com o seu bom exemplo tiver salvado; se proceder mal e escandalizar os irmãos, irá para o Inferno juntamente com as almas condenadas por causa de seus maus exemplos. Este pensamento me vai ajudar a manter com todo o esforço os seguintes propósitos:

1. Jamais darei um passeio sem necessidade.
2. Ocuparei escrupulosamente o tempo.
3. Sempre que se tratar da salvação das almas, encontrar-me-ão pronto a sofrer, a agir, a humilhar-me.
4 . A caridade e a doçura de São Francisco de Sales iluminem todas as minhas ações.
5. Mostrar-me-ei sempre contente com o alimento que me derem, a não ser que seja realmente prejudicial à saúde.
6. Tomarei vinho sempre “batizado” e só como remédio, isto é, nos dias e na medida que minha saúde exigir.
7. Como o trabalho é uma arma poderosa contra os inimigos de minha salvação, darei ao sono apenas cinco horas por noite. Durante o dia, e especialmente depois da refeição não repousarei nunca a não ser em caso de doença.
8. Consagrarei todos os dias alguns momentos à meditação e à leitura espiritual. Durante o dia farei uma breve visita ou pelo menos uma oração ao Santíssimo Sacramento. Minha preparação para a Missa durará um quarto de hora. O mesmo se diga da ação de graças.
9. Fora do tribunal da Penitência e salvo raríssimas exceções necessárias, nunca me deterei a conversar com mulheres.

Quem conferiu o sacerdócio ao jovem diácono foi Mons. Franzoni, Arcebispo de Turim. Este o conhecia um pouco e o estimava muito em vista das relações apresentadas pelo Reitor do Seminário de Chieri. Mas bem longe estava de imaginar o papel considerável que iria desempenhar na igreja o jovem sacerdote, que ele ordenava na sua Capela particular, na manhã de 5 de junho de 1841, vigília da Festa da SS. Trindade.

No dia seguinte, na igreja de São Francisco de Assis, no altar do Anjo da Guarda, situado à esquerda do altar-mór, assistido pelo seu amigo e benfeitor Padre Cafasso, professor de casuística no Pensionato Eclesiástico, contíguo à igreja, o padre João Bosco celebrava a sua primeira missa. Ele dispusera tudo para que a missa fosse simplicíssima, sem aparato nem barulho, muito cheia de recolhimento, para poder sem
distração agradecer a Deus a graça de o ter conduzido até a meta sonhada desde a infância… E sem dúvida o jovem sacerdote devia pensar na longa cadeia de graças que lhe tinham facilitado a subida até o sacerdócio.

Mais uns passos ainda e atravessaram a soleira da pobre casita, espectadora de tantas cenas de alegria e de lágrimas mãe acendeu a candeia e tratou de preparar tudo para o descanso noturno. Depois, como outrora, como vinte anos atrás, daqueles dois corações puros subiu aos céus a oração da noite. Quando se ergueram da prece, a velha mãe, que se deixara ficar quase sempre silenciosa em todo aquele dia de emoções, tomou entre as suas mãos as mãos do filho e com acento muito grave, e muito doce, falou:

“João, agora és padre! Agora dirás missa todos os dias. Lembra-te bem disso: começar a dizer missa é começar a sofrer. Não o perceberás logo, mas um dia, mais tarde, verás que tua mãe tinha razão. Todas as manhãs, tenho certeza, hás de rezar por mim. Não te peço outra coisa. De hoje em diante pensa somente na salvação das almas e não te preocupes absolutamente comigo”.

Encontro Providencial com Bartolomeu Garelli

E a hora chegou precisamente no dia consagrado à Virgem Nossa Senhora, 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição. Na sacristia da igreja de São Francisco de Assis, Dom Bosco estava paramentado para celebrar missa e esperava um ajudante. Recolhido como estava, não percebera a entrada de um rapaz já desenvolvido, de seus dezesseis anos, vestido miseravelmente. A curiosidade o conduzira até ali e ele estava precisamente observando tudo com a admiração de quem via aquilo pela primeira vez: a sala, os móveis, o padre em trajes tão engraçados, todo aquele conjunto imponente e severo. O sacristão, mal entrou, foi gritando em tom de ameaça:

-Que fazes aqui? Não estás vendo que o padre está só esperando um ajudante? Vamos, pega o missal, e ajuda à missa.
-Mas eu não sei ajudar à missa, responde o rapaz.
-Então por que entraste aqui dentro?
Donde é que saem estes tipos que vão entrando em toda a parte como se fosse em casa deles? Rua daqui! Imediatamente!

E, dizendo isto, tomou um espanador, e pôs-se a correr atrás do menino. O pobrezinho, não conhecendo bem as portas, saiu por onde não devia sair, foi dar numa porta fechada, teve que voltar à sacristia, sempre perseguido pelo sacristão furioso, até que conseguiu finalmente retomar o caminho por onde tinha entrado e saiu para a rua.

-Para que bater nesse rapaz, disse Dom Bosco, ao vê-lo voltar todo esbaforido pela carreira. Não é assim que se faz.
-Mas então para que vem ele à sacristia?
-Ora! não vejo nenhum mal nisso. E não consinto que se tratem assim os meus amigos.
-Seu amigo? Aquele moleque?
-Justamente. Quando alguém é maltratado, só por isso já fica sendo meu amigo. E eu faço questão que o senhor não maltrate mais ninguém desse jeito. Do contrário di-lo-ei ao Padre Guala. Volte e vá chamar o rapaz; ainda não deve estar longe e eu preciso falar com ele. De aí a minutos o sacristão voltou com a vítima ainda toda a tremer.
-Vem cá, meu amigo, vem cá, não te quero fazer mal. Como te
chamas?
-Bartolomeu Garelli.
-De onde és?
-Sou de Asti.
-Qual é o teu ofício?
-Pedreiro.
-Tens pai?
-Não, já morreu.
-E mãe?
-Também morreu.
-Que idade tens?
-Dezesseis anos.
-Sabes ler, escrever?
-Não senhor, nem uma nem outra coisa.
-E cantar? E assobiar?
O rapaz deu uma risadinha. Estava aberto o coração, a amizade começava
a nascer.
-Dize-me uma coisa, Bartolomeu : já fizeste a primeira comunhão?
-Ainda não.
-Já te confessaste alguma vez?
-Já, mas faz muito tempo, quando eu era pequeno.
-E rezas as orações da manhã e da noite?
-As orações eu esqueci.
-E à missa aos domingos, vais?
-Isso sim, quase sempre. .
-E ao catecismo?
-Não tenho coragem.
-Ora! Por que?
-Porque fico com vergonha. Os outros meninos menores do que eu sabem o
catecismo melhor.
-E se eu explicasse o catecismo para ti somente, virias?
-Então sim.
-E quando queres começar?
-Quando o senhor quiser.
-Hoje de tarde serve?
-Serve.
-E se fosse agora mesmo?
-E só o senhor querer.
-Então está bem. Assistes à missa e depois vamos estudar juntos um pouco de catecismo.

Meia hora depois. Dom Bosco estava de novo com o seu jovem amigo. Conduziu-o a uma saleta pegada à sacristia e começou a sua primeira lição de doutrina cristã. Eram as primícias de um apostolado que ia durar quase meio século.

Instintivamente o sacerdote compreendeu que uma grande coisa estava para nascer ali, a dois passos do tabernáculo. Ajoelhou-se e rezou – naturalmente sozinho uma ave-maria, uma simples ave-maria para que a Virgem Imaculada o ajudasse a salvar aquela alma. Seu coração sequioso de sacrifício e impaciente do desejo de dedicar-se à juventude passou todo inteiro através das palavras da eterna oração. Ao erguer-se teve a sensação de que sua obra de apostolado estava começando.

-“Sabes fazer o sinal da Cruz?” – foi a primeira coisa que perguntou a Bartolomeu.
O rapaz arregalou dois olhos espantados. Sinal da Cruz! Que poderia ser isso! – Como? – disse Dom Bosco de si para consigo – nem sequer o primeiro sinal que a criança aprende nos – joelhos da mãe! Numa capital católica encontrar meninos que não sabem nada de seu batismo! Que miséria e que vergonha! E os olhos do jovem sacerdote se abriam e ele via que sua missão era gigantesca e bela. Iria ao encontro desses pequeninos e lhes derramaria no coração o tesouro dos pobres que é a fé; a fé iluminada, instruída, que faz proceder retamente, que consola nas horas de pranto, que dá a explicação de tudo e que faz ganhar o céu com as boas obras que inspira. A primeira lição de catecismo foi breve. Meia hora no máximo; e o menino partiu já sabendo fazer o sinal da Cruz.
-Domingo voltas não é, Bartolomeu?
Sim, senhor, sem falta!
Então não voltes sozinho. Traze mais algum amigo teu. Eu darei a eles alguma coisa e a ti também para recompensar-te.

No domingo seguinte eram nove: Bartolomeu com mais seis amigos e outros dois apresentados pelo Padre Cafasso. Escutaram a palavra simples, afetuosa e persuasiva de Dom Bosco. Algumas semanas mais tarde, atravessando a igreja num domingo à noite, durante a prática, Dom Bosco encontrou alguns pequenos serventes de pedreiro a cochilar no degrau de um altar lateral, bem escondidinho na sombra. E lhes perguntou: – Que é que estão fazendo aí? Não estamos entendendo nada da prática, respondeu
o mais esperto deles; o padre não está falando para nós… – Pois venham comigo, respondeu Dom Bosco. E levou-os à sacristia e os persuadiu a irem aos domingos juntar-se ao seu rebanho que se ia formando. Assim já era bem uma dúzia de rapazinhos cheios de atenção e interesse. Poucos meses depois eram já oitenta e depressa passaram de cem. E todos operariozinhos, ocupados em trabalhos penosos, todos completamente ignorantes das coisas de Deus.

Veio em seu auxilio a Divina Providência. Seus dois Superiores, Padre Guala e Padre Cafasso, eram homens de Deus e compreenderam num relance a fecundidade daquela iniciativa. E portanto lhe permitiram que reunisse os meninos no próprio pátio do Pensionato. Era bem meritório consentir em fazer esse sacrifício, pois significava renunciar durante todo o dia de domingo à calma e ao silêncio daquele lugar de solidão. Mais de cem meninos brincando debaixo das janelas num pátio tão minúsculo, enchiam de barulho toda a casa. Mas aqueles santos sacerdotes pensavam: – Que importa? Se o nosso jovem amigo transforma este meninos em bons cristãos, nosso sacrifício ainda é bem pequeno.

Perseguição contra Dom Bosco

Entretanto ia acontecer a Dom Bosco coisa ainda pior. Até então sua obra tinha sido ameaçada só quanto às condições materiais: mas ia surgir dentro em pouco a desconfiança das mesmas autoridades. A tempestade desencadeou-se simultaneamente de dois lados. Antes de tudo, os párocos de Turim não viam com bons olhos tantos meninos reunirem-se sob as ordens de Dom Bosco. “Esses meninos diziam eles – pertencem a várias paróquias. Pois que freqüentem as suas igrejas paroquiais, em vez de estarem desertando para assistirem às funções ora aqui, ora ali e sempre com Dom Bosco. Dentro em breve, não conhecerão mais nem o Pároco nem o caminho da Paróquia, e isto não dá certo”.

O teólogo Borel lhes respondia. “Mas olhem que esses rapazes até ontem não freqüentavam igreja nenhuma. Todos eles ficariam certamente muito embaraçados se se lhes perguntasse de que paróquia são. Se não forem com Dom Borco, não irão a parte alguma. Deixem-nos portanto com o seu educador e eu lhes garanto que ele lhos fará ótimos paroquianos. Além disso a maior parte deles são de fora de Turim. Observem também que são rapazes já de quinze a dezoito anos; e poderiam os senhores colocá-los ao lado dos pequenos de dez a doze anos, nos bancos do catecismo para aprenderem a doutrina? E quero ainda que notem como Dom Borco consegue atraí-los porque usa certos meios – jogos, passeios, prêmios, aulas noturnas – para os quais é preciso habilidade especial e capacidade de resistência. Creio que os senhores não teriam coragem de imitá-lo, não é verdade?” Era o raciocínio do bom senso, que, porém, não persuadia a todos; e os preconceitos ficavam.

Ao menos por esse lado era uma homenagem que se prestava ao seu zelo. Mas havia outros que obscureciam malignamente as suas intenções. Alguns burgueses comodistas, vendo-o andar acompanhado de uma turma de meninos que lhe obedeciam rigorosamente, meteram na cabeça a idéia de que ele estava mantendo uma corja de desocupados, filhos de rebeldes, de espírito independente, prontos a apoiar com mão forte qualquer revolta popular. Dom Bosco foi por isso chamado à sede do Município. Lá, o Marquês de Cavour, Síndico de Turim e pai do célebre estadista, repreendeu-o severamente e finalmente mandou que ele desistisse daquela obra. “Sim, desistirei, respondeu Dom Borco, com nobreza, porém só com ordem do meu Arcebispo”.

“Pois eu mandarei dar essa ordem” terminou o Marquês, admirado e ao mesmo tempo irritado com a resistência do Santo. E tentou de fato conseguir a ordem do Arcebispo, mas foi inútil. Então a polícia secreta começou a vigiar Dom Borco. E assim, todos os
domingos, desde a abertura do Oratório ao ar livre, viam-se ao longo das cercas, agentes de polícia à paisana, que rondavam vigiando os passos daqueles possíveis revolucionários. Eram logo reconhecidos e se tornavam objeto de curiosidade e até de risos zombeteiros dos meninos. E Dom Bosco ainda se vingava graciosamente, no momento em que de pé sobre um montículo de terra dava os avisos a seu povo miúdo. Nessa hora os bons agentes se aproximavam cada vez mais e aguçavam os ouvidos o mais que podiam para não perder uma vírgula da fala de Dom Bosco. E ganhavam com isso, porque muitas vezes a prática era dirigida a eles e as alusões às suas necessidades espirituais eram muitas claras. Um deles chegou a dizer: “Se continuarmos a vir aqui uns dois ou três domingos acabaremos confessando-nos…”

Outros, ouvindo-o expor todos os seus planos de apostolado, diziam em surdina: “Pobre Dom Bosco! E uma idéia fixa. Está vendo as coisas com óculos de aumento. É um caso de megalomania. O pior é que poderia transtornar-lhe de uma vez o cérebro. E então…”

-Mas, não senhores, respondia Dom Bosco a esses incrédulos. Não estou vendo nada com óculos de aumento. Estou vendo tudo como vai ser! Não há dúvida. Vamos ter, e logo, pátios, casas. Teremos sacerdotes, clérigos, leigos que nos ajudarão a educar a juventude.
Teremos…
-Mas ao menos por enquanto não tens nada disso, lhe dizia o seu melhor amigo, o teólogo Borel.
-Isso é verdade. Mas não tardará muito que eu estarei à testa de um Oratório.
-De um oratório?
-Tenho certeza absoluta. Eu já estou vendo. Tenho-o diante dos olhos, com todos os seus pormenores: igreja, pátios, pórticos. Não falta nada.
-Mas onde é que vai ser isso?
-Por enquanto não posso dizê-lo. Mas que existirá é certo. E veremos.

Entretanto no meio do clero se ia propagando a voz que Dom Bosco realmente não estava bom do juízo e delirava visivelmente. Quem sabe não seria conveniente proporcionar-lhe umas semanas de descanso nalgum manicômio.

Essa idéia ganhou terreno nas altas camadas, tanto que um dia Dom Bosco viu chegar ao seu quarto dois venerandos cônegos, os quais, após os primeiros cumprimentos, encaminharam a conversa logo para o assunto dos projetos do apóstolo.

-E então, Dom Bosco, está mesmo firme na idéia de uma obra para juventude?
-Firmíssimo. Penso nisso como nunca.
-Mas como é que a imagina? Pequena? Modesta?
-Pequena? Ah! meus amigos, nada de coisas pequenas. Eu vejo uma obra imensa, com pátios, aulas noturnas, oficinas, ambientes amplos, igreja com capacidade para quinhentos meninos, e mais coisas que não lhes digo.
-E quem o ajudará?
-Ajudar-me? Terei padres, catequistas, assistentes, professôres, mestres de oficina…
-Um exército inteiro, então!
-Sem dúvida, um exército!
-Mas quem sabe pensa em fundar uma ordem religiosa?
-Justamente!
-E qual será o hábito dos seus religiosos?
-Vesti-los-ei de virtudes, respondeu Dom Bosco impassivel.
-De virtudes, não há dúvida. Mas é preciso alguma coisa mais.
-Pois é. E eu farei trabalhar e andar pela cidade em mangas de camisa,
como serventes de pedreiro.
A resposta dos dois interlocutores foi um sorriso amargo que se traduzia
assim: “Não há dúvida”.

-Será que eu disse alguma tolice? perguntou Dom Bosco, com um ar de admiração ingênua. Compreendam-me. O que eu queria dizer é o seguinte: Uma ordem que não fôr pobre não poderá realizar muita coisa. E então entenda-se: pobreza e mangas de camisa são coisas que se equivalem. -Sim, compreendemos perfeitamente, caro Dom Bosco, disseram os dois para se retirarem… E no corredor completaram: “É mesmo a idéia fixa. Precisamos remediar quanto antes”. É sabido o remédio que usaram. Dias mais tarde Dom Bosco recebeu na sua modesta peça do Refúgio a visita de dois eclesiásticos de Turim: o Teólogo Posati, cura de Santo Agostinho, e o cônego Luiz Nasi. Depois de falarem de assuntos indiferentes por alguns minutos, os dois visitantes encaminharam a conversa para o lado que desejavam. Naturalmente Dom Bosco repetiu a eles o que já havia dito aos outros. Os dois bons sacerdotes se entreolharam com um ar de consternação como quem dissesse: “Não nos enganaram. É mesmo como diziam. Está delirando. Não há tempo a perder”.

À porta estava o carro em que tinham vindo.
-Dom Bosco, disse então o Cura de Santo Agostinho, não gostaria de dar um passeiozinho conosco? O carro está esperando na porta. -Como não? Com muito gôsto! Vou buscar o chapéu, e descemos juntos. De aí a dois minutos os três padres desciam a escada e chegavam diante da porta do carro.

-Suba, Dom Bosco, disseram os dois cúmplices.
-De forma nenhuma, como poderia eu faltar ao respeito que lhes devo?
-Não. Suba antes, tenha a bondade!
-Absolutamente! Subam antes, por favor.
E os dois bons cônegos resolveram então subir antes.
Apenas o segundo entrou no carro, Dom Bosco, batendo violentamente a porta ordenou enérgico ao cocheiro
-Depressa! Toque para o manicômio!

Uma boa chicotada pôs os cavalos a todo o galope. O manicômio era perto e o pessoal estava já prevenido. O portão escancarado aguardava o carro, o qual entrou ràpidamente no pátio. Os homens de serviço precipitaram-se logo para a portinhola, a fim de receberem o doente. Tinha-se-lhes feito a recomendação de tratá-lo com delicadeza mas ao mesmo tempo com energia.
Pois sim senhores: em vez de um cliente encontraram dois. E ambos gritavam, debatiam-se, gesticulavam. “Com os seiscentos! pensaram os homens, estão furiosos! Estamos perdidos! Vamos fazer o possível para dominá-los sem precisar usar de meios violentos”.

Porém, os dois amigos cada vez mais gritavam que era um engano, que chamassem o Diretor, que chamassem o Capelão, o médico de serviço. O Capelão foi o primeiro que chegou e o mistério se esclareceu imediatamente. Desde esse dia ninguém mais falou na loucura de Dom Bosco.

Enfermidade de Dom Bosco

Num domingo de tarde, depois de um dia de trabalho exaustivo no Oratório, o pobre Dom Bosco, ao entrar no quarto caiu sem sentidos. Tiveram de transporta-lo para a cama, e desde esse momento a febre não o deixou mais. Dentro de oito dias achava-se à beira do túmulo. No domingo seguinte o Padre Borel, acompanhado pelos maiorezinhos do Oratório, que choravam e soluçavam, levoulhe o Santo Viático. Estavam presentes a mãe e o irmão mais velho que tinham corrido à cabeceira do
querido agonizante. Terça-feira foi-lhe administrada a Extrema-Unção. As tristes notícias que se espalhavam desde os primeiros dias da semana entre o seu pequenino povo de meninos lançaram-nos na maior consternação. Cada um deles percebia que estava para perder o pai, o conselheiro, o melhor amigo. E a dor que sentiam era indizível. Foi então que se deram cenas de gratidão realmente comovedoras. Enquanto os maiores se ofereciam como enfermeiros e se revezavam ao lado do doente, de dia e de noite, os outros ficavam firmes na porta, ao pé da escada, na rua, tentando romper a sentinela e penetrar, mesmo que fôsse um minuto só, no quarto do seu grande amigo.

Mas a ordem do médico era terminante. E todos aqueles meninos ficavam ali, à caça da mínima notícia, com o coração cheio de angustia. Seria possível que o céu os abandonasse de novo a si mesmos, deixando-os sem um guia, um amigo, um defensor? Não! E se fosse preciso um milagre…

-até ontem quase todos moleques da rua – se revezavam de hora em hora para arrebatar à Santissima Virgem a desejada cura.
A súplica começava de manhã e acabava de noite muito tarde. Alguns continuavam-na em casa, outros chegavam a prolonga-la até o amanhecer.
Desvairados aqueles filhos, na ânsia de arrebatar o pai das garras da morte faziam promessas desajuizadas: rezar o rosário por um mês, um ano, por toda a vida. Muitos jejuavam a pão e água e alguns o faziam vários dias seguidos. E eram rapazes desses que sobem 50 vezes por dia andaimes de cinco andares com um balde de rebôco nos ombros! Como tinha conquistado o coração de toda essa juventude o humilde padre que se estava preparando na serenidade para comparecer diante de Deus.

Todavia, entre a morte que subia as escadas daquela casa e as orações que aos pés da Virgem lançavam seu grito de confiança, triunfaram as orações. A noite que no dizer dos médicos devia ser fatal, foi pelo contrário a noite da volta à vida.

Quinze dias depois, numa suave tarde de domingo, as pessoas que passavam por aquele bairro de Turim, puderam assistir a um espetáculo não muito comum. Uma onda de meninos estavam na porta do Refúgio esperando impacientes o aparecimento de alguém. De repente no quadro formado pela porta, emoldurou-se diante dos olhos de todos a figura de Dom Bosco. Foi um delírio. Tinham preparado uma cadeira de braços e fizeram Dom Bosco sentar-se. De aí a um instante os ombros robustos dos rapazes maiores levantaram-no acima daquela turba de meninos. E estes, cantando, gritando, chorando, acompanharam-no até à pobre Capela-barracão, no mais régio dos cortejos. Chegando ao altar Dom Bosco disse: “Muito obrigado, meus filhos, meus queridos filhos, por esta vossa prova de afeto! Obrigado por todas as orações que me restituíram a vida. Se eu estou aqui, devo-o a vós. Portanto é bem justo que eu empregue para vosso bem todos os dias que o Senhor me quiser ainda conceder. Mas de vossa parte, ajudai-me a salvar a minha alma”. Todos os meninos choravam; o Teólogo Borel soluçava; Dom Bosco não podia mais conter a comoção. Alguns dias depois partia para Becchi. Só o clima de sua terra natal poderia fazê-lo restabelecer do violento abalo que sofrera.

Enfermidade e morte de Mamãe Margarida.

Parecia que o braço direito de Dom Bosco em todos os dias, sua querida e velha Mãe, que se tornara a mãe de todos aqueles pobres meninos, esperava apenas que a Obra se tivesse estabelecido definitivamente para deixar esta vida em que tanto havia sofrido. Agora já podiam dispensar o auxílio dela; a casa estava terminada; as simpatias para com seus filhos surgiam de todos os lados; seguindo o seu exemplo, um grupo de boas senhoras tinham aberto uma lavanderia para os meninos. Um único ponto negro restava ainda sempre: a falta de recursos. Mas para que lamentar? A Providência haveria de sanar as dificuldades. E então para que ficar neste mundo? Sua tarefa estava cumprida e bem cumprida.

Era bem essa a interpretação das disposições do céu pois que Deus permitiu que uma pneumonia dupla a conduzisse em poucos dias à tumba. Era o fim do mês de novembro de 1856. Sua constituição de piemontesa robusta lutou ainda mais de uma semana contra a doença, mas por fim esta triunfou. No dia 24 de novembro o teólogo Borel, seu confessor, administrou-lhe o Santo Viático; os dois filhos, João e José, estavam à cabeceira esmagados pela dor. A casa inteira rezava; uma onda de tristeza invadia o coração daqueles meninos, os quais tinham nela encontrado uma ternura que a morte agora ia arrebatar.

Era ela o olho vigilante da casa, a solicitude sempre alerta, o trabalho que jamais se cansava, a mãe numa palavra. E agora estava prestes a deixá-los. Era o pensamento que dilacerava os corações e lhes fazia crer obstinadamente que Deus ainda haveria de conceder o milagre que imploravam nas orações. Tiveram que desiludir-se. Às 13 horas da madrugada do dia 25 de novembro, Margarida expirou placidamente. Quando os dois filhos, depois de terem seguido a dolorosa agonia, compreenderam que aquele grande coração tinha acabado de palpitar na terra, olharam-se como que aterrorizados pelo vazio que se lhes escavava na existência, e um longo soluço atirou-os ambos aos pés da mãe morta.

A proteção da SS. Virgem sobre a Obra que nascia.

Duas horas depois Dom Bosco saía do Oratório em companhia de um de seus alunos maiores. Ia à Consolata, a igreja preferida por sua mãe, para rezar missa pelo repouso eterno da alma dessa humilde cristã, cuja abnegação escondida tinha-o livrado de tantas preocupações. “E agora, – disse à SS. Virgem Consoladora, antes de deixar o seu santuário – cabe a Vós ocupar o lugar que minha Mãe deixou vazio. Em minha família é indispensável uma mãe. Quem poderá ser nossa mãe senão Vós? A Vós entrego todos os meus filhos. Velai sobre suas vidas e sobre suas almas agora e para sempre”.

Jamais no céu se ratificou tão plenamente qualquer outro ato de abandono :toda a história das obras e das fundações de Dom Bosco, como iremos ver, não será mais que um longo poema composto por duas pessoas. O homem de Deus agirá, mas por detrás dele, na sombra, em cada curva perigosa hão de perceber um pensamento, uma inspiração, uma mão a se estender: o pensamento, a inspiração, a mão da Virgem toda bondade, pastora vigilante e forte, colocada nessa manhã de 25 de novembro de 1856 à testa do numeroso rebanho para guardá-lo e defendê-lo.

O Sonho realizado

Essa bênção do Céu pousava já desde muito tempo sobre as fadigas do Santo. Quanto caminho conseguira ele percorrer em dez anos! Recordemos os fatos. Em 1845 o jovem sacerdote explica diante dos amigos os planos que tem: “Sim, vamos ter igreja, pátios, vastos prédios, oficinas e salas de aula, mestres do ofício e professores”. Olham-no assustado e tentam até obrigar aquele cérebro cansado a repousar e tratar-se. Passam dois lustros e eis que a profecia é já uma realidade. A igreja de São Francisco de Sales está, em pé, cento e cinqüenta meninos estão asilados, funcionam quatro oficinas com pleno resultado, ensina-se o latim em cinco classes, uma dezena de clérigos, aos quais Dom Bosco deu o hábito talar, trabalham sob suas ordens, auxiliando-o em seus trabalhos, enquanto ao lado do internato continua a funcionar o Oratório sempre tão freqüentado a realizar o seu benéfico trabalho. E que hão de pensar os céticos de dez anos atrás?

Abriram-se-lhes os olhos. Um deles, o Padre Pacchiotti, que tinha sido o terceiro capelão junto com Dom Bosco e o teólogo Borel no Refúgio Barolo, foi convidado a pregar num domingo de verão na igreja de São Francisco de Sales aos meninos do Oratório. Acabado o sermão e a benção do SS. Sacramento, foi ao refeitório da pequena comunidade para tomar um modesto refresco juntamente com os clérigos que trabalhavam com Dom Bosco. Iam já erguer os cálices, quando entrou Dom Bosco para cumprimentar e agradecer ao velho amigo. Mal abriu a boca, quando o Padre Pacchiotti se postou na frente e fitando-o com olhar cheio de comoção, aferrou-lhe os ombros com ambas as mãos robustas e lhe disse “Ah! querido Dom Bosco, agora sim, acredito em tudo o que um dia nos contavas. Pátios, oficinas, aulas, clérigos, um mundo de meninos! Naquele tempo sorríamos, tínhamos pena de ti, tomávamos-te por louco! Mas não te enganavas. Aquele sonho de louco vejo-o realizado hoje diante de meus olhos. Querido amigo…” E o bom Padre Pacchiotti, o incrédulo de ontem não disse mais nada, porque a comoção lhe embargou a voz diante dessa obra que se erguera no espaço de apenas dez anos.

A caridade de Dom Bosco

O grande educador tinha a persuasão de que a melhor defesa para a pureza de seus meninos era a caridade com o espírito de sacrifício. Temos que confessar que a maior parte dos adolescentes corrompidos pelo vício chegaram a esse ponto porque no momento oportuno faltou um braço vigoroso que os atirasse à piscina na hora em que as ondas estavam agitadas. Dom Bosco, esse buscava todas as ocasiões em que era necessária a abnegação para nelas atirar corajosamente seus jovens: uma dessas oportunidades, e maravilhosa, foi quando grassou o cholera morbus em Turim em 1854.

No fim do mês de julho, numa estação esplêndida, tombou sobre a cidade o flagelo, vindo do sul da Península. Os casos se multiplicaram com uma rapidez espantosa: no fim a primeira semana já se contavam 50 a 60 por dia e a proporção da mortalidade chegou a atingir até 60%. Em três meses contaram-se 2.500 casos, dos quais 1.500 levaram à morte. O bairro de Valdocco onde estava situado o Oratório, foi mais fortemente atingido que os demais; em outubro já se contavam 400 mortos. A casa de Dom Bosco estava rodeada por um circulo de colerosos, dentre os quais eram mais numerosas as vítimas, porque aos primeiros assaltos da doença os pobrezinhos se viam abandonados pelos parentes dominados pelo terror. Para circunscrever o flagelo, a fim de dominá-lo, o Conselho Comunal abriu dois lazaretos nos dois pontos mais atingidos da cidade. Mas então surgiu um problema: onde encontrar abnegados que se oferecessem para descobrir os casos isolados e transportar rapidamente os infelizes para esses dois hospitais? O coleroso formava automaticamente um vácuo ao redor de si e ninguém queria aproximar-se, tão violento era o perigo de contágio. Dom Bosco nos primeiros dias se multiplicou à cabeceira dos doentes e dos moribundos, prestando-lhes os cuidados de seu ministério e de sua caridade: mas compreendeu logo que, diante da extensão do mal, só uma turma de rapazes prontos a qualquer sacrifício seriam capazes de prestar à cidade tão duramente flagelada os serviços necessários. Não hesitou então: dirigiu-se a seus alunos maiores: catorze deles deram imediatamente o nome e daí a poucos dias mais trinta seguiram o exemplo dos primeiros.

Com esses quarenta rapazes decididos se fez então um trabalho metodicamente organizado. Uma parte prestava serviço nos lazaretos; outros nas famílias; um pequeno grupo tinha o encargo de visitar as casas de operários para descobrir os infelizes abandonados pelos parentes e um piquete ficava sempre postado de guarda no Oratório para atender ao mínimo apelo que se fizesse. Ninguém tinha escrúpulo de ir pedir a intervenção deles tanto de dia como de noite. Durante mais de dois meses esses quarenta rapazes realizaram prodígios e nem um sequer foi atingido pelo mal; era a proteção visível da SS. Virgem que os defendia, porque embora no princípio tivessem tido o cuidado de lavar-se e desinfetar-se depois de cada visita aos doentes, no fim não se incomodavam mais e se abandonavam ao cuidado da Providência.

Muitos infelizes socorridos em seus próprios tugúrios pelos voluntários de Dom Bosco, achavam-se em estado de miséria extrema. E por isso a boa Mamãe Margarida se viu obrigada a esvaziar os armários da casa: lençóis, cobertores, camisas, toda a reserva de roupa branca que havia foi-se embora. Cada um dos pequenos protegidos de Dom Bosco, para poder socorrer aquela lamentável miséria, fazia questão de não conservar para si senão a roupa do corpo e mais o puramente necessário para a cama. Um dia um rapaz foi pedir um lençol para um doente que jazia numa pobre enxerga. Margarida já tinha revolvido inutilmente todos os cantos e esconderijos sem encontrar nada, quando descobriu finalmente uma toalha de altar que tinha escapado, quem sabe como, à distribuição geral. “Toma, meu filho, toma”. E o menino partiu todo contente, e correu como uma flecha para ir envolver numa fina toalha de linho o seu protegido!

Não devemos porém pensar que esses jovens tenham chegado de um dia para outro a esse grau de formação moral que os fazia rir do perigo e desprezá-lo. Não! O primeiro contato com o terrível flagelo fê-los estremecer da cabeça aos pés. Houve um até que não resistiu ao espetáculo impressionante daqueles rostos lívidos, daquelas bocas escumosas, daquelas convulsões trágicas, daquelas agonias terríveis, e caiu desmaiado na porta do primeiro quarto onde ia prestar seus serviços! Felizmente Dom Bosco estava ali perto e o levou para fora, fê-lo voltar a si e lhe deu a beber um cordial. Foram três meses de fadigas, que podemos chamar sobre-humanas, para o Pai e para os filhos. Mas eles se mantiveram firmes com uma coragem viril que arrancou aplausos de toda a gente de bem e mesmo de quem não era tal.

No dia 8 de dezembro desse ano, em Roma, na Basilica Vaticana, Pio IX, rodeado por mais de duzentos Cardeais, Patriarcas, Arcebispos e Bispos, proclamava solenemente o dogma da Imaculada Conceição da SS. Virgem Maria. Dom Bosco aproveitou esse dia para agradecer a Deus e a sua SS. Mãe a graça de ter protegido visivelmente sua casa e de tê-lo feito Pai espiritual de uma juventude da qual podia tão justamente ufanar-se.
Um célebre passeio de presos, assistido só por Dom Bosco.

É inegável que a força do domínio de Dom Bosco sobre o coração dos jovens tinha algo de irresistível. Foi o que se demonstrou no dia em que ele conseguiu licença de levar a passeio fora de Turim, durante o dia todo, sem o mínimo auxílio da policia, trezentos prisioneiros.

Apesar da multiplicidade de seus trabalhos, Dom Bosco não tinha abandonado completamente o apostolado nas prisões; tal a evidência com que ele percebia o bem que se podia realizar nesse ambiente tão desprezado. Agradava-lhe em modo particular, nas proximidades da festa de Páscoa, pregar o retiro àqueles infelizes a fim de prepará-los para a grande solenidade. Em 1855, foi levar a consolação de sua palavra à principal Casa de Correção de Turim – a Generala. Deus abençoou tão copiosamente o retiro que, depois da comunhão geral de encerramento, Dom Bosco pensou em dar àqueles pobres jovens um dia de divertimento, levando-os todos em alegre excursão a Stupinigi, a dez quilômetros de Turim. Para isso foi falar com o Diretor Geral dos Cárceres de Turim, a fim de obter a necessária licença. O pedido de Dom Bosco causou um sobressalto no funcionário, que o olhou com ares de quem queria dizer: “Será que este padre não está com o juízo certo?” Mas Dom Bosco insistiu

-Eu estou falando seriamente e peço que tome em consideração o meu pedido.
Escute, Reverendo; por mais que eu lhe queira ser agradável, não tenho autoridade para faltar ao meu regulamento especialmente num caso como este. Acho que as conseqüências de uma autorização minha seriam desastrosas.

-É a sua última palavra?
-Minha última palavra!
-Então, com sua licença, vou mais para cima, vou ter com o Ministro do Interior.
-Tem toda a liberdade de fazê-lo, Dom Bosco.
O Ministro do Interior; Urbano Rattazzi, ouviu com surpresa e interesse o estranho pedido.
-Pois não, meu bom Padre. Tenho imenso prazer em poder atendê-lo.
Escolha o dia e me avise, para podermos dar ordens à polícia. Alguns guardas, vestidos à paisana, seguirão, a certa distância, a fim de evitar fugas ou desordens.
-Vossa Excelência está sendo muito gentil em atender ao meu pedido; mas provavelmente me expliquei mal. Porque o que eu estou pedindo para aqueles rapazes é um dia de completa liberdade. Não quero ninguém para me ajudar. Nem mesmo os seus ótimos guardas disfarçados. Eu me comprometo a trazer à tarde para as grades todos os seus presos. -V. Revma. não reconduzirá nem dez, Dom Bosco!

-Tenha confiança em mim. Reconduzi-los-ei a todos. Garanto.

Rattazzi estava curioso por ver o resultado da experiência; e assim deu amplos poderes ao humilde sacerdote. E numa fresca manhã de primavera, abriram-se os dois pesados batentes da Generala para deixar passar aquela turba enorme de rapazes apinhados afetuosamente ao redor de um padre. Na soleira da prisão, depois que saiu o último preso, os guardas menearam a cabeça, com ar de mofa: “Esta tarde, pensavam eles, as filas estarão bem rarefeitas”!

O dia foi magnífico! Levavam o almoço nas costas de um burrinho, que ia à testa da caravana. Por um caminho sombreado chegaram a Stupinigi e as portas do Parque Real se abriam de par em par a esses visitantes inesperados. Organizaram-se as mais variadas partidas nos campos cobertos de relva e a tarde chegou sem que nem tivessem percebido como passara o dia.

Era preciso voltar. Dom Bosco nessa tarde, depois de ter estado de pé desde a madrugada, depois de ter tomado parte em tantos brinquedos no meio dessa juventude endiabrada, depois de ter corrido tantos perigos, estava que não podia mais. Os meninos perceberam e obrigaram o burrinho, já agora livre da carga da manhã, a transportar o grande amigo deles. E lhe fizeram cortejo de honra até Turim, rodeando-o com os corações cheios de ruidosa e afetuosa gratidão. Desse modo, ao cair da noite, os presos da Generala voltaram tranqüilos às suas prisões sob os olhares atônitos dos carcereiros que não sabiam como explicar o milagre. Não faltou nem um.
Aliás, se alguém tivesse querido fugir, teria sido logo obrigado a voltar atrás; pois três dos mais fortes da turma, três rapagões de proporções hercúleas, tinham jurado na saída que o primeiro que tentasse dar o menor desgosto ao seu benfeitor teria que ajustar contas com eles. Ainda esta vez a confiança cordial demonstrada para com eles elevava acima de si mesmos rapazes até ontem desencaminhados.

O sermão dos repolhos

O Padre Borel procurou reerguer o ânimo de todos com um sermão que ficou famoso. Os meninos lhe chamavam “o sermão dos repolhos”.

“Os repolhos, meus caros meninos, se não forem transplantados, não criam bonita e gorda cabeça…O mesmo acontece com nosso oratório: transferido de cá para lá, conseguiu sempre um notável aumento” (Livro Dom Bosco: Uma biografia nova. Autor: Terésio Bosco. p.171)

Atentados dos protestantes e proteção do Céu.

E pouco faltou para que o apostolado da pena não lhe custasse também a vida. Durante quatro anos, de 1852 a 1856, precisamente no início da publicação das Leituras Católicas, Dom Bosco foi covardemente assaltado muitas vezes por sicários que os Valdenses punham de emboscada. Seus opúsculos de propaganda agradavam tanto ao povo, reconduziam tantas almas a Deus e protegiam tantas outras, que os inimigos decidiram livrar-se do perturbador. Assim é que num domingo à tarde, quando Dom Bosco, no primitivo telheiro-capela, estava explicando o catecismo aos jovens maiores, um malfeitor, subornado pelos seus inimigos, subindo ao ombro de um companheiro, galgou o muro que rodeava a casa, e, pela janela, desfechou um tiro de carabina contra o homem de Deus.

A pontaria tinha sido boa, porque a bala passou entre o corpo e o braço de Dom Bosco e foi achatar-se contra a parede fronteira. Um grito de espanto partiu do peito de todos os jovens que estavam ouvindo o catecismo e depois seguiu-se um silêncio trágico. Os meninos não queriam acreditar no que estavam vendo e ficaram imóveis, aterrorizados diante do atentado. “Ora! disse Dom Bosco, com o melhor de seus sorrisos, vamos continuar a lição. Esse indivíduo era um mau músico, ou então foi Nossa Senhora que o fez sair do compasso. O ruim é que esta era a batina melhor que eu tinha e agora ficou estragada. Doutra feita ao cair da tarde, foram chamá-lo para administrar os sacramentos a um doente da vizinhança. Antes de partir, por precaução, Dom Bosco chamou para acompanhá-lo quatro de seus rapazes.

-Não se incomode, Dom Bosco, disseram-lhe os dois homens que tinha vindo chamá-lo; nós mesmos o acompanharemos.

-Pois não! Mas eu quero só proporcionar um pequeno passeio a estes bons moços. Quando chegarmos lá, eles esperarão na porta.

Em casa do moribundo fictício, Dom Bosco se achou diante de uma corja de tipos folgadores que deglutiam copos cheios e fingiam estar comendo castanhas.

-Espere aqui no andar térreo, disse um dos dois homens, que eu vou preparar o doente.
-Aceita umas castanhas, reverendo? perguntou um dos beberrões.
-Muito obrigado, não como nada fora das refeições.
-Então um copo de vinho. E Asti e do bom!
-Não, é inútil insistir. Não como nem bebo.
-Vamos, faça o favor, só para nos fazer companhia.
E sem esperar resposta ia enchendo os copos. Dom Bosco percebeu bem que quando chegou a vez de o servirem tomaram outra garrafa que estava de lado.
-A sua saúde, reverendo!
-A vossa, meus amigos, disse Dom Bosco, levantando o copo e recolocando-o logo de novo sobre a mesa.
-Como é isso? Não bebe, então?
-Não, já disse. Não costumo tomar nada fora das refeições.
-Ah! Mas essa desfeita é que o senhor não nos faz, disseram todos em coro. Se não quiser beber por amor, beberá por força.
E já os gestos começavam a traduzir as palavras, quando Dom Bosco de um salto alcançou a porta e abriu-a. De fora estavam os quatro rapazes e Dom Bosco os convidou a entrar. A vista desses moços fortes e robustos, sentaram-se de novo meio embaraçados.

-Vede. Aqui está um dos meus rapazes, que certamente não há de recusar vosso ótimo Asti. E, com o tom mais inocente do mundo, fazia menção de pegar o copo de novo.

-Não, não, disseram aqueles infelizes. Ao senhor é que convidamos, não a estes rapazes.

Era um argumento por demais eloqüente. Dom Bosco não insistiu. Pediu somente que mostrassem o moribundo para o qual tinha sido chamado. Foi então conduzido a um quarto do segundo andar, onde jazia escondido no meio de um montão de cobertas, um dos malfeitores que tinha ido chamá-lo em Valdocco. Dom Bosco fingiu não ter compreendido a emboscada, mas o tal indivíduo é que não pôde representar o papel até o fim; pois desatou a rir e disse: “Outra vez me confessarei”. O Santo abandonou aqueles lugares escoltado pelos seus alunos, voltou ao Oratório, bendizendo a Deus, por ter podido escapar de semelhante perigo.

Numa noite de domingo, no verão de 1855, deu-se um atentado quase idêntico. Mas ainda dessa vez livrou-se, embora não sem ferimento. Vieram chamá-lo para levar os sacramentos a uma senhora que morava na casa Sardi, situada na mesma Rua Cottolengo, quase em frente ao Refúgio da Marquesa Barolo. Como a noite estava escura, Dom Bosco, que pouco antes tinha escapado de uma cilada decidiu levar consigo dois companheiros.

-Não é preciso, disse o desconhecido, não é preciso incomodar os seus meninos, eu mesmo o acompanho. Essas palavras aumentaram as suspeitas de Dom Bosco e produziram um efeito justamente contrário ao que o homem desejava. Em vez de dois rapazes Dom Bosco levou quatro, dois dos quais, Jacinto Arnaud e Tiago Cerruti eram
muito robustos e corajosos.

A comitiva chegou a uma casa bastante isolada. Dois dos rapazes ficam ao pé da escada e dois outros sobem até o patamar, postando-se diante da porta do quarto enquanto Dom Bosco entra sozinho.

Logo que ele entrou, quatro homens corpulentos, levantaram-se e cumprimentaram-no, esforçando-se por aparentarem um ar de amabilidade; Dom Bosco observou que eram gente de má catadura e que além disso estavam todos munidos de cacetes nada tranqüilizadores. Aproximou-se do leito, onde jazia uma senhora atacada de acessos de asma. Na verdade, para uma pessoa em perigo de morte a cor estava boa e até excessivamente viva.

Dom Bosco pediu aos circunstantes que se afastassem um pouco para ele poder falar com a doente mais a vontade e assim prepará-la para uma boa confissão.

-Então, minha senhora, está disposta a reconciliar-se com Deus?
-Naturalmente, respondeu ela com uma voz que estava bem longe de ser fraca; mas é preciso primeiro que esse malandro, esse patife que aí está e que é meu cunhado, me peça perdão do que me fez. E começou a vomitar uma torrente de injúrias.
-Cala-te, miserável infame! vociferou um dos presentes. E assim dizendo com um safanão atirou por terra a única vela que havia, ficando o quarto em completa escuridão. No mesmo instante Dom Bosco levou uma bordoada, que o teria matado certamente se não tivesse atingido o ombro. Sem perder a calma, tomou uma cadeira e cobriu com ela a cabeça. As pauladas continuaram a descer cerradas sobre esse capacete improvisado que lhe protegia o crânio. Desse modo pôde chegar até a porta; pôs a mão no trinco, atirou a cadeira em cima dos que o tinham agredido e achou-se entre dois rapazes que o esperavam. Tudo isso se tinha passado tal rapidez que eles não tinham tido nem tempo de tomar qualquer resolução.

Quando chegaram ao meio da rua, os rapazes viram aterrorizados que Dom Bosco estava coberto de sangue. Felizmente não tinha recebido ferimentos graves; somente por estar com as mãos expostas a segurar a cadeira sobre a cabeça, uma paulada lhe atingira o polegar esquerdo arrancando a carne até os ossos. Nessas circunstâncias trágicas, Dom Bosco fazia todo o possível para ficar na defensiva e não se servir de sua força fora do comum nem da de sua guarda pessoal, para obrigar o inimigo a render-se.

Um cão misterioso: O “Grigio”.

Assim na vida de Dom Bosco vê-se emergir da sombra, ao lado do Servo de Deus, a cabeça amável de um cão, a que batizaram com o nome de Grigio[16] – em piemontês Z’gris, -por causa da cor do pêlo. Animal de raça toda original, cão desconhecido, sem beleza mas não sem farsa, cão que recusava abrigo e comida, que dormia quem sabe onde, cão cuja coleira não revelava nenhum dono, firme nas patas e de presas agressivas contra os bandidos que se postavam de emboscada na sombra com o punhal no bolso, mas amável como uma criança com os meninos do Oratório e de olhar bondoso e meigo quando olhava Dom Bosco.

Como é que este o conhecera? O trecho que ia das últimas casas habitadas até a de Dom Bosco era um trecho perigoso. Já sabemos que o Oratório se encontrava em pleno campo, no meio de terrenos baldios onde cá e acolá, surgia uma casa ou um albergue de péssima categoria. Terreno acidentado, atravessado pelo Rio Dora, e em que se encontravam a cada passo moitas espessas, plantações de amoreiras e de acácias. Precisamente por ser um terreno assim cheio de altos e baixos e com essa vegetação irregular, oferecia aos malfeitores o mais cômodo esconderijo para esperarem de emboscada as suas vitimas. Mamãe Margarida mais de uma vez tinha ficado sobressaltada ao ver que o filho tardava a voltar a casa. Que é que o poderia defender tarde da noite, naquele trecho tão perigoso? A Divina Providência veio em seu auxílio. Numa noite de outono, apenas Dom Bosco passara além do manicômio que estava na extremidade da cidade, apareceu-lhe um molosso, que foi caminhando sempre a seu lado. O primeiro movimento de Dom Bosco foi dar um passo para trás assustado; mas depois que percebeu que o animal era muito dado e aceitava as carícias que lhe fazia, continuou tranqüilamente o caminho. Ao chegar ao Oratório o animal fez meia volta e partiu com passo tranqüilo. O fato se repetia todas as vezes que Dom Bosco tinha que voltar tarde para casa sem companhia; o fiel animal esperava-o numa curva da estrada ou numa encruzilhada solitária e lhe fazia a mais amável das companhias.

E essa companhia não deixou de ter sua utilidade mais de uma vez. Uma noite de inverno, Dom Bosco ia voltando para casa muito tarde. Ao passar pela avenida Regina Margherita, um homem, escondido detrás de uma árvore, descarregou-lhe a queima-roupa dois tiros de pistola. Felizmente detonou somente a cápsula. Então o assassino se atirou sobre Dom Bosco, para matá-lo quem sabe de que maneira. Mas nesse momento ouviu-se um uivo pavoroso e um animal saltou furiosamente contra o agressor. O celerado mal conseguiu fugir, enquanto Dom Bosco, voltando a si do susto que levara, acariciava com gratidão o pêlo do fiel amigo.

Noutra circunstância o bom cão dominou toda uma quadrilha. Dom Bosco tinha penetrado na alameda deserta, que, acompanhando as últimas casas da cidade, o conduzia do Mercado de Porta Palazzo à sua habitação. Era noite adiantada. De repente apontou num canto escuro um indivíduo, que avançou para ele brandindo um cacete. Dom Bosco, nessa idade, corria ainda muito bem, mas o agressor o alcançou. Dom Bosco então, passando decididamente para a ofensiva, como fizera em Moncalieri, aplicou-lhe um formidável soco na boca do estômago, e o fez cair por terra gritando de dor.

A esse grito, surgiram de todas as moitas vizinhas indivíduos que estavam de atalaia para aparecer em caso de necessidade. Dom Bosco se viu perdido; mais alguns segundos e o teriam assassinado… se não fosse o latido do Grigio que se fez ouvir de repente. Em poucos saltos ei-lo presente. Pôs-se a girar para lá e para cá em redor de Dom Bosco uivando de modo terrível, mostrando uns dentes que faziam arrepiar. E os malfeitores, um a um, se dispersaram nos campos vizinhos. Curioso esse animal, cujo procedimento variava conforme as circunstâncias. Uma tarde, em vez de escoltá-lo na forma costumeira, impediu decididamente que Dom Bosco saísse de casa. Estendeu-se na soleira. da porta e não houve o que pudesse obrigá-lo a sair. Foi a primeira vez que mostrou os dentes para o seu dono; e viu-se que, se fosse preciso, tê-lo-ia empurrado com toda a força do peito para dentro de casa. Antes de chegar a esse extremo, contentava-se de rosnar com os dentes bem cerrados. “Se não quer ouvir a mim, atenda ao menos a esse animal que está demonstrando mais juízo do que você” disse Margarida ao filho. Dom Bosco atendeu. E foi bom, porque de aí a menos de um quarto de hora chegou um vizinho dizendo que não se afastasse de casa de maneira alguma, porque tinha surpreendido uma conversa na qual se falava evidentemente de um atentado que lhe estavam preparando.

A marquesa e a avareza

Ficara dolorosamente impressa na mente de Dom Bosco a morte de uma marquesa de 84 anos, sua benfeitora. Mandara chamá-lo, confessa-se e, depois, olhando-o com olhar desmaiado, dissera-lhe:

-Então devo mesmo morrer?

Dom Bosco procurava falar-lhe de Deus. Mas ela corria os olhares em redor, angustiada, e continuando a murmurar.

-Meu lindo palacete, meus aposentos, meu salão tão acolhedor…, deverei mesmo deixá-los?

Ordenara aos servos que lhe trouxessem um rico tapete persa. Acariciava-o e, como fora de si, continuava a repetir:

-É tão bonito! Por que o devo deixar? (Livro Dom Bosco: uma biografia nova. Autor: Terésio Bosco. p.533)

A Escolha do nome “Salesianos”

No ano de 1854, precisamente no dia 26 de janeiro, durante a novena da festa de São Francisco de Sales, esses jovens recrutas tomam um nome: vão chamar-se de aí por diante “Salesianos”. Aqui vai o registro do batismo, tal qual se encontra no canhenho do Padre Rua :

“Na noite de 26 de janeiro de 1854, reunimo-nos no quarto de Dom Bosco. Estavam presentes, além de Dom Bosco, Cagliero, Rocchetti, Artiglio e Rua. Foi-nos proposto que começássemos com o auxílio de Deus um período de exercício prático de caridade para com o próximo. No fim desse período poderíamos ligar-nos com uma promessa e mais tarde essa promessa se poderia transformar em voto. A partir dessa noite, deu-se nome de Salesianos a todos os que adotaram esse gênero de apostolado”.

Salesianos, discípulos de São Francisco de Sales. Assim queria Dom Bosco que se chamassem. E por que? — Por muitos motivos. Antes de tudo, vinha de muito longe a intenção de colocar todos os seus trabalhos apostólicos sob a proteção do suave Bispo de Genebra. Quando apenas esboçava seu primeiro Oratório nos pátios do Pensionato Eclesiástico, já sonhava, de acordo com seus amigos Cafasso e Borel em
dar-lhe como protetor São Francisco de Sales.

Desse seu culto ao futuro Doutor da Igreja compartilhava sua benfeitora, a Marquesa de Barolo, a qual, ou instigada por ele ou ao menos encorajada pelo seu zelo, estava pensando havia muito tempo em fundar uma sociedade de sacerdotes, sob o patrocínio de São Francisco de Sales. Por isso ao pé da escada da casa em que habitavam os três capelães de seu Orfanato Feminino, Padre Borel, Padre Pacchiotti e Dom Bosco, tinha feito pintar o medalhão do Santo Bispo. O tempo não poupou essa pintura, mas ainda se percebem alguns vestígios.

Além disso os tempos eram péssimos para o pensamento católico. Três grandes heresias redobravam seu ardor para atrair as almas: o liberalismo, o protestantismo, e o jansenismo, este veneno que jamais se conseguira extirpar de uma vez das profundezas da alma cristã. São Francisco de Sales, o homem de todas as controvérsias doutrinais, o modelo do polemista cortês e bem preparado, o primeiro a lançar opúsculos entre o povo, o apóstolo da palavra incansável, parecia a Dom Bosco o mais indicado para inspirar a sua congregação, pois o fim que ele desde aquele tempo lhe apontava era o da ação em defesa da verdade católica, com a palavra e com a pena, com os sermões, as conferências, a imprensa.

Finalmente ao dar a seus filhos o nome do Bispo de Genebra, o mais amável dos homens de seu século, queria que esse espírito de doçura, de paciência e de caridade confiante lhes inspirasse as obras e os métodos. Atrair as almas com a bondade, o sacrifício, a compenetração dos corações, a efusão da alegria cristã, para podê-las levar a Deus com toda a naturalidade num segundo momento: eis o grande meio de conversão de que se serviu o Apóstolo do Chablais. São João Bosco, lendo-lhe as obras e a vida, roubara-lhe o segredo. E assim achou que não podia fazer coisa melhor do que colocar diante de seus filhos, como padroeiro, guia e modelo, o Santo cujo nome iam adotar. Pois desejava que todo o êxito do trabalho educativo dos “salesianos” fosse devido a essa bondade conquistadora.

Dom Bosco é perseguido pelo Arcebispo Gastaldi

1.A amizade de Dom Bosco com Gastaldi

“A amizade de Dom Bosco com Gastaldi podia-se dizer inabalável. A mãe do Bispo havia trabalhado por muitos anos no oratório: considerava Dom Bosco como um filho (Dom Bosco e Dom Gastaldi tinham a mesma idade) (p.490).

2. Por indicação de Dom Bosco, seu amigo Gastaldi se torna bispo.

Pio IX, apreciava grandemente a Dom Bosco e o consultou para a escolha do novo Arcebispo de Turim. Dom Bosco propôs Dom Lourenço Gastaldi, bispo de Saluzzo. Eram muito amigos e dele a sua Congregação recebera muita ajuda. Pio IX, que conhecia o jeito muito vivo de Gastaldi, não era do mesmo parecer. Mas Dom Bosco insistiu. E o Papa…acolheu a proposta dizendo:

-O senhor o quer, eu lho dou. Deixo-lhe o encargo de levar ao conhecimento de Dom Gastaldi que o estou nomeando para Arcebispo de Turim e no prazo de uma par de anos fá-lo-ei alguma coisa mais. (p.489-490)

3. Inicio da Perseguição do bispo Gastaldi a Dom Bosco.

Dom Bosco…numa longuíssima carta ao Arcebispo, …entre outras coisas, escreveu estas linhas… “Desejo que V.Excia. seja informado de que certas notas, guardadas nos Gabinetes do Governo por obra de alguém, estão agora correndo por Turim. Consta dessas notas que se o cônego Gastaldi tornou-se bispo de Saluzzo, foi por proposta de Dom Bosco. Se o Bispo se tornou arcebispo de Turim, foi também por proposta de Dom Bosco. (p.493)

A carta de 14 de maio de 1873 desencadearia a tempestade toda. Dom Gastaldi jamais digeriu aquelas cinco linhas…

-Vangloria-se de ter conseguido a minha nomeação para bispo. Aliás, escreveu-me até uma carta, lançando-me isso em rosto. Mas eu a remeti a Roma, para que vejam o grande santo em quem tanto confiam. (p.494)

Os jornais anticlericais farejavam a possibilidade de jogar Dom Gastaldi contra Dom Bosco, aproveitando, repetidas vezes, a oportunidade. O Fanfulla de 16 de outubro de 1871 escrevia: “Para a nomeação dos bispos nas dioceses italianas, recorreu-se às propostas de Dom Bosco de Turim, chamado expressamente a Roma”. Em Milão, certo jornal definiu Dom Bosco  “o pequeno papa do Piemonte”…Essas insinuações da imprensa (e muitíssimas outras que não é possível catalogar) exacerbaram as feridas. (p.495)

4. Perseguição feita pelo bispo Dom Gastaldi

-Em setembro de 1875, Dom Bosco da faculdade de confessar.

-recusa-se a ordenar os clérigos salesianos que lhe são apresentados…

-recusa de participar das celebrações mais solenes do oratório…

-recusa de administrar Crisma aos meninos do oratório…

-suspensão da faculdade de pregar de alguns padres salesianos.

…Dom Gastaldi mandava seus relatórios a Roma: “O contínuo suceder-se de denúncias por qualquer motivo que o Arcebispo considerasse pouco honroso a respeito de Dom Bosco e da sua Congregação…lhe insunuava o  descrédito perante os cardeais que não estavam a par dos fatos… Mas o que mais fez Dom Bosco sofrer foi o fato de que Pio IX, desde sempre amigo e grande protetor, diminuíra seu afeto. “Aquela contínua apresentação de Dom Bosco como homem obstinado e quase perverso influiu também no ânimo do Papa”. (p.501)

5. A reconciliação

No Vaticano, a causa entre Dom Bosco e o Arcebispo foi discutida no dia 17 de dezembro de 1881. Dela participavam 8 cardeais…O Papa, ouvindo o relatório, sustou o debate. “É necessário salvar a Autoridade – Dom Bosco é tão virtuoso que a tudo se adapta”. Era uma segunda carta de que o Papa pretendia lançar mão para medir a santidade de Dom Bosco. E fixou, ele próprio, as condições para a “Concórdia”, com tal exatidão de palavras que só se encontra em documentos de fina diplomacia….Dom Bosco devia escrever uma carta pedindo perdão ao Arcebispo, e o Arcebispo responder que estava feliz por esquecer o passado…Dom Bosco escreveu a carta. Recebeu a resposta: “De coração concedo o perdão implorado”. (p.504-505)

(Livro Dom Bosco: Uma biografia nova. Autor: Terésio Bosco. p.489,490,493,494,495,501,504,503)

Sistema Preventivo de Dom Bosco

Certa manhã em Roma, quando lá esteve pela primeira vez, em 1858, discorrendo com o Cardeal Tosti sobre o modo melhor de educar a juventude, repetia o seu grande princípio:

-Veja, Eminência, é impossível educar bem a juventude, se não se lhe conquista a confiança.
-Mas como conseguí-lo? perguntou o Cardeal.
-Fazendo tudo o que pudermos para que os meninos se aproximem de nós, quebrando todas as barreiras que possam conservá-los afastados.
-E como conseguir que se aproximem de nós?
-Aproximando-nos deles, Eminência; procurando adaptar-nos a seus gostos e tornando-nos semelhantes a eles. V. Em.cia não gostaria que eu lhe desse um. exemplo prático? Qual é o ponto de Roma em que podemos encontrar um bom grupo de meninos?
-Na Praça delle Terme ou na Praça del Popolo.
-Pois vamos à Praça del Popolo.
Dão ordem ao cocheiro e dentro de dez minutos estão na Praça. Dom Bosco desce e o Cardeal fica espreitando da janela do coche. Há uma turma de garotos brincando muito alegres no meio da praça. Dom Bosco tenta aproximar-se deles mas fogem todos.

-Bonito resultado! pensou o Cardeal lá por detrás dos vidros. Mas D. Bosco não desanimou. Com gestos cheios de bondade, e com palavras afetuosas começou a chamar os meninos. Depois de uns instantes de hesitação, vários deles começaram a aproximar-se pouco a pouco. Dom Bosco dá-lhes algum presentinho, faz-lhes perguntas sobre a família, as aulas, os brinquedos. Ao ver esse padre tão bom no meio de seus colegas, até os mais arredios se vão aproximando. E então Dom Bosco lhes diz: “Pois bem, agora recomecem o brinquedo que eu também quero brincar com
vocês”.

E arregaçando um tantinho a batina, põe-se a brincar com os meninos. O espetáculo é pouco comum e atrai imediatamente outros meninos de todos os cantos da praça. Dom Bosco recebe-os a todos com bondade, diz-lhes algumas palavras amáveis, dá-lhes uma medalhinha e entrementes vai perguntando se rezam as orações, se confessam.

Quando vai retirar-se do brinquedo, todos procuram retê-lo. Mas ele não quer fazer o Cardeal esperar mais tempo. A demonstração dada é bastante convincente. E então esses meninos todos, conquistados num quarto de hora pelo humilde sacerdote, fazem-lhe um cortejo de honra até a carruagem; e quando esta se põe em movimento passa por entre duas alas de pequenos romanos que o aclamam.

-V. Em.cia viu? disse Dom Bosco então ao Cardeal. Nem era preciso perguntar. O Cardeal tinha visto e admirado como em poucos minutos o Santo soubera conquistar aqueles garotinhos assustados. E era assim o espetáculo que se observava todas as vezes que Dom Bosco se, aproximava de um grupo de meninos.

Esse dom inato se ia fortalecendo cada vez mais com tudo o que seu olhar atento e a mente ávida respigavam ao redor de si. Trouxera de Becchi, sua terra natal, um ideal de vida e de governo das almas por meio da bondade.

Em Castelnuovo e em Chieri tomara o propósito de não imitar aqueles sacerdotes, – exemplares, é verdade, mas austeros – que não se interessavam pela buliçosa atividade da juventude. “Um educador, pensava ele desde essa época, deve participar totalmente da vida de seus alunos”.

Antes de atingir a plena maturidade, seu pensamento de educador, que não deixou de ter as suas oscilações, soube tirar proveito de todas as experiências próprias. Costumava aconselhar aos seus discípulos que tivessem um caderno de observações no qual tomassem nota de todas as inadvertências e até dos erros que tivessem cometido; pois assim começara ele próprio a fazer.

Finalmente, e isto lhe é muito peculiar, como notam dois dos seus biógrafos, sua alma de educador soube observar a direção em que soprava o vento; e, num século rebelde a toda a forma de absolutismo e sensível aos caminhos do coração e da razão, adaptou-se maravilhosamente às exigências dos temperamentos do seu tempo. Foi assim que, progressivamente e como que por etapas, foi-se concretizando o seu pensamento pedagógico. Ei-lo nas suas grandes linhas.

Como base de toda a educação cristã, como fundamento sólido, embora insuficiente, colocava Dom Bosco uma vigilância ininterrupta. O salesiano, dizia ele, deve colocar o menino na impossibilidade de pecar, acompanhando-o com o olhar, não há dúvida, mas sobretudo com uma solicitude amorosa. Deve viver continuamente com seus alunos. De que modo? Como superior? Como policial? Não, como pai, que jamais deixa sòzinho os filhos enquanto a liberdade deles ainda não está educada. Este método preventivo. como ele o chamou em oposição ao outro – o método repressivo, feito à base de castigos, -procura cortar o mal pela raiz, tirando a ocasião, neutralizando-a ou pondo de sobreaviso os alunos para não caírem nela. Como a ciência moderna, esse método confia mais na higiene do que na medicina. O outro método dizia ao menino: Anda direito, não perturbes a disciplina porque senão, vê o que te está reservado”. Este diz: “Cuidado! Aqui está uma ocasião perigosa. Fica firme, vence o obstáculo; e se for muito difícil, apóia a tua fraqueza na minha força pois estou aqui a teu lado.

O primeiro tem por base o temor reverencial, o segundo a vigilância afetuosa. Um conserva o superior num esplêndido isolamento do qual só sai para ameaçar e reprimir e cria as famosas paralelas em que ocorrem mestres e alunos sem nunca se encontrarem; o outro faz descer a autoridade de sua cátedra, sem a comprometer, supera todas as barreiras que separam o educador do educando, e se esforça por se fazer tudo a todos. No sistema repressivo ostenta-se um rosto glacial, giram-se dois olhos ameaçadores, mantém-se o modo de agir reservado e austero, e assim vive-se em paz; o trabalho fica simplificado. No sistema preventivo, que põe o mestre em contínuo contato com o aluno, há um meio de salvar o próprio decoro : ser virtuoso. A fim de fazer penetrar na alma de seus discípulos esse método baseado no sacrifício, o Santo garantia que pondo-o em prática se obtém estes quatro resultados: os alunos ficam afeiçoados aos mestres para toda a vida; nem um deles nas suas mãos vem a tornar-se pior; o contágio dos vícios detém-se à porta do colégio; e uma vez conquistado o coração, pode-se penetrar até à intimidade da alma para transformá-la.

Tais ensinamentos Dom Bosco procurava à custa dos maiores sacrifícios infundir com o próprio exemplo na alma dos seus colaboradores. No recreio principalmente é que se podia admirar seu zelo de educador. Disse um de seus alunos que ele era a alma dos brinquedos. Nenhum elogio foi mais merecido do que este!

Viam-no em todos os cantos do pátio, onde multiplicava sua presença conforme as necessidades. Quando percebia que algum brinquedo ia dando em rixa, aproximava-se dos mais exaltados, procurava descobrir o cabeça da desordem e dizia amavelmente : “Escute, vá brincar ali com aqueles que estão precisando de mais um jogador. Eu fico no seu lugar”. E se punha a jogar com grande alegria dos novos companheiros, qualquer que fosse o brinquedo: bola, bochas, corrida ou até o simples gude. Se descobria noutro ponto do pátio no meio de um grupo de meninos algum cujas palavras fossem reprováveis: “Venha aqui para o meu lugar, eu irei para o seu”. E fazia-se a troca com a maior naturalidade do mundo. Assim Dom Bosco passava de um brinquedo para outro, com o olhar sempre vigilante e ganhando em todas as partidas, pois era muito hábil em todos os jogos, causando a admiração de seus alunos.

“Que delícia, conta um de seus velhos alunos, vê-lo no meio de nós! Não olhava nem para o caráter, nem para o traje, nem para a idade, nem para os modos mais ou menos delicados; era tudo para todos. Se tinha preferências, eram elas para os mais maltrajados, para os que traziam mais visíveis os sinais da pobreza. Para os pequeninos então tinha um coração de mãe”. As vezes num canto do pátio dois meninos, por questões surgidas no brinquedo, chegavam às vias de fato. Do ponto mais afastado onde estivesse, Dom Bosco apenas os via corria a ter com eles a pedir-lhes que deixassem de brigar. Muitas vezes pedia em vão! Como é violenta a paixão no brinquedo! E nesse caso o bom Pai erguia a mão como que para dar-lhes umas palmadas… mas a mão descia pacífica, interpondo-se entre as duas cóleras, separando energicamente os dois travessos que afinal, como por encanto, desistiam de todo o furor.

Muitas vezes enfileirava os meninos em dois campos opostos, punha-se à testa de um deles e iniciava uma partida de barra manteiga. Jogadores e espectadores, todos se apaixonavam pelo resultado da partida. Os de um lado pelejavam para vencer a Dom Bosco, os do outro tinham certeza de que com Dom Bosco a seu favor não podiam perder. E o entusiasmo subia ao auge!

Assim também não era coisa rara ver Dom Bosco desafiar a todos os meninos de uma vez para uma corrida. Marcada a meta, enfileirava a turma, arrepanhava a batina, dava o sinal da partida: um, dois… três! E veloz como uma flecha, tomando em poucos minutos a dianteira do turbilhão de meninos que o encalçavam, chegava à meta por primeiro. A última vez que ele apostou corrida assim foi em 1868; já contava então 53 anos. As pernas varicosas já estavam inchadas, mas isso que importava? Era preciso divertir os meninos. E naquela idade conseguia deixá-los todos para trás. Os espectadores mal podiam crer nos próprios olhos.

Mas evidentemente, apesar de todo o seu zelo, Dom Bosco não conseguia eliminar todas as faltas. E nesses casos, qual era a sanção que se aplicava? Que rezava o capítulo dos castigos? Dom Bosco não tinha dificuldade em admitir que em alguns casos por amor ou por força era mesmo necessário punir, embora talvez muito menos vezes do que se pretenderia. Exigia então que os castigos se inspirassem nos mesmos princípios que orientam todo o sistema. Todo o cuidado para não fechar a alma do menino, para não tornar-lhe o coração impenetrável ao trabalho positivo da
educação.

Em virtude desse principio, os castigos adotados em suas casas tinham estas características: Só se aplicavam em último caso, depois de se ter esperado o mais possível; não eram humilhantes nem irritantes; traziam um cunho marcado de razoabilidade; tinha parte neles o coração. Nunca ou quase nunca se davam castigos públicos. Jamais os castigos corporais irritantes, que incitam os corações à revolta; as próprias expulsões, quando se tornavam necessárias por escândalo ou por indisciplina
obstinada, faziam-se com toda a cautela; nunca se castigavam faltas cometidas por pura leviandade, nem se aplicavam castigos coletivos para punir transgressões cujo autor não se conseguia descobrir; não havia tabelas para aplicar punições sem olhar para o grau de culpabilidade real e jamais se distribuíam castigos sob o domínio da cólera. Fazia-se ao invés uso abundante desses castigos que uma boa mãe pode aplicar habilmente : o semblante contristado, uma palavra fria ou indiferente, dois olhos que se voltam para o outro lado, uma mão que se retrai; e sempre correções com as quais concordava a razão do culpado. “O castigo não dá resultado, dizia o Santo, senão quando o menino compreende que foi razoável”. “Para os meninos, dizia, é castigo tudo o que se faz servir como castigo. Uma palavra de elogio a quem merece, uma de reprovação a quem procedeu mal, são muitas vezes verdadeiro prêmio e verdadeiro castigo”. Um dia, narra o Conde Connestabile, fui apresentar meus cumprimentos a Dom Bosco e o encontrei sentado à escrivaninha, todo ocupado em ler certa lista de nomes.

-Estes são os alunos, explicou-se ele, que deixam algo a desejar.
Eu que conhecia ainda muito mal o sistema do educador perguntei-lhe:

-Qual o castigo que lhes vai aplicar?
-Castigo? Nenhum. Veja o que vou fazer: o mais indisciplinado é este; tem muito bom coração, mas juízo nem um pouquinho! Pois bem! De aqui a pouco descerei ao recreio, chamá-lo-ei à parte e lhe pedirei notícias de sua saúde.
-Vou indo muito bem, responderá naturalmente sem a menor hesitação.
-Mas estás plenamente contente contigo mesmo? Perguntarei então, fitando-o nos olhos. Esta pergunta inesperada e bastante clara há de deixá-lo perplexo por uns instantes. Depois pregará os olhos no chão, ficará vermelho e conservará um silêncio forçado. Então continuarei em tom afetuoso -Dize lá! Estou vendo que teu corpo vai bem, mas talvez a alma está doente. Há quanto tempo não te confessas? Não respondes, hein! pois o teu silêncio diz tudo. Tu me vais prometer que quanto antes arrumarás as tuas contas com Deus, está bem? Dentro de poucos minutos, o senhor encontrará o menino no confessionário e aposto o que quiser que ninguém mais terá motivo de queixar-se dele.

Confessor Incansável

Uma vez na véspera do Natal, tinha confessado tanto durante o dia todo como também no dia precedente, que não agüentava mais. E eis que se apresentam ainda cinco ou seis alunos que queriam confessar-se para fazerem a comunhão. Dom Bosco levou-os até o quarto e confessou um, dois…
depois dormiu apoiado ao ombro do terceiro. Apenas o penitente percebeu, fez sinal aos outros que não fizessem rumor para não despertá-lo. Os dois que se tinham confessado retiraram-se de mansinho; os outros três sentaram-se para esperar que o confessor acordasse; e ficou o último sustentando imóvel a cabeça do pai querido. Depois de mais de meia hora Dom Bosco abriu os olhos, recobrou a atenção, olhou em derredor e caiu em si.

-Pobrezinhos! suspirou. Quem sabe há quanto tempo estão esperando!
-Ora, Dom Bosco! O senhor estava dormindo um sono tão gostoso que ficamos com pena de acordá-lo.
-Pois eu teria preferido que me acordassem.
-Mas eu nunca mais teria a sorte que tive hoje, comentou o penitente. Poderei sempre gloriar-me de ter sustentado, a cabeça de Dom Bosco adormecido.

O sonho dos espinhos e das rosas.

Trinta anos mais tarde, o sonho se ia repetir debaixo de uma forma não menos graciosa e muito mais precisa. Na noite de 8 para 9 de julho de 1880, Dom Bosco se viu na sala contígua ao seu quarto, rodeado de todos os membros do Capítulo Superior. Fazia pouco tempo que tinha começado a sessão, quando de improviso o céu tornou-se escuro e se desencadeou um tremendo temporal acompanhado de relâmpagos e trovões. Depois um raio terrível fez estremecer toda a atmosfera. Dom Bosco correu imediatamente à janela da galeria ao lado para ver onde tinha caído. Então partiu-lhe dos lábios esta exclamação: “Oh! uma chuva de espinhos!”‘ E de fato caíam espinhos em quantidade como se fosse uma chuva densa. Ouviu-se um segundo trovão violento e pareceu que o tempo clareara um pouco. O Padre Bonetti gritou do seu posto de observação: “Olhem! Em vez de espinhos estão caindo botões de flores”. E de fato o chão se ia cobrindo como que de um tapete de flores em botão. Ouviu-se um terceiro trovão e o Padre Bonetti, diante do céu quase sereno de uma vez, exclamou: “Agora estão chovendo flores”. E as flores caíam em chuva intensa cobrindo com suas corolas de cores variegadas a terra e os tetos das casas. Um último trovão, ainda mais violento, abalou a casa! – “Desta vez estão chovendo rosas!” exclamou o Padre Bonetti. O céu se tinha tornado de improviso completamente limpo e sereno e uma ‘chuva de rosas de cores variadas e de perfume delicioso caía sobre o Oratório. “Oh! Finalmente!” exclamou Dom Bosco.

Fenômenos de visão a distância.

Não somente o olhar do Santo descobria o futuro de seus interlocutores, ou a hora precisa da morte de seus filhos; seus olhos penetravam também paredes e atravessavam os espaços. Um dia, era 31 de janeiro de 1862, estava passeando sob os pórticos do Oratório, rodeado de meninos, quando parou um instante, chamou o clérigo Cagliero pertinho de si e lhe disse ao ouvido: “Estou escutando tilintar de moedas. Estão jogando a dinheiro, em algum lugar. Procure Fulano, Sicrano e Beltrão, – e citou três nomes precisos – e há de ver como estão jogando”. Cagliero obedeceu e de fato encontrou os três rapazes absortos, numa partida a dinheiro. Assim os tinha visto Dom Bosco num sonho da noite precedente.

Doutra feita – um sábado à noite – quando acabou de confessar um menino, disse-lhe: “Faze-me um favor, vai até o sótão dos aprendizes; lá encontrarás Fulano, fumando; chama-o e dize-lhe que venha confessar-se”. O menino subiu os três lances de escada; estava tudo escuro e ele tinha que andar às apalpadelas, no meio das trevas, mas fase guiando pelo cheiro do fumo muito perceptível.
Ao chegar ao forro, parou com receio de ser recebido brutalmente, pois o tal aprendiz era grande e robusto. Chamou apenas pelo nome. Silêncio. Chamou-o de novo e nada.. Então decidiu-se a entrar. O aprendiz estava sentado no chão, fumando tranqüilamente. “Dom Bosco te está chamando para te confessares”, ~ disse-lhe o mensageiro e fugiu de carreira. Mas para ver o que acontecia escondeu-se atrás de uma coluna e ficou espreitando. Após dois minutos viu passar o culpado, provavelmente arrependido, e viu dirigir-se para a sacristia onde Dom Bosco o aguardava, no confessionário.

Durante as férias de verão, época em que Dom Bosco costumava levar à sua terra Natal os meninos que não podiam passar as férias com as próprias famílias, aconteceu uma tarde que um deles saiu da companhia dos outros e foi dar um passeio sozinho, no, meio do bosque. Numa curva do caminho sombreado, o menino se encontrou com um indivíduo de aspecto sinistro, que lhe fez propostas indignas. O menino nem sequer compreendia a princípio. Mas as insistências daquele miserável fizeram-lhe abrir os olhos e ele ficou como que desorientado e sem força, até que de improviso ouviu alguém chamá-lo duas vezes pelo nome. “Deve ser o assistente” pensou ele; e todo contente com esse pretexto, afastou-se e foi correndo para casa. Perguntou ao assistente, mas esse lhe respondeu que não o tinha chamado. Então, adivinhando qual podia ter sido o ponto de onde partira o chamado que o salvara, foi ter com Dom Bosco e o encontrou rodeado de um grupo de meninos. Apenas chegou diante de Dom Bosco, este fitou-o com um olhar perscrutador, acompanhado de um sorriso de complacência. Isto fez entender ao menino que o Santo estava a par de tudo.

Mas o olhar de Dom Bosco não transpunha somente essas distâncias pequeninas, para surpreender alunos que se distanciavam momentaneamente dos colegas. Ia mais longe! Atingia às vezes dezenas de quilômetros e aí lhes desvendava as ações.

Em 1862, de Santo Inácio, escreveu-lhes um dia uma longa carta cheia de ternura e de conselhos preciosos, concluindo com estas graves revelações: “Já estive diversas vezes ai no Oratório, fazendo-vos uma visita. Vi algumas coisas que iam bem e outras que iam mal. Vi quatro lobos, correndo para lá e para cá no meio de vós e mais de um foi mordido por eles. Talvez na minha volta os quatro não estejam mais no Oratório. Se ainda tiver ficado um deles hei de arrancar-lhe a pele de ovelha com que anda vestido para enganar os outros. Noutra de minhas visitas, vi alguns conversando durante as orações da noite, no terraço ao lado da torre; outros, fazendo o mesmo na escadinha da casa nova. O clérigo Provera descobriu alguns que estavam no andar térreo, mas não viu os que estavam no patamar dos outros andares. Vi também alguns saírem domingo cedo e assim perderem parte das funções sagradas. Mas o que mais me entristeceu foi ver alguns fugirem das vésperas, para irem nadar. Pobres meninos! Como pensam pouco na sua alma!

Dom Bosco Lia nas consciências

Mais profundo ainda e mais misterioso que o mundo físico, em que os homens se movem e se agitam é o mundo das almas. Pois o Santo muitas vezes lia nelas como num livro aberto. Penetrava nas consciências mais hermeticamente fechadas e delas tirava os pensamentos mais escondidos. Eis algumas provas.

Havia um menino, que levado pela vergonha, não queria fazer sua confissão geral a Dom Bosco. O Santo veio a saber disso e um dia o encontrou num corredor e lhe disse a queima-roupa: “Meu caro, vai confessar-te com quem quiseres. O que importa é que te confesses bem. Para isso, começa a acusação desde o ano tal e principalmente não esqueças tal pecado e tal outro”. Confuso e abalado por essa revelação o menino respondeu-lhe “Não, Dom Bosco, não irei confessar-me com outro, senão com o senhor mesmo; e me quero confessar já”. Dom Bosco lhe disse que deixasse para o dia seguinte; e depois da confissão a paz voltou àquela alma.

Noutra ocasião, o Apóstolo encontrou pela escada outro aluno ao qual segredou baixinho -“E quando é que farás uma confissão geral? Estás precisando tanto!”
-Mas eu fiz antes de ontem confissão geral ao Padre Picco!
-Porém não fizeste bem; escondeste este pecado.
O menino olhou espantado, ficou vermelho, abaixou a cabeça e rompeu em soluços.

Nos princípios do internato de Valdocco, um menino aceito por Dom Bosco acabava de chegar de Biela. Antes de entrar, como não estava com a consciência muito em regra, foi confessar-se na igreja da Consolata. No pátio, durante o recreio da tarde, aproximou-se de um grupo que estava ao redor de Dom Bosco. Estavam falando sobre o dom que tinha Dom Bosco de ler no fundo dos corações e cada um contava em voz alta uma de suas revelações. Ora! disse o novato em tom de incredulidade, desafio Dom Bosco a contar meus pecados. Se ele os souber pode dizê-lo em voz alta.
“Aproxima-te”, disse então Dom Bosco, e curvando-se para o menino disse-lhe, ao ouvido, algumas frases; depois levantou a cabeça, fitou o seu interlocutor, e baixando-se de novo continuou a revelação; à medida que ele ia falando 0 menino ia ficando vermelho; por fim rompeu em soluços de indignação. “Ah! Foi o senhor então, disse ele, que me confessou esta manhã, na igreja da Consolata! Isto é modo de se proceder!”

-Que estás dizendo! Exclamaram os outros em coro. Dom Bosco hoje não arredou pé do Oratório! Em 1858, achava-se veraneando em Nizza, o Conde de Camburzano, ex-deputado por Nizza no parlamento subalpino e cognominado o Montalembert italiano. Amigo dedicado e grande benfeitor de Dom Bosco, um dia teve ocasião de falar dele numa reunião de pessoas muito distintas, cujas convicções religiosas eram porém demasiado superficiais. As maravilhas que o conde narrava faziam apontar mais de um sorriso de incredulidade. Entre outros, uma senhora, ouvindo dizer que o Santo do qual se estava falando vivia ainda, começou a dizer com tom de certa leviandade: “Gostaria de fazer uma experiência: se esse homem revelar o estado de minha consciência, acreditarei em tudo que quiserem”. Todos os presentes aplaudiram. Decidiu-se que se fizesse a experiência e a senhora escreveu ali mesmo para Dom Bosco. A resposta não demorou: “1. Reconcilie-se com seu marido. 2. Repita suas confissões a começar do dia tal(tratava-se de um período de vinte anos). Depois disso
pode ficar tranqüila”. Aviso parecido com esse deu a um menino que lhe pedia um conselho.

-Que conselho queres?
-Um conselho que sirva para o bem de minha alma.
-Pois então escuta: há três anos e meio que estás vivendo em estado de pecado mortal.
-Como é possível? Pois eu me confesso regularmente com o Padre Sávio.
-Mas no entanto é assim. Tu mesmo o sabes.
E continuando a ler nesse coração, Dom Bosco se pôs a revelar certos pecados que ele ocultava ao confessor. A cada uma das faltas enunciadas, o menino confirmava com um aceno de cabeça e terminou prometendo a Dom Bosco que antes de chegar a noite iria purificar a alma.

Havia um menino que desde muito tempo era objeto das mais vivas e comovedoras
solicitudes de Dom Bosco. Mas esse orvalho de ternura sacerdotal não conseguia amolecer aquele coração, que parecia fechar-se obstinadamente à voz da graça. Uma noite, quando o menino ia deitar-se encontrou um bilhetinho debaixo do travesseiro com estas simples palavras: “E se morresses esta noite?… Dom Bosco” O efeito não se fez esperar. O pobre menino todo comovido foi bater à porta de Dom Bosco.
-Ah! És tu?
Confessou-se e saiu completamente tranqüilo.

Um caso inegável de Bilocação

Agora, uma coisa mais curiosa, e que demonstra como o Santo não só gozava do privilégio da visão à distância mas também da bilocação, de sorte que algumas vezes se achava num determinado lugar e numa determinada hora, e nessa mesma hora se achava, com uma presença misteriosa, noutro lugar situado a muitos quilômetros de distância, onde testemunhas imparciais o viam agir e falar.

Em 1886, o colégio salesiano de Barcelona, na Espanha, um dos primeiros que Dom Bosco fundou nessa nação, contava infelizmente com alguns elementos perigosos, tanto . mais temíveis quanto mais a sua ação se velava de hipocrisia. Por fora pareciam bons mas por dentro eram lobos vorazes.

Pois veja-se o que aconteceu.

-Era noite de 28 para 29 de janeiro, conta o Padre Branda, Diretor da Casa. Eu estava dormindo profundamente, quando, de improviso, uma voz, que reconheci ser a de Dom Bosco, me chamou pelo nome. “Levanta-te e segue-me” continuou a voz. Acordei a esse chamado e estava pensando comigo mesmo: “Que sonho curioso! Dom Bosco está em Turim e eu em Barcelona; como é que posso ouvir a sua voz?”
E o Padre Branda adormeceu de novo.

Oito dias depois no encerramento da oitava de São Francisco de Sales, na noite de 5 para 6 de fevereiro, repetiu-se o mesmo fato.

-“Padre Branda! Padre Branda!” exclamou a voz. O Diretor abriu os olhos e viu Dom Bosco ao pé da cama.
-“Estás acordado; muito bem! Levanta-te e vem comigo

O Diretor levanta-se, veste-se abre as cortinas de sua alcova e a um metro de distância torna a ver Dom Bosco e lhe beija as mãos com respeito.

-Tua casa vai bem, lhe diz o Santo, estou contente contigo; mas… há um ponto negro…
A essa suspensão aparecem diante dos olhos do Diretor quatro pessoas de seu Instituto.

-A este, disse Dom Bosco apontando um dos quatro da aparição, aconselha um pouco mais de prudência. Para os outros três é necessário expulsá-los. Elimina-os portanto, sem compaixão e o mais depressa possível. A ordem foi dada com um tom que não admitia réplica, depôs a testemunha.

Para salvar uma alma, Dom Bosco ressuscita momentaneamente um corpo

Como coroa desses milagres todos e como conclusão deste capítulo narraremos ainda um fato, que poderá talvez fazer abanar a cabeça a certos positivistas impenitentes, mas que tem um cúmulo de testemunhas a corroborá-lo para estabelecer-lhe solidamente a veracidade. Entre os meninos que freqüentavam o Oratório de Dom Bosco, em 1894, havia um de quinze anos chamado Carlos, filho de um estalajadeiro da vizinhança. Durante uma ausência prolongada do Santo, Carlos adoeceu gravemente e em breve tempo se achou nas últimas. “É preciso tratar de administrar-lhe os Sacramentos” disse o médico. Para confessar-se pela última vez o menino fazia questão que fosse Dom Bosco o confessor. Correram logo ao Oratório, mas Dom Bosco não tinha ainda voltado. Recorreram então ao vice-pároco, que atendeu ao pequeno moribundo. Daí a dois dias o menino expirava. Suas últimas horas foram muito agitadas; não cessava um instante de chamar por Dom Bosco. Quando o Santo regressou a Turim, a primeira coisa que lhe contaram foi o pedido dos pais do menino.
“Vamos vê-lo, pensou Dom Bosco; quem sabe se ainda está em tempo”. Logo na entrada da casa, encontrou-se com um criado que lhe disse

-Está chegando tarde demais, Reverendo; há seis horas que morreu. -Não pode ser. Estará dormindo apenas! O homem mirou-o com ar de ironia, como quem dissesse: “Por quem é que me está tomando?” Mas Dom Bosco, sorrindo replicou: “Quer apostar como não está morto?”

Nesse ínterim chegam alguns parentes e entre lágrimas confirmam a notícia tão triste. Dom Bosco entra então no quarto do morto. Ao pé do leito rezavam a mãe e uma tia. Na cabeceira ardia um cirio; o menino estava envolto num lençol, fechado por uma costura, como se costumava então; cobria-lhe o rosto um véu de musselina. Ao entrar no quarto Dom Bosco fez um sinal às pessoas que o tinham acompanhado para que se retirassem. Antes de chegar perto do leito foi assaltado por uma dúvida: “E se este rapaz não tiver feito bem a última confissão?” Elevou então a Deus sua alma, na mais fervorosa oração, lançou uma bênção sobre aquele corpo e exclamou duas vezes, com voz imperiosa: “Carlos, Carlos, levanta-te”. A essa voz o cadáver foi como sacudido por um frêmito. O Santo descoseu violentamente o lençol e descobriu o rosto do menino. “De que maneira esquisita me foram embrulhar!” exclamou ele abrindo largamente os olhos como quem acordasse de um profundo sono. Depois, ergueu-se, passeou os olhos pelo quarto e, percebendo que era o Pai de sua alma que ali estava exclamou:

-Oh! Dom Bosco! Se soubesse! Quanto chamei pelo senhor! Foi Deus quem o mandou aqui. Fez muito bem em acordar-me.
-Fale, fale, Carlinhos! Conte bem o que me quer dizer. Por você é que eu aqui estou.
Então o menino prosseguiu:

-Acho que nesta hora eu deveria estar no lugar da eterna infelicidade. Na minha última confissão escondi um pecado que tinha cometido poucas semanas antes. A certo ponto tive um sonho: pareceu-me estar a beira de uma fornalha ardente, perseguido por demônios que me queriam agarrar. E já iam conseguindo fazê-lo, quando interveio uma senhora e disse:
“Deixem-no em paz: ainda não está julgado”. A essas palavras apoderou-se de mim uma terrível angústia; mas ouvi a sua voz e acordei. Agora, confesse-me, Dom Bosco.
A um aceno de Dom Bosco, a mãe e a tia do menino, que tinham assistido petrificadas a esse espetáculo, saíram um instante do quarto. Quando reentraram juntamente com os demais membros da família, a confissão tinha terminado.

“Dom Bosco me salvou do inferno” murmurou o menino. Viveu ainda mais duas horas, mas conservando no corpo a gelidez da morte. Num dado momento, o Santo lhe perguntou: “Agora que você está em graça de Deus, pode estar certo que se morrer irá para o céu. Então, quer ficar conosco ou prefere ir para lá?”
-Quero ir para o Céu, respondeu o menino.
-Pois então, até à vista no Céu! disse Dom Bosco.
E, como se estivesse esperando só essa despedida, o menino deixou cair a cabeça sobre a almofada, fechou os olhos e voltou à imobilidade de antes: desta vez adormecera em Deus.

Todos então o rodeiam para tomar-lhe a bênção antes de ir dormir. Alguns esperam porque têm uma palavrinha para lhe dizer, uma pergunta ou uma confidência ou mesmo porque Dom Bosco lhes fez sinal que esperem. É o momento dos diálogos breves mas de quanta eficácia!

-Como vais?
-Otimamente!
-Mas e a alma? – Ah! isso…
-Se morreres esta noite, estarias preparado? – Não muito.
-E então quando é que irás confessar-te? – Amanhã cedo.
-E porque não esta noite mesmo?
-Não. Porque esta noite eu não me confessaria direito. – Então amanhã não faltes, hein?
-Sim senhor, prometo.
E o menino se afasta modificado.
E a outro diz:

-Mandei-te esperar porque é preciso concluir um negócio contigo; temos
que assinar um contrato.
-Um contrato?
-Precisamente! Dize-me: Não gostarias de ficar para sempre com Dom
Bosco?
-Oh! gostaria muito! E até já tinha pensado nisso, mas não sabia como dizê-lo ao senhor.
-Pois então vai ter com o Padre Rua e dize-lhe que quero fazer um contrato contigo e ele compreenderá logo… E o noviciado salesiano contava com um noviço a mais.
Um aluno da quarta série ginasial que entrou há pouco no Oratório lhe diz
-Dom Bosco, quero pedir-lhe um favor.
-Qual?
-Queria ir confessar-me na Igreja da Consolata.
-Pois não. Somente te darei um companheiro para ires. E me deves
prometer uma coisa.
-Qual é?
-Que não deixarás de dizer ao confessor isto e mais isto.
E Dom Bosco lhe diz com exatidão um pecado que o menino vinha ocultando nas confissões que fazia.
-Oh! Dom Bosco mas neste caso não é preciso que eu me vá confessar noutra igreja.
-Está bem, pois então te espero amanhã. E o pequeno aluno de latim se afasta alegre com o coração a parecer-lhe como que mais leve. Um quarto menino lhe diz com ar desolado mostrando-lhe uma carta. Leia Dom Bosco. O senhor ecônomo escreveu isto a minha irmã, porque eu não posso mais pagar as dez liras mensais. Portanto tenho que me ir embora. O Santo lê a carta e enquanto vai subindo a escada faz o menino contar as penosas condições da família. E ao chegar à porta do quarto o bom pai diz ao menino: Toma uma pitada. E lhe chega ao nariz uma velha tabaqueira que lhe enchem uma vez por ano e que está ali, como que esquecida sobre a mesa. O menino aspira o rapé e espirra. Dom Bosco acha graça, ri e o menino ri também esquecendo-se completamente do que lhe estava causando magoa.

-Bem, fica tranqüilo, completa Dom Bosco. O ecônomo não foi dormir ainda. Vai procurá-lo e dite-lhe que deixe por minha conta todas as tuas dívidas passadas, presentes e futuras. Sim senhor. Mas se ele não acreditar em mim?

Se não acreditar faze assim: sairás pela portaria e reentrarás pela igreja. Mas agora vai dormir. E o menino desce a quatro e quatro os degraus da escada e corre a levar ao ecônomo a ordem de Dom Bosco.

Depois são alguns superiores da casa que aproveitam para lhe dizer alguma palavrinha nesse único momento livre que tiveram. As onze ainda está ali o Santo ouvindo, interrogando, respondendo. Finalmente depois de todos se retirarem parece que o dia está terminado.

Antigamente, em certas noites, quando já todos estavam dormindo, ele enchia as páginas do manuscrito que se ia transformar num número das Leituras Católicas. Belos tempos aqueles! Hoje está envelhecendo, as forças vão diminuindo, e vem chegando a noite em que ninguém mais pôde trabalhar. “Paciência!” murmura resignado à santa vontade de Deus. Atravessa a ante-sala, empurra a porta que dá para a varanda e ergue os olhos para o alto acima da cúpula do Tempo. Seu olhar descobre Nossa Senhora. Para ela sobe o último suspiro de seu coração. O relógio do
campanário bate onze e meia. Seriam horas de ir para a cama. Mas poderá mesmo dormir? Não é coisa tão certa; pode vir um desses sonhos que o conservam agitado toda a noite e lhe fazem acordar exausto no dia seguinte. E de fato. Parece até que a vontade do céu não tendo podido ir-lhe ao encalço no correr do dia saturado de ocupações, vem aproveitar-se da calma suave da noite para se lhe manifestar durante o sono.

Luta espiritual

Mas não faltaram a Dom Bosco contatos bem diferentes com o outro mundo: visitas daquele que Jesus chamou de “Príncipe deste mundo”. O ódio do demônio contra as almas remidas que o zelo iluminado do Apóstolo ia salvando aos milhares usava de todos os artifícios para que esse zelo ficasse infrutuoso. Em 1862 começou a multiplicar assaltos a Dom Bosco com o escopo evidente de intimida-lo. De noite principalmente não o deixava em paz um momento. Temos as confidências de vítima que no-lo atestam.

Certa manhã de fevereiro de 1862, Cagliero, Bonetti e Ruffino acharam-no extremamente pálido e extenuado. E Dom Bosco lhes explicou que o demônio o atormentara de noite e, até lhes revelou pormenores exatos. Ora o espírito maligno lhe vinha gritar ao ouvido, ora fazia desencadear dentro de seu quarto uma ventania que levava pelos ares todos os papéis; ora se punha a rachar lenha sem parar; depois fazia sair chamas da estufa apagada; ou então puxava as cobertas e estremecia violentamente o colchão de Dom Bosco. Um sinal de cruz bastava para cessar o assalto, mas recomeçavam poucos minutos depois com um novo programa: Ou era um grito agudo e sinistro que enchia de terror o coração do Santo; ou era um fragor medonho que se produzia no forro, como se fora um esquadrão de cavalaria que estivesse passando a galope; ora o demônio agarrava a Dom Bosco pelas costas, ora
se lhe sentava ironicamente sobre o peito; fazia dançar o criado-mudo no meio do quarto; passava um pincel gelado no rosto, no nariz, no queixo de Dom Bosco; levantava pelos ares a cama e depois a deixava cair bruscamente; sacudia portas e janelas por quartos de hora seguidos; aparecia ao Santo em forma de animais ferozes, – ursos, tigre, serpentes, – ou com feições de monstros indescritíveis que se atiravam raivosos por cima dele. Avisados por Cagliero, alguns dos alunos mais corajosos de Dom Bosco, como Sávio, Bonetti e Ruffino quiseram ir ficar vigiando à noite na porta do quarto. Mas passados poucos minutos, fugiram espavoridos. O próprio Dom Bosco, certos dias, saía completamente exausto dessa luta que não deixava tréguas. Certa vez… já não podia mais… Correu a procurar sossego em casa do Bispo de Ivrea, seu grande amigo. A primeira noite tudo correu calmamente, de sorte que o Santo até pensava que o demônio havia sido despistado. Mas na segunda noite tudo recomeçou. Dom Bosco já por precaução tinha ficado a conversar com o Sr. Bispo até a meia noite. Mas depois que se pôs na cama, mal tinha passado um quarto de hora de sono, apontou aos pés do leito um monstro repugnante, rugindo de raiva e tomando impulso para pular-lhe em cima. A essa vista Dom Bosco deu um grito tão forte que acordou todo o pessoal do palácio. Correram a perguntar-lhe qual era a causa de tamanho susto. Ele respondeu que tudo não passava de um pesadelo. De manhã na hora do café contou tudo ao Bispo e voltou para Turim.

Dom Bosco pouco a pouco foi readquirindo as forças perdidas. Mas, mesmo assim a luta com o espírito das trevas durou, com intervalos irregulares, até 1864, por bem dois anos.

Caridade. Mortificação. Castidade. Humildade.

Felizmente aí estava a dar-lhe segurança para o seu modo de julgar, o argumento das obras, dessas múltiplas criações partidas do mais tranqüilo dos mortais, do mais simples dos sacerdotes do Piemonte. Pela audácia da concepção, pela variedade impressionante das formas, pela solidez da estrutura, elas bem atestavam que o autor bebia na fonte de toda a luz e de toda a força: Deus Nosso Senhor em cujos braços se abandonara e em cuja vida abismara sua mesma vida… A verdadeira palavra que define esta alma pronunciou-a o Cardial Alimonda na oração funebre : “A virtude intima e divina que punha em movimento esta vida prodigiosa era a caridade celeste”. Os biógrafos falam de seu espírito de penitência. E foi sem dúvida prodigioso. Dormia só cinco horas por noite e muitas vezes a aurora surpreendia-o sentado à escrivaninha. Nunca se preocupava com a qualidade dos alimentos. Suportava sem se queixar o duro trabalho do confessionário.

Desde 1845 até a morte queimava-lhe a epiderme um eczema quase contínuo que fez exclamar ao salesiano que se encarregou de lhe preparar o corpo para a sepultura: “Que cilício! E quando se pensa que ele o conservou sempre escondido!” Entretanto esse espírito de penitência não era outra coisa senão o seu modo particular de viver desapegado das criaturas, jamais dominado por elas. A não ser que o queiramos imaginar como a oferta íntima com que ele, no segredo da alma, entregava o corpo atormentado ao Mestre a quem tanto amava.

Surpreendem e comovem seus escrúpulos a respeito da pureza, escrúpulos que lhe faziam evitar até a mesma palavra castidade, para não despertar porventura com ela algum mau pensamento. Até o fim da vida jamais soube da existência de certas formas de desonestidade. É o Cardial Cagliero quem nos garante ter verificado isso. Os que o conheceram de perto atestam que ele levou consigo ao túmulo a inocência batismal. Para certos corações insidiados pelas más tendências bastava que ficassem perto dele para se sentirem logo livres da tentação. Um de seus filhos prediletos, o Padre Julio Barberis, nos diz que Dom Bosco desejou fazer dessa virtude e característica, de sua congregação. De sua pessoa, de seu contato, de sua palavra exalava uma como virtude secreta que por contágio penetrava e purificava as almas. Até pelo modo como ele tomava a mão de um menino ou colocava a própria mão na cabeça dele percebia-se seu imenso respeito para com o corpo batizado. E enfim, misericordioso como era para com qualquer falta, era pelo contrário inexoravelmente severo quando eram faltas contra os bons costumes. A pureza de sua alma era mesmo angélica. E não era isso a fidelidade de um coração e de um corpo a uma beleza, a um amor e a uma alegria superior que o tinham dominado completamente?

Dom Bosco expressava a respeito de si mesmo os juízos mais humildes. Dizia por exemplo: “Se Deus tivesse encontrado para suas obras um instrumento mais mesquinho, te-lo-ia certamente preferido a mim e teria ficado muito mais bem servido”.

Ao voltar dos dias triunfais de Paris, opunha-lhes como a honras fúteis, a humildade de sua origem: “Lembras-te, dizia ao Padre Rua, daquela pequena colina, à direita da estrada de Buttigliera? Nessa colina há uma casa muito pobre com um pequeno campo ao lado. Nesse campo eu tomava conta de duas vaquinhas. Todos esses distintos senhores que me cumularam hoje de gentilezas mal sabiam que estavam homenageando a um camponês!”

“Qual é a coisa mais bela que já viste em tua vida?” perguntou urre dia no pátio a um menino, sem nem sonhar que provocava esta resposta espontânea: “Dom Bosco”. “Ora essa! – replicou então – tu me fazes lembrar um campônio que visitou a exposição dos objetos de nossa última rifa. Enquanto todos se extasiavam a contemplar esta ou aquela obra de arte, nosso homem ficou boquiaberto perante um enorme salame. Para os seus olhos não havia nada de mais belo”. Essa confissão sincera e repetida de sua
pequenez ele a fazia para não subtrair nada à glória de seu Senhor e Mestre e para cantar o poder, a sabedoria e a bondade daquele que o escolhera para sua obra. E é também esta uma forma autêntica de amor.

Morte de Dom Bosco

Essas palavras disse-as no dia 28 de janeiro. No dia 29, festa de São Francisco de Sales, Padroeiro da Congregação, fez a comunhão pela última vez. Depois caiu numa insensibilidade, entremeada de delírio, que durou até à noite. Um mês antes tinha previsto esse estado. Pois no segundo dia da doença, o Padre Rua lhe tinha ido pedir uma dispensa de certa obrigação e ele lhe tinha respondido: “Pois não. Posso dispensá-lo até o dia de São Francisco de Sales. Se depois você inda precisar da dispensa, recorra ao Padre X” Usamos a palavra delírio pra exprimir as aparências de seu estado; mas possuímos indícios certos de que mesmo a extrema fraqueza não chegou á tirara Dom Bosco a lucidez do espírito.

Pelas dez horas da manhã interrogou ao Padre Durando em plena consciência. Sabendo que se estava celebrando a festa de São Francisco de Sales, demonstrou verdadeira alegria. Conversou também um pouco com os médicos. Mas, logo que partiram, recaiu num breve letargo, do qual voltou logo, perguntando ao Padre Durando: “Quem são esses senhores que acabam de sair?”

-Não os conheceu, Dom Bosco? São os doutores Albertotti, Fissore e Vignolo.
-“Ah! Sim! Diga-lhes que hoje fiquem conosco…”.
Queria dizer “para almoçar”, mas não pôde dizer nem uma palavra mais. O sentimento da gratidão não tinha perdido nada de sua vivacidade! Pronunciava muitas vezes, num tom de particular ternura, o nome dos principais benfeitores de suas obras. Um desses estava com um filho gravemente doente. “Pois bem, disse-lhe Dom Bosco, tenho a intenção de que todas as orações que agora se fazem por mim sejam aplicadas a seu
filho para obter-lhe a saúde”.

Durante o dia tinha dito ao secretário: “Quando eu não puder mais falar, se alguém me vier pedir uma bênção, você me levante a mão e trace com ela o sinal da cruz que eu porei a intenção”.

Nos instantes de dormência, parece que entende só quando lhe falam do Céu e das coisas da alma, e então inclina a cabeça. ou termina a oração começada. Assim, por exemplo, quando o Padre Bonetti lhe diz:

Maria Mater gratiae, tu nós ab hoste protege… o enfermo conclui: Et mortis hora suscipe.

Durante o dia todo ouvem-no repetir: Mãe! Mãe! Amanhã! Amanhã! E pelas seis horas da tarde,em voz baixa: Jesus, Jesus! . . . Maria!… Maria! Jesus e Maria, eu vos dou meu coração e minha… In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum . . . Oh! Mãe… Abri-me as portas do Céu.

Muitas vezes junta as mãos e recita lentamente as máximas da Sagrada Escritura que lhe serviram de regra durante a vida inteira: Diligite… diligite… inimicos vestros. Benefacite iis qui oderunt vos… Quaerite regnum Dei… Et a peccato meo, . . . munda . . . munda me…

Soa o Angelus da tarde. O Padre Bonetti convida o enfermo a saudar a Nossa Senhora dizendo :Viva Maria! Dom Bosco repete Viva Maria! Com piedosa comoção. Pouco depois volta-se para Enria, velho coadjutor que há dois meses passa as noites à cabeceira do dileto Pai, e sussurra algumas palavras a esse fiel amigo. Não consegue, porém, articular nenhuma frase, e diz apenas: “Mas… mas… eu te saúdo”.

Rezou depois o ato de contrição, acompanhado da invocação repetida: Miserere nostri, Domine. Durante algumas horas ergueu freqüentemente os braços ao céu, dizendo com as mãos juntas: Seja feita vossa santa vontade. A medida que a paralisia ia dominando o lado direito, o pobre enfermo continuava com o braço esquerdo seu gesto de resignação, repetindo como podia. Seja feita vossa santa vontade!

Tinha perdido completamente o uso da fala; mas para renovar o mais freqüentemente que lhe fosse possível o sacrifício de sua vida, durante todo o dia e toda a noite seguinte, empregou as poucas forças que lhe restavam em levantar continuamente a mão esquerda. Essa oferta sem palavras era um espetáculo de profunda edificação.

Compreendeu-se que estavam contadas as horas do pobre enfermo. Aliás ao alvorecer do dia 30 os próprios médicos não ocultavam que na tarde desse mesmo dia ou na madrugada do dia seguinte, no mais tardar, tudo estaria terminado.
Então o Padre Rua toma o posto de comando. E seu primeiro ato de governo é convocar ao redor do leito da agonia todos os angustiados filhos desse Pai, a fim de que o possam contemplar uma última vez ainda vivo e lhe venham dizer o último adeus, num derradeiro beijo depositado nessas mãos que tantas vezes os abençoaram.

Reunem-se em grupos silenciosos na capelinha particular e penetram sucessivamente no quarto em que agoniza o Santo. Ele lá está estendido no leito, com a cabeça inclinada sobre o ombro direito e soerguia por três almofadas. O semblante calmo, nada descarnado, quase jovem; os olhos semi cerrados; as mãos estendidas ao longo do corpo, sobre os cobertores; no peito, um crucifixo; aos pés a estola roxa, emblema da dignidade sacerdotal.

Profundamente comovidos diante do pungente quadro, os filhos vêm aproximando-se nas pontas dos pés, ajoelham-se à cabeceira do agonizante e depõem um ósculo de veneração nessa mão benfazeja. Desfilam assim a centenas pela sala pequenina, pois que vieram de todas as partes. Depois dos salesianos é a vez dos alunos das classes superiores e dos aprendizes maiores. E a cena de ternura filial dura o dia inteiro.

Nesse mesmo dia, um telegrama da República do Equador anuncia a chegada a Guaiaquil dos missionários que tinham partido nos meados de dezembro. O Padre Rua apressa-se em contar a alegre notícia a Dom Bosco. Parece que Dom Bosco entende. Com efeito abre os olhos e ergue-os para o céu, como que para agradecer.

À 1,45 da madrugada, Dom Bosco entrou em agonia. O Padre Rua, seu vigário, toma a estola e continua as orações dos agonizantes, já começadas e interrompidas cerca de meia noite. Chamam a toda a pressa os Superiores Maiores e, num minuto, acham-se reunidos no pobre quarto de Dom Bosco uns trinta salesianos, clérigos e leigos, ajoelhados ao redor do leito. Logo que chega Mons. Cagliero, o Padre lhe cede a estola e . fica à direita de Dom Bosco. Então, inclina-se ao ouvido do Pai e lhe diz com a voz estrangulada pela dor: “Dom Bosco, aqui estamos nós seus filhos. Pedimos-lhe que nos perdoe todos os desgostos que lhe demos e que em sinal de perdão nos dê pela última vez a sua bênção. Eu lhe sustentarei a mão e pronunciarei a fórmula”.

Que cena lancinante! Todas as frontes se inclinam até o chão e o Padre Rua, recolhendo as forças que a angústia do momento lhe deixa ainda, pronuncia as palavras da bênção, e contemporaneamente levanta, a mão já paralisada de Dom Bosco para invocar a proteção de Nossa Senhora Auxiliadora sobre os Salesianos presentes é sobre os demais que estão espalhados por todo o mundo. Pelas três da madrugada chega este telegrama: “Santo Padre envia íntimo do coração a bênção apostólica a Dom Bosco gravemente enfermo. Card. Rampolla. Monsenhor Cagliero já tinha recitado o Proficiscere. Às 4,30, na igreja N. Senhora Auxiliadora, soam as ave-marias e os presentes rezam o Angelus ao redor do leito. Depois o Padre Bonetti sugere ao venerando agonizante a jaculatória que tinha repetido tantas vezes nos dias precedentes: Viva Maria!

De repente o leve estertor, que vinha durando já uma hora e meia, cessou; por uns instantes a respiração se fez regular e tranqüila. Mas foi coisa de segundos. Esse derradeiro sopro se apagou também. Dom Bosco está morrendo! exclamou o Padre Belmonte. Os que se tinham deixado cair de cansados sobre alguma cadeira, levantaram-se de um salto. Mons. Cagliero dizia a suprema oração: Jesus, José e Maria, meu coração vos dou e minha alma! Jesus, José e Maria, assisti-me na última agonia!… Jesus, José e Maria, expire em paz entre vós a minha alma! O moribundo deu três suspiros que mal se perceberam. Dom Bosco estava morto! Tinha 72 anos, 5 meses e 15 dias. O relógio marcava 4,45 da manhã. Um grande servo de Deus acabava de voltar ao seu Senhor. Tinha vivido pobre e pobre tinha morrido.

Logo que foi informada, por duas ou três edições especiais dos jornais, de que Dom Bosco tinha morrido, a cidade acorreu toda em tropel ao bairro de Valdocco, para venerar os restos do grande benfeitor dos pobres. Pelas duas da tarde já a multidão assediava a portaria do Oratório para ser admitida a desfilar diante do cadáver. Diante da afluência enorme, imprevista, era preciso adivinhar um meio de contentar essa população ávida de contemplar pela última vez o semblante do apóstolo dos humildes.

A igreja de São Francisco de Sales era a mais indicada para tal fim. Portanto transportaram para lá o morto, revestido de paramentos violáceos, de barrete na cabeça e com um crucifixo nas mãos juntas. Sentado numa poltrona posta sobre um estrado no presbitério, ali estava Dom Bosco, na postura de uma pessoa adormecida de feições serenas, naturais, quase sorridente. Depois de 24 horas não tinha ainda a morte posto seu selo nesse rosto. Quando se abriram as portas da igreja para deixar entrar o povo, dir-se-ia que a cidade tinha acorrido toda inteira para venerar o santo corpo.

A Avenida Regina Margherita e a Avenida Valdocco ficaram apinhadas de gente e atulhadas de carruagem fidalgas e de carros de praça. Na praça de N. Senhora Auxiliadora sucediam-se ondas contínuas de uma multidão imensa e recolhida. Introduzidos pela portaria do Oratório; entravam na igreja e desfilavam diante do cadáver, dispersando-se em seguida nos pátios internos e saindo finalmente para a rua como vagas de um rio a se encalçarem. Ali se viam todas as classes da sociedade: pelas dez horas os comerciantes modestos; do meio dia em diante até a tarde, os grandes negociantes, a magistratura, a gente de grandes posses, os funcionários públicos. Até à noite continuou o desfile cerca de 40.000 pessoas passaram a venerar os restos mortais do humilde sacerdote.

Fonte:LIVRO DOM BOSCO Pe. A. Auffray SDB – 4a. Edição – Editorial Dom Bosco – São Paulo 1946.

Sonhos de Dom Bosco

Este Santo Sacerdote é o fundador da Sociedade de São Francisco de Sales (Salesianos) e do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora. Dedicou-se com fervor invulgar à educação dos jovens, especialmente dos mais marginalizados, criando oratórios, escolas de formação e missões em todo o mundo. São João Bosco foi devotíssimo da Eucaristia.Tinha uma grande fé na Santa Missa. Aos seus jovens dava como regra que participassem nela todos os dias. Dizia que não há perigo de ter uma má morte, para quem devotamente participa com assiduidade na Santa Missa e que o Senhor atende, de um modo especial, as orações feitas no momento da elevação da Hóstia Santa e do Cálice com o Preciosíssimo Sangue. A todos repetia: “Quereis que o Senhor vos conceda muitas graças? Visitai-O frequentemente, meus caros! A visita ao Santíssimo Sacramento é um meio necessário para vencer o demônio”.

São João Bosco num dos seus “sonhos proféticos” viu os tempos difíceis que a Igreja iria viver e as intervenções prodigiosas que a Divina Providencia iria realizar, para a sustentar nesses trágicos momentos. Na noite do dia 30 de Maio de 1862, depois de ter rezado com os seus jovens, como era habitual, São João Bosco contou-lhes este “sonho”: ‘Imaginai-vos estar comigo na praia do mar, ou melhor, sobre um rochedo isolado e não ver ao vosso redor senão mar. Em toda aquela vasta superfície de água, vê-se uma multidão inumerável de navios dispostos para a batalha. Estes avançam contra um navio muito maior do que eles, tentando atingi-lo, causando-lhe todo o tipo de estragos possíveis. Escoltando o majestoso navio, plenamente equipado, estão muitos barcos, que dele recebem ordens. Mas o vento contrário e o mar agitado parecem favorecer os inimigos. No meio da imensa extensão marítima, elevam-se das ondas duas poderosas colunas, altíssimas, a pouca distância uma da outra.

No topo de uma delas, encontra-se a Imaculada Virgem Maria, aos pés da Qual está uma enorme placa com a inscrição: AUXILIUM CHRISTIANORUM (Auxílio dos cristãos); sobre a outra, que é muito mais alta, está uma grande Hóstia, debaixo da qual pende outra placa, com as palavras: SALUS CREDENTIUM (Salvação dos fiéis).

O almirante supremo do grande navio é o Santo Padre. Ele, observando a fúria dos inimigos e o mau estado em que se encontram os seus fiéis, convoca para uma reunião todos os capitães dos navios secundários, que são os Bispos, para decidirem juntos o que fazer. Todos os capitães vêm a bordo e inicia-se a reunião com o Papa. Mas, enfurecendo-se a tempestade, os capitães são mandados para os próprios navios, a fim de os governarem. Surgindo uma pequena bonança, o Santo Padre volta pela segunda vez a reunir os capitães. Mas a tempestade retorna assustadora. O Papa está ao leme e todos os seus esforços estão concentrados em levar o navio para o meio das duas colunas. A batalha aumenta cada vez mais de intensidade, mas os ataques dos inimigos são inúteis. Às vezes acontece que o navio-almirante, atingindo por tiros formidáveis, apresenta grandes brechas laterais mas, imediatamente, sai das duas colunas um sopro que fecha as fissuras e os buracos. Entretanto, milagrosamente, os canhões dos assaltantes rebentam, as espingardas e todos os outros tipos de armas partem-se, muitos navios destroem-se e afundam no mar. Então, os inimigos enfurecidos passam a lutar com armas brancas: com as mãos, com os punhos e com as blasfêmias.

De repente, o Santo Padre cai gravemente ferido. Imediatamente é socorrido, mas cai uma segunda vez e morre. Um grito de vitória e de júbilo ressoa entre os inimigos. Os capitães dos outros navios reúnem-se e elegem rapidamente o novo Papa. Os adversários começam a perder a coragem. O novo Papa, superando todos os obstáculos, guia com firmeza o navio para o meio das duas colunas. Com uma corrente que sai da proa, prende-o a uma âncora que pende da coluna encimada pela Hóstia, e com outra corrente prende a popa à âncora da coluna sobre a qual está a Imaculada. Nesse momento, inicia-se uma grande revolução: todos os navios inimigos fogem, dispersam-se, colidem uns com os outros e afundam-se. Entretanto, os barcos que combateram valorosamente com o Papa, vão prender-se também às duas colunas. No mar reina agora uma grande calma. São João Bosco, depois de ter relatado o “sonho”, fez o seguinte comentário: ‘Preparam-se gravíssimos tormento para a Igreja. O que aconteceu até agora não é nada em comparação com o que ainda deve acontecer. Só restam dois meios de salvação entre tanta confusão: a devoção à Virgem Santíssima e a Comunhão freqüente’.

Fonte: Pequeno Catecismo Eucarístico.2002. Ed. Brasileira preparada por Prof. Edson José Reis. pag.89-91.

Céu, inferno e purgatório.

(O Céu)

Adiantou-se Domingos Sávio só, alguns passos, e ficou tão próximo a mim que se eu tivesse estendido a mão certamente o teria tocado. Calava-se e me olhava sorrindo. Que belo estava! Suas vestes eram realmente singulares. Caía-lhe até os pés uma túnica alvíssima, coberta de diamantes e toda bordada de ouro. Cingia-lhe a cintura uma ampla faixa vermelha recamada com tantas pedras preciosas que uma quase tocava a outra; e se entrelaçavam em desenho tão maravilhoso, apresentando tanta beleza de cores, que eu, ao vê-lo, me sentia fora de mim pela admiração. Pendia-lhe no pescoço um colar de flores raras, mas não naturais; parecia como se as pétalas fossem de diamantes unidos entre si sobre hastes de ouro; e assim era tudo o mais. Essas flores refulgiam como luz sobre-humana mais viva que a do sol, que naquele instante brilhava com todo o esplendor de uma manhã de primavera. Elas refletiam seus raios sobre o rosto cândido e corado de modo indescritível, dando-lhe uma luz de modo tão singular que nem se distinguiam bem suas várias espécies. A cabeça, tinha-a cingida com uma coroa de rosas; os cabelos caíam-lhe sobre os ombros em ondulantes cachos, dando-lhe um ar tão pulcro, tão afetuoso, tão encantador, que parecia…parecia,… um Anjo! (p.18;20)

Também resplandeciam de luz todos os outros que o acompanhavam. Vestiam-se de modos diversos, mas sempre maravilhosos; uns mais, outros menos ricos; uns de uma, outros de outra forma; num, dominava determinava cor; noutra, dominava outra; e cada uma das vestes tinha um significado que ninguém saberia compreender. Mas todos tinham na cintura uma faixa vermelha… (p.20) Compreendi que a faixa encarnada, cor de sangue, era símbolo de grandes sacrifícios feitos, dos violentos esforços e do quase martírio sofrido para conservar a virtude da pureza; e que, para manter-se casto na presença do Senhor, ele estaria pronto a dar a vida se as circunstancias o houvessem requerido; e que também era símbolo das penitencias, que limpam a alma da culpa. A brancura e o esplendor da túnica significavam a inocência batismal conservada. (p.24)

Mas eu, atraído pelos cantos e contemplando todas aquelas falanges de jovens celestiais ordenados atrás de Domingos Sávio, lhe perguntei: E quem são estes que te rodeiam? E dirigindo-me aos demais, lhes disse: Como é que estais todos tão refulgentes? Sávio continuou calado e todos os jovens se puseram a cantar: ‘Estes são como Anjos de Deus no Céu’. Notava entretanto que Sávio parecia ter preeminência sobre aquela multidão, que a respeitosa distancia se encontrava, uns dez passos atrás dele; e então lhe disse: Diz-me, Sávio: sendo tu o mais jovem entre os muitos que te seguem e dos que morreram em nossas casas, porque vai tu adiante deles e os precedes? Porque és tu que falas e eles se calam? Domingos Sávio disse: ‘Eu sou o mais velho de todos….Eu sou o mais antigo do Oratório porque fui o primeiro a deixar o mundo e ir a outra vida. Além disso, cumpro mandado de Deus’. Essa resposta me indicava o motivo da visão. Ele era embaixador de Deus. (p.24-25)

Sávio me apresentou um magnífico ramalhete que tinha nas mãos. Nele havia rosas, violetas, girassóis, gencianas, lírios, sempre-vivas, e entre as flores, espigas de trigo. Dom Bosco perguntou: Mas, que significa esse ramalhete de flores? Domingos Sávio respondeu: Vês estas flores? Representam as virtudes que mais agradam ao Senhor. A rosa é símbolo da caridade; a violeta, da humildade; o girassol, da obediência; a genciana, da penitencia e da mortificação; as espigas, da comunhão freqüente; o lírio indica a bela virtude da castidade. E a sempre-viva significa que todas essas virtudes devem durar para sempre, ela simboliza a perseverança. (p.28)

Dom Bosco perguntou: Ora bem, meu caro Sávio: Tu, que durante toda a tua vida praticastes todas essas virtudes, diz-me: o que foi que mais te consolou na hora da morte? Domingos Sávio respondeu: O que mais me confortou foi à assistência da poderosa e amável Mãe do Salvador. (p.28-29)

Dom Bosco disse: ‘Estendi então com ardor as mãos para segurar aquele santo filho; mas suas mãos pareciam aéreas e nada pude tocar. ’
Que loucura! Que estás fazendo? – me disse Sávio sorrindo.

Dom Bosco disse: ‘ Temo que te vás, Mas não estás aqui com teu corpo?’
Com o corpo, não. Recuperá-lo-ei no último dia- me disse Domingos Sávio.

Dom Bosco perguntou: ‘Mas, que são, então esses traços que fazem ver em ti a figura de Domingos Sávio?’

Domingos Sávio respondeu: “Quando por permissão divina uma alma separada do corpo aparece diante de algum mortal, apresenta-se com a forma exterior do corpo que em vida animou, com todas as suas feições exteriores, embora muito embelezadas, e assim as conserva até que volte a unir-se a ele, no dia do Juízo Universal. Então o levará consigo para o Paraíso. É por isso que te parece que tenho mãos, pés e cabeça; mas tu não podes segurar-me porque sou puro espírito. Esta é só uma forma exterior pela qual me podes conhecer.” (p.30-31)

Domingos Sávio disse a Dom Bosco: Os filhos que a Divina Providencia te confiou podem ser divididos em três categorias. Vês estas três listas? Olha-as!

Dom Bosco disse: Olhei a primeira; encabeçava-a a palavra invulnerati [ilesos], e continha o nome daqueles aos quais o demônio não pôde ferir, e que não mancharam a inocência com culpa alguma. Eram em grande número esses sadios, e os vi todos. A muitos já conhecia, outros era a primeira vez que via, e certamente virão ao Oratório nos anos futuros. Caminhavam direitos por um caminho estreito, apesar de serem alvo de flechas, espadagadas e lançaços que por todos os lados choviam sobre eles. Essas armas formavam como que uma sebe ao longo das duas bordas do caminho, e os combatiam e molestavam sem entretanto feri-los.

Então Sávio e deu a segunda lista, cujo título era vulnerati [feridos], ou seja, os que haviam estado na desgraça de Deus mas, uma vez postos em pé, haviam curado suas feridas arrependendo-se e confessando-se. Eram em maior número que os primeiros, e haviam sido feridos no sendeiro da vida pelos inimigos que os flanqueavam durante sua viagem. Li a lista e vi todos. Muitos iam curvados e desanimados.

Sávio tinha ainda na mão a terceira lista. Encabeçava-a a epígrafe: Lassati in via iniquitatis [caídos na via da iniqüidade]. Nela estavam escritos os nomes dos que estavam na desgraça de Deus. Eu estava impaciente para conhecer o segredo, pelo que estendi a mão. (p.31-32)

Mas, Sávio me disse com vivacidade:

-Não, espera um momento e ouve. Se abrires essa folha, dela sairá um tal mau cheiro que nem tu nem eu poderemos suportar. Os anjos tem que se retirar com asco e horror, e o próprio Espírito Santo sente repugnância pela horrível hediondez do pecado.

-Quanto melhores e mais puras são as criaturas, tanto mais se acercam os espíritos celestiais; pelo contrário, quanto pior, mais desonesto e torpe é alguém, tanto mais se afasta de Deus e dos Anjos, os quais, por sua vez, se afastam dele, que se converteu num objeto de náusea e repugnância.

Dom Bosco disse: Abri então a lista; não vi nenhum nome, mas no mesmo instante me foram apresentados de chofre todos os indivíduos nela inscritos, como se na realidade eu visse suas pessoas. Com quanta tristeza os contemplei a todos! A maior parte eu conhecia e pertencem ao Oratório e aos outros colégios. Vi muitos que parecem bons, que parecem até os melhores dentre os companheiros, e sem embargo não o são!

Mas ao abrir a folha, espalhou-se em redor um mau cheiro tão insuportável, que imediatamente me vi assaltado por terrível dor de cabeça e por tais ânsias de vômito que me parecia estar morrendo. Obscureceu-se entretanto o ar, e nisso desapareceu a visão, nada mais eu vendo do maravilhoso espetáculo. Ao mesmo tempo ziguezagueou um raio e ressoou um trovão no espaço, tão forte e terrível que acordei sobressaltado. O mau odor penetrou nas paredes e infiltrou-se em minhas vestes de tal forma que, muitos dias depois, ainda me parecia sentir a pestilência. De tal modo é fétido ante os olhos de Deus o nome do pecador! Agora mesmo, só de recordar aquele mau odor me vêm calafrios, sinto-me sufocado e se me resolver o estômago. (p.33-34)

(O inferno)

De repente, sem saber como, aparece diante de mim uma estrada… E nos encaminhamos por aquela estrada. Era bonita, larga, espaçosa e bem pavimentada. (Eclesiástico 21,11) [O caminho dos pecadores é muito bem pavimentado, mas no final dele estão o inferno, as trevas e os castigos.]

Nos dois lados do caminho, havia duas belíssimas sebes, verdes e cobertas de flores encantadoras. As rosas, especialmente, brotavam por todas as partes entre as folhas. À primeira vista esse caminho parecia plano e cômodo; e sem suspeitar de nada, me pus a caminhar por ele. Mas, a medida que prosseguia, notei que ia imperceptivelmente declinando e, ainda que não parecesse muito rápida a descida, sem embargo disso eu corria uma tal velocidade que parecia estar sendo levado pelo vento. Mais ainda, dei-me conta de que avançava quase sem mover os pés, tão rápida era nossa carreira.Refletindo que retornar depois por uma estrada tão longa me custaria grande esforço e fadiga…

O caminho baixava sempre. Continuávamos nosso trajeto por entre flores e rosas, quando, pelo mesmo caminho, vi os meninos do Oratório, juntamente com muitíssimos outros companheiros que eu jamais vira antes, caminhando atrás de mim. E encontrei-me no meio deles. Enquanto os observava, de repente vejo que ora um, ora outro, caíam, e em seguida eram arrastados por uma força invisível rumo a uma horrível encosta que se entrevia à distância, a qual depois vi que ia dar numa fornalha.

Aproximei-me e vi que os meninos passavam entre muitos laços, alguns postos à altura do chão, outros à altura da cabeça; estes últimos não se viam. Dessa forma, muitos jovens, enquanto caminhavam sem dar-se conta do perigo, eram colhidos davam um salto, depois caíam no solo com as pernas para o ar e, levantando-se, se punham em desabalada corrida para o abismo. Um era agarrado pela cabeça, outro pelo pescoço, outro pelas mãos, por um braço, por uma perna, pela cintura, e imediatamente depois eram arrastados. Os laços estendidos pela terra, que mal se podiam ver, eram parecidos com estopa. Lembravam uns fios de aranha, e não pareciam muito nocivos. Sem embargo, vi que também os jovens colhidos por tais laços caíam quase todos por terra.

-É apenas o respeito humano.

Segurei então um dos laços, puxei-o para mim e notei que sua ponta não aparecia; puxei um pouco mais, mas não conseguia ver onde é que terminava aquele fio; pelo contrário, notei que também a mim ele me arrastava. Segui então o fio e cheguei à boca de uma espantosa caverna. Parei, porque não queria entrar naquela voragem; puxei para mim o fio e percebi que ele cedia um pouquinho. Mas era necessário fazer muita força. Depois de muito puxar, pouco a pouco foi saindo fora da caverna um feio e grande monstro que causava repugnância e segurava fortemente um cabo ao qual estavam atados todos os laços. Era ele que, mal caía alguém na rede, imediatamente o puxava para si.

- É inútil – pensei comigo – competir em força com este monstro medonho, porque não sou capaz de vencê-lo; o melhor é combatê-lo com o sinal da Santa Cruz e com jaculatórias.

- Sim! Já sei, é o demônio que estende esses laços para fazer meus jovens caírem no Inferno.

“Observei então com atenção os muitos laços e vi que cada um deles levava escrito seu próprio título: laço da soberba, da desobediência, da inveja, da impureza, do roubo, da gula, da preguiça, da ira, etc.” (p.44)

“Sem parar de observar, vi que muitos jovens, corriam mais precipitadamente que outros, e perguntei: – porque essa velocidade? Porque – foi-me respondido – são arrastados pelo laço do respeito humano.” (p.44)

Olhando ainda mais atentamente, vi que por entre os laços havia muitas facas espalhadas, ali colocadas por mão providencial, e serviam para cortá-los e rompê-los. A faca maior era contra o laço do orgulho e representava a meditação. Outra faca também grande, mas um pouco menor, significava a leitura espiritual bem feita. Havia também duas espadas. Uma delas indicava a devoção ao Santíssimo Sacramento, especialmente com a comunhão freqüente; a outra a devoção a Nossa Senhora. Havia também um martelo: a confissão. Havia outras facas, símbolo das várias devoções: a São José, a São Luís de Gonzaga etc etc. Com estas armas não poucos rompiam os laços quando eram presos, ou se defendiam para não serem atados.”(p.44)

Chegamos a um ponto em que, por mais que olhasse, já não encontrava rosa alguma, e no final as sebes se haviam se tornado só de espinhos, desfolhadas e secas pelo sol. Das moitas dispersas e ressecadas partiam galhos que serpenteavam pelo solo e impediam o caminho, semeando-o de tal maneira com espinhos que só com grande dificuldade se podia andar. Havíamos chegado a uma baixada cujas ribanceiras ocultavam as demais regiões vizinhas; o caminho, sempre em declive, se tornava cada vez mais horrível, sem pavimentação, cheio de buracos, degraus, pedras e rochas arredondadas. (p.45)

Levantei-me e continuamos descendo. O caminho se tornava cada vez mais espantoso e intransitável, de modo que mal podia manter-me em pé. Eis que no fundo desse precipício, que terminava num vale sombrio, apareceu um imenso edifício que exibia, diante de nosso caminho, uma porta altíssima, fechada. Chegamos ao fundo do precipício. Um calor sufocante me oprimia e uma densa fumaça esverdeada se elevava em torno das muralhas, marcadas por chamas cor de sangue. Levantei os olhos para ver a altura dos muros; eram mais altos que uma montanha. Olhei e vi escrito na porta: [onde não há redenção] Dei-me conta que estávamos na porta do inferno… De espaço a espaço, a distancia regular, via-se uma porta de bronze como a primeira, também no ponto final de uma espantosa vertente, e todas tinham uma inscrição latina distinta das anteriores. [Afastai-vos, malditos, ide para o fogo eterno que está preparado para o diabo e seus anjos... Toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo] (p.47)

Vi cair um pobrezinho empurrado por um pérfido companheiro. Uns caíram sós, outros acompanhados; uns seguros pelo braço e outros soltos, ainda que bastante juntos um dos outros. Todos levavam escrito na fronte o seu pecado. Eu os chamava com grande aflição, enquanto caíam. Mas os jovens não me ouviam; retumbavam as portas infernais ao abrir-se, fechavam-se depois, e seguia-se um silencio sepulcral. Eis uma das causas principais de tantas condenações – exclamou meu guia – maus livros, maus companheiros e hábitos perversos. (p.50).

Dom Bosco disse: Mas então é inútil trabalharmos em nossos colégios, se tantos são os rapazes aos quais aguarda esse fim. Não haverá nenhum outro remédio para impedir a perda de tantas almas?

Esse é o estado atual em que se encontram, e se morressem, para cá viriam sem mais. – disse o guia.

Dom Bosco disse: Nesse caso, deixa-me anotar seus nomes para que eu possa avisá-los e pô-los no caminho do Paraíso.

E crês que alguns deles, avisados, se corrigiriam? Num primeiro momento o aviso os impressionará; depois o desprezarão, dizendo: “ É um sonho!”, e ficarão piores do que antes. Outros, sabendo-se descobertos, freqüentarão os Sacramentos, mas sem boa vontade e sem mérito, porque não o farão bem. Outros se confessarão, mas só por temor momentâneo do inferno, sem arrancar de seu coração o afeto ao pecado. (p.51)

Todas as paredes em volta estavam cheias de inscrições: [Darei fogo as carnes para que se queimem eternamente], [ Serão atormentados dia e noite pelo século dos séculos], [Aqui o conjunto dos males pelos séculos do séculos] [Aqui não há ordem, mas habita o horror eterno], [Eternamente estará subindo o fumo de seus tormentos], [Não há paz para os ímpios], [Clamor e ranger de dentes]. (p.52)

Dei alguns passos para a janela, e vi que muitos daqueles miseráveis se golpeavam e feriam uns aos outros e se mordiam como cães raivosos; outros se arranhavam o rosto, se laceravam as mãos, despedaçavam as próprias carnes e as atiravam pelo ar com desprezo. De repente, o teto da caverna se tornou transparente, como de cristal, e através dele se via um pedaço do Céu e as radiantes figuras de seus companheiros para sempre salvos. Os condenados bramiam com feroz inveja, porque os justos haviam sido olhado por eles, em certo tempo, como objeto de irrisão…Aproximei-me do cristal da janela e ouvi que uns rugiam e choravam contorcendo-se; outros blasfemavam e imprecavam os santos. Aquilo tudo era um caos de vozes e gritos altos e confusos, pelo que perguntei ao meu amigo:

- Que dizem eles? Que estão gritando?

- Recordando a sorte de seus companheiros bons, vêem-se obrigados a confessar:

[Nós, insensatos, considerávamos uma loucura a vida que levavam, e seu fim sem honra]
[ Eis que foram contados do número dos filhos de Deus e sua sorte juntamente com a dos santos. Nós nos afastamos, pois, do caminho da verdade].
[Corremos pelo caminho da iniqüidade e da perdição. Perdemo-nos por caminhos difíceis e não conhecemos o caminho do Senhor]
[De que nos serviu nosso orgulho?]
[Tudo passou como uma sombra]

Dom Bosco disse: Enquanto contemplava, cheio de horror, o estado de muitos de meus jovens, assaltou-me imprevistamente uma idéia:

- Mas como é possível que os que se encontram aqui estejam todos condenados? Estes jovens estavam ontem à tarde vivos no Oratório.
O amigo me disse: Os que aqui vês vivem, mas estão mortos para a graça de Deus, e se morrerem agora ou continuassem procedendo como no presente, se condenariam. (p.58)

Ali se contemplava o espetáculo dos atrozes remorsos dos que foram educados em nossas casas. A recordação de todos e cada um dos pecados não perdoados e sua justa condenação! A de terem tido mil remédios até mesmo extraordinários para se converterem ao Senhor, para serem perseverantes no bem, para ganharem o Paraíso! A recordação de tantas graças prometidas, oferecidas e dadas por Maria Santíssima, e não correspondidas! Terem podido se salvar com tão pouco esforço e perderem-se irremissivelmente para sempre! Lembrarem de tantos bons propósitos bons feitos e não cumpridos! Ah! bem diz o provérbio que o inferno está cheio de boas intenções não realizadas!

Ali voltei a ver a todos os jovens do Oratório que havia visto pouco antes naquele forno…Aproximei-me e observei que todos estavam cheios de vermes e animais asquerosos que lhes roíam e consumiam o coração, os olhos, as mãos, as pernas, os braços, de maneira tão miserável que nem sei exprimir com palavras. Estavam imóveis, expostos a toda espécie de moléstias, e não podiam defender-se de modo algum. Aproximai-me ainda mais que me vissem, esperando poder falar-lhes para que dissessem algo, mas nenhum falava nem olhava. Perguntei então ao guia a causa disso, e me foi respondido que no outro mundo os condenados não tem liberdade.Cada um sofre ali todo o castigo que Deus lhe impôs, sem que possa haver mutação de espécie alguma. (p.59-60)

O guia me indicou um dos véus, sobre o qual estava escrito “Sexto Mandamento”, e exclamou: A transgressão desse Mandamento é a causa da ruína eterna de muitos jovens…Sim, confessaram-se, mas os pecados contra a bela virtude, confessaram-nos mal ou calaram-nos por completo. Por exemplo, um que havia cometido quatro ou cinco desses pecados, confessou dois ou três. Há quem tenha cometido um só na meninice e sempre teve vergonha de confessá-lo, ou o confessou mal, ou não disse tudo. Outros não tiveram arrependimento nem propósito. Mais ainda: alguns, em vez de examinar sua consciência, estudavam o modo de enganar o confessor. E o que morre com tal resolução está disposto a ser do número dos condenados, e assim será para toda a eternidade. Só os que, arrependidos de todo o coração, morrem com a esperança da eterna salvação, esses serão eternamente felizes. (p.61)

Estivemos então conversando cerca de meia hora sobre as condições necessárias para fazer uma boa confissão. Depois o guia repetiu várias vezes, erguendo a voz: Mudar de vida, mudar de vida!

E dirigindo-se a outra parte, levantou outro véu, sobre o qual estava escrito: [Os que querem ficar ricos, caem na tentação e no laço do demônio].

O guia disse a Dom Bosco: Por exemplo, alguns dos teus jovens têm o coração de tal maneira apegado a algum objeto material, que esse afeto os afasta do amor de Deus, e por isso faltam a caridade, a piedade e a mansidão. Não somente com o uso das riquezas se perverte o coração, mas também com o desejo delas, sobretudo se esse desejo ofende a justiça. Teus jovens são pobres, mas repara que a gula e o ócio são péssimos conselheiros. Há alguns que em seus lugares de origem se tornaram culpados de furtos significativos e, podendo, não pensam em restituir. Há quem estuda a maneira de abrir com chaves falsas a dispensa; quem procura entrar no escritório do prefeito ou do ecônomo da casa; quem vai remexer as malas dos companheiros para roubar-lhes comestíveis, dinheiro ou outros objetos; quem faz coleções de cadernos ou livros para seu uso…Alguns se encontram aqui por terem apropriado de objetos do vestuário, roupa branca, cobertores e colchas que pertenciam à rouparia do Oratório, para enviá-los a suas casas. Alguns, por terem causado voluntariamente danos graves e não os terem reparado. Outros, por não terem devolvido coisas que lhes haviam sido emprestadas; e alguns por terem retido somas de dinheiro que lhes haviam sido confiadas para que as entregassem ao superior. Já que tais pessoas te foram indicadas, avisa-as; diz-lhes que rejeitem todos os desejos inúteis e nocivos, que sejam obedientes à lei de Deus e zelosos de sua honra; se não forem assim, a cobiça os arrastará a excessos piores que os submergirão nas dores, na morte, na perdição. (p.63-64)

O guia disse: A desobediência é a raiz de todo o mal. Presta atenção: os jovens que tu vês aqui são os desobedientes, que vão preparando para si próprios tão lamentável fim. Esses tais e outros que tu crês que foram descansar, à noite descem a passear no pátio; não fazem caso das proibições, vão a lugares perigosos, trepando nos andaimes de obras em construção, pondo em risco até a própria vida. Alguns, apesar das prescrições do regulamento, na Igreja não estão como devem; em vez de rezarem, pensam em coisas completamente diversas, constroem na sua mente castelos no ar. Outros perturbam os companheiros. Há os que procuram posturas cômodas e dormem durante as sagradas funções. Outros, tu crês que vão à igreja e no entanto não vão. Ai do que descuida da oração! Quem não reza se condena! Alguns estão aqui porque, em vez de cantar os cânticos sagrados ou o ofício da Santíssima Virgem, lêem livros que tratam de tudo menos de religião, e alguns – o que é muito vergonhoso! Chegam a ler livros proibidos. (p.65)

(O Purgatório)

Relato da conversa de Dom Bosco com um Bispo que estava no purgatório:

Dom Bosco: Dizei-me se estais salvo, sim ou não.

Bispo: Sim, estou em lugar de salvação.

Dom Bosco: Mas, já estais no Paraíso, gozando do Senhor? ou no Purgatório?

Bispo: Estou em lugar de salvação, mas ainda não vi a Deus e necessito que rezem por mim. (p.76)

Dom Bosco: E quanto tempo ainda devereis estar no purgatório?

Bispo: Olhe aqui e leia! disse, apresentando-me uma folha de papel.

Dom Bosco: Nada vejo!

Bispo: Veja bem o que nele esta escrito e leia!

Dom Bosco: Já olhei com atenção e estou olhando novamente, mas nada posso ler porque nada há escrito aqui.

Bispo: Veja com mais atenção!

Dom Bosco: Vejo um papel com floreados vermelhos, azuis, verdes, cor de violeta, mas não encontro letra alguma.

Bispo: São algarismos.

Dom Bosco: Não vejo letras nem números.

Bispo: Já sei porque o Sr. Não vê nada; vire o papel ao contrário.

Dom Bosco: Examinei a folha com maior atenção, virei-a de todos os lados; mas nem de um lado nem do outro lado nada conseguia ler. Somente me pareceu ver, entre uma infinidade de traços e desenhos o número 2.

Bispo: O Sr. Dom Bosco, sabe por que é necessário ler ao contrário? É porque os juízos do Senhor são completamente distintos dos do mundo. O que os homens julgam sabedoria é tolice aos olhos de Deus. (p.76-77)

Dom Bosco: Eu me achava nervoso, na impaciência de fazer mais perguntas, e as fazia apressadamente, com o temor que o Senhor Bispo se retirasse… Dizei-me algo para transmitir de vossa parte aos meus meninos.

Bispo: Direi, já que quer. Diga-lhes que têm diante dos olhos uma neblina, e que quando alguém chega a vê-la já está muito adiantada. Que afastem essa neblina, como se lê nos Salmos.

Dom Bosco: Que neblina é essa?

Bispo: São todas as coisas mundanas, que impedem de ver as coisas celestiais como de fato são.

Dom Bosco: E que devem fazer para afastar essa neblina?

Bispo: Considerem o mundo exatamente como ele é: [ O mundo está todo posto no maligno]; e então salvarão a alma. Que não se deixem enganar pelas aparências do mundo. Os jovens crêem que os prazeres, as alegrias, as amizades do mundo, podem fazê-los felizes e, portanto, não esperam senão o momento de poder gozar desses prazeres. Mas recordem-se de que tudo é vaidade e aflição de espírito, e tomem o hábito de ver as coisas do mundo não como elas parecem, mas como realmente são.
Dom Bosco: E essa neblina, como é principalmente produzida?

Bispo: Assim como a virtude que mais brilha no paraíso é a pureza, assim a obscuridade e a neblina são produzidas principalmente pelo pecado de imodéstia e impureza. É como uma negra nuvem densíssima que tolda a visão e impede os jovens de verem o precipício rumo ao qual caminham. Diga-lhes, portanto, que conservem zelosamente a virtude da pureza, porque os que a possuem [florescerão como lírio na cidade de Deus]

Dom Bosco: E o que se requer para conservar a pureza? Dizei-me, e o direi aos meus caros jovens de vossa parte.

Bispo: Recolhimento, obediência, fuga do ócio e oração. (p.78-80)

Dom Bosco: Teria querido perguntar-lhe muitas coisas mais, porém não me vinham à lembrança. Assim é que, mal o Bispo terminou de falar, impaciente para vos transmitir aqueles avisos deixei apressadamente o salão e corri para o Oratório. Voava com a rapidez do vento, e num instante encontrei-me na porta de casa. Mas ao chegar, parei e pensei: “Porque não permaneci mais tempo com o Senhor Bispo..? teria conseguido ainda melhores esclarecimentos. Fiz mal em deixar escapar uma ocasião tão boa. Teria aprendido muitas coisas interessantes.” E imediatamente voltei atrás com a mesma rapidez com que tinha vindo, temeroso de não mais encontrar o Senhor Bispo. Entrei novamente no palácio e no salão. Mas que mudança se havia operado em poucos instantes! O Bispo, pálido como cera, estava estendido sobre um leito e parecia um cadáver; em seus olhos brilhavam ainda suas ultimas lagrimas; estava em agonia. Só pelo ligeiro movimento do peito, produzido pelos últimos alentos, se deduzia que ainda estava vivo. Aproximei-me com grande preocupação e perguntei: “Senhor Bispo, que vos aconteceu?

Bispo: Deixe-me! – respondeu com um gemido.

Dom Bosco: Teria ainda muitas coisas que vos perguntar.

Bispo: Deixe-me só! Sofro imensamente.

Dom Bosco: Que posso fazer de vós?

Bispo: Reze e deixe-me ir embora!

Dom Bosco: Para onde?

Bispo: Para onde conduz a mão onipotente de Deus.

Dom Bosco: Mas, Senhor Bispo, rogo-vos que me digais o local.

Bispo: Sofro imensamente, deixe-me.

Dom Bosco: Mas ao menos dizei-me: que posso fazer por vós?

Bispo: Reze por mim. (p.80-81)

Fonte: Sonhos de São João Bosco – Céu, inferno e purgatório.Ed.Art press. 2005.

Frases de Dom Bosco

“Fazei logo boas obras, porque poderia faltar-vos o tempo”.

“Quem demora em dar-se a Deus corre grande perigo de perder-se”.

“Meus caros filhos, conservai o tempo e o tempo vos conservará a vós para sempre”.

“Quem semeia boas obras, recolhe bom fruto”.

“No fim da vida, se recolhe o fruto das boas obras”.

“Daí muito aos pobres se quiserdes ficar ricos”.

“Quem faz o bem durante a vida, achará o bem na hora da morte”.

“Deus nos abençoe e Maria Santíssima seja a nossa guia em todos os perigos da vida”.

“Quem protege os pobres será largamente recompensado por Deus no Divino Tribunal”.

(Terésio Bosco. Dom Bosco: uma biografia nova. 6ª ed.. Ed. Salesiana. 2008. p.545-546)

Quando foi que começamos uma obra com todo o dinheiro na mão? Precisamos deixar alguma coisa também para a Divina Providencia fazer. (p.383)

Fique tranqüilo. Nossa Senhora mesma pensará em fazer aparecer o dinheiro necessário. (p.384)

-Evite mortificações no alimento. Não menos que seis horas de repouso por noite. (p.393)

-Procure antes fazer-se amar que temer. Mandando e corrigindo, dê sempre a perceber que deseja o bem, nunca o seu capricho. Suporte tudo quando se trata de impedir o pecado. (p.393-394)

-Em coisas importantes, não delibere nada imediatamente. (p.394)

-Antes de julgar, trate de entender bem quanto lhe foi relatado a respeito de alguém. (p.394)

-Em questões materiais, tolere tudo o que for possível, mesmo com algum prejuízo, contanto que se salve a caridade. (p.394)

-Faça-se conhecido dos alunos e procure conhecê-los, passando com eles todo o tempo disponível. (p.395)

-O estudo, o tempo, a experiência fizeram-me ver que a gula, o interesse, a vanglória foram a ruína de florescentíssimas Congregações e de respeitáveis Ordens religiosas. Os anos far-lhe-ão compreender verdades que ora lhe pareceriam inacreditáveis. (p.395)

O Sistema Preventivo:

O jovem Buzzetti relata a Dom Bosco: “Que os jovens não só sejam amados, mas saibam, vejam que são amados”. (p.325)

… – Que, sentindo-se amados naquelas coisas que lhes agradam, aprendam, como participar dos seus gostos infantis, a ver o amor também nas coisas que, naturalmente, pouco lhes agradam como a disciplina, o estudo, a mortificação de si mesmos. (p.325-326)

-Por isso, se quiser formar um só coração e uma só alma, é preciso que por amor de Jesus se rompa a barreira da desconfiança e seja ela substituída por uma confiança cordial. (p.326)

-Sem familiaridade não se demonstra afeto, e sem essa demonstração não pode haver confiança. Quem quer ser amado deve mostrar que ama. Jesus Cristo se fez pequeno com os pequenos, e carregou as nossas enfermidades.  Eis aí o mestre da familiaridade. (p.326-327)

Dom Bosco explica o “sistema preventivo” como ele o entende, como sempre o aplicou no oratório:

“Esse sistema se apóia todo inteiro na razão, na religião e na bondade. Exclui todo castigo violento, e procura evitar até as punições leves…O aluno, previamente avisado, não fica abatido, torna-se amigo, vê no assistente um benfeitor que quer fazê-lo bom, livrá-lo de dissabores, castigos e desonra. (p.322)

Quanto possível, os assistentes sejam os primeiros em achar-se no lugar onde se devem reunir os alunos; nunca os deixem desocupados. (p.323)

Acha que Deus criou o Céu para deixá-lo vazio? É claro que, para subir até lá, precisa fazer um pouco de sacrifício. Mas eu desejo que todos nos reencontremos lá em cima. Vai ser uma festança! (p.159)

…uma frase que Dom Bosco sempre repetia aos seus quando os via cansados: “Descansaremos no Céu”. (p.302)

Propósitos de Dom Bosco para o Sacerdócio:

- Ocupar rigorosamente o tempo.

-Sofrer, trabalhar humilhar-se em tudo e sempre, quando se trata de salvar as almas.

-A caridade e a doçura de São Francisco de Sales guiar-me-ão em todas as coisas. (p.128)

O padre não vai para o Céu sozinho. Nem para o inferno. Se proceder bem, irá para o Céu com as almas que salvou com seu bom exemplo. Se for infiel, se der escândalo, irá à perdição com as almas condenadas por seu escândalo. (p.127)

E não sabe que o descanso do padre é no Céu? E que prestaremos contas rigorosíssimas a Deus pelo tempo perdido? (p.457)

“Minha mãe me ensinou que quando se reza, de dois grãos nascem quatro espigas. Se, ao invés, não se reza, de quatro grãos nascem só duas espigas.” (p.56)

Propósitos de Dom Bosco antes de entrar no seminário

1.Não irei a bailes, teatros, espetáculos públicos.

2.Não farei mais de prestidigitador, de saltimbanco; nem irei a caça.

3.Serei sóbrio no comer, no beber, no repouso.

4.Lerei coisas de religião.

5.Combaterei pensamentos, conversas, palavras, leituras, contrários à castidade.

6.Farei cada dia um pouco de meditação e de leitura espiritual.

7.Contarei todos os dias fatos e pensamentos que façam bem.

“Diante de uma imagem de Nossa Senhora, fiz promessa formal de observar, à custa de qualquer sacrifício.” (p.108)

“Fazei logo boas obras, porque poderia faltar-vos o tempo”.

“Quem demora em dar-se a Deus corre grande perigo de perder-se”.

“Meus caros filhos, conservai o tempo e o tempo vos conservará a vós para sempre”.

“Quem semeia boas obras, recolhe bom fruto”.

“No fim da vida, se recolhe o fruto das boas obras”.

“Daí muito aos pobres se quiserdes ficar ricos”.

“Quem faz o bem durante a vida, achará o bem na hora da morte”.

“Deus nos abençoe e Maria Santíssima seja a nossa guia em todos os perigos da vida”.

“Quem protege os pobres será largamente recompensado por Deus no divino Tribunal”. (p.545-546)

“Me convidem para qualquer coisa em que o padre possa exercer a caridade e me verão pronto a sacrificar vida e haveres. Mas eu quero ficar, agora e sempre, fora da política.”(p.224)

“Percebi que, se eu quisesse fazer algum bem, devia deixar de lado toda política”. (p.246-247)

Fonte: Dom Bosco: Uma biografia nova. Autor: Terésio Bosco. Ed.Salesiana.

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